terça-feira, 28 de março de 2017

Recomendações de leitura


Achei dois artigos em sites que eu sigo que gostaria de recomendar.  A primeira é do Goboiano e se chama 17 Creators Who Died Before Finishing Their Life’s Work (17 autores que morreram antes de terminar a sua obra-prima).  Este artigo foi motivado pelo falecimento esta semana do roteirista de High School of the Dead, Daisuke Satou, com míseros 52 anos.  Para os padrões japoneses é muito pouco, mesmo aqui, onde o governo atual sonharia com idades como essa para todos os aposentados, é muito pouco.  


Na lista do Goboiano há gente como Osamu Tezuka, que não terminou Phoenix; Shotaro Ishinomori, que não finalizou Cyborg 009; Kaoru Tada, claro, que deixou por terminar Itazura na Kiss; Kaoru Kurimoto, que deixou inacabado seu Guin Saga; Keiko Tobe não conseguiu terminar seu fantástico With the Light ...  Triste... E o autor de Serial Experment Lain, Ryutaro Nakamura?  Eu não sabia que ele tinha morrido!  E, no final, jogam um bônus de cortar o coração: Kyoko Okazaki de Helter Skelter.  Ela não morreu, claro, mas eu nunca soube que ela tinha ficado tetraplégica.  Todas as coisas que lia falavam em lesões causadas pelo atropelamento, mas nunca o que era efetivamente... Triste, enfim.


O segundo artigo é do site Arama! Japan e se chama Are sequels a lasting trend in shojo mangas? (As sequências serão uma tendência duradoura entre os shoujo?).  O texto fala da quantidade de mangás shoujo que, de alguma maneira, estão recebendo continuação: Card Captor Sakura, Fruits Basket, Peach Girl, Vampire Knight etc.  A autora, acho que é uma autora, pontua no final que não acredita que as autoras estejam embarcando nessas sequências por falta de ideias, ou que a indústria de shoujo mangá esteja em crise, mas que elas estariam, talvez, possibilitando uma transição de suas antigas leitoras do shoujo para o josei.  Fora que é sempre interessante para as fãs um pouco de nostalgia, verem suas personagens favoritas crescendo, amadurecidas, interagindo com outras personagens, enfim.  Eu ia escrever um texto em cima desse, porque discordo de quase tudo.  Vamos lá!


No caso de Sakura, trata-se de um revival aceitável por conta do aniversário da série.  Há espaço para isso, a CLAMP não anda mal das pernas, muito pelo contrário, está sempre em mil projetos, ainda que eles não apreçam tão ruidosos para nós, aqui, no Brasil.  Essa de transição para josei só colaria no caso de Peach Girl Next, mas, ainda assim, há um filme a caminho, o novo mangá, a meu ver, é golpe publicitário e somente isso.  De resto, Fruits Basket, Peach Girl, Vampire Knight foram os grandes sucessos de suas respectivas autoras.   Elas, efetivamente, não conseguiram emplacar nenhum sucesso de peso depois de suas obras mais marcantes.  Não se trata, a meu ver, de nostalgia, mas de tentativa desesperada de reviver glórias passadas.  E aguardem Hanakimi, porque eu acredito que venha mais coisa por aí.  


Certamente, é muito complicado superar um grande sucesso, se desvencilhar dele, ainda mais quando não se repete a receita nem de longe.  E veja que não falo de qualidade, há obras que são sucessos colossais inexplicáveis, não são mangás excelentes, são no máximo diversão esquecível, mas grudam feito sei lá o quê.  Ainda assim, talvez não passem pelo teste do tempo.  Continuações servem para que lembremos deles, no Japão, se prestam a vender a oba original em reencadernações.  Há muito dinheiro envolvido nessas coisas, muito, muito mesmo.

Saiu o resultado do Manga Taisho Awards


O Comic Natalie, o ANN, e outros sites publicaram o resultado do Manga Taisho Awards deste anos, um prêmio para mangás em publicação e que tenham 8 volumes, ou menos.  É uma premiação que existe desde 2008.  Neste tempo todo, dois josei receberam o prêmio máximo, Chihayafuru (2009) e  Kakukaku Shikajika (2015).   Falando neste último, quase todo ano, Akiko Higashimura está indicada, mas, desta vez, passou longe.  


