terça-feira, 31 de dezembro de 2019

Para quem quiser ouvir o Shoujocast


Lá em 2009, eu decidi criar um podcast.  Começou de forma bem precária.  Aí, o amigo Anderson sugeriu um nome "Shoujocast".  Vieram companheiras, a Lina Inverse, depois a Tanko e, por fim, a Tabby e, bem, fizemos 52 programas.  Pouco, eu sei, mas as agendas desencontraram.  Sempre penso em voltar, mas ainda não houve como.  Bem, eu queria disponibilizar os programas, mas descobri que não tinha todos. Perguntei se a Lina tinha.  Ela organizou tudinho e disponibilizou para download (*AQUI*).  Tudinho, não, faltou o programa 52, então, coloquei no Youtube.



Eu parei para escutar um dos meus programas favoritos o duplo sobre Orgulho & Preconceito e foi um prazer muito grande ouvir a voz das amigas queridas e da convidada especial, a Adriana Salles.  Que conversa legal foi aquela.  Enfim, se você quiser relembrar, ou conhecer o Shoujocast, esta é a oportunidade.

terça-feira, 12 de novembro de 2019

Construtora Japonesa oferece a experiência de ter uma esposa e filha ideal para homens interessados em comprar casas


O Sora News publicou uma matéria sobre uma empresa chamada Renard, especializada em construir casas.  Essa empresa está oferecendo um serviço, segundo o SN, que visa estimular a compra de casas por parte dos salaryman.  O cliente pode passar algumas horas em uma casa japonesa típica com modelos pagas para serem sua esposa e filha.  Tudo segue um script, o casamento tem 8 anos, a menina, sete anos.


esposa-modelo é carinhosa e gosta dos trabalhos domésticos, especialmente, de cozinhar para a família.  A filha, apesar de um pouco chorona, segundo a descrição, é curiosa e ama muito o pai.  


O sujeito tem a possibilidade de viver a experiência da vida familiar, além de conhecer os vários cômodos mobiliados e equipados da casa.  A esposa-modelo, segundo a matéria, é a atriz Saori Koide, alguém muito preparada para improvisar e fazer com que o cliente vivencie "cenas felizes que podem ser vividas em uma casa que você compartilha com outras pessoas”.  Percebe que não é uma ideia tão diferente daquela que se pode experimentar em um maid café?


A casa fica no distrito de Kokubunji e estará aberta para visitação no dia 19, mas somente por cinco maridos escolhidos aleatoriamente por um aplicativo da empresa.  Enfim, acho triste e imagino que muitos sujeitos tenham se inscrito para simplesmente poderem experimentar a vida familiar, aquilo que não tem e, talvez, nunca consigam ter.  De resto, faria uma aposta, se a demanda for grande, devem estender essa experiência, ou outras empresas imitarem o projeto, explorando a solidão a carências de muitos homens japoneses. 

Filme de Gozen 0-ji, Kiss Shi ni Kite yo é capa da revista Betsufure


Gozen 0-ji, Kiss Shi ni Kite yo (午前0時、キスしに来てよ) de Rin Mikimoto é um mangá publicado na Betsufure e um dos grandes sucessos da revista. Em abril, foi anunciado um filme e ele estreia no dia 6 de dezembro.  Por conta disso, a série é capa da edição atual da publicação.

Ryota Katayose e Kanna Hashimoto
 são os asstros do filme.
Gozen 0-ji, Kiss Shi ni Kite yo, ou Kiss Me at the Stroke of Midnight, seu nome mais conhecido em inglês, tem dez volumes no momento e conta a história de Hinana, uma colegial que acorda às 5 da manhã para se preparar para a escola todos os dias. Ela também é a secretária do Comitê Estudantil e uma aluna respeitada por todos os colegas. Apesar de séria e dedicada aos estudos, na realidade sonha em um dia se encontrar um príncipe. Quando um ator famoso, Ayase Kaede, grava um filme em sua escola durante a golden week, os membros do Comitê Estudantil têm que atuar como extras. Hinana acha que Ayase é como o príncipe de seus sonhos até descobrir que na realidade ele é um pervertido... A vida de Hinana muda de uma forma que ela não poderia imaginar.

Capa da Betsufure.
Além do filme, o mangá terá duas light novels lançadas, no dia 28 de novembro.  Os livros foram escritos por Yui Tokiumi, a mesma autora do mangá spin-off e novel de Chihayafuru (ちはやふる). Enfim, o trailer do filme está aí embaixo.

segunda-feira, 11 de novembro de 2019

Café com Jane Austen #10: Sanditon com spoilers! Você gostou do final? Não gostou? Ouça a nossa opinião!


Demorou, mas saiu o novo episódio sobre adaptações de Orgulho & Preconceito do podcast Café com Jane Austen.  Hoje, nós conversamos sobre as nossas impressões a respeito da série Sanditon, da ITV, baseada no último romance de Jane Austen e que ficou inacabado quando de sua morte em 18 de julho de 1817.  Pois bem, foram oito episódios e nem todas as promessas foram cumpridas, por assim dizer... Mas ouçam, se não se importam com spoilers.

