Segundo o Stage Natalie, o sucesso Watashi no Shiawase na Kekkon (わたしの幸せな結婚), Meu Casamento Feliz, no Brasil, vai virar peça do teatro musical Takarazuka. O Musical Kitan: My Happy Marriage e o TAKARAZUKA SPECTACULAR『MANHATTAN FOLLIES 』-Seize The Day- serão apresentados no Takarazuka Grand Theater, em Hyogo, de 26 de junho a 8 de agosto do próximo ano, e no Teatro Takarazuka, em Tóquio, de 28 a 10 de outubro do ano que vem.
Imagino que a adaptação seja do primeiro livro e certamente o musical irá fazer o interesse pela série de Akumi Agitogi ser revigorado. O musical será dirigido por Daisuke Tabuchi e estrelado por Hoshizora Misaki, como Miyo Saimori, e Towaki Sea, como Kiyoka Kudo.
Os ingressos estarão disponíveis para venda antecipada geral da apresentação de Hyogo em 5 de junho do próximo ano e da apresentação de Tóquio em 1º de agosto. O manga e publicado no Brasil pela Panini e a terceira temporada do anime estreou em 25 de outubro na Netflix.
Semana passada, perdemos dois atores importantes da franquia Jornada nas Estrelas (Star Trek), Walter Koenig e Patrick Stewart. Sou fã de Jornada nas Estrelas desde a adolescência e preciso fazer um post comentando a perda dos dois. Ele está atrasado, porque comecei e parei várias vezes. Um deles, Koenig, é mais conhecido pelos fãs da franquia mesmo; já Stewart é lembrado também pelo papel do Prof. Charles Xavier dos X-Men. Certamente, ele não teria ido parar na trilogia da Marvel se não tivesse passado antes pela ponte da Enterprise.
Eu deveria ter feito um post quando do anúncio da morte de Koenig, mas deixei passar e morreu o Tetsuya Chiba e ele passou na frente, além disso, eu estava com muito trabalho e acabei atrasando esse post. Ele faleceu no dia 25 e a notícia foi dada no dia seguinte. Quando comecei o post, perdemos o Patrick Stewart... Enfim, Walter Koenig tinha 90 anos, teve uma longa vida e morreu de causas naturais. Além de ator, ele era roteirista, psicólogo e professor. Koenig foi incorporado à tripulação da Enterprise a partir da segunda temporada (1967-1969). Saiu a aspirante Janice Rand (Grace Lee Whitney) e ele entrou. Ele era o navegador da Enterprise e eventualmente substituía o Sr. Spock no seu posto de oficial de ciências. Chekov era uma personagem divertida e responsável por vários momentos de humor na série.
A personagem foi incorporada à série para trazer juventude à tripulação e o ator tinha um corte de cabelo semelhante ao dos membros do conjunto The Monkees e ele era fisicamente parecido com um dos membros do conjunto, Davy Jones. Apesar de ser mais velho que George Takei (Sr. Sulu), Koenig parecia mais jovem, e a ideia era que ele servisse de ponte para a audiência adolescente. Era através de Chekov, nascido na Rússia, que eram feitas as piadinhas sobre a Guerra Fria. Koenig não teve uma carreira de grande destaque na TV e no cinema, mas fez muita coisa. Acredito que seu papel mais relevante, depois de Chekov, foi o de Alfred Bester, na série de ficção científica Babylon 5 (1994–98).
Patrick Stewart faleceu no dia 28 de outubro. Ele já era um experiente ator quando foi convidado a assumir o papel do Capitão Jean-Luc Picard na Nova Geração de Jornada nas Estrelas (Star Trek: The Next Generation) (1987-1994). Com sólida formação shakespeariana, ele teve mais de 60 anos de carreira. Apesar de alguns papéis na TV britânica, ele preferia o teatro. Das séries que ele fez na Inglaterra, nos anos 1970, eu o vi como um magnífico Lênin em Fall of Eagles (1974) e Mr. Thornton em Norte e Sul (1975). Também me lembro de Stewart como Leodegrance em Excalibur (1981), como o Duque de Suffolk em Lady Jane (1986) e como o Herique II de O Leão no Inverno (2003). Excalibur, eu havia assistido antes da estreia da Nova Geração, mas não me lembrava de Patrick Stewart, só fui perceber isso quando revi o filme.
Stewart era tratado como um desconhecido nos Estados Unidos ao aceitar o papel do capitão da Enterprise D, algo que ele fez sem levar em conta a opinião de seu grande amigo Ian McKellen, que insistia que ele deveria colocar o teatro em primeiro lugar. Patrick Stewart fez a Nova Geração, vários filmes de Jornada nas Estrelas para o cinema, além de protagonizar a série Picard (2020-2023) e emprestar sua voz para games e outros produtos relacionados à franquia. Stewart emprestou dignidade, inteligência e elegância ao capitão Picard, que parecia mais inglês do que francês, vamos combinar, e era uma personagem muito diferente do Capitão Kirk. Na verdade, cada capitão da série Jornada nas Estrelas tem uma personalidade bem particular e isso é muito bom, mas acredito que Picard seja um dos que têm o maior número de fãs.
Sua popularidade como Picard deve ter sido o fator decisivo para que ele fosse escolhido para ser o Professor Xavier nos primeiros filmes dos X-Men e ele fez também aparições no MCU (Marvel Cinematic Universe). Seus filmes foram: X-Men: O Filme (2000), X-Men 2 (2003), X-Men 3: O Confronto Final (2006), X-Men Origins: Wolverine (2009), The Wolverine (2013), X-Men: Dias de um Futuro Esquecido (2014), Logan (2017), Doutor Estranho no Multiverso da Loucura (2022), Deadpool & Wolverine (2024) e Vingadores: Doutor Destino (2026), ainda por estrear. Sua presença nos filmes dos X-Men lhe deu a chance de contracenar com seu amigo Ian McKellen, que assumiu o papel de Magneto.