O vencedor, com 67 pontos, foi Hibiki ~Shousetsuka ni Naru Houhou~ (響 ~小説家になる方法~).  A série, publicada na Big Comic Superior, parece ser muito legal.  Tudo começa com uma competição literária.  Um manuscrito, mal identificado, é enviado para um concurso e descartado.  Encontrado no lixo por um editor, ele finalmente é lido e o sujeito acredita que está diante de uma obra revolucionária.  Mas como achar quem escreveu?  Já a autora tem 15 anos e acabou de entrar para o clube literário da escola.  Quer ser escritora, mas não tem idéia de que estão procurando por ela.  Scanlations?  Não.  Quem assina o mangá é Yanagimoto Mitsuharu, não sei se é homem, ou mulher, não descobri.  Tem no currículo vários yuri, alguns seinen e alguns hentai yuri.


Em segundo lugar ficou o único mangá feminino, um josei, da competição, Kin no Kuni Mizu no Kuni (金の国 水の国), de Nao Iwamoto, teve 64 pontos.  A série foi considerada o melhor mangá feminino do ano pelo guia  Kono Manga ga Sugoi! 2017.  Tokyo Tarareba Musume (東京タラレバ娘), de Akiko Higashimura, ficou em penúltimo lugar com 18 pontos.

Comentando os volumes #11 e #12 de Ōoku


Anteontem, terminei de ler o volume #12 de Ōoku (大奥).  Sim, continuo lendo o mangá.  Sim, não resenhei o volume #11.  Na verdade, escrevi a resenha em janeiro passado, perdi o texto e ficou por isso mesmo.  Assim, sendo, decidi juntar os dois volumes na mesma resenha.  O chato de Ōoku é que sai um volume ao ano nos Estados Unidos.  Atualmente, acabou de sair o volume #14 no Japão, o #13 norte americano somente em novembro.  No próprio país de origem, Fumi Yoshinaga, a autora, dedica-se a outros trabalhos e a série, que tem capítulos bimestrais, também vai caminhando lenta.  Só que, detalhe, a rigor, já está no seu desfecho.  Afinal das contas, a chegada do Almirante Perry já se anuncia na última página do volume #12, o ano é 1854.

Para quem não conhece a série, Ōoku, de Fumi Yoshinaga, é publicado na revista Melody.  Trata-se de uma série que trabalha com ucronia, isto é, história alternativa.  Eventos reais, personagens reais, estão lá, mas, neste caso, normalmente com seu sexo trocado, isto, porque, uma praga, chamada de varíola vermelha, dizimou a população masculina jovem do Japão, sobram 1/5 dos homens no auge da praga.  As mulheres, agora maioria, tiveram que assumir os postos de mando e os mais diferentes ofícios.  O Shogun – comandante político e militar supremo do país – é uma mulher e ela tem um harém, o Ōoku, que dá nome para a série.  Com o tempo, o que era temporário se torna a norma.  Iniciado como um oneshot, a série fez sucesso e seguiu seu caminho.  


Volume #11
Já no volume #11 parece que começamos a sair da sombra de Yoshimune, a grande shogun, que iniciou a série e é lembrada por todos.  A novidade é que temos um homem como shogun depois de mais de cento e cinquenta anos.  O primeiro, alguém que se sente fora do lugar e é tiranizado pela mãe, Harusada Tokugawa, que governa por trás do trono.  A matrona sempre lembra ao filho que ele é somente um homem e não deve se meter em questões políticas.  

Harusada, neta de Yoshimune, moveu céus e terra para chegar ao poder, é a poderosa vilã que já se projetava no volume #10.  Ela domina os volumes #11 e #12 e o faz da forma mais terrível.  Não há nuances aqui, Harusada é movida por seus próprios interesses, seu prazer pessoal, seu amor pelo luxo.  Ceder o shogunato ao filho foi uma forma de fugir do dever de procriar mais crianças, pois, assim, ela pode se dedicar melhor à governança.  É o que ela diz...


Harusada matou até a própria mãe.
No início do volume #11, sua grande adversária, grande, não, porque é fácil se livrar dela, é Matsudaira Sadanobu, a neta de Yoshimune que se considerava a mais apta ao trono, até ser tirada da linha de sucessão em uma jogada de mestre da vilã.  Sadanobu é uma conservadora, que abomina o luxo e qualquer contaminação estrangeira, assim como os divertimentos.  Ela deseja poupar recursos, quer austeridade, já Harusada não se importa em gastar.  Problemas com os excessos da corte?  Que se aumentem os impostos.  Harusada obstrui qualquer avanço social, não é magnânima.  Pior ainda, quando Ienari, seu filho, descobre sobre a cura para a varíola vermelha, ela o impede de mover um programa de inoculação.  Basta que ele viva e não se meta em política, ela não quer que os homens possam voltar ao poder, que vivam mais.  Que ele  se cale e fique no Ōoku.

