quarta-feira, 31 de julho de 2019

Para quem quiser ouvir o Shoujocast


Lá em 2009, eu decidi criar um podcast.  Começou de forma bem precária.  Aí, o amigo Anderson sugeriu um nome "Shoujocast".  Vieram companheiras, a Lina Inverse, depois a Tanko e, por fim, a Tabby e, bem, fizemos 52 programas.  Pouco, eu sei, mas as agendas desencontraram.  Sempre penso em voltar, mas ainda não houve como.  Bem, eu queria disponibilizar os programas, mas descobri que não tinha todos. Perguntei se a Lina tinha.  Ela organizou tudinho e disponibilizou para download (*AQUI*).  Tudinho, não, faltou o programa 52, então, coloquei no Youtube.



Eu parei para escutar um dos meus programas favoritos o duplo sobre Orgulho & Preconceito e foi um prazer muito grande ouvir a voz das amigas queridas e da convidada especial, a Adriana Salles.  Que conversa legal foi aquela.  Enfim, se você quiser relembrar, ou conhecer o Shoujocast, esta é a oportunidade.

domingo, 16 de junho de 2019

Mangá Histórico de Fuyumi Souryo vai virar musical


Acredito que Fuyumi Souryo encare Cesare~Hakai no Souzousha~ (チェーザレ 破壊の創造者), ou CESARE Il Creatore che ha distrutto, sua magnum opus, a obra maior de sua carreira.  Conduzido com muito cuidado e minúcias factuais e bibliografia no final, o mangá é muito chato.  Desculpem, essa é a minha impressão geral da obra e não consigo gostar dessa série que gira em torno de uma personagem histórica que considero fascinante, César Bórgia.  Enfim, a série vai no seu volume #11 e vive entrando e saindo de hiato.  Por exemplo, entre um hiato e outro, Souryo produziu um outro mangá histórico, uma biografia de Maria Antonieta em sua juventude.  


OK, OK, eu sei que ela não vai voltar a fazer shoujo, que devo me conformar com Mars mesmo e só.  De qualquer forma, o musical de Cesare estreia em abril de 2020 e será estrelado por Akinori Nakagawa, ou seja, não é nem Takarazuka para me empolgar... O Comic Natalie dá detalhes de direção, roteiro e outros, mas termina dizendo que outros detalhes virão em breve.  O volume #12 de cesare será lançado no dia 21 de junho.

Duas amigas muito diferentes estrelam novo mangá


Hosokawa to Oota (細川さんと太田さん) começou a ser publicado no Intagram por Hiki Ayaka.  Agora, o Comic Natalie anunciou que o mangá vai ser publicado na Petit Princess a partir do dia 1 de julho.  Parece que ela será lançada simultaneamente no Line Manga e o primeiro capítulo saiu no dia 14 de junho.  


A série mostra o dia-a-dia de duas office ladies (OL), que são grandes amigas, Hosokawa-san, que é magra e tímida, e Oota-san, gordinha e cheia de energia.  Elas tem comportamentos opostos no amor e na forma como conduzem sua vida.  O traço é bem fofinho e acredito que seja 4koma (*tirinha*), apesar da matéria não comentar.

Lançada uma nova revista Shoujo Digital

O Comic Natalie anunciou o lançamento de uma nova revista shoujo digital, a Noicomi.  A primeira edição está disponível gratuitamente na página da revista.  Parece que a revista que é de uma editora chamada Start, sairá duas vezes por mês, na segunda e na quarta sexta-feira.  Ela também irá publicar adaptações para mangá de dois selos de livros da mesma editora.  


Para quem quiser seguir a revista, ela tem Twitter.  Como já comentei antes, acredito que as antologias, a maioria delas, pelo menos, irá migrar para o formato digital.  É uma forma de reduzir custos e, quem desejar, colecionará os volumes encadernados em papel.

Cambridge Spies: Algumas considerações sobre o primeiro episódio


Por causa do filme A Espiã Vermelha, acabei lembrando que tinha no meu HD a série Cambridge Spies feita pela BBC em 2003 sobre o famoso círculo de espiões chamado de Cambridge Five.  Nem sei quando baixei, suspeito que ou foi na época de Jane Eyre/2006, quando eu estava meio que fixada no Toby Stephens, ou por causa de alguma resenha do Frock Flicks.  De qualquer forma, deve estar guardada, sei lá, por quase uma década.  E algo importante, como não fiz nada até agora em relação ao mês da diversidade, acredito que Cambridge Spies ajude a sanar essa deficiência.  Ao longo do texto, vocês vão entender.