A Moira montou a figurinha...
Tenho nada a ver com isso, não!
😁
 
 Além de mim, participam do podcast Moira Bianchi (escritora e autora do blog Moira Bianchi), Adriana Sales (pesquisadora e fundadora da Jane Austen Sociedade do Brasil - JASBRA), que gravou os Shoujocasts sobre Orgulho e Preconceito conosco, e a Thaís Brito (jornalista e autora do blog Fantástico Mundo de Jane Austen), que editou o programa. Se quiser saber nossas impressões iniciais, basta acessar o podcast sobre o início da série.  Quer embarcar?   É só dar play!


  • Para ouvir no Spotify - AQUI  
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  • Quer mandar um oi pra gente? Use o nosso Instagram, ou o e-mail.
  • Trilha sonora: Advent Chamber Orchestra - Handel - Entrance to the Queen of Sheba for Two Oboes Strings and Continuo Allegro (Disponível AQUI).

  • *** Links dos conteúdos comentados na discussão ***


    Minissérie - Sanditon (2019).
    Post - Sanditon, que final foi esse? 
    Post - Comentando o primeiro episódio de Gentleman Jack
    Post - Mulheres vitorianas que amavam mulheres vitorianas.
    Post - Muitas mulheres em uma série só: Gentleman Jack


    *** Nossas dicas ***
    Minissérie - Filhas e Esposas (1999).  Minha resenha da minissérie está aqui.
    Série - Gentleman Jack (2019).
    Livro - Jane Austen Cover to Cover.
    Livro - Amor e Amizade (versão de Whit Stillman).

    Se você quiser comprar Sanditon, há várias edições disponíveis, a mais baratinha (*em inglês*) custa R$3,30 somente:



    P.S.:  Vou fazer um texto sobre a série, espero que saia esta semana.

    Qual a morte dos animes e mangás que mais lhe chocou? Os japoneses respondem.


    O Gooranking publicou uma pesquisa sobre quais as mortes mais dolorosas, ou surpreendentes dos mangás e animes.  Foram 2.072 votos e, bem, a quantidade de personagens de Gundam, nas suas várias séries, é absurda.  Agora, pelo menos no Top 20, há muita gente que "eu vi morrer" e me surpreendeu, ou chocou.  ☺️ O segundo lugar, um dos gêmeos de Touch, morre logo no começo da história e foi bem chocante, porque eu não tinha pego nenhum spoiler.  Yang Wen-li, um dos meus personagens favoritos de sempre, a figure dele está aqui na minha mesa, foi uma morte tão doída... 

    1. Portgas D. Ace (One Piece) - 455 votos
    2. Kazuya Uesugi (Touch) - 250 votos
    3. L (Death Note) - 187 votos
    4. Mami Tomoe (Puella Magi Madoka Magica) - 149 votos
    5. Maes Hughes (Full Metal Alchemist) - 134 votos
    6. Neji Hyuga (Naruto) - 127 votos
    7. Yang Wen-li (Legend of the Galactic Heroes) - 96 votos
    8. Jiraiya (Naruto) - 67 votos
    9. Lockon Stratos/Neil Dylandy (Gundam 00) - 66 votos
    10. Rikiishi Tōru (Ashita no Joe) - 47 votos


    Aqui, temos mais LOGH e a morte de Siegfried, que foi longa e com muito sangue.  Muito sangue.  E a morte do Gai Daigoji no quinto capítulo, acho, me deixou tão furiosa que eu larguei a série.  Como matam minha personagem favorita desse jeito?!

    11. Kamina (Tengen Toppa Gurren-Lagann) - 45 votos
    12. Rei (Hokuo no Ken) - 42 votos
    13. Siegfried Kircheis (Legend of the Galactic Heroes) - 41 votos
    13. Netero (HunterXHunter) - 41 votos
    15. Biscuit Griffon (Gundam: Iron-Blooded Orphans) - 35 votos
    16. Shirley Fenette (Code Geass: Lelouch of the Rebellion) - 28 votos
    17. Kisaragi (Kantai Collection) - 27 votos
    18. Matilda Ajan (Gundam: Ai senshihen) - 26 voos
    19. Gai Daigoji (Martian Successor Nadesico) - 20 votos
    20. Euphemia Li Britannia (Code Geass: Lelouch of the Rebellion) - 19 votos

    Aqui, não conheço ninguém daqui.  Gundam, Gundam, Gundam, mais Naruto, e pouca coisa além... 

