quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Para quem quiser o meu livro





Encomendei mais 30 exemplares do livro que organizei junto com o prof.  Amaro. Lembra dele? Tem post aqui. Para quem quiser, o preço do livro com o frete (*mando o código de rastreio para você*) é 50 reais.  Se estiver interessado/a, envie um e-mail para mim, com o título do livro (Representações do Feminino nas Histórias em Quadrinhos), e eu lhe passo meus dados de depósito.  Após a confirmação, isto é, envio do comprovante por e-mail ou outra forma como Facebook, Whatsapp, whatever, mando o livro para você.  Poderia passar os dados de depósito direto, mas vai que eu não tenho mais livros para vender?  E, sim, um dia escreverei um livro solo, só não sei quando será isso... 

sábado, 24 de setembro de 2016

Maurício de Sousa apóia a campanha #HeForShe


O link do Estadão colocou no título que a Mônica, a personagem, apóia a campanha #HeForShe da ONU Mulheres, um um esforço global para envolver homens e meninos na luta dos direitos iguais das mulheres e meninas. Afinal, um mundo com mais igualdade de gêneros é um mundo melhor para todos.  No entanto, a coisa é melhor ainda, porque é Maurício de Sousa, o criador do universo da turma da Mônica, que se posiciona a favor da igualdade de gênero.  No vídeo que vocês podem ver aí embaixo, ele define muito bem, trata-se de uma questão de direitos humanos.


A campanha #HeforShe tem como sua principal embaixadora a atriz Emma Watson, famosa por interpretar a personagem Hermione de Harry Potter.  A campanha foi lançada em setembro de 2014 e o objetivo no Brasil seria conseguir um total de 100 mil assinaturas de homens.  Acredito que o alvo ainda não tenha sido atingido.  Daí, ter um Maurício de Sousa participando é muito importante.  Um olhadinha nos comentários - todos de homens - à matéria serve para reforçar a necessidade.  O site em português do #HeForShe é este aqui.

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Algumas palavras sobre a tal reforma do Ensino Médio


Sei que é bem off-topic, mas eu sou professora, eu leciono para o Ensino Médio, me preocupo com educação e tenho uma filhinha pequena aqui para zelar.  Preciso escrever, então.  Ontem o novo governo, aquele cuja plataforma não foi votada, mas que está sendo executada, apresentou a sua proposta de mudanças no Ensino Médio.  Proposta é bondade, foi uma medida provisória, um cumpra-se.  O texto na íntegra pode ser lido aqui.

Me senti obrigada a escrever por ter visto gente postando o vídeo de campanha onde a Dilma fala em tirar Sociologia e Filosofia do Ensino Médio, quando ela se referiu à sobrecarga curricular deste segmento do ensino básico. Ela falou, tomou pedrada, ficou na dela e estava rolando a discussão com a sociedade da base curricular comum. Discussão, vejam bem. Temer assumiu e desceu uma canetada. Simples assim. Percebem a diferença?  a forma de fazer as coisas.  Pior ainda, quando vemos este "perguntas e respostas" que saiu no Estadão, a coisa não está sequer definida, está alinhavada, mas é para cumprir.  Professores e, principalmente, alunos e alunas que se virem.  E quais matérias rodaram?  Sociologia, Filosofia, Artes e Educação Física!  Esta última foi uma surpresa, para mim, e nem esperaram a lembrança das Olimpíadas esfriar em nossa cabeça.


Eu fiz o ensino médio entre 1990 e 1992. Na época, vigoravam as diretrizes do tempo do regime militar que obrigavam as escolas a inserirem pelo menos uma disciplina de formação profissional.   A maioria das escolas colocava ou uma matéria genérica  (Técnicas Comerciais, Economia Doméstica, Técnicas Industriais, Laboratório etc.) e iam tocando, mas o comum mesmo é que nas escolas públicas e particulares para as classes trabalhadoras houvesse ensino técnico no 2º  Grau, antigo nome do Ensino Médio.  Você com 14, 15, 16 anos sendo convocado a decidir seu futuro, porque, para muitos, era ali a decisão.  Vai fazer o que?  Enfermagem?  Normal?  Eletrônica?  Processamento de Dados?  Administração?  Técnico de Laboratório?  Química?  Educação Física?  Científico era coisa de elite ou de gente que não se preocupava com o futuro dos filhos e filhas... E havia as pressões de gênero, claro... Menina fazendo Eletrônica?  Absurdo!  Garoto na Enfermagem?  É bicha, com certeza!

