terça-feira, 31 de julho de 2018

Para quem quiser ouvir o Shoujocast


Lá em 2009, eu decidi criar um podcast.  Começou de forma bem precária.  Aí, o amigo Anderson sugeriu um nome "Shoujocast".  Vieram companheiras, a Lina Inverse, depois a Tanko e, por fim, a Tabby e, bem, fizemos 52 programas.  Pouco, eu sei, mas as agendas desencontraram.  Sempre penso em voltar, mas ainda não houve como.  Bem, eu queria disponibilizar os programas, mas descobri que não tinha todos. Perguntei se a Lina tinha.  Ela organizou tudinho e disponibilizou para download (*AQUI*).  Tudinho, não, faltou o programa 52, então, coloquei no Youtube.



Eu parei para escutar um dos meus programas favoritos o duplo sobre Orgulho & Preconceito e foi um prazer muito grande ouvir a voz das amigas queridas e da convidada especial, a Adriana Salles.  Que conversa legal foi aquela.  Enfim, se você quiser relembrar, ou conhecer o Shoujocast, esta é a oportunidade.

segunda-feira, 14 de maio de 2018

O que era normal para um otaku 30 anos atrás e deixou de ser? Os japoneses respondem.


O Sora News publicou e comentou uma pesquisa do Gooranking sobre o que era ser um otaku “nos tempos heroicos” e como a coisa é hoje.  Como os resultados são engraçados, e estamos em ritmo de Wotakoi, decidi publicar aqui.  A pesquisa foi feita com 500 pessoas, homens e mulheres, entre 20 e 39 anos.  Deveria ter gente mais velha, gente que começou lá em meados dos anos 1970 com Yamato  (宇宙戦艦ヤマト, Uchuu Senkan Yamato/Star Blazers/Patrulha Estelar) e Gundam  (機動 戦 士 ガ ン ダ ム, Kido senshi Gandamu), mas vamos lá:

1. Se você gostava de anime, as pessoas achavam que você era melancólico. (68 respostas)
2. Não era "BL", era "yaoi" e não eram "fujoshi", eram "dojin onna". (52 respostas)
3. As pessoas não se chamavam de “otaku”. (47 respostas)
4.  Você compraria dojinshi por ordem postal. (46 respostas)
4. Quando você dizia às pessoas que você gostava de anime, elas lhe olhavam de forma estranha. (46 respostas)
6. Na contracapa do dojinshi, você veria o nome de verdade da pessoa que o desenhou e o endereço real. (44 respostas) – Sei lá, pseudônimos são usados faz tempo.  O endereço, claro, você precisava dele para entrar em contato, mas nome real??? 
7. Idols não tornavam público que eram otaku. (43 respostas)
8. Você tinha que correr para casa, porque os animes eram exibidos em horário nobre (prime time).  (40 respostas)
9. Você assistia seu anime favorito gravado em fita-cassete, repetidamente, até que a própria fita se destruía. (39 respostas)
10. Não havia tantos cosplayers quanto existem agora. (38 respostas)

Lembram disso?
Se você fosse brasileiro e otaku nos anos 1980 e 1990, acrescentaria:

- Você dependia das revistas informativas de anime e mangá, acreditava em muitas bobagens que eram escritas ali, porque não tinha como confrontar informações.
- Você assistia qualquer anime que passava na TV por ser anime, era como encontrar água no deserto.  Não importava se era bom, ou ruim, era anime.
- Você ia para reuniões com gente esquisita (*como você*) para assistir anime e tokusatsu (*live actions em geral*) sem legenda, porque, bem, era o que tinha.
- Você virava amigo/a de qualquer pessoa que gostasse de anime como você e lembrasse de alguma série que passava na TV quando você era criança.  E, claro, vai depender de quando você foi criança.  Dia desses, uns colegas de trabalho quarentões estavam me perguntando se eu via "Patrulha Estelar".
- E, claro, nesse meio tempo inventaram os fansubers.  Se você já trabalhava, como eu, ou tinha pais que bancavam seu vício, era uma alegria quando chegavam as vitas-cassete na sua casa.  Qualidade variava muito, do excelente, ao horrível, mas quem se importava?  E legenda?  Nem sempre vinha em português... 
-  E, mais importante, a maioria de nós nem saberia direito o que o termo "otaku" - fanático por alguma coisa - significava.  Nos anos 1980, você jamais o usaria.  Nos anos 1990, talvez você começasse a usar sem saber, mas alguém iria apontar que era um termo pejorativo e você poderia ficar entre confuso e furioso.  O fato é que os americanos começaram a usar e a gente embarcou, também.  Hoje, até os japoneses parecem lidar melhor com o que já foi uma ofensa séria.

Graças às Techno Girls eu
conheci uns animes maravilhosos.
Coisas que eu fiz:

- Você perdia um tempo considerável discutindo com gente que não conhecia, nem queria conhecer, a maioria homens, que tentavam dar carteirada de especialista em você em listas de discussão do Yahoo.  E, claro, se você dissesse que era pelo fato de "ser mulher", você era uma histérica.
- Você montou um grupo de discussão de shoujo (Tomodachi no Shoujo) para tentar criar um lugar amigável para fãs da demografia.
- Você entrou em um plano mirabolante com um sujeito (*com quem você terminou se casando*) para conseguir as fitas de um fansuber canadense da Rosa de Versalhes (ベルサイユのばら).  Você enviou dinheiro dentro de um envelope para o exterior (*evasão de divisas*), porque não havia paypal e outras coisas semelhantes nesse tempo.
- Você queria entrar para uma lista de discussão do Yahoo que era tão seleta, mas tão seleta, que só aceitava pedido de admissão por carta física.  E, sim, você mandou a carta para os EUA e lhe aceitaram no grupo, as Techno Girls.  Elas foram as primeiras a legendar Ace Wo Nerae (エースをねらえ!) e Oniisama E... (おにいさまへ…).
- Você leu Shoujo Kakumei Utena (少女革命ウテナ) e A Rosa de Versalhes com o mangá em japonês em uma mão e o script em inglês na outra.  Sim, não foi em scanlation, foi desse jeito aí.
- E quando você começou a ter internet, em 1998, acho, parecia o paraíso.  Você poderia ter acesso a um monte de informações, conversar com gente do mundo inteiro, e demorava horas para baixar qualquer coisa.  E quando a linha caía?  E quando você não tinha como continuar?  Episódios de anime de 5 mb demoravam 6 horas para vir.
- E como esqueci?  Quando eu estava no 1º Ano, 1990, desviei meu dinheiro de merenda e da passagem de ônibus para comprar o álbum e as figurinhas do anime Zillion (赤い光弾ジリオン/ Akai Kōdan Jirion).  Passei a ir à pé para casa.  Quando mamãe descobriu, não prestou, claro... 

