segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

Para quem quiser ouvir o Shoujocast


Lá em 2009, eu decidi criar um podcast.  Começou de forma bem precária.  Aí, o amigo Anderson sugeriu um nome "Shoujocast".  Vieram companheiras, a Lina Inverse, depois a Tanko e, por fim, a Tabby e, bem, fizemos 52 programas.  Pouco, eu sei, mas as agendas desencontraram.  Sempre penso em voltar, mas ainda não houve como.  Bem, eu queria disponibilizar os programas, mas descobri que não tinha todos. Perguntei se a Lina tinha.  Ela organizou tudinho e disponibilizou para download (*AQUI*).  Tudinho, não, faltou o programa 52, então, coloquei no Youtube.



Eu parei para escutar um dos meus programas favoritos o duplo sobre Orgulho & Preconceito e foi um prazer muito grande ouvir a voz das amigas queridas e da convidada especial, a Adriana Salles.  Que conversa legal foi aquela.  Enfim, se você quiser relembrar, ou conhecer o Shoujocast, esta é a oportunidade.

quarta-feira, 31 de outubro de 2018

Quer saber qual personagem de anime divide o aniversário com você? Este site pode lhe ajudar!


O  Rocket News 24 trouxe informações sobre um site  japonês (*sim, alguma informação romanizada, mas basicamente é em japonês mesmo*) com um arquivo de mais de 10 mil aniversários de personagens de anime.  Agora é fácil saber quem faz aniversário no mesmo dia que você. :) Enfim, é divertido dar uma olhada nele e há personagens clássicas, também, porque Oscar (A Rosa de Versalhes) está junto com o Levi (Shingeki no Kyojin) e a Mei Tachibana (Suki-tte Ii na yo) em 25 de dezembro... E tem muito mais personagem de anime que faz aniversário nesta data.  Vale a pena dar uma olhadinha, é divertido. :)  O endereço é este aqui.  

Percebi que tem gente perdida sem conseguir achar o caminho.  Desculpem, a coisa não é realmente auto-explicativa.  Enfim, se você clicar direto aqui, vão aparecer os meses em seqüência, a mesma nossa, claro.  Eu nasci em fevereiro, então, procuro o mês dois.  Chegando lá, clico no dia 5.  Os nomes das personagens e séries estão romanizados, assim como as séries.  É fácil.

POST ORIGINALMENTE DE 26/06/2015.

sábado, 22 de setembro de 2018

Maternagem: As "tradições" das Meninas do Infantil 4


Ontem, fui buscar Júlia, minha filha de quase 5 anos (*falta menos de 1 mês*) e percebi que ela estava com as unhas pintadas.  Perguntei quem tinha pintado, não iria brigar nem nada assim, aliás, já tinha acontecido antes na escola.  A única coisa que pontuei é que ela não precisa deixar-se pintar se ela não quiser, que ela só deveria brincar se estivesse gostando e, não, para agradar as meninas "mais velhas".  Daí, ela emendou uma história engraçada sobre a "tradição" das meninas do infantil 4 de levarem maquiagem para a escola no "Dia do Brinquedo". Gravar de primeira, eu nunca consigo, mas pedi para ela recontar a história, não ficou tão bom, mas achei que merecia um post isso aí:


Parece engraçadinho, e sei o quão fofa essa minha filhinha pode ser, mas é bem assustador que meninas de 5 e 6 anos não levem brinquedo no tal "Dia do Brinquedo".  E minha filha separa bem essas coisas, maquiagem não é brinquedo, brinquedo é outra coisa... No entanto, há mães e pais que dão maquiagens para suas filhas (*sim, é uma questão de gênero*), elas imitam as mulheres adultas, e isso também faz parte do processo de crescimento, não vamos dizer que não é.  Há linhas de maquiagem para crianças que se aproveitam das personagens infantis para se tornarem mais palatáveis.  Há festas infantis que oferecem salão de beleza (*ou são no próprio salão*) para as meninas, que ficam sentadas sendo "embelezadas", enquanto os meninos brincam. Agora, Júlia me conta que é o que SEMPRE acontece.  