Patrick Hewes Stewart nasceu em Mirfield, em West Yorkshire, na Inglaterra, em 13 de julho de 1940. Sua mãe, Gladys, era operária da indústria têxtil. Ela participava ativamente de grupos amadores de teatro e incentivava seus três filhos a fazer o mesmo. Seu pai era um ex-sargento do Regimento de Paraquedistas cuja experiência durante a evacuação de Dunquerque, na Segunda Guerra Mundial, havia devastado sua saúde mental. Stewart disse em entrevistas que o pai nunca praticara violência física contra ele, mas que sofria de estresse pós-traumático, tornou-se alcoólatra e agredia sua mãe. Sua primeira apresentação pública foi em uma produção local de Cinderela realizada em uma igreja. Stewart abandonou a escola aos 15 anos e tornou-se repórter. Somente vários anos depois, ele começou a atuar.
Para além de sua carreira como ator, Setwat era socialista, defensor dos direitos das pessoas LGBTQIAPN+ e um militante contra a violência doméstica e contra as mulheres. A questão das mulheres entrou na sua vida por ter crescido em um lar violento, no qual o pai agredia a mãe e as autoridades nunca faziam nada. "Ela deve ter provocado" era uma frase comum na boca das autoridades que eventualmente iam atender aos chamados em sua casa. Já a defesa das pessoas LGBT+ surgiu da observação das injustiças e da negação dos direitos de cidadania. Sua amizade com Ian McKellen só reforçou suas posições. É possível encontrar várias entrevistas e falas do ator sobre esses temas. Nesses últimos dias, muitos vídeos e falas de Patrick Stewart têm aparecido na internet.
Patrick Stewart morreu em sua casa em Los Angeles por causa das complicações decorrentes da doença de Alzheimer e de demência por corpos de Lewy. A nota comunicando sua morte dizia: "Anunciamos com grande tristeza o falecimento de Sir Patrick Stewart ontem, em sua casa em Los Angeles, sob os cuidados amorosos de sua querida esposa Sunny, após uma breve e comovente jornada contra a Doença de Alzheimer e a demência por corpos de Lewy". Sua presença em Vingadores: Doutor Destino será uma aparição póstuma.
Assisti ao filme Razão e Sensibilidade (Sense and Sensibility) que finalmente estreou esta semana nos cinemas brasileiros. É mais uma das obras comemorativas dos 250 anos do nascimento da autora. Dirigido por Georgia Oakley e com roteiro de Diana Reid, o filme tem como mérito não ser tão ruim quanto Persuasão da Netflix; faltou um pouco mais de esforço para chegar ao fundo do poço, eu diria. Infelizmente, porém, talvez seja este o Razão e Sensibilidade da geração atual e como muita gente se resume a assistir à última produção disponível, sem procurar outras que a precederam ou ler o livro original, imagino que ainda terei que ler e ouvir muitos elogios à obra. Pior ainda se se concretizar a indicação de Esmé Creed-Miles à melhor atriz coadjuvante no Oscar do ano que vem. Mas vamos ao resumo geral da história, que irei adaptar ao que está no filme, mas voltarei a isso depois.
Em Razão & Sensibilidade somos apresentados às irmãs Dashwood, Elinor (Daisy Edgar-Jones), Marianne (Esmé Creed-Miles) e Margaret (Bodhi Rae Breathnach), que, junto com sua mãe (Caitríona Balfe), são expulsas de Norland, em Sussex, pelo meio-irmão mais velho (Tom Brooke) e herdeiro de toda a fortuna do pai. No livro, o patriarca havia feito o sujeito jurar que seria justo com a madrasta e as irmãs; no filme, nada é dito sobre isso, mas ele quer dar uma boa soma de dinheiro para eles. Sua esposa, Fanny (Stacy Martin), porém, termina por convencê-lo do contrário. A urgência em mandá-las embora se torna ainda maior quando Fanny percebe o interesse de seu irmão Edward Ferrars (George MacKay) por Elinor, a mais sensata das irmãs.
Reduzidas a uma renda muito pequena, a família se muda para Barton Cottage, em Devonshire, graças à oferta de um primo distante da Sr.ª Dashwood, Sir John Middleton (Turlough Convery), através de sua sogra, a Sr.ª Jennings (Fiona Shaw), cujo maior interesse é casar todas as pessoas que puder. Em casa de Sir John, as Dashwood conhecem o Coronel Brandon (Herbert Nordrum), um amigo da família, homem muito gentil e honrado, mas com uma história de vida bem sofrida. O Coronel termina caindo de amores por Marianne, mas a moça não cogita a possibilidade de aceitar o amor de um homem que lhe parece tão aborrecido.
Depois de sofrer um acidente na praia, Marianne é resgatada por John Willoughby (Frank Dillane), sobrinho de uma vizinha dos Middleton. Ele é um jovem encantador e parece compartilhar dos interesses e ter uma alma tão apaixonada quanto a da moça. Todos creem que os dois vão se casar e Marianne não tem nenhum receio de exibir publicamente o seu amor por Willoughby, que herdaria uma fortuna da tia e parecia não se preocupar com o fato de a moça ter um dote minguado. Enquanto isso, Elinor sofre em silêncio por amar Edward e crer não ser correspondida, ou por ele não ter coragem suficiente para enfrentar a oposição de seus familiares e se casar com ela.