Olha, eu não tive Sociologia, nem Filosofia, no Ensino Médio. Artes, só na quinta e sexta-série (*6º e 7º ano*) e olhe lá.  Queria ter tido, talvez tivesse chegado na universidade em melhores condições, assim como meus colegas que vieram de colégios particulares de elite, ou do Pedro II. No final do meu primeiro ano, que na maioria das escolas particulares "para pobre"  era chamado de "formação geral", meu maior medo era não ver nunca mais Química, Literatura e outras disciplinas e ser colocada em um curso técnico (Formação de Professores, era meu destino desde a infância) que me formataria para o mercado de trabalho. Meu pai, e eu não o culpo, ele era pragmático, sabia das necessidades que passava para nos dar uma "boa educação", insistia nisso. "Professora sempre vai ter trabalho. Depois, você estuda o que quiser." Universidade? Que é isso mesmo? Ninguém na minha família próxima tinha feito mesmo... Em quem me mirar?


Alguns acidentes de percurso acabaram me fazendo ir parar no Científico. Meus pais, meu pai em especial, muito preocupados com o onde eu iria trabalhar depois. Enfim, as coisas acabaram saindo melhor do que eu poderia ter esperado. Se eu não tivesse ido parar no meu segundo ano em uma escola mais elitista, eu teria ficado para trás.  Teria, sim.  Ou teria penado muito, como meu irmão que fez curso técnico de Desenho Mecânico e nunca trabalhou com isso.  Mas foi sorte, acidente, ou intervenção divina. Escolham aí. Para a maioria dos meninos e meninas deste país, queria algo melhor e não pior do que eu tive.

Sei que há muito adolescente ingênuo comemorando, mas matéria optativa no Ensino Médio seria a criatura poder escolher um aprofundamento em cálculo, em algum tópico de literatura, cinema, ou introdução à arqueologia. Optativa não pode ser matéria fundamental para a formação geral de uma pessoa. A função da escola é abrir horizontes, formar um cidadão culto que possa se virar bem na maioria dos assuntos e círculos, não bitolá-lo.   


Com essa história de áreas, vai ter muito pai e mãe escolhendo por seus filhos, como eu vi acontecer quando lecionei no curso Normal.  Em pleno ano 2000, meninas obrigadas a fazer formação de professores, porque, na Baixada Fluminense, muita gente, mesmo anos depois, continuava pensando como meu pai, ou que eram obrigadas a concretizar sonhos frustrados das mães.  Ela não pode fazer Normal, a filha vai fazer.  Simples assim.  Humanas?  Que isso, meu filho!  Isso não dá dinheiro! Vai fazer exatas!  E há ainda outros abacaxis, como a semestralidade e o ensino integral, mas deixo isso para outro dia...

A educação no Brasil precisa ser reformada?  Sim.  Há sérios problemas?  Sim.  Os resultados dos testes internacionais apontam para isso, fora os outros indícios.  Só que o buraco é mais embaixo.  Conto um causo.  Estava em uma reunião geral e foi comentado que os alunos e alunas que chegam para entrar no terceiro ano sempre tiram nota baixa em matemática, ou seja, não poderiam entrar na série.  Então, o coordenador geral de matemática pediu a palavra e disse "não pensem que o caso é mandar voltar para o primeiro o segundo ano, o problema deles é de matemática básica".  


Enfim, sem entrar em questões político ideológicas, no tal do "notório saber", nem o fato de eu saber que vão dar dinheiro público para escolas privadas, porque este é o plano, me sinto muito triste com tudo isso.  Triste por mim, apesar de, pelo menos na proposta que está dada, minha disciplina (História) estar preservada, mas pelo futuro.  

