sábado, 8 de agosto de 2020

Hagio Moto lança mangá sobre Galileo Galilei

Galileo Galilei (1564-1642) foi um dos mais importantes cientistas da história ocidental e ficou conhecido tanto por suas descobertas e invenções, quanto por ter sido julgado pela Inquisição sob acusação de heresia.  Um colega me avisou no Facebook que Hagio Moto tinha produzido um mangá sobre Galileo e que ele estava disponível na Apple Store.  Na verdade, ele está disponível parcialmente e eu fui procurar no Comic Natalie informações sobre ele, porque deveria ter alguma.  E tinha, obviamente.

Enfim, parece que o mangá de Hagio Moto, que foi todo desenhado digitalmente e é colorido, faz parte de alguma promoção de aplicativos da Apple. É dito que ela desenhou usando  iPad, Apple Pencil, e um app de desenho chamado Adobe Fresco.  

Na página da Apple Store, há propaganda de aplicativos de astronomia.  Agora, no CN, há três páginas com o mangá gratuitamente, a que eu postei acima e mais duas outras (*2-3*), além de uma entrevista em duas partes com a autora (*1-2*).  O nome do mangá é Galileo no Uchuu (ガリレオの宇宙).  Hagio Moto tem experiência em mangás históricos e terminou recentemente uma série sobre a Rainha Margot (1553-1615), uma contemporânea de Galileo. Pelo que entendi do CN, o mangá não está todo lançado ainda, mas eu posso estar enganada.  

Quando foi que todo não-branco se tornou negro? Algumas reflexões sobre o racismo nosso de cada dia.

Uma coisa que me incomoda, e não é de hoje, é que todo mundo que não é socialmente branco virou negro. Veja, eu não vou entrar em disputas sobre auto-identificação.  Não estou, também, discutindo colorismo.  Não sabe o que é?  Eis a definição de um artigo sobre o tema do site Geledés "O colorismo* ou a pigmentocracia é a discriminação pela cor da pele e é muito comum em países que sofreram a colonização europeia e em países pós-escravocratas. De uma maneira simplificada, o termo quer dizer que, quanto mais pigmentada uma pessoa, mais exclusão e discriminação essa pessoa irá sofrer.".  

Colorismo é utilizado sistematicamente para dividir os oprimidos, fazer com que aqueles que tem a pela mais clara se sintam mais próximos do seu opressor (socialmente) branco do que dos negros de pela mais escura.  Existem negros de várias cores e existem pessoas que não são brancas e que não são necessariamente negras e elas podem sofrer racismo, também.  Tomei como exemplo o título da matéria do Leonardo Sakamoto.  Nesses últimos dias, vieram à público dois casos de racismo  (*Rio - São Paulo*), dois exemplos em que a cor da pele do sujeito, por acaso, dois jovens entregadores de nome Matheus, foi determinante na violência sofrida por eles.  Os dois eram negros?  Para mim, não.  Isso torna um deles branco?  De forma alguma.  Deixa de ser racismo?  Definitivamente, não.

Olha, há racismo contra indígenas, porque é repetido, nos últimos tempos ainda mais, que índio é vagabundo, é preguiçoso, indolente, para usar uma palavra que parece menos ofensiva, que tem isso no seu DNA.  Curiosamente, anos atrás discuti com uma moça do movimento negro que dizia que "índio fora da tribo era branco", porque todos os signos associados aos indígenas em nosso país eram positivos.  Não sei de qual Brasil ela falava, mas, enfim... Retornando, há racismo contra quem é visivelmente miscigenado, especialmente,  quem se enquadra no estereótipo do "nordestino que é antes de tudo um forte". Trabalhador e resistente, verdade, mas feito para as atividades braçais, porque intelectualmente não seria tão desenvolvido, e feio, indiscutivelmente feio, porque não tem os traços "finos" do branco, porque normalmente não é alto e "elegante", afinal, traz no corpo as marcas da miscigenação e da pobreza.  Pode fazer o tipo cômico em novelas, em filmes, programas como Os Trapalhões, mas para galã não serve, não em condições normais.  Chamado de cabeça chata, pau de arara, paraíba, baiano. Nada disso é elogio, são todas formas de discriminar e racializar nordestinos e seus descentes.  

