domingo, 19 de fevereiro de 2017

Você não é você quando está com fome


Eu tenho um bloqueador de propaganda, então, não conhecia este comercial do Snickers que fica entrando nos vídeos do Youtube.  Soube dele através de um vídeo do Não Sou Exposição.  Enfim, Snickers é um chocolate, chocolate normalmente é coisa boa, só que leva amendoim, eu não sou fã de amendoins, logo, nunca comi Snickers.  


De qualquer forma, a propaganda tem dois problemas.  O primeiro, bem sério, aliás, é que chocolate não mata a fome e não deveria ser usado para isso.  O vídeo da Paula, do Não Sou Exposição, explica bem, ela é nutricionista e conhece do riscado.  Enfim, não é sensato usar chocolate para mascarar a fome.  O outro problema é a misoginia.  Alguém com fome, pode ficar com o humor alterado.  Em algumas pessoas, a coisa pode ser grave.  Agora, segundo a propaganda, e eu vi a da Betty Faria e a da Cláudia Raia, mas há outras, um homem com fome vira uma mulher.  As duas propagandas estão aí embaixo:



E o que é uma mulher?  Um ser descontrolado, dominado pelos seus impulsos, intragável, xiliquento.  Não há nenhuma propaganda da Snickers com mulheres virando homens quando estão com fome.  Não há propaganda com estereótipos de gênero aplicados aos homens.  Acredito mesmo que a marca queira estar associada aos adolescentes do sexo masculino.  Fora isso, as mulheres que aceitaram fazer a propaganda são todas maduras.  Desconfio que ainda esteja colado aí a história de ser velha é ser chata, também.   Não acredito que estejamos em falta de publicitários criativos, mas, certamente, falta a muitos profissionais o senso crítico e a responsabilidade social.

Kotobukiya anuncia figure da Ms. Marvel (Kamala Khan)


A Kotobukiya é uma das melhores fabricantes de figures japonesas.  E ela vem produzindo estatuetas de heroínas da Marvel e da DC.  Ontem, meu marido me avisou que a empresa vai lançar uma figure da Kamala Khan.  Está prevista para setembro.  


Meu marido não entende como uma heroína tão sem graça consegue tanta atenção. ^_^ Só que ele não é sub-representado, nem é mulher, nem adolescente, nem descendente de imigrantes, ou minoria.  Ele fica brava, tenta debochar, mas a verdade é esta, além de desprezar comics, ele raramente tenta se colocar "no lugar de".  E eu estou devendo resenha de Ms. Marvel... Farei?  Não farei?


É isso.  Muito tentada a queimar uns dinheiros com esta figure que parece que vai ficar linda. :)

Mangá de Ryo Ikuemi vai virar filme


Foi anunciado no Comic Natalie que o mangá Principal (プリンシパル), de Ryo Ikuemi, vai para o cinema este ano.  A escalada para fazer o papel da protagonista, Shima Sumitomo, é Yuina Kuroshima.  Seu par romântico, Gen Tatebayashi, será interpretado por Nozomu Kotaki.  O diretor será Tetsuo Shinohara e a roteirista é Yukiko Mochiji.  As filmagens serão feitas todas em Hokkaido.


A história no geral é esta: Shima Sumitomo é uma menina que não consegue fazer amigos, ela se sente excluída em sua escola e não consegue se relacionar bem com seu padrasto.  Sendo assim, ela se muda para a casa do pai em Sapporo, Hokkaido.  Lá ela conhece dois rapazes – Gen Tatebayashi e Wao Sakurai – só que, quanto mais próxima deles ela fica, mais ela é excluída pelos colegas na nova escola.  O mangá foi publicado na revista Cookie entre 2010 e 2013 e tem sete volumes.  A página do filme está aberta.

sábado, 18 de fevereiro de 2017

Orgulho, preconceito e… comunismo



O 67º Festival de Berlim termina amanhã e eu nem estava acompanhando o andamento da  premiação até me deparar com o artigo de Jorge Mourinha no jornal português O Público.  Ele trata do novo filme do diretor haitiano Raoul Peck, um sujeito polivalente que está concorrendo este ano ao Oscar de melhor documentário com I Am Not Your Negro, que está em cartaz no Brasil.