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Comentando o livro "Novela: A Obra Aberta e seus Problemas"



Ontem, enquanto esperava horas intermináveis no pronto-socorro de um hospital, terminei de ler o livro Novela: A Obra Aberta e seus Problemas, de Fábio Costa.  Gosto de novelas, ultimamente, mais de ler sobre novelas do que de assisti-las e quando vi o livro sendo comentado pelo crítico Nilson Xavier no Twitter, decidi que precisava ler o material. Foi difícil, a distribuição da Giostri, a editora, não parece ser das melhores, mas, depois de um bom tempo encomendado na Livraria Cultura, ele chegou.

A obra como um todo é rica em informações sobre as telenovelas brasileiras desde que se tornaram diárias, em 1963, com 2-5499 Ocupado.  O autor, Fábio Costa, jornalista e historiador, fez um extenso trabalho de pesquisa, isso não há dúvida.  Sua bibliografia reúne muitos livros, alguns famosos (Nossa Senhora das Oito que é sobre Janete Clair, por exemplo), outros acadêmicos (A Negação do Brasil, é um deles), mas acredito que o grosso das informações vieram dos periódicos mesmo, que devem ter sido explorados à exaustão.  

Os Gigantes, um dos casos mais radicais de intervenção em novelas.
Uso esta palavra – exaustão – não é à toa, ela se enquadra perfeitamente ao trabalho feito por Costa, pois ao dividir seus capítulos por temas, ele tenta exauri-los e oferecer o máximo de informações sobre o máximo de obras.  Na maioria das vezes, o resultado é satisfatório, em outros casos, nem tanto.  Além do prefácio de Lauro César Muniz, cada capítulo é aberto com a fala de um novelista e traz como subtítulo o nome de uma novela famosa que se relaciona com o tema.  Exemplo, o capítulo 2, que é sobre a Censura durante a Ditadura Militar, tem como subtítulo “Acorrentados”, novela de Janete Clair produzida em 1969, na sua fase antes da rede Globo.

Cada um dos capítulos tem uma introdução rápida, que poderia ter sido mais estendida, porque eu sei que, ali, o autor poderia desenvolver melhor as suas próprias idéias, e os exemplos.  Nesse sentido, Obra Aberta se mostra um livro de curiosidades, um almanaque mesmo, que seria mais interessantes se tivesse algumas fotos.  O livro não tem ilustrações. Com oito capítulos, cada um aborda um aspecto do drama vivido na feitura de uma novela: desacertos entre autor e diretor; censura; afastamento de atores ou atrizes (*doença, gravidez, morte); problemas com elenco (*escalação para outras obras, desentendimentos com autor/diretor, demissão etc.*); desentendimentos gerados por estrelismos de atores/atrizes ou do autor; intervenções por necessidades de audiência ou dramatúrgicas; a necessidade de esticar  ou encurtar uma novela; aquilo que não coube antes entrou aqui (*^_^*).

Whalter Negrão, o salvador de novelas.

Navegar pelo livro é muito interessante e, ainda que alguns capítulos possam parecer cansativos pelo excesso de exemplos, é uma leitura satisfatória para quem sem interessa pela história das telenovelas e, pode, também, servir de ponto de partida para quem esteja pensando em pesquisa-las academicamente.  Por exemplo, sobre censura, papel deste ou daquela novelista, motivos principais de intervenção etc.  Realmente foi uma surpresa ver o quanto Walther Negrão foi mobilizado ao longo de décadas para consertar novelas vistas como problemáticas.  Lendo o livro, perdi a conta.