Não sei as origens familiares do Matheus de São Paulo, mas eu seria muito mais propensa a apostar em uma dessas duas alternativas - indígena, ou nordestina - do que na identificação genérica de negro.  Abaixo coloquei a foto de Matheus e sua mãe, ela falou publicamente sobre a humilhação sofrida pelo filho.  Olha para eles.  Será que estaremos refletindo melhor sobre o racismo transformando todos os não-brancos em negros?  Acho que não.  O próprio agressor, que a família "provou" que é esquizofrênico, tinha um histórico interessante de atacar entregadores, pedreiros, seguranças do condomínio... Percebem o viés de classe?  De qualquer forma, ultimamente há muita gente boa defendendo essa lógica e tentando colocar judeus (*para muita gente todos os judeus são brancos, vocês sabem*) e todos os orientais  (*afinal, eles são todos iguais e se amam, provavelmente*) nesse balaio dos brancos.  Pergunte aos supremacistas brancos o que eles acham disso, perguntem aos coreanos se eles são iguais aos japoneses, pergunte aos judeus... Ah, mas esse tipo de gente nunca pergunta nada, eles montam suas teorias e tentam enquadrar a realidade nos seus esquemas de explicação do mundo.

Curiosamente, porque racismo não é monopólio dos (socialmente) brancos e é algo importante para dividir os mais fracos, quando estive em Sergipe pela primeira vez, em 1994, meus primos que se viam como brancos discriminavam os indígenas e negros.  E na minha família ainda é possível ouvir dos mais velhos "Tal pessoa é negra, mas é limpa e educada.".  Isso na mente enviesada dos que se pensam brancos nessa hierarquia de cores e traços físicos (*fenótipo*) e que nunca foram expostos aos que se veem como brancos de "verdade" (*pensem em Bacurau, ou sujeito que ofendeu o Matheus*) e tem dinheiro para afirmar seu ponto de vista, é um elogio.  

Meu pai, quando criança foi acusado de roubar o dinheiro de uma tia e apanhou muito, porque, bem, o autor da façanha só podia ser ele, afinal, era o mais preto da família.  O dinheiro foi encontrado dois dias depois dentro de um livro, minha tia-avó tinha esquecido que o colocara lá.  Meu pai nunca esqueceu, mas nunca conseguiu fazer reflexões sobre racismo para além do óbvio.  O apelido do meu pai entre os parentes do lado paterno (*meu pai e minha mãe são primos em primeiro grau*) é "Nêgo" e eu, filha de "Nêgo", sou "Neguinha".  Em alguns momentos de minha vida, sofri discriminação por ser vista como negra, mas, também, porque carrego aqueles signos associados à pobreza e que se mesclam com minhas origens nordestinas.  Abaixo: ""Ainda bem que ela nasceu clarinha".  Uma pessoa negra uma vez me disse isso falando da Júlia.  É racista?  Sem dúvida, mas eu entendo que aquela mulher deve ter passado por umas boas na vida por não ser clarinha.  Este quadro é o famoso "A Redenção de Can"."  Colocar legenda nesse novo blogger é impossível.

Eu posso ter subido vários degraus na pirâmide social em relação aos meus avós retirantes e boias frias, mas isso não vai me fazer ser reconhecida como branca.  Aliás, recentemente, perguntaram se eu era babá da minha filha em um ambiente elitizado de Brasília.  Era algo que eu esperava que acontecesse mais cedo, ou mais tarde, afinal, eu me pareço muito mais com as babás do que com as patroas.  Júlia provavelmente será reconhecida como socialmente branca NO BRASIL, eu nunca serei.  Posso alisar o cabelo, posso tentar mimetizar os comportamentos e a aparência das classes médias aburguesadas, mas tenho escrito no meu corpo as minhas origens mestiças.  Mas não me vejo como negra, não assumo esta identidade, ainda que, eventualmente, alguém possa me colocar nessa caixinha.  Eu não me importo, me dá mais material para análise, aliás.  Mas vou contar outros causos.

