domingo, 26 de fevereiro de 2017

Minhas apostas para o Oscar e algumas considerações


Hoje é dia de Oscar, ainda que, provavelmente, só vá assistir amanhã.  Não tenho TV por assinatura, a Globo não vai exibir e streaming normalmente não funciona para mim nessas horas.  Devo acompanhar pelo Twitter, se conseguir.  Aliás, uma das partes mais legais de qualquer evento esses dias é acompanhar no Twitter. ^_^ Enfim, vou fazer uns comentários em algumas categorias, em outras, só vou apostar, e, em alguns casos, chutar mesmo.

Este ano, até pelo perfil das indicações, não somente em termos de qualidade, mas especialmente em diversidade e por evidenciar os dilemas enfrentados pela população negra norte americana.  Pegue a categoria melhor documentário, os três favoritos são filmes discutindo as discriminações históricas e estruturais contra os negros.  Sim, mesmo o do caso O.J. Simpson, o favorito, flerta com isso.  Ademais, toda a cerimônia deve ser muito politizada, como disse um jornal italiano (*não achei o link, mas este outro site diz o mesmo*), até a escolha de Zootopia em animação, deve soar um ato político, afinal, o desenho fala de diversidade de uma forma tão insistente que até compromete a fluidez do roteiro (*eu assisti, não resenhei e, bem, achei o desenho meio forçado, sim.*).  Só que politização dos prêmios não é novidade alguma.

Melhor Filme
A Chegada
Até o Último Homem
Estrelas Além do Tempo
Lion: Uma Jornada para Casa
Moonlight: Sob a Luz do Luar
Um Limite Entre Nós
A Qualquer Custo
La La Land: Cantando Estações
Manchester à Beira-Mar

- Parece que a categoria virou favas contadas.  A maioria está apostando em La La Land, um filme que me pareceu somente bonitinho (*daí, até acho válido que fique com os prêmios que reforcem esses aspectos*) e com um roteiro muito meia boca, mas que é uma poderosa fuga para o passado do cinema norte americano, um passado que era branco e feliz (*para quem, não é?*).  Só que dos indicados só assisti Lion, La La Land, Estrelas Além do Tempo e Moonlight.  Há quem defenda que A Chegada é o melhor filme, mas é ficção científica... Eu aposto no segundo favorito, Moonlight.  Que a premiação seja politicamente engajada e, não, escapista, mas sei que será difícil.

Melhor diretor
Dennis Villeneuve – A Chegada
Mel Gibson – Até o Último Homem
Damien Chazelle – La La Land – Cantando Estações
Kenneth Lonergan – Manchester À Beira Mar
Barry Jenkins – Moonlight: Sob a luz do luar

- Aqui, é favas contadas, vai para Damien Chazelle, considerado um jovem prodígio e um sujeito que já levou tudo até agora.  Como achei La La Land bem blé, acho que estão adulando o sujeito demais antes dele oferecer uma obra que valha realmente o aplauso generalizado.  Agora, fato é que não será a primeira, nem a última vez.  Seria estranho se o mesmo estivesse acontecendo com uma diretora mulher, ou um homem que pertencesse a alguma minoria.  Até hoje, é notório o ano em que tanto Barba Streisand (O Príncipe das Marés), quanto Stan Lee (Malcolm X), foram esnobados nas indicações.

Melhor ator
Casey Affleck – Manchester À Beira Mar
Denzel Washington – Cercas
Ryan Gosling – La La Land – Cantando Estações
Andrew Garfield – Até o Último Homem
Viggo Mortensen – Capitão Fantástico

- Casey Affleck ganhou o Globo de Ouro, assim como Ryan Gosling.  O primeiro é visto por muitos como favorito, apesar do escândalo em torno dele.   Só que Denzel Washington ganhou o SAG e quem ganha este prêmio leva o Oscar faz mais de 10 anos.  O que vai rolar?  Eu voto em Denzel Washington, mas ele já tem dois prêmios oscar e é negro.  De repente, são tantos favoritos que os votos se dividem e um azarão, Viggo Mortensen, por exemplo, leva o prêmio.  Seria curioso.

