quarta-feira, 8 de dezembro de 2021

Mangá sobre Princesa Historiadora Bizantina está em publicação no Japão!!!

Estava vendo as capas dos lançamentos do dia no Manga Mogura e apareceu a capa do primeiro volume de Anna Comnena (アンナ・コムネナ) da mangá-ka Sato Furada.  E eu fiquei particularmente surpresa, porque o Império Bizantino é tão pouco visitado que ver um mangá sobre uma personagem como Anna Comnena me deixou surpresa e feliz.  E nem estou me importando muito com o tom do mangá, que parece ser de comédia.


Apresentando a personagem, Anna Comnena (1083 – 1153) foi uma princesa bizantina... Uma pausa, você precisa lembrar que o Império Bizantino foi a parte sobrevivente do Império Romano e que existiu entre o ano de 395, quando o imperador Teodósio dividiu o território entre seus dois filhos, e o ano de 1453, quando Constantinopla, atual Istambul, foi conquistada pelos turcos.


Enfim, Anna Comnena era filha do imperador e foi educada para ser esposa do futuro herdeiro de seu pai, as coisas não ocorreram de forma tão tranquila, coisas de Império Bizantino, mas ela morreu de velhice.  Enfim, a jovem princesa recebeu uma educação muito bem cuidada em várias disciplinas como  Literatura grega e história, filosofia, teologia, matemática e medicina.  Depois que um golpe d Estado destituiu seu marido, ela foi enviada para um mosteiro onde escreveu a Alexíada, que é uma das principais fontes para o estudo do Império Bizantino e da 1ª Cruzada.


O primeiro volume de Anna Comnena foi publicado com recomendação de Peach-Pit (Shugo Chara), não descobri a revista que publica a série, mas acredito que seja seinen.  Também só achei imagens coloridas da série, mesmo as páginas do mangá.


A autora parece que gosta de falar de Grécia, porque sua série anterior Utae! Erinna!  (うたえ!エーリンナ!), que se passa na Grécia Antiga e tem como protagonista uma garota que, contrariando Às expectativas da sua família, deseja ser música.  Segundo o resumo do Bakaupdates, ela termina por ser mandada para uma escola na ilha de Lesbos onde aprenderá a tocar instrumentos e cantar, lá, ela convive com outras meninas e se torna discípula de Safo (!!!!).  Aposto que há algo de shoujo-ai na história.  Este mangá tem scanlations, espero que saiam de Anna Comnena, também.  De repente, a autora se empolga e decide fazer um mangá sobre Teodora e Justiniano.

terça-feira, 7 de dezembro de 2021

Ranking da Oricon - Semana 22-28/11


Segue o ranking da Oricon da última semana, o novo está saindo hoje.  Os mangás femininos estão bem representados entre os trinta.  No top 10, o maior fenômeno da revista Ribon em muito tempo Honey Lemon Soda.  O volume está sendo ajudado pelo filme live action e não me surpreenderia se tivesse dorama e até anime.  Apesar da Ribon ser uma revista para um público mais jovem, 9 aos 13 anos, às vezes um mangá rompe essa bolha e este foi o caso.  Não acredito que a revista volte aos seus anos dourados de grandes vendagens, mas deve dar um gás na publicação como um todo.  Em 11º lugar temos um shoujo que, muito provavelmente, gira em torno de um romance entre dois garotos.  Não conhecia o mangá, mas é o que as capas me sugeriram.


Saindo para os últimos 10 títulos da lista temos Hajimete Koi o Shita Hi ni Yomu Hanashi, que já teve live action, e sai na revista Cookie, que é meio que o inverso da Ribon, uma revista shoujo que quer pegar quem não é adolescente.  Era onde saia Nana.  Hajimete Koi o Shita Hi ni Yomu Hanashi tem como protagonista uma mulher adulta, uma professora.  Já Remnant: Jujin Omegaverse é BL, omegaverse, isto é, um cenário no qual qualquer um pode engravidar e, pela capa, não é "my cup of tea", se vocês me entendem.  E não é pelo fato de ser BL, coisas que flerte com zoofilia de forma muito aberta, não me agrada, não.  E, por último e se despedindo, muito provavelmente, Uruwashi no Yoi no Tsuki, que passou duas semanas no top 10 e deve estar chamando atenção.  Deve ter dorama, eu aposto que terá, ou, então, um filme live action.

