sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Dengeki Daisy ganha um capítulo especial


Dengeki Daisy (電撃デイジー) terminou em 2013, mas o Comic Natalie anunciou que um capítulo especial foi publicado na Delux Betsucomi (Deracomi).  


A  autora, Motomi Kyousuke, já está na segunda série consecutiva, Queen's Quality (クイーンズ・クオリティ), mas muita gente ainda lembra de Dengeki Daisy com muito carinho.  Dengeki Daisy teve 16 volumes ao todo.

Entrevista com Fumi Yoshinaga na revista On Blue


Para @s fãs de Fumi Yoshinaga que lêem japonês, a última edição da revista BL On Blue traz uma entrevista de dez páginas com  autora, segundo o Comic Natalie.  Yoshinaga construiu uma carreira sólida produzindo mangás BL e ainda se divertia fazendo fanzines yaoi.  Faz algum tempo que ela parece passou a se focar em mangás não-eróticos, mas duvido que, sobrando um tempinho, ela não volte a produir alguma coisa na área.  


Eu não gosto das capas da On Blue, são muito sem graças, por assim dizer, esta última, aliás, não me decepcionou neste aspecto... A capa é de um mangá chamado Pornographer (ポルノグラファー), de Maki Marukido.  É possível ver uma amostra do mangá aqui.  

Ranking da Oricon


Quarta-feira saiu o ranking da Oricon e foi outra semana fraca para os shoujo e josei.  Nenhum título no top 10 geral e somente quatro entre os trinta mais. Curiosamente, só houve um  sobrevivente da semana passada, apesar dos vários títulos fortes, L♥DK.  Não sei se Fruits Basket another vai subir de posição, houve evento para divulgar o volume #1, segundo o Comic Natalie.

12. Akatsuki no Yona #21
17. L♥DK #21
19. Kami-sama Hajimemashita #25
20. Fruits Basket another #1

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

A perseguição ao burkini é uma forma de violência contra as mulheres


Nos últimos dias, a polêmica em torno da proibição do burkini, uma roupa de banho pensada por uma mulher muçulmana para atender às necessidades de outras mulheres da mesma fé (*e de quem mais quiser usar*), nas praias de Cannes e em outras regiões da França despertou polêmica.  Segundo a legislação baixada por homens, a roupa de banho é inapropriada e está em desacordo com os costumes do país.  Existe roupa certa para ir à praia?  Enfim, parece que existe.

Abalado por uma série de atentados, a França parece particularmente sensível em relação aos muçulmanos, especialmente, aqueles que podem ser identificados como tal.  Nesse sentido, as mulheres muçulmanas que usam qualquer roupa que as identifique visualmente, seja o simples véu (hijab), ou outro símbolo qualquer, como o burkini, se tornam alvo preferencial de agressores e, como se vê nesse momento, legisladores preocupados com os bons costumes.

Seqüência da humilhação.
Eu pensava em escrever alguma coisa sobre a questão, mas estava e estou sem tempo, no entanto, o incidente acontecido em Nice (*cidade do horrendo atentado em que um homem muçulmano atropelou com um caminhão centenas de pessoas que estavam assistindo aos fogos do 14 de julho,*), me deixou realmente chocada.  Uma dona de casa de 34 anos, ex-comissária de voo, estava com os filhos na praia.  Abordada por quatro policiais, ela foi multada em 11 euros.  Não satisfeitos, as quatro autoridades obrigaram a mulher a se despir de parte de suas roupas na frente de todos e assistida por seus filhos pequenos em prantos.  Algumas pessoas que viam o espetáculo gritavam "Vão para casa!" e "Somos católicos!".  Horror total.

A cena me trouxe a mente coisas como policiais, sempre homens, medindo o comprimento de roupas de banho de mulheres nos Estados Unidos dos anos 1920 e 1930, até as judias sendo obrigadas a se despir na frente de guardas homens ao chegarem nos campos de concentração ou extermínio nazistas, ou ainda as iranianas compelidas pela violência física ou verbal a usarem o véu nos tempos da Revolução Islâmica Iraniana.  Violência contra as mulheres no seu nível mais básico, porque, impotentes diante da autoridade, as mulheres se veem reduzidas aos seus corpos que devem, ou serem escondidos, ou serem despidos, para a satisfação dos poderes patriarcais instituídos.  