Segundo Mourinha, o diretor conta a história da amizade entre Marx (August Diehl), Engels (Stefan Konarske) e a esposa do primeiro, Jenny von Westphal (Vicky Krieps), como se fosse um requintado drama de época, daí o título se remetendo ao clássico de Jane Austen e a descrição a seguir “Era uma vez um jovem intelectual sem dinheiro que casou com uma linda esposa aristocrata, que deixou para trás a família desaprovadora para ir viver uma grande aventura de amor e provações com o homem que escolheu; e o jovem intelectual sem dinheiro trava-se de amizade com um jovem intelectual endinheirado que partilha dos seus ideais e das suas convicções e juntos decidem mudar o mundo”.


Eu poderia deixar este filme passar batido, são tantos os que eu nem percebo que existem, mas depois desta apresentação tentadora, como não ir atrás de Le jeune Karl Marx (O Jovem Karl Marx, duvido que este seja o título internacional, ou mesmo por aqui) quando o torrent estiver disponível?  Uma amiga fujoshi olhou a foto dos dois moços e já disse que está shippando.  De repente, até eu. :)  Segundo o autor do artigo, o filme fala menos de política e muito mais das pessoas envolvidas em fazê-la.

Já o diretor do filme explica a sua obra da seguinte maneira: “Durante dois anos trabalhei em Le jeune Karl Marx a pensar que iria fazer um documentário, ou um documentário encenado, mas acabei por desistir. Era uma história que precisava de ser contada numa forma de narrativa ficionada, para eliminar todo o ruído que se pudesse criar à sua volta e devolver a história ao fundamental: a amizade entre estes dois homens, o fato de que Marx era um pensador de gênio e que isso era reconhecido por Engels e por Jenny. E o fato de eles terem realmente mudado o mundo mas de não conseguirmos olhar para eles fora dos lugares-comuns viciados.”.  Será que deu certo?


Pelas outras falas do diretor no artigo, ele tem o objetivo de fazer um cinema engajado, mas subvertendo os seus modelos, afinal, quem espera ver um filme desse tipo sobre Marx e Engels?  Ao que parece, ele acredita e defende que as idéias originais de Marx e Engles foram distorcidas e que seu filme se presta, também, a lançar luz sobre a questão.  

Já para o Deutsche Welle ele afirmou que "A velha barba encobre não somente o rosto de Marx. No ano de 2017, ela também obscurece a possibilidade de uma discussão e uma reflexão cuidadosa", diz Peck, para quem, diante da arrebatadora barba de Karl Marx, esqueceu-se do cerne de sua mensagem. "Isso impede de descobrir a real contribuição deste pensador científico e político, seu extraordinário poder de análise, seus esforços humanísticos, suas preocupações legítimas."  Enfim, é interessante revisitar a amizade desses dois homens que de várias formas ajudaram a forjar o que foi o mundo no século XX.


De resto, parece que o filme foi muito bem patrocinado e conseguiu reproduzir a atmosfera do século XIX, as fabricas de Manchester, as ruas de Paris, enfim, tudo o que era necessário.  Resta, agora, esperar o filme.  No entanto, é interessante que Engels e Marx possam ser vistos em um filme como o que eram antes do Manifesto Comunista (1848): jovens que sonham.  Não preciso concordar com as idéias dos pais do comunismo, mas tenho profundo respeito pelo direito e até dever dos jovens de sonhar.  Isso faz falta, especialmente, em tempos tão mercenários como os nossos.


Quando os autores originais detestam o anime baseado nas suas obras



O site Goboiano fez um post sobre oito séries animadas odiadas pelos autores originais.  Há mangá-kas e autores de livros listados.  Das oito listadas, três são shoujo, então, decidi comentar aqui.  Eu, particularmente, acho que é direito do autor/a se recusas a permitir uma adaptação ou renegar a obra derivada.  

Conheço pelo menos uma adaptação para o cinema que deixou o autor original furioso.  Isaac Bashevis Singer detestou a adaptação de seu conto (*e depois peça*) Yentl por Barbra Streisand.  Tendo lido o conto, como feminista, prefiro mil vezes o filme.  Mas ele estava certo ao perceber que aquela não era a sua Yentl, era a leitura de Barbra Streisand.  Sei, também, que Riyoko Ikeda só assistiu ao primeiro episódio da adaptação da Rosa de Versalhes  (ベルサイユのばら).  Segundo ela disse em uma entrevista, e eu reassisti ao anime no original para comprovar, Oscar aparece usando “ore”, o eu masculino absoluto e que, aos olhos de alguém como Ikeda, soava mal-educado.  No mangá, Oscar não aparece usando sequer “boku”.   Esta não era a Oscar criada pela autora, algo que a audiência japonesa endossou.  Na exibição original, a audiência do anime foi péssima.  Não sei se isso fez com que Ikeda bloqueasse outras tentativas de adaptação, mas o fato é que o filme animado anunciado para comemorar os 35 anos da série não saiu até hoje.