E você?  É "otaku" das antigas?  O que você se lembra que acontecia, ou você fazia, e, hoje, não é mais comum?

sexta-feira, 27 de abril de 2018

Especial Dia Mundial do Livro do Amazon: Algumas sugestões


O Shoujo Café está registrado no Amazon.  Eu nunca ganhei nada, nenhum tostãozinho, mas, enfim, eles estão em uma campanha do "Dia Mundial do Livro".  Entre 22 e 27 de abril, o site estará com várias promoções.  Incluindo frete grátis e tudo mais.  Vou dar as diretrizes da promoção e o site oficial é este.  Depois, coloco alguns links de mangás e livros que, se vocês comprarem, irão contribuir aqui para o Shoujo Café (*ou não, ainda não resultou em ganho algum mesmo...*).

Livros: Cupom FRETE GRÁTIS: Utilize o código de desconto FRETEGRATIS na conclusão da compra para obter frete grátis para todos os livros vendidos e enviados pela Amazon (não inclui marketplace).  Livros impressos com até 80% de desconto.

eBooks:  Livros digitais com até 80% de desconto.

Agora, seguem as tais sugestões:  
  • Comecemos por Orange #6, que a JBC acabou de lançar, está R$13,50.  Se você não leu o resto da série, há um box com os volumes 1-5 por R$46,50.  A série vale cada centavo e tem resenha no blog.
  • Agora, dois mangás em versão digital: Wotakoi vol.1, o anime está no ar, a série é ótima, resenho em breve este livro, e eu realmente acredito que apareça no Brasil; se quiser ler um mangá Harlequin de qualidade, A Lover's Kiss, de Yoko Iwasaki, é um bom lugar para começar.
  • Mangás estrangeiros impressos?  Duas recomendações: Ōoku vol. 1, que é excelente e pode ser lido como um one-shot; e Gekkan Shoujo Nozaki-kun vol. 1, a versão digital é bem baratinha e vale assistir ao anime, também.
  • Entre Irmãs - Se você viu o filme, ou a minissérie, recomendo a leitura.  Estou devendo a resenha.  De R$49,90 por R$35.
  • A Guerra não tem Rosto de Mulher - Relatos das mulheres soviéticas na II Guerra Mundial.  Eu resenhei aqui.  Está baratinho em versão digital (12,36) e bem acessível e formato normal (26,90).
  • Já que estamos em ritmo de Jane Austen por causa da novela das seis da Globo, recomendo (CLARO) a leitura dos livros da autora.  A Martin Claret tem edições bem cuidadas e em versão separada ou conjugada: Razão e Sensibilidade, Orgulho e Preconceito, Persuasão (35,60) e Mansfield Park, Emma, A Abadia de Northanger (44,62).  São as versões capa dura, mas vocês podem navegar para as edições normais.  Já pela L&PM há Lady Susan e Outras Histórias por R$11,90.  Mas, se puder, leia tudo em inglês.
  • Já que o livro está fazendo 150 anos, BBC fez nova minissérie, que tal ir de Little Women?  Em inglês em formato digital por R$4,50, ou em português, embora eu não conheça esta tradução em particular.
  • Se estamos em clássicos, Jane Eyre é um dos meus favoritos.  Em inglês (*digital*), ou em português (*não conheço a tradução*).
  • Lembrei do meu post Sobre Devaneios e Três Pragas Literárias, então, recomendo: O Rei de Ferro. Série os Reis Malditos - Volume 1, que parece estar esgotado, mas vocês podem comprar usado, aliás, até no Estante Virtual, deve haver trocentas edições diferentes;  Daniel Deronda, somente em inglês; e Os Pilares da Terra, que por R$37,70 está ótimo.  Claro que se puder ler em inglês, melhor.
  • Da série Muito Além do Mangá: Rosa Vermelha está R$17,80; A Morte de Stálin está R$33,90; Olympe de Gouges está caro ainda, custa R$71,60; Bordados está R$37,43; e Aya De Yopougon - Vol. 1 por R$28,80.  E eu nunca comentei nada do Guy Delisle, que é muito, muito bom, então recomendo Crônicas de Jerusalém (*acho mais útil para entender a questão árabe-israelense do que muito livro "sério" por aí*) e Pyongyang. Uma Viagem a Coreia do Norte.  Há mais coisas dele em português, acho que gostando de um, vai comprar outros.  E, bem, há Persépolis e Maus que são muito, muito bons, também.
  • Por fim, como está para começar a segunda temporada, recomendo O Conto da Aia, de Margaret Atwood.  Estou devendo mais resenhas do seriado de TV e do livro.
Agora, se quiser realmente ajudar, compre o meu livro, tem a capinha dele em destaque no blog.  Há vários artigos interessantes, de diferentes pesquisadores/as e, bem, eu tenho uns 20 volumes ainda por vender.  É isso!

quarta-feira, 25 de abril de 2018

E uma Princesinha entrou para a História ontem...


Ontem, nasceu mais um neto da rainha da Inglaterra.  #royalbaby esteve nos trending topics do Twitter quase o dia todo.   Não se sabia o sexo do bebê do Príncipe William e de Kate Middleton e, pelo menos na Grã-Bretanha, havia grande expectativa a respeito.  Se fosse um menino, pela primeira vez na História do país, ele não tomaria o lugar de sua irmã da sucessão ao trono.  A mudança ocorreu graças ao The Succession to the Crown Act 2013 (c. 20) que substituiu a primogenitura-masculina pela primogenitura absoluta.  Quem estava na fila antes ficaria, mas, daí para frente, valeria a nova lei.  

A Inglaterra não é o primeiro país a fazer tal mudança.  Todos os países nórdicos, além de Holanda e Bélgica, modificaram sua legislação para dar igualdade às mulheres.  Lendo o artigo da Wikipedia sobre o assunto, acabei descobrindo que esse Ato da Coroa foi apelidado de Downton Act por causa da série da ITV que mostrava a injustiça da exclusão das mulheres da sucessão de um título de nobreza.  Enfim, você pode achar uma bobagem, mas pense que gerações de mulheres foram excluídas da linha de sucessão (*Lai Sálica*), ou perderam seu lugar na fila simplesmente por serem isso, mulheres.  E há os casos nos quais, mesmo com a inexistência de herdeiros homens, as mulheres tiveram seus direitos contestados.  Caso de Matilda, filha de Henrique I, Rei da Inglaterra.  Claro que ela não engoliu o desaforo e foi à guerra por seu direito, mas não sentou no trono, simplesmente, o garantiu para seu filho.


Até hoje, há quem queira justificar esse tipo de prática absurda em nome da tradição, como se tais "tradições" não vivessem sendo inventadas e reinventadas ao sabor dos tempos.  Quem ainda se lembra de que boa parte das monarquias já foram eletivas?  Os nobres votavam entre eles e elegiam o próximo monarca.  Ou que há outras formas de marcar a sucessão para além da primogenitura.  Aliás, quantos problemas foram gerados, porque o filho mais velho era um incompetente, mas, por ser mais velho, deveria sentar no trono?  Enfim, o fato é que, pela primeira vez na História da Inglaterra, um irmão caçula não passará a frente de sua irmã por ser menino.  E, olha a ironia, apesar de ter nascido no dia de São Jorge, Padroeiro do país, não poderá se chamar George, também... 