Blunt e Guy, os dois primeiros espiões.  
Ambos são homossexuais, mas o único a se expôr é Guy.
A série, que tem quatro episódios, conta a história de quatro britânicos que espionaram para a URSS: Guy Burgess (Tom Hollander),   Kim Philby (Toby Stephens), Anthony Blunt (Samuel West) e Donald Maclean (Rupert Penry-Jones).  Todos eles estudantes de Cambridge na segunda metade dos anos 1930, ou aristocratas, ou membros de famílias importantes, que acabaram se encantando pelo socialismo, ou eram anti-facistas e abraçaram o comunismo.  Blunt, o mais velho, e Guy agiam como recrutadores de espiões em potencial.  Quer dizer, se a gente vai ler sobre o grupo chamado de Cambridge 5, não fica claro se eles eram oficialmente espiões até algum tempo depois.  De qualquer forma, um monte de sujeitos acabaram passando por Cambridge e colaborando com a URSS, esses quatro são os mais famosos.

Enfim, se vocês pegarem fotos do DVD da série, verão que na frente estão Tom Hollander e Toby Stephens, os outros dois aparecem ao fundo.  Pelo menos no primeiro episódio, os dois carregam a série nas costas.  Hollander interpreta um Guy Burgess anárquico e provocativo, homossexual notório, e que abraça de todo o coração as teses socialistas igualitárias.  Ele organiza no episódio 1 a primeira greve de garçons de Cambridge ao descobrir que os sujeitos simplesmente ficavam sem salário durante as férias dos estudantes, além de ganharem muito mal.

Tom Holland não é bonito, mas seu Guy é muito sedutor. 
A interpretação é bem diferente da de Rupert Everett
para a personagem em Another Country.
Uns sujeitos facistóides da faculdade se juntam com os professores para dar uma lição em Guy.  Aliás, fiquei torcendo para o Toby Stephens embolachar todos eles, ou pelo menos seu líder, mas não rolou.  Pagam um dos garçons para transar com Guy e lhe dão o flagrante.  Ele poderia ser expulso e preso.  O garçom é demitido, mas Philby tinha visto o cara de conversa com o tal moço amante de Hitler e o alcança. O garçom retruca que Philby não sabe, nem nunca saberá o que é ser pobre e precisar pagar suas contas.  Revolução é conversa de tolos, pobres não podem ter princípios.  

O garçom tinha sido pago para transar com Guy e participar da armadilha.  Blunt pede que Philby não conte para o amigo, porque ele iria se sentir profundamente magoado.  Enquanto isso, os professores humilham Guy e dizem que não vão expulsá-lo, porque ele é um deles, não há como escapar, independente das ideias revolucionárias que ele possa ter.  Guy se sente aprisionado e a bebida, como começou a se desenhar no episódio dois, vai ser uma de suas válvulas de escape.

Philby acredita que Guy está paquerando um dos dois.
Retornando, Guy, além de comunista e recrutador, é membro da sociedade ultra seletiva de Cambridge chamada de Apóstolos.  O grupo reunia estudantes e alguns professores em reuniões e debates super seletos.  Desse grupo saíram vários colaboracionistas.  Nesse primeiro episódio, Guy recruta Philby e Maclean sob a sob a supervisão de Blunt.  A cena do primeiro contato entre eles é muito engraçada, porque Guy está observando os dois em um bar e Philby está sendo observado por uma moça.  Quando Maclean comenta, ele confirma, porque está pensando na moça, depois, fica sem graça quando entende que estão sendo observados, ou cantados, por Guy.  Há uma altercação nessa cena, porque o facistóide que comentei antes, agride a moça, uma judia, e Guy entra em cena para humilhá-lo, expondo-o como admirador de Hitler e evitando, talvez, uma briga generalizada.