Houve uma professora do Colégio Militar de Brasília, muitos anos atrás, que foi discriminada por um responsável, não lembro se pai, ou mãe, porque era nordestina e a filha da criatura não entendia o que ela falava. O caldo ferveu e não terminou bem para a pessoa que ofendeu. A professora era socialmente branca, PORÉM tinha aqueles traços associados ao Nordeste, era baixinha, troncuda, parecida com muita gente da minha família pelo lado materno e com os parentes do meu marido. Enfim, havia motivos suficientes para discriminação. Convido, também, a lembarem do caso do presidente Lula, não precisa gostar dele, considerá-lo inocente, nada disso, só pensem que há forte dose de racismo e classismo na perseguição que ele sofreu e sofre. 

O fato de ser nordestino e trazer nele todas as marcas associadas à região, nunca foi esquecido pelos seus detratores.  E não adiantou se refinar, usar ternos bem cortados, ele não se tornou palatável por causa disso. Você será sempre visto como inferior e, pior, será visto como uma aberração, uma ofensa por aqueles que só tem como seu capital social a branquitude e/ou um sobrenome europeu, mas continuam nas classes menos favorecidas.  Não entendem que seu maior problema é não serem herdeiros, não o fato de não-brancos terem conseguido alguma ascensão social, ou, simplesmente, terem saído da miséria em número significativo graças ao ajuste do Plano Real e aos anos de governo petista.  Se não quiser ir até Max Weber para ler sobre essa questão, Jessé Souza tem feito livros e livros sobre o tema.  A leitura é bem acessível.

Tudo isso é racismo, também, que se mescla com classismo, ter cara de pobre torna você uma vítima em potencial da discriminação. E, no caso do entregador de São Paulo, ele era indiscutivelmente pobre e o moço (socialmente) branco e herdeiro não teve dúvida em tentar humilhá-lo. Os racismos são plurais e a questão de classe muitas vezes é determinante, especialmente, quando se trata de discriminar alguém que não seria visto como (socialmente) negro, mas que é não-branco e, portanto, inferior.  E não pensem que estou negando que um negro sempre será reconhecido como tal, que, mesmo enriquecendo, mais cedo, ou mais tarde, o racismo baterá na sua porta.  Alguns clubes de elite não aceitavam negros, e isso perdurou abertamente até os anos 1980, não por serem pobres, mas por serem negros.  Agora, fato é que o dinheiro pode agir como agente branqueador, tal e qual no livro A Vida Invisível de Eurídice Gusmão na qual um médico que era meio mulato, mas, ao ascender na vida, passou a ser visto como quase branco. 

Não basta ser educado, é preciso ser submisso.  E ouçam a música "Preto de alma Branca" se ainda não entendeu a mensagem. (*Esta seria a legenda*)  Enfim, espero que tenha deixado claro meu ponto de vista e que algumas reflexões precisam ser feitas sobre a multiplicidade do racismo, suas nuances e como o fator classe social, mesmo que seja somente o "ter cara de pobre",  tem papel em certos eventos absurdos que aconteceram nos últimos dias.  E, não, quem não vê a coisa como eu vejo não é mal intencionado, simplesmente, vê a questão de forma diferente, pode, inclusive, estar correto e eu, não.  Agora, quem sempre está errado é o racista envolvido nessas histórias horrorosas de agressão física e verbal.


sexta-feira, 7 de agosto de 2020

Ouke no Monshou entra em hiato

A edição de setembro da revista Princess trouxe a informação de que o mangá Ouke no Monshou (王家の紋章), que estreou em 1976, vai entrar em hiato devido à "circunstâncias", está desse jeito no ANN, não explicadas.  A série retornará na edição de janeiro de 2021, que sai em dezembro.  Olha, as autoras da série, Chieko Hosokawa, que sempre é creditada, e Fumin são bem idosas.  Fumin não sei quando nasceu, mas Chieko Hosokawa nasceu em 1935 e debutou em 1958.  A foto abaixo com as duas autoras (*colocar legendas com esse novo padrão Blogger ficou horrível*) é de 2016.  