1. Kusuriya no Hitorigoto #9
2. Kingdom #63
3. Honey Lemon Soda #18
4. Tondemo Skill de Isekai Hourou Meshi #8
5. Sousou no Frieren #6
6. Oshi no Ko #6
7. SPY×FAMILY #8
8. Mushoku Tensei ~Isekai Ittara Honki Dasu~ #16
9. Kujonin #4
10. Saki #22
11. Cool Doji Danshi #4
22. Hajimete Koi o Shita Hi ni Yomu Hanashi #14
23. Remnant: Jujin Omegaverse #6
30. Uruwashi no Yoi no Tsuki #3

segunda-feira, 6 de dezembro de 2021

Comentando Marighella (Brasil/2019): Um filme necessário e que dialoga com o Brasil de nossos (tristes) dias

Finalmente, assisti Marighella, o primeiro filme dirigido por Wagner Moura.  Ele estreou no Globoplay ontem e eu fiquei vendo o filme e parando durante boa parte da manhã.  Ter que interromper o filme e,  não, assisti-lo como se deve, isto é, no cinema, é ruim, principalmente por roubar muito da sua emoção, por outro lado, poder parar um filme, permite analisá-lo melhor, ver com mais clareza seus pontos fortes e fracos.  Escrito isso, Marighella tem muito mais pontos fortes do que fracos.  Ele funciona bem como filme com drama, ação e até humor, o que me surpreendeu, além de pés firmes na História, enfim,  um filme muito necessário em nossos dias.  Começarei resumindo o filme e, a seguir, farei meus comentários, não esperem por nada muito organizado.

Marighella (Seu Jorge) acompanha a militância política da personagem título durante os anos de 1968 e 1969, focando no seu papel na organização da guerrilha urbana que se insurgiu contra a Ditadura Civil-Militar que tomara o poder 1964 com o apoio do governo norte-americano.  O filme tem breves flashbacks mostrando o início do regime e o forte vínculo do protagonista com seu único filho, mas seu foco é o final da vida de Marighella, as contradições e limitações da luta armada no Brasil e a participação de múltiplos setores sociais no movimento: operários, estudantes, frades dominicanos, velhos militantes do PCB etc.  Além disso, Marighella foca na repressão aos guerrilheiros e no papel do terrível delegado Lúcio (Bruno Gagliasso), que não descansou enquanto não aniquilou a guerrilha urbana na cidade de São Paulo.

Começando do começo, o filme Marighella foi apresentado no Festival de Berlim em 2019 e demorou dois anos para estrear, porque foi boicotado pela ANCINE, agência subordinada ao governo federal.  Marighella é um filme político que conflita com o que defende o atual governo, isto é, reescrever a História do Brasil glorificando a Ditadura Civil-Militar, transformando torturadores em heróis e demonizando todos aqueles que resistiram ao regime, de forma pacífica, ou pegando em armas, tanto faz.  O filme foi baseado na biografia Marighella: O Guerrilheiro que Incendiou o Mundo de Mario Magalhães e dialoga o tempo inteiro com questões de nossos dias.  Isso pode ser visto inclusive na postura crítica em relação à luta armada, a opção de Marighella frente à escalada de truculência do regime militar.  

É até curioso, porque aparentemente alguns acreditam que Wagner Moura estaria usando o filme como uma peça política de apologia à luta armada, mas o filme é tudo, menos maniqueísta.  O fato é, e estou repetindo o que escrevi muitas vezes em tantas outras resenhas, um filme histórico não raro fala mais do presente, das angustias e esperanças de quando foi produzido, do que do passado que visa retratar.  Marighella é um sólido filme histórico, mas não foge a essa fórmula.  E há uma cena pós-crédito que me incomodou, na qual os atores e atrizes que fazem os guerrilheiros aparecem cantando o hino nacional.  Já me explicaram que é um pedaço de um ensaio de voz do elenco.  Vi um monte de entrevistas com Wagner Moura e não vi nenhuma na qual ele explicasse a cena.  OK.  

Qual o objetivo da cena?  Simples, tomar posse de um símbolo pátrio que foi sequestrado pela extrema-direita.  É importante esse tipo de movimento, eu sei que é.  Além disso, ao longo do filme, mais de uma vez, os guerrilheiros usam para si a palavra "patriota", tão presente em nossos dias, nada disso é de graça.  De qualquer forma, a cena dos atores cantando gritando o hino nacional com lágrimas nos olhos, me fez lembrar da Copa do 7X1.  No cinema, repito, talvez, eu ficasse emocionada, também.  Em casa, aquilo me enervou, especialmente, porque os maiores defeitos do filme estão no seu final.  Desde Munique não via um filme com barriga no final, porque, sim, o filme deveria se fechar rapidamente após a morte do protagonista e ainda temos uns 20 minutos.  