Na escola que ela frequenta, as turmas de Infantil 3 e 4 ocupam o mesmo espaço, são crianças entre 4 e 6 anos na média. É um caso isolado este da maquiagem?  Não.  Dia desses, as crianças da escola foram assistir uma peça de teatro e Julia começou a insistir que deveria ir de tênis.   Ela raramente usa tênis, está quase sempre com sandálias confortáveis e bonitinhas.  Daí, ela reforçou que a professora orientou as crianças a irem de tênis, que não queria que fossem de salto.  Quem usa salto?  Meninas. Lembrei de pronto do documentário "Criança, a Alma do Negócio" e não fiquei feliz.  O trailer aí embaixo.  é fácil achar o documentário:


Este documentário, que é muito bom, aliás, fala sobre propaganda e seus efeitos sobre as crianças.  Efeito número um, claro, o consumismo.  Efeito número dois, muito abordado no documentário, a adultização precoce das meninas.  Meninas não crescem mais cedo, elas são pressionadas pela VERDADEIRA "ideologia de gênero", porque se ela existe está aqui, nesse hegemônico socialmente aceito, a emularem um modelo de feminilidade objetificada, pois o valor de uma mulher é medido pela sua aparência e ela nunca é naturalmente bonita, ela precisa, via de regra, fazer alguma intervenção para se tornar mais palatável.  


Daí, enquanto meninos de 11 a 13 anos continuam, na média, fazendo as coisas que crianças fazem, as meninas estão metidas, talvez desde antes, em saltos que não as deixam correr direito, maquiadas para parecerem adultas, ou vestidas como suas mães, ou tias, ou primas bem mais velhas.  Brincar?  Para muitas é um absurdo. As coisas parecem estar mudando, verdade, mas as experiências que Júlia me conta do dia-a-dia de sua escola, me apontam que não mudaram o suficiente, aliás, pode ser que estejamos em uma onda de backlash mesmo... De repente, é isso... Enfim, minha menininha de quase cinco anos acha essa história de brincar de salão uma besteira, vamos ver se, no ano que vem, ela vai querer aderir às "tradições" do Infantil 4.

sexta-feira, 21 de setembro de 2018

Mais um mangá de Akiko Haigashimura anunciado nos EUA


Akiko Higashimura é uma das mangá-kas mais bem sucedidas da atualidade e o terceiro de seus mangás foi anunciado nos EUA, Kakukaku Shikajika  (かくかくしかじか).  A série tem cinco volumes e caráter autobiográfico, pois conta como a autora começou a desenhar no terceiro ano do colegial e terminou por se tornar uma mangá-ka.  O mangá venceu o 8º Manga Taishou em 2015 e o grande prêmio para um mangá no 19º Japan Media Arts Festival.  Além de outras indicações.  Nos EUA, a série será lançada pela Seven Seas com o nome de Blank Canvas: My So-Called Artist’s Journey.  As outras duas séries de Higashimura publicadas nos EUA foram Kuragehime (海月姫) e   Tokyo Tarareba no Musume (東京タラレバ娘), ambos pela VIZ.  Enquanto isso, aqui no Brasil... 

Comentando Claudine de Riyoko Ikeda


Esta semana chegou minha edição americana de Claudine...! (クローディーヌ...!), um volume único, de 1978, que, para mim, fecha a série das grandes heroínas de Ikeda nos anos 1970: Oscar, Rei Asaka (Saint-Juste), Julia/Julius e Claudine.  É possível observar na quatro a evolução do traço da mangá-ka e gosto de brincar que Ikeda escalou a mesma atriz para os quatro papéis, porque, bem, elas são muito parecidas fisicamente.  Prometo fazer um texto sobre elas em breve.  De qualquer forma, Claudine é um marco por tocar em uma questão praticamente silenciada à época, a transsexualidade, e foi publicado em uma revista para meninas bem jovens, a Margaret.  

A história de Claudine Montesse se passa na primeira metade do século XX, na França, e é narrada por seu psiquiatra, de quem não sabemos nem o nome.  Ele conhece a paciente aos dez anos e reconhece nela uma criança notável conduzida por uma mãe medíocre.  Acabam se tornando amigos.  Claudine queria ser tratada por Claude, se dizia presa em um corpo feminino, e desde os oito anos só queria vestir roupas masculinas.  A mãe se preocupava, mas o pai estimulava a filha em seus comportamentos viris e via nela um retrato de si mesmo, ao contrário dos três filhos mais velhos que teriam saído à mãe.

