sábado, 27 de outubro de 2012

Comentando a Novela Lado a Lado: Racismo e Gênero no Horário das Seis



Eu disse que faria um post sobre Lado a Lado esta semana. E como Gabriela termina hoje e eu vou comentar Salve Jorge, também, melhor escrever alguma coisa sobre Lado a Lado hoje. Já perceberam que estas duas primeiras frases foram escritas ontem, na verdade, boa parte do texto foi, mas ele não estava terminado ainda e eu não tive ânimo para completar. Eu fiz dois posts relacionados à novela antes, um focando em uma matéria do Jornal O Dia que trazia a questão do feminismo na história, e outra da Folha de São Paulo falando das cotas para negros em novelas da Rede Globo. Pois bem, não sei se este texto vai ficar grande, ou não, mas tentarei dar uma idéia daquilo que estou achando da novela até agora. No entanto, como coloquei antes “... é bom ter alguma coisa que, pelo menos, pareça progressista.”

Para quem não sabe do que se trata Lado a Lado começa em 1903 e tem duas protagonistas, Isabel (Camila Pitanga), moça inteligente, altiva, bem educada, filha de escravos, criada pelo pai (Milton Gonçalves), e que trabalha desde os 14 anos na casa de uma francesa, madame Bessançon (Beatriz Segall), que lhe ensinou o idioma e a trata muito bem (*para uma empregada da época*). Isabel conhece um rapaz, o barbeiro Zé Maria (Lázaro Ramos), barbeiro e capoeira, e os dois se apaixonam. A outra protagonista é Laura (Marjorie Estiano), filha da Baronesa da Boa Vista (Patrícia Pillar), mulher orgulhosa e racista, que não se conforma nem com o fim da escravidão, nem com o fim da monarquia. Laura fez escola normal e quer ser professora, tem idéias progressistas, quer escolher seu destino, mas seu casamento com Edgar (Thiago Fragoso), filho de um senador corrupto (Cássio Gabus Mendes) está acertado. Laura e Isabel se conhecem na igreja, no dia de seus respectivos casamentos. Laura casando forçada e Isabel feliz até acreditar que foi abandonada no altar. As duas se tornam amigas e um forte laço nasce entre elas a despeito da classe social e de sua cor de pele. De comum, são duas mulheres que querem tomar seu destino em suas mãos, em uma época na qual a vida das mulheres parecia destinada ao casamento, à maternidade, a obediência aos poderes masculinos e hipocrisia da moral e dos bons costumes.


Assisti quase todos os capítulos de Lado a Lado. Quando não consegui ver ou gravar, assisti algumas cenas na página da Globo mesmo, há partes da novela, como os treinos de “football” que realmente são muito chatinhas ou as primeiras altercações no Teatro Alheiras que são só para encher lingüiça. No geral, gosto da novela, mas não vou mentir dizendo que estou muito empolgada com o resultado até agora. Pontos altos temos muitos, a começar pela abertura, uma das mais bonitas e bem estruturadas dos últimos tempos. Acredito que vai ficar na memória, especialmente quando temos tantas aberturas medíocres, vide a de Avenida Brasil que me fez ter saudades de Hans Donner. Falar em figurino para novela de época normalmente é só para elogiar. Vestidos lindos, chapéus idem, e tudo mais que uma produção desse tipo exige. E aí mora um dos problemas, produções de época geralmente são caras e a pressão pela audiência e sucesso são bem pesadas. Já os cabelos das moças me incomodam um pouco, mas nada que vá me fazer torcer o nariz... Quer dizer, não muito.

Marjorie Estiano e Camila Pitanga dispensam elogios. Ambas são atrizes jovens da maior competência e seguram a novela sem problemas. Gosto de Marjorie Estiano desde as poucas cenas que vi dela em Malhação. Camila Pitanga já está mais que consolidada como uma das grandes estrelas da TV atual e merece brilhar muito mais. Da mesma forma que Patrícia Pillar tem tido seus momentos como uma vilã com tons sinistros e que é, ao mesmo tempo, muitíssimo dedicada à família... lá da forma dela, claro. Ontem mesmo, ela mostrou que dentro dela bate um terno coração ao não ter coragem de mandar dar cabo do neto mulato... Maria Padilha, especialmente contracenando com Camila Pitanga, brilha em suas cenas como uma atriz de teatro com enorme ego, forte personalidade e caráter acima de tudo. Zezeh Barbosa (Tia Jurema) tem bons momentos e a vilã sinuosa de Sheron Menezes nunca será a Rosa de Léa Garcia, mas está se esforçando. O elenco no geral é muito bom.