Jovem surfista da Califórnia.
Eu entendo e apoio a proibição do niqab e da burka, aquilo que chamamos de véu integral, por roubarem das mulheres a sua identidade, o seu rosto.  Sei que a proibição está muito mais ligada a preocupações de segurança do que propriamente interesse pelos direitos humanos das mulheres, mas vá lá, eu compreendo e acredito que seja justo.  Eu apoio a lei que proíbe o uso de símbolos religiosos ostensivos nas escolas públicas como forma de resguardar a secularidade e promover a socialização.  Há escolas particulares para quem considera essas questões fundamentais, fora que fundamentalistas nunca estão satisfeitos, pedem uma unha e, logo, logo, lhe pedirão o pé inteiro, ou a perna.  Agora, qual o mal no tal burkini?

A criadora da peça, a estilista Aheda Zanetti, nascida no Líbano e residente na Austrália, criou a peça para dar liberdade às mulheres muçulmanas que não desejavam (*ou podiam*) usar biquínis ou maiôs convencionais de se divertirem na praia.  Algumas dessas mulheres se viam privadas, por suas crenças pessoais, ou por pressão da comunidade, de praticarem uma série de atividades.  O burkini aparece como uma opção espetacular. A criadora, inclusive, partiu da sua própria experiência como menina e adolescente muçulmana castrada de uma série de atividades por ser mulher e somente por isso. A peça se tornou famosa, aliás, ao ser adotada por mulheres muçulmanas que se tornaram salva-vidas nas praias australianas.  


Aheda Zanetti, a criadora do burkini.
A jovem salva-vidas que se tornou garota propaganda do burkini.
Em vários formatos e cores – basta procurar – o burkini tornou-se popular em diversos países e é usado, também, por mulheres que desejam se proteger do sol.  Enfim, ainda que por trás do uso do burkini também estejam as falsas premissas de modéstia que pesam sobre as mulheres, afinal, a depender da leitura religiosa monoteísta (*estou pensando dentro dela*) patriarcal, ou somos as sedutoras, ou os homens são os incontroláveis e, por um motivo, ou outro, cabe às mulheres esconderem seu corpo ou se absterem de certas atividades.  Por exemplo, causou escândalo em Israel que um importante rabino ultra-ortodoxo tenha ordenado que pais e mães proíbam que suas meninas maiores de 5 anos possam andar de bicicleta nas ruas, porque, bem, isso é imoral e pode despertar os desejos dos homens.  É mais fácil, claro, castrar as meninas de uma atividade saudável e divertida do que manter os pedófilos sob controle.

Voltando ao burkini, o que me faz simpatizar com a criadora é que ela tem completa noção das pressões que as mulheres muçulmanas sofrem e ela lhes oferece uma possibilidade.  As fundamentalistas de verdade não irão usar o burkini, pois ou não irão à praia, para se misturar com os infiéis, ou entrarão com seus chadors ou abayas, sem nem se importarem, isso, claro, se forem flexíveis.  O burkini me parece, portanto, algo de mulher para mulher e preocupado com as suas necessidades muito mais do que com o olhar masculino.  Eis aí o grande crime, eu suponho.


Exemplo de roupa "modesta"
para fundamentalistas cristãos.
O burkini é o único caso de roupa de banho “religiosa”, por assim dizer?  Não.  Entrem aqui na página da “Wholesome Wear”, que vende roupas de banho "que destacam seu rosto, não o seu corpo" (“Swimwear that highlights the face, not the body.”), e observem que fundamentalistas cristãs também têm opções.  E, vejam bem, ao contrário do burkini, esse tipo de traje de banho se vende como algo que lhe torna melhor, superior, às outras mulheres.  A Aheda Zanetti parece que nunca foi pega dizendo essas abobrinhas, mas só defendendo que mulheres e moças muçulmanas também têm direito de se divertir em paz... Até que vieram os franceses... 

Não há justificativa para a proibição da peça, salvo se as autoridades acreditem que as mulheres são obrigadas a expor o seu corpo, afinal, este é um dever feminino.  Obviamente, não é qualquer corpo, como as muitas propagandas nos ensinam, mas o corpo jovem e esguio, os demais não são lá muito aceitáveis, também.  O que este caso todo está mostrando para o mundo é que existe, efetivamente, islamofobia, especialmente, em relação às mulheres (*coisa que eu já tinha dito na resenha do livro do Charb*).  Motivo?  Seja por opção pessoal (*e não vou discutir assujeitamento religioso aqui, OK? Adesão não significa falta de coerção*), ou por pressão do grupo (*família, comunidade, Estado*), elas são alvo fácil.  