O primeiro encontro com o médico.
A adolescência agrava o drama de Claudine.  Sua vizinha e amiga, Rose Marie, a ama, mas é ignorada pela protagonista.  O primeiro amor de Claudine é uma jovem criada chamada Maura, que é afastada dela pela família.  Mais tarde, ela se encanta pela bibliotecária de seu colégio, uma mulher mais velha, Cecilia, e termina por descobrir que seu próprio pai, que a protagonista venera, mantém um relacionamento um tanto sórdido com Cecilia e o irmão da moça, Louis.  A coisa termina em desgraça, mas não darei spoilers. 

Findo o colegial, Claudine segue para Paris e encanta a universidade com seu intelecto brilhante.  Lá, conhece uma moça chamada Sirene, seu derradeiro amor.  Elas chegam a morar juntas sob o disfarce de serem colegas de faculdade, mas a tragédia se impõe quando Sirene termina se apaixonando por um homem, pior ainda, pelo irmão mais velho da protagonista.  Claudine termina por sentir o peso de sua imperfeição e nem mesmo o apoio do psiquiatra e amigo, ou o amor de rose Marie, conseguem evitar o desdobramento sombrio da história.
Rose Marie ama e não é amada.
Eu tinha lido Claudine mais de dez anos atrás.  Foi uma das traduções do Lililicious, grupo especializado em traduzir material yuri e shoujo-ai.  Tenho o volume em japonês em alguma das minhas estantes, também.  De qualquer forma, não me lembrava que em tão poucas páginas Ikeda tinha construído uma história tão densa, ainda que com todos os clichês típicos do shoujo mangá e da própria obra da autora.  A protagonista loira (Claudine), a beldade de cachos (Rose Marie), o fato de todos ficarem fascinados por Claudine, por sua beleza e inteligência. 

Há as pequenas maldades de Rose Marie contra Maura, movida pelos ciúmes, que são o toque infantil em uma obra adulta cujo diferencial é a angustia da personagem principal, sua inadequação diante do mundo e sua ânsia por viver e ser amada, na verdade, amado.  E vou tratar o protagonista no masculino doravante. Sim, fica claro desde o início que Claudine é um homem trans. Ele não se vê como uma mulher, mas como um homem.  Tanto na tradução da editora, quanto nas scanlations, a palavra transsexual aparece.  Teria que ver se no japonês como está.  Mas o fato é que essas discussões sobre gênero, identidade e sexualidade fascinavam as autoras da geração de Ikeda e elas, em sua maioria mulheres cultas e sensíveis, tentaram trabalhar com esses temas tabu da melhor maneira possível e em mangás que, à princípio, seriam voltados para adolescentes.
Sirene, a mulher da vida de Claudine.
O peso de ser vista como um homem incompleto, a traição da amada, são coisas que o destroem.  Agora, o que eu mais odiei, que me ofendeu mesmo, foi a arrogância masculina do irmão de Claudine ao dizer que Sirene tinha lhe contado e que PERDOAVA as duas.  Sabe quando você quer tomar as dores de uma personagem?  Eu tive vontade de entrar dentro da história e dar na cara dele e lembro que senti o mesmo quando li as scanlations.

Ikeda poderia ter alongado mais a história.  Curioso é que eu lembrava dela mais longa.  O fato é que salvo Claudine, Rose Marie e, talvez, Sirene, as personagens não são aprofundadas.  Elas meio que passam pela história.  Algumas delas conseguem ser coadjuvantes convincentes, o pai e a mãe do protagonista, por exemplo.  Mas o irmão, que tem um papel tão relevante na história, é somente rascunhado.

Traição.
Falando da qualidade da edição da Seven Seas, ela é muito bem acabada e em um formato maior que possibilita a apreciação da arte de Ikeda em detalhes.  Claudine jé traz o traço quase anos 1980 da autora.  Quem me conhece sabe que é o traço que eu não gosto, mas ainda tem a beleza da arte de Ikeda dos anos 1970.  É um bom mangá e é bonito, também.  Traz discussões que ainda são contemporâneas e duvido que não tenha sido o primeiro quadrinho do mundo a discutir de forma série a transsexualidade.  aliás, duvido que algum outro tenha retratado o tema por qualquer ângulo antes.