Enfim, mas não escrevi esse texto (*que está atrasado por excesso de trabalho*) por nada, quero fazer uma ponte com um mangá que aborda questões semelhantes, N.Y. Komachi (N・Y・小町), de Waki Yamato.  Nesta série, que se passa na Era Meiji, a autora de Haikara-san ga Tooru (はいからさんが通る), conta a história de Shino, uma moça rica que, por não ter um irmão, foi educada para herdar tudo o que era de seu pai.  O patriarca frustrado também a educa para ser o filho que não teve.  


Shino tem professores especiais, é excelente aluna na escola, frequenta o dojo.  Só que, um dia, nasce um irmão e o pai quer apagar qualquer vestígio na moça de que, um dia, ela foi o "filho perfeito".  Ele quer que ela saia da escola, ele quer que ela deixe de praticar artes marciais e anuncia que vai lhe arranjar um marido.  Ela se revolta e foge de casa.  Se esconde em um navio e termina na América... Obviamente, ela tem um interesse amoroso, um americano que a ama, também, só que ambos acabam descobrindo que casamentos mistos não são lá muito bem vistos nos EUA, esse país que parece tão moderno... 


Scanlations?  Não, infelizmente.  De qualquer forma, era somente para ilustrar o quanto essa questão de perder a vez par a um irmão, ou primo, vide o caso da princesa japonesa Aiko, é somente mais uma das formas do patriarcado de "colocar as mulheres no seu lugar", isto é, de seres menos importantes, menos desejados e devem ficar nas sombras.

segunda-feira, 23 de abril de 2018

Autor de Rurouni Kenshin está perdoado e passa bem. Seu mangá será retomado em junho.


Precisava fazer esse post, não porque a notícia me surpreenda, isto é, que o mangá Rurouni Kenshin: Meiji Kenkaku Romantan: Hokkaidou Hen (るろうに剣心 -明治剣客浪漫譚- 北海道編) será retomado na Jump SQ. Foi bem rápido, afinal, Nobuhiro Watsuki foi preso em novembro passado por possuir material pedófilo em casa. Sim, material com meninas de verdade, algumas aparentando menos de 10 anos. E ele assumiu tudo e foi punido com uma pena muito, muito leve, uma multa de 200 mil ienes, algo que não chega nem aos 6 mil reais. Pensem no quão irrisório é isso para um homem tão rico.  O que era a maior punição até agora? O mangá suspenso. Bem, não é mais.  Segundo o ANN, a editora, a Shueisha, alega que seria um desrespeito com os fãs deixar o mangá em hiato e que o autor se encontra arrependido e vem refletindo e se penitenciando pelo que fez. Agora, duas coisas a comentar.

O primeiro fator é óbvio, o econômico. Este ano, a JUMP original completa meio século é Rurouni Kenshin é uma de suas obras mais bem sucedidas. Mangá histórico que dialoga muito bem com a cultura pop nipônica e Norte americana, foi sucesso no mundo inteiro.  Colocar a obra na geladeira  afinal, Watsuki estava empenhado em uma continuação quando do escândalo,  representa grande prejuízo financeiro.

De resto, e este é o segundo ponto, eu sempre rio  comigo mesma quando alguém vem falar da carreira destruída de um homem famoso - artista, cantor, politico etc. - devido a algum crime ou escândalo sexual. A opressão das mulheres atravessa sociedades e culturas, simples desse jeito, daí, a classe dos homens se protege e raramente algum deles efetivamente é  ostracizado.  No caso do Japão  assim como em tantos outros países, as leis que protegem as meninas dos abusos sexuais são frouxas.  A carreira de um homem, os lucros de uma empresa, são mais importantes do que impor punição mais séria a quem alimenta a indústria da pornografia infantil e juvenil, que não  raro se entrelaça com a escravidão e o trafico de pessoas. Violência pura e simples. E o Japão é o país com a idade de consentimento mais baixa entre os paises desenvolvidos, 13 anos.  No Brasil, é 14. 

Para quem  não entende o que eu estou pontuando, a lei, e isso varia de país para país, estabelece que uma pessoa não teria discernimento para manter relações sexuais antes de uma idade X. Não adianta o que o menor diga, pouco importa o que o adulto envolvido alegue, é estupro.  Este é um um tema sensível, especialmente, em nosso momento atual, porque tanto os conservadores, quando setores expressivos das esquerdas, muitas vezes demandam que a idade de consentimento seja ampliada. O objetivo, alegam ambos, é proteger os menores e coibir a violência. De minha parte, pelo menos no Brasil, eu sempre afirmo que, ainda que considere 14 anos muito cedo para alguém fazer sexo, eu deixaria como está em respeito ao direito de escolha dos jovens, afinal, parece quase regra querer infantilizar os adolescentes, e, também, aos responsáveis que tem o dever de zelar por eles. Fora isso, ainda que um maior de idade faça sexo com alguém de 14 anos, pode ser enquadrado por outros crimes, caso os cometa, desde o estupro de fato, porque este não deixa de existir, até oferecer drogas  bebidas alcoólicas, expor o menor à pornografia etc. a lista é  longa.

Mas é isso, Nobuhiro Watsuki está perdoadíssimo. Segundo a editora, por vontade dos fãs. Afinal  ele não fez nada de grave. E, sim, quem está cobrando entrevista com a esposa dele, que pode ser cúmplice, ou não, digo o seguinte, ainda não vi entrevista com o próprio, isto é, para mim esse tipo de historinha é mais uma tentativa de desviar o foco do criminoso e culpabilidade mulheres. Afinal, um homem feliz no casamento não precisaria desse tipo de coisa  não é?

Dados das revistas de editora Shueisha: tiragens e padrões de consumo


A editora Shueisha publicou uma série de dados sobre suas revistas femininas e masculinas, o Manga Mag publicou os dados.  Enfim, não vou traduzir os dados das revistas masculinas.  Os dados são interessantes, eles permitem entender o perfil das leitoras da revista, idade, nível de escolaridade, no caso das revistas para adolescentes, ocupação.  Fica claro a quem é direcionada a publicação.  Agora, como para nós, aqui, não faria diferença, retirei a distribuição geográfica.  As tiragens das revistas físicas vem caindo horrores, mesmo a Shoune Jump, que já teve tiragem de 5 milhões por semana, está em 1 milhão e 800 mil.  A Ribon, em seus tempos áureos, tinha uma tiragem de mais de 400 mil por edição.  Seria interessante, que a editora incluísse a demanda da versão digital, acredito que isso faria uma diferença enorme para a gente.  Acrescentei a periodicidade, para que se tenha uma ideia da tiragem mensal.  De qualquer forma, segue os dados:    

Ribon 
- Tiragem Média de 2017: 165.000
- Periodicidade: mensal
- Distribuição por escolaridade: ensino fundamental - últimos 3 anos (66,6%), ensino fundamental - primeiros 3 anos (17,2%), creche (1,5%), ginasial (11,4%), colegial ou mais (3,3%)