    21. Hayato Kobayashi (Gundam ZZ) - 17 votos
    22. Asuma Sarutobi (Naruto) - 14 votos
    23. Sleggar Law (Gundam The Origin) - 10 votos
    24. Bell-mère (One Piece) - 9 votos
    24. Ryu Jose (Gundam) - 9 votos
    26. Four Murasame (Zeta Gundam) - 7 votos
    27. Sachi (Sword Art Online) - 6 votos
    28. Fumitan Admoss  (Gundam: Iron-Blooded Orphans) - 5 votos
    29. Kayneth El-Melloi Archibald (Fate/Zero) - 3 votos
    29. Cardeas Vist (Gundam Unicorn) 3 votos
    31. Outros - 87 votos


    Mas há mortes que me chocaram e que não estão ali.  Anthony de Candy Candy, é um deles.  Criança, a gente não tinha condição de ler os sinais.  Agora, não estou lembrando de outras e tenho que ir para o trabalho.  

    domingo, 10 de novembro de 2019

    Comentando Papicha (France/Algeria, 2019): Vida, Liberdade, Resistência e Sororidade a qualquer custo


    Quinta-feira assisti ao filme Papicha, de Mounia Meddour e que conta com a colaboração de Fadette Drouard no roteiro.  Trata-se de um filme feminista (*mais um quase em cadeia*) e candidato da Argélia à melhor filme estrangeiro no Oscar, ainda que, provavelmente, nunca estreie no seu país de origem.  Papicha, gíria local para garota moderna e ousada, é uma história sobre uma jovem mulher que deseja viver intensamente, que tem sonhos que seriam aceitáveis em qualquer país ocidental, ou mesmo em vários lugares do mundo, mas que está presa em uma nação em guerra civil, na qual o alvo principal são as mulheres.  

    O resumo do filme é o seguinte: Argélia, década de 1990, Nedjma (Lyna Khoudri) tem 18 anos e estuda língua e cultura francesa na universidade, mas seu grande sonho é se tornar estilista.  Ela desenha, costura e vende suas criações para suas colegas e para mulheres nas boates de Argel.  O problema é que o país está mergulhado em uma guerra civil (1991-2002) e os grupos islâmicos envolvidos almejam não somente o poder, mas impôr um rígido código de vestimenta e comportamento às mulheres, tomando o controle sobre seus corpos e suas vidas.  E o que Nedjma  faz?  Ela decide resistir e ficar, lutando a sua maneira pelo seu país e pelos direitos das mulheres.


    Elas queriam curtir a vida.
    Papicha é um filme sobre vida e sobre resistência, é um filme sobre mulheres e os laços que as unem.  Logo no início, na primeira sequência, somos apresentadas à Nedjima, ou Neji, e sua amiga Wassila (Shirine Boutella), duas adolescentes alegres, que estão saindo escondidas para ir a uma boate.  Subornam o porteiro da universidade, tem um taxista de confiança, mas o medo está lá e esse sentimento torna urgente que elas vivam intensamente.  Também, nessa primeira sequência a diretora-roteirista já nos apresenta os perigos que rondam as mulheres argelinas naquele contexto.  

    O táxi é parado por um grupo de islamistas.  Eles estão armados, eles gritam, eles exigem os documentos do taxista e saber de onde ele vem e por qual motivo as moças, que se cobriram com o véu quando perceberam a patrulha, estão fora de casa.  "Estamos voltando de um casamento.", fala Nedjima, ou a amiga.  "Vocês não tem medo?", esta é a pergunta de um dos milicianos.  Medo.  Ao longo do filme, fica claro que o que os terroristas islâmicos desejam é que as mulheres tenham medo, porque o medo paralisa, nos impede de agir.  Quer dizer, não se você for Nedjima com sua imensa sede de viver.


    No IMDB está escrito que o filme se passa em 1997. 
    Nada é dito na película, aliás, tudo
    sugere que a história se passe em 1992.
    Para escrever esta resenha, tive que mergulhar em uma leitura intensiva sobre a Guerra Civil Argelina, ou, como eles chamam, a "década negra".  Quando essa guerra ganhou a grande imprensa internacional, eu estava terminando a faculdade, 1995, 1996, e costumava ler alguns relatos assustadores, porém genéricos, os civis eram o maior alvo, havia mulheres sequestradas e forçadas a se casar, o objetivo era transformar a Argélia em uma república islâmica como o Irã.  Tinha na minha cabeça desde então que a maioria dos grupos em conflito eram xiitas.  Não, na verdade, eram sunitas, e é possível ver nos relatos específicos que encontrei, os que falam da guerra às mulheres, imagens ligadas ao Talebã e ao Estado Islâmico.

    Em linhas gerais, o conflito no país começou quando o candidato do governo perdeu o primeiro turno das eleições em 1991 para a Frente Islâmica de Salvação (FIS).  Um grupo radical, que já tinha um discurso misógino, e que defendia a criação de um programa de renda mínima, como o bolsa família, para que as mulheres pudessem ficar em casa (*seu verdadeiro lugar*) e deixassem os postos de trabalho para os homens em um ambiente em que o desemprego era grande.  Temos, então, a questão religiosa de braço dado com a problemática econômica.  O que aconteceu então?  Não houve segundo turno, aconteceu um golpe apoiado pelos militares, e os líderes da FIS começaram a ser presos.