Mas antes que eu coloque o carro muito à frente dos bois, vamos apresentar o protagonista.  Carlos Marighella (1911-1969) nasceu em um 5 de dezembro, era filho de um imigrante italiano e de uma descendente de sudaneses escravizados.  Nasceu em Salvador, em um bairro pobre, a Baixa do Sapateiro.  Um ponto importante, e fiz um texto quando a polêmica foi levantada ainda em 2019, provavelmente Marighella não a pele tão negra quanto Seu Jorge, mas era reconhecido como preto em sua época e foi vítima de racismo.  Fora isso, Wagner Moura bem colocou em uma das suas entrevistas que decidiu empetrecer Marighella, porque isso seria importante para a narrativa e que raramente quando personagens históricas são embranquecidas ouvimos tantas reclamações.  É fato.  E posso citar muitos exemplos se alguém desejar.  Seu Jorge está muito bem no papel.  Muito mesmo.

O pai operário de Marighella o estimulou a estudar e o filho correspondeu, terminando brilhantemente os estudos e ingressando no curso de Engenharia.  Marighella era bom com números e com as letras, e foi poeta, também.  Em 1934, em pleno período de polarização do Governo Vargas (comunistas x fascistas), entrou no PCB e abandonou a universidade.  A militância o levou a uma primeira experiência na prisão.  Ainda no Governo Vargas chegou a ser torturado no cárcere.  Com a abertura, em 1945, elegeu-se deputado federal, mas teve seu mandato cassado quando o PCB foi banido em 1947.  No meio das agitações políticas, conheceu a operária Elza Sento Sé (Maria Marighella) com quem teve seu único filho (personagem muito importante no filme) em 1948.  Voltarei ao filho de Marighella mais tarde e já digo que, infelizmente, não encontrei o nome dos dois atores que interpretaram o menino.  Uma lástima!

Elza, no entanto, não foi a companheira de sua vida, mas a militante comunista Clara Charf  (Adriana Esgteves), que o filme opta por excluir das ações guerrilheiras da  Ação Libertadora Nacional (ALN). A Clara do filme é contra a luta armada, a real não pegou em armas, mas participou das atividades de planejamento dentro do grupo.  A escolha por isentar Clara retira de cena a única mulher que poderia estar em uma posição de comando, ainda que subordinada à Marighella dentro da guerrilha.  Não considero o filme machista, mas esta opção do roteiro precisa ser pontuada.  De resto, há mulheres no grupo de guerrilheiros, duas, Bella (Bella Camero) e Maria (Ana Paula Bouzas), e elas são tão atuantes quanto os homens, não há tratamento diferenciado.

Enfim, o filme discute muito bem dois pontos, o primeiro, a repressão não esperou 1968 e o AI-5 para prender, torturar e eventualmente matar opositores. É importante ressaltar isso, porque há quem tente culpar a radicalização de setores da esquerda pelo recrudescimento da ditadura.  Desculpem, isso é desinformação, ou má fé.  A questão é que a partir de 1967, as coisas se tornaram cada vez mais pesadas e não somente para quem estava na luta armada, ou em uma militância política explícita.  A personagem de Herson Capri, o jornalista Jorge Salles, militante velho do partido comunista, companheiro e amigo de Marighella, e inspirado parcialmente no jornalista Hermínio Sacchetta, é um exemplo disso.  Ele nunca pegou em armas, era contra a luta armada e não foi poupado.  O mesmo vale par aa esposa e os filhos crianças de Jorge (Jorge Paz), que é inspirado no líder operário Virgílio Gomes da Silva, o primeiro desaparecido político pós-AI-5.  Ilda, este é o nome dela, aparece no documentário A Torre das Donzelas (*resenha aqui*) e nada sabia das atividades do marido. Querem um documentário que ilustre melhor o tema?  Sugiro Os Militares da Democracia: os militares que disseram Não.

O segundo ponto importante, Marighella e seu amigo Branco (Luiz Carlos Vasconcelos), na verdade o guerrilheiro histórico Joaquim Câmara Ferreira (Comandante Toledo) não representam o PCB, especialmente, sua velha guarda.  Na cena em que Jorge comunica à Marighella e Branco que o PCB não apoia a luta armada e que eles serão expulsos do partido, isso fica evidente.  A maioria dos guerrilheiros era muito jovem.  Já o PCB acreditava que não havia possibilidade de fazer uma revolução no país, não sem a mobilização das massas, e, algo que não é discutido no filme, a crença quase religiosa que antes de uma revolução comunista precisávamos de uma feita pela burguesia.  Há gente repetindo isso até hoje.  Marighella e seus companheiros e companheiras não queriam e acreditavam que não podiam esperar, além disso, olhavam para Cuba e se enchiam de esperança.