Ienari entrou para a história do Japão como um devasso, o shogun que mais produziu filhos, 55 ao todo, e que acabou dilapidando as reservas do país.  No início do volume #11, Ienari parece preocupado somente em obedecer a mãe, acatando a urgência em produzir mais herdeiros.  Só que, diferente de outros shogun, ele ama a esposa, Shige.   Eles passam muito tempo juntos, ele divide com ela suas angústias, eles são parceiros na vida, apesar dos deveres e protocolos que pesam sobre ambos.  São poucos os casais felizes nesta série, então, não esperem que isso dure.


Kuroki e sua família.
Um dos pequenos grandes dramas deste volume é que os filhos e filhas do shogun começam a morrer.  Lady Shige perde seu filho Atnosuke, pouco depois do menino comer um doce.  Uma concubina, O-Shiga, tem uma filha com o shogun.  A pequena morre depois de comer um doce chamado castella, que teria sido enviado pela esposa do shogun.  O objetivo é que ambas briguem oferecendo um pequeno prazer para Harusada, porque é ela que está matando os próprios netos.  São tantos, é melhor selecionar aqueles que valham mais a pena, segundo seu próprio conceito, claro.  

Especialista em venenos, ela também se livra de sua principal agente, a fiel Mume, uma órfã que tinha sido acolhida pela poderosa senhora ainda criança.  Mume desejava somente se aposentar, entrar para um mosteiro, se retirar do mundo, mas ela sabia demais.  Ienari fica transtornado ao saber do que ocorreu. O Shogun presencia, também, a dor de Shige e toma consciência do que a mãe é capaz, do que pode fazer, ele tem medo, mas decide agir com a ajuda de seu chanceler, o fiel Matsukata.  É possível que, em algum lugar, exista algum especialista em estudos holandeses, alguém que possa ajudá-lo a impedir que mais meninos morram.  É o único sonho do Shogun.


Você é somente um homem, coloque-se no seu lugar.
E é fora do Ōoku que encontramos Ihei e Kuroki.  O último casou-se e tem uma aparência desleixada muito diferente do jovem austero e elegante que trabalhava no Ōoku.  Ambos são médicos, coisa rara, afinal, as mulheres executam a maioria das funções públicas e remuneradas.  Os dois ao longo dos anos reúnem-se todos os dias para lerem o mesmo livro em holandês, o único que conseguiram salvar quando expulsos do harém.  O objetivo é não esquecer a língua que, em algum momento, poderá ser útil.  Anos e anos lendo o mesmo livro.  Já imaginaram a angústia?  Lembrar, lembrar, manter o conhecimento vivo.  Apesar do juramento contra as “malditas mulheres” no volume #10, Kuroki parece bem conformado ao seu papel, mas ele sonha...

Kuroki decide deixar a família para trás, ele acabou de ter um filho, e refazer o caminho de Gennai.  Na verdade, é o nascimento de um menino que o empurra para a “aventura”.  Gennai tinha descoberto algo fantástico, mas não teve tempo de passar o conhecimento adiante, algo relacionado à varíola vermelha.  O que seria?  Enfim, fazendo a analogia com a varíola da vaca, que nos possibilitou a vacina contra a variante terrível que atacava os humanos, no Japão imaginado por Fumi Yoshinaga, há a varíola vermelha dos ursos.  Quem é contaminado com ela está imune ao vírus terrível que vem matando gerações de meninos e jovens.


Não adianta nem pedir.  Kuroki não volta para Edo.
Kisuke, o outro discípulo de Aonuma, agora parte de uma próspera família de comerciantes, é contatado por Matsukata.  Ele não consegue mais ler holandês, mas sabe que Kuroki e Ihei podem.  É ele quem faz a ponte, mas Kuroki guarda tanta raiva, tanta mágoa devido ao tratamento dado a Aonuma, Gennai, Lorde Okitsugi, enfim, todos eles, que se recusa a cooperar.  Jamais, voltaria a Edo.  Nem a visita do Shogun em pessoa o faria mudar de idéia.  Jamais!   Mas o Shogun é insistente e, surpresa, humilde.  O coração de Kuroki começa a balançar e ele se reúne com outros estudiosos que vivem nas sombras, homens dispostos a ajudar.