    Nedjima é assediada nas ruas e chamada de "papicha".
    A reação não tardou, a FIS, o GIA (Grupo Islâmico Armado), outra facção importante, e uma miríade de grupos islâmicos, começaram uma guerra civil promovendo inúmeros atentados, especialmente, contra as mulheres, a quem decidiram impôr o véu e impedi-las de trabalhar e estudar em ambientes mistos.  Havia, também, um discurso islamizante-arabizante que tentava expurgar tanto elementos da cultura local, quanto influências ocidentais, como a forte herança cultural francesa na ex-colônia.  Esses grupos com certeza estavam olhando para a Revolução Islâmica Iraniana (1979), uma experiência concreta, mas queriam fazê-la numa leitura sunita, inspirada na Arábia Saudita.

    Nas minhas leituras para escrever a resenha (*em inglês, porque em francês deveria achar muito mais coisa*), consegui encontrar na internet alguns artigos dos anos 1990, contemporâneos à guerra, e não somente material mais atual.  Li sobre uma jornalista que foi morta com um tiro à queima roupa, enquanto trabalhava; de professoras sendo mortas por estarem lecionando assuntos não-islâmicos, ou simplesmente ensinando; de médicas mortas por atenderem pacientes homens, ou simplesmente por estarem salvando vidas; de uma adolescente de quinze anos sequestrada e esfolada viva por resistir ao estupro coletivo, suas fotos (*ou filmagem, não ficou claro*) foram espalhadas pelo país e enviadas para as principais líderes feministas do país.  


    Nedjima tem fotos muito brava, mas
    ela sorri bastante no filme.
    Li, também, o caso de uma mulher religiosa, que nunca tinha trabalhado fora de casa, morta com um tiro no rosto, porque fez um ato de caridade: levou sopa para policiais que estavam trabalhando no Ramadã e não tinham o que comer quando chegasse a hora de romper o jejum. Sim, a ideia era instilar o terror mesmo nas mulheres religiosas.  Essa ideia está bem presente no filme.  Todas as mulheres tem medo e Nedjima e suas amigas próximas tiram desse sentimento a força para seguir em frente.  

    No caso da protagonista,  o exemplo vem de sua mãe, uma das personagens mais simpáticas do filme.  Com essa senhorinha pacata e religiosa, mas de ideia progressistas, ela aprendeu a costurar e aprendeu a amar a Argélia.  Aprendeu a ser solidária com outras mulheres e entender a força que todas elas tinham.  A mãe de Nedjima lutou na guerra de independência (1954-1962).  Pegou em armas?  Não, aparentemente, poucas mulheres argelinas o fizeram, o trabalho das mulheres era dar apoio e não era uma missão menos perigosa.  Cabia a elas, por exemplo, levar armas escondidas sob o seu haik, enganando os soldados franceses.  Sempre que falava do assunto com minhas turmas, enfatizava que o receio que os franceses tem da liberação das vestimentas islâmicas como o niqab e a burqa tem sua origem nessa guerra sangrenta.


    Vamos fazer um desfile de moda.
    Falando do haik, trata-se da vestimenta islâmica típica da Argélia.  Ela é branca e consiste em uma peça única de tecido com até seis metros de comprimento e que envolve todo o corpo da mulher, sem costura alguma.  A mãe de Nedjima (Aida Guechoud) explica para a protagonista e sua irmã mais velha, Linda (Meriem Medjkrane), como usar a peça, ou como ela era usada nos tempos da sua juventude.  Linda havia recebido um haik de presente da mãe de um pretendente.  Segundo a mãe da protagonista, as solteiras poderiam deixar a raiz dos cabelos à mostra, já as casadas deveriam cobrir todo o seu cabelo, se fossem muito pudicas, poderiam deixar somente um dos olhos à mostra.  

    Uma das formas de segurar o haik era com a boca, a velha senhora explica.  "Mas assim como a mulher iria falar?", Linda pergunta.  "Uma mulher não precisa falar.", a mãe responde irônica e, depois, todas caem na gargalhada.  Os islamistas radicais não querem impôr o haik, mas vestimentas islâmicas importadas dos países do Golfo Pérsico.  Nada de branco, a cor é o preto.  Lembrei do livro Minha Briga com o Islã, de Irshad Manji, em que uma das teses da autora, que é muçulmana, é que com o colapso do Império Islâmico, sobrou para os árabes do Golfo Pérsico (*sauditas, em especial*) tentar monopolizar a religião, nesse intuito eliminando, ou tentando eliminar, a diversidade de leituras do islamismo e eliminar as tradições locais, nesse caso, abarcando tudo, incluindo as vestimentas das mulheres.