Alguém perguntou se ela queria usar o véu?
E se perguntada, ela poderia dizer a verdade?
Aliás, em tempos de Olimpíada, puseram para circular fotos de atletas iranianas antes e depois da Revolução Islâmica.  A idéia, claro, era condenar o que temos hoje, mostrar o retrocesso.  Para alguns, deveriam proibi-las de participar dos jogos.  Aí, ninguém tira um segundo para pensar que elas, as atletas atuais, são umas guerreiras, porque, bem, ou elas usam o véu - e quem exige é o Estado - ou elas não podem praticar esportes.  Mas é o Irã, então convém descer a lenha sem se perguntar como é que as coisas são na Arábia Saudita, por exemplo, que só muito recentemente começou a discutir a possibilidade da educação física em escolas públicas para meninas.  Do outro lado, a turma que vê empoderamento em tudo mostrando as atletas muçulmanas veladas e celebrando a diversidade.  Concordo que foi muito bonita a foto das duas atletas no vôlei de praia, e uma egípcia usava véu e outra não usava.  Só que elas deixaram claro que sem usar mangas e calças compridas, elas não podem jogar em seu país.  Quais os limites da sua liberdade?  Enfim, cuidado aí, porque duvido muito que a menina de 18 anos do Irã que levou bronze no  taekwondo responderia sinceramente que preferia usar o véu para competir, aliás, no caso dela, não há escolha.  

Marcadas que são em seus corpos, afinal, a campanha recente é toda para fixar na nossa cabeça que muçulmana sem véu não é muçulmana de verdade, ainda que isso não se comprove no social, elas se tornam vulneráveis aos diversos ataques.  E, agora, como o caso de Siam mostra, também, às piores humilhações.  De novo, o que esse caso pavoroso expõe é que quem mais se preocupa em cobrir ou descobrir mulheres são os homens.  E aí, vale despir ou vestir, e caberia aos homens definir o que é legítimo para as mulheres usarem, ou não usarem.  Enquanto isso, claro, boa parte dos homens religiosos consegue se misturar sem grandes problemas, afinal, basta cercear a liberdade das suas mulheres para ganhar, ao que parece, pontos com a divindade.


Esse quadrinho também me causa muita agonia.
E termino deixando o link para o texto de uma ex-muçulmana sobre a questão e um trecho no qual ela fala da falsa simetria entre biquiniXburkini para quem não entendeu e fica repassando esse quadrinho acima como se tudo fosse a mesma coisa: “Quando a aceitação de uma mulher por parte da comunidade, seu respeito, dignidade, empregabilidade, possibilidades de casamento, segurança física, emancipação, a mobilidade social, acesso a instituições, a liberdade, e autonomia no seu dia-a-dia depender da inabalável adesão pública ao biquíni, então nós poderemos fazer essa comparação.  Quando uma mulher não puder deixar sua casa vestindo outra coisa senão um biquíni sem ser considerada imoral e seu valor humano e honra familiar ficarem comprometidas, então nós poderemos fazer essa comparação.  Quando existirem forças legais, sociais e extrajudiciais graves ligando a segurança, bem-estar, e meios de subsistência de uma mulher a sua adesão ao biquíni, então nós poderemos fazer essa comparação.”

terça-feira, 23 de agosto de 2016

Pai mata o filho de 12 anos no Japão, porque ele não queria estudar para um vestibulinho


Segundo vários sites (*estou usando o IPC digital*), um menino de 12 anos foi esfaqueado pelo pai no bairro Kita, Nagóia (Aichi).  O pai, Kengo Sataki, 48 anos, à princípio afirmou que havia acontecido um acidente.  A autópsia, no entanto, sugeriu outra coisa... pressionado, o pai confessou que havia esfaqueado a criança, o menino Ryota, porque ele não estudava o suficiente, não mostrava interesse em fazer o vestibular para cursar o ginásio na escola particular de elite na qual o pai estudara.  O pai “perdeu a paciência” e atacou o filho único.  A mãe estava fora trabalhando.  O pai carregou o menino nos braços à pé até o hospital que ficava a 100 metros da residência.  

Por onde começar a comentar um caso triste como esse?  Por que publicá-lo aqui?  No Japão, a pressão sobre as crianças e adolescentes para que tenham ótimas notas, passem nas provas de seleção e entrem nas melhores escolas.  Os danos psicológicos muitas vezes são mostrados em vários mangás e animes.  Ao mesmo tempo, se essas crianças não são bem sucedidas, os pais se vêem como corresponsáveis, envergonhados socialmente.  Séries como Life, Confidential Confessions mostram como o desdobramento disso tudo pode ser a violência.  Neste caso, a coisa se materializou em um assassinato, é um exemplo extremo, 99,9999% não termina desse jeito, claro.  Tenho pena do menino, que se recusava a estudar para entrar na escola que o pai frequentara, e pelo pai, também preso nessa cadeia de deveres, honra e vergonha.  No final das contas, para quê?  É preciso repensar certos comportamentos e práticas.

