sábado, 21 de maio de 2022

Comentando King's Man: A Origem (2021/Inglaterra/EUA): Uma Prequel que não faz justiça à série

Finalmente, terminei de assistir The King's Man, filme prequel da série que eu gosto tanto, apesar de ser uma grande bobagem, ou talvez, exatamente por isso. Em relação a este último filme, no entanto, tenho sentimentos MUITO conflitantes. Pior isso mesmo, a primeira parte será a resenha em si, tentando evitar os spoilers mais dramáticos e a segunda parte, que estará após o trailer, discutirá os problemas e incômodos que tive com a película.  Neste sentido, essa prequel me trouxe mais o que pensar do que os dois primeiros que eram só divertimento e fanservice mesmo, mas, ao mesmo tempo, foi um filme pior, porque lhe falta coesão e a melhor parte é o primeiro arco, morto Rasputin (Rhys Ifans), a história começa a patinar.  Vamos ao resumo:

No início da década de 1910, a Europa está à beira de uma guerra que colocará as grandes potências da época umas contra as outras.  O que não se sabe, é que por trás do conflito está uma organização criminosa liderada por um maníaco que deseja destruir o Império Britânico.  Para impedir que isso aconteça, entram em ação o Duque de Oxford (Ralph Fiennes) e sua rede de informantes que, ao longo da trama, irão dar origem à agência de espionagem paralela conhecida como Kingsman.

Primeira coisa a se dizer, este novo Kingsman é mais um filme de geriação, gênero que está na moda e que tem como protagonista um homem de idade avançada fazendo coisas que antes eram trabalho de menino de vinte poucos anos ou galã de, no máximo do lado certo dos 40 anos.  Desta feita, o herói é Ralph Fiennes fazendo o que Colin Firth fez nos outros filmes (*sem o charme de Colin Firth, claro*) e sendo muito mais central na história do que seu filho e pupilo, que ele tenta a todo custo impedir que se aliste para lutar na Primeira Guerra (1914-18).

Sim, trata-se de história alternativa, um "E se..." que começa na segunda guerra dos Bôeres (1899-1902) e se passa principalmente durante a 1ª Guerra Mundial. É menos divertido que os demais, porque se propõe a lidar com temas sérios dramáticos sem que isso seja efetivamente necessário. Se o tom fosse o do primeiro ato com o Rasputin, teria sido perfeitinho e bem no estilo dos outros dois filmes da franquia (*resenhas aqui e aqui*).  E, claro, você pode até fazer algum humor usando a Primeira Guerra, mas não vai dar para seguir nessa batida o tempo inteiro.  O problema é as escolhas políticas que o filme faz conscientemente e que são reacionárias e mesmo fascistas.  Querem ver?  Apesar do que muitos resumos da história dizem, a formação dos Kingsman não tem como objetivo impedir novas tragédias como a Primeira Guerra, ou que milhões sejam mortos, mas garantir que a Inglaterra vença a guerra, e todas as guerras daí por diante.  Só isso mesmo.

Enfim, o filme é organizado da seguinte forma, temos uma introdução clichê com a morte da esposa do Duque na Guerra dos Bôeres, depois, seguimos para o momento em que a Primeira Guerra está começando e que fecha com a morte de Rasputin, o ápice do filme, eu diria, porque tem aquele ar de galhofa e ação frenética do primeiro e do primeiro filme.  O problema é que a luta com Rasputin tem ares de clímax do filme e não é, temos ainda mais uma hora e meia de película pelo menos.  Daí, o segundo ato é centrado na ida de Conrad (Harris Dickinson), o filho do duque, para a guerra.  Esta parte é dramática, séria demais para a proposta de uma série como Kingsman, e tem um apelo pacifista, uma crítica à guerra e sua insanidade.  E achei muito bem feito mesmo, mas pouco conectado ao estilo do primeiro arco.  Só que a terceira parte é uma tragédia, porque é a negação do que vemos de crítica da guerra e um elogio à vingança.  Pior, com um vilão, aquele que era chefe de Rasputin e outros, é muito sem graça se comparada com a que fechou o primeiro arco.