    A mãe de Nedjima é incrível.
    Por isso mesmo, como uma forma de resistência, Nedjima decide fazer toda uma coleção de roupas usando o haik como base.  É uma espécie de resistência contra os hábitos estranhos ao seu país e uma forma de afirmar que os fundamentalistas eram insignificantes para ela.  Antes de ter mergulhado nos relatos locais de dor e resistência, fiquei pensando em como a Nedjima parecia fora da realidade.  Destemida, incapaz de ceder um milimetro, afrontosa mesmo.  Lembrei-me de um filme argentino que assisti faz um bom tempo, no qual guerrilheiros muito otimistas retornam para seu país de origem, no auge da ditadura mais sangrenta da América Latina  (1976-1983), porque acreditam que era o momento ideal para a revolução.  Não era, a gente sabe desde o primeiro momento que vai dar m****, só não sabe de qual tamanho ela será.

    Quando comecei a assistir Papicha, já sabia que aconteceria uma, ou várias tragédias.  A questão era saber quais e o tamanho da desgraça.  Por exemplo, quando Linda, a irmã jornalista de Nedjima, entra em cena cheia de confiança e orgulho pelo trabalho que faz, sabemos que ela vai morrer, a questão é como e quando acontecerá.  "Você não tem medo?", pergunta a protagonista.  "Eu preciso fazer meu trabalho.", é mais ou menos isso que Linda responde.  Ela é morta de forma violenta, surpreendente e estúpida.  Mesmo sem que fosse mostrada uma gota de sangue, ou o rosto de Linda, a gente sente o horror, a mãe desesperada atirada sobre o corpo da filha.  


    Mulheres foram usadas para oprimir
    mulheres, aliás, isso é muito comum.
    Da morte da irmã, Nedjima tira forças para continuar, mas, aqui, cabe uma cítica ao filme.  As amigas mais próximas de Nedjima - Wassila, Samira (Amira Hilda Douaouda) e Kahina (Zahra Manel Doumandji) - falam da irmã da protagonista com muita deferência, como se ela fosse um exemplo para todas elas.  O problema é que Linda não tem tempo de tela, ou menções anteriores a sua morte suficientes para que a gente entenda a sua importância como exemplo para aquelas jovens mulheres.  

    O fato é que havia feministas na Argélia, mulheres muito corajosas dado o nível de violência local. Nedjima, a protagonista.  A longa luta era contra a imposição de uma leitura estreita da sharia.  Essas mulheres tentaram impedir a deterioração dos direitos das mulheres desde o Código da Família, em 1984, mas sem grande sucesso.  Por exemplo, as leis davam direito ao marido de se divorciar da esposa sem maiores problemas e expulsá-la de casa com os filhos.  E sabe o que aconteceu com algumas dessas mulheres?  Foram linchadas, ou queimadas vivas, porque era imoral que morassem sozinhas, sem um guardião.  Mas qual opção muitas delas tinham?  Enfim, isso não é o Islã, que fique claro, e escrevi algo parecido na resenha de Filhas do Sol, mas uma perversão de princípios religiosos.


    Quatro amigas que amam a vida e tem muitos sonhos.
    O filme é muito feliz ao colocar mulheres como participantes do movimento que visava retirar-lhes os direitos.  Mulheres cobertas de negro tentavam intimidar outras mulheres.  Elas agridem Nedjima mais de uma vez e a personagem as ignora.  Algo que eu queria ter visto no filme, especialmente na cena em que um professor (Abderrahmane Boudia) é sequestrado por essas mulheres durante uma aula em francês, era ver Nedjima e suas amigas aplicando uma surra nas criaturas.  Talvez, o que eu não entenda era que essas milícias de mulheres, tal como as tias do Conto da Aia, era muito mais perigosas do que aparentavam.

    Mesmo com todo o clima ruim que permeia a película, Papicha é um filme solar e carregado de sororidade.  Há a amizade fortíssima entre Nedjima e Wassila, uma relação que é abalada pela entrada dos homens na história. As moças conhecem dois rapazes ricos, ou muito bem de vida, em uma boate.  Um deles é visivelmente machista, deixou a universidade, acredita que todas as estudantes são promíscuas (*e não sei como ele não entendeu que as duas eram universitárias, pode ter sido problema com a legendagem*), acha que Nedjima é feminista demais por recusar-se a fazer o que é certo, se cobrir.  Esse sujeito se torna namorado de Wassila e abala a relação entre as amigas.  


    Samira recebe todo o suporte das amigas.
    Abala, mas não destrói, porque, pelo menos nesse filme, os laços entre as mulheres são mais fortes que os laços com os homens.  Mesmo Samira, a colega de quarto religiosa, prefere apoiar Nedjima do que agir contra ela.  Quando Samira é introduzida, parece que ela será a traidora, mas não é, no entanto, a história dela, que visa reforçar a esperança no final do filme, parece cheia de inconsistências.

    Samira quer estudar, terminar o seu curso, porém, seu irmão, que é o responsável por ela, arruma-lhe um casamento.  Ela sabe que ao se casar terá que largar os estudos.  Lendo os relatos sobre a Argélia para escrever o texto, encontrei essa questão.  A educação superior é uma forma de escape para um casamento precoce e como muitos homens largam os estudos para trabalhar (*caso do namorado de Wassila*), ou vão embora do país (*volto a isso daqui a pouco*), as mulheres veem as faculdades como um espaço de sociabilidade feminina.  O casamento, quando aparece citado no filme, é descrito como uma forma de prisão e escravidão para as mulheres.