Melhor atriz
Natalie Portman – Jackie
Emma Stone – La La Land – Cantando Estações
Meryl Streep – Florence: Quem é Essa Mulher?
Ruth Negga – Loving
Isabelle Huppert – Elle

- Acho que Emma Stone pode levar o Oscar, por isso votei nela.  Quem merecia levar, até porque já merecia faz tempo, é Amy Adams, mas ela nem foi indicada.  Só que premiarem Stone, uma ótima atriz, mas que precisaria amadurecer ainda, será uma bruta injustiça, basta pegar as concorrentes como Meryl Streep e Isabelle Rupert (*Shakespeare in Love feelings!*).  Natalie Portman, também, claro, mas acredito que ela não vá levar seu segundo oscar por Jackie, não.

Melhor ator coadjuvante
Jeff Bridges – Até o Último Homem
Lucas Hedges – Manchester À Beira Mar
Dev Patel – Lion: Uma Jornada Para Casa
Michael Shannon – Animais Noturnos
Mahershala Ali – Moonlight: Sob a Luz do Luar

- Parece favas contadas, deve ir para Mahershala Ali, mas eu vou votar no Dev Patel e torcer. ^_^

Melhor atriz coadjuvante
Viola Davis – Cercas
Naomie Harris – Moonlight: Sob a Luz do Luar
Nicole Kidman – Lion: Uma Jornada Para Casa
Octavia Spencer – Estrelas Além do Tempo
Michelle Williams – Manchester À Beira Mar

- Aqui, Viola Davis é absoluta.  Não acho que ninguém tenha chance, não.  Viola acumula três indicações, já é a atriz negra recordista nesse aspecto.

Melhor roteiro original
La La Land – Cantando Estações
Manchester À Beira Mar
A Qualquer Custo
O Lagosta
20th Century Woman

- Olha, só vi La La Land, mas o roteiro desse filme é seu ponto fraco.  Se derem vai ser injusto.  A Qualquer Custo parece ser um filme interessante, mas parece que vai para Manchester À Beira Mar.  Voto nele.

Melhor roteiro adaptado
Moonlight: Sob a Luz do Luar
Lion: Uma Jornada Para Casa
Cercas
Estrelas Além do Tempo
A Chegada

- Lion, Moonlight, A Chegada, Estrelas Além do Tempo... Moonlight deve ficar com o prêmio, acredito eu.  No Bafta, premiação do cinema britânico, foi para Lion.

Melhor edição
A Chegada
Até o Último Homem
A Qualquer Custo
La La Land – Cantando Estações
Moonlight: Sob a luz do luar

Melhor edição de som
A Chegada
Horizonte Profundo: Desastre no Golfo
Até o Último Homem
La La Land – Cantando Estações
Sully: O Herói do Rio Hudson

Melhor mixagem de som
A Chegada
Até o Último Homem
La La Land – Cantando Estações
Rogue One: Uma história Star Wars
13 Horas: Os Soldados Secretos de Benghazi

Fotografia
A Chegada
La La Land – Cantando Estações
Lion: Uma Jornada Para Casa
Moonlight: Sob a Luz do Luar
Silêncio

- Lion foi premiado nessa categoria.  A fotografia é linda, mas as de Moonlight e de La La Land, também, são.  De repente, é o único prêmio de Lion.  Voto nele.

Melhor direção de arte
A Chegada
Animais Fantásticos e Onde Habitam
Ave, César
La La Land – Cantando Estações
Passageiros

Melhor trilha
Jackie
La La Land – Cantando Estações
Lion: Uma Jornada Para Casa
Moonlight: Sob a Luz do Luar
Passageiros

- Na área de música e som, La La Land deve ser absolute.

Melhor canção
Audition (The fools who dream) – La La Land – Cantando Estações
Can’t stop the feeling – Trolls
City of stars – La La Land – Cantando Estações
The empty chair – Jim: The James Foley Story
How Far I’ll go – Moana

- Salvo se os votos de La La Land se dividirem e surgir espaço para um azarão, é para o musical.  Acredito que City of Stars leve.