Enfim, o post do Goboiano fala de Fruits Basket (フルーツバスケット), Karekano  (彼氏彼女の事情) e Kaikan Phrase (快感 フレーズ).  Vou comentar os três casos.  O de Fruits Basket, acho que já tinha lido em algum lugar; o de Karekano, me parece plausível, ainda que eles não citem fonte; o de Kaikan Phrase tem link para o blog da autora, Shinju Mayu.

Fruits Basket: “É repetida a história de que a mangá-ka Natsuki Takaya não iria deixar qualquer estúdio (especialmente Studio Deen) chegar perto Basket Frutas.  A adaptação do anime foi produzida enquanto Takaya machucou seu pulso, então ela estava fortemente envolvida na adaptação. Mas, ela entrou em conflito com o diretor Akitaro Daichi sobre cada pequeno detalhe. Studio Deen decidiu rejeitar os comentários de Takaya que, por sua vez, bloqueou todas as tentativas de uma segunda temporada ou um remake.”  

Bem, Fruits Basket, o mangá, fez muito sucesso e qualquer anime baseado na série seria um sucesso.   Ainda que vários fãs hardcore de Fruits Basket que eu conheço torçam o nariz para o anime.  Não manifestam ódio, mas, também, não demonstram afeto. Se houve divergência e se a autora foi deixada de fora das decisões, bem faz ela em ter reservas em relação a qualquer adaptação.


Karekano: “Independente de quantos fãs a série animada tem, Karekano foi uma bagunça nos bastidores e a adaptação foi repudiada por mangá-ka Masami Tsuda.  Karekano foi o primeiro mangá longo de Tsuda, e foi escolhido pela Gainax para vir depois de Neon Genesis Evangelion. Hideaki Anno queria se afastar dos elementos mais pesados do mangá, e inseriu cenas cômicas enquanto focava nos diálogos. Isso entrou em conflito com a visão de Tsuda, e ela queria que Anno abandonasse a comédia e se concentrasse nas personagens e no enredo.  Anno abandonou a série depois de 13 episódios, porque Tsuda ameaçou demiti-lo. Kazuya Tsurumaki foi escolhida para dirigir os últimos 13 episódios, mas Tsuda já havia dito a Gainax que não permitiria que uma segunda temporada fosse produzida por eles.”  

Mesmo sendo fã do anime, é visível para qualquer um o quanto a série ficou bagunçada.  A gente sempre imaginou que seria falta de dinheiro.  Conflitos na área criativa não me parecem difíceis de acreditar, agora, a série animada é de 1998-99 e não existe nada de sombrio ou pesado em Karekano, o mangá, nesta época.  A série animada só cobre até os primeiros capítulos do volume #9, se muito me engano, as coisas começam a ficar esquisitas bem depois disso.  De qualquer forma, o volume #9 encadernado é de 2000.  Fora isso, o mangá tinha muita comédia, também.  Resumindo, essa história está esquisita.  Parece mais a ladainha, da mulher que castrou o gênio.  Tem caroço nesse angu.


Kaikan Phrase: “Mayu Shinjo realmente deixou de escrever shoujo manga, porque Kaikan Phrase foi adaptado sem o seu conhecimento. Shinjo escreveu que foi a última pessoa a saber da adaptação e que não lhe foi permitido nenhuma sugestão durante a produção.  Shinjo terminou deixando a Shogakukan (editora dos seus mangás) em 2007 depois de saber que o anime estava sendo reexibido no canal AT-X depois de encontra-lo listado em um guia de TV. Atualmente, ela mantém sua carreira escrevendo mangá BL.”