A tragédia do final não tem função moralizadora, mas é uma espécie de grito contra a intolerância.  Quantas pessoas LGBT tiram suas vidas por não serem aceitas?  Compreendidas?  Por serem vistas como imperfeitas?  Pecadoras?  Claudine queria viver, mas o peso e a dor eram grandes demais.  Triste é que ela era amada, mas nunca conseguiu perceber Rose Marie como nada além de uma amiga.  Enfim, se você não leu Claudine, o mangá tem scanlations faz tempo.  Se quiser comprar a edição da Seven Seas, o link para o Amazon é este aqui.

quinta-feira, 20 de setembro de 2018

La Corda D'Oro, uma série shoujo para quem curte música, romance, magia e torneios


La Corda D'O, ou Kiniiro no Corda (金色のコルダ), é uma daquelas franquias shoujo bem sucedidas que mereciam mais atenção, inclusive minha, do que recebem.  Tudo começou com um jogo tipo RPG para a série Neoromance da Koei, em 2003.  Depois, veio a primeira o mangá de Yuki Kure, para a revista LaLa, em 2004.  A primeira série, lembro que cheguei a ler alguma coisa, tinha um traço muito bonito.  Já em 2006, estreou a primeira animação, que eu assisti em parte.


A série começa com aquela nossa garota comum, mas esforçada, Kahoko Hino, que estuda na seção comum da Academia Seiso.  Comum, porque há uma parte somente para alunos e aluna sdotados de talentos musicais.  Um dia, Kanoko encontra uma fada que lhe dá um violino mágico.  A menina tinha sido escolhida por ela para participar da competição anual de jovens talentos.  A menina resiste, mas termina aceitando, só que o diferencial da oferta é o seguinte, Kanoko poderia ir longe, verdade, mas ela precisava treinar e treinar muito, porque a mágica era somente um auxílio, não iria fazê-la vencer.  Esse foi o aspecto da história que mais gostei.  De resto, temos um harém de bishounen lindos orbitando a garota, cada um tocando seu instrumento, cada um com sua própria história, um ou outro com mais chances com ela, e temos algumas garotas, também.


O visual do mangá e do anime são muito bonitos. E eu só estou falando dela, porque o Comic Natalie publicou um post sobre os mangás de La Corda D'Oro estarem disponíveis para leitura gratuita no Japão por um tempo limitado.  Sim, porque são QUATRO séries de mangá, Kiniiro no Corda, Kiniiro no Corda Blue♪Sky (金色のコルダ Blue♪Sky), Kiniro no Corda ~Daigakusei Hen~ ( 金色のコルダ 大学生編), uma prequel (*o violino mágico passava de geração em geração, afinal*)  Kiniro no Corda 4.  


E jogos?  A wikipedia lista NOVE.  Animações?  Além da primeira temporada, La Corda d'Oro: Primo Passo, tivemos La Corda d'Oro: Secondo Passo (2006/2007) e La Corda d'Oro Blue♪Sky (2014).  A trilha sonora é um dos destaques de todas as séries de La Corda D'Oro.  Recomendo muito.


Segundo o CN, em comemoração ao lançamento de novos jogos de La Corda D'Oro em 2019, a série Blue Sky estará disponível em uma das plataformas japonesas gratuitamente para quem quiser assistir até 23 de setembro.  No caso dos mangás, são mais de 200 capítulos de quadrinhos para ler.  Da série, nada chegou ao Brasil.  Alguma coisa do mangá foi publicada no Ocidente.