Em relação à narrativa, o filme Marighella não é linear, mas é  muito bem montado, alternando sequências de ação, como o assalto ao trem no início da película com cenas mais intimistas  torturou de a e até de humor.  Porque algo realmente interessante é que há humor em Marighella e ele depende principalmente de Seu Jorge e da sua interação dele com Luiz Carlos Vasconcelos.  É um humor discreto, mas ajuda a humanizar as personagens.  Aliás, um acerto muito, muito grande, é que as personagens não discursam, como é comum em produções históricas brasileiras.  Se você lê minhas resenhas, já deve ter visto este comentário várias vezes.  As personagens conversam, falam de coisas sérias e de amenidades, bobagens até, eles parecem gente de verdade, ainda que sujeitas a situações extremas.  Incluso aí o vilão maior do filme, o delegado interpretado por Bruno Gagliasso.

Não entendi por qual motivo não usaram as personagens históricas com os seus nomes reais, já citei vários exemplos, mas, enfim,  Bruno Gagliasso no filme é o Delegado Lúcio do DOPS (Departamento de Ordem Política e Social) e da OBAN (Operação Bandeirantes), que está no filme, mas não é citada nominalmente.  Pois bem, Lúcio é o famoso Delegado Fleury, um agente do regime fundamental para o massacre da guerrilha urbana, mas, também, envolvido com os esquadrões da morte comuns, corrupção, extorsão e, bem, quando ele não foi mais útil ao governo, foi eliminado.  Aliás, há uma cena muito boa na qual o delegado, uma personagem muito arrogante e segura de si, enfrenta um dos representantes do governo norte-americano (Charles Paraventi) e é ameaçado meio que nessa linha, um dia, ele pode não ser essencial. 

Eu li algumas críticas e comentários de gente se espantando com o desempenho de Gagliasso, são pessoas que certamente nunca o viram atuar nas telenovelas.  Sabe o desprezo pela teledramaturgia nacional?  Pois é... Desde muito jovem, Gagliasso se especializou em compor tipos e ele se entrega com muito empenho aos seus papéis que podem ser desde o jovem esquizofrênico, passando pelo adolescente gay no armário, o caipira espertinho e, agora, o delegado sádico, porém muito inteligente.  Não pintam Lúcio como psicopata, um caminho fácil, mas um estrategista que, sim, tem prazer no exercício do seu poder que inclui, claro, torturar, intimidar e matar.  Infelizmente, uma das poucas frases clichê do filme está na boca da personagem, ele diz ao norte-americano que o "Brasil não é um país para principiantes.".  Poderia não estar lá.  Outro ponto interessante seria mostrar um tiquinho da relação de Lúcio com a filha criança, porque, bem, o monstro também tem família.  Ela até aparece, mas é muito rápido, a menina não tem falas.

Já a relação de Marighella com o filho é central para a trama.  Um dos flashbacks do filme é 1964, o protagonista ensinando o filho a nadar na praia e lhe fazendo uma promessa.  Eles iriam se rever.  Marighella manda o menino para Salvador e o garoto vê o pai sendo espancado e preso.   Acompanhamos parte do dia-a-dia do menino e as pressões que ele sofre por ser filho do inimigo nº1 do Regime.  Achei problemática, no entanto, que o menino tenha afrontado um professor dizendo que "foi golpe, não, revolução".  Sei que é mais uma das cenas para falar do presente, mas veja o quanto o filho de Marighella seria visado.  

Lembrei de uns iranianos comentando no Orkut uma cena de Persépolis, quando a protagonista enfrenta uma professora e uma pessoa escreveu algo como "Se a gente fizesse algo assim naquele momento do regime, nossos pais nem iriam encontrar o nosso corpo.".  Pois é.  Em dado momento, o Delegado Lúcio coloca um policial para espioná-lo.  Já Marighella grava fitas contando o quanto ama o filho e lhe passando parte das suas experiências e conselhos.  As fitas são uma boa invenção do filme, aliás.  A película também optou por tornar o filho do protagonista mais jovem, em 1964, ele tinha 15 anos.  

O que me enervou e eu vejo como problema do filme é que Marighella, tão experiente, tão responsável, tenha colocado em risco o filho, o amigo, Frei Henrique (Henrique Vieira), a si mesmo e outros, para encontrar com o filho na Bahia.  Ele havia repreendido Jorge por fazer o mesmo, por ir ver a esposa e os filhos.  Enfim, pareceu-me que o objetivo era humanizar ainda mais o protagonista, algo que já estava mais que consolidado.  Se eliminassem esta parte, o filme seria ótimo e ficaria uns 25 minutos menor.  Também foi problemático Marighella ir visitar Clara.  Sendo ela companheira do guerrilheiro, o inimigo nº1 do regime, ela estaria sendo vigiada.