Que houve algum barraco sério entre a Shogakukan e Shinju Mayu é coisa sabida por todos.  Há post sobre isso no Shoujo Café, se bem me lembro.  Agora, o que não sabia é que a confusão tinha começado por causa da adaptação de Kaikan Phrase.  Foi mesmo?  De qualquer forma, o Goboiano dá o link para o texto da própria Shinju Mayu reclamando da reexibição do anime, ou seja, esta parte procede.  O que eu achei buscando no Shoujo Café foram diversos posts de lançamentos relacionados à Kaikan Phrase na mesma época, ou perto, do rompimento da autora com a Shogakukan.  De repente... 

Alguém tem links que confirmem as outras histórias?  Os demais animes citados na matéria original são: Pokemon (ポケモン), Bokurano  (ぼくらの), Magical Warfare (魔法戦争),  Gundam Victory  (機動戦士Vガンダム) e Kuma Miko (くまみこ).

Retorno a Howards End vai se tornar série pela BBC


Hayley Atwell e Matthew Macfadyen foram escalados para a adaptação que a Starz e a BBC vão fazer do livro de E. M. Foster, Howards End.  Serão 4 episódios e o roteiro está por conta de Kenneth Lonergan Kenneth Lonergan, de Manchester by the Sea.  A história se passa na primeira década do século XX e mostra três famílias os muito ricos Wilcoxes, os intelectuais (*e não tão ricos*)  Schlegels e o casal Bast, que são da classe trabalhadora e, se bem me lembro do filme de 1992, comem o pão que o diabo amassou da história.  O marido perde o emprego, eles passam terríveis necessidades, o sujeito é honesto, esforçado, mas termina sendo empurrado para a ruína.

Em Howards End, temos discussões sobre tradição, mudanças de costumes, emancipação feminina, o caráter cruel do capitalismo, enfim, é um material muito rico.  Hayley Atwell  vai fazer Margaret Schlegel, a irmã mais velha e não tão abertamente progressista.  Emma Thompson ganhou o Oscar pelo papel.  Matthew Macfadyen será Henry Wilcox, defendido no cinema por Anthony Hopkins.  Aguardo quem fará Helen Schlegel, a irmã feminista.  No cinema, ela foi interpretada por Helena Bonham Carter.  Sendo da BBC, não curto muito o material da Starz, vou ficar de olho.  Nunca li o romance original, mas é considerado um dos grandes clássicos da literatura inglesa no século XX.  O livro foi lanado em 1910.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Novos produtos de Shoujo Kakumei Utena anunciados no Japão


Ontem, comentei sobre o lançamento em Blu-ray do anime original de Shoujo Kakumei Utena (少女革命ウテナ) nos EUA e que os fãs da série são fiéis.  Daí, ontem mesmo, o Comic Natalie anunciou o lançamento de alguns produtos de Utena no Japão.  A série está completando vinte anos, então é possível que alguma coisa interessante aconteça...



São dois broches em formato de rosa, vermelho para Anthy, rosa para Utena.  Uma camisa branca social com o emblema da rosa bordado e a etiqueta mostrando Utena e Anthy e um calendário.  Se entendi bem, a grife responsável se chama AMNIBUS.  A página deles é esta aqui.



Utena, o mangá, foi publicado na revista Ciao e tem 5 volumes.  Há a história principal e três gaiden que foram incorporados à trama do anime que contou com 39 capítulos.  Posteriormente, foi feito um filme animado para o cinema e lançado um mangá deste movie.  Os mangás de Utena foram lançados no Brasil pela JBC e o movie saiu em DVD, a série original é inédita em nosso país.

Comentando Nise: O coração da loucura (Brasil, 2016)


Ontem, assisti ao filme Nise: O coração da loucura, estrelado por Glória Pires e dirigido por Roberto Berliner.  Trata-se de uma película importante, especialmente, quando estamos comentando as mulheres na ciência, afinal, a brasileira Nise da Silveira foi uma psiquiatra pioneira em várias áreas e que introduziu as idéias de Jung no Brasil.  Analisando em retrospectiva, Nise poderia ter sido o candidato do Brasil ao Oscar, se não tivesse imperado a irracionalidade e a politização no processo de seleção.

O filme se inicia em 1944, quando Nise, ex-presa política e perseguida durante o Estado Novo, é reintegrada ao serviço público.  Trabalhando no Centro Psiquiátrico Nacional Pedro II, no Engenho de Dentro, no Rio de Janeiro, ela não consegue aceitar a barbárie dos métodos terapêuticos da época, em especial a lobotomia e o eletrochoque.  Alocada no setor de Terapia Ocupacional, uma área de pouco prestígio, ela inicia um trabalho que teria repercussão internacional ao permitir e estimular que os residentes pudessem pintar, desenhar e esculpir.  Seus esforços terminam recompensados com o reconhecimento de Jung e a criação do Museu de Imagens do Inconsciente.