Vou falar da tal organização criminosa do maníaco torturador de bodes e retomar depois.  Muito bem, temos um vilão sem rosto, mas cruel e que maltrata animais para se fazer compreender pelos seus minions.  Difícil, só para começo de conversa, é comprar que Rasputin seria minion de alguém.  Meu marido comentou isso quando viu de passagem uma das cenas com os vilões interagindo e eu concordo.  O suposto grupo arregimentado por essa criatura, que não explica motivações e nem tem grandes justificativas para ser seguido, reúne os maiores gênios do crime de sua época.  Sim, a ideia é esta.  O objetivo do vilão é destruir a Inglaterra.  Motivo forte nenhum nos é oferecido.  Sabemos, no entanto, que ele é escocês.

Além de Rasputin temos: Erik Jan Hanussen (Daniel Brühl), que eu não conhecia até o filme, mas que efetivamente teve influência sobre a ascensão de Hitler; Gavrilo Princip (Joel Basman), o assassino do arquiduque Francisco Ferdinando (Ron Cook), o estopim da Primeira Guerra; Mata Hari (Valerie Pachner), atriz, dançarina exótica, acusada pelos franceses de espionagem (*voltarei a ele depois*); Morton (Matthew Goode), o secretário de Lorde Kitrchener (Charles Dance), personagem histórica importante do comando de guerra britânico; um monte de figurantes sem nome e LÊNIN (August Diehl).  Sim, Lênin é minion do vilão e colocado como um grande gênio do crime.  Quer ver uma coisa?  Se o objetivo fazer a Inglaterra perder a guerra, até Churchill poderia ser minion do vilão, afinal, ele foi culpabilizado pela estrondosa derrota em Gallipoli.  Algo, aliás, que vai ser atirado sobre ele por seus adversários durante a Segunda Guerra Mundial.  Percebem o meu ponto?  Outra coisa, é vilão demais para um filme só.  O único que realmente tem desenvolvimento é Rasputin. 

Voltando para Conrad, o filho do duque é uma personagem interessante, porque ele realmente vive um drama.  Depois do assassinato da mãe durante um incidente na Guerra dos Bôeres, seu pai abraça um pacifismo radical e decide colocar o garoto em uma redoma.  A presença de Polly (Gemma Arterton), a babá, que é o braço direito do Duque e coordena os seus agentes subterrâneos, só se justifica naquela casa, se ela ainda estiver responsável por Conrad de alguma forma.  O rapaz quer, como tantos outros jovens de seu tempo, ir lutar na guerra (*vejam a minha resenha do filme Juventudes Roubadas*), mas o pai o impede e isso efetivamente fere o orgulho do rapaz, que já tinha recebido uma pena branca, símbolo de covardia, de uma mulher na rua.   

Ao completar 19 anos, ele já pode se alistar sem autorização do pai, é o que ele faz.  Ao deixar o bigode crescer, Conrad busca mostrar que, agora, é um homem adulto e independente. Ainda assim, o Duque e o rei impedem que o jovem vá para algum lugar realmente perigoso.  Há uma fala que é mais ou menos "o mais perto da guerra que ele vai chegar é ser colocado para apontar os lápis de um general". É uma situação parecida com a do protagonista de Parade's End, só que ele era um homem de mais de 30 anos, um burocrata, que se alista por patriotismo e seu irmão mais velho, influente funcionário de alto escalão, tenta impedir que ele seja mandado para algum posto realmente perigoso.

O fato é que o pai consegue uma ordem para trazê-lo de volta e o rapaz se revolta e consegue armar um estratagema para ficar no campo de batalha.  A ida de Conrad para a guerra representa um arco interessante do filme, é bem construído, mas parece uma história a parte que se desenvolve a ponto do rapaz compreender o horror que o pai sente pela guerra, levando-o ao amadurecimento que vai além de usar um bigode, e que termina com uma tragédia para Conrad.  E o filme depois disso, meio que vai ladeira abaixo, porque o terceiro ato é ruim.  A formação da agência está conectada com uma vingança, o Duque abandona o seu pacifismo e decide caçar o vilão.  Mas não quero falar mais sobre essa parte que é a mais fraca da película.  Vamos para Rasputin?

Todos os trailers do filme foram construídos para mostrar Rasputin como o vilão.  Eu acreditava que era mesmo e, bem, a melhor parte foi a que girou em torno dele.  Oxford, Polly, Shola (Djimon Hounsou) e Conrad vão até a Rússia eliminar Rasputin, que estava usando sua influência sobre o Czar e a Czarina para retirar o país da guerra.  Quem os chama é um primo de Oxford, o príncipe Felix Yussupov (Aaron Vodovoz), que realmente esteve envolvido no plot para matar o monge.  O Rasputin de Rhys Ifans é uma espécie de pervertido que, segundo o filme, tem uma queda por meninos (*que eu saiba, Rasputin não era pedófilo, nem bissexual, mas posso estar desatualizada*).  E o que o Duque faz?  Ordena que seu virginal filho seduza Rasputin.  O que acontece?  O vilão considera o Duque mais interessante que o novinho e quer tirar umas casquinhas dele.