Mixagem de som
A Chegada
Até o Último Homem
La La Land – Cantando Estações
Rogue One: Uma história Star Wars
13 Horas: Os Soldados Secretos de Benghazi

- Aqui é um prêmio mais técnico, não é?  Aposto em A Chegada.  De repente, é o único Oscar deste filme.

Melhor design de produção
A Chegada
Animais Fantásticos e Onde Habitam
Ave, Cesar!
La La Land – Cantando Estações
Passageiros

- La La Land é um filme visualmente muito bonito.  Há bons concorrentes, mas acho que é prêmio certo.

Melhor figurino
Aliados
Animais Fantásticos e Onde Habitam
Florence: Quem é Essa Mulher?
Jackie
La La Land – Cantando Estações

- Estavam cantando que Jackie seria vitorioso, mas o prêmio do sindicato da área foi para La La Land (*e Estrelas Além do Tempo e Dr. Estranho*), quem ganha lá, leva o Oscar faz dez anos.  

Melhor cabelo a maquiagem
Um Homem Chamado Ove
Star Trek: Sem Fronteiras
Esquadrão Suicida

Melhor filme em língua estrangeira
Terra de Minas - Dinamarca
Um Homem Chamado Ove - Suécia
O Apartamento - Irã
Tanna - Austrália
Toni Erdmann - Alemanha

- Se for pela lógica do protesto, o filme iraniano, O Apartamento, leva, mas vi um crítico louvando o filem alemão, Toni Erdmann.  Vou no iraniano, mas algo me diz que não vai levar.

Melhor animação
Kubo e as Cordas Mágicas
Moana: Um Mar de Aventuras
Minha Vida de Abobrinha
A Tartaruga Vermelha
Zootopia

- Só assisti as duas produções da Disney, mas acredito que é Zootopia o vencedor.  Não achei injusto não indicarem Dory, o filme é só divertidinho.  Gostei muito mais da Vida secreta dos Bichos.  Acredito que, se der zebra, será Kudo e as Cordas Mágicas.

Melhor documentário
Fogo no Mar
I Am Not Your Negro
Life, Animated
O.J.: Made in America
A 13ª Emenda

- A maioria aposta em O.J., há quem diga que 13ª Emenda é quem pode levar o prêmio, mas vou apostar em I Am Not Your Negro.  De qualquer forma, vai ficar com um dos três que discute a questão dos negros.

Melhor documentário em curta-metragem
Extremis
41 miles
Joe’s violin
Watani: My homeland
The White Helmets

- Aqui, parece que a maioria dos filmes discute a questão da Síria ou algo próximo do drama dos refugiados.  O favorito, segundo o site Vox, é The White Helmets, mas eu vou de música e holocausto, Joe’s violin.

Melhor curta metragem
Ennemis Intérieurs
La femme et le TGV
Silent night
Sing
Timecode

- Aqui, foi chute, mas parece que Ennemis Intérieurs, que trata do espinhoso tema da imigração, é o favorito.

É isso, vamos ver como o prêmio do cinema americano, que a maioria acha que é de todo mundo, vai se definir.  Espero que o/a apresentador/a torne a festa interessante.  Eu gosto muito da cerimônia, dos números musicais e homenagens.  Bem, se você quiser ver as críticas que fiz à filmes que estão na corrida, é só clicar: La La Land, Moonlight, Moana, Estrelas Além do TempoStar Trek: Sem FronteirasAnimais Fantásticos e Onde Habitam, Rogue One, Jackie, Trolls e Lion.

sábado, 25 de fevereiro de 2017

Comentando Moonlight: Sob a Luz do Luar (Moonlight, 2016)


Hoje, assisti Moonlight: Sob a Luz do Luar.  Infelizmente, não foi no cinema.  As sessões em Brasília eram poucas e os horários não me eram favoráveis (*não vou contar com a supercara sala vip de um shopping aqui perto*).  Talvez, no cinema, o drama de Chiron tivesse me impactado mais, emocionado mesmo.  Fiquei fazendo o jogo mental e comparando com Lion, bem, o filme com Dev Patel me tocou mais, no entanto, a cena final de Moonlight, discreta, sensível, foi uma das coisas mais bonitas e tocantes que vi nos últimos tempos.  Se houvesse prêmio para melhor cena, daria para  o final de Moonlight.