Margaret 
- Tiragem Média de 2017: 43.000
- Periodicidade: quinzenal
- Distribuição etária: 13 anos ou menos (18%), 14-16 anos (31%), 17-19 anos (27%), 20 anos ou mais (24%)

Betsuma 
- Tiragem Média de 2017: 160.000
- Periodicidade: mensal
- Distribuição etária: 14 anos ou menos (22,5%), 15-18 anos (27,5%), 19-23 anos (14,5%), 24 anos ou mais (35,5%)

The Margaret
- Tiragem Média de 2017: 46.000
- Periodicidade: mensal
- Distribuição etária: 12 anos ou menos (9,3%), 13-15 (29,4%), 16-18 (30,5%), 19 anos e mais (30,8%)

Cookie 
- Tiragem Média de 2017: 43.000
- Periodicidade: mensal
- Distribuição etária: 19 anos ou menos (9%), 20-25 (18%), 26-30 (21%), 31-35 (24%), 36 anos ou mais (28%)
- Ocupação: emprego a tempo integral (38%), dona de casa (28%), estudante (8%), emprego a tempo parcial (10%), ginasial (5%), colégio (2%), ensino fundamental (1%) %), Outros (8%)

Gekkan YOU
- Tiragem Média de 2017: 76.000
- Periodicidade: quinzenal
- Distribuição etária: 30 anos ou menos (22,1%), 31-34 (9,5), 35-39 (7,8%), 40-44 (11,1%), 45-49 (13 anos), 8%), 50 anos ou mais (35,7%)
- Divisão por status: dona de casa (32,2%), emprego a tempo parcial (18%), emprego a tempo integral (27%), estudante (3,5%), outros (19,3%)

Office YOU
- Tiragem Média de 2017: 60.000
- Periodicidade: bimestral
- Distribuição etária: 30 anos ou menos (7%), 31-34 (4%), 35-39 (7%), 40-44 (11%), 45 anos ou mais (71%)
- Repartição por status: dona de casa (32%), emprego a tempo integral (27%), emprego a tempo parcial (17%), Outros (24%)

Cocohana
- Tiragem Média de 2017: 59.000
- Periodicidade: mensal
- Distribuição etária: 20 anos ou menos (6%), 21-24 (8,8%), 25-29 (12,8%), 30-34 (19,9%), 35-39 (23,8%) %), 40-44 (16,1%), 45-49 (9,8%), 50 anos ou mais (2,8%)

- Distribuição por Status: dona de Casa (26,5%), emprego a tempo integral (36,7%), emprego a tempo parcial (18%), estudante (10,2%), freelance (1,6%), Outros ( 7,0%)

Em relação às revistas masculinas, só vou colocar, quando houver, a proporção de leitoras e leitores.  Infelizmente, e eu não entendi a ausência, não se colocou o percentual de leitoras da Shounen Jump.  A maioria das outras traz a informação.

V JUMP
- Demografia: 92% de masculina e 8% feminina.

JUMP SQ
- Demografia: idade média do leitor é de 21,4 anos, 67,5% masculina e 32,5% feminina.

JUMP SQ RISE
- Demografia: 91,4% masculina e 8,6% feminina.

ULTRA JUMP
- Demografia: 94,8% masculina e 5,2% feminina.

domingo, 22 de abril de 2018

Vários Live Actions saindo do forno


Nesses últimos dias, foram anunciados vários filmes baseados em mangás josei e shoujo, além disso, foram lançados uma série de trailers de filmes e doramas previamente anunciados.  Não acredito que valesse a pena fazer um micropost para cada uma das adaptações, ou trailers, então, vamos fazer um post só.  Comecemos por Perfect World (パーフエクトワールド), de Rie Aruga.  A série que é publicada na revista Kiss, conta o reencontro e o romance entre Tsugumi, uma designer de interiores de 26 anos, e Hayukawa, seu amor de colégio.  O que mudou é que durante os anos que ficaram afastados, o rapaz sofreu um acidente e se tornou cadeirante.  O filme é protagonizado por Takanori Iwata (Hayukawa) e Hana Sugisaki (Tsugumi).  Estréia em 5 de outubro, teaser-trailer aí embaixo:


Outro teaser-trailer lançado esses dias foi do filme baseado no mangá Uirabu。 -Uiuishii Love no Ohanashi- (ういらぶ。 -初々しい恋のおはなし-), de Hoshimori Yukimo.  A série, que foi publicada na revista Sho-Comi e teve 10 volumes, terá como nome alternativo You, I Love.  O resumo do Asian Wiki é o seguinte: Rin (Sho Hirano), Yuu (Hinako Sakurai), Koyomi (Tina Tamashiro) e Keita (Hayato Isomura) são amigos e frequentam o mesmo colégio. Todos moram no mesmo prédio de apartamentos. Rin e Yuu gostam um do outro, mas não confessam um ao outro o que sentem. Para esconder o que sente por Yuu, Rin constantemente faz comentários azedos sobre ela. Já Yuu não sabe o que Rin sente por ela (*claro, ainda mais se o sujeito age como um babaca*). É então que um outro rapaz, Kazuma (Kentaro), aparece na vida deles.  Estréia em novembro, sem data definida.  O teaser-trailer está aí embaixo:



No caso de Nijiiro Days (虹色デイズ), ou Rainbow Days, já temos o trailer completo.  O filme baseado no mangá de Minami Mizuno, publicado na Betsuma, estréia no dia 6 de julho.  No trailer é possível ver os protagonistas - Natsuki Hashiba (Reo Sano), Tomoya Matsunaga (Taishi Nakagawa), Tsuyoshi Naoe (Mahiro Takasugi) e  Keiichi Katakura (Ryusei Yokohama) -  bem caracterizados.  Esta série teve animação em 2016.  



E, por fim, foi anunciado o filme baseado no mangá Kakugo wa Iika Soko no Joshi。(覚悟はいいかそこの女子。), de Nana Shiiba.  O mangá tem como protagonista um rapaz chamado Towa Furuya (Taishi Nakagawa).  Ele é o aluno mais popular da escola, as garotas se atiram aos seus pés, mas ele, na verdade, nunca teve uma namorada e ainda é virgem.  



Então, ele decide arrumar uma namorada e decide fazer uma proposta para a garota que lhe parece mais bonita e interessante, Misono Miwa, uma caloura.  Ela não somente o rejeita, mas o faz de forma agressiva.  Towa fica arrasado e, pior, não consegue tirar a menina da cabeça.  O mangá só tem dois volumes, deve ser fácil adaptar em um filme de menos de suas horas.

sábado, 21 de abril de 2018

Mais um texto sobre Orgulho & Paixão. É muita coisa para comentar!


Estou faz alguns dias querendo escrever um longo (*sim*) texto sobre Orgulho & Paixão, a novela das seis da Globo livremente inspirada em Jane Austen.  Excesso de trabalho e de Júlia tem me impedido, mas, agora, vai!  Tentarei organizar o texto a partir das personagens femininas principais, as Irmãs Benedito, além de Ema, Susana, Julieta etc.  A partir daí, vou puxando comentários para outras personagens e vamos ver no que vai dar.  Ficará organizado?  Não sei, provavelmente, não.  Antes, porém, é preciso falar do ritmo da trama em si.