As coisas, claro, podem piorar, porque Elinor acaba sendo apresentada a Lucy Steele (Ceara Coveney), acompanhante da Sr.ª Palmer (Bethany Slater), filha da Sr.ª Jennings, que a toma por confidente e se apresenta como noiva secreta de Edward Ferrars. Elinor passa a ser guardiã de um segredo que lhe dilacera a alma. Já Marianne acaba sendo recusada por Willoughby, que precisa casar bem apesar de amá-la. Antes das duas conseguirem alcançar a felicidade, teremos muito sofrimento e alguns mal-entendidos antes de um belo desfecho.
Publicado em 1811, Razão e Sensibilidade é o primeiro livro de Jane Austen, que não o assinou com seu nome, mas com o pseudônimo "a Lady". Havia mulheres autoras, mas existia, também, a ideia de que qualquer forma de trabalho e renda próprias era condenável para uma mulher de determinados grupos sociais. A identidade da autora só foi revelada para todo o mundo depois de sua morte, em 1817. Sim, havia gente que sabia, mas não era algo público, por assim dizer. Adaptar em um filme qualquer livro de Jane Austen, ou qualquer bom livro, talvez, é sempre um grande desafio. Fora isso, fazer a transição de um formato para outro implica em mudanças e escolhas, além de reduções. Por isso mesmo, quando vejo uma adaptação, o que me preocupa é a fidelidade ao original em termos de respeito à ideia geral da obra e ao caráter de seus personagens. O novo Razão e Sensibilidade pontua baixo em ambos os quesitos.
Vamos começar por escolhas que não impactam a obra em si, mas que me pareceram desagradáveis. O figurino sugere que estamos na década de 1790. É o período em que Austen começou a rascunhar tanto Razão e Sensibilidade quanto Orgulho e Preconceito. Por isso mesmo, o filme se distancia daquilo que identificamos como moda Regência. Sem problema, é uma escolha. Só que o filme é escuro e sem cores, ou melhor, ele abraça aquilo que já se apelidou de paleta medieval, isto é, um conjunto de cores que vão do branco encardido, passando pelo cinza de defunto, marrom coco até chegar ao preto. O filme praticamente não tem cor. A única personagem que tem bons figurinos é Fanny, seguida pela Sr.ª Jennings; as irmãs Dashwood não parecem ter nenhuma roupa de qualidade, a ponto de algumas figurantes estarem melhor vestidas do que elas. E tem o luto. No início do filme, John e Fanny estão de luto; a Sr.ª Dashwood, também, mas suas filhas não estão. Isso não é um problema somente deste filme, mas é sem dúvida um problema.
Uma reclamação geral em relação ao filme é sobre os cabelos. Ainda que na década de 1790 houvesse a possibilidade de termos mulheres adultas com seus cabelos soltos, eles eram estilizados, arrumados, tinham detalhes que deixavam claro que o que queria parecer natural era uma construção estética planejada. Ao longo de todo o filme, Marianne parece descabelada, mesmo quando raramente prende seus cabelos. Somente na ocasião do baile em Londres seu cabelo está apresentável. E nem se tentou criar um contraste entre as irmãs, que, mesmo sendo rasteiro, seria razoável: Marianne, indomável, com seus cabelos soltos, e Elinor, reprimindo seus sentimentos, com o cabelo sempre preso. Nada disso, a pobre Elinor também está quase sempre com as madeixas soltas. Já Margaret, a irmã menor, alterna cabelo solto e duas tranças que me fizeram lembrar de Anne of Green Gables. E temos as touquinhas estranhas e os chapéus um tanto incomuns, talvez mesmo inventados para o filme.
De qualquer forma, acredito que o filme será agradável para quem nunca assistiu a uma adaptação de Razão e Sensibilidade, nem leu o livro, ou tem informações sobre o período que a história parece retratar, porque ele entrega o que prometeu. Um drama sobre duas irmãs que eram ricas e de repente se veem pobres, mas, ainda assim, conseguem não somente sobreviver, mas tomar as rédeas de seus destinos. Soa moderno. A Marianne deste filme, em especial, poderia estar andando pelas ruas de qualquer grande metrópole. Elinor, por outro lado, foi ligeiramente modificada para não parecer o que era no livro, alguém que se sacrifica pela família e reprime seus sentimentos até que eles afloram nos momentos finais. Elinor nesse filme explode, inclusive com quem jamais explodiria.
Outro ponto importante é elogiar o elenco que, na média, é muito competente. Desgosto da Marianne de Esmé Creed-Miles, mas é inegável a entrega da atriz. Ela fez muito bem o que lhe pediram e sua atuação é marcante. Seu dueto ao piano com Frank Dillane (Willoughby) foi bonito de se ver e ouvir. E realmente não sei se a música, que toca nos créditos, será candidata ao Oscar. Daisy Edgar-Jones, a protagonista do filme, porque é assim que a coisa parece construída, também oferece uma interpretação sincera e de qualidade. E George MacKay talvez seja o melhor Edward que eu já vi.
Quando terminamos o filme, temos finais felizes, ainda que não sejam os casamentos que o livro descreve. Acredito que o filme buscou sugerir, no caso de Brandon e Marianne, que ela estava aberta para amá-lo sem passar imediatamente ao casamento. Já Elinor e Edward finalmente são recompensados em seus afetos. De resto, discordo das críticas ao filme que dizem que a relação entre as irmãs ficou em segundo plano e o romance em primeiro. Houve somente uma cena que sugeriu isso, mas a relação mais sólida é entre Marianne e Elinor. Daqui para frente, vou esmiuçar o filme e não pouparei os spoilers. Peço desculpas, mas é isso. Não tem como comentar o filme, sem quebrá-lo em pedacinhos.