O que os universitários japoneses acham mais importante em um anime?



O Rocket News 24 publicou uma pesquisa realizada com um grupo de 194 universitários.  Não está discriminado quantos homens ou mulheres dentro do grupo. A pergunta era o que torna um anime interessante. As respostas, ainda que o RN24 tenha se espantado, foram bem coerentes a meus olhos, vamos lá:

1. História (49%)
2. Personagens (25.8%)
3. Música (5.7%)
4. Realismo (4.6%)
5. Animação (4.1%)

Normalmente, o que me chama para um anime, ou mangá, ou seriado live action, é a história.  Eu posso até continuar lendo por causa de personagens queridas ou interessantes, mas, normalmente, é o roteiro, a trama que me envolve.  O RN24 até publica a fala de um dos entrevistados que justifica sua opção dizendo:  “Há toneladas de animes com personagens com uma aparência muito legal, mas somente um punhado de histórias capazes de fisgar você.” É mais ou menos por aí.  Em relação às personagens, a pesquisa não faz distinção entre aspectos psicológicos e aparência, daí uma das pessoas que respondeu ter dito “Se a personagem não tem boa aparência, você pode ler o livro ao invés de assistir a série.”  Enfim, como muitos animes de sucesso hoje derivam de light novels, isso é possível mesmo.  

Eu também me sinto atraída por um anime que deriva de um mangá ou livro que eu goste.  Isso pode, inclusive, me manter presa (*ainda que para meter o pau*) na série até o fim. E você, o que lhe atrai em um anime?

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Quais shoujo mangá são os mais marcantes dos anos 1970?

A Rosa de Versalhes no traço do anime.
No post "Quais os mangás que representam melhor os anos 1980?" comentei que a lista estava em um guia sobre mangás femininos do período e que havia outro sobre os anos 1970.  Eu tinha comentado sobre o livro, mas, não, o livro.  Daí, decidi pegar o livro, que se chama Dansen Mozun Hen Daisuki Datsuta! Shoujo Manga 70 Nendaihen ~Girl’s Comics in the 1970~ (完全保存版 大好きだった!少女マンガ70年代篇~Girl’s Comics in the 1970~) e pegar a lista inicial que eles apresentam.  Vejam como ficou: 


A capa do livro.
1.      Versailles no Bara (ベルサイユのばら) – 1972 – 10 volumes – Riyoko Ikeda.  Logo depois do fim do mangá, foi adaptado pelo teatro feminino Takarazuka, em crise, a Revue reviveu graças à Rosa de Versalhes.  As peças originais e outras derivadas são encenadas até hoje.  Em 1979, virou filme com diretor, equipe e elenco europeu, foi o primeiro filme japonês produzido no Ocidente.  Houve a série animada em 1979-80 e um especial animado em 1990.  O filme animado comemorativo dos 35 anos da série teve cenas exibidas como propaganda, mas nunca foi lançado.  Vários gaiden saíram desde o final da série e a autora vem lançando alguns regularmente na Margaret continuando da contagem original, por isso, já estamos no volume 12.



2.      Haikara-as ga Tooru (はいからさんが通る) – 1975-1977 – 7 volumes – Waki Yamato.  Teve anime com 42 episódios em 1978-79, filme de animação previsto para 2017.  Teve, também, três filmes live action: 1979 e 1985 (TV), 1987 (cinema).



3.      Entrevista com Yumiko Igarashi e foco no mangá Mayme Angel (メイミー・エンジェル) – 1979-81 – 4 volumes.  Certamente teriam feito a maior feste em torno de CandyCandy (キャンディ♥キャンディ) não fosse a pendência judicial de Igarashi com a roteirista, Mizuki Kyoko.