O autor, Marcos Bernstein, vem me surpreendendo positivamente.  Ele pegou alguns livros de Jane Austen como base, Orgulho & Preconceito, em especial, fez alguns ajustes, e está construindo sua novela sobre uma estrutura bem sólida.  Não é Austen, embora tenhamos ecos de suas obras, além da referência de algumas adaptações famosas.  Não sei quem notou, por exemplo, a sequência na qual Darcy tenta escrever uma carta explicando o problema de sua irmã com Uirapuru.  Tudo ali – roupa do Thiago Lacerda, sua expressão corporal e facial, enquadramentos etc. – se remetia à série da BBC de 1995. Continue assim e estamos no bom caminho.
Uma família interessante.
Meu temor em relação à novela é que tudo está acontecendo rápido demais.  Não estou mais falando, como em meu texto anterior, dos romances.  Realmente acredito que Darcy e Elisa(beta) deveriam demorar mais para se entender, ou que Ema não deveria ter compreendido seu amor por Jorge tão no começo da trama (*acabei de terminar o capítulo de 19/04, no qual ela confronta “o amigo” a respeito de seu amor por ela*).  Me refiro aos acontecimentos gerais mesmo.  Exemplo?  Se um baile será dado, ele não precisa ser anunciado em um capítulo e executado no outro.  Essa pressa pode comprometer a novela lá na frente, gerando a famosa barriga.  Afinal, Orgulho & Paixão não terá 90-100 capítulos, mas, pelo menos, uns 130-150.  No entanto, tudo vai bem até agora e eu não quero ser pessimista.  Estou gostando bastante da novela, ainda que eu sinta saudades do fofo do Vicente de Tempo de Amar (*e eu desisti de escrever sobre o fim da novela, já virou coisa velha, por assim dizer*).

Também fui desencavar mais livros da Linda Seger, importante consultora de roteiros que teve vários de seus livros publicados no Brasil anos atrás pela editora Bossa Nova.  Um deles, A Arte da Adaptação – Como Transformar Fatos e Ficção em Filme, ajudaria muito aos que se sentem ofendidos pela apropriação do material de Jane Austen em uma novela (*não, não vou voltar ao tópico do desprezo pelo produto nacional*).  No capítulo 6 (A Escolha dos Personagens), a autora diz algumas coisas interessantes: “Não é raro encontrar livros repletos de personagens fascinantes. No entanto, essa mesma quantidade de personagens seria demais para um filme de duas horas de duração. (...) No caso da adaptação, uma vez que que os personagens já foram todos criados, o trabalho inicial do adaptador consiste basicamente em escolher, cortar e combinar personagens.  A partir do momento em que essas decisões já tiverem sido tomadas, o adaptador precisará contar com as mesmas habilidades necessárias para a criação de personagens, pois alguns deles terão que ser recriados e redefinidos.  Em algumas histórias, pode ser preciso até mesmo criar personagens adicionais para deixar a trama mais clara.”  
Julieta é uma das criações da novela.
A autora está falando de filmes de duas horas, mas poderíamos pegar o texto e aplicá-lo a uma novela, não é?  Se o filme pode ter dificuldade em trabalhar com um livro com montes de personagens e subtramas, com a telenovela pode se dar exatamente o inverso.  Exemplo, as irmãs de Bingley, Caroline e Louisa, não raro viram uma só nas adaptações (*e ninguém normalmente reclama do filme de 2005 por causa disso*).  Na novela, certamente, parte de Caroline Bingley foi transferida para Susana, talvez, outra parte para Julieta.  O fato é que é necessário fundir, modificar e criar personagens em adaptações.  E mesmo quando nada parece ter mudado, quem leu os livros sempre vai perceber que, sim, houve alterações, ainda que sutis.  

Em uma novela, que é longa, tem muitos capítulos, tramas também precisam ser criadas.  Vide Sinhá Moça, que está no ar no Canal Viva, e que é quase de autoria própria de Benedito Rui Barbosa, já que o livro serviu de base remota tão rala é sua trama, ou mesmo a primeira Escrava Isaura, que foi muito além do livro.  Em Orgulho & Paixão, além de uma série de coadjuvantes menores, que existem para preencher espaços, criar alívio cômico, como Ágatha (Vânia de Brito) e Estilingue (JP Rufino), por exemplo, há personagens maiores que efetivamente foram criados.  Caso de Ernesto (Rodrigo Simas) e seus irmãos.  
Ernesto e Luccino são personagens simpáticas.
Aliás, estou aguardando que o autor diga que homenageou Che Guevara com a personagem, que oscila entre o politicamente chato e o adorável (*mas eu torço pelo Jorge, aviso de pronto*).   Ontem mesmo, o Barão de Ouro Verde (Ary Fontoura), me soltou que "todo italiano é comunista".  Em 1910, ele certamente diria anarquista, ou até, forçando, socialista.  Tenho mais receio dessas “adaptações” desastradas que subestimam o público, e dificultam a vida dos professores de História, do que de mudanças concretas em relação ao original.  

Houve quem criticasse, com razão, o fato de Elisa (beta) (Nathália Dill) ter levado Darcy (Thiago Lacerda) para o quarto para que tivessem uma conversa privada.  O autor precisa lembrar que isso seria um escândalo total, mesmo com a situação alterada que foi criada pelo sumiço da protagonista e sua irmã.  E Darcy, sendo tão cioso das boas maneiras e convenções (*é o que querem que pensemos da personagem*), não aceitaria ficar só com a mocinha em um quarto e de portas fechadas.  Da mesma forma, é cansativo que se perpetue que títulos nobiliárquicos brasileiros, como o de Barão, fossem herdados. Ema (Agatha Moreira), ou seu pai (Marcelo Faria), jamais serão nobreza e isso nada tem a ver com o fato de ser República, mas, simplesmente, porque era ilegal no país durante a Monarquia.  Mas, enfim, no geral, a novela está indo bem, muito melhor do que eu esperava.  Mas vamos às personagens, ou esse texto nunca termina.
Eles devem ser o casal favorito da novela.
Comecemos pela irmã Benedito que mais me agrada até o momento, Cecília, e que é, também, a que menos se parece com a personagem original de Jane Austen.  No geral, tem se mostrado uma boa idéia a substituição das duas irmãs (Kitty e Mary) que pouco faziam em Orgulho & Preconceito por outras personagens de Jane Austen.  É possível, na novela, separar as irmãs em pares a partir da sua personalidade.  Cecília-Jane, Mariana-Elisabeta e Lídia faz par com a mãe.  Anaju Dorigon deu para Cecília uma doçura e inocência que são convincentes, sem que ela se pareça com Jane.  As duas assemelham-se em um primeiro momento, mas Cecília tem o fator imaginação – puxado da personagem da Abadia Northanger – para diferenciá-la da irmã que é, simplesmente, a mocinha doce e passiva boa parte do tempo.  A história de que Cecília foi uma tomboy não convence muito, de qualquer forma, é gostoso acompanhar o romance dela com Rômulo.  Acredito que em uma enquete eles seriam o casal favorito.  

