quarta-feira, 23 de outubro de 2019

Algumas reflexões sobre as Escolas Cívico-Militares e dos motivos pelos quais elas não devem ser chamadas de Escolas Militares

Faz tempo que queria escrever sobre isso, porque a forma como a discussão está sendo encaminhada me incomoda.  Muita coisa tem sido escrita e dita sobre as escolas cívico-militares e, como professora de um colégio militar, me sinto até furiosa e, bem, trata-se de um post político, então, se você não gosta desse tipo de material no Shoujo Café, basta pular, OK?

A imagem que usei para abrir o post é de uma pesquisa da página do Estadão.  Ela certamente revela a forma como a maioria da sociedade brasileira está encarando as escolas cívico-militares, só que com base em dados equivocados, ou passados de forma enviesada propositalmente.   Nosso modelo educacional atual é visto como falho, houve a universalização, mas a qualidade é deficiente em muitos aspectos e as escolas de periferia são as que mais sofrem, inclusive com a violência e outros aspectos daninhos, como as drogas, que se fazem presentes no ambiente escolar.  Por isso mesmo, a proposta do atual presidente é que o novo modelo seja em áreas de vulnerabilidade social e com baixos Índices de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), indicador que mede a qualidade das escolas públicas.

As escolas cívico-militares são, portanto, pensadas para crianças e adolescentes pobres que são pensados por muitos, não como vítimas da violência, mas como futuros (*ou já atuais*) criminosos.  Se trata, em certo sentido, de uma tentativa de evitar que esses jovens se percam.  Qual o remédio?  Disciplina militar.  E tome imagens de meninos e meninas uniformizados perfilados, usando coques, ou com cabelos cortados, fazendo ordem unida, ou gritando palavras de ordem.  Para muita gente, isso é muito bonito.  Já os dados utilizados para justificar a militarização são tirados não das próprias instituições militarizadas e há muitas, especialmente, em Goiás, estado piloto desse projeto que é obra, preciso sempre lembrar isso, das gestões do PSDB, mas dos Colégios Militares do Exército.  E eu sou professora de um desses colégios.

As instituições do Sistema Colégio Militar do Brasil são escolas públicas de elite, não porque os alunos tenham todos alta renda, mas porque a entrada não é franqueada para todos.  Há os concursos, e no Colégio de Brasília, o maior da rede com quase 3 mil alunos, os concursados são mais ou menos 20% do efetivo, e os alunos e alunas que entram por serem dependentes de militares que se enquadram em determinadas regras.  Nas suas origens, o primeiro Colégio Militar foi criado para amparar os órfãos da Guerra do Paraguai, mais tarde, a Fundação Osório foi criada para acolher as meninas, já que os CMs só passaram a aceitar garotas em 1989.  


Dados da página do Senado.
Normalmente, uma primeira informação equivocada que é disseminada sobre nossos colégios é que todos os nossos alunos são concursados.  Não são.  A outra é que são ricos.  Outro engano, a maioria dos alunos e alunas são filhos de praças e de tenentes, às vezes, órfãos.  A diversidade sócio-econômica e étnica dos nossos colégios é imensa e desafio qualquer um a me apresentar um colégio no qual exista uma composição tal que um filho de general possa dividir o banco com um filho de cabo, ou sargento.  Qualquer escola do mesmo padrão seria praticamente homogênea, seja social, ou racialmente.  

Mas eis que os CMs, que tem seus dados educacionais usados para justificar as escolas cívico militares, não são escolas voltadas exclusivamente para o "disciplinamento" de meninos e meninas pobres para que não se tornem um problema social.  São escolas voltadas para a formação das elites dirigentes do país.  O filho do sargento que cursa um colégio militar estará preparado para tentar qualquer vestibular, seja para as universidades públicas, particulares, ou escolas militares.  Eu já convenci um ou outro aluno pobre que queria sair do colégio da importância de estar ocupando aquele espaço, especialmente, alguém que, em condições normais, talvez estivesse tendo uma educação deficiente, seja em escola pública, ou particular de periferia.  Normalmente, os que ficam, apesar do esforço, como acordar 4h30 da manhã para chegar antes das 7 no colégio, não se arrependem.  E eu sei o que é isso, porque passei por algo semelhante, não em um colégio militar, claro.  Poucas coisas me aborrecem tanto do que ver um aluno, ou aluna, que não consegue compreender o privilégio que é ocupar uma vaga em um colégio militar e o peso que seu diploma terá, especialmente, simbólico.