Lázaro Ramos é outro que dispensa elogios e está muito charmoso como Zé Maria. Pena que o racismo vigente atrapalhe um pouco a sua projeção como galã, pois ele merecia ter essa recompensa, também. O problema foi terem mantido sua personagem na prisão, algo que até hoje não acho que ajudou na história, ou não, mas me deu muita raiva. Ele é uma personagem crível na sua dor e humilhação, já que sua ex-noiva engravidou de outro, e se desenha como líder político, coisa que deve se materializar de forma muito mais clara na Revolta da Chibata. E Thiago Fragoso, bem, não dava muito por ele, mas como encarceraram o Lázaro Ramos por duas semanas (*ou mais*), sua personagem teve como se criar e ele melhorou um bastante como ator. Eu que vi Rodrigo Santoro em seus primórdios acredito em milagres e em trabalho duro, também. Samambaias bonitas podem virar atores e atrizes medianos ou até bons.

Enfim, eu tenho sentimentos contraditórios em relação à Lado a Lado. É bom ver uma novela engajada em discutir a questão das mulheres e dos negros, em montar um painel histórico do início do século XX. Só que a impressão que tenho é que estão querendo abraçar coisas demais. Vejam só, discute-se machismo, racismo, o Bota Abaixo, a Revolta da Vacina, a Capoeira, a chegada do Futebol ao Brasil, daqui a pouco entra a Revolta da Chibata, a discriminação aos praticantes do Candomblé, o início das favelas, a gênese da cidade partida e do apartheid social carioca... Se duvidar, vão falar do nascimento das Escolas de Samba, também... E não seria surpresa se trouxessem a questão da luta pelo voto feminino. Ufa! É muita coisa! E parece mania das novelas atuais tentarem falar de tudo ao mesmo tempo e quem quer falar de tudo acaba não conseguindo falar de nada com a devida profundidade. Eu realmente aconselharia aos escritores de novela a se focarem em menos temas por história, veja que O Direito de Amar abordou algumas dessas questões de forma muito competente e é só um exemplo. Eu não vou me perder, mas a superficialidade prejudica qualquer produção. E a novela das nove, Salve Jorge, segue pelo mesmo caminho só que com a grife de Glória Perez.


Algo que se amenizou um pouco desde o início da trama é a artificialidade dos discursos. É comum em produções históricas globais – vide Olga, o filme –, que chamam seriedade para si, que as personagens não falem, discursem, e são sempre discursos didáticos. Explicando as coisas no estilo “for dummies”. A vilã reacionária, Constância (Patrícia Pillar) fez tantos discursos que ficou difícil não achar aquilo tudo muito inverossímil. E estamos falando da atriz mais tarimbada do elenco. Com o passar dos tempos e, principalmente, com a trama envolvendo seu filho, Albertinho e Isabel, Patrícia Pillar conseguiu fazer algumas cenas memoráveis. O jovem Rafael Cardoso tem se saído muito bem, especialmente se levarmos em conta que ele está contracenando com gente muito gabaritada. Camila Pitanga é outra que foi colocada para fazer vários discursos (*contra o racismo, a favor do Candomblé, pelos direitos dos pobres, etc*) e a coisa fica parecendo material paradidático. É preciso deixar a história fluir, e ir inserindo as questões de forma natural dentro da narrativa. Enfim, é novela, não aula (*chata*) de história. E perder isso de vista é fatal.

Daí, vem as contradições... Me incomoda muito a trilha sonora contemporânea e o coloquialismo no falar. Eu não acho produtivo empolarem muito o discurso, deixarem tudo muito pesado e distante da compreensão do público em geral, mas a forma como estão colocando as personagens falando em Lado a Lado acaba soando falso demais. Vejam só, você tem a reconstituição de época esmerada e o pessoal falando “aí”, “né”, “tá”, “vamo”, etc. E não são somente as personagens pobres e que não tiveram acesso a uma educação formal, praticamente todos estão falando assim... Isso tem comprometido a qualidade da novela. E irrita, não sei quem teve a idéia, mas foi uma escolha ruim. E em alguns momentos o coloquialismo se mescla num hibridismo estranho com um registro mais formal e o resultado fica muito complicado. É comum isso acontecer com a personagem Neusinha e Quequé, dos excelentes Maria Clara Gueiros e Álamo Facó.