Falando em personalidades, Marianne foi transformada em uma tomboy bicho-grilo que conversa com árvores (*literalmente*) e que não se importa em ser egoísta e grosseira. Acreditei, antes de assistir ao filme, que seu visual desgrenhado fosse posterior à perda do pai, como um efeito traumático do rebaixamento social, mas ele está lá desde sua primeira cena. Marianne, no livro, é apaixonada, franca, nem sempre capaz de respeitar as convenções sociais, mas era uma dama educada, não um bicho solto correndo pela floresta. Aliás, uma questão apontada em várias das primeiras resenhas do filme (*e fiz um post sobre elas*) é que parecia que a produção estava pensando nas obras das irmãs Brontë e não nas de Jane Austen. Tanto é verdade que o primeiro encontro entre Marianne e o Coronel Brandon, que é introduzido logo no início do filme, é com ela aparecendo diante de seu cavalo, no meio da floresta, como se fosse uma assombração. Trata-se de uma variação do encontro entre Jane e o Sr. Rochester, em Jane Eyre de Charlotte Brontë.
Já Elinor não consegue conter seus sentimentos, tanto que ela só explode em dois momentos do livro: a primeira, quando finalmente revela a Marianne a situação de Edward e seus sentimentos, e a segunda, lá nas últimas páginas, quando o moço finalmente consegue se apresentar diante dela livre de suas amarras. Algo que nos causa angústia durante todo o livro ou qualquer adaptação normal de Razão e Sensibilidade é o quanto Elinor se sacrifica e segura seus sentimentos, sofrendo e se esforçando por ser racional e tentar manter as finanças da família em ordem, porque sua mãe não tem cabeça para essas coisas e sua irmã menos ainda. Ver Elinor explodindo com Edward, discutindo com ele, ou aceitando uma taça de vinho que a Sr.ª Jennings oferecera à Marianne e pegando a garrafa junto para afogar suas tristezas, me deu desespero. Cheguei a pensar que a colocariam tomando vinho do gargalo, como no Persuasão da Netflix. O único momento de explosão de sentimento inventada que eu considero válido é o confronto dela com Willoughby, quando ele tenta ver Marianne doente. Ali, é plenamente compreensível e não acredito que distorça a personagem.
O filme também opta por colocar as Dashwood em uma pobreza que não é compatível com o livro. Elas foram muito rebaixadas, verdade. Com 500 libras ao ano, elas estavam em uma situação precária para alguém da sua classe, mas as Dashwood não eram miseráveis. O livro diz que elas puderam levar duas criadas e um criado consigo e que eles seguiram antes para a futura residência da família para preparar o lugar para sua chegada. Pobreza, sim, mas com algum conforto. No filme, elas têm somente uma criada, que parece ser uma adolescente, e acabam tendo que fazer todas as tarefas domésticas. Elinor é mostrada inclusive partindo lenha e isso em um momento em que Willoughby está na casa cantando e tocando piano com Marianne. Ele certamente iria se oferecer para fazer isso por ela, mesmo que fosse somente para se exibir. Fora que se a situação fosse tão ruim, Sir John acabaria por lhes fornecer lenha, como lhes presenteava com carnes das suas caçadas. De positivo nessa situação da pobreza é que temos a informação de que a Sr.ª Dashwood veio sem quase nada para o casamento. Não lembro disso aparecer em outras adaptações do livro.
Falando em Willoughby, é difícil projetar o moço elegante no ator escolhido. A entrada de Willoughby em cena sempre é de impacto; ele impressiona tanto a romântica Marianne quanto o resto de sua família. O Willoughby deste filme parece um camponês quando salva Marianne. Olho para ele e penso em Robert Martin, de Emma. Karolina Żebrowska brinca que ele está usando chapéu de pescador. Mais tarde, ele parece mais alinhado, mas está longe de ser o dandy que o livro sugere. Ele e Marianne prontamente desenvolvem grande intimidade. Não sou especialista em danças de época, mas as danças mostradas me parecem permitir muito contato físico, especialmente se levarmos em conta que a valsa, que será introduzida décadas depois, seria vista como escandalosa.
O filme é competente em mostrar o excesso de proximidade entre Marianne e Willoughby, mas faz mudanças que não foram citadas nos vários artigos que encontrei pontuando as diferenças entre o livro e a película (Ex.: 1 - 2 - 3 - 4 - 5). Uma sequência importante do livro, e que está em todas as adaptações, é quando Marianne dá uma mecha do seu cabelo para Willoughby. É uma prova de amor e compromisso que, para a vizinhança e a família da moça, era algo já estabelecido. Elinor considera esse ato perigoso, porque poderia comprometer a moça. Mais tarde, Willoughby devolve a mecha de cabelo em uma de suas cartas comunicando seu casamento com uma herdeira rica. O que é citado e não é mostrado é que Willoughby levou Marianne sozinha até a casa da tia dele, quando a senhora não estava lá. Outra mudança é em relação ao cavalo que Willoughby presenteia a Marianne. No livro e em todas as adaptações, Elinor faz a irmã devolver a égua, porque elas não têm recursos para manter o animal, pois precisariam de um estábulo e de um criado para cuidar do bicho. No filme, Elinor reclama, mas a mãe intervém e a égua fica, porque ela volta a aparecer no final da película. Onde ela foi colocada? Não sabemos. E, claro, Marianne não monta como uma dama, porque jamais esse filme iria se preocupar em fazer esse tipo de coisa corretamente.
E vamos para o Coronel Brandon e começarei falando das idades. O filme em nenhum momento fala a idade das protagonistas, mas Marianne diz que Brandon tem por volta de trinta anos. Muito bem, no início da história, Elinor tem dezenove anos, Marianne quase dezessete, Margaret tem treze e a mãe das moças tem quase quarenta. Sobre o Coronel Brandon, é dito que ele está do lado errado dos 35 anos, isto é, que ele parece mais velho que sua idade cronológica. Fora isso, os dados biográficos dele estão corretos, ou quase. Ele era o filho mais novo e teve um amor de juventude, uma jovem que estava sob a guarda de seu pai. Tentou fugir com a moça, que se chamava Eliza, mas o plano dos dois foi frustrado. Ela terminou sendo obrigada a casar com seu irmão e foi muito infeliz. Brandon seguiu carreira militar e herdou a propriedade e a fortuna depois da morte do primogênito. Só que a cunhada tinha "caído na vida" e ele passou a procurá-la. O filme faz parecer que ele acabara de voltar para a Inglaterra e o torna mais jovem.