Matsukata e o Shogun terminam por descobrir uma saída, um plano de ação por trás das costas de Lorde Harusada.  Além de Nagasaki, onde por questões de segurança, não se pode descobrir que há falta de homens no Japão, o único lugar no qual os postos de comando são ocupados por homens é no observatório.  Criado por Yoshimune com o intuito de produzir relatórios astronômicos, pluviais e outros que pudessem ajudar o país, lá há uma divisão de tradução de textos ocidentais.  Sabemos que no volume #10 a proibição de que as mulheres se dedicassem aos "estudos holandeses" foi suspensa, mas nada disso tinha sido mudado no observatório, ainda que a coisa funcione mais como cabide de emprego do que como um lugar de trabalho de fato.  É para lá que Kuroki vai.  Ele se torna o chefe a área de tradução.  Trabalhando no observatório, ele pode ser recebido pelo Shogun.


Kageyasu e um Kuroki já idoso.
Kuroki terá que traduzir livros holandeses de astronomia e matemática, algo que ele não domina, mas, na verdade, irá traduzir textos de medicina e comandar uma rede de médicas andarilhas que terão que localizar meninos contaminados com a versão amena da varíola vermelha, ou, se melhor, ursos contaminados.  No novo emprego, Kuroki conhece Takahashi Kageyasu, a única mulher a trabalhar no observatório, porque seu pai só teve filhas e ela herdou seu posto.  Kageyasu é inteligente, esforçada, brilhante na sua área e se via castrada de desenvolver melhor suas competências.  A parceria com Kuroki rende bons frutos.  

Neste volime #12, vemos pouco de Ihei, mas Kuroki retorna ao seu antigo visual.  Faz a barba, se apluma e deixa a esposa estupefata e preocupada com a proximidade entre ele e Kageyasu.  Ao mesmo tempo, a família deve se acostumar com a nova vida em uma casa confortável em Edo.  Não são mais pobres, não vivem mais do atendimento das pessoas simples de uma vila remota, agora, pertencem à elite da burocracia.  Mas por quanto tempo?


Shige acusa O-Shiga de matar seu filho.
Em uma visita ao Shogun, Kuroki é reconhecido e denunciado para Harusada.  O Shogun, Matsukata e Shige, a consorte de Ienari, conseguem despistar a megera.  Aliás, Shige é personagem central nesse volume, já que entra em estado de demência depois da perda do filho.  Mesmo doente e se recusando a se arrumar, ela é visitada diariamente pelo marido.  A mulher o chama pelo nome do filho morto e é a única ouvinte dos planos que Ienari vem desenvolvendo em segredo.  É uma estranha parceria, mas nos fornece belas cenas ao longo de quase todo o volume.  A primeira cena de Shige no volume #12, aliás, é um confronto com O-Shiga, a concubina que também teve sua filha envenenada.  O-Shiga foi cooptada por Harusada, ocupou o lugar de Mume e é os olhos e ouvidos da vilã, além de provadora de seus alimentos.  Mas vamos sair de novo do Ōoku...

Kuroki e seus auxiliares, homens e mulheres, correm contra o tempo.  É preciso inocular o máximo de meninos possível e, para isso, é preciso manter o vírus vivo, passando de um doente para um garoto são e assim sucessivamente, até trazê-lo para Edo.  E eis que Seishiro, filho de Kuroki, se torna amigo do filho de Kageyasu.  A amizade dos dois ia muito bem, até que um dos colegas de turma adoece com a varíola vermelha, é a maior manifestação da praga em Edo por muito tempo.   Seishiro, que ajudou o colega doente, pode estar contaminado.  Uma das andarilhas retorna com a varíola de urso.  Kuroki usa o germe, que pode não estar mais ativo, e contamina o filho.  O menino adoece, mas o que seria?  O germe atenuado?  A forma mais agressiva?


Harusada descobre que foi traída.
Era a varíola de urso e os médicos começam a vacinar.  A história se espalha, com o auxílio do próprio Kuroki.  Mas há muita demanda e pouco pessoal.  Até Kageyasu, que perdeu o filho, passa a ajudar na vacinação.  O Shogun consegue uma boa desculpa para visitar Kuroki e segue com suas conselheiras até o consultório.  Usando de estratagemas, ele fica à sós com o médico e o congratula.  Fora isso, ele dá a idéia de que as vacinações sejam agendadas por ordem de chegada através de senhas.  Ienari, tímido, aparentemente incapaz, começa a mostrar que é descendente de Yoshimune, só que sua mãe, Harusada, descobre tudo.