A história do filme normalmente é resumida como a narrativa da descoberta da (homos)sexualidade de Chiron (Alex Hibbert), um garoto negro que mora em uma vizinhança pobre de Miami, sua relação com a mãe drogada (Naomie Harris) e com o traficante (Mahershala Ali) que termina de se tornar a figura paterna em sua vida.  Bem, om problema é que Moonlight tem três momentos e três atores interpretando Chiron.  O adolescente é Ashton Sanders e o adulto é Trevante Rhodes.  E é aí que vejo problemas em Moonlight, o filme merecia ser mais longo, cada um dos Chiron e, em especial, Mahershala Ali, precisavam de mais tempo para terem suas tramas desenvolvidas de forma mais satisfatória.

A bela cena da praia.
Moonlight foi agraciado com oito justas indicações ao Oscar.  Imagino que possa sair com umas  três estatuetas, tudo o que ganhar, se ganhar alguma coisa, será merecido.  Trata-se de um filme interessante que discute muitas coisas.  A descoberta da orientação sexual, me atrevo a dizer, não é o mais importante.  O que me saltou aos olhos foi como o filme apresenta de forma clara e dolorosa a construção das masculinidades, agravada por uma situação de pobreza, falta de perspectivas de vida e exemplos positivos.  

Falando em masculinidades, trata-se de uma área dos estudos de gênero que se concentra em discutir como os homens são construídos como homens.  Hierarquias entre homens e mulheres, entre homens e homens, o que torna um indivíduo viril em uma determinada sociedade etc.  Nesse caso, pega-se um conceito surgido dentro dos escritos e reflexões feministas e aplicamos não somente para as discussões sobre as mulheres, como, também, às discussões a respeito dos homens.  “Ninguém nasce homem, torna-se homem” é uma frase tão verdadeira quanto a original de Simone de Beauvoir.  

A adolescência é a parte mais explicitamente violenta do filme.
A discussão central de Moonlight a meu ver é esta, com o agravante da orientação sexual.  O aspecto comunidade negra foi enfatizado em algumas análises, mas duvido muito que a coerção não seria a mesma ou similar em uma comunidade pobre branca, latina, ou de outro grupo qualquer.  Mas, enfim, como ser reconhecido como viril em uma sociedade na qual ser homem se remete à violência e a heteronormatividade e, ainda assim, ser homossexual?  De resto, ser homem em uma dada sociedade, assim como ser mulher, é algo mais complexo do que parece...

Chiron é perseguido desde a infância por não ser forte o suficiente, por ser tímido, retraído.  Talvez não tenha sido sua mãe a primeira a ofendê-lo, mas ela o chama de “faggot” – palavra ofensiva utilizada para com os homossexuais – em uma cena que deixa evidente que sua casa não é um lugar de acolhida ou proteção.  Um menino deve ser agressivo, mostrar-se superior aos outros, ou, no máximo, seguir o exemplo dos líderes, ser "um dos caras".  Chiron não consegue ser nada disso, talvez ele não sobrevivesse se não tivesse encontrado Juan, o traficante, e Teresa (Janelle Monáe),   sua companheira, que passam a ser seu referencial de família.  

Figura paterna e referência de masculinidade.
Estranho, verdade, mas a realidade é feita de contradições.  O traficante que ajuda a destruir a vida da mãe de Chiron é quem salva o menino da aniquilação, do suicídio, talvez.  Pena que Mahershala Ali fique tão pouco em cena.  Eu não contava com seu desaparecimento prematuro, ele só está na primeira parte do filme, ainda que o Chiron adulto o tenha como modelo, se espelhe nele em tudo, o ator tem pouquíssimas cenas.  Por conta disso, dessa participação tão limitada, acredito que Dev Patel mereça o Oscar de coadjuvante, vamos ver como a Academia vai se posicionar amanhã.