Para quem não sabe nada de Ouke no Monshou, a série começa com uma adolescente rica de nome Carol, interessada pelo Egito Antigo, está no país nos dias atuais e é levada para o passado.  Lá, ela conhece o faraó Memphis, cuja tumba ela estava ajudando a escavar.  O faraó fica fascinado pela garota de olhos azuis e cabelos louros, porém, a sacerdotisa Ísis, meia irmã do faraó, a vê como obstáculo ao seu casamento com o moço.  Carol também não tem o coração desimpedido, porque ela sente um amor incestuoso pelo irmão mais velho que é muito parecido com o tal faraó.  E temos o príncipe hitita, Izmir (*já vi transliterado de outras formas e, de qualquer maneira, não é nome hitita*) que deseja tomar Carol do faraó.  No início do mangá, Carol vai e volta no tempo, depois, ela acaba ficando no passado mesmo.  Não sei se Ouke no Monshou é o primeiro mangá de garota deslocada no tempo (*não é isekai, é viagem no tempo mesmo*), mas é o modelo melhor acabado para outros que se seguiram, como Anatolia Story (天は赤い河のほとり) e Amakusa 1637.

Ouke no Monshou tem #66 volumes no momento e eu acredito que elas poderiam encerrar quando quisessem, porque o que a protagonista faz é viajar pelos vários reinos e impérios da Antiguidade e sua trama com o faraó não deve ser algo muito enrolado, não nessa altura do campeonato.  A série nunca teve animação, só uma espécia de episódio com ilustrações estáticas em 1988.  Espetáculo do Takarazuka não houve, também, mas houve um espetáculo teatral em 2016.  Muito pouco para uma série tão importante.  Recentemente, as autoras lançaram um gaiden Oukeno Monshou ZERO protagonizado pelo príncipe hitita.  A capa está acima.

quinta-feira, 6 de agosto de 2020

75 Anos da Bomba de Hiroshima

Hoje, lembramos os 75 anos da bomba de Hiroshima, um marco do século XX e um dos eventos que ajudaram a antecipar o final da 2ª Guerra (*há outras teorias mais recentes, mas, enfim...*). Foram aproximadamente 140 mil mortos no impacto, fora os feridos e aqueles que sofreriam com os efeitos da radiação ao longo dos anos.  Foram duas bombas, na verdade, uma no dia 6, a de Hiroshima, e outra em Nagasaki, no dia 9 de agosto, matando cerca de 74 mil pessoas.  Duas tragédias que poderiam ser evitadas e que precisam ser lembradas para que não se repitam mais.  E eu recomendo, para quem não leu, Gen Pés Descalços.  Tanto o anime, quanto o mangá, saíram por aqui.

Falando em tragédias, já são mais de 98 mil mortos oficiais pelo COVID-19 no Brasil.  Quase 100 mil vidas perdidas e pouquíssima comoção.  A pandemia deixa de ser destaque em telejornais, deixa de aparecer no topo dos grandes portais e idiotas comemoram o "erro" do Átila Iamarino, porque ele deu visibilidade ao uma projeção do King's College de Londres que dizia que, se nada fosse feito, teríamos 1 milhão de mortos em agosto.  Realmente, vamos comemorar os 100 mil com orgulho e logo estaremos na bomba de Hiroshima.  Lágrimas por eles?  Talvez, somente dos parentes, nós, brasileiros, valemos muito pouco, mesmo aos olhos de nossos próprios compatriotas.  O importante é que o presidente está com a consciência tranquila.

35 volumes de mangás de Suzue Miuchi ganham versão digital

Suzue Miuchi normalmente é lembrada por Glass Mask (ガラスの仮面), mas ela tinha toda uma carreira antes de sua série mais conhecida e quando ela cismou de colocar o mangá da Maya "que não era nem tão bonita, nem tão inteligente, mas tinha uma grande força de vontade" em hiato por DEZ ANOS, ela foi fazer outros mangás.  Sim, eu gosto muito de Glass Mask, mas Suzue Miuchi me dá nos nervos.
Os mangás em destaque na imagem são Ningyō no Haka (人形の墓), Majo Media (魔女メディア) e  Youki Hiden (妖鬼妃伝), esse novo padrão do blogger dificultou até para colocar legenda.  Está nojento.  Enfim, segundo o Comic Natalie, 35 volumes de histórias curtas de Suzue Miuchi foram disponibilizadas no EbookJapan e acho que são as de suspense e horror.  Se entendi bem, mais vinte quatro volumes de mangás curtos serão disponibilizados em lotes em outubro, dezembro e em fevereiro de 2021.  Para comemorar esses lanamentos, Glass Mask ficará disponível para leitura até o diz 18 de agosto, mas somente o volume #1.  Fora isso, quem comprar Glass Mask nesse período, qualquer um do 49 volumes, terá 30% de desconto.