Matsukata e o Shogun tinham enganado a velha e a mantido fora de ação.  Criaram para ela um harém com homens de vários tipos.  Harusada, que dentro de si trazia algo de devasso, além do sadismo, se divertia, inclusive, envenenando os moços a seu bel prazer.  Segura de sua posição, tendo já selecionado o neto sucessor de Ienari, ela sente até ciúme de O-Shiga que parece cada vez mais arrumada e maquiada.  Desejaria a antiga concubina do Shogun algum de seus rapazes?  Ela ameaça O-Shiga que nega, mas eis que ela descobre por intermédio de uma conselheira (*escolhida pela própria Harusada*) que o Shogun estava governando de fato pelas costas de sua mãe.  É hora de se livrar dele.


Ienari não consegue enfrentar a mãe.
Harusada ama o filho?  Não sei, o fato é que ela ama o seu lugar de poder.  Ienari e Shige são chamados e, diante deles, doces finíssimos são servidos.  O Shogun sabe o que a mãe deseja dele, Harusada chora, mas exige que ele coma.  Ienari, que parecia tão seguro de si, volta a ser o indefeso garotinho tiranizado pela mãe.  Muita gente não entende, mas a dependência emocional e/ou psicológica pode ser tão forte quanto qualquer outra.  Ienari é o Shogun, parecia cada vez mais empoderado, mas, diante da mãe, volta a ser o banana que ela forjou com as próprias mãos.  Harusada come o doce, Shige, também.  A consorte passa mal.  Falta Ienari.  Ele avista o mundo dos mortos.

E, aí, temos uma das viradas de mesa mais espetaculares da série.  Harusada cai babando.  O Shogun começa a berrar por um médico e sua esposa, Shige, diz que não, que deixe a megera agonizar.  Na verdade, e isso é o maior spoiler até agora, Shige e O-Shiga são parceiras na vingança.  Elas envenenaram Harusada por meses, pouquinho a pouquinho.  Agora, é saborear a vingança.  Shige não foi envenenada, O-Shiga colocou somente um purgante em seu doce.  Só que a fiel concubina pagou alto preço.  


As conspiradoras.
Para envenenar Harusada, ela, como provadora, se envenenou, também.  A pintura mais pesada era um disfarce para a perda de sua saúde, O-Shiga não sobrevive.  Já a velha Harusada fica em estado vegetativo por anos.  A única a visitá-la é Shige, que cumpre fielmente os protocolos.  Só que o maior de todos os preços, apesar da perfeita vingança e da libertação do Shogun, é que Ienari nunca mais confiou em Shige.  O amor dos dois, o cuidado que ele sentia por ela, não retornam.  Afinal, ele passa a temê-la.  Como confiar em uma mulher que passou meses, anos, fingindo-se de louca para concretizar uma vingança?

A partir daí, Ienari assume a chefia do governo para horror das conselheiras.  Ele é um homem, que ultraje!  E, a parte triste, mas isso é Ōoku, ele se torna um déspota obcecado.  Ele quer que todos os meninos sejam vacinados, à força se necessário.  Kuroki argumenta, mas tem que se calar.  Gente ignorante não merece explicações.  Até a pena de morte passa a ser imposta a quem não vacina os filhos ou os esconde.  Com o andar dos anos, a vacinação sem limites e seus muitos filhos esvaziam os cofres públicos.  Ienari também mostra traços de personalidade muito parecidos com os da mãe em relação aos muitos netos que possui, a maioria não irá chegar à idade adulta.


Depois de liberto, até o olhar do Shogun muda.
Ienari em seu leito de morte se reconcilia com Shige, a mulher que sempre amou, mas continua reafirmando seu papel de estadista.  Ele sabe que navios europeus e norte-americanos estão próximos à costa do Japão.  Ele sabe que o país pode ser atacado a qualquer momento.  Ienari manda apagar qualquer menção à varíola vermelha e à vacinação das crônicas.  Os estrangeiros não podem saber das fraquezas do Japão.  Ele entrará para a história somente como o devasso que foi.

Vemos então mais uma geração de personagens desaparecer nesse volume #12: Kuroki e sua esposa, Ihei, Ienari, Harusada, Shige, Sadanobu (*que, finalmente, passa a aceitar a vacinação como algo positivo*), Matsukata etc.  Já Takahashi Kageyasu é condenada à morte, mas termina perecendo na prisão.  Seu crime?  Ela fez o primeiro atlas preciso do Japão e deu uma cópia ao médico holandês Philipp Franz von Siebold que tinha tido permissão para abrir uma escola de medicina em Nagasaki.  Siebold visitou Edo e passou algum tempo trabalhando com os tradutores.  Ele termina sendo expulso do Japão.  O chamado Incidente Siebold não é mostrado, mas somente brevemente relatado em uma nota e, por conta disso, queria comentar um problema.