4.      Aries no Otometachi  (アリエスの乙女たち) – 1973-? – 7 volumes – Machiko Satonaka.  Teve dorama em 1987.



5.      Eroica yori Ai wo Komete  (エロイカより愛をこめて) – 1976-2012 – 39 volumes – Aoike Yasuko.



6.      Seito Shokun!  (生徒諸君!) – 1977-84 – 24 volumes - Shouji Youko.  A série original tem um especial animado Seito Shokun! Kokoro ni Midori no Neckerchief (生徒諸君! 心に緑のネッカチーフを), de 1986, e um especial live action (*eu não consegui mais detalhes*).  Agora, o mangá original teve duas continuações com a protagonista do original, Nakki, retornando adulta e professora: Seito Shokun!: Kyoushi-hen (生徒諸君!教師編) e Seito Shokun!: Saishuushou - Tabidachi (生徒諸君! 最終章・旅立ち), que é, se entendi bem, uma prequel da continuação.  Seito Shokun!: Kyoushi-hen, que conta com 25 volumes, gerou dois doramas, um em 2007, outro em 2015, ambos protagonizados por Uchiyama Rina.



7.      Sukeban Deka (スケバン刑事) – 1976 – 22 volumes – Shinji Wada.  Sukeban Deka ganhou muita fama graças as suas adaptações live action.  Foram três séries para a TV entre 1985 e 1987, e três filmes para o cinema em 1987, 1988 e 2006.  A série teve adaptação animada em 1991, foram doi OAVs ao todo.



8.      Glass Mask (ガラスの仮面) – 1976 – 49 volumes e em andamento – Suzue Miuchi.  O mangá teve três adaptações animadas: série de 23 episódios em 1984, 3 episódios direto para vídeo (OAV) em 1998-99 e uma segunda série animada com 51 episódios em 2005-2006.  Glass Mask foi adaptado para dorama entre 1997 e 1999, foram duas séries (23 capítulos ao todo) e um especial. 



9.    Ouke no Monshou (王家の紋章) – 1976 – 61 volumes e em andamento – Fumin e Hosokawa Chieko.  Recebeu, em 1991, o 36º Shogakukan Manga Award na categoria shoujo.  Teve 1 OAV em 1988 e há uma peça musical baseada na série em cartaz no Japão.  

Olhando a lista, fiquei decepcionada.  Sukeban Deka entrou e eu apóio, mas não há nenhum mangá de esportes, nem balé, terror, ficção científica, e nem um shounen-ai sequer.  Fora Mayme Angel na lista... Se quisermos pensar em termos de autoras, a omissão é imperdoável: Hagio Moto e Takemiya Keiko, fora Riyouko Yamagishi e Yukari Ichijou.  Cadê elas?  Ichijou é como escrevi no post dos anos 1980, nos anos 1970 ela é reconhecida muito mais pelo conjunto da obra, pelo traço elegante, pela qualidade de seus roteiros do que associada a uma obra em particular.  Para uma autora isso é até lucrativo, porque, bem, quando você cria uma obra monumental, corre o risco de ser engolida por ela, mesmo que tenha feito muito mais e até melhor. 


Ace Wo Nerae na capa da Margaret.
Como o volume traz, diferente do dos anos 1980, cronologias e outros dados relevantes para situar o shoujo mangá dos anos 1970 e suas evoluções e revoluções entremeando essa lista de clássicos, talvez sejam citadas outras obras, ainda assim, faltou dar o destaque e isso é um erro.  No final do volume (*e se alguém quiser, e pedir, eu faço o post com a lista completa.  Vai dar trabalho braçal, mas eu faço*) com as autoras mais importantes do período e suas obras principais, é impossível não ver a pobreza da lista. Talvez, esse tenha sido o motivo para que eu tenha deixado para lá o livro. Por conta disso, acrescento abaixo alguns clássicos que deveriam estar nessa lista obrigatoriamente:   