Já as discussões sobre papéis de gênero estão sendo encaminhadas da mesma forma que os discursos. Em alguns momentos, forçam a barra, em outros, conseguem fazer a coisa caminhar de forma razoável. A questão do amor romântico para as mulheres, algo fundamental em qualquer novela até a ruptura de Avenida Brasil (*grande mérito da obra, eu diria*), foi rapidamente deslocada para o centro da narrativa. Laura trabalha por hobby, salvo se as aulas, que ela nem é mais mostrada dando, se desdobrem em algo mais daqui para frente na trama. Mas se duvidar, todo o progressismo da personagem vai ser deixado em segundo ou terceiro plano em relação ao drama de não ser mãe e à competição com Catarina (Alessandra Negrini), ex-amante do marido, que está para entrar na história. Apesar de ser um fofo, Edgar deixou muito claro que “pode sustentar a casa”, fala mais que aceitável mesmo para um homem progressista naquela época, só que no seu idílio amoroso, faltou Laura colocar que trabalhar é uma questão de satisfação pessoal, de buscar um lugar no mundo e não somente algo que está condicionado pela necessidade econômica ou desamparo feminino.

A questão do trabalho está no centro das discussões da família do delegado. Mas a coisa parece um tanto capenga, também. A mãe-bibliotecária (Susana Ribeiro) parece crível, mas Sandra, a filha formada professora, deveria lecionar e isso não seria lá muito difícil naquele contexto, mas teriam que criar um outro núcleo “a escola" e já há gente demais na trama. Fora que a relação com a avó, Débora Duarte é uma chatice boa parte do tempo.  Na verdade, Sandra é uma das personagens mais artificiais da trama, panfletária e vazia. Agora que parece existir um segredo envolvendo o senador, Cássio Gabus Mendes como ótimo vilão, e a aparentemente inofensiva avozinha Débora Duarte, talvez tenhamos uma mexida. E só para não perder a viagem, Caio Blat está um nojo. O papel é chato, irritante, e ele merecia tomar uns tabefes do irmão.


E caímos em Isabel... Bem, o caso de Isabel com Albertinho levantou várias questões. A primeira é a do valor da virgindade das mulheres. Foi excelente a frase “Se fosse com um homem isso nem estaria em discussão”. E não estaria mesmo. O drama da moça, escorraçada pelo pai e pela patroa, abandonada pelo sedutor (*porque essa é a função de Albertinho*), chamada de prostituta, e que toma sua vida em suas mãos e segue em frente assumindo seu filho orgulhosamente, ainda que lamente o erro (*ter se deixado enredar por um vagabundo, magoado o pai e o noivo*), é bem importante e serve de mensagem para outras mulheres ainda hoje. Agora, como tudo foi um mal entendido, e Zé Maria é uma personagem honesta e amorosa, somos levados a ter muita pena dele.  Ele a ama, mas diante da sociedade é inaceitável que ele a aceite de volta depois de tudo.  Os papéis de gênero pesam sobre os homens, também, ainda que, como pontuado acima, pesem mais sobre as mulheres.  Só que a sedução de Isabel foi muito rápida e no afã de tentar justificá-la, dia desses ela disse que pensava que estava apaixonada. Ela estava fragilizada, vulnerável, acreditava que tinha sido abandonada pelo noivo. Só que antes, tinha sido enfatizado que ela foi vítima de um mentiroso, logo, seduzida... Enfim, a introdução do “achava que estava apaixonada” é claramente uma forma de tentar limpar a imagem – recorrendo aos papéis de gênero tradicionais – de uma personagem desenhada para ser incorruptível. Jamais se poderia esperar a coragem de colocar como em Downton Abbey uma personagem feminina – solteira, virgem, de boa família – dizendo que foi para cama com um homem bonito e interessante por luxúria, desejo. Isabel não pode ter nuances, ela precisa ser modelo. Isso é um peso grande demais para se levar nas costas.