O Brandon deste filme é muito lúgubre e isso não destoa do livro. Ele é verbalmente maltratado por Marianne ativamente e a moça ri das tiradas depreciativas de Willoughby sobre ele. O único homem a usar barba no filme é Brandon. Barba não era algo comum na época e a escolha, acredito eu, é para disfarçar o queixo recuado do ator. Talvez para envelhecê-lo também, pois mesmo com trinta e nove anos, o ator parece mais jovem do que é. Brandon conhece Marianne quando a encontra na floresta em Norland, porque inventam de colocá-lo acompanhando a Sr.ª Jennings, que foi pessoalmente oferecer a casinha do genro para as Dashwood, mas em nenhum momento ele se refere a esse momento. Deveria. Mais tarde, quando Marianne é pega pela chuva, não colocam Brandon a encontrando desacordada e a levando nos braços até a casa dos Palmer. Desde a adaptação de 1995, a gente sempre espera que essa cena seja incluída. Para quê colocar um homem daquele tamanho no filme e cortar uma sequência tão romântica e que serve de contraponto à passagem em que Willoughby "salva" Marianne.
Essa parte de Marianne doente foi muito reduzida e roubada de sua emoção. Ela volta andando para casa, sua doença é rápida e não ficam estabelecidos a extrema gravidade e o perigo de morte. E temos o Coronel Brandon desafiando Willoughby embriagado para um duelo que deixa as mulheres excitadíssimas. O duelo não está no livro, mas é sugerido, seria algo esperado que o Coronel confrontasse Willoughby. A série da BBC de 2008 incluiu a sequência, mas com espadas em vez de pistolas. Só que eu duvido que o Coronel iria se bater com um homem bêbado. Fora isso, o desfecho do duelo, a forma como foi conduzido, esvaziou sua emoção e a reação das mulheres foi um tanto ridícula. Ainda assim, ela foi usada para marcar que Marianne estava começando a ver as qualidades do Coronel, que ela descobrira que ele tinha sentimentos e um espírito apaixonado.
Mas por qual motivo Brandon desprezava Willoughby? O que ele fez com Marianne já seria suficiente, mas havia algo mais. A mulher que Brandon amava foi seduzida por Willoughby. Aqui, há uma mudança grande e sem explicação em relação ao livro, mas que se ajusta ao fato do Brandon deste filme ser mais jovem. No original, Eliza, a mulher que Brandon amava, já estava morta quando ele voltou para a Inglaterra. Só que ela tinha uma filha e Brandon encontrou a menina e a tomou como sua protegida. Quando a jovem tinha quinze anos, Willoughby a seduziu, engravidou e abandonou. Quinze anos é uma idade que nas obras de Austen representa um limite. Uma jovem pode ter aparência de mulher, mas ela ainda é uma menina inocente e vulnerável a um sedutor. Willoughby é o sedutor de Razão e Sensibilidade. Em Orgulho e Preconceito, Wickham faz esse papel tentando abduzir a irmã de Darcy e, mais tarde, sendo bem-sucedido com Lydia Bennet. Por qual motivo o colocaram seduzindo, engravidando e abandonando uma mulher experiente, não sei, mas essa Eliza do filme morreu no parto junto com a criança que esperava.
E chegamos em Edward Ferrars. Olha, com todos os problemas que eu vi nesse filme, eu gostei de George MacKay como Edward Ferrars, acho mesmo que é o ator que mais combina com a personagem em todas as adaptações que assisti. Ele conseguiu ser convincente como o mocinho mais sem sal de Austen. O ator não tem uma beleza típica, mas tem um sorriso simpático e passa a timidez que eu projeto na personagem. As interações de Edward com Elinor e Margaret no início da história ajudam bastante a prender a atenção e parecem sinceras. Como em outras produções, usam a relação com a menina para estabelecer que ele é um cara legal, por assim dizer. Não precisavam colocar Elinor se engalfinhando com a irmã no meio do mato, mas quem pensou esse filme não sabe o que é compostura e tem problemas em retratar a protagonista. Nesta primeira parte fica bem desenhado o início dos sentimentos dele por Elinor e vice-versa. O problema vem depois.
Houve uma grande alteração na história de Edward. No livro, ele ficara noivo de Lucy Steele muito jovem, em segredo e por sua própria vontade. No início do livro, Edward tem vinte e três anos. Ele assumiu o compromisso com a sobrinha de seu professor quando não tinha experiência ou maturidade e não percebeu o quanto Lucy é vulgar e interesseira. No filme, o casamento é combinado entre as famílias quando ambos eram crianças e Lucy era rica. A mãe de Edward, que não aparece no filme, quer dissolver o compromisso e Edward o mantém em segredo. No livro, a Sr.ª Ferrars fica irada ao descobrir o compromisso e, como Edward não quer rompê-lo por questões de honra, ele é deserdado. Só que Lucy quer ser rica e rompe o noivado e acaba casando com o irmão mais novo de Edward, Robert. Aliás, eu não consigo até hoje engolir esse casamento. E não vejo essa mudança como uma forma de redimir Edward aos olhos da audiência. Mas sei lá o que passa pela cabeça de quem montou esse filme. De qualquer forma, é o Coronel Brandon quem socorre Edward, mesmo sem conhecê-lo por saber da estima de Elinor por ele. O Coronel lhe oferece a paróquia de sua propriedade e ajuda a lhe dar condições dignas de vida e casar com Elinor.