Kaze to Ki no Uta
  • Kaze to Ki no Uta (風と木の詩) – 1976-84 – 17 volumes – da Takemiya Keiko e Thomas no Shinzou (トーマの心臓) – 1974 – 3 volumes – da Hagio Moto para representarem o shounen-ai.  Kaze to Ki no Uta teve um OAV em 1987.  Thomas no Shinzou tem uma prequel, Houmonsha (訪問者) de 1980, duas adaptações para o teatro, uma de 1995 e outra de 2005, e uma versão para o cinema no qual todas as personagens são interpretadas por mulheres em 1988.
  • 11-nin Iru!   (第11人)  –  1975-76 – 2 volumes – de novo Hagio Moto,  ganhou o Shogakukan Award em 1976, quando era tudo uma categoria só, se bem me lembro, e é um clássico da ficção científica.  Teve filme live action para a TV em 1977, filme animado para o cinema em 1986 e peça de teatro em 2004.
Hi Izuru Tokoro no Tenshi 
  • Falando da Riyouko Uamagishi, tem Arabesque (アラベスク) – 1971-73 – 4 volumes, considerado por muita gente o mais importante de todos os mangás de balé, e Shiroi Heya no Futari (白い部屋のふたり) – 1971 – 1 volume – que lançou as bases do shoujo-ai (*tem scanlations, viu?*).   E ainda tem Hi Izuru Tokoro no Tenshi (日出処の天子) – 1980-84  11 volumes  (*venceu o Kodansha Manga Award na categoria shoujo em 1983) – este aqui caiu no limbo, porque é obra importantíssima, pegou um dos ícones da história japonesa, o príncipe Shotoku, que trouxe o Budismo e a influência chinesa para o Japão, e o colocou em uma trama homoerótica, e não entrou na lista de década nenhuma, só lá no final, na lista geralzona.  Lembram que eu comentei que faltou mangá histórico na lista dos anos 1980?  Só que o anos de 1980 ainda é década de 1970, então...
  • Ace o Nerae!  (エースをねらえ!) – 1973-80 – 18 volumes – Sumika Yamamoto – esquecer deste mangá é imperdoável e repito isso mil vezes.  Não é o shoujo de esportes fundador, mas é somente um dos maiores mangás de esportes já feitos no Japão e tem muitas séries de anime (*e referências em outras séries*) para reforçar isso.  Teve uma primeira série animada em 1973-74, uma segunda série animada em 1978-79, um movie em 1979, 13 episódios de OAV em 1988, outra série de OAVs com 12 episódios entre 1989-90 e uma série de dorama em 2004 com 10 episódios. 
Swan
  • Swan ~Hakuchou~ (スワン 白鳥) – 1976-81 – 21 volumes – Ariyoshi Kyoko – confesso que não gosto do traço de Arabesque, mas Swan junta roteiro e traço, é lindo e tem uma história que arrasta a leitora.  Recomendadíssimo e deveria estar na lista, sim!  Gerou vários gaiden e continuações: Swan: Hakuchou no Inori (SWAN 白鳥の祈り) de 1982-83, Swan Selection   (SWAN・セレクション) de 1996, Maia - Swan Act 2  (まいあ -SWAN actⅡ-) de 2005-2009, Swan Moscow Edition (SWAN −白鳥− [モスクワ編) de 2010-13, Swan - Moscow Hen (SWAN-白鳥-モスクワ編) de 2011-?, e Swan - Germany Hen  (SWAN-白鳥-ドイツ編) de 2014.


sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Comentando Amor & Amizade (Love & Friendship, 2016), baseado no primeiro romance escrito por Jane Austen


 Quarta-feira assisti ao filme Amor & Amizade (Love & Friendship), baseado no livro Lady Susan de Jane Austen.  Escrito por Austen ainda na adolescência, a obra só foi publicada muitos anos depois de sua morte e, que eu saiba, nunca foi adaptado para o TV, ou para o cinema.  Tal situação deu um certo ineditismo para a adaptação, que foi elogiada no festival de cinema independente de Sundance, e salva o filme daquelas comparações inevitáveis, ou seja, ninguém sai do cinema se questionando se Kate Beckinsale é a melhor Lady Susan, ou não.  Agora, confesso que terminei o filme com uma estranha sensação de ter visto interpretações modernas e dinâmicas em um filme dirigido tal e qual as minisséries da BBC dos anos 1970.  Foi esquisito, muito mesmo, e não sei dizer se gostei, ou não gostei do resultado final da coisa.

A história do filme é simples: Lady Susan Vernon (Kate Beckinsale) é uma viúva relativamente jovem, bonita e com poucos recursos financeiros.  Ela vive de casa em casa, passando temporadas nas propriedades de amigos ricos até se estabelecer em Churchill, residência de seu cunhado, Charles Vernon (Justin Edwards), para o desgosto da esposa deste, Catherine (Emma Greenwell). Disposta a continuar levando uma vida confortável, ela decide conseguir um marido rico para a filha, Frederica (Morfydd Clark), e para si mesma.  Para que tal aconteça, ela não mede esforços e não tem escrúpulos em relação a nada, ou ninguém, a começar pela própria filha.  

A exuberante Lady Susan.
Assistir Amor & Amizade – e eu preferia que o nome fosse Lady Susan mesmo – é ver em cena uma protagonista diferente de todas as outras que Austen nos ofereceu em seus livros mais famosos.  Uma mulher madura e capaz de torcer as convenções sociais a seu gosto e maneira.  Uma pessoa que faz mil armações, tal e qual as melhores vilãs de nossas novelas televisivas, que prejudica quem quer que cruze seu caminho, mas se mostra chocada com pequenas descortesias, como quando sua correspondência é exposta e seu mau-caratismo evidenciado.  Fora isso, ela é capaz de um cinismo que raramente vi em uma personagem, especialmente, feminina.