Capa azul de letras brancas.
Fumi Yoshinaga é magnífica, mas, não raro, superficial, ou negligente, com algumas questões que não domina, ou se interessa.  Ela passa batida pelo governo de Ieyoshi, o sucessor de Ienari, como se ele nada tivesse feito de relevante.  Parecia estar correndo com a história.  É um capítulo para fechar o volume #12 com Ieyoshi, o florescimento das artes e da cultura no período, o equilíbrio populacional, o ensaio no rearranjo nos papéis de gênero (*mais homens, famílias começam a ser chefiadas por eles, algumas mulheres voltam a ocupar os lugares tradicionais de mãe, dona de casa e esposa etc.*), tudo isso em um capítulo magro.  Tanto assunto renderia, pelo menos, um volume.  E terminamos com uma página para falar que temos uma mulher como Shogun novamente, Iesada, e que os navios do almirante Perry foram avistados no mar.  É o início do fim do Shogunato.

Vou dizer qual o meu medo, não sei se Fumi Yoshinaga conseguirá terminar a história com a grandeza que ela merece.  Não imaginava que as coisas ainda estivessem por resolver quando da Revolução Meiji.  Acreditava que os ajustes dos papéis de gênero estivessem resolvidos nesse ponto.  Pensei que estávamos na mesma linha temporal, algo que a série sempre sugeriu, e, não, em uma temporalidade paralela.  O que será afinal?  Até imaginei que a derrocada do Shogunato das Mulheres viesse de Kyoto, que por lá, na corte imperial, os homens tivessem recuperado – ou nunca perdido, já que não vimos esse outro cenário – o poder.  Por esse último volume, nada é possível afirmar.   Faltam somente três governantes para o fim do Shogunato.


Iesada, mas e a outra?  Seria a famosa Atsuhime (Tenshōin)?
O Shogunato das mulheres pensado por Yoshinaga é fantástico, mas cheio de pequenas inconsistências, como, por exemplo, o exército ter permanecido formado por homens.  É ordem de Yoshimune.  As mulheres samurai de Ōoku estão aptas a lutar para manter sua posição?  Enfim, queria que a história, que Yoshinaga tinha prometido terminar no volume #12, realmente tivesse chegado ao fim.  Não chegou, mas, de novo, temos capas diferentes.  A do #12 é azul, a do #14 é outra capa branca.  Todas as capas da série são pretas.  São pontos de virada, eu sei, mas será que a autora terminará sua obra-prima de uma forma interessante e coerente?  Yoshinaga nunca fez uma série tão longa e eu tenho medo.  Só o tempo dirá, sabe-se lá quantos anos ainda terei que acompanhar Ōoku... 

segunda-feira, 27 de março de 2017

Antologia com mangás Shota é lançado no Japão


Mangás shota, redução de Shotacon (ショタコン), que já é uma redução de Shōtarō complex (正太郎コンプレックス), é um filão de mangá que se apoia na relação entre um homem ou mulher mais velha e um garoto, seja criança, ou adolescente.  Assim como no caso do lolicon, trata-se de um nicho que pode ter suas revistas próprias, sejam elas para homens (hentai/bara) ou mulheres (BL), doujinshis, convenções, material lançado diretamente encadernado, ou mesmo na internet.  Não é coisa que eu curta, não é coisa que me interesse.

Enfim, mas o Comic Natalie anunciou o lançamento de uma antologia, imagino que um álbum especial, chamado Shounen to Watashi no Jijou Anthology (少年と私の事情アンソロジー) e desenhado por algumas mangá-kas conhecidas.  O curioso é que, neste caso, parece que as protagonistas das histórias são mulheres, ou seja, não se trata de material BL.  Não sei o tom das histórias, há uma descrição do conteúdo em linhas gerais e tem desde primeiro amor entre primo e prima, passando por professora primária e aluno, professora de creche (!!!!) e aluno, OL e garotos do judô... Acredito que o tom das histórias seja menos erótico e muito mais romântico, sei lá, mas PROFESSORA DE CRECHE E BEBÊ????? Se alguém se interessar, ou tiver visto e quiser comentar.  A editora é a Ichijinsha.  Agora, será que chamo de josei?  Acredito que seja.