Muito bem, me pareceu um tanto abrupta, também, a mudança de espírito de Marighella, de alguém que diz em dado momento que não tem tempo para ter medo, que vê na luta armada um meio não somente legítimo, mas necessário, em alguém que perde a esperança em relação a este instrumento.  A meu ver, mesmo que sem condenar Marighella e seu grupo, o roteiro tentou criticar a opção pela via da violência que, em dado momento do filme passou a assumir para si um viés de terror contra os agentes do regime.  Por exemplo, a ação da ALN com o MR-8 (Movimento 8 de Outubro), o sequestro do embaixador norte-americano Charles Burke Elbrick, uma das mais impressionantes da época, é tratada como um erro por Marighella, que não tinha participado de seu planejamento.

Se esse tipo de reação é importante para mostrar o quão fragmentado eram os movimentos contra a ditadura, me parece mais um caminho para condenar a opção pela luta armada, meio que como uma resposta às sensibilidades contemporâneas.  É o olhar de hoje, de quem sabe como a história terminou, sobre os eventos do passado, meio que tentando moralizá-los.   Há até a ênfase de que, agora, o regime iria massacrá-los.  Mas já não estava antes?  É bonito o discurso na cena da morte de Humberto (Humberto Carrão), mas é outro exemplo de como o filme parece querer negar o valor da luta armada. Inclusive com a desgraceira que se segue. O fato é que guerrilheiros preferencialmente não devem ter família, precisam mudar de aparência e nome.  No filme, somente Marighella usa algum disfarce.

Claro, é importante saber quando recuar, mas Marighella e outros fazem esse salto de compreensão de forma muito abrupta no filme.  Como ponto curioso, há a resistência de Bella em se deixar tutelar pelo líder, ela se recusa a abandonar a luta.  De qualquer forma, qual seria o caminho?  Havia algum?  Como resistir a um Estado que tinha os meios de repressão e controle da informação nas suas mãos?  Aliás, uma das partes mais interessantes do filme, das que mais gostei, é quando eles mostram a tomada da rádio e a leitura do manifesto à nação.  O rádio, mais que os jornais, ou a TV, era o meio de comunicação mais efetivo da época e ainda tem muita importância em nossos dias.  Porque uma discussão que atravessa o filme inteiro é de como a censura estatal impedia que o povo pudesse se informar e aderir a revolução.  Aliás, o delegado compreende isso e usa a imprensa contra os guerrilheiros, ao apresentá-los como criminosos, terroristas, facínoras, enfim.

Foi bem legal, ainda que tenha se afastado um tanto da história.  A transmissão tinha sido pela manhã, mas, no filme, acabou aparecendo interrompendo um jogo de futebol importante.  Olha, se Marighella tivesse posto seu manifesto no ar interrompendo um jogo de Santos, Palmeiras, Coríntias, porque aconteceu em São Paulo, não ia ter revolução, nenhuma, não.  Se interrompesse uma novela, ou o Carnaval, também iria dar problema.  Muita falta de consideração com o povo trabalhador!  Iria é ter quebra-quebra.  OK, OK, liberdade poética.

Estou chegando ao final do meu texto, porque se eu estou cansada de escrever, vocês devem estar cansados de ler.  O filme é bom?  É, sim.  A Valéria viu problemas nele? Sim, e dissertei o quanto pude sobre eles.  Recomendo o filme?  Muito.  Poderia ser mais curto?  Com certeza.  A parte da visita ao filho poderia ser cortada e tudo que vem depois da morte de Marighella precisava ser repensada, porque me lembrou o filme Munique (*não resenhava filmes nessa época*), que tem uma barriga no final da película.  Complicado isso.  Eu fecharia com a personagem de Bruno Gagliasso e os dizeres "Justiça & Verdade" atrás dele.  Mas eu não fiz o filme.  E, fechando com amenidades, Seu Jorge, Herson Capri e Luiz Carlos Vasconcelos estão muito charmosos no filme.  E a cena de Herson Capri se arrumando lentamente para ser preso foi excelente e olhando o delegado de Gagliasso de cima, foi maravilhosa.