Agora, continuo achando Marcos Pitombo fraco e de poucos recursos dramáticos.  Ele é muito bonito, verdade, e graças à Anaju Dorigon e à direção, talvez, as cenas fluem bem, mas ele me parece ter recursos dramáticos limitados.  Se exigirem demais, acredito que ele não vai render.  Falando em Rômulo, a personagem Fani (Tammy di Calafiori), pouco ou nada tem a ver com a original, de Mansfield Park, mas seu mistério parece instigante.  Eu acredito que a esposa do Almirante (Christine Fernandes) esteja viva e tenhamos um recurso do tipo “mad woman in the attic”, como em Jane Eyre, ou em O Direito de Amar, isto é, a mulher está viva e é trancada pelo marido (Oscar Magrini) em algum lugar da casa e dada como morta.  E falou-se de uma irmã e Fani deixou cair a bandeja.  Foi por causa da irmã de Rômulo, ou da patroa?  Fani talvez seja a única a saber do segredo e resta descobrir se ela é cúmplice ou igualmente prisioneira.  
O almirante encontrou o ponto fraco de Cecília.
Estou na dúvida, mas há outro filho do almirante, não há?  Achei que haveria um Edmundo, mas acredito estar enganada.  De qualquer forma, vejo pouco tanto da Abadia Northanger quanto de Mansfield Park em Orgulho & Paixão.  E fomos apresentados à família de Fani, de quem ela guarda profundo rancor.  Provavelmente, o ponto de partida é ter sido entregue para ser criada na Mansão do Parque, algo comum pelo Brasil até hoje.  A menina pobre é enviada para ser “educada” e, na verdade, se torna empregada da família rica, ou de classe média.  Fani provavelmente nutre sentimentos por Rômulo (*já que ele deve ser o único filho*) e vai tentar afastar Cecília.  É esperar para ver os desdobramentos, mas adorei a estratégia do Almirante oferecendo a biblioteca para a moça.  Eu vejo a novela sempre em atraso e não estava entendendo o gif da Bela do desenho animado que as pessoas colocaram para circular.

Os irmãos de Fani, especialmente, Ernesto Pricelli e Luccino Pricelli (Juliano Laham), orbitam outras personagens e realmente não sei se terão histórias próprias.  Luccino é o mecânico de motocicletas e automóveis do fictício Vale do Café.  Ele é o fiel guardador da identidade secreta do motoqueiro vermelho.  Na abertura, aparecem dois motoqueiros de vermelho.  Seria Luccino um deles, ou é Mariana?  Aliás, já estou falando da segunda irmã, Mariana, interpretada por Chandelly Braz.  Vejam só, eu achava que não iria gostar da Mariana, muito menos do Coronel Brandão, aliás, principalmente dela.
Será que Uirapuru vai seduzir Mariana?
Das mocinhas de Jane Austen, uma das que eu menos gosto é a Marianne de Razão e Sensibilidade.  Ela é impulsiva, cabeça de vento, que não se preocupa com as convenções e meio que paga por isso ao se envolver com o sujeito errado.  Já o Coronel Brandon, independente do ator que o interprete, é o sujeito mais amável e querido, não é meu Austen boy favorito, mas eu gosto muito dele.  Só que Marianne casar com o Coronel no final nunca me convenceu, sempre fica parecendo que era fruto da desilusão da moça e que, bem, como o Coronel, um homem quase vinte anos mais velho, mas rico, estava ali mesmo e apaixonado, por qual motivo não aceitar sua proposta?  A história dos dois sempre me pareceu uma acomodação.

A Mariana da novela pegou todas as características da do livro, mas acrescentou-se o aventureira e uma língua um pouco mais ferina, ela é o par da Elisa(beta) sem seus impulsos de independência e vontade de sair da sua cidadezinha natal.  E Chandelly Braz vai bem como a personagem e seus arranca-rabos com Lídia, salvo o do pó de mico, que achei pastelão demais, estão sendo bem interessantes.   Juntar no tal Uirapuru (Bruno Gissoni) duas personagens, Willoughby e Wickham, não me parece ainda uma boa ideia, afinal, o moço não irá se envolver com Elisa(beta), já que criaram o tal Olegário para assediar a mocinha.  O problema entre Uirapuru e Darcy não vai passar pela disputa da mocinha, mas pelo rancor em relação à irmã.  Ele só tentou seduzir, ou chegou a deflorar a irmã de Darcy?  Fará o mesmo com Mariana?  De resto, a disputa entre Mariana e Lídia pode, além disso, se tornar cansativa.
Outra variante do Zorro.
No entorno de Mariana criou-se a trama do justiceiro mascarado.  Bem, é coisa velhíssima e batida, está no ar neste momento em Sinhá Moça, também.  Tanto o Motoqueiro Vermelho, quanto o Irmão do Quilombo, vem da mesma matriz, o Scarlet Pimpernel, passando, claro, pelo Zorro, porque conhecem mais o derivado criado por um homem, do que o original inventado por uma mulher.  No início, achei o tom que o Malvino Salvador imprimiu no seu Coronel um tanto exagerado, estereotipado e ridículo.  Não sei se eu me acostumei, ou ele amenizou a coisa, humanizando a personagem.  O fato é que Brandão não tem nada, salvo o amor por Mariana, a ver com o original de Austen, mas a coisa está divertida.  E o vilãozinho, Xavier, e o jogo de gato e rato com a moça, vem funcionando. Resta saber quando a moça vai perceber o disfarce do Coronel.

Falando de Lídia, como imaginei, Bruna Griphão está ótima.  A Lídia da novela potencializou as falhas de comportamento da original, resta saber se as de caráter, também.  Lídia era uma periguete no livro e o é na novela, e poucas vezes este termo caiu tão bem para alguém.  Acredito, porém, que ela não terá um final semelhante ao do livro, casada com o picareta mal caráter do Wickham, mas vão lhe dar um final “feliz” ao lado do tenente gago, Randolfo (Miguel Rômulo).  Até gostaria que houvesse a coragem de colocar pelo menos uma das irmãs entrando em uma união desfavorável.  Lídia, no livro, é tão autora de sua desgraça, quanto vítima, ainda que, e isso é importante ressaltar, que seus pais sejam colocados por Jane Austen como corresponsáveis, o pai em especial, por não assumiram uma postura responsável para com a menina.  
Lídia, mais periguete impossível.
Já que falei de pai, Felisberto, que está sendo interpretado de uma forma muito simpática por Tato Gabus Mendes, é um pai muito mais presente que o original de Austen.  Ainda que o tom de comédia prevaleça, ele não se nega a corrigir e proteger as filhas.  Vide uma cena importantíssima dele com Darcy.  Então, talvez essa mudança feita para a novela possibilite para Lídia um final menos infeliz (*ainda que, no livro, a menina se sinta super feliz ao lado de seu cafajeste*).  De resto, a interação entre Vera Holtz, que faz a mãe, Ofélia, e Gabus Mendes é uma das coisas mais deliciosas da novela.  Os dois se amam, isso fica explícito.  