Lady Susan é transgressora ao extremo, porque não fica na dependência de ninguém, ou submissa às convenções sociais.  A protagonista não se recolhe, não se coloca na posição de vítima das circunstâncias, moldando os acontecimentos para que eles se adaptem aos seus interesses. Ela quer um marido, quer escolhê-lo, e, depois de querer simplesmente brincar com o jovem irmão da cunhada, Reginald DeCourcy (Xavier Samuel), a quem despreza, ela percebe que pode lucrar mais e conseguir um marido bem mais jovem que ela e, ainda por cima, um herdeiro rico.  O rapaz (*que se acha muito conhecedor da humanidade*) cai feito um patinho na sua teia e seus pais e irmã ficam desesperados só de imaginá-lo casado com uma mulher como Lady Susan.  

A família que teme a influência de Lady Susan.
É bom dizer que Lady Susan não é casta e sua fama na sociedade é de ser uma predadora de homens.  Mais curioso é que o filme e o livro, que é todo epistolar, não a julgam, nem condenam, Austen simplesmente deixa as coisas acontecerem, por assim dizer.  Lady Susan não tem escrúpulos, tem um amante, Lord Manwaring (Lochlann O'Mearáin), “destrói” o casamento dele e ainda faz troça publicamente de sua esposa (Jenn Murray) histérica.  Os ginchos que a atriz solta em suas crises de choro são assustadores.  O filme, aliás, não mostra nenhuma solidariedade entre mulheres.  Susan e Alicia Johnson (Chloë Sevigny), única e melhor amiga da protagonista, desprezam por não saber segurar o seu homem.  Lady Susan não tem problemas em passar por cima nem de sua filha, quanto mais uma estranha... 

Aliás, ela é detestada pela cunhada, porque tentou impedir seu casamento.  Imagino que o cunhado fosse mais velho e o herdeiro das propriedades da família, por isso mesmo, impedi-lo de casar seria uma forma de conseguir que seu próprio esposo herdasse tudo.  Lady Susan decide bajular o pequeno sobrinho, que tem o nome de seu finado marido, para fazer com que o garotinho desenvolva amor por ela.  O fato é que a situação dessas viúvas e órfãs dessa pequena nobreza britânica é sempre complicada.  Olhando o estilo de vida de Lady Susan - sua casa em Londres e criados - é visível que ela não está na miséria, mas, ainda assim, talvez dependesse da boa vontade de seu cunhado para ter uma vida confortável.  Em um determinado momento é falado que ela está vendendo suas jóias e a protagonista afirma que não pode pagar pela educação de Frederica.  Se bem que essa última afirmativa pode ser, simplesmente, fruto do egoísmo e não de problemas econômicos reais.

Catherine odeia Susan, porque ela tentou impedir seu casamento.
Os únicos homens invulneráveis ao poder de Lady Susan são velhos, o pai de Reginald (James Fleet) e o marido de Alicia, interpretado pelo excelente Stephen Fry.  Sobre Mr. Johnson, que foi tutor da agora Lady Manwaring, Lady Susan diz uma das melhores frases do filme “Ele é velho demais para ser controlado e jovem demais para morrer”.  Sim, eis um dos motivos para que ela deseje um marido mais jovem.  O cunhado da protagonista também é invulnerável a ela e faz a linha clueless.  Parece não entender, ou saber de nada, sugere a todos ao seu redor que é fácil manobrá-lo, mas acredito sinceramente que ele estava um passo adiante de todos.

As melhores cenas do filme são sem dúvida entre Sevigny e Beckinsale.  As duas armam juntas, mentem juntas, lamentam que Mr. Johnson queira atrapalhar sua amizade mandando Alicia de volta para os EUA (*ela é americana*) por não cortar relações com a protagonista.  Juntas elas são capazes de tudo, inclusive deixar a pobre Frederica ao alcance de Sir James Martin (Tom Benett), o idiota rico que Susan escolheu para marido da filha.  A moça foge do colégio por causa disso.  Sei que é uma obra de Austen jovem, mas o filme ganharia mais com uma Frederica com mais presença.  A atriz é muito bonita, mas absolutamente apagada, eu diria.  Com ela tudo é previsível, por assim dizer e eu não consigo ver nela uma proto-protagonista de Jane Austen.