Incrível, também, ver como era freqüente que atores e atrizes mudassem de emissora e largassem uma novela até o início dos anos 1980.  Imagino que multas contratuais altíssimas foram criadas para resolver um problema.  Pior ainda, se eram protagonistas.  Interessante, também, foi descobrir que na Tupi era comum que muitos autores fossem também os diretores de suas novelas e que pelo menos um deles, Geraldo Vietri, parece não ter se adaptado na Globo por não ser o diretor de suas novelas.  Seria muito bom, dadas as repetições de certos nomes e novelas, que houvesse um índice remissivo ao fim do volume, mas sei que é raro livros brasileiros com esse tipo de recurso tão útil.  Não é, portanto, uma crítica particular para Novela: Obra Aberta.  Agora, mais alguns comentários sobre o livro em si: 

Vera Fischer e Felipe Camargo, mãe e filho em Mandala.
Quando o autor cria um capítulo sobre Censura, não convém acreditar que ela vem somente do governo militar, ou da lei de censura que sobreviveu ainda durante parte do Governo Sarney e atingiu, por exemplo, a novela Mandala, da qual me lembro bem.  Ela se baseava no mito mais conhecido de Édipo e gerou-se forte reação ao romance entre mãe e filho.  A censura pode partir da audiência, dos grupos de discussão, das cartas enviadas.

Um dos casos mais emblemáticos disso, foi o destino de um dos primeiros casais interraciais das nossas telenovelas.  Na novela Passo dos Ventos (1968/69) de Janete Clair, havia um romance entre um negro e uma branca.  A novela se passava no Haiti do século XIX ou XVIII.  Era ainda o tempo das novelas distantes da nossa realidade.  Enfim, foram as cartas dos leitores que separaram o casal, cada um seguiu caminho com “outro amor”.  O caso já me era conhecido, porque é citado no livro Nossa Senhora das Oito e é a maior omissão da tese do Joel Zito Araújo, A Negação do Brasil, porque, bem, sendo um trabalho sobre “o negro” na telenovela e falando basicamente de Globo, ele esquece este caso emblemático.

Milton Gonçalves em Pecado Capital.
Aliás, o autor, Fábio Costa, deveria tentar um trabalho temático, porque em alguns momentos percebe-se que ele poderia fazer discussões interessantes, como quando ele problematiza – algo que não fez em nenhum outro lugar – os motivos da rejeição à personagem Dr. Percival, interpretado por Milton Gonçalves, que pediu para Janete Clair que lhe desse a possibilidade de interpretar alguém que fugisse dos estereótipos impostos aos atores negros.  Culto, o Dr. Percival acaba flertando com a irmã de uma paciente, que é branca e casada.  

Outros livros, como os que eu citei no parágrafo acima, falaram que a censura não gostou do casal, porque era tabu – e os exemplos neste caso são muitos – a representação do adultério em novelas.  A censura reclamava, impunha limites, a igreja católica dava em cima e muitos fãs também se manifestavam contra.  Enfim, o romance não vingou. Costa não leva em consideração a questão do adultério, a meu ver o determinante, e levanta um ponto interessante, não teriam rejeitado o romance por não ser um casal pobre.  Daí, ele cita outros casais interraciais, todos com homem negro, mulher branca, anteriores.  O traço comum é que eram casais pobres.  Será que isso pesou?  Não sei, mas seria algo a se discutir com base nas cartas recebidas, se elas ainda existirem.

Lucélia Santos e Edwin Luisi em Escrava Isaura
Falando em pontos falhos.  O autor repetidamente deixa de explicar coisas ao largar frases que terminam com “não funcionou/não deu certo por vários motivos”.  Ora, quais  motivos?  Ainda que elucubrações do autor, seria importante lê-las, ou que fosse mudada a estrutura da frase.  Outro ponto um tanto decepcionante se refere a citação, mais que conhecida, da censura à palavra “escravo” na novela Escrava Isaura.  Sim, podem rir.  O autor, Gilberto Braga, já falou disso várias vezes em entrevista, comentei inclusive o livro de entrevistas A Seguir Cenas do Próximo Capítulo..., aqui no blog, e colocou em sua minissérie Anos Rebeldes a tal situação surreal usando uma das personagens que era novelista.  Fábio Costa fala da censura e não diz que na cabeça do censor, falar de escravidão era algo feio, que deveria ficar no passado, e que poderia produzir idéias subversivas na cabeça das pessoas, se elas associassem escravo com operário, exploração e por aí vai.  Era preciso explicar, porque a piada é boa.  