Mais tarde, Philby tenta se explicar com Guy dizendo que não é como ele.  O outro, com muito bom humor, descreve todo o currículo amoroso de Philby, quantas moças ele teria namorado desde que chegou em Cambridge, e diz que não, eles não são nada parecidos.  A partir daí, se tornam amigos, ainda que Blunt não confie em Philby.  Há um agente mais velho, não consegui localizar seu nome, que também se preocupa com a admissão de Philby no círculo de espiões, porque ele não esconde suas paixões, é franco demais.

Não descobri o nome desse ator, que faz o
 agente mais velho, uma espécie de mentor.
Maclean, e gente, o Rupert Penry-Jones pode ser muito bonitinho, mas como ator ele é péssimo, é apresentado como emocionalmente vulnerável.  Guy consegue trazê-lo para o grupo explorando suas fragilidades, seus problemas com o pai, um homem muito conservador e religioso, e outras coisas.  Philby se surpreende ao saber que o amigo também entrou para o grupo de espiões, porque Guy  e Blunt trabalharam com os dois separadamente, ou, pelo menos, Guy o fez.  O que me surpreende é como Cambridge se tornou um ninho de espiões e ninguém percebeu.  O serviço secreto britânico era muito deficiente mesmo, porque essa parte é História, não invenção.

Na festa de formatura, temos um grande fanserice dos moços, porque Guy, bêbado, tira a roupa e pula em um riacho.  Há nu frontal de Tom Holland, inclusive.  Depois, Rupert Penry-Jones e Toby Stephens também ficam pelados, mas só vemos o peitoral e as nádegas dos dois.  A bunda do Toby Stephens já tinha aparecido antes, logo no início do episódio, quando ele passa a noite com a moça lá da cena do bar.  O único que não tira a roupa é Samuel West, mas ele já tinha aparecido em uma cena de sexo com um outro rapaz nesse mesmo episódio.

Philby tem que se separar da primeira esposa pela Revolução.
A partir daí, o episódio quase que se centra em Plhiby que é enviado em uma missão para Viena.  Ele precisa entregar mensagens para outros elos de ligação soviéticos e termina ficando abrigado na casa de Litzi Friedman (Lisa Dillon), uma agente comunista famosa que ajudava a dar escape para judeus e comunistas perseguidos pelos nazistas.  Philby se apaixona por ela de verdade e acaba propondo casamento para salvar a vida da moça já que mais dia, menos dia, os nazistas viriam matá-la. Ela segue com ele para a Inglaterra.

Apesar de Litzi Friedman ser somente uma coadjuvante menor, ela tem uma história que daria um filme, ou uma minissérie para ela mesma.  Uma biografia e tanto.  De volta para a Inglaterra, Philby está tão visivelmente feliz e apaixonado que acaba se tornando um problema.  O agente mais velho o orienta sobre seus excessos de emoção e que um bom agente não pode se dar a esses luxos.  Já Blunt ordena que ele se separe de Litzi, ou abandone o grupo.  Casado com uma comunista tão notória, ele nunca poderia se infiltrar e espionar nos altos círculos ingleses.  A última cena do episódio é de Philby se esforçando para dizer que não ama a esposa e pedindo o divórcio.

Quer fanservice?  Tem bastante.
Ainda que a carinha triste do Toby Stephens seja fofa de se ver, achei a cena demasiado dramática.  Sendo Litzi uma agente também, ela saberia lidar com as necessidades da missão dos dois.  Seria muito mais coerente com a biografia de ambos, que continuaram amigos, talvez até amantes em segredo, que eles conversassem como adultos.  Só que a preferência foi criar aquela cena de sofrimento amoroso meio juvenil.  Não precisava disso para marcar o sofrimento de ambos os envolvidos.

Enfim, estava me coçando para escrever sobre a série.  Enfim, iniciei o segundo capítulo, Guy e Philby continuam sendo o centro da história, mas Blunt age meio que como um mestre dos fantoches.  Talvez o tom da personagem seja esse mesmo.  Vamos ver.  Não preciso dizer que é uma série centrada em homens e as mulheres são meras coadjuvantes, ainda que algumas possam ter maior participação na ação, como no caso de Litzi Friedman. 