Em um filme com zero romance, o máximo que vimos foi uma tímida declaração de amor de Polly que dá um beijo casto no duque, a sequência entre Oxford e Rasputin é inesperadamente erótica e engraçada.  Eu fiquei muito surpresa mesmo com isso.  Depois da tentativa de envenenamento e sedução, temos a luta mais espetacular o filme, com Shola, Conrad, Polly e o Duque enfrentando Rasputin, que quase os derrota.  Rasputin é um exímio guerreiro e dançarino.  Se não quiser ver mais nada do filme, pegue a sequência que começa com a chegada de Rasputin no jantar e termina com a sua morte.  Duvido que você não ficará satisfeito com a farofada muito bem feita.  Agora, imagine colocar a melhor parte do filme antes da metade da película?  Pois é, faltou bom senso.  O curioso é que o lema da agência, "Manners Maketh man", foi enunciado pelo vilão na luta final contra Oxford.

Par além de Rasputin, o destaque entre os coadjuvantes vai para Tom Hollander, que interpreta o Czar Nicolau II, o Kaiser Guilherme II e o Rei George V.   Há uma cena em flashback com a rainha Vitória e os três meninos, fica um tanto estranho, porque o futuro Czar não era neto de Vitória, ele era sobrinho da princesa Alexandra, nora da rainha e futura rainha de Eduardo VII.   O Czar dos três é o que menos aparece, até a morte da família Romanov é mostrada de forma bem diferente do que realmente foi, mas Hollander arrasou como o Kaiser narcisista com direito até ao detalhe da mão semialeijada, porque foi lesionada no parto feito à fórceps. Como George V, Hollander é todo dignidade, porque, efetivamente, o filme assume uma postura ufanista que beira o constrangedor. Ainda assim, curiosamente, é um papel pequeno, mas não tanto quanto o de Aaron Taylor-Johnson, que está na película para sugerir uma continuação na qual ele seria o protagonista, talvez. Não sei se vai rolar, não fui procurar.

Falando em diversidade, a presença de Djimon Hounsou não tem nenhuma função.  Ele é o ajudante negro capaz de dar a vida pelo duque e seu filho e sua personalidade não é desenvolvida para além do clichê.  A personagem parece saída de filmes dos anso 1930, 1940 e 1950.  Claro, poderia ser pior e o vilão ter um minion que não fosse branco.  Quando o assunto é gênero, bem, temos duas personagens femininas.  Polly que é a representação da babá competente, mas com talentos escondidos, que é desvendar códigos, fazer quitutes envenenados e lutar e atirar muito bem.  Ela é a competência em pessoa, mas, assim como Shola, ela é uma fiel servidora do duque.  Quanto à Mata Hari, ela é colocada no grupo dos vilões.  

Por qual motivo?  Por ser uma mulher sensual?  O fato é que o filme a reduz ao seu corpo, a arma que tem para usar contra os inimigos, diferindo aí de Polly, cujo comportamento sexual é irrepreensível e que possui múltiplos talentos. Ambas, no entanto, existem em função dos homens e para eles, são iguais nesse sentido. Hari foi executada pelos franceses acusada de espionagem.  Nada se provou contra ela.  No filme, sua função, além de cumprir cotas no grupo dos vilões é seduzir o presidente Wilson (Ian Kelly) dos Estados Unidos produzindo material para chantageá-lo a entrar na Primeira Guerra do lado dos ingleses.  O filme vende os americanos como a salvação da guerra, ignoram que eles entraram no último momento e cortam os franceses do conflito.  É História Alternativa, eu sei, mas, em alguns momentos, ela é alternativa demais, eu diria.

O final do filme, após a derrota do chatíssimo chefe dos vilões é a formação da agência com seus membros usando codinomes tirados da Távola Redonda.  Oxford é o Rei Arthur, Shola é Merlim, Polly é Galahad, Archie Reid (Aaron Taylor-Johnson) é Lancelot, o rei George V é Bedivere e o Embaixador dos Estados Unidos (Stanley Tucci), que mal apareceu, mas que está lá para fazer a ponte a existência da agência norte-americana que aparece no último filme.  O Duque faz um discurso sobre evitar que uma nova guerra possa acontecer e dizime toda uma geração de jovens, critica o tratado de Versalhes, que é de 1919, e antevê a Segunda Guerra.  Só que em nenhum momento a carnificina foi realmente a motivação das personagens, mas garantir a vitória da Inglaterra.  É isso.  Se quiser ver uma análise do figurino do filme, o pessoa do Frock Flicks fez.  Para spoilers, siga para depois do trailer.

