segunda-feira, 15 de abril de 2019

Hoje, Notre Dame queimou e jamais voltará a ser como era.


Por volta de duas e meia vi no Twitter que a Notre Dame de Paris, a mais famosa de todas as catedrais góticas, estava em chamas.  Não me massacrou tanto quanto o incêndio do Museu Nacional, não cabe mentir, ou exagerar, quando o museu da Quinta da Boa Vista estava queimando, eu chorei.  A Notre Dame me fez ficar de coração doído pelo que se perdeu e que nunca mais poderá ser visto.  Eu nunca visitei a grande catedral, se um dia o fizer, não mais será a mesma.  Havia esculturas, relíquias, toda a grandeza do melhor da arquitetura medieval, os altares entalhados, muita coisa de madeira, os espetaculares vitrais.  Tudo, ou quase tudo, foi perdido.  Podem reconstruir a Notre Dame, mas será outra, uma nova, não a medieval.

A catedral queimou rápido, apesar do esforço dos bombeiros.
Conheci a Notre Dame através da literatura e do cinema, do Corcunda de Victor Hugo.  Mais tarde, assisti ao desenho da Disney e fiquei deslumbrada com a forma como sua grandiosidade foi reproduzida, especialmente os vitrais. E, claro, na faculdade, li muito sobre o período, sou medievalista, afinal, e meu século de estudos era o século XIII, a gente tinha que passar pelo século XII, o do boom das catedrais góticas, para chegar lá.  Há um capítulo, se não me engano em A Europa na Idade Média de Georges Duby, chamado Deus é Luz, não vou procurar na estante, no qual a beleza das catedrais góticas que criavam essa sensação de grandeza da divindade e, ao mesmo tempo, de acolhimento com seus interiores iluminados por cascatas multicoloridas, que envolviam o fiel.  

Esse foi um dos vitrais perdidos.
Em God Save the Outcasts do Corcunda da Disney, essa beleza foi capturada.  Esses mesmos vitrais, não todos, foram danificadas durante a Revolução Francesa e, segundo Régine Pernoud, outra medievalista, outra leitura antiga, nunca puderam ser restaurados como eram, porque as técnicas medievais tinham sido a muito esquecidas.  Infelizmente, o mesmo  ocorrerá.  A Notre Dame será reconstruída, mas, como já escrevi, será outra.  Quem lê Os Pilares da Terra, o romance, tem como imaginar o que era o trabalho minucioso de construir uma catedral.  Poderiam ser décadas de construção com vários profissionais envolvidos, homens e mulheres, para transmitir em um prédio monumental a grandeza da fé de uma cidade, ou nação.  A Notre Dame, graças e muito ao Corcunda de Victor Hugo, tornou-se um dos símbolos de Paris e da própria França.

Essa foto aérea me lembrou o Museu Nacional.
Enfim, espero mesmo que o incêndio tenha sido fruto de um acidente.  A catedral estava passando por reformas e os andaimes eram visíveis.  Imaginar um atentado, um ato deliberado de destruição de patrimônio da humanidade, uma catedral de 800 anos de histórias, como aventou Reinaldo Azevedo, é muito doído.  Sei que a humanidade vem dando várias evidências de que sempre pode se mostrar pior, mas ainda queria ter esperanças, alguma, pelo menos.

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1 pessoas comentaram:

Sempre sonhei em ouvir Leonin e Perotin nessa Catedral mas infelizmente não vai ser mais a mesma coisa. Uma tristeza.

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