A postura do patriarca é menos ácida e inerte em relação à esposa e às filhas e isso vem rendendo ótimas cenas.  O que é aquela mulher com o vestido de noiva entalado?  E olha que a piada esticada poderia ficar ruim, mas está se sustentando bem, graças ao talento da dupla de atores.  Como comentei, Ofélia é o par de Lídia.  Mãe desmiolada, filha, idem.  Fora que é a caçula superprotegida, tal e qual no livro original.  E, no fim das contas, os atores parecem estar se divertindo MUITO, se eles se divertem, eu me divirto, também.
O casal mais divertido da novela, sem dúvida.
E chegamos à Jane, interpretada com doçura por Pâmela Tomé.  Talvez, seja das irmãs a mais parecida com a personagem criada por Austen, porque, essencialmente, o que era Jane?  Uma pessoa incapaz de olhar para alguém por um ângulo negativo, uma moça com um coração bondoso, recatada, sensata e que era, acima de tudo, fiel à irmã.  Tudo isso se mantém.  A composição do figurino e cabelo (*há quem fique reclamando das madeixas da moça, mas não vejo nada demais*) da personagem se remete diretamente à Cinderela da Disney.  É tão “na cara”, que é preciso ser muito obtuso para não perceber.  Há problema nisso?  Não. Cinderela talvez seja a princesa da Disney com o melhor coração, ainda assim, ela era capaz de pensar rápido e tomar as decisões certas.  Dito isso, o gancho do capítulo de ontem foi Jane indo até a casa de Camilo (Maurício Destri) e colocando fim à farsa em relação ao “namoro” do moço com Ludmila (Laila Zaid).  De qualquer forma, não vejo muito espaço para a personagem evoluir, não vejo mesmo, mas, por princípio, Jane está bem Jane.

Falando em Camilo, bem, ele é uma personagem gostável e sua relação de amizade com Darcy é uma das boas surpresas da novela.  Darcy exerce em relação ao rapaz não somente uma função de irmão mais velho, mas quase de pai, com um acolhimento que a ficção não costuma retratar.  Camilo é frágil, muito mais que o Mr. Bingley do livro.  Bingley, ainda que influenciável, era o senhor de sua vida, não devia explicações a ninguém, e era, inclusive, taxado de volúvel.  Ora, Camilo é essencialmente bom como Bingley, mas totalmente assujeitado à mãe.  Ela, Julieta (Gabriela Duarte), controla o filho e o patrimônio da família.  Ele não tem autonomia, precisa amadurecer como homem.
Jane não quer que as mentiras prevaleçam.
Aliás, Julieta é uma incógnita.  Espero que o autor trabalhe bem o passado da personagem, porque a gente pode inferir muita coisa, um casamento abusivo, por exemplo.  Eu, se tivesse que montar um passado para ela, a colocaria como uma adolescente obrigada a casar com um homem muito mais velho por causa de dívidas da família, má administração de seu pai.  Daí, essa forma raivosa como vê os homens.  E, bem, quem colocou um rótulo de feminista em Julieta, melhor ter cuidado.  Ela é uma mulher forte, uma sobrevivente, que admira algumas qualidades semelhantes as suas em outras mulheres, mas ela é ciosa da moral e das aparências, ou teria deixado o luto de encenação faz tempo.  De resto, bom ver Gabriela Duarte em um papel maduro, todo mundo envelhece, eu estou aqui com meus cabelos brancos para testemunhar.

De resto, temos ainda Ludmila, esta, sim, uma feminista de verdade e consciente de suas escolhas.  Estou adorando a atriz Laila Zaid e vendo que, pelo menos neste caso, o autor aceitou em cheio, porque condicionou as atitudes ousadas da personagem ao fato de ser rica.  Aliás, houve o ótimo diálogo entre Julieta e Ludmila no baile: "Ludmila Matoso de Albuquerque." (L) "Por que não se identificou antes?" (J) "E estragar a diversão???" (L) "Você tem a língua bem ferina." (J) "Então somos duas." (L).  E o arremate vem com o podemos agir assim, porque somos ricas.  Mesmo ricas, há um preço a pagar, mas a forma como Ludmila encara as alfinetadas, com elegância, bom humor e consciência de que está transgredindo as regras da boa sociedade, são das melhores coisas da novela até agora.  
Ludmila é uma das personagens
secundárias mais interessantes.
A empatia entre ela e Elisa (beta) pode proporcionar à protagonista algum amadurecimento, afinal, falta polimento à mocinha.  Elisa é gritalhona demais e identifica tudo como uma agressão, o que a torna chata aos olhos de muita gente que acompanha a novela.  E isso ela mesma reconheceu e que me lavou a alma, porque uma figura no Twitter veio me mandar ler o livro de novo, porque Elisa (beta), na visão da pessoa, claro, era igualzinha a personagem de Jane Austen, uma feminista, que não levava desaforo para casa, e com uma língua afiada.  O que eu disse para a moça é que a gente não deve confundir nossos fanfics com a obra original.    

E já que estamos em Elisa (beta), falemos dela. Passei a gostar mais da protagonista, passei mesmo.  Não sei se me acostumei, mas acho que ao longo dos capítulos, Elisa tomou consciência de que precisava melhorar, de que era caipira e inculta (*no original, a educação das moças foi muito descuidada*) e admitiu que foi precipitada em alguns momentos.  Isso é bom, meio que tempera aquela má impressão inicial que tive da personagem, a despeito da minha simpatia por Nathália Dill.  Em São Paulo, e não sei quanto tempo a personagem irá passar na capital, afinal, o centro da ação é o tal Vale do Café, ela pode conviver com Ludmila e, talvez, aprender alguma profissão, quem sabe?  Ter objetivos e não somente sonhos.  E, pelo menos nesse momento, não tenho muito mais a falar sobre ela, nem sobre Darcy, especificamente.
Ludmila pode ser uma boa influência para a mocinha.
Agora, como tudo anda muito rápido, eu lamento que Darcy e Elisa já sejam um par, porque sei que toda a trama será pautada por idas e vindas cansativas (*espero que não*).  Os autores contemporâneos de novela parecem não saber cozinhar e/ou costurar uma história de amor, criar expectativa, inventar obstáculos que realmente se justifiquem.  Darcy amoleceu muito rápido.  Poderiam ter trabalhado melhor seu estranhamento britânico (*ele é inglês, afinal*) em relação a forma mais aberta como as pessoas se comportavam no Brasil.  Se ele já está namorando, como irão introduzir a primeira declaração de amor desastrada da personagem que é ponto fundamental do Mr. Darcy original?  Quando ele diz que ama Elizabeth apesar da sua condição social inferior e de sua família horrorosa.  O Darcy da novela já até se tornou solidário com Jane.  Tudo caminha muito enviesado e rápido.  Sei que não é Orgulho & Preconceito, mas eu queria um pouco mais de cuidado aqui.