Aliás, as trapalhadas da censura são um caso sério.  O autor citou um caso obscuro de uma novela de 1965, Ainda Resta uma Esperança, na qual a censura vetou o nome original da novela, As Desquitadas, interveio de muitas formas, mas deixou passar uma menção clara à aborto. Segundo Costa, uma das protagonistas interrompe a gravidez, ou isso é sugerido em diálogo, porque estava se separando e não queria ter que criar o filho do ex-marido.  Isso seria muito forte hoje, aliás, não pensem que estou falando que há evolução de usos e costumes, mas a questão era tabu e continua sendo, só que, agora, com uma militância mais agressiva, imagina em 1965?  

Janete Clair, "Nossa Senhora das Oito"
As loucuras da censura, aliás, deveriam ser um inferno para os autores. Cenas cortadas, capítulos desfigurados, novelas inteiras embargadas, Janete Clair convocada para criar uma novela que pudesse substituir às pressas uma que foi proibida.  Não pode divórcio, não pode adultério, não pode gravidez na adolescência, bandido popular tem que morrer... Ainda assim, Dias Gomes tentava driblar de uma forma espetacular: uma cena cortada por um censor, reaparecia em outro capítulo. Vai que o censor não é o mesmo?  Vai que passa?  E, às vezes, passava mesmo.

Agora, censuras do regime, a gente até entende.  Mas e as rejeições do público?  O caso mais gritante é o de Torre de Babel, de Sílvio de Abreu.  Na explosão do shopping foram embora o casal de lésbicas, a velha ranzinza cadeirante, o jovem drogado, o pai que transou com a esposa do filho... Muita gente indesejável!  E a pressão foi do público.  Eu vi a sequência e lembro em detalhes.  Agora, o autor fala bastante de Torre de Babel, mas esqueceu que entre as remodelações para tornar a novela mais aprazível houve a transformação do ferro-velho, lugar soturno, sujo, feio e realista, em um bar temático colorido.  Aliás, foi isso que fizeram, também, com a cidade de A Padroeira, que o autor cita nas intervenções, porque foi caso notório, mas não detalha como em outros casos.  Aliás, em alguns momentos o livro é excessivamente detalhista, em outros, passa batido pelos casos.

Torre de Babel e sua explosão higienista.
O autor comete um erro ao incluir Ana Raio e Zé Trovão, da Rede Manchete, no capítulo das novelas que sofreram intervenções, afinal, ele não cita quais seriam e eu, que fui obrigada a assistir a novela pelo bem da unidade familiar, sei que apesar de chata, de não dar o audiência que a emissora precisava, e com história rala, ela seguiu sem problemas até o seu fim.  Na verdade, Ana Raio e Zé Trovão não deveria aparecer no livro.  Agora, outras novelas que sofreram intervenções, ele ignorou, isso sem falar de Desejo Proibido, de Whalter Negrão, que foi encurtada e nem citada está.
  
Em O Direito de Amar, de Whalter Negrão, uma das minhas novelas favoritas, o vilão, o terrível Sr. de Montserrat (Carlos Vereza) caiu no gosto popular e ganhou um monte de fãs que o queriam com a mocinha, Rosália (Glória Pires), que havia sido obrigada a casar com ele para salvar o pai de suas dívidas.  A ordem foi aumentar as vilanias da personagem para tentar reverter a situação, afinal, tínhamos que torcer pelo mocinho, Adriano (Lauro Corona), que era o filho do tal vilão.  Já em Sinha Moça, a primeira versão, Benedito Ruy Barbosa queria Giulia Gam, uma jovem atriz em ascensão, como protagonista, mas a Globo lhe impôs Lucélia Santos.  Isso está no livro A Seguir Cenas do Próximo Capítulo, que consta na bibliografia do autor.  Por qual motivo omitir algo que mudou, efetivamente, a cara de uma novela inteira?