    Nedjima se surpreende, mas
    não se deixa abater, ou dominar.
    O problema, e isso é uma forma de criticar a hipocrisia religiosa, é Samira que acaba tendo relações sexuais com um colega de faculdade que prometeu casar com ela.  Em tempo, além dos muros altos e fortificados para "proteger" a virtude das alunas, bromo era colocado no leite do refeitório.  O componente serve, entre outras coisas, para reduzir a libido das moças.  Nedjima e Wassila sempre recusam e Samira bebia o leite das duas.  Enfim, mas vai que Samira foi violentada e, não, simplesmente enganada?

    O fato é que as moças todas apoiam Samira, Kahina, a aparentemente mais  velha e experiente do grupo, é chamada para arranjar um ginecologista.  Aqui, a meu ver, o filme realmente pecou.  Pensei que iria discutir aborto, ainda que Samira o recusasse.  Não há discussão, nem é mostrada a consulta.  Nedjima entra em contato com o noivo de Samira... Gente, nunca, nunquinha, o sujeito iria aceitar a noiva grávida.  Ela seria morta.  Como Nedjima podia não saber disso? Samira não é morta.  Sei qual a função da sobrevivência dela, sei que o objetivo é reforçar a sororidade e as cenas finais dela com Nedjima e a mãe da protagonista são lindas, mas, enfim, roubou-se parte do realismo do filme.


    Elas amam seu país, mas ele é um lugar muito perigoso.
    Falando de Kahina, a amiga cujo sonho era ir para o Canadá, procurando informações sobre o elenco do filme no Google comecei a ser direcionada para páginas com artigos científicos e afins. Motivo?  Zahra Manel Doumandji é, além de atriz, cientista.  Ela estuda nanopartículas em seu doutorado.  Ah, mas não é só isso, ela é quadrinista, também.  Uau!  E o mais legal foi que ao comentar isso no Twitter, a própria diretora do filme retuitou meu comentário e, depois, me deu uma informação que eu precisava para a resenha. ☺️

    Falando do namorado de Nedjima,  que eu não consegui saber se era Mehdi (Yasin Houicha) ou Karim (Marwan Zeghbib), desculpem, ele parece moderno e compreensivo, com certeza, estava apaixonado por ela, mas conforme o filme progride, ele se revela.  Logo no início, os dois rapazes, que parecem modernos por fora, como muitos muçulmanos aparentam antes de casar (*basta assistir o canal da Danny Boggione*), se espantam quando Nedjima diz que quer ficar em seu país.  O rapaz que passa a namorar Nedjima é estudante de arquitetura, mas sua mãe acha melhor que ele vá para a França enquanto tem tempo.


    A cena dos cartazes se repete ao longo do filme.
    Sim, as mães tem muita influência sobre os filhos em países Árabe-Muçulmanos e ela, a mãe do rapaz, não estava errada, longe disso, a guerra civil argelina não era brincadeira, não.  Ele pede Nedjima em casamento e começa a projetar, sem esperar pelo "sim", toda a vida do casal.  Que garota não iria querer trocar a Argélia pela França?  Nedjima sobe logo o tom (*esta é uma característica da personagem*) e pergunta o que ela vai fazer na França.  "Vou ser sua empregada?"  Já escrevi, mas repito, casamento nunca é apresentado como algo positivo pelas mulheres nesse filme.

    O rapaz fica indignado, afinal, ele estava oferecendo para a namorada uma nova vida, segura e até confortável, na Europa.  O fato, e isso encontrei em artigos que li para escrever a resenha, é que os homens partem, as mulheres ficam.  Elas ficam, porque suas famílias não permitem que tenham uma vida independente.  Elas ficam, porque amam seus parentes e não querem deixá-los para trás.  Elas ficam, porque se você vai pagar para alguém ir para a Europa, Canadá, ou Estados Unidos, que seja o filho homem.  Nedjima fica pro amor à mãe e à pátria, e porque é teimosa e quer vencer os islamistas pelo cansaço.


    Sempre que pode, Nedjima está desenhando.
    Há outros dois homens com falas e nomes no filme, é curioso, porque trata-se de um filme feminista sobre um país no qual mulheres e homens são bastante segregados, então, o filme é delas, não deles.  Mas já temos muitos filmes sobre homens, não é mesmo? O porteiro, Mokhtar (Samir El Hakim), que assedia Nedjima e quer mais que o suborno que ela lhe dá para que ela e Wassila possam entrar e sair da faculdade nos horários proibidos.  Ele tem várias cenas.  