Esse Olegário (Joaquim Lopes) parece ser um obstáculo fraco e que logo poderá se tornar cansativo.  Obviamente, há uma saída fácil, ele pode passar a amar Elisa(beta) de verdade, deixando de ser simplesmente um fantoche de Susana.  Pode, mas será que vai?  Um indício de que ele tem algum caráter foi dado na sequência do bordel, que foi muito mais realista do que o tratamento da questão na novela anterior das seis, Tempo de Amar.  Um ambiente sórdido, no qual moças poderiam ser vendidas e compradas, mesmo contra sua vontade.  Ali, Olegário mostrou que pode se salvar.  Pode, será que vai?  E, claro, ele não ficará com a mocinha, ela já tem um carimbo de endereço, falo de como a trama será conduzida.
As mocinhas quase tiveram sua virgindade
vendida em um bordel.
Já que chegamos em Susana e Petúlia (Grace Gianoukas), a empregada engraçadíssima continua roubando quase todas as cenas.  Ela enviando a carta convite para Jane foi impagável.  Aliás, qual cena dessa mulher não foi boa?  A dupla foi comparada no Twitter pelo jornalista Nilson Xavier à Mutley e Dick Vigarista.  E é mais ou menos isso mesmo.  Está engraçado, as tramas mirabolantes que não dão certo.  Vai ser engraçado sempre?  Não sei.  

Alessandra Negrini se jogou na comédia e se eu achava que ela estava exagerada, agora, vejo como o tom calculado e que, bem, está funcionando.  Ela é falsa e só é realmente espantoso que as personagens caiam na dela.  Aqui, cabe a crítica, a mocinha, Elisa(beta) deveria ser mais esperta e perceber o engodo, estar um passo à frente da vilã senão sempre, pelo menos, às vezes. Mas parece que esta não é a opção.  E Darcy, um homem adulto e vivido, não parece ser mais esperto que a mocinha.  De resto, complicado que a vilã acredite poder conquistar Darcy, não como é, enfim... Mas será que vão recorrer a um golpe da barriga ou algo do gênero?
Dupla de vigaristas.
E chegamos em Ema e a deixei para o final, porque das protagonistas, ela é a que mais me agrada.  Agatha Moreira e o texto captaram a essência da personagem de Jane Austen e colocaram acréscimos que enriqueceram a original.  Ela é uma doidinha adorável.  E construíram para ela um drama pessoal que costura o que Jane Austen criou, a moça rica que quer casar todo mundo enquanto está presa aos cuidados do pai velho e hipocondríaco, com o juramento feito à mãe de que cuidaria do pai e do avô.  Ema, na novela, acredita no amor para os outros, está assujeitada a sua função de cuidadora de um avô possessivo e de um pai passivo, e, ainda assim, mantém sua alegria e brilho.

A amizade entre Ema e Elisa(beta) é, também, uma das melhores coisas da novela.  As duas – Agátha Moreira e Nathália Dill – conseguem convencer como as melhore amigas, apesar de tão diferentes, no temperamento e condição social, e a interação de ambas é muito boa.  A introdução de Ludmila, uma mulher moderna e independente como Elisa almeja ser, e o ciúme de Ema me fizeram lembrar da minha relação com a minha melhor amiga de infância e única, aliás. Quando ela, que era um pouco mais velha, arrumava outras amigas, eu me roía de ciúmes.  Ema tem que amargar essa situação, ainda que já esteja se entendendo com Ludmila, a distância da amiga, que pode ficar em São Paulo, e, ainda por cima, a desilusão amorosa.  Não é pouca coisa, não!
Susana e Petúlia.
A descoberta do amor de Jorge e de que o ama foi precipitada.  De novo, uma trama andando muito rápido e que pode comprometer a relação das personagens.  Eu estou gostando muito do Jorge do Murilo Rosa, gosto do ator, gosto da forma como ele interpreta um dos melhores homens de Jane Austen e que está, assim como Ema, bem próximo do original.  A única cena ruim da personagem foi aquela de ficar com o Coronel Brandão chorando pitangas amorosas, porque dificilmente dois homens da época, na faixa dos quarenta anos, fariam isso.  Agora, a questão da honra (*ele está noivo, afinal*), a forma  polida como ele corrigiu Elisa(beta) nos seus arroubos, a recusa do amor da mulher que sempre amou, tudo parece coerente com a personagem que, assim como Ema, combina bem o original com acréscimos do autor da novela.  A forma como a noiva de Jorge, Amélia (Letícia Persiles), o encurralou, foi ótima.  Tinha que acontecer uma dessas em Glass Mask para que a história desenrolasse, uma noiva decidida a fazer o mocinho de posicionar, é tudo.  

Com essa declaração cedo demais, não sei o que será de Jorge e Ema, mas eu não queria que a mocinha se envolvesse com Ernesto, que é uma personagem simpática, para que o moço perdesse outro interesse amoroso, porque minha torcida é pelo amigo advogado.  Poderiam introduzir o Frank Churchill – personagem original do romance Emma – por quem a mocinha fica parcialmente fascinada, ou mesmo pegar o violãozinho secundário, Xavier Vidal (Ricardo Tozzi), e o aproximá-lo de Ema, talvez quando a moça ficasse sabendo da ruína financeira da família.  Poderia ser um drama interessante com a possibilidade de fazer vários núcleos e personagens interagirem.  Quem sabe?  A novela não é minha, enfim.
Ema está colhendo o que plantou.
O texto está longuíssimo, estou faz dias tentando terminar e vou guardar algumas coisas para depois.  Não vou falar de Aurélio e Julieta, sinceramente, minha simpatia por eles vai depender de como o autor trabalhar o passado da mãe de Camilo.  Torço para que o autor aproveite alguma coisa de Persuasão, talvez por intermédio da irmã de Rômulo (*Está viva ou morta?*).  Estou curiosa para ver a irmã de Darcy (Isabela Santorini), que chega esta semana, e saber detalhes da forma como Uirapuru tratou a moça.  E cabe um elogio ao figurino que é uma das coisas mais legais da novela.  Tem um pé em 1910, mas é criativo e bonito.  Mas Beth Filipecki é uma artista com um currículo invejável e é bom ver alguém tão competente trabalhando.

Concluindo, dos romances de Jane Austen, acredito que o que melhor esteja sendo aproveitado seja Emma.  Orgulho & Preconceito aparece como fundo, mas as liberdades tomadas são consideráveis, mais para o mal, do que para o bem, eu diria.  A mudança em duas das irmãs foi benéfica para a trama, ainda que Cecília pareça pouco com a protagonista de Northanger Abbey.  Aliás, Mansfield Park é o material mais mal aproveitado na novela.  Nada, ou quase nada se parece com o original, fora que a trama da esposa escondida, ou prisioneira, se remete a outros clássicos da literatura, como Jane Eyre (*e sua autora faz aniversário hoje*), mas sabemos bem que Jane Austen não é a única fonte de inspiração, ou não teríamos um Zorro em Orgulho & Paixão...