Blunt é apresentado como frio e calculista,
mas devia ser, permaneceu incógnito na Inglaterra até 1979.
Curiosidades, salvo por Toby Stephens, que foi Mr. Rochester em Jane Eyre (2006), todos os outros estiveram em alguma adaptação de livro de Jane Austen: Rupert Penry-Jones foi o Capitão Wentworth em Persuasão (2007), Tom Hollander foi Mr. Collins em Orgulho e Preconceito (2005), Samuel West foi Mr. Elliot em Persuasão (1995), ele também estava em Jane Eyre (1996), a versão de Franco Zeffirelli, como St. John Rivers.  Vi que Benedict Cumberbatch está em Cambridge Spies.  Preciso ficar atenta, porque deve ser uma participação bem pequena mesmo.  Depois que terminar a série, faço outra resenha.


Achei esse fanvideo.  Há outros no Youtube.

sábado, 15 de junho de 2019

Comentando A Espiã Vermelha (Inglaterra/2018): Mostrando que o Poder nem Sempre está nas Mãos dos Homens



Depois de três filmes um tanto decepcionantes, assisti uma película que me agradou, A Espiã Vermelha (Red Joan).  Mais um daqueles casos de filme que estão há semanas em cartaz e que só depois de um tempão foi para um horário que me ajudasse.  E, sim, valeu a pena!  Trevor Nunn, o diretor, sabe dirigir  histórias com e sobre mulheres.  Judi Dench estava excelente como a velha espiã acima de qualquer suspeita.  Fora isso, o filme usou de forma criativa o material histórico.  Não é baseado em uma história real, como venderam por aí, mas, sim, inspirada em fatos reais, na verdade, em dois casos distintos de espionagem, o de Melita Norwood e o dos Cambridge Five, mas volto a isso ao longo do texto.

Ano 2000, Joan Stanley (Judi Dench), uma respeitável viúva, ex-bibliotecária, é presa pelo serviço secreto britânico acusa de ter espionado para os soviéticos nos anos 1940.  Sua ação teria ajudado a URSS a produzir a bomba atômica.  Ela nega, mas somos levados ao passado através de suas memórias e das acusações dos agentes durante o depoimento.  Joan realmente era uma espiã e sua história é bem extraordinária.

Uma velhinha inofensiva.
Voltamos para 1938, a jovem Joan (Sophie Cookson) acabou de entrar em Cambridge para estudar Física. Ela termina se envolvendo com um grupo de estudantes comunistas graças a uma colega mais velha chamada Sonya (Tereza Srbova), uma russa que morou muitos anos na Alemanha.  O primo de Sonya, Leo (Tom Hughes), um judeu alemão, é um líder nato, excelente orador e Joan termina se apaixonando por ele.  A 2ª Guerra e o fato de Leo ser alemão separam os dois.  O tempo passa e Joan vai trabalhar como secretária na Tube Alloys, uma companhia fantasia que encobre o projeto britânico de desenvolvimento da bomba atômica.  

Leo, Sonya e outro colega do núcleo comunista de Cambridge, William Mitchell (Freddie Gaminara), assediam Joan para que ele espione para os soviéticos.  Ela resiste, mas termina cedendo ao perceber o estrago das bombas de Hiroshima e Nagasaki.  Ela passa a espionar o projeto, não por amor ao comunismo, mas para "nivelar o campo de jogo" no mundo do pós-guerra, pois somente haveria segurança e equilíbrio de ambas as super potências, EUA e URSS, tivessem a bomba.  E ela estava certa, não estava?

O interrogatório é longo.
Red Joan é inspirado em fatos reais, é verdade, mas em nenhum momento o filme tenta se vender como relato fiel dos episódios históricos.  A narrativa vai e volta em flashbacks e temos duas atrizes interpretando a protagonista.  Judi Dench interpreta a protagonista idosa de forma muito dúbia.  Será que tudo o que ela diz é verdade?  Mesmo acuada, mesmo diante da perplexidade e raiva do filho advogado, Nick (Ben Miles), ela parece nao se deixar abalar.  O filho nunca desconfiou da mãe, mas termina se questionando que sempre a achou culta demais para uma simples bibliotecária... 