    O outro é o dono da loja de tecidos, ele é religioso, ele sempre admoesta Nedjima de que precisa aceitar as novas regras e, ao mesmo tempo, ele me parece lascivo, sempre olhando com desejo para a moça.  No início, a loja é alegre e cheia de tecidos de texturas e cores variadas.  Quando Nedjima visita a loja pela última vez, tudo foi reduzido à cores escuras e/ou neutras - preto, cinza, creme, verde escuro etc. - vários modelos de hijab estão no mostruário e o dono diz que são importados dos Emirados Árabes, são confortáveis e eliminam o suor.  Que bênção, não é?  

    Na sua primeira aparição, Samira
     parece ser uma personagem antipática.
    Ainda assim, no fundo da loja, escondidos, estão os tecidos que a moça deseja.  Os comerciantes também precisam se adequar aos novos tempos.  Havia atentados contra videolocadoras e outros espaços que pudessem ser vistos como imorais.  Melhor não arriscar, vai saber?  Mas algo que me incomodou, mas que combina com a personalidade de Nedjima é que ela contou para todo mundo do seu desfile, quando e onde seria.  Conheço gente muito possa loca, muito mesmo, mas é difícil imaginar que alguém pudesse se arriscar tanto em um ambiente tão violento.

    Enfim, escrevi muito mesmo, vamos tentar fechar o texto.  O filme cumpre a Bechdel Rule, o filme transborda sororidade (*a cena da praia, a do jogo de futebol das meninas, o apoio à Samira, a preparação para o desfile etc.*) e feminismo.  O filme está em consonância com tudo o que li (*e linkei*) nessa resenha sobre a Argélia da época.  


    Basta que você se cubra... sei... sei... 
    A diretora do filme, que interagiu comigo no Twitter, é filha de pai argelino, nasceu na URSS, provavelmente, porque ele tinha se exilado, mas passou a adolescência na Argélia. Ela queria falar do horror, mas, também, da luta das mulheres e de esperança.  Agora, o caso de Samira me pareceu irreal demais e a diretora fa faculdade (Nadia Kaci) aceitar fazer o desfile foi, no mínimo, temerário, porque os altos muros da universidade foram feitos para prender as alunas, não, para protegê-las dos islamistas.

    O que mais preciso dizer?  O filme mostra as condições difíceis do país à época.  Eletricidade, água, mesmo comida eram racionados.  Volta e meia, as alunas ficam no escuro.  Isso aumenta a tensão, porque a gente já imagina que vai sair algum barbudo alucinado de um canto qualquer para cometer uma violência.  Hoje, a Argélia vive ainda uma situação de certa instabilidade e as mulheres continuam lutando para não perder mais direitos, ou para ganhar alguma coisa.


    Essa cena do jogo de futebol, lembrou-me de O Clone.  
    Nas matérias recentes que achei, vemos mulheres se manifestando nas ruas.  Todas usam véu. Em uma delas, há uma entrevista com a primeira motorista de ônibus de Argel, a mulher diz que nunca teve problemas, porque, afinal, ela usa véu.  Nos cartazes que os islamistas colam no filme sempre se lia a ameaça travestida de conselho "Irmã, sua imagem é valiosa para nós, cuide dela ou nós cuidaremos".  Funcionou, ao que parece, com boa parte das mulheres.  Ainda assim, há casos de violência. 


    Entrevista com as atrizes.  Tem legendas em francês.

    Tropecei várias vezes na história de uma moça que estava modestamente vestida e praticando corrida.  Foi atacada por um homem que quase a matou e gritava que mulheres não deveriam sair de casa, nem praticar esportes.  A resposta da sociedade foi o apoio à moça e protestos, ms, também, o conselho de que mulheres não praticassem exercícios em público sozinhas.  Você não precisa colocar alguém por trás de muros para aprisionar essa pessoa.  E, bem, se você tiver estômago, clique aqui para ver a lista dos massacres de civis durante a guerra civil argelina.

    Concluindo, Papicha tem problemas, mas tem muito mais qualidades que a balança lhe é totalmente favorável.  O filme competiu no último Festival de Cannes na mostra Un Certain Regard, quem levou o prêmio foi o filme brasileiro A Vida Invisível.  Espero que o nosso filme seja realmente muito bom, porque estou plenamente convencida das qualidades de Papicha.  O filme é uma declaração de amor à Argélia, é um grito pela liberdade das mulheres, é um testemunho de tempos sombrios.  
    As quatro atrizes principais e a diretora.
    O filme não é um documento histórico sobre a Guerra Civil, mas é um trabalho de memória sobre aquele momento sombrio sob uma perspectiva feminina e feminista, mas, também, de uma classe social, intelectuais de classe média com hábitos bem ocidentalizados.  E funciona, funciona muito bem.  Agora, não nego que, nos últimos tempos, ando tão temerosa que posso imaginar um futuro Brasil nas mãos de milícias  e traficantes, que queiram controlar nossos corpos e vidas.  Isso, aliás, já acontece em alguns lugares do Rio de Janeiro e, sim, os primeiros alvos são as mulheres, esses seres incômodos, que precisam ser disciplinados.