Lady Susan e sua melhor e única amiga.
Uma coisa que não falta em Lady Susan é humor que oscila entre piadas extremamente elaboradas e diálogos muito bobos.  A parte elaborada fica por conta de Lady Susan e Alicia.  Por exemplo, a protagonista, no início do filme, tem uma “amiga” pobre que faz as vezes de dama de companhia, a Sr.ª Cross (Kelly Campbell) a quem Lady Susan não paga um tostão sequer, porque, bem, ela é sua amiga e pode se sentir ofendida.   Já Sir James Martin é o perfeito bufão e todos sentem pena de Frederica.  A personagem é tão exagerada nas tolices que faz ou fala que supera de longe Mr. Collins na capacidade de ser irritante.  

No fim das contas, Lady Susan é pega nas suas mentiras, mas, ainda assim, escapa e dá a volta por cima.  Ao contrário de um Ligações Perigosas, por exemplo, a personagem consegue virar a mesa a seu favor e conseguir um belo e satisfatório casamento para si (*ah, descubra como e com quem!*) e para a filha.  Na verdade, ela pensava em benefício próprio, mas como o forte de Lady Susan é o humor, o tom de farsa, a pobre Frederica termina se dando bem para os padrões da época e o tipo de “bom casamento” que vemos nos livros de Jane Austen, claro.  

Frederica desprezada e chantageada pela mãe.
Antes de passar para a parte da direção, nem preciso comentar que o filme cumpre a Bechdel Rule, não é?  Muitas personagens femininas, todas com nomes, a maioria conversando com uma ou mais mulheres e, bem, o assunto maior é Lady Susan, a protagonista.  Ela domina a narrativa e é secundada por várias outras mulheres interessantes, como Alicia e a própria Catherine que não se deixa enredar pela cunhada, mas mantém as aparências.  Não se pode dizer que é um filme feminista, mas é um filme dominado pelas mulheres, até porque, os poucos homens que tentam frear Lady Susan são ou ignorados, ou atropelados por ela e sem perder os bons modos.

Chegamos a parte relacionada à direção.  Tendo assistido várias séries da BBC dos anos 1970, há resenhas de algumas no blog, se você procurar, percebi uma similaridade entre a direção de Whit Stillman, que assina, também, o roteiro, e essas séries mais antigas.  A interpretação dos atores é dinâmica, moderna, mas a direção é estática, teatral.  Os poucos cenários ajudam a passar esta impressão de teatro filmado.  Fora isso, há o abuso de letreiramentos para localizar os lugares e o uso de um recurso, certamente com fins cômicos, de interromper a narrativa colocar a imagem da personagem e quem ela é na descrição.  Não ficou engraçado, quebrou o bom fluxo da história, as personagens deveriam ser apresentadas dentro do filme.  Se o objetivo foi inovar, não me impressionou positivamente.

Pobre Lady Manwaring!
Querem ver?  O jovem reverendo (Conor MacNeill), um ator baixinho, muito mesmo, em relação aos outros atores e atrizes do elenco, é introduzido quando aparecem todas as personagens ligadas à Churchill, mas só vai aparecer muito depois.  Para quê lascar a foto do moço e criar a expectativa em relação a ele se só o veríamos na cena do baile, sem falas, e em uma cena posterior com Frederica?  Depois, ele só reaparecerá na sequência do casamento e só.  Desnecessário, enfim. 

De resto, o figurino era muito bonito e correto.  É raro colocarem as personagens de Austen vestidas com roupas do final do século XVIII.  Normalmente, há a sedução do estilo regência (*ou Império, se estivéssemos na França*) e é difícil ver a temporalidade respeitada.  Nada contra, adoro as roupas femininas da época em que a maioria dos livros de Austen foi publicada, mas Lady Susan só saiu em 1871, então, foi um acerto colocar as mulheres, porque o impacto é maior nas roupas delas, vestidas como na década de noventa do século XVIII já que o livro foi escrito em 1794.  Lady Susan e seu figurino são deslumbrantes.

Legendas apresentando personagens.
Terminando, digo que se trata de um filme interessante que explora muito bem o talento de  Kate Beckinsale e Chloë Sevigny.  Fora isso, dá a chance para Beckinsale de interpretar outra protagonista de Jane Austen, pois, no início de carreira, ela foi Emma em uma adaptação de 1996, que eu gosto muito.  Amor & Amizade estreou em circuito restrito, até achei que sairia de cartaz hoje, mas continua.  De qualquer forma, acredito que não vai durar mais um fim de semana em cartaz.  Se você se interessa por filmes de época ou adaptações de Jane Austen, este é um filme que pode lhe agradar.