Agora, o mais importante: será que tudo o que ela parece lembrar aconteceu realmente daquele jeito?  A memória é seletiva, mas Joan é astuta, ou não teria enganado tanta gente, e talvez estejamos assistindo não a história como ocorreu, mas como a protagonista quer que vejamos.  A manipulação dos fatos é crucial para que Red Joan se salve e os olhinhos de Judi Dench sempre nos deixam sem ter certeza.  E há até uma pequena piada.  O filho, logo no início, pergunta atônito se a mãe era comunista.  Ela responde trêmula que "claro que não", mas a xícara de chá em suas mãos tem vários rostos de Che Guevara.  😁  

O filho nunca poderia imaginar.
A outra atriz, Sophie Cookson, que interpreta Joan jovem, tem menos recursos.  Eu não sabia de onde lembrava dela, mas ela é a agente Lancelot dos dois filmes  Kingsman (*resenha: 1 e 2*).  Pois bem, a atriz deve mostrar as várias fases da personagem, da moça ingênua e romântica seduzida por Leo, passando pela profissional competente, mas cheia de dúvidas, até se tornar a espiã que tenta controlar seus medos e cumprir sua missão.  Acredito que ela deu conta do recado, mas entendo que haja gente criticando sua atuação, porque cabe a ela ficar com a parte mais romantizada da história.  E ela não é Judi Dench, pode vir a ser uma grande atriz, mas temos um desequilíbrio claro nessa história.

Agora, um ponto importante para nós aqui: A Espiã Vermelha é um filme feminista, sim, e bastante.   Um dos pilares da película é discutir o quanto as mulheres eram subestimadas, especialmente, nas ciências exatas, que em inglês podemos reduzir à sigla STEM, ou ciência (science), tecnologia, engenharia e matemática.  Não sei se isso é trabalhado no romance original de Jennie Rooney, mas foi bastante explorado no roteiro de Lindsay Shapero.  Ao conhecer Joan, Sonya pergunta se ela é de "humanas", mais tarde, percebemos que a moça é a única mulher em sua turma de graduação em Física.  

Joan se deixa fascinar pelo revolucionário.
Apesar de contratada como secretária por ser cientista e entender o que estava sendo feito na Tube Alloys, seu chefe, Max Davis (Stephen Campbell Moore), valoriza seus talentos, ela é tratada por alguns com desdém.  Ela é só "a moça do chá", apesar de desenhar todos os diagramas e dar algumas ideias importantes para o andamento do projeto.  Quando se torna espiã, ela usa essa complacência e discriminação que a incomodavam a seu favor.  Quem desconfiaria que uma mulherzinha poderia ter tanto poder?  Poderia ajudar os soviéticos a chegar à bomba?

Mas tudo isso é ficção e esse fator tem que ficar bem claro, porque certas resenhas do filme, as primeiras que li, por exemplo, quase anunciavam que veríamos na tela a história de Melita Norwood (1912-2005).  Não vemos.  Aliás, uma das coisas que o filme faz deliberadamente, e isso talvez seja uma influência direta do momento histórico em que vivemos, é tentar separar Joan do comunismo. Na película, a protagonista nunca foi socialista, ou comunista, ela simplesmente se insurge contra aquilo que considera traição, afinal, a URSS era uma aliada, e uma injustiça. Ela também age segundo a sua consciência, negando-se a aceitar o discurso de que os cientistas devem fazer ciência, eles (*e elas*) não tem nada a ver com o que os políticos fazem com aquilo que eles inventam.  Joan é ética e se insurge contra essa ideia.

Leo seduz as multidões.
Voltando aos tempos em Cambridge, quando Joan entra na universidade estamos nos momentos decisivos da Guerra Civil Espanhola (1936-1939), havia toda uma solidariedade juvenil (*e não somente*) com os republicanos contra os fascistas.  Se interessar pelo socialismo não era incomum.  O que é normal, e o filme mais uma vez tenta desvencilhar Joan do comunismo, é que ela é capaz de erguer a voz e questionar a veneração que os colegas tinham em relação à Stálin.  Isso seria praticamente impossível naquele momento, pois ninguém sabia detalhes dos crimes de Stálin, e todos, fascistas e nações imperialistas, como a Inglaterra, tinham seus crimes genocidas nas costas e não se importavam muito com isso. 