Na adolescência, a coisa se torna ainda mais pesada, porque é preciso exercitar e construir a virilidade a cada gesto, no vestuário, na forma grosseira de se referir às mulheres, na agressão aos mais fracos.  Chiron, coitado, é um dos mais fracos.  Diferente do que acontece em muitos filmes, não sabemos se ele é bom aluno, não sabemos nada de seu desempenho escolar.  Sabemos, sim, que ele sofre bullying violentíssimo, que é ameaçado de estupro (*quem violenta acredita estar com sua “macheza” intacta*) a cada curva do corredor da escola, que continua tendo uma mãe drogada e abusadora.  De esperança, somente Teresa, mas ela aparece pouco na segunda parte do filme.

A praia, o mar, encontro, libertação, esperança.
É na segunda parte que Chiron descobre o sexo, sente-se acolhido, Kevin (Jharrel Jerome), seu único amigo de infância, parece entender a condição do protagonista e sentir o mesmo que ele.  No entanto, logo em seguida, Chiron é destroçado, mas não se curva.  É um ponto de virada.  O garoto tímido precisa morrer, Chiron precisa adotar quase a totalidade dos rígidos códigos de masculinidade vigentes naquela comunidade, ainda que sua sexualidade seja reprimida, escondida.  É um Chiron transformado em uma montanha de músculos, seguro, armado, emulando Juan a cada gesto, que vemos na terceira fase do filme.  É o mesmo menino tímido da parte um, mas revestido de uma carapaça.  Ninguém seria capaz de chama-lo de “little” ou “faggot”, ninguém seria capaz de ameaçá-lo de estupro.

Só que a afetividade e a sexualidade de Chiron continuam atrofiadas, reprimidas.  E como ser diferente?   O reencontro com Kevin – e olha que eu estava com o pé rapaz com esse cidadão – oferecem um belo desfecho para o filme.  Tanto Chiron, quanto Kevin, são constrangidos a se enquadrar em um modelo de masculinidade brutal.  Os dois se enquadram e os dois escapam, cada um a sua maneira.  E, bem, Kevin se arrepende de sua fraqueza na adolescência, por ter se assujeitado aos desmandos do grupo dos bullies para sobreviver.  Infelizmente, não poderia ser muito diferente... 

A escola é uma prisão, não elemento de libertação.
Bem, vou parar por aqui.  Falta, claro, falar das mulheres de Moonlight.  Bem, o filme não é sobre mulheres, seria injusto fazer um estardalhaço sobre o fato da Bechdel Rule não ser cumprida.  Ao longo do filme, se bem prestei atenção, são três mulheres com falas (*Paula, a mãe abusiva de Chiron, Teresa e uma oficial da escola*), há a namorada de Kevin, Samantha, que só é referida e muitas figurantes.  A maioria negras, porque, bem, trata-se de uma comunidade negra.  As únicas pessoas brancas em tela são figurantes no restaurante de Kevin.

Talvez, se pudesse fazer alguma discussão em torno da mãe de Chiron.  Era viúva ou fora abandonada?  Como entrou nas drogas?  Quantas mulheres são abandonadas, não tem perspectiva, apoio e terminam por descontar suas frustrações nos filhos?  Seria o caso?   Ela, por fim, se arrepende, declara seu amor, é uma cena bonita, mas o filme não é sobre Paula, ou a família de Chiron, é sobre o garoto.  Obviamente, só a cena dela chamando o filho de “faggot” já renderia toda uma pregação conservadora sobre o uso das palavras e como elas podem terminar em maldição... De resto, Janelle Monáe estava ótima como Teresa.  Ela merecia uma indicação por Hidden Figures (Estrelas Além do Tempo), mas poderia ter recebido por Moonlight, também, ainda que seu papel tenha sido mais discreto.