E, sim, a redatora desse texto tem lado, é o da democracia, a que nós temos, no momento, é a burguesa, que está sob ataque.  Não acredito que precisemos de heróis e heroínas, mas, com certeza, temos vilões, os monstros de verdade, como faço questão de explicar para a minha menina desde que ela tinha uns dois anos de idade.  E vejo que estamos correndo o risco sério de perdermos o mínimo que temos de direitos civis, trabalhistas e outros.  Espero mesmo que não cheguemos à encruzilhada dos militantes dos anos 1960.  Pegar em armas, ou não?  Mas enfrentamos problemas semelhantes, a alienação da maioria da população em relação ao que realmente deveria importar, a justiça, alimentação, educação, um salário digno para todos e todas.  E isso não está somente na boca dos comunistas, ou nas palavras do Marighella do filme, mas na Bíblia que uns e outros dizem quer deveria guiar esta nação.  É isso.  Filme muito, muito importante e que merece ser assistido.

Se vocês quiserem complementar Marighella com outras obras, recomendo: O que é isso Companheiro?, concorreu ao Oscar, não é um bom filme,talvez precise rever o filme, mas é sobre o sequestro do Embaixador Norte-Americano; Batismo de Sangue, que trata especificamente dos frades dominicanos envolvidos com os grupos de resistência, aliás, não vi o filme ainda; e a minissérie Anos Rebeldes, que faz um painel maior do período inteiro a partir de um olhar de classe média carioca, com personagens que discursam (*infelizmente*), mas que é, ainda assim, muito bom.  Outras três sugestões de documentários, além dos que estão no corpo do texto, são O Dia que Durou 21 Anos, sobre a participação dos Estados Unidos no Golpe de 1964; AI-5 O Dia que não Existiu, autoexplicativo; e Os Advogados contra a Ditadura: Por uma questão de Justiça, que mostra como a ditadura obstruiu o direito ao acesso à Justiça e perseguiu, prendeu e torturou mesmo os advogados.

Requiem of the Rose King chega ao final na revista Princess + Novas informações sobre o anime

Requiem of the Rose King ou  Bara-ou no Souretsu (薔薇王の葬列), de Aya Kanno, teve seu penúltimo capítulo na edição da revista Princess publicada em dezembro (Janeiro/2022) e temos algumas coisas a comentar.  Teve página de abertura em cores, mas a capa foi do clássico Ouke no Monshou.  Imagino que a próxima capa seja do mangá de Aya Kanno.  Em contrapartida, o calendário da revista é de Bara-ou no Souretsu, imagens abaixo.  


Sim, são lindíssimas.  Temos, também, a data do último volume da série, o #16, 16 de dezembro.  Eu temia que a série se esticasse, e pelo que a autora já comentou, ainda mais com anime, deve sair muita coisa de Bara-ou no Souretsu ainda.  Aliás, eu olho para esse mangá e ele grita Teatro Takarazuka, não me espantaria uma adaptação nos próximos anos.  Enfim, 16 volumes é um excelente tamanho de mangá, nem demais, nem de menos.  Agora devo retomar a leitura.  Pode chegar ao Brasil?  Olha, até acredito que possa, mas não pela Panini, porque depois do que fizeram com Otomen (オトメン), outra obra da autora, a editora não merece.

Continuando, temos o novo trailer do anime, que estreia em 9 de janeiro, com um pedacinho da música de abertura "Ware, Bara ni Insu" (我、薔薇に淫す/Eu sou obcecado por rosas) de Makoto Furukawa. 


No último poster lançado temos Richard, Henrique VI e o fantasma de Joana D'Arc ao fundo. Para quem está perdido e não conhece a história básica da série de Kanno, Baraou no Souretsu  é uma série de fantasia histórica baseada em duas peças de Shakespeare (Henrique VI e Ricardo III) e se passa durante a Guerra das Duas Rosas (1455-85).  Pelo que vi da página de abertura do último capítulo, o mangá fechará com a Batalha de Bosworth Field (22 de agosto de 1485), quando Henrique Tudor, futuro Henrique VII, derrota Ricardo III, último rei York, e coloca fim à sangrenta guerra que destroçou a grande nobreza inglesa.  

Quem quiser uma visão histórica sólida sobre esses acontecimentos, recomendo a parte sobre a Inglaterra do clássico As Linhagens do Estado Absolutismo do Perry Anderson. É exatamente a Guerra das Duas Rosas que permite a ascensão durante o período Tudor de tanta gente da pequena nobreza (gentry), ou até de sujeitos que nem nobres eram dentro das estruturas do Estado inglês, mas isso é assunto para outro post.  As informações sobre o anime, com mais dubladores e imagens de personagens, estão no Comic Natalie e no ANN, também.  

sábado, 4 de dezembro de 2021

Pele de Homem Amanhã no "Aspas Comenta"

Amanhã, no canal da Associação de Pesquisadores em Arte Sequencial, Natania, a Fabiana e eu estaremos falando de Pele de Homem (*resenha aqui*), premiado quadrinho de Hubert e Zanzim. O programa entra no ar às 16h e estou convidando vocês para assistirem comentarem (*caso queiram*) e, principalmente, a ler a obra, porque vale a pena. Foi lançada pela Editora Nemo em nosso país.  O link no Youtube é este aqui.