A Disney não aprende mesmo: Protagonistas Negros nunca são deixados em paz

Não vai ser um post longo, mas uma recomendação de um texto do UOL chamado Você já reparou no destino dos personagens negros das animações da Disney?.  Resumindo todas as protagonistas da Disney, que incluem os estúdios que pertencem à empresa, passam pouquíssimo tempo em seu corpo negro, poque sempre são transformados em alguma outra coisa.


Em 2009, tivemos A Princesa Sapo e a protagonista passou boa parte do seu tempo em formato animal.  Esse aspecto foi um dos que eu pontuei na minha resenha mais de uma década atrás.  Este ano, a BlueSky, que eu não sabia que era da Disney, lançou Um Espião Animal, dublado por ninguém menos que Will Smith, mas o agente, uma espécie de 007 negro, passa boa parte do filme como um pombo.  Eu assisti nos cinemas com a Júlia e não fiz resenha, porque não valia a pena, afinal, seria somente para pontuar essas duas obviedades que eu coloquei em uma frase.  E está para estrear Soul, da Pixar, no qual o protagonista morre e vira uma bolha azul.  
Três protagonistas negras em toda a história da empresa e elas tem pouquíssimo tempo de tela.  Mas não é uma atitude racista, é só uma necessidade de roteiro, vocês sabem. Falando nisso, descobri graças a um vídeo antigo da Mikannn que A Princesa Sapo da Disney é livremente baseada no primeiro  romance de E.D.Baker (*mulher se escondendo atrás de suas iniciais*) chamado de The Frog Princess.  A principal e evidente mudança?  A heroína era branca, claro.

quarta-feira, 5 de agosto de 2020

Mashiro no Oto, um anime para quem gosta de música e cultura tradicional japonesa


Marimo Hagawa é mais conhecida como autora de shoujo, foi nos mangás femininos que ela fez o seu nome.  Desde 2010, no entanto, ela está produzindo um manga shounen, Mashiro no Oto  (ましろのおと), que parece ser a sua obra-prima, produzido com muito cuidado e, claro, já passou dos 25 volumes.  O início da história é o seguinte:

O shamisen é um instrumento musical tradicional japonês que se parece com um violão. O avô do adolescente Sawamura Setsu, que criou ele e seu irmão mais velho, Wakana, faleceu recentemente. Seu avô era um dos maiores artistas de Shamisen e os dois irmãos cresceram ouvindo-o tocar e aprendendo a tocar o instrumento. 

Ilustração que a autora fez para comemorar o anime.

Desde a morte do avô, Setsu abandonou o ensino médio, mudou-se para Tóquio e anda à deriva, sem saber o que fazer além de tocar seu instrumento. É quando sua mãe rica e bem-sucedida, Umeko, entra em sua vida e tenta moldar Setsu ao seu gosto.  Ela o matricula de volta no ensino médio, mas Setsu sabe que não conseguirá abandonar a sua paixão por Shamisen. A série ganhou o Prêmio Kodansha Manga por Shounen em 2012.

Acho que é um prato cheio para quem gosta de séries que tenham música, dramas de família  e que mostrem o amadurecimento de uma personagem.  Enfim, o anime estreia em abril de 2021, mas o primeiro trailer já foi lançado.


Hollywood está se autocensurando para garantir o mercado chinês + Mulan direto para Streaming


O Hollywood Reporter comentou um relatório de 94 páginas do instituto PEN American intitulado "Made in Hollywood, Censored by Beijing" (Feito em Hollywood, Censurado em Pequim) sobre o esforço dos grandes estúdios japoneses e diretores em adequar suas produções - incluindo elenco, história, diálogos e locações - para agradar ao mercado chinês, na verdade, mais do que isso, para conseguir a aprovação dos censores do país.  

Ora, Hollywood poe até produzir arte, mas o que ela oferece ao mundo são produtos e o segundo mercado consumidor do mundo nos nossos dias (*não sei o que será pós-pandemia*) é a China.  O relatório mapeou essa tendência de adequação desde o filme Homem de Ferro 3, em 2013.  Um dos que deu seu testemunho para o relatório foi Richard Gere, conhecido por sua militância pró-Tibet.  Ele disse: "Imagine o Kundun de Marty Scorsese, sobre a vida do Dalai Lama, ou meu próprio filme Justiça Vermelha (Red Corner), que é altamente crítico do sistema jurídico chinês", disse Gere. "Imagine eles sendo feitos hoje. Eles não aconteceriam."