Quanto às personagens coadjuvantes, Fiona Shaw, que logo será Lady Catherine de Bourg no Orgulho e Preconceito da Netflix, está muito bem, assim como Turlough Convery como Sir John Middleton. Sua esposa, que às vezes é cortada das adaptações, Lady Middleton (Chloe Pirrie), parece pequena e apagada perto dele. Um contraste curioso, com uma criatura excessivamente expansiva, que ocupa todos os espaços, e uma mulher apequenada por causa disso e de uma mãe igualmente dominadora. Caitríona Balfe construiu uma Sr.ª Dashwood mais centrada e forte do que no livro. É ela que decide ir embora de Norland depois que Fanny faz um comentário ofensivo sobre Elinor e Edward. No livro, a personagem é muito mais dependente da filha e muito mais alheia à realidade. Na própria descrição das personagens, sempre fica explícito que Marianne saiu a mãe.
Falando em Lucy Steele, a adaptação reduziu sua participação e eliminou sua irmã, Anne. Vemos pouco das suas perfídias e da forma como ela tortura a pobre Elinor, refém de seu segredo. Além disso, os Palmer, que servem de alívio cômico no livro, apareceram bem menos do que no original. E um detalhe curioso e que não ajudou o filme, Mr. Palmer é interpretado por um ator não-binário, Eliot Sumner, filho de Sting, e sem nenhuma passabilidade como homem. Como é uma participação muito pequena, não compromete o filme, como um artigo transfóbico da Spike alardeou, mas foi uma escalação ruim. Stacy Martin está ótima como Fanny, mesquinha e cruel na medida certa, e eu sou solidária com ela, porque se uma Sr.ª Jennings chegasse sem avisar na minha casa, como inventado nesse filme, eu também iria querer vê-la bem longe. E, para manter a tradição, o ator que faz Robert Ferrars (Forrest Bothwell) é sempre muito feio e sem atrativos.
Falando em Bechdel Rule, qualquer produção de Jane Austen cumpre perfeitamente a regra, afinal, sempre há várias personagens femininas com nomes, que conversam entre si, e não somente sobre um homem. Agora, o filme não questiona papéis de gênero. Colocar mulheres fazendo trabalhos pesados por estarem em situação miserável sem refletir sobre isso, não ajuda a discutir papéis masculinos e femininos ou questões de classe. Colocar uma mocinha descabelada correndo por aí não se configura como questionamento de padrões impostos sobre as mulheres; é só rebeldia vazia e sem objetivo. Aliás, tudo nesse filme escuro e visualmente sem graça parece superficial, mas inventaram de colocar Elinor e Edward dançando e isso já basta para muita gente. E, sim, é uma cena agradável, bonitinha, mas Elinor jamais deixaria de ir procurar sua irmã e ajudá-la a dançar com quem quer que seja. É a única passagem em que a relação entre as irmãs foi colocada em segundo plano.
Reforço que o filme fará sucesso e acrescento aos motivos já apresentados o fascínio por Jane Austen. Mesmo em um filme tão capenga, é possível ver Austen lá, algum vestígio de seus diálogos tão bem construídos e críticos. Isso basta? Espero que não. Fora, claro, que há toda uma ideia equivocada sobre Jane Austen, que observa, analisa e critica o próprio grupo ao qual pertence, a gentry, a pequena nobreza rural inglesa, e apresenta jovens mulheres tentando sobreviver em um mundo que lhes oferece poucas escolhas e, na verdade, lhes anuncia apenas uma como desejável: o casamento. Para as irmãs Dashwood só havia um caminho que as salvasse de uma vida de restrições econômicas e humilhações, e Austen conclui o seu livro oferecendo essa redenção para as moças na forma de dois homens bons, porque sua boa fortuna, seja emocional ou financeira, dependia deles, e que as amavam. Bem colocadas na vida, especialmente Marianne, poderão dar algum conforto à mãe viúva e garantir que Margaret tenha melhores possibilidades do que elas tiveram.
Fora isso, a produção desse Razão e Sensibilidade parece dialogar e querer imitar a atmosfera das obras das irmãs Brontë, mas não os livros em si, muito mais o que vemos no cinema. De resto, personagens como Jane Eyre, que foi claramente referenciada no encontro entre Brandon e Marianne, não era do mesmo grupo social que as personagens de Austen; estavam um degrau abaixo. Jane Eyre podia trabalhar, ser governanta, professora, para as mulheres dos livros de Austen, vide Jane Fairfax de Emma, ter que se tornar empregada de alguém as humilhava e manchava sua própria família. (*Comentarei futuramente o trailer de Orgulho e Preconceito, porque temos um problema ali.*). Quando sem fortuna própria, caso das Dashwood, era o casamento ou a dependência, seja de um irmão, sobrinho ou de outros membros do seu mesmo grupo social. Mas o filme preferiu fechar com o Coronel Brandon e Marianne flertando e com um futuro em aberto, como se o casamento da moça, ainda mais depois de tantos escândalos, não fosse algo urgente.
E, para concluir, reforço que é triste ver produções tão escuras e com aparência suja serem consideradas esteticamente agradáveis. Emma (2020) tem defeitos, mas era um deleite para os olhos. Enfim, sugiro a leitura do livro e que você assista outras adaptações. No blog vocês encontram resenhas das adaptações de 1995 (cinema), 2008 (série da BBC) e 2024 (filme para a TV). Todas essas versões, mesmo a última, que é da Hallmark, são melhores do que esse filme que estreou agora.