Três notinhas sobre O Tempo Não Para e Orgulho e Paixão


Estive muito ocupada nesses últimos quatro dias e não tenho conseguido postar no blog com qualidade.  Vou escrever pelo menos mais um longo texto sobre Orgulho e Paixão, prometo, ainda que somente o capítulo 14 merecesse um texto somente para ele, enfim.  Três notinhas:

Juliano Laham e Pedro Henrique Müller
adoram alimentar o fandom.
1. Os fãs de Luccino e Otávio (*Lutavio, mas odeio essas misturas carinhosas, acho feio mesmo*) estão fazendo um abaixo assinado e muita pressão para que a Globo lance uma web série com as personagens.  Sim, é possível, ainda que eu não saiba se a emissora estará disposta, ou os atores disponíveis.  Já houve uma web série com a personagem Mão de Luva, que era interpretado por Marco Ricca, e foi uma das melhores coisas de Liberdade Liberdade.  Enfim, para assinar a petição, clique aqui.  Esses dois personagens despertaram a fujoshi adormecida em mim desde Yuri!!! on ICE ( ユーリ!!! on ICE).  Gosto muito da forma como o autor - Marcos Bernstein - trabalha o romance dos dois.

Torço para que Ludmila faça como
Olímpia, mas acho que não fará.
2. Ainda Orgulho e Paixão, se você está acompanhando os últimos capítulos deve saber que a mulherada está toda engravidando.  Normal, afinal, não havia métodos anticoncepcionais muito seguros e todo mundo nessa novela, ou quase todo mundo, parece adorar fazer sexo. Não me surpreenderia, aliás, se até a Julieta (Gabriela Duarte) terminasse a trama grávida.  Enfim, mas Ludmila, a ótima Laila Zaid, continua sendo uma personagem feminista modelo e levantando bandeiras importantes, ela não quer ter filhos. Há mulheres que não tem vocação para a maternidade.  Há mulheres que veem a maternidade como um problema.  

Essas mulheres sempre existiram e não são anormais por causa disso.  Terrível é ter que ter filhos para satisfazer a sociedade, como se gerar outro ser dentro de si fosse coisa pouca e cuidar de uma criança fosse como brincar de boneca. Pois bem, mas Januário  (Silvio Guindane), seu parceiro, quer ser pai, ele inclusive aventou que ela não queria um filho por preconceito racial.  Uma personagem simpática, virou um chato e estamos, agora, em um impasse.  Não sei como o ator irá resolver, até porque a própria atriz está esperando um bebê, mas será muito lamentável se a personagem se curvar ao desejo do parceiro, porque vai se chocar com a própria lógica de empoderamento feminino da novela.  

Olímpia queria ser livre, Edgar queria
um relacionamento mais tradicional.
Só recordando, em Tempo de Amar,  novela das seis anterior, Olímpia (Sabrina Petraglia) era a feminista modelo da trama, sim, era esse o tom, ela tinha um noivo, Edgar (Marcello Melo Jr.); ele queria casar, ela queria continuar livre dessas amarras formais.  Curiosamente, ela era branca, ele negro, igualzinho Ludmila e Januário, com a diferença de que Edgar era um homem rico. Como a novela anterior resolveu?  Olímpia não cedeu, Edgar foi e arranjou uma mulher mais ao seu gosto.  Ela foi feliz com suas escolhas, ele, também, ao que parece.  Espero que Bernstein não dê uma derrapada logo com a única feminista burguesa bem resolvida de sua trama.

Cairu será uma personagem positiva, ou demonizada?
3. Manchete do Jornal O Dia "Última a ser descongelada em 'O Tempo Não Para', Cris Vianna acorda após 45 capítulos - Atriz conta que Cairu já chega causando na novela das sete e usa seu lado sensual para conseguir o que quer. "Sempre vi a sensualidade como algo natural em mim", afirma".  Meus dois centavos sobre a personagem e a trama que a envolve: como Dom Sabino é uma personagem positiva (*graças, em parte, ao ótimo trabalho de Edson Celulari*), apesar de ser dono de escravos em 1886 e ter mantido seu próprio filho bastardo em condição de escravidão, periga esta personagem negra "afrontosa" ser colocada em posição de vilania. Aliás, o moço era um dos tipos mais degradados de escravo, um "tigre", vejam o fragmento de diálogo abaixo:
"O sinhô abandonou ele à própria sorte", acusará ela. "Sempre olhei por meu filho", retrucará o personagem de Edson Celulari. "De que jeito? Deixou ele virar tigre! Escravo da pior qualidade, aquele que carrega no lombo as porcarias", enfrentará Cairu.
Fora esse "detalhe" acima, se a matéria do jornal O Dia estiver correta, ainda vão usar Cairu como a mulher negra sensual e que usa seu corpo para conseguir o que quer. O texto ressalta que as escravas Mina eram cobiçadas "por sua beleza e desenvoltura". Enfim, mulheres escravizadas não tinham alternativa, ainda que pudessem efetivamente ter relacionamentos amorosos com seus "donos", elas estavam em condição de sujeição, eram "coisa". Boa parte do que ocorria seria visto como estupro puro e simples aos nossos olhos. 