Red Corner, filme que critica o sistema jurídico chinês.

"Em 1998, o então chefe da Disney, Michael Eisner, pediu desculpas por Kundun, que mostra a opressão chinesa do povo tibetano, chamando-o de "uma forma de insulto aos nossos amigos", e o estúdio contratou o ex-secretário de Estado Henry Kissinger para ajudar a reduzir os danos provocados pelo filme. Até hoje, o filme é maldito para o estúdio. (Kundun não está disponível no Disney + e o estúdio não respondeu quando perguntado se planeja adicioná-lo à plataforma.)"  Não assisti Kundun, mas sei que ele teve impacto no desempenho de Mulan, a animação, na China.

Esta postura de Hollywood pode explicar o silêncio da Disney quando a estrela de Mulan, Liu Yifei, escreveu em agosto passado nas suas mídias sociais: "Eu apoio a polícia de Hong Kong, você pode me bater agora".  Eu comentei o caso aqui. As críticas a essa aparente complacência  para conseguir espaço da China tem vindo de ONGs e, também, da Casa Branca. A partir daqui, um trecho do artigo traduzido:

Kundun pode ter afetado a aceitação de Mulan
na China, não o filme em si.

"Nossa maior preocupação é que Hollywood esteja cada vez mais normalizando a autocensura preventiva, antecipando o que o censor de Pequim está procurando", diz James Tager, vice-diretor de política e pesquisa de liberdade de expressão do PEN e autor do relatório. O professor da USC Stan Rosen, especialista na indústria cinematográfica da China, chama as críticas de censura de "uma tempestade perfeita" que colocará em evidência a indústria do entretenimento. "Vai ficar cada vez mais difícil para Hollywood não responder", observa Rosen. (...)

Para aqueles que trabalham para aumentar a conscientização sobre os abusos dos direitos humanos no que diz respeito aos 61 anos de ocupação do Tibete na China, Hollywood já foi um amigo e agora é um inimigo. Filmes como o estrelado por Brad Pitt, em 1997, Sete Anos no Tibet (Seven Years in Tibet) foram substituídos por produções como o filme de 2019 da DreamWorks Animation, Abominável (Abominable), que reforça as reivindicações territoriais de Pequim no Mar da China Meridional. Para Doutor Estranho (Doctor Strange), de 2016, a Marvel da Disney estava disposta a enfrentar críticas por branquear um personagem asiático interpretado por Tilda Swinton para evitar a participação de um personagem tibetano originário dos quadrinhos. E Top Gun: Maverick, da Skydance/Paramount, foi criticado, como observa o relatório do PEN, pelo "misterioso desaparecimento da bandeira de Taiwan" em uma jaqueta de voo que foi vista no original de 1986.

A explicação do HR para Tilda Swinton no filme
me parece convincente.

"Se Hollywood estiver do lado do dinheiro, mais cedo ou mais tarde eles estarão do lado errado e perderão dinheiro porque o público em geral deixará de assistir a todos os filmes", diz Tenzing Barshee, ativista de Washington, presidente da Área da Capital. Associação Tibetana."

Voltei, aqui.  Hollywood nunca foi muito justa na representação de minorias, mulheres, e não-americanos em geral.  Aliás, resenhei um documentário sobre a representação dos árabes em Hollywood tempos atrás.  Obviamente, se curvar a Pequim não deve significar uma melhora nesse modus operandi. E o mesmo vale para os produtos japoneses se curvando aos interesses e padrões culturais ocidentais.  Sim, acabei de ver gente acusando Fruits Basket (フルーツバスケット) de PEDOFILIA e eu estou me coçando para não ir bater boca, mas deixa quieto, porque isso daria outro texto.

Mulan iria estrear em março.

Enfim, se estamos falando de cinema e de China, Mulan vai entrar na grade da Disney+, que não chegou ao Brasil ainda, no sistema de VOD (video on demand)  em setembro.   Olha, era esperado e, ao mesmo tempo, é burrice, porque o filme vai entrar no top 10 dos mais pirateados.  Mesmo com lançamento posterior no cinema, será que quem já tiver assistido vai querer pagar ingresso?