Uma pioneira.
Nise da Silveira nasceu em Alagoas em 1905, foi a única mulher em uma turma de medicina com 157 homens; casada e já no Rio, foi denunciada como comunista e presa por 15 meses, o fato prejudicou sua carreira, mas não foi suficiente para destruí-la.  Reabilitada em 1944, passa a se dedicar a um ramo pioneiro da psiquiatria, a terapia ocupacional.  Nise também, pode ser vista como responsável pela criação dos hospitais-dia, que atendem doentes não reclusos, algo igualmente revolucionário.  Seus escritos e estudos, sua interação com Jung, o diálogo intenso que manteve com a ciência e a arte, seu humanismo em tempos de violência contra os doentes psiquiátricos era a regra, a tornaram uma pessoa única.  Ela merecia mais que um filme, não que o premiado Nise não seja um bom ponto de partida.

O filme é eficaz ao delimitar sua história, dar-lhe como balizas o ano de 1944 e a criação do museu.  A narração não está em ordem cronológica, há liberdade criativa, afinal, é cinema, reorganizan-se fatos, utilizam-se estratégias para criar o drama.  Criam-se, também, os vilões – os médicos que se opõem às terapias humanistas e modernas de Nise – e uma heroína inflexível nas suas crenças, o resto das personagens cumpriu bem seu papel, com destaque para o trabalho do elenco de doentes psiquiátricos.  Não é um filme perfeito, mas funciona.  E olha que na abertura, uma das primeiras cenas, há uma gafe grande.  O ano é 1944 e é dito que o português António Egas Moniz recebeu o Nobel relacionado aos estudos de lobotomia.  O prêmio só seria recebido em 1949. 

Obra de Lúcio Noeman antes e depois da lobotomia.
Para quem não sabe, a lobotomia é uma técnica cirúrgica “(...) que, ao destruir a substância branca dos lobos temporais do cérebro, provoca uma alteração da personalidade. Essa prática, recomendável em casos definidos como extremos no que concerne à agressividade e à dor, provoca uma deterioração cerebral irreversível. Os avanços da psicofarmacologia determinaram o declínio de tais intervenções. No Brasil, o emprego da lobotomia foi abolido em 1955”. (Memória da Loucura)  Certamente Nise teve papel nesta proibição.  

Em relação à lobotomia, algo que se tornou vulgarizado ao extremo, o filme acompanha o drama de Lúcio Noeman (Roney Villela), paciente violento que se transforma através da arte.  Ele se mostra competente escultor e passa por vários avanços ao ser introduzido a outro dos tratamentos de Nise, o convívio com os animais.  A falta de compreensão dos colegas médicos em relação aos modernos tratamentos, porém, faz com que Lúcio tenha uma forte crise e seja lobotomizado.  Sua arte nunca mais será a mesma.

Tesouros.
O filme discute a importância da teoria ocupacional, das idéias de Jung, mas, principalmente, a força e determinação de Nise.  A interpretação de Glória Pires é bem equilibrada, e ela foi premiada no festival de cinema de Tokyo por sua atuação.  A atriz consegue passar a imagem de seriedade, tenacidade e competência que a personagem exige.  Nise acredita nas suas idéias e capacidades, ela sabe que não ocupa o lugar que ocupa, uma mulher em uma profissão de homens, à toa.  Só que tudo é dosado com a ternura e a vulnerabilidade nos momentos certos, como quando Nise está com o marido, o sanitarista Mário Magalhães (Fernando Eiras), ou seus gatos.

Assistindo ao filme aprendi várias coisas.  Não sabia quem era Emygdio de Barros (Claudio Jaborandy), considerado um gênio brasileiro da pintura.  Sua vida poderia dar outro filme.  Também nunca tinha ouvido falar do crítico de arte Mário Pedrosa (Charles Fricks), que não foi o único a apoiar Nise, mas que aparece em vários momentos do filme.  Ele é quem sugere que Nise exponha os trabalhos dos internos atraindo a atenção da opinião pública e, de certa maneira, impedindo que os médicos, seus opositores, consigam obstruir seu trabalho.