E eu falei, falei, falei e acabei não pontuando que o quadrinho inspirou o título no conto clássico, que eu adoro, Pele de Asno.  Pensei e esqueci e acabou não entrando no vídeo mesmo.  Aliás, a imagem acima é do filme francês de 1970 com Catherine Deneuve.  Recomendo muito, é um excelente filme.

Dorama Tailandês de Hana Yori Dango estreia no dia 18 de dezembro

Hana Yori Dango (花より男子), de Kamio Yoko, se nada mudou, é o shoujo mangá com a maior vendagem de todos os tempos, somando mais de 61 milhões de volumes vendidos em 2018.  Publicado na Margaret entre 1992 e 2008, recebeu o 41º Shogakukan Manga Awards na categoria shoujo (1995), terminando (*será?*) com 37 volumes, houve anime para a TV em 1996-1997 (*que cobriu parte ínfima da história*) e muitas adaptações para live action.  Sim, há gente que nunca pegou o mangá, mas já assistiu a versão live action japonesa, coreana, chinesa etc.  Aliás, há várias versões chinesas, uma delas, a mais recente Meteor Garden, está na Netflix e alguém veio me perguntar essa semana se é verdade que "eles" (*Eles, quem?!*) morrem no final.  Olha, se segue o original, ninguém morre no final, não.  Sim, eu sei que Hanadan tem problemas, mas eu amo a série assim mesmo.  Trata-se de um novelão do tipo mais puro e um shoujo mangá empolgante.

Muito bem, no dia 18 de dezembro estreia a versão tailandesa de Hanadan.  É a primeira versão do mangá, ou de algumas das adaptações live actions já feitas tailandesa e eu sei, embora não acompanhe de perto, que o país tem uma florescente indústria de doramas que ganhou destaque, principalmente, pelos seus BL, isto é, séries que mostram os relacionamentos entre garotos.  

No Hanadan original, temos como protagonista Tsukushi Makino, uma garota de classe média baixa, que tem uma mãe deslumbrada e que deseja que ela tenha um bom futuro, isto é, case com um homem rico.  Para isso, a família dá seu sangue para que ela estuda na Academia Eitoku, uma escola de elite.  Em Eitoku, quem faz e desfaz são os F4, quatro rapazes lindos e podre de ricos que tem como líder Tsukasa Domyoji, os outros são  Rui Hanazawa, Akira Mimasaka e Sojiro Nishikado. Makino é apaixonada por Rui, mas não tem esperanças.  Um dia, Tsukushi bate de frente com os F4, que costumavam escolher uma vítima para praticar bullying, mas ela não se curva e resiste.  O resultado?  Enfim, Domyouji, que nunca tinha sido desafiado, se apaiona por ela.  Obviamente, muita água irá rolar por baixo dessa ponte, lembrando, é um novelão com muita gente para atrapalhar a vida da protagonista.

A versão tailandesa terá 16 episódios e os horários de exibição estão na Wikipedia e no Comic Natalie.  O elenco principal será composto por Tontawan Tantivejakul (Tu) será Gorya (Tsukushi Makino), Vachirawit Chiva-aree (Bright) será Thyme (Tsukasa Domyoji), Metawin Opas-iamkajorn (Win) como Kavin (Sojiro Nishikado), Jirawat Sutivanichsak (Dew) como Ren (Rui Hanazawa) e Hirunkit Changkham (Nani) as MJ (Akira Mimasaka).  Não conheço atores tailandeses, então, não comentarei nada.  De resto, é certeza que essa versão de Hanadan será legendada em muitas línguas e estará acessivel na internet pelos canais de sempre.

Mangá sobre o romance entre uma workaholic e seu chefe vai virar dorama

Às vezes, mangás que não aparecem nas listas dos mais vendidos, nem estão sendo publicados em grandes revistas chamam a atenção por algum motivo e recebem alguma adaptação.  Este parece ser o caso de Buchou to Shachiku no Koi wa Modokashii  (部長と社畜の恋はもどかしい) da mangá-ka Shimo.  Agora, uma coisa importante, o sachiku (社畜) do título não é bem workaholic, porque o sujeito ou sujeita viciada em trabalho pode fazer isso para promover-se a si mesmo, para ascender na vida.  É algo que parte do indivíduo e pode ser encarado como uma patologia.