Hoje, foi comunicado o falecimento do mangá-ka Tetsuya Chiba, co-criador de Ashita no Joe (あしたのジョー), um dos mangás mais importantes de todos os tempos. Chiba fazia parte de uma geração que estava atenta à sociedade ao seu redor e tinha um compromisso em retratar as angústias, dificuldades e o esforço de superação dos japoneses do pós-guerra. No final da década de 1960 e no início da década de 1970, o Japão vivenciou protestos estudantis massivos liderados pela Nova Esquerda e por facções estudantis comunistas. Os jovens marginalizados se identificavam fortemente com seu protagonista Joe Yabuki, rapaz pobre, nascido e crescido na favela, que lutava desesperadamente contra um sistema opressor. Chiba criou um herói que foi abraçado tanto pelos estudantes universitários quanto pelos membros da classe operária. Sim, essa identificação com personagens de mangá não foi inventada pela Geração Z, como se o mundo tivesse começado hoje.
Entre suas muitas premiações, Tetsuya Chiba recebeu a Ordem da Cultura do Japão (Bunka Kunshou) em outubro de 2024. Ele foi o primeiro autor de mangás a ser condecorado com essa prestigiada honraria desde a sua criação em 1937. E uma curiosidade: a obra de estreia de Chiba, Butoukai no Shouōjo (舞踏会の少女), de 1958, era um shoujo mangá. ☺️ Enfim, o artigo do Japan Times comunicando a morte de Tesuya Chiba está muito bom e eu decidi traduzi-lo e colocá-lo abaixo. Ah, sim! Ashita no Joe é publicado pela Newpop no Brasil.
O artista de mangá Tetsuya Chiba, criador de 'Ashita no Joe', morre aos 87 anos.
O artista de mangá Tetsuya Chiba, mais conhecido por sucessos como "Ashita no Joe" e condecorado com a Ordem da Cultura do Japão, faleceu aos 87 anos. | JIJI
Por Alyssa I. Smith, Redatora da Equipe
A editora Kodansha anunciou na terça-feira que o artista de mangá Tetsuya Chiba, mais conhecido por ser um dos criadores da popular série de boxe "Ashita no Joe", faleceu aos 87 anos na última quinta-feira em um hospital em Tóquio.
Com uma carreira que abrangeu sete décadas, Chiba foi uma figura fundamental na consolidação do mangá esportivo como um gênero importante. Em 2024, ele se tornou o primeiro artista de mangá a receber a Ordem da Cultura, uma das maiores honrarias culturais do país.
"Tetsuya Chiba criou inúmeras obras-primas ao longo de seus 70 anos de carreira, impulsionado por um forte amor e fé na arte do mangá”, diz o comunicado da Kodansha, que também destaca o Prêmio Chiba Tetsuya, criado há 46 anos para incentivar novos talentos. “Muitos aspirantes a mangakás deram seus primeiros passos rumo a carreiras profissionais com suas palavras em mente — e continuam atuantes na indústria até hoje. Suas imensas contribuições para o mundo do mangá são insubstituíveis.”
Nascido em Tóquio em 1939, Chiba passou a infância na Manchúria ocupada pelo Japão, atualmente no nordeste da China. Suas experiências durante a Segunda Guerra Mundial e a luta de sua família para sobreviver após o retorno ao Japão depois da rendição do país influenciaram grande parte de sua obra criativa.
Chiba estreou no mercado editorial de revistas em 1958 com “Butokai no Shojo”. Sua obra mais famosa, “Ashita no Joe” (conhecida como “Tomorrow's Joe” ou “Ashita no Joe: Fighting for Tomorrow” em inglês), começou a ser publicada na Weekly Shonen Magazine em 1968. A história acompanha Joe Yabuki, um órfão das favelas de Tóquio que começa como um azarão no mundo do boxe japonês e eventualmente se torna um lutador de renome mundial.
Uma representação impactante das ansiedades sociais e econômicas do Japão pós-guerra, a série tornou-se um fenômeno, vendendo mais de 20 milhões de exemplares. Quando o personagem rival de Joe, Toru Rikiishi, morreu na história, os fãs compareceram a um funeral real realizado em sua homenagem, demonstrando o impacto significativo da série.
Chiba também era conhecido por outras séries com temática esportiva, como “Notari Matsutaro”, que se passava no mundo do sumô, e “Ashita Tenki ni Naare”, sobre um jovem jogador de golfe. Em dezembro de 2015, Chiba começou a serializar “Hinemosu Notari Nikki”, um mangá baseado em suas experiências vivendo na Manchúria, seu retorno ao Japão e sua vida como artista. Em setembro deste ano, no entanto, a série foi suspensa devido a problemas de saúde.
Além da Ordem da Cultura, Chiba recebeu honrarias como a de Personalidade de Mérito Cultural em 2014 e a de membro da Academia de Artes do Japão em 2022. Ele também atuou como presidente da Associação de Cartunistas do Japão e lecionou na Universidade de Artes de Bunsei.
Vamos lá, quando postei a imagem acima no Twitter, vieram me dizer que os fãs japoneses estavam indignados com o uso da Rosa de Versalhes em protestos. Achei estranho, perguntei se havia links, mas a criatura disse que "Estava em todo lugar.". Sim, coisas podem escapar ao meu radar, mas algo assim seria difícil. Pois bem, há reação de fãs japoneses ao uso geral de imagens e personagens de mangá e anime. Isso é generalizado? Não. Em relação à Rosa de Versalhes, ela é identificada, os franceses conhecem a série, seja o anime (Lady Oscar) ou o mangá, mas a maioria das críticas se liga ao que mais aparece: One Piece. O coleguinha estava exagerando e meio que tentando me fazer parecer desinformada. Conheço as estratégias. OK. Com a ajuda do ChatGPT, encontrei artigo do Le Monde que identificou a presença de Oscar nos protestos, PORÉM, como o próprio texto diz:
Para seus leitores, de diferentes gerações, gêneros e classes sociais na França, os mangás são portadores de esperança e coragem, mas também veículos para mensagens profundas. Não surpreendentemente, os mangás mais citados são best-sellers, a maioria dos quais pertence ao gênero shounen — séries historicamente voltadas para meninos. A maioria são histórias de aventura e artes marciais que destacam valores como perseverança, solidariedade e a busca por poder e justiça. Algumas dessas virtudes ressoam com os protestos atuais.