Eu realmente me surpreendi em alguns momentos do filme.  A sequência homoerótica envolvendo Rasputin, por exemplo, era algo que eu não esperava.  Agora, a morte de Conrad me chocou um pouco, porque eu esperava que o jovem fosse Lancelot na formação original.  Ele não foi e, pior, o tal Archie Reid nada fez.  A morte do rapaz foi ainda mais impactante, porque foi estúpida, porque sem razão, sem sentido, e serviu para ressaltar a irracionalidade da guerra.  Daí, vem o terceiro ato e meio que cospe em cima do sacrifício de Conrad ao focar na vingança e mostrar o quanto o grande vilão, que era Matthew Goode o tempo inteiro, seja apresentado em todo a sua falta de profundidade.  Pior, ainda enfeiaram o ator para imprimir um ar de insanidade nele.

Mas falando em vilão, acredito que a personagem de Goode tenha sido um engodo em um filme planejado para ter continuação, porque Erik Jan Hanussen sobrevive e parece ter se tornado o líder da organização.  Talvez, o sujeito fosse desde o início.  Hanussen era ilusionista, astrólogo, hipnotizador e um monte de outras coisas, o mais importante, há quem defenda que ele é que ajudou a construir Hitler, o ensinou a se portar no palco, a falar para as massas e pode ter sido assassinado a mando de concorrentes seus, Hermann Göring e Joseph Goebbels.  Hanussen era judeu e fingia não ser.  Faz sentido acreditar que o grande vilão poderia ter sido manipulado por ele.

Bem, o filme tem uma cena pós-créditos que é importante a e aponta para o desejo de uma continuação.  Hanussen apresenta seu novo pupilo (*antes ele influenciava o Kaiser*) para Lênin.  O sujeito não é outro senão Adolf Hitler (David Kross).  E foi Hitler que matou os Romanov. Sério.  Neste momento, além de arrolar Lênin, mostrado no filme como um fantoche sem grande autonomia ou carisma, como vilão, o filme coloca o comunismo e o nazismo no mesmo patamar.  Veja, não se trata do lugar comum até aceitável de colocar Stálin em comparação com Hitler, mas Lênin, que morreu em 1924, quando o futuro Führer era ninguém.  

Um filme histórico, e História Alternativa é História, na medida que usa fatos ocorridos como seu material, fala mais do presente do que do passado, da ideologia de quem o produziu, escreveu e dirigiu.  Partindo dessa ideia, The King's Man desinforma e mais do que isso, defende a tese de que ideologias tão distintas como o comunismo e o nazismo seriam a mesma coisa, na verdade, ideários surgidos da mente de vilões.  Em um momento como o nosso, quando o neonazismo se expande e a ultradireita chegou ao poder em vários países, vender esse tipo de ideia é despolitizar e criminalizar o comunismo, que é coisa de vilão, vejam bem.  Enfim, os outros Kingsman foram bobagens deliciosas, já este é um poço de problemas que vão desde um roteiro irregular até esta visão ideológica que faz terra arrasada de tudo.

quarta-feira, 18 de maio de 2022

50 anos de “A Rosa de Versalhes” e seus temas duradouros de amor atemporal e empoderamento feminino (Artigo Traduzido)

Acabei encontrando alguma coisa publicada sobre os 50 anos da Rosa de Versalhes, neste caso, um artigo na edição em inglês do site Nippn de 6 de maio.  Como ele é interessante, vou traduzi-lo.  Hotta Junji é mangá-ka e publica principalmente mangás josei.  O original pode ser acessado clicando no título: 50 Years of “The Rose of Versailles” and Its Enduring Themes of Timeless Love and Female Empowerment.  Na medida do possível, mantive a estrutura do artigo original e usei as imagens que lá estavam com as legendas traduzidas.  Os links no corpo do texto são das resenhas dos filmes citados disponíveis no Shoujo Café.