O filme, no entanto, não insiste nessa seara.  É mostrada a rede de espionagem que reúne Leo e Sonya, dois estrangeiros, além de aristocratas como William Mitchell e seu amigo e amante, Kharak (Raj Swamy, não está listado nem no IMDB), que acabam indo trabalhar no ministério das relações estrangeiras.  Joan perde contato com eles por um tempo, mas é localizada pelo grupo quando já está trabalhando para a Tube Alloys.  A empresa fantasia realmente existiu e foi onde trabalhou a espiã que inspirou a personagem de Joan.  Falamos muito do Projeto Manhattan, mas os americanos receberam muita ajuda das pesquisas britânicas, até decidirem seguir seu próprio caminho.  

William foi inspirado em Guy Burgess,
ou, talvez, seu amante tenha sido.
Meu marido me explicou que os britânicos estavam a frente dos americanos nas pesquisas no início da guerra, da mesma forma que rivalizavam com os alemães na pesquisa de motores à jato.  Foi a Inglaterra que cedeu essa tecnologia para os soviéticos e norte-americanos, mas, no caso da bomba, sonegou informações para os russos.  Já na pesquisa da bomba, os americanos se afastaram e depois de ler sobre os feitos de Melita Norwood e dos Cambridge Five, não tiro a razão deles.

Melita Norwood, diferente da Joan criada para o filme, ou para o livro, tinha pedigree comunista.  Seu pai imigrante era comunista, sua mãe, também.  Ela era membro do partido, seu marido, idem. Ainda assim, segundo a Wikipedia, foi contratada como secretária para um projeto super secreto e quando levantou-se a questão da segurança, seu chefe simplesmente fez pouco caso e disse que não a deixaria saber o suficiente.  Norwood não era cientista das exatas, era de humanas e não tinha concluído seus estudos na Universidade de Southampton.  

O Dr. Davis se apaixona perdidamente por Joan
e seria capaz de sacrificar sua vida por ela.
Ela espionou TRINTA ANOS para os soviéticos.  E, o pior, se eu for confiar na Wikipedia, o serviço secreto sabia das atividades dela nos anos 1960 e não a desmascarou, porque seria uma vergonha admitir que tinham uma infiltrada por tanto tempo.  Acho essa versão meio exagerada, mas tanto o caso Norwood, quanto Cambridge Five me mostrou um serviço secreto britânico que eu não conhecia.  O fato é que Melita Norwood só foi exposta em 1999, graças aos documentos entregues por um espião soviético que desertou e entregou vários arquivos.  Ela estava aposentada desde 1972 e acabou sendo perdoada pelo governo, dada a sua idade avançada.

Mas eu estou falando dos Cambridge Five e não expliquei até agora.  Enfim, o fato de não terem colocado Joan estudando em Southampton teve como objetivo costurar as duas tramas de espionagem. Os Cambridge Five foram um grupo de rapazes aristocratas, ou de boas famílias, que se tornam comunistas, ou foram seduzidos pelos riscos, e espionam para a URSS.  O grupo era formado por Donald Maclean e Guy Burgess termianram fugindo para a URSS em 1951; Kim Philby fugiu em 1963; Anthony Blunt, que confessou em 1979 e John Cairncross, que permaneceu em segredo até 1990.  

A verdadeira Melita Norwood, lendo a
declaração de culpa em seu quintal.  Joan faz isso no filme.
Todos esses caras estavam dentro do ministério das relações exteriores britânico e passando informações diversas, inclusive sobre a bomba para os soviéticos.  Realmente, não tem como confiar no serviço secreto britânico.  A adolescência de Guy Burgess, sua homossexualidade e início do flerte com o comunismo, foi representada no filme Another Country, que eu resenhei muito tempo atrás.  Já a história dos Cambridge Five foi contada na minissérie da BBC Cambridge Spies, que eu tenho no meu HD faz anos e nunca vi.  Estou tentada a assistir e resenhar.  

Acho que estou me perdendo, esse texto está uma bagunça!  Enfim, o filme reduz a relação da Joan com o comunismo, ou seja, vende a ideia de que ela nunca traiu seu país.  Também encurtou seu tempo como espiã, poucos anos entre o final da 2ª Guerra e, se muito, 1949.  Durante seu trabalho na Tube Alloys, ela resiste em entregar os segredos, mas, além do seu senso de justiça, pesa o dispositivo amoroso.  Ele ainda está apaixonada por Leo, ainda que estabeleça uma relação muito próxima com o cientista que era seu chefe.