Os três Chiron.
Termino dizendo que Moonlight é um filme muito superior à La La Land, o provável campeão do Oscar amanhã.  Melhor como roteiro, mais inclusivo, com belas imagens (*destaque para o uso do mar como metáfora de libertação*), muitos silêncios e algumas cenas de uma delicadeza única. La La Land é uma celebração do cinema, um filme que olha para trás.  Um filme, também, com um homem branco se pavoneando sobre o quanto ele entende de jazz, uma música que nasce negra, e em situação de domínio sobre sua parceira em tela.  Agora, quantos filmes você conhece que discutem a experiência da homossexualidade?  Poucos.  Quantos não são comédia?  Alguns.  Quantos tem um negro como protagonista?  Exemplo?  Moonlight tem defeitos, mas são muito, muito pequenos.  

De resto, não vejo o filme como um novo Brokeback Mountain, o tema é semelhante, a forma de tratamento dada, não é.   Ademais, ninguém em Moonlight usa mulheres como saco de pancada para suas frustrações e isso faz muita diferença para mim.  Outra coisa, gostei mais de Lion, me emocionei mais com Lion, mas Moonlight é melhor.  Lion tem duas partes distintas, mas a primeira é superior, mais criativa, enquanto a segunda, ainda que tocante, é convencional.  Moonlight consegue brilhar em suas três partes, pena que não tenham lhe dado uns vinte minutos a mais.  É isso.

Menina entra em coma aos 14 e acorda com 40 anos


Acabou de ser lançado no Japão o primeiro volume de Otona Skip, mangá de Matsuda Hiroko, publicado na revista Comic Beam.  Nunca tinha ouvido falar da série, ela sequer está registrada no Manga Updates.  Enfim, segundo o Comic Natalie, o mangá conta a história de uma menina que entra em coma aos 14 anos, depois de um acidente de automóvel, ao acordar, ela está com 40 anos, seus pais faleceram e ela precisa aprender a viver de novo.  Mas como?  Quando ela dormiu, estava no ginasial, era uma menina... Enfim, pode ser um material interessante.  

Associação premia os melhores figurinos do Cinema em 2016


Palavra que eu nunca tinha ouvido falar da Costume Designers Guild Awards.  Deveria imaginar que existia um prêmio e um sindicato relacionado ao figurino, mas eu só fui descobrir ontem quando um colega de trabalho comentou que La La Land deve levar melhor figurino.  Daí, ele explicou que tinha saído a premiação, que, aliás, está na sua 19ª edição.  Enfim, fui me informar e descobri que nos últimos 10 anos, quem leva um dos CDGW, leva o Oscar.

Por que um dos?  Bem, é que eles premiam em separado filmes contemporâneos, de época e fantasia.  Achei bem legal isso.  Só que, quem levou filme de época, Estrelas Além do Tempo (Hidden Figures) e filme de fantasia, Dr. Estranho, não estão competindo pelo Oscar.  Logo, La La Land deve ficar com a estatueta, já que levou na categoria filme contemporâneo.  É uma pena, mas quase favas contadas.  


De resto, são premiados, também, séries de TV.  American Horror Story levou contemporâneo, The Crown ficou com de época e Game of Thrones, fantasia.  No domingo, se tudo correr bem, faço minhas apostas para o Oscar.

Koe no Katachi e Yuri!!! on ICE são os vencedores do Tokyo Anime Award Festival


Quinta-feira passada foram revelados os vencedores do Tokyo Anime Award Festival deste ano, que acontecerá entre os dias 10 e 13 de março.  Já havia comentado que Yuri!!! on ICE (ユーリ!!! on ICE) tinha vendo a votação popular de anime do ano, mas a série dos patinadores levou, também, a premiação de melhor série de TV do ano.  