    sábado, 9 de novembro de 2019

    Uma modelo que não é alta o suficiente e um aspirante à estilista que luta contra a pobreza são as estrelas de um anime que está para estrear


    Runway de Waratte  (ランウェイで笑って), Smile on the Runway, de Kotoba Inoya, é publicado na Shounen Magazine e tem 13 volumes até o momento.  A série é muito elogiada e foi indicada ao 11º Manga Taishou Awards (2018).  Quel é a história da série?  Vamos ao resumo:


    Chiyuki Fujito é uma aspirante a modelo, cujo sonho é participar da Paris Fashion Week; no entanto, ela não tem a altura adequada para ser considerada até para os shows mais simples de modelagem. Da mesma forma, Ikuto Tsumura é um estudante pobre do ensino médio que quer criar roupas, mas decidiu abandonar o sonho de fazer a faculdade e ingressar diretamente na força de trabalho para sustentar sua família.  Quando os dois caminhos se cruzam, eles chegam à conclusão de que, por mais difícil que pareça, farão o que puderem para alcançar seus objetivos e provar que as circunstâncias de uma pessoa não determinam seu curso na vida. E assim começam as duas viagens, destinadas a se encontrar novamente na pista.

    Olhando uma página sobre a série, descobri a altura da protagonista: 1,58 m.  Realmente, é muito pouco para uma modelo de passarela.  Esse plot me lembrou de Walkin' Butterfly (ウォーキン・バタフライ), a diferença, claro, é que a protagonista era uma moça alta demais e discriminada por isso, até que descobre sua vocação, mas, claro, uma modelo não precisa somete ser alta, ela precisa aprender os segredos da profissão e isso exige sacrifício.  


    A série estreia em Runway de Waratte, as haverá uma exibição especial do primeiro capítulo, ou dos primeiros episódios, não entendi bem, em 14 de dezembro, segundo o Comic Natalie. Aí embaixo estão os vídeos lançados até o momento.  Parece interessante, senti vontade de assistir e tem bastante coisa em scanlation até o momento.

       

    sexta-feira, 8 de novembro de 2019

    Escolas japonesas estão repensando suas regras e não estamos falando somente de cabelo


    O jornal Japan Times trouxe uma matéria longa explicando que em várias cidades japonesas os conselhos de educação estão repensando aquilo que estão sendo chamadas de "regras negras" (black kōsoku).  Sim, em agosto fiz um post comentando as discussões para que abolissem as regras mantidas em algumas escolas que obrigam os alunos e alunas a pintarem o cabelo de preto caso sua cor natural fosse mais clara.  Cor natural, não estou falando de proibições de tingir o cabelo.

    Segundo o JT, algumas das regras comuns nas escolas japonesas desrespeitam os direitos humanos dos estudantes com o objetivo de promover a disciplina e conformidade social.  Entre as regras citadas estão a obrigação da roupa de baixo das meninas ser branca (*e quem conhece mangá/anime erótico sabe que existe um fetiche quanto a isso*), comunicar com muita antecedência à escola para viajar, pedir permissão para participar de qualquer assembleia (*que normalmente é interpretada como reunião política*) fora do horário escolar (*fora do horário escolar*).  A matéria fala da questão de obrigar as meninas a passarem frio por conta de regras escolares.  Enfim, isso é somente a ponta do iceberg.  


    Tente somente imaginar que professores, mulheres, espero, mas, ainda assim, é ofensivo, tem o direito de inspecionar a roupa íntima das meninas.  A cor de suas calcinhas e sutiãs.  Triste.  Agora, essa matéria me fez lembrar que quando eu estava no colégio (*colegial, 2º graus, ensino médio, enfim*) as meninas do Instituto de Educação da Tijuca, Rio de Janeiro, fizeram um protesto, porque estavam exigindo que elas usassem sutiãs brancos, ou de cor neutra.  Lembro da foto de uma menina com sutiã vermelho por fora da blusa junto com as colegas se manifestando.  Sim, essas coisas aconteceram por aqui, também.

    Todas essas possíveis mudanças foram impulsionadas pelo caso, que comentei aqui, da menina que tinha cabelo castanho claro natural e foi pressionada a tingir o cabelo, mesmo com a mãe assinando o documento padrão atestando o fato, e sofreu assédio dos professores ao longo de todo o colegial.  Ela foi excluída de viagens da escola, um professor chegou a lhe dizer que por ser filha de "mãe solteira" ela queria aparecer.  A Prefeitura de Osaka perdeu o processo e teve que indenizar a menina e sua mãe.  Doeu no bolso e isso acendeu a luz vermelha em todo o país.


    Mas a matéria faz um histórico dessas regras mais duras e isso é interessante para romper o discurso do "sempre foi assim".  Não foi.  Segundo o Japan Times, o endurecimento das regras escolares começou no final dos anos 1980 por conta do aumento da delinquência juvenil e se materializaram nos anos 1990.  O objetivo dessas reformas seria manter a disciplina eliminando os excessos das chamadas black kōsoku.  Tomara que seja assim.  Amém!