terça-feira, 11 de junho de 2019

Princesa se torna Príncipe em um conto de fada bem curioso


Tenho um livro de contos de fadas clássicos, sim, clássicos mesmo, a ponto de ter a versão em que a Chapeuzinho Vermelho morre no final da história, sem caçador para resgatá-la.  Comprei para a Júlia, mas eu é que gosto mais dele. Alguns contos têm um vocabulário bem empolado, tenho que explicar, substituir e tudo mais. São 52 contos de todo o mundo, há os de sempre e uns muito diferentes, como ela gosta de repetição, não li nem metade das histórias ainda. OK, ontem li O Príncipe Dragão, conto romeno, é daqueles que eu nunca tinha ouvido falar.

Um imperador do mal exigia que reis e príncipes vizinhos lhe enviassem seus filhos como reféns por dez anos. Um rei tinha somente 3 filhas e lamentava e temia pelo seu futuro, por não ter um filho homem para pagar o tributo. Ele não renega as filhas, mas sabe que elas não tem o mesmo tipo de valor que um filho homem teria.  As moças decidem mostrar sua capacidade como cavaleiros para honrar o pai, que tendo poderes mágicos (*um feiticeiro poderoso com medo de um imperador de meia tigela...*), coloca obstáculos no caminho das moças para aterrorizá-las e fazer com que se conformem ao seu lugar.  Com as duas mais velhas, a estratégia funciona, a mais nova, porém, prova seu valor e é enviada à corte do imperador do mal disfarçada de homem. 

Oscar é um filho substituto.
No caminho, ela encontra uma mecha de cabelos louros e o cavalo, que é mágico e foi presente do pai, lhe diz para guardá-la.  Ela coloca os cabelos em um relicário e passa a carregá-lo no pescoço.  Chegando na corte do imperador malvado, a garota acaba se tornando o cavaleiro favorito do vilão. Várias provas são colocadas diante dela e a princesa-cavaleiro vence todas. Um dia, o tal imperador  vê o cabelo no relicário e pergunta de quem é, a garota repete o que o cavalo lhe dissera, era uma mecha de cabelo da princesa mais bela do mundo.  O imperador manda que ela lhe traga a tal moça. A princesa-cavaleiro resgata a mais bela do mundo que estava nas mãos de uma terrível ogra (*interessante ser um monstro feminino*) e a traz para o imperador.

A princesa mais bela do mundo se recusa a casar com o imperador se ele não cumprir uma prova, tinha que trazer uma água do Rio Jordão dentro de um frasco mágico. Ele manda a princesa-cavaleiro, claro!  O guardião do frasco roga uma praga na heroína: se fosse mulher viraria homem, se fosse homem, viraria mulher. Resultado, adivinha quem casa com a princesa?

 Mehran Rafaat está sendo criada como um menino.
Fiquei surpresa. É um conto misógino, claro, está evidente desde o princípio que as mulheres são inferiores e que nunca terão a mesma importância que um homem, aliás, para ser reconhecida, a princesinha precisa se transformar em um deles, mas não esperava esse desfecho. Talvez, seja uma influência da tradição da virgina, que famílias sem filhos homens poderiam escolher uma filha para ser o homem da família. Há um filme da antiga Iugoslávia, o  último a sair do país ainda unido para o mundo, que trata dessa prática, ele se chama Virgina (Virdzina).  De repente, é desse caldeirão que emergiu essa história.  Há costume semelhante no Afeganistão e deve haver em outros países onde nascer mulher é uma desgraça e para uma família só ter filhas é uma maldição.

De resto, histórias em que mulheres viram homens, ou adquirem características masculinas, tornando-se melhores, mais puras, não são incomuns na tradição ocidental.  Há várias santas com histórias assim.  Ao recusarem o casamento, afinal, fizeram voto de castidade, desenvolvem características masculinas, como a barba.  Algumas, entram para mosteiros junto com o pai, ou o irmão, e vivem toda a sua existência como homens, seu segredo sendo descoberto depois da morte.  Nenhum desses casos empodera as mulheres, só reforça que para serem aceitas, para ocuparem o lugar que desejam, elas precisam ser homens, nestes casos elas efetivamente conseguem.  Agora, em conto de fadas, ainda não tinha visto esse esquema.

O livro.
Enfim, Júlia nem chegou ao final, ela estava com sono e dormiu antes, mas seria um conto de fadas que Damares gostaria de banir, com certeza.  Para quem quiser o livro, ela se chama Volta ao Mundo em 52 Histórias e é bem interessante.

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1 pessoas comentaram:

Cara essa história me de fez lembrar da minha infância. Sofri abusos de um familiar, mas meus pais se reviraram a cuidar do meu trauma ou me levar a um psicólogo. Eu cresci odeiando ser mulher. Tinha medo e vergonha de olhar para meu corpo. Eu queria ser um garoto porque gostava de "coisas de garoto" como mangás e quadrinhos. Só depois da sétima /oitava série que comecei a me aceitar e no ensino médio, o feminismo se mostrou meio q libertador, parei de odiar a minha condição de mulher e a percebi que o mundo é que estava errado.

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