A secretária que era, também, cientista.
De todas as personagens masculinas do filme, Max Davis é a mais decente, por assim dizer.  Ele tem profundo respeito pela competência de Joan e intervém quando tentam diminuí-la.  No fim das contas, como não poderia deixar de ser em uma estrutura como essa, ele se apaixona pela secretária.  E Joan, ferida e solitária, não recusa a atenção do homem mais velho.  A questão é que ele é casado e um cavalheiro, ainda que ele tenha caído em tentação a caminho do Canadá, ele se recusa a ter um caso com a moça, porque ela não merece essa situação.  Ela cona sobre Leo e ele diz que o sujeito era um idiota.  E era mesmo, arremato.

A personagem é o cavalheiro quase perfeito, ainda que venha com o papo mole de que cientistas fazem ciência e deixem os políticos decidir o que será feito da bomba.  É isso, aliás, que precipita a traição da moça.  No fim das contas, ele termina por romper seu casamento e se declarar adequadamente para a jovem.  Já caminhando para o final, e não vou contar o desfecho do filme.  Descobre-se a espionagem e Max é acusado de traição.  Ele é preso e a pena para esses casos na Inglaterra da época é a morte.  Resta à Joan tentar salvá-lo, ou não.  Confessar seus crimes, ou se calar.  O que ela faz, ou como faz, só assistindo ao filme.  No mais, o ator Stephen Campbell Moore me parecia bem mais velho do que é na realidade.  Ele é nascido em 1979, a diferença em relação à atriz que interpreta Joan é de meros dez anos, ele, no entanto, parece muito mais velho.

Sonya é perigosa e eu bati o olho na câmera
e vi que ela não estava ali à toa.
O filme cumpre a Bechdel Rule?  Sim, por causa das conversas entre Sonya, a personagem mais sinuosa e perigosa da história, e Joan.  Elas são as duas personagens femininas com nome e personalidade bem definida.  Uma é capaz de tudo, a outra tem princípios.  Ambas, no entanto, estão enredadas pelo mesmo sujeito, Leo, que é muito sedutor, mas me pareceu o típico revolucionário de corredor de faculdade.  Desculpem, mas é o tipo de personagem (*e lembrei da minha bronca com o Xavier de Liberdade, Liberdade*) contra quem sempre vou torcer, porque convivi com gente assim no tempo de graduação.  Curiosamente, a agente de polícia que aparece muito no filme, tem um monte de falas e tudo mais, não tem nome.  ela é interpretada por Nina Sosanya.  Outra coisa, o figurino do filme é muito elegante e bonito, também, quer dizer, a parte de época, a nos dias atuais nada tem de especial.

É isso.  Red Joan é um bom entretenimento.  Não é um filme denso, não é um filme de arte, é um misto de filme de espionagem com drama psicológico e algum romance.  Não é um filme histórico e está contaminado pela forma como muitos veem o comunismo em nossos dias, confirmando a máxima de que um filme histórico fala muito sobre o momento em que foi produzido.  Enfim, vale muito pela atuação de Judi Dench e pela sua trama.  E, no fim das contas, ela estava certa e não se arrepende de nada.  Se você quiser ler o romance, e eu fiquei com vontade, há edição nacional, e pode ser lido no original, também.

Morreu Franco Zeffirelli que dirigiu montes de filmes que poderiam ser um shoujo mangá


Sigo alguns jornais italianos no Twitter e acabou de sair a informação de que Franco Zeffirelli acabou de falecer em sua casa aos 96 anos de idade.  É uma longa vida.  Ele dirigiu filmes para o cinema, óperas e peças de teatro.  Acredito que poucos sabiam criar filmes tão dramáticos, românticos e bonitos como ele.  Se ele tivesse alguma vez tido a oportunidade de colocar as mãos em um Orpheus no Mado (オルフェウスの窓), ou em um Coração de Thomas ( トーマの心臓), ou  Waltz wa Shiroi Dress de (円舞曲は白いドレスで), ou outra obra histórica da Chiho Saito, ele faria uma obra de arte.  

Essa música é um grude.  A trilha sonora inteira é.