O excelente Maicon Rodrigues mais uma vez no papel
do jovem que não sabe que é filho do patrão branco. 
Pelo menos, em O Tempo Não Para,
o pai que não o assumia o tratava com todo afeto.
Agora, durante muito tempo, mesmo intelectuais, vide Casa Grande e Senzala, Gilberto Freyre, louvavam a miscigenação racial, algo que em sua época era, sim, nadar contra a corrente da eugenia, mas anulavam a violência desses "encontros" entre homens brancos e mulheres negras escravizadas.  Aliás, a violência mais enfatizada pelo autor nessa relação normalmente era a da mulher branca, frígida, sem atrativos sexuais, "estragada" por muitas gravidezes, contra as mulheres negras; 
Não são dois nem três, porém muitos os casos de crueldade de senhoras de engenho contra escravos inermes. Sinhá-moças que mandavam arrancar os olhos de mucamas bonitas e trazê-los à presença do marido, à hora da sobremesa, dentro da compoteira de doce e boiando em sangue ainda fresco. Baronesas já de idade que por ciúme ou despeito mandavam vender mulatinhas de quinze anos a velhos libertinos. Outras que espatifavam a salto de botina dentaduras de escravas; ou mandavam-lhes cortar os peitos, arrancar as unhas, queimar a cara ou as orelhas. Toda uma série de judiarias. (Freyre, 1984, p. 337)
Com todo o respeito que Freyre merece, afinal, ele era, sim, um grande intelectual, o primeiro a defender os quadrinhos da perseguição sofrida no Brasil, só para constar, isso não o eximia de  ser um machista como outro qualquer.  Voltando para O Tempo Não Para, olhando a descrição, percebo ecos da Rosa (Léa Garcia) de Escrava Isaura, a original, não a da Record, em Cairu.  


Rosa não foi perdoada pelo público.
Rosa era revoltada, usava das armas que tinha, seu corpo em oposição à casta e pura mocinha, e, portanto, era má, invejosa, e merecia morrer.  Aliás, sua morte foi celebrada com festa nas casas brasileiras, a atriz até fala sobre isso no documentário A Negação do Brasil, mas não localizei a parte exata.   Enfim, só vejo fragmentos de O Tempo Não para agora, mas a novela continua me incomodando muito.  Segundo li na coluna do Nilson Xavier, a trama parece ter estagnado, algo que eu imaginei que ocorreria, e a audiência caiu um pouco.  Cairu talvez venha para agitar as coisas, espero que do jeito certo.

terça-feira, 18 de setembro de 2018

Não ia falar de política, mas minha mãe e minha avó me obrigam.


Ontem, o candidato à vice-presidência pelo PSL, o general Mourão, explicou em uma palestra as razões da violência e criminalidade em nosso país:
“Família sempre foi o núcleo central. A partir do momento que a família é dissociada, surgem os problemas sociais que estamos vivendo e atacam eminentemente nas áreas carentes, onde não há pai nem avô, é mãe e avó. E por isso torna-se realmente uma fábrica de elementos desajustados e que tendem a ingressar em narco-quadrilhas que afetam nosso país”, afirmou ele em evento do Sindicato da Habitação (Secovi), em São Paulo.
Acho compreensível que um candidato conservador, e não estou tecendo critica alguma nesta frase, pontue a importância da família heteronormativa como base da sociedade.  É importante até que o faça, aliás, é o que se espera de quem está nesse espectro político. No entanto, é terrível ver que a fala acima (*e há o vídeo aqui, para quem quiser*) culpabiliza as mulheres pela violência e várias outras mazelas sociais ao pontuar que "onde não há pai nem avô, é mãe e avó. E por isso torna-se realmente uma fábrica de elementos desajustados".  