50 anos de “A Rosa de Versalhes” e seus temas duradouros de amor atemporal e empoderamento feminino 

Hotta Junji

Este ano marca meio século desde a estreia de Berusaiyu no bara (A Rosa de Versalhes), o mangá clássico ambientado nos anos tumultuados em torno da Revolução Francesa. A série foi adaptada para tela e palco e continua a atrair novas gerações de leitores. Hotta Junji faz uma retrospectiva do clima cultural que inspirou a obra seminal da autora Ikeda Riyoko sobre a independência das mulheres.

Temas Românticos Clássicos

O elemento mais importante de qualquer história de amor verdadeira é a adversidade. Afinal, uma trama em que duas pessoas se apaixonam e vivem felizes para sempre sem nenhum tipo de barreira ao romance terminaria bem rápido.  A adversidade, portanto, é crucial. E, em vez de fatores pessoais, como a própria indecisão de um personagem, quanto mais externo e intransponível o obstáculo, mais universal o apelo. É isso que faz de Romeu e Julieta, com seu trágico conto de amantes condenados de lares em guerra, um clássico tão atemporal e duradouro.

Essa história envolve os Montéquios, uma família gibelina leal ao Sacro Império Romano, e os Capuletos, de origem Guelph, com juramento de fidelidade ao Papado. Uma comparação adequada da história japonesa seria os clãs rivais que apoiaram as cortes do norte e do sul durante o período Nanbokuchō (1336-92). Ou talvez mais relacionável ainda para os leitores possa ser a relação entre Amuro e Lalah em Mobile Suit Gundam (1979-80).  Mas nos últimos anos, essas histórias de amor caíram em desuso. Até a Disney encontrou seguidores para filmes sem narrativa romântica, e em Frozen (2013) o verdadeiro amor no centro da história não é entre protagonistas masculinos e femininos, mas as irmãs Anna e Elsa.

Tendências semelhantes também podem ser vistas no Japão. O mangá Nagi no Oitoma (Nagi's Long Vacation, 2016–presente), transformado em dorama em 2019, retrata uma história de amor muito diferente dos arquétipos clássicos, com a garota deixando o garoto para trás não para reencontrá-lo no final, mas sim para encontrar seu próprio caminho.  Pensando bem, essa mudança parece natural. A sociedade contemporânea é modelada muito segundo as ideias descritas por Milton e Rose D. Friedman em seu influente tratado econômico de laissez faire Free to Choose (1980), então segue-se que o romance também deve envolver liberdade absoluta de escolha. E se você é livre para escolher o parceiro que quiser, independentemente de dúvidas, os obstáculos tradicionais se tornam menos importantes.

Alguns sociólogos veem essas tendências como parte de uma incapacidade mais ampla de expressar diretamente afeição romântica, na medida em que muitas histórias de amor modernas ofuscam questões através da introdução de temas como doença, perda de memória induzida por acidente ou até mesmo amantes oriundos de temporalidades diferentes. Outras obras notáveis como os filmes Retrato de uma Jovem em Chamas (França, 2019) e Carol (Reino Unido/EUA, 2015) optam por ambientar seus eventos em épocas anteriores que ainda eram marcadas por fortes preconceitos ou independência restrita para as mulheres.  Do ponto de vista atual, essas sociedades históricas são vistas como duras e restritivas. Escândalos que causam pouco mais do que um clamor online no século XXI podem ter sido crimes graves no período Edo (1603-1868), e diversos estilos de vida não eram aceitos como são hoje.

Talvez as barreiras finais à liberdade pessoal tenham vindo na forma do sistema de classes. O pioneiro reformador do período Meiji Fukuzawa Yukichi (1835-1901) pode ter dito que “o céu não cria um homem acima ou abaixo de outro homem”, mas naqueles dias, no Ocidente como no Japão, as fronteiras de classe social separando nobres e plebeus, por exemplo, eram bem intransponíveis.  Em 1789, o povo da França se levantou em uma revolução para quebrar essas barreiras. E quase 200 anos depois, em 1972, a antologia semanal de mangá shoujo Shuukan Margaret lançou uma nova serialização, Berusaiyu no bara (A Rosa de Versalhes), cujas representações dramáticas daquela época tumultuada lhe renderiam um lugar de destaque nos anais da história do mangá. .