A idéia da “paixão”, já que mulheres "de bem" só fazem sexo quando apaixonadas, vocês sabem, é muito esquemática e pouco crível, só reforçando preconceitos a respeito de homens e mulheres. Só que ressaltarem a questão da sedução, algo bem evidente a meu ver, ainda que sem estupro ou coação de qualquer sorte, também enfraqueceria a personagem, que precisa ser forte, artificialmente forte em todos os momentos... Complicado, não? Gosto da Isabel, mas periga ela virar uma heroína e heróis e heroínas são muito pouco humanos. E, claro, agora temos também a moça engolida pela maternidade, coisa que ela sempre desejou, ao contrário de Laura que parecia focar somente no trabalho. Irremediavelmente a questão do filho irá consumir muito do tempo da personagem, isso, se os autores não surpreenderem, mas não vejo sinal disso.


E temos a questão dos negros, que corre paralela à das mulheres, ainda que convirjam na personagem de Isabel. Apesar do grande mérito – grande, imenso – de situarem os negros como profissionais, gente trabalhadora, ativa e partícipe dos acontecimentos políticos de sua época, com famílias, pelo menos alguns deles, estou sentindo falta de jornalistas, advogados, algum profissional liberal negro. Pode ser que o autor do romance para quem a filha do delegado faça a pesquisa seja negro, mas seria bom inserir uma personagem melhor colocada socialmente. Eram exceções? Sim, mas existiam, estavam lá. E seria bom para ampliar a questão da discussão do racismo muito bem marcado na trama.

Lá no início falei dos discursos artificiais, mas quando me deparo com coisas assim “#odeiocentrode qqcidade #odeioesselugar As vezes entendo o preconceito tem gente que devia permanecer no tronco ! Pessoas ignorantesssss ECA”(sic), frase escrita por uma moça branca no Facebook. Pergunto-me se as falas didáticas, os racismos despejados pela personagem de Patrícia Pillar e de Cássio Gabus Mendes não sejam pertinentes. Quando os negros e negras começam a ter alguma ascensão social, o que obriga aos socialmente brancos a dividir com eles espaços nos bancos das universidades e em profissões melhor remuneradas, os racismos afloram, e eles são pesados, cruéis e raramente punidos com a força que a lei brasileira permite. Racismo é crime inafiançável.


É novidade ter gente negra, ou que não seja socialmente branca (*depois falo da Morena de Salve Jorge*), com cara de favela, estrelando novelas da Globo. E mais, sem ser a empregada doméstica sem falas, o motorista, o capanga. Em Lado a Lado temos múltiplos papéis, uma protagonista forte (Isabel), um galã de caráter (Zé Maria), uma mulher de meia idade batalhadora e que não é somente a Mammy (Tia Jurema), um ex-escravo com profissão e altivo (o pai de Isabel, interpretado por Milton Gonçalves), além da mulata sinuosa e dúbia (Berenice) e do picareta (Caniço). Repito, falta o profissional liberal: a/o professor/a, o advogado, o jornalista, etc. Lado a Lado também traz em papéis menores, atores e atrizes longe do padrão de beleza, alguns interpretando nordestinos. Isso é muito importante. Ainda assim, a articulista da Veja é capaz de escrever que “Já está ficando chato falar de Globo e classe C, já que o vínculo é repisado a cada novela ou série que estreia”. O tal vínculo, as tais “cotas”, é algo recente, mas já é capaz de incomodar... Vejam só, como negar os méritos de Lado a Lado?

É isso, trata-se de um primeiro texto. Sei que haverá pelo menos mais um. Não vejo Lado a Lado como trama revolucionária, tem problemas de narrativa, corre demais em questões importantes, se alonga em outras que não tem lá grande função na trama, levanta bandeiras demais, no entanto, é muito oportuna. Pena que o horário das seis seja tão esvaziado. O IBOPE não vai subir e periga a novela sofrer uma intervenção. Pior ainda, é rotularem Lázaro Ramos de protagonista inviável, ou que esvaziem ainda mais os temas importantes para cair no tema da maternidade e da luta pelo verdadeiro amor. Temo, também, que a ida de Zé Maria para a Marinha dê sumiço em Lázaro Ramos de novo. Se for por questão de agenda, OK, ele é um ator de cinema e teatro muito mais que de TV, mas se for de roteiro será um erro e dos grandes.

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