Os protestos começaram com colegiais, meninos e meninas que apontam que suas escolas estão caindo aos pedaços e que há falta de professores. O custo de vida também está empurrando as manifestações e vi entrevistas desses líderes estudantis falando também da infiltração de elementos violentos e que as demandas iniciais estão sendo deixadas de lado e o que aparece na grande imprensa é a violência e a destruição. Bem, é o que vende, não é mesmo? De repente, será como em 1968, havia um leque de demandas, inclusive o sistema educacional francês, a descolonização, direitos civis e o que ficou na cabeça de muita gente é que os jovens foram para a rua, porque queriam amor livre e usar drogas.
Abaixo está o artigo do Le Monde, com a mesma estrutura do original. Ele fala do uso das personagens de mangá e anime e do que elas representam para os jovens franceses. Cita Oscar, mas não fala da reação dos japoneses ou outros fãs de anime pelo mundo que identificam os protestos como terrorismo. O que importa, para mim, é como os mangás e animes mobilizam sentimentos e como mesmo obras clássicas, como a Rosa de Versalhes, continuam sendo lembradas e resignificadas pelas novas gerações.
Os mangás, com seus personagens rebeldes e resilientes, estão ganhando espaço em bloqueios e manifestações em escolas de ensino médio.
Personagens de "One Piece", "Naruto" ou "Dragon Ball" são frequentemente invocados em marchas de protesto e nas redes sociais.
Por Pauline Croquet
Durante as manifestações na Place de la Victoire, em Bordéus, em 17 de outubro de 2026. MORGAN FACHE/DIVERGENCE FOR "LE MONDE"
Trajes coloridos, cartazes desenhados à mão, bandeiras e símbolos… Nos bloqueios de escolas, nas recentes manifestações na França e também nas postagens em redes sociais, as referências à cultura pop se multiplicam. Entre esses emblemas, destacam-se os mangás, e especialmente o mais popular de todos: One Piece. A série criada por Eiichiro Oda já marcava presença nos movimentos juvenis em 2025, da França ao Nepal, passando pelo Marrocos, onde a bandeira negra adornada com uma caveira e ossos cruzados usando um chapéu de palha foi vista tremulando. A bandeira nada mais é do que a do bando do Chapéu de Palha, liderado por Monkey D. Luffy, o herói.
Na aura também aparecem referências a outras séries muito apreciadas, como Naruto , Dragon Ball e mais marginalmente, Lady Oscar, personagem da Rosa de Versalhes, heroína aristocrata que vai reunir o povo diante do prêmio da Bastilha, em perigo de vida. Mesmo imagens falsas geradas por inteligência artificial e atraentes on-line foram convocadas para a estética do mangá, como as mensagens de apoio da parte dos artistas. E mais lojas e bibliotecas consagradas em mangás e animação japonesa também foram pagas para cible durante as pilhagens, no mesmo dia 17 de outubro, na margem das cortes, em Paris ou encore em Grenoble.
A presença de mangás e animes nas manifestações vai bem na simples diversão e nas emoções intensas que os suscitam. Desordens relevantes de uma cultura pop globalizada, esses símbolos virais e federais devem ser sinais de manifestação, ainda que incluídos no estranho das fotos do movimento social amplamente circuladas.
Um libertador de pessoas oprimidas
Para seus leitores, de diferentes gerações, gêneros e classes sociais na França, os mangás são portadores de esperança e coragem, mas também veículos para mensagens profundas. Não surpreendentemente, os mangás mais citados são best-sellers, a maioria dos quais pertence ao gênero shounen — séries historicamente voltadas para meninos. A maioria são histórias de aventura e artes marciais que destacam valores como perseverança, solidariedade e a busca por poder e justiça. Algumas dessas virtudes ressoam com os protestos atuais.
Assim, manifestantes entrevistados nos últimos dias por veículos de comunicação como L’Humanité, Sud Ouest e Franceinfo afirmam que, para eles, Luffy, o herói de One Piece, é um símbolo de liberdade e oposição a estados autoritários, um libertador de povos oprimidos. Ao longo de sua jornada, ele e sua tripulação enfrentam escravidão, racismo, xenofobia, líderes corruptos e desastres ecológicos.
Além de seu forte senso de lealdade e justiça, o personagem também demonstra um otimismo contagiante: este jovem, que não sabe nadar, tem como objetivo se tornar o maior pirata, colocando as mãos em um tesouro mítico – o "One Piece".
Entre as fantasias preferidas pelos manifestantes estão as da Akatsuki, do universo de Naruto, um grupo criminoso composto por ninjas renegados, que vestem um casaco escuro com nuvens vermelhas. Essa fantasia é fácil de adquirir e usar, o que explica sua popularidade. Mas talvez também porque, entre seus membros poderosos, existam figuras redentoras, como Itachi, que massacrou todo o seu clã, ou Pain-Nagato, uma antiga vítima de guerra. Eles justificam suas ações por motivos políticos e no interesse geral.
Todas essas figuras que resistem à autoridade estão galvanizando os manifestantes em um momento em que muitos cidadãos querem marcar o rompimento com o governo e com o Presidente da República Francesa – que não hesitou, durante seus mandatos, em demonstrar seu interesse por mangá, e em particular por One Piece.