O ano de 2022 também viu reedições luxuosas em DVD para a adaptação em anime de sucesso de The Rose of Versailles, originalmente exibida em 1979. (©︎ Pia Corporation)

Uma Obra-Prima Arriscada

A história gira em torno da última rainha da França, Maria Antonieta (1755–1793), e seu suposto amante secreto, o nobre sueco Hans Axel von Fersen (1755–1810), juntamente com dois personagens fictícios: Lady Oscar François de Jarjayes ─ a donzela guerreira criada como seu herdeiro por seu pai militar ─ e seu companheiro plebeua André Grandier.  Este romance de época, repleto de personagens fustigados e destruídos pelas marés da história, lutando para inaugurar uma nova era e dando a vida por aqueles que amam, conquistou um exército de fãs apaixonados e viria a exercer uma poderosa influência sobre gerações futuras.

Mas, inicialmente, o conselho editorial de Margaret se opôs fortemente à ideia de executar The Rose of Versailles, duvidando da capacidade de suas leitoras adolescentes de entender e apreciar o conteúdo com temas históricos. Na época, o mangá ainda era considerado como “baixa cultura”, e o mangá shoujo era o mais baixo de todos, com mangá-kas mulheres ganhando apenas metade do que seus colegas do sexo masculino (embora nesse aspecto fosse notavelmente semelhante à Hollywood dos nossos dias).

A autora Ikeda Riyoko nasceu em Osaka em 1947 e foi criada em Kashiwa, Chiba. Em uma época em que muitos ainda questionavam o sentido das mulheres prosseguirem para o ensino superior, ela superou as objeções de seu pai para estudar filosofia na Universidade de Educação de Tóquio (agora Universidade de Tsukuba). Logo após se matricular, ela se envolveu com o vibrante ativismo estudantil da época. E percebendo a hipocrisia em criticar a sociedade e as gerações mais velhas enquanto ainda era sustentada por seus pais, ela saiu da casa da família e financiou seus estudos trabalhando como  garçonete, em fábricas e vendendo produtos de porta em porta.

Em 1968, como caloura da faculdade, ela publicou sua primeira tira na Shuukan Margaret. E embora ela inicialmente visse escrever quadrinhos como apenas mais um meio de se sustentar, enquanto rabiscava freneticamente tira após tira apenas para pagar o aluguel, sua popularidade cresceu constantemente, culminando aos 24 anos na serialização da Rosa de Versalhes.

Como mencionado acima, o conselho editorial masculino da revista inicialmente se opôs fortemente à ousadia, temendo que o material histórico fosse incompreensível para seu público. Mas depois que Ikeda defendeu seu novo título afirmando que seria um sucesso e prometeu se demitir se não conseguisse, eles finalmente cederam.

Em janeiro de 2011, a própria Ikeda Riyoko cantou em um recital realizado no Palácio de Versalhes como parte do Festival Internacional de Quadrinhos de Angoulême. (©︎ Jiji)

Ideais de empoderamento feminino

Enquanto Maria Antonieta e o Conde Axel von Fersen são figuras históricas genuínas, a bela vestida de uniforme militar Lady Oscar nasceu inteiramente da imaginação de Ikeda, embora inspirada na história real de um sargento da Guarda Real que decidiu ficar do lado dos cidadãos revoltados. Em uma entrevista de 2013 para a revista feminina Fujin Kōron, ela lembrou como a decisão de retratar Oscar como mulher surgiu em parte de sua própria incapacidade de capturar de forma convincente as realidades de um oficial militar do sexo masculino em um mundo masculino. Mas ela também revelou que a personagem pretendia ser um símbolo de desafio contra uma sociedade que ainda não conseguia reconhecer os talentos e perceber as mulheres como indivíduos.  No entanto, embora isso possa evocar a ideia de Oscar como uma figura um tanto severa, lutando por aceitação em um mundo masculino, a personagem em si não poderia ser mais diferente.

No livro Ikeda Riyoko no sekai (The World of Ikeda Riyoko), uma antologia publicada em 2012 para comemorar o quadragésimo aniversário da Rosa de Versalhes, Yoshinaga Fumi, uma mangá-ka contemporânea que também se envolveu em temas históricos, incluindo a Revolução Francesa, descreveu o apelo único do trabalho de Ikeda: “Ela retrata uma sociedade idealizada, na qual cada indivíduo vive uma vida autêntica. Mas ela combina isso com um forte foco no entretenimento que não encontra rival em nenhum outro lugar.”

E ninguém é mais atraente do que Lady Oscar. Uma joia entre a sociedade aristocrática, encantando nobres de ambos os sexos com sua combinação de beleza, força e sabedoria, mas também possuidora de uma compreensão dos tempos em que vive, a compaixão para ter empatia com os menos afortunados