Os outros premiados foram:
  • Melhor Animação para o Cinema: Koe no Katachi (聲の形)
  • Melhor Diretor: Makoto Shinkai
  • Melhor Roteiro/Trabalho Original: Reiko Yoshida
  • Melhor Animador: Tadashi Hiramatsu
  • Melhor Arte/Colorização/Visual: Shunichiro Yoshihara
  • Melhor Som/Performance: Hiroyuki Sawano
O ANN listou, também, os prêmios especiais, o Comic Natalie falou somente de Leiji Matsumoto, mas são muitos os agraciados, em vários casos, trata-se de homenagem póstuma.  Dentre os homenageados, três são mulheres: Michiyo Yasuda (prêmio póstumo), a color designer trabalhava para o Studio Ghibli e foi responsável por Grave of the Fireflies, Only Yesterday, The Wind Rises; Yoko Maekawa, cantora responsável pelo inesquecível tema de Cutey Honey, entre muitos outros; Eiko Masuyama, dubladora, responsável por dezenas de personagens como Tensai Bakabon (Mama), Cutey Honey (Honey), Lupin III: Part II (Fujiko Mine).  Aí embaixo, Yoko Maekawa cantando outro de seus temas inesquecíveis, Majokko Megu-chan (魔女っ子メグちゃん), adoro as performances dela:

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Marjane Satrapi vai dirigir filme sobre Madame Curie


Marjane Satrapi, muito conhecida por seus quadrinhos, como Persépolis e Bordados, vai dirigir a adaptação do livro Radioactive, de Lauren Redniss, para o cinema. O livro conta a história da cientista duas vezes vencedora do Nobel, Marie Curie (1867-1934). Radioactive: Marie & Pierre Curie: A tale of love and fallout, de 2011 foi o primeiro livro de não ficção finalista do National Book Award, prêmio literário anual norte americano.


Cientista polonesa com naturalização francesa, Marie foi também primeira pessoa e única mulher a ganhar o prêmio duas vezes, em áreas diferentes. Física em 1903 e Química em 1911. A produção abordará a trajetória da cientista a partir de sua mudança de Varsóvia para Paris, onde ela conheceu Pierre Curi, com quem teve uma longa parceria de estudos científicos. O casal desenvolveu a teoria da radioatividade e técnicas para isolar isótopos radioativos. Pioneiros, eles descobriram também dois importantes elementos químicos: polônio e o rádio. Tais feitos impulsionaram uma série de novas descobertas nos campos da ciência e da tecnologia, que culminariam, mais adiante, na criação da energia nuclear.


Segundo Satrapi, "Além do fato de ela ter ganhado duas vezes o Nobel, a Marie por si só já é uma personagem épica. Esse filme não é apenas um resumo da vida dessa mulher excepcional. Ele conta a história da radioatividade desde sua descoberta, até hoje". Fico feliz por mais um filme sobre mulheres cientistas.  O roteiro do filme será escrito pelo britânico Jack Thorne (Uma Longa Queda) e as filmagens começam no outono europeu (*primavera, aqui, no Brasil*). Ainda não há informações sobre o elenco nos sites que consultei (*Huffington Post e Globo*). Satrapi já dirigiu vários filmes: Persepolis (2007), Frango com Ameixas (2011), La Bande des Jotas (2012) e As Vozes (2014).

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Indicados ao 21º Osamu Tezuka Awards


O jornal Asahi anunciou os oito indicados ao 21º Prêmio Cultural Anual Osamu Tezuka.  O comitê deste ano é composto pela atriz Anne Watanabe, o autor Kazuki Sakuraba, os mangá-kas Machiko Satonaka (!!!) e Tarō Minamoto, o professor e acadêmico Shōhei Chūjō, o editor de mangás Haruyuki Nakano, o crítico de mangá Nobunaga Shinbo, e a autora e pesquisadora de mangás Tomoko Yamada.  A lista preliminar foi preparada por especialistas e funcionários de livraria.  Na lista, me surpreende não ver Akiko Higashimura, já que ela parece estar sendo indicada para tudo.  Outra informação, é que Shōwa Genroku Rakugo Shinjū está na sua segunda indicação, já que havia aparecido na lista do 17º Tezuka Awards.  Segundo o ANN, o vencedor será anunciado no final de abril e a premiação será em 31 de maio.