Sem Lucélia Santos, Sinhá moça seria outra novela.
A outra omissão, eu tempero com elogios.  A parte em que o autor fala de Os Gigantes, que periga ser uma das novelas mais marcantes da TV brasileira, afinal, fala de eutanásia, homossexualidade (*aqui a censura vetou e a coisa foi abortada*) e termina com a mocinha e suicidando, foi uma das melhores do livro.  O autor, por exemplo, fala de todos os problemas de Lauro César Muniz com a Globo, das intervenções em sua novela, que depois o autor admitiu que ele se excedeu, também.  Foi demitido, aliás.  Fábio Costa esqueceu de falar de algo importante aqui, Benedito Ruy Barbosa foi convocado para terminar a novela, se recusou e demitiu-se em solidariedade ao colega.  Está em A Seguir Cenas do Próximo Capítulo, que tem entrevistas dos dois.  A novela foi terminada pela estreante Maria Adelaide Amaral e por Walter George Durst. 

O fato é que ler um livro como Novela: Obra Aberta só me faz pensar no quanto nossas novelas já foram criativas, especialmente, nos anos 1970.  Do quanto ousaram, mesmo driblando a censura e outras resistências.  Do quanto, em muitos aspectos, somos mais conservadores hoje, seja o público, seja as emissoras.  E, algo importante a escrever, se este livro saísse uns seis meses depois, seria incluída a trágica morte de Domingos Montagner, protagonista da atual novela das nove da Globo, Velho Chico.  Enfim, para quem se interessa por telenovela brasileira, Novela: Obra Aberta e Seus Problemas pode ser uma leitura interessante.  Tem problemas, mas tem grandes qualidades, também.  Talvez seja um ensaio para outro livro melhor do autor, quem sabe?  Para quem se interessar, o preço de capa é 50 reais.  É possível encomendar nas grades livrarias.

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Como não amar a nova governadora de Tokyo



Eu posso estar exagerando, mas não consigo deixar de admirar e até amar a primeira governadora de Tokyo, Yuriko Koike.  A notícia que queria comentar diz respeito ao seu compromisso durante a campanha de aumentar o número de creches públicas da cidade.  Segundo  notícia mais completa que encontrei, a do The Japan Times, o objetivo é elevar para 17 mil os centros de atendimento infantil.  


Segundo o jornal, havia uma fila de espera de 8.466 crianças por uma vaga em creche em 1 de abril deste ano, a maior taxa entre as grandes cidades japonesas e um número 652 vezes mais alto que na mesma época do ano passado.  Em outra matéria, o próprio jornal falou desse drama.  Enfim, é uma cifra difícil... será que eu entendi errado?  De qualquer forma, imagino que como foi promessa de campanha, e a governadora disse que cumprirá todas, afinal, é o que suas eleitoras e eleitores esperam, as pessoas foram lá e cadastraram suas crianças na fila.  Qualquer pessoa sensível sabe que um dos obstáculos para que muitas mães possam entrar ou voltar ao mercado de trabalho é a falta de creches públicas.  Vale aqui, no Brasil, e vale no Japão, também.


A governadora enviou uma proposta de aumento de verbas da pasta em 12.6 bilhões de ienes para centros de assistência à primeira infância, segundo o Ministro da Saúde, Trabalho e Bem Estar Social.  A proposta será submetida à assembleia de Tokyo no dia 28 deste mês.  Segundo ela, é uma questão urgente.  Se aprovada, a verba do setor será de 110 bilhões de ienes.  A medida também propõe subsídios aos donos de imóveis, aproximadamente 82 mil (!!!!!) em toda a cidade, para que possam disponibilizá-los para serem transformados em creches.  Além disso, a proposta pretende também tentar atrair os jovens para a profissão de cuidadores em creches.


A outra proposta de campanha que ela cumpriu é abrir mão de metade de seu salário, que é de 1.46 milhões de ienes, incluindo bônus de inverno e verão, para que possam ser direcionados para a área.  Se cortado pela metade, os rendimentos anuais da governadora serão de 1.48 milhões de ienes.  Enfim, pode parecer populista, pode até ser populista, mas como não amar esta mulher?  