Já Sachiku, segundo o que eu encontrei, seria "um funcionário totalmente subserviente à empresa, nunca reclamando do excesso de trabalho ou de quaisquer outros problemas; um escravo assalariado.".  É isso que a mocinha da história é, alguém que vive, que respira, cujo mundo é a empresa.  Já o buchou (部長) é o chefe de seção.  Falando nisso, já leu a resenha sobre um mangá cujo mocinho é "buchou" que fiz esta semana?  Recomendo.

Enfim, a protagonista, achei vários resumos, mas estou usando como base este aquiMayumi Maruyama, vive pela empresa, mas, um dia, ela bebe demais e acaba ficando mais íntima (*não sei em qual sentido*) do seu chefe, passa a noite com ele (*também, não faço ideia do que isso significa*) e percebe que o sujeito não é tão sério e frio quanto aparenta.  Como no Bakaupdates a série está como "smut", é possível que se tenha rolado sexo, ou não.  O que me espanta é como nesse tipo de mangá as camas desses homens solteiros são grandes.  Mas lá não temos nem resumo e, aviso, não há scanlations ainda.  A mocinha, que não tinha tempo para se apaixonar, está completamente caída por ele, PORÉM, no dia seguinte, ele age como se nada tivesse acontecido.  Já o Comic Natalie fala que a série mostra as expectativas diferentes em relação ao mundo do trabalho que têm homens e mulheres.  

Não é a primeira série que faz isso, Hataraki-man (働きマン) da Moyoco Anno, série que deveria sair por aqui, já mergulhou fundo nessa discussão que nada tem a ver com natureza, mas com aspectos gerais da cultura japonesa e as expectativas sociais (*papéis de gênero*) em relação a homens e mulheres e como os indivíduos lidam com isso em um plano pessoal.  Muito bem, quem vai interpretar a protagonista é a atriz Yurika Nakamura, que deu entrevista, está em todos os sites que eu olhei, falando de como a personagem é diferente de tudo o que ela interpretou até aqui.

Enfim, a série irá ao ar no Paravi, um serviço de streaming iniciado por seis empresas japonesas (TBS Holdings, Nikkei, TV Tokyo Holdings, WOWOW, Dentsu e Hakuhodo DY Media Partners) a partir do dia 29 de dezembro, às 21h.  Outros detalhes virão depois.  Quanto ao mangá, é possível que comecem a traduzi-lo por causa do dorama.  A série é da editora Bunkasha e é publicado on line e conta com 3 encadernados até o momento.  Não sei se é josei ou TL, de qualquer forma, é mangá para mulheres.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2021

Mangá de Yumi Komura sobre rapaz que morre e "renasce" como garota vai virar dorama


Kami-sama no Ekohiiki  (神様のえこひいき), de Yumi Komura, estreou na revista Margaret em 2017 e eu cheguei a resenhar o primeiro capítulo, na época, era o que havia disponível em scanlations. Agora, todos os capítulos estão disponíveis para leitura em inglês. O resumo do mangá é o seguinte:

Cem dias de preces consecutivas atraem a atenção da divindade do templo.  quando o garoto parte para se declarar, o deus o segue com seu bichinho de estimação.  Como seria a garota?  Só que o rapaz se declara para o melhor amigo que, de forma muito madura e educada, o recusa, reafirma que continua seu amigo, mas que é hetero.  Abalado, o protagonista se desculpa e sai caminhando sem prestar atenção.  É atropelado e morre.  A divindade, compadecida, decide dar ao jovem uma segunda chance, a possibilidade de renascer (*com a mesma idade*) no corpo que quiser.  A divindade diz que é uma exceção, porque ele se mostrou tão devoto.  O garoto questiona o favoritismo do deus, ele faz isso com todo mundo?  O nome do mangá se remete exatamente a isso, é algo como 'o favorito do deus'.  Depois de alguma ponderação, Yashiro pede para voltar como uma garota, seria a forma de, finalmente, ter reconhecido o seu amor por Kenta.  

Pois bem, segundo o ANN e o Comic Natalie, a série foi anunciada e estreará no Hulu em 19 de março contando com 8 episódios.  A divindade será interpretada por Yūki Furukawa, Airu Kubotuka será Kenta Nanahara, Taiyu Fujiwara interpretará Yashiro Amano, já Rin Torii será Rin Torii, a nova identidade do protagonista.