Só uma curiosidade, o Shoutarou era o protagonista do mangá/anime Tetsujin 28-go (鉄人28号), Gigantor, no Ocidente.  Este garoto parece que virou frisson dos homens, sim, o shotacon não foi criado por mulheres e, a partir daí, o conceito foi se desenvolvendo.   Também foi um homem que criou, em 1995, o Shotaket (ショタケット), que parece existir até hoje.  Ainda que as mulheres curtam, que materiais como Loveless ( ラブレス), por exemplo, sejam shotacon na veia, a coisa surgiu para consumo masculino mesmo, as mulheres vieram depois, seja como consumidoras, ou produtoras de material.

domingo, 26 de março de 2017

Mercado de mangás digitais cresce 27.5% no Japão


O ANN publicou uma noticia interessante, a All Japan Magazine and Book Publisher's and Editor's Association (AJPEA) publicou as vendas estimadas do mercado de mangá no Japão em 2016.  As vendas combinadas de mangás físicos e digitais subiram 0.4% comparado com o ano anterior.  Números positivos, verdade, que precisam ser destrinchados.


Quando falamos em mangás físicos, houve uma queda de 7.4% na venda dos encadernados e 12.9% na venda das antologias.  Fazendo a média dos dois, a queda foi de 9.3%.  De acordo com a matéria é o 15º ano de queda consecutiva e, hoje, o mercado de mangá representa metade do que foi em meados dos anos 1990.  Basta pegar a Shounen Jump, revista emblemática de sucesso.  Nos anos 1990, sua tiragem era de 5 milhões.  Hoje, é a metade.


Em contrapartida, quando falamos em mangá digital os números bombaram.  Aumento de 27.1% da compra de volumes digitais e de 55% no caso das antologias.  Tirando a média, e eu só estou reproduzindo dados, o crescimento foi de 27.5% do mercado.  Bem, se você acompanha o Shoujo Café, volta e meia comento de antologias que são somente digitais, ou de revistas josei que abandonaram o formato tradicional.  Novos tempos, novas estratégias, novos hábitos de consumo.  Crise?  Eu não diria.


O ANN informa que, no caso dos mangás digitais, não foi levado em consideração sites e aplicativos que oferecem mangás de graça.  Fosse contabilizado, a conta iria inflar ainda mais.  Ainda segundo a matéria, o mercado de livros e todas as demais publicações em papel no japão teve queda de 3.4% no ano passado.  Agora, quando se trata de material digital, o aumento foi de 27.1%.


Enfim, eu gosto de papel, mas entendo que por questões de espaço e praticidade o mercado digital avance.  Comprei vários mangás da Kodansha americana em formato digital.  Vantagens?  Chega imediatamente, é mais barato e não vai ocupar espaço na minha casa.  Mas meus mangás mais queridos, assim como meus livros, precisam ser em papel.  Quero tocar, cheirar acariciar.  Faz parte.  Agora, é pensar em ajustes e estratégias para  que o modelo tradicional se sustente e o digital renda ainda mais lucros.  De resto, não temam, mangás, assim como livros, devem continuar sendo impressos por muito, muito tempo.   A questão é não fechar os olhos às novas possibilidades.

The Handmaid's Tale estréia como série de TV em abril


The Handmaid's Tale, em português, O Conto da Aia, a grande obra de ficção científica feminista de  Margaret Atwood, vai estrear em 26 de abril no Hulu, site de vídeos on demand  que, agora, produz, também, suas séries próprias.  Serão três episódios lançados juntos no dia 26 e, a seguir, teremos um episódio por semana.  A protagonista, que no livro é narradora, será interpretada por Elisabeth Moss, que se tornou famosa principalmente por seu trabalho em Mad Men.  Enfim, "shame on me" , não sabia que a série estava sendo feita.  