Os internos.
Que mais falar?  O elenco é composto por excelentes atores, como Fabrício Boliveira, que interpreta o jovem Fernando Diniz, um dos internos.  Roberta Rodrigues faz a enfermeira Ivone.  E há a transformação do enfermeiro Lima (Augusto Madeira), que praticava bullying contra os internos, era violento e se recusou, no início, a cooperar com a Dr.ª Nise, em um aliado.  Ele não se torna um anjo, continua um cara vulgar, mas ele passa a acreditar nos métodos da protagonista.  É uma situação meio clichê, claro, o homem que se insubordina contra uma mulher em posição superior, mas o filme trabalhou bem esse elemento repetitivo.

Algo que não gostei, e não gostei mesmo, foi não darem o cartaz devido ao artista Almir Mavignier (Felipe Rocha), um dos principais aliados de Nise.  Foi ele quem sugeriu que ela montasse um atelier de pintura e forneceu o material necessário.  São dele as fotos do encontro entre Nise e Jung no 1º Congresso Mundial de Psiquiatria em Zurique.  Foi ele que ajudou o interno Raphael Domingues (Bernardo Marinho), o segundo mais genial dos pacientes de Nise, a se expressar.  No filme, sequer o sobrenome de Almir Mavignier aparece, não se tem a dimensão da importância dele.  Fora isso, criaram a personagem de Georgiana Góes, Marta, para cumprir uma função clichê de musa de Raphael, tirando de Mavignier o seu papel.  

Romance inexistente e desnecessário.
O filme não precisava de um romance, Marta não existia, ainda que a sugestão para que Raphael pintasse um burrinho tenha realmente sido feita por um assistente.  Quem vai para a Europa é o próprio Mavignier.   Por que não lhe dar o cartaz devido?  Aliás, achei verbete da Wikipedia sobre ele em alemão e não em português.  Estranhíssimo.  Outra coisa que me desagradou, foi a cena de sexo entre dois internos que caiu de paraquedas em um determinado momento do filme.  Ela não se liga com o que vem antes, tampouco se conecta com o que vem depois.  Me pareceu uma cena grosseira e que não serviu sequer para ilustrar que os internos tinham vida sexual, porque a afetividade, algo que na época era negado que os esquizofrênicos tinham, já estava mais que assentada na narrativa.

O filme cumpre a Bechdel Rule?  Cumpre, sim.  Nise, Ivone, Marta, Adelina Gomes (Simone Mazzer), Eugênia (Luciana Fregolente), Carmem (Zezeh Barbosa), todas, em algum momento interagem entre si.  A conversa pode ser sobre algum homem, um interno, mas nem sempre é.  De resto, há um diálogo interessantíssimo entre Nise e o marido, ela feliz por receber a resposta de Jung, apesar dele achar que ela era um homem. “Até Jung é machista”.  Sim, o machismo é estrutural e Nise era uma exceção em sua época, uma importante exceção.  Sabem de uma curiosidade?  Nise e o marido decidiram que não teriam filhos para poderem se dedicar às suas carreiras.  Algo um tanto incomum para a época, mas que reforça a singularidade desta cientista brasileira.  Nise deveria ser bem feminista para a sua época.

A verdadeira Nise.
Terminando, foi um bom filme.  Contido na medida certa.  Me interessou mais que Aquarius, por exemplo, ainda que a atuação de Sônia Braga seja mais arrebatadora do que a de Glória Pires.   Nem poderia ser diferente, aliás.  Aquarius é, também, um filme mais arrojado, criativo, ainda que Nise consiga ser muito mais coeso e tenha um roteiro melhor amarrado e personagens que realmente fazem diferença e tem vida própria dentro da trama.  É um filme sobre Nise, mas não um filme egoisticamente fechado nela.  Recomendo.  

A sua maneira, Nise pode ser tão inspirador quanto Hidden Figures, afinal, esta nossa cientista brasileira fez história e brilhou em uma carreira que, na época, era majoritariamente masculina.  No finalzinho do filme, a própria Nise aparece e, bem, é impossível não lamentar que Glória Pires não tenha posto um sotaque alagoano na personagem, o sotaque que a própria Nise, bem velhinha mantém.  Nenhum dos nordestinos do filme, aliás, tem sotaque algum, todos usam um registro carioca quase neutro, sem se arriscar.  Uma pena!