Enfim, quando o cidadão brasileiro médio pensa em modelo cívico-militar está imaginando os colégios militares do Exército.  São nossos alunos e alunas os que normalmente aparecem nos palanques ao lado das autoridades, assim como nas propagandas.  Só que além dos uniformes e da ordem unida, meus alunos e alunas têm orquestra, banda, coral, corpo de baile, simulações da ONU (*com viagens bancadas com dinheiro público, na maioria das vezes*), participação em todas as olimpíadas de conhecimento (*este ano vetaram a de História, mas vocês podem imaginar o motivo*), aulas de teatro e artes, e toda sorte de esportes, inclusive os mais elitistas.  Ontem mesmo, havia um cartaz no corredor do Primeiro Ano: "Venha fazer esgrima no CMB.".  Os melhores alunos dos nossos 13 colégios nas simulações locais da ONU vão para Harvard todo ano para evento semelhante com alunos do mundo inteiro.  Tudo com dinheiro público.  Será que os meninos e meninas das escolas cívico-militares terão acesso a esse repertório de atividades, ou terão somente a repressão? 


Dados da página do Senado.
O que as crianças pobres da periferia têm, ou terão, nas escolas cívico militares?  Revistas nuas para saber se carregam drogas?  Sim, isso aconteceu em uma escola na cidade de Goiás (*antiga capital*) por esses dias, algo absolutamente contra o ECA.  Meninos e meninas tratados da forma humilhante como são tratados os presos e as pessoas que visitam parentes no sistema prisional.  Será que orientaram os PMs, porque são policiais militares que atuam e atuarão nesse modelo, a agirem dessa forma com os alunos, ou, simplesmente, não lhes deram orientação alguma?

Me dói quando escrevem "escola militar" como se nas nossas escolas MILITARES tais abusos pudessem ser cometidos. Primeiro, nossos monitores - sargentos, suboficiais e subtenentes das diferentes forças, no caso de Brasilia - são muito bem orientados para evitar abusos, seguirem os regulamentos, ou, pelo menos, não se meterem em encrenca.  Fora isso, você pode revistar e humilhar o filho ou filha do pedreiro, da diarista, até do sargento, mas será que vai se arriscar a fazer isso com o neto, ou filho, de um general?  Com o filho, ou a filha, de um coronel?  Com o aluno, ou aluna, concursado filhos de civis que ocupam cargos importantes no serviço público, ou de advogados, médicos, ou algo semelhante?

A presença de filhos das elites econômicas e intelectuais entre nossos alunos opera a favor dos meninos e meninas pobres que estão em nossas escolas, tenham certeza.  Afinal, estamos no país do "Você sabe com quem está falando?", mas é, também, o que é esperado de um sistema educacional com mais de um século de existência e que busca estar mais ou menos antenado com as novas propostas educacionais, ainda que o grande público não saiba disso.  

Agora, opera mais ainda a favor dos nossos alunos e alunas terem todas essas atividades que descrevi e que oferecem uma formação integral que colégio particular cobraria os olhos da cara, isso se oferecesse metade desse cardápio.  Daí, fiquei muito perplexa (*não, fiquei, não*) com o vídeo do Saia da Matrix falando que nos nossos colégios formamos nossos alunos para uma educação cartorial e para a submissão, talvez, essa seja a proposta da educação cívico-militar, mas não a nossa.  Aliás, qualquer um que conheça as Olimpíadas de História da UniCamp sabe que nenhum aluno formado na decoreba chega às finais e todos os anos equipes de nossos colégios estão nas finais.  Menos em 2019 e não sei o que virá.


Dados da página do Senado.
Opera a favor dos nossos alunos terem professores civis e militares bem pagos, também.  Não folgados, como o vídeo do Saia da Matrix colocou, porque eu com minhas sete turmas não estou folgada coisa alguma, mas esse nem é o ponto.  Nós, civis, somos professores EBTT  (Ensino Básico, Técnico e Tecnológico), ligados ao MEC (*quem paga meu salário*), temos a mesma carreira dos professores das universidades federais e dos institutos, isto é, somos bem remunerados para os padrões brasileiros, diferente dos professores que irão lecionar nas escolas cívico-militares.  Esses, inclusive, relatam situações absurdas como serem intimidados com armas por militares trabalhando na instituição.  

Nos nossos colégios, mesmo os professores militares temporários tem mestrado pelo menos, na maioria das vezes, e, nós, civis, não raro temos o doutorado.  Não estou dizendo com isso que não tenhamos bons e maus professores, mas que a maioria é bem formada e bem remunerada.   Já escola cívico-militar é gambiarra para ser usada como propaganda política e será cabide de emprego para militares das forças auxiliares, alguns bem intencionados, esforçados, gente que, inclusive, buscou se qualificar de alguma forma, mas muitos sem formação necessária.   Talvez, a ideia em alguns lugares seja colocar militares que não podem estar na rua nessas escolas, o resultado pode ser terrível.  

