sábado, 25 de janeiro de 2020

Vem aí uma nova edição de Orgulho & Preconceito "O clássico mais amado do mundo agora em uma linguagem que TODO MUNDO entende!"

Não sei o que a editora Pedra Azul quer dizer essa propaganda de Orgulho & Preconceito com a chamada "O clássico mais amado do mundo agora em uma linguagem que TODO MUNDO entende!". Fiquei até feliz que o primeiro comentário indignado tenha sido de uma ex-aluna.  Muito mesmo.  Mas vai um elogio para a capa, porque é bem bonita, mas para por aí, porque, enfim, como uma amiga bem colocou, O&P é um livro bem acessível para qualquer pessoa alfabetizada e tem boas traduções para nossa língua.  Vão mudar o quê, afinal?  Vai soar pedante, eu sei que vai e eu não me importo, tenho que comentar algumas coisas.

Quando eu era adolescente, saíram as primeiras edições da Bíblia na Linguagem de Hoje no Brasil (*agora há até edições católicas que eu não conhecia*).  Na época, os conservadores acharam o fim do mundo e, efetivamente, a maioria das pessoas usa esporadicamente essa edição, o que eu quero dizer é que salvo em situações muito específicas, todos seguem preferindo as traduções/versões tradicionais e amplamente reconhecidas.  Preciso reconhecer, no entanto, que alguns versículos ficaram bonitos sem palavras e estruturas antiquadas que poderiam dificultar a compreensão de muita gente. Se você quer evangelizar, quer alcançar todo o tipo de pessoa, quer facilitar, por assim dizer. E não é um post para discutir essas questões, embora eu possa citar exemplos históricos de uma gambiarras no texto bíblico que causaram bem e/ou mal dependendo dos interesses.  Agora, uma editora lançar Orgulho & Preconceito na linguagem de hoje é difícil de digerir. 


A propaganda.
Será uma versão integral?  Se, sim, quem vai ser a autoridade a adaptar os diálogos, um dos pontos altos da obra de Jane Austen, para "uma linguagem que TODO MUNDO entende"?  Adaptações juvenis, e eu li muitas na adolescência, tentavam simplificar a estrutura do livro, mas mantinham, na medida do possível, os diálogos. Era um passo além das adaptações médias para quadrinhos, mas, mesmo nas HQs, há um esforço para que sejam mantidas as palavras dos autores e autoras, afinal, é por causa dessas palavras que seus livros se tornaram um sucesso.  Quem quer ler Mr. Darcy falando como um moleque de nossos dias?  Nem a Greta Gerwig ousaria fazer uma lambança dessa com um clássico em um de seus filmes. Depois, vai ter gente que estava se rasgando por causa da novela da Globo comprando esse troço e dizendo que é uma maravilha.  Como uma das adaptações juvenis que não li foi exatamente Orgulho & Preconceito, sou até capaz de procurar a versão da Ediouro e dar uma olhada.  Deve ser fácil de encontrar.

Eu respeito as livre adaptações e as fanfics que, em nossos dias, ganham até status literário, algumas com grande mérito.  Há várias adaptações de Jane Austen na literatura que mantém o sabor do clássico, e isso não raro deriva do respeito às características psicológicas das personagens originais e o estilo literário da autora, que são maravilhosas.  O mesmo vale para outros clássicos, mas para lançar esse novo olhar, você tem que ter tido acesso ao original, conhecê-lo muito bem, o conteúdo e o estilo.  Entendem o ponto?  


Falo desta edição, eu nunca li na adolescência.
Quando li os originais, os que li, claro, reconhecia as palavras e não me sentia defraudada, enfim, mas se alguma alma adentrar o redil de Jane Austen, eu me curvo à genialidade dessa iniciativa.  Sim, eu sou flexível, se você for conduzido ao bom caminho por linhas tortas, eu me curvo, o problema é uma versão alterada passar a pautar as discussões sobre o original, ou servir de referência para o público.  Não vai acontecer, eu sei, então, me acalmo.  Talvez, a propaganda seja puro sensacionalismo mesmo e eu esteja ajudando a vender o livro.  Sou uma tia velha e ranzinza, eu sei.  Coloquem esse post entre os piores do Shoujo Café se assim desejarem.

P.S.: Como ficou feio, a editora tentou se explicar.  Explicaram muito e não explicaram nada. É reescritura? Porque eles citaram uma autora que fez uma versão e isso é diferente.  Enfim, como me passaram a nota, deixo o link para quem quiser.  Só reforçando, versão mais simples é adaptação.  Houve alguém nos comentários que chamou o original de "versão rebuscada".  É o original, somente isso.

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1 pessoas comentaram:

Achei tudo bem estranho. Compro regularmente os livros da Pedrazul, trazem traduções de clássicos que nenhuma editora trouxe pro Brasil ou que eram dificílimos de achar em pt-br por terem somente edições muito antigas. Várias editoras clássicas começaram a relançar ou lançar os mesmos livros por causa da concorrência com a Pedrazul. O público da editora são leitores da Jane Austen e de outros/outras romancistas na mesma linha. Espero que a editora apresente o livro como versão, devidamente, para não caisar mais embaraços e não macular uma reputação que andava tão boa com seus leitores. A Pedrazul é um diferencial de mercado e essa deve ser sua primeira adaptação direta (tirando as "continuações" de escritores fãs, como o Diário do Mr. Darcy). Espero que tudo acabe esclarecido e bem.

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