Vejam bem, aproximadamente 11,6 milhões de mulheres chefiam lares em nosso país, na maioria das vezes, não se trata de escolha, mas de necessidade.  O marido foi embora.  O pai nunca se fez presente.  O marido constituiu outra família e esqueceu dos filhos do primeiro casamento.  O pai morreu.  Meu marido brinca com isso dizendo que ter pai é um luxo e é bem uma verdade.  Ao invés de louvar o esforço dessas mulheres que se esforçam muito para cuidar das necessidades de suas crianças.  Mulheres em sua maioria pobres, às vezes abandonadas com seus filhos no ventre e que não os abandonaram, tampouco se tornaram criminosas buscando um aborto, elas são culpabilizadas pela violência.  Tente somente imaginar se todo filho sem pai, criado por mãe, vó, tia, descambasse para o crime?  O problema não é a mãe que assume, é o pai que abandona.

Enfim, seria mais decente falar da ausência do Estado, da evasão escolar, da falta de oportunidades para que jovens pobres possam ter uma profissão.  Aliás, como candidato seria interessante falar de projetos nessa área.  Seria, também, interessante chamar os homens à responsabilidade, afinal, há mais de 5,5 milhões de crianças brasileiras sem o nome do pai na certidão de nascimento.  Mas a maioria dos que declaram voto na voto na chapa do PSL são homens, então, melhor esquecer do óbvio e reforçar o discurso misógino.


Mas escrevi que minha mãe e avó me obrigavam a escrever, porque mamãe deixou comentário no meu Facebook, exatamente na matéria que estou linkando aqui.  Meu avô materno morreu com 28 anos em um acidente.  Minha avó ficou com cinco crianças, a mais velha, minha mãe, tinha cinco anos.  O caçula, nasceria seis meses depois da morte do pai.  Minha avó costurou para fora, foi operária, enfim, trabalhou muito para sozinha educar cinco crianças.  Morava na Baixada Fluminense, juntou dinheiro, comprou terreno, construiu um barraco que depois virou casa em um bairro sem ruas asfaltadas.  Seus filhos tinham que andar muito para chegar até a escola, buscar água na mina subindo morro e descendo morro, mas era necessário.

Minha mãe começou a trabalhar fora em fábrica aos 14 anos.  Meus tios vendiam doces depois da escola para ajudar nas contas.  Minha avó juntava as moedinhas para poder colocar os filhos para estudar música, todos cinco aprenderam algum instrumento (*ou mais de um*), cantam em algum coro, ou são regentes.  Seu maior orgulho, nenhuma de suas crianças se perdeu.  Ela formou duas professoras, dois militares, um pastor, todos ajustadinhos ao modelo conservador, heteronormativo mais desejável.  Daí, vem um homem que teve todas as vantagens possíveis, afinal, já nasceu filho de general, e joga na nossa cara essa fala de quem não tem o mínimo de compreensão do mundo para além de seu umbigo, ou de amor ao próximo. Sim, é isso.


Essa é a história da minha avó materna.  Poderia contar a história de outras mulheres.  Minha avó paterna foi abandonada em Sergipe com quatro meninos pequenos, porque meu avô decidiu montar outra família.  Nenhum dos quatro se perdeu, também. Mas deixo esse caso para outro dia.  Você talvez seja mãe ou avó que nunca teve um homem em casa para "salvar" os filhos do desajuste social.  Eu fiquei muito feliz quando mamãe veio e comentou, porque espero que outras mulheres parem para refletir e se indignar contra esse senhor e seu cabeça de chapa.  Não importa em quem você vai votar, mas como mulher espero que perceba o quanto de misoginia habita dentro desse senhor que pode vir a ser vice-presidente, ou mesmo, dado os impulsos golpistas, presidente do país.

É isso mesmo!  #EleNão #EleNunca, porque sou mulher, porque tenho uma filha, porque honro o esforço da minha avó materna, e de tantas outras mulheres, porque espero que o futuro seja melhor para todos nós, homens e mulheres.  E se você acredita que isso desqualifica o Shoujo Café, desculpe, leia a descrição do blog, trata-se de um site feminista, sempre foi, desde sua criação, e eu não posso me esquivar de comentar certas coisas.