O Conto da Aia, lançado em 1985, é uma ficção científica que se passa em um futuro próximo distópico.  Os recursos naturais foram depauperados levando a uma guerra civil nos EUA (*e em outros lugares, provavelmente*), a poluição atormenta a humanidade.  A história se passa em um lugar chamado Gilead, na Nova Inglaterra, onde uma seita cristã intitulada "Os Filhos de Jacó" assumiu o poder.  Como houve uma queda brutal de natalidade, os poderosos decidiram impôr um modelo "bíblico" de reprodução: homens poderosos com esposas estéreis fazem uso das "aias" para terem filhos em seu lugar.  A vida das aias, assim como a de todas as mulheres, é controlada com rigor, elas não tem direito a palavra alguma em questões reprodutivas, assim como trabalhar, estudar, ou ter seu próprio dinheiro.  Eis o trailer:


A protagonista da história se chama "Offred", que quer dizer "of Fred", pertencente a Fred, o Comandante, que é seu "senhor", mas ela tem um nome anterior, teve uma vida anterior.  Ela se lembra de como era antes da seita tomar controle.  Ela tinha uma filha e um marido, ela quer retomar sua vida...  O trailer mostra isso.  No Conto da Aia, somente as mulheres são consideradas inférteis, é criminoso atribuir tal "culpa" aos homens.  Não é a primeira adaptação do Conto da Aia, houve um filme de 1990 estrelado por Natasha Richardson.  É difícil achar cópias de qualidade, a que eu consegui é péssima. 



Enfim, com a eleição e posse de Trump, as vendas do livro de Margaret Atwood tornaram-se estratosféricas.  Semana passado, mulheres protestaram no Texas vestidas como as aias do livro.  Na verdade, todas as famosas distopias futuristas passaram a vender bem, mas há o reconhecimento de uma guerra aberta do partido republicano - pelo menos de parte considerável dele - contra os direitos das mulheres.  Especialmente, quando se trata de direito de aborto, contracepção e mesmo o exercício da maternidade/maternagem em conjunto com a vida profissional com os mínimos direitos sociais.  Ainda não é Gilead, mas o que pode ser o futuro?

Nesse sentido, o site BoingBoing postou uma série de comentários que apontam para esta guerra e, também, para como são frágeis os direitos adquiridos.  Uma boa ilustração é a foto das mulheres afegãs usando minissaia na Cabul de 1972.  Aliás, as fotos de Cabul nos anos 1950, 1960 e 1970 são sempre um choque.  O que é o Afeganistão hoje?  Poderia usar mesmo como exemplo o Irã pré-Revolução Islâmica (*1-2-3*) e o quanto de retrocesso houve em relação aos direitos das mulheres.  Perder direitos é fácil, vide o que estamos testemunhando em nosso país hoje (*PEC do Teto de Gastos, a Terceirização e toda uma sorte de retrocessos que podem vir por aí*), recuperá-los, na maioria das vezes, é missão impossível.  Não se enganem, não vivemos em um processo de evolução do pior para o melhor, a História da humanidade é bem mais complexa que isso.



Para terminar, deixo o link de um texto do The Guardian falando da importância da ficção científica feminista desde, bem, o século XVII.  De como as mulheres escritoras costumam lançar olhares críticos sobre o presente e o futuro (*sobre o passado, também, pois incluiria Ōoku de Fumi Yoshinaga nessa panelinha*), na maioria das vezes sem perder de vista a crítica social e as questões de gênero.  São citadas na matéria Margaret Cavendish, Mary Shelley, Begum Rokeya, Ursula LeGuin, além de Atwood, claro.  Eu incluiria Hagio Moto, também, afinal, nem somente na literatura strictu sensu, ou no Ocidente, as mulheres estão pensando a sociedade dentro da ficção científica.

sexta-feira, 24 de março de 2017

BL em mosteiro budista estréia na revista Matogrosso

Sim, sim, existe uma revista josei chamada Matogrosso, ela é publicada pela editora Eastpress e títulos desta revista já apareceram no guia Kono Manga ga Sugoi! (このマンガがすごい! ).  Enfim, achei curioso esse plot sobre o romance BL em um mosteiro budista tibetano.  A história de Tsuki to Kin no Shangurira (月と金のシャングリラ) começa com o encontro entre um menino, que está em viagem com o pai em busca de Shangri-la, e um jovem monge, pouco mais velho.  O pai e o garoto se hospedam no seu mosteiro.  Se entendi bem, o Comic Natalie, o pai do rapaz desaparece e o jovem fica na expectativa de seu retorno.  O romance é um desdobramento das coisas.  A autora da série se chama Kuranishi.

Sexta temporada de Natsume Yuujinchou já tem data de estréia


O Comic Natalie fez um post sobre a estréia de Natsume Yuujinchou (夏目友人帳).  Já sabíamos que seria em abril, agora, sabemos que será no diz 11.  Está na página do anime, também.  Enfim, mangá criado por Yuki Midorikawa é o mais sucesso dos shoujo anime em muito, muito tempo.  O mangá continua em publicação na revista LaLa e, bem, acredito que se depender dos fãs, ainda haverá outras temporadas.