Não vi todos os filmes do Zeffirelli, ele tem um currículo muito extenso.  De qualquer forma, ele fez a versão mais linda de Romeu e Julieta (1968), escalando adolescentes para os papéis e com uma trilha sonora marcante e que ficou gravada na memória das pessoas por anos.  Eu tinha lido a peça aos 13 anos e chorado copiosamente, ao assistir o filme era como as personagens ganhassem vida em todo o seu esplendor trágico.  Ele também fez a versão da vida de Francisco de Assis (1972) linda, respeitosa e dialogando com as premissas do movimento hippie.  Não é minha versão favorita (*escrevi um post sobre filmes sobre Francisco de Assis uma vez, coloquei, inclusive, que acho o filme chato, talvez, seja hora de revê-lo*), mas é, com certeza, a mais bonita e a que eu poderia exibir para meus alunos e alunas sem susto, sem medo, e com a certeza de que eles sairiam encantados.

Zeffirelli conseguiu fortalecer ainda mais essa imagem do
Jesus branco na cabeça das pessoas.
Seu Jesus of Nazareth (1977) era obrigatório na Semana Santa e ajudou a eternizar no imaginário aquela ideia de que Jesus era branco e de olhos claríssimos, mas prefiro o Cristo de Zeffirelli ao espetáculo sensacionalista reacionário sanguinolento de Mel Gibson.  Mas Zeffirelli também dirigiu uma das melhores versões de Hamlet (1990) com o próprio Gibson no papel título.

Storia di una Capinera: Zeffirelli no seu melhor.
Ele dirigiu um dos meus filmes favoritos, Storia di una Capinera (1993), baseado em um livro Giovanni Verga, maior nome do romantismo italiano.  Falei desse filme no Shoujo Café, em um post sobre os filmes que eu deveria rever.  Agora, Zeffirelli me decepcionou bastante uma vez, quando soube que ele iria dirigir Jane Eyre, eu vibrei.  Vai ser espetacular!  E, bem, ele poderia ter usado toda a sua mão pesada para o drama e foi tão contido que produziu um filme morno, com um Rochester depressivo.  Ele errou logo com um dos meus livros favoritos, mas acertou tantas e tantas vezes, que eu só tenho a agradecer.  A resenha está aqui.

A escalação de Jane foi correta, mas o Rochester...
Enfim, parece que Zeffirelli viveu bem sua longa vida e deixou um grande legado para todos nós.  Eu sou grata, muito grata, pelos filmes e preciso correr atrás do que ainda não assisti.  e, não, não estou ponderando aqui sobre as ideias políticas de Zeffirelli, que eu nem sei direito quais são, mas sobre sua contribuição para o cinema. 💜

sexta-feira, 14 de junho de 2019

Já temos o elenco de Coffee & Vanilla


Coffee & Vanilla (コーヒー&バニラ) é um sucesso na revista Cheese desde sua estreia em 2015 e um dorama foi anunciado em maio.  Junto com meu post sobre o seriado, comentei os primeiros capítulos.  Confesso que não gostei, mas é um dos grandes lançamentos desta temporada e, bem, vai que o dorama corrigi os problemas, ou pelo menos aluns deles, do original?  


O início da história é o seguinte: Risa Shiroki é uma universitária de 20 anos que veio do interior para Tokyo  estudar em uma universidade.  Risa é bonita e popular entre os colegas do sexo masculino, mas nunca teve um namorado e sua timidez é confundida com arrogância. Um dia, quando estava sendo assediada por um sujeito em uma cafeteria, Hiroto Fukami apareceu na frente dela em um belo terno e a resgata. Ele é um homem de negócios de 30 anos de idade. Ele é gentil e parece perfeito. Risa Shiroki e Hiroto Fukami se apaixonam, mas o sujeito tem um passado sombrio. 


Minha leitura não chegou na parte do "passado sombrio", mas o que eu li já me fez acreditar que o sujeito, além de stalker e abusivo, poderia ser um psicopata mesmo.  Enfim, a protagonista será interpretada por Haruka Fukuhara e o embuste de terno fica a cargo de Dori Sakurada, que parece um adolescente e, não, um cara de 30 anos.  A estreia está prevista para 4 de julho no canal MBS.  mais fotos do elenco e informações gerais, consultar Comic Natalie e Asianwiki.