  • Tokusatsu Gagaga (トクサツガガガ) de Niwa Tanba (Big Comic Spirits/Shogakukan) - seinen
  • Golden Kamuy (ゴールデンカムイ) de Satoru Noda (Shuukan Young Jump/Shueisha) - seinen
  • Dokonjou Gaeru no Musume (ど根性ガエルの娘) de Yuuko Ootsuki (Shuukan ASCII/Hakusensha) - seinen
  • Rainman (レインマン) de Yukinobu Hoshino (Big Comic/Shogakukan) - seinen
  • SAD GiRL de Kan Takahama (Torch/LEED Publishing) - seinen
  • Shouwa Genroku Rakugo Shinjuu (昭和元禄落語心中)  de Haruko Kumota (Itan/Kodansha) - josei
  • Hana ni Somu (花に染む) de Fusako Kuramochi (Chorus/Cocohana/Shueisha) - josei
  • Kujira no Kora wa Sajou ni Utau  (クジラの子らは砂上に歌う) de Abi Umeda (Mystery Bonita/Akita Shoten) - shoujo
Duas coisas a pontuar: dos oito autores indicados, cinco são mulheres (Yuuko Ootsuki, Abi Umeda, Fusako Kuramochi, Kan Takahama,  Haruko Kumota); é curioso ver um shoujo indicado, não é comum, e, um detalhe importante, Kujira no Kora wa Sajou ni Utau, teve anime anunciado.  Será que, desta vez, Shouwa Genroku Rakugo Shinjuu vai vencer?

"Vítima" invade armada a casa de ex-namorada e é morta! Tragédia!


Eu não queria comentar a notícia, mas estou me coçando desde ontem.  Olhem só o texto do G1: "Um homem de 29 anos foi morto após invadir o apartamento da ex-namorada na noite de terça-feira (21) em Londrina, no norte do Paraná. Segundo a Polícia Militar (PM), a vítima estava armada e entrou em discussão com o atual companheiro da jovem. O atual namorado da mulher pegou a arma da mão do ex-namorado dela e atirou contra ele. A vítima morreu na hora.".  Na reportagem televisiva o repórter ainda usou o termo "crime passional", termo que se presta a descrever violências contra as mulheres e feminicídios o tempo inteiro.

Algumas pessoas comentaram que a notícia estava confusa.  Não, não está, é a classe dos homens se defendendo.  Ainda que um outro homem tenha matado outro em legítima defesa, é o sacrossanto direito de posse sobre suas fêmeas que está em jogo.  Quer dizer que um sujeito precisa aceitar que um relacionamento acabou e não pode invadir armado durante a noite a casa da ex?  Absurdo!!!! Agora, suponhamos que a moça estivesse sozinha?  Eu posso terminar a história, uma que é repetida todos os dias em algum jornal, ou vários jornais, deste país.  Vamos imaginar que o novo namorado não reagisse?  Talvez, tivéssemos duplo homicídio.  


Claro, o assassino fugiu, quem foge é sempre culpado, não é?  Nem sempre, mas isso pesa contra ele, porém, não apaga que o outro sujeito invadiu a casa e estava armado.  Para quê alguém invade casa de ex-namorada à noite e armado?   Por curiosidade, joguei "ex-namorado invade casa armado" no Google e comecei a contar as ocorrências.  Na melhor das hipóteses, a moça terminou SOMENTE ferida, na maioria dos casos, foi morta.  Veja, mulheres que estavam em casa, lugar que deveria ser sinônimo de segurança.

Sei lá, é tão comum abrir notícias de violência contra mulheres e meninas e ler títulos e comentário - de jornalistas e autoridades policiais - tão descabidas, ou sem empatia que notícias assim nem deveriam chocar.  Sabe quando criança é violentada e, na notícia, aparece coisas como "o acusado fazia sexo com a vítima"?  Não é sexo segundo a lei brasileira, nem é sexo, porque sexo deveria envolver consentimento, desejo, carinho, parceria.  Mas vá, a gente sempre encontrará uma notícia pior - por seu grau de violência ou redação - mais adiante.