Duas notícias curiosas vindas do Japão


Normalmente, a imagem que o povo japonês passa para o mundo é de um povo disciplinado, organizado, cordial e adepto de altos padrões de limpeza (*matéria linda sobre essa questão aqui*).  Duas matérias do Rocket News 24 - um site japonês - aponta para o fato de que, como em qualquer país,  há exceções.  Vamos lá!



A primeira notícia é a da proibição parcial do uso do jogo Pokemon Go em um dos mais importantes parques do país, no Parque Ueno.  Segundo o RN24, as áreas do templo Kaieji e do Pavilhão  Benten estão fechadas para os jogadores, porque, em busca de monstrinhos raros, muitos passavam horas sentados em volta das atrações atrapalhando os visitantes, fora isso, contrariando a imagem que temos dos japoneses, muitos jogadores têm deixado o seu lixo (*garrafas de água, embalagens de comida, bituca de cigarros etc.*) nesses pontos históricos.  


A outra notícia tem relação com questões de gênero.  O restaurante ConTERRAZZA, em Tóquio, proibiu a entrada de homens sozinhos ou grupos de homens.  Motivo?  Eles são descorteses e, não raro, assediam as mulheres.  (*Infelizmente, a conta do Twitter com a foto da placa foi apagada, ao que parece.  Eu não tinha salvado a imagem.*)  Discriminação? Sim e não, diria que é mais um indício de como as relações de gênero são permeadas pela violência e que isso atravessa várias culturas.  O restaurante italiano está apostando que as clientes mulheres e os grupos mistos podem sustentar os negócios e, mais ainda, servir de propaganda positiva para o lugar como "aqui você, mulher, pode se sentir segura para comer sua pizza".  É triste, mas será que é irreal?

Como homenagear um mangá em alto estilo


tinha comentado que o mangá e Kochira Katsushikaku Kameari Kouenmae Hashutsujo  (こちら葛飾区亀有公園前派出所), ou Kochikame, chegou ao fim no dia 17 deste mês.  Pois bem, vários sites (*vi primeiro nno Rocket News 24*) estão postando fotos lindas da homenagem recebida pelo lendário mangá de Osamu Akimoto.





Se entendi bem, boa parte das fotos são da estação Kameari de metrô, próxima ao parque onde o fictício posto policial da série está localizado.  Há mais fotos no RN24.  Enfim, nào sei se Kochikame não aparecerá novamente, nem que em histórias especiais, nas páginas da Shounen Jump, mas o fato é que fechar uma carreira com 200 volumes e ótimas vendagens é algo a se comemorar.  Será que outro mangá shounen vai bater isso?

terça-feira, 20 de setembro de 2016

Primeiro mangá seinen de Gengoroh Tagame vai sair nos EUA


Gengoroh Tagame é um dos mestres do bara mangá.  Não sabe o que é isso?  Trata-se de mangás com temáticas gays feitos por homens para homens no Japão.  Sim, BL-Yaoi é feito por e para mulheres.  Em ambos os casos, um produto pode exceder o seu público alvo, mas é isso, pura sorte.  (*Há uma matéria detalhadíssima do amigo Diego Hatake sobre essa demografia.*)  Enfim, Tagame está publicando seu primeiro seinen, Otouto no Otto (弟の夫) na revista Gekkan Action, a mesma que publicava Orange (オレンジ).  Parece que, assim como ocorreu com Fumi Yoshinaga e Haruko Kumota, que se firmaram como autoras de BL e foram aclamadas quando decidiram produzir em outras demografias, Tegami está se saindo muito bem.


Otouto no Otto fala de família e começa quando Mike, o viúvo canadense de Ryōji, irmão de  Yaichi, que havia deixado o país, decide visitar o Japão.  Em contato com Yaichi e sua filha, Kana, Mike redescobre o sentido de família e, ao que parece, vai ficando no Japão.  Segundo li por aí, ainda não se sabe detalhes sobre a morte de Ryōji.  O mais curioso é que quem vai publicar a série nos EUA não é uma editora padrão de mangá, mas a  Pantheon Books, responsável pela publicação de Maus e Persepolis, ou seja, é um projeto que já nasce meio cult.  O título americano de Otouto no Otto será  My Brother’s Husband, segundo o ANN.