Deveriam investir em psicólogos, orientadores educacionais, em oferecer uma carreira decente para o magistério municipal e estadual, em construir complexos culturais e esportivos que pudessem ser usados pelos alunos das escolas públicas e, sim, em colocar a polícia por perto e sendo aliada dos profissionais de educação.  Mas não será assim, infelizmente.  Aliás, todo esse projeto deve esbarrar na PEC do Teto de Gastos, outra ideia infeliz, mas que foi vendida como salvação para o Brasil no governo passado.

No fim das contas, essas escolas serão usadas para disciplinar as infâncias e adolescências pobres, marcando-as com a suspeita de serem criminosos desde a mais tenra idade, como aconteceu em Goiás.  Incutindo neles e nelas um sentido de disciplina e patriotismo distorcido ideologicamente e ajustado para formar gente disposta a obedecer.  Já os nossos alunos dos Colégios do Exército são disciplinados e educados para comandar, ou, pelo menos, almejar o comando.


Há setores da sociedade organizados e pedindo a militarização.
Agora, não se deve negligenciar um fator psicológico.  A farda, o uniforme, iguala todos.  Para as famílias, para quem os vê na rua, todos os alunos e alunas dos colégios militares são exemplares.  Todos são concursados, quando somente a minoria é.  Todos são excelentes alunos e disciplinados.  Meus alunos de aproveitam dessa aura, alguns, inclusive, só o fazem posteriormente, quando posam orgulhosos diante dos portões do colégio de onde, por muito pouco, não foram excluídos por motivos disciplinares.  

Essa aura, essa santificação pela farda, que faz tão bem para a autoestima, será dividida, também, com os alunos das escolas militarizadas das periferias.  A respeitabilidade social pode ser um impulso para seguir adiante, o que, claro, não justifica de forma nenhuma o discurso de que a escola militarizada é o melhor caminho.  Há outros, inclusive, investir em uma escola pública de qualidade para todos, não somente para alguns.

Enfim, espero estar errada em muito do que escrevi nesse texto, mas o que eu quero que fique desse texto é o seguinte, escola militarizada não é escola militar, é outra coisa.  Será barata (*se comparada com os colégios do Exército*), mal aparelhada e valorizará coisas que não tornam a educação melhor (*vide os resultados das escolas técnicas federais e do Pedro II*), e um veículo de propaganda.  Torçam para eu estar errada, mas eu acredito que não estarei.

P.S.: Como tem a ver com meu texto a notícia, decidi colocar uma atualização.  Ontem, no dia que escrevi o texto, assisti uma notícia dizendo que cerca de 400 alunos da primeira escola militarizada do DF, o CED 1 da Cidade Estrutural, e pulverizadas em escolas de outro bairro, o Guará.  Os pais, gente muito pobre, porque é uma das regiões mais carentes de Brasília, comemorando a melhora no desempenho dos filhos (*veja os frutos do trabalho*) e foram simplesmente comunicados.  Vejam o vídeo.  Motivo?  Precisam receber novos alunos do Fundamental 1 (*nem sabia que o projeto abarcaria crianças menores*) e os maiores, normalmente os mais vulneráveis aos crime, precisam ir embora.  Aliás, esta é a marca de projetos assim, a consulta à comunidade escolar é sempre limitada, ou pro forma.  E, dado o perfil do nosso governador atual, a diretora, que deu entrevista lamentando, terminará sendo punida. Os pais, desolados, esperavam que suas crianças seguissem até o Ensino Médio.  O projeto de Brasília foi promessa do nosso atual governador, não é o do governo federal, porém, é o mesmo modelo.  

Em Brasília, algumas escolas tiveram consulta popular
Como houve recusa, o governador queria impor a militarização.
O Governador tentou militarizar à força uma escola pública tradicional do centro de Brasília e com bom rendimento acadêmico, até então, tinham sido somente escolas de periferia.  Como houve votação (*veja que a coisa é somente para fingir democracia*) e a proposta perdeu não somente no Gisno, porque, bem, houve vários escândalos em escolas militarizadas do DF (*EXEMPLO*), ele queria fazer à força, chegou a demitir o secretário de educação que criticou a medida do Governador.  Depois, percebendo o estrago e os processos que viriam, o Governador recuou, mas foi repreendido pelo presidente da República.  Ele recuou na escola tradicional do centro, mas impôs nas de periferia que recusaram, porque, bem, gente pobre não pode ter escolha.  Vejam bem o nível das coisas, se é um projeto, se exige continuidade, como podem simplesmente transferir as crianças frustrando os sonhos dos pais e responsáveis que passaram a confiar que a ideia era boa?  Legal, não é mesmo?

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1 pessoas comentaram:

Não tem como alguém que pense um pouquinho que seja, se iludir com as promessas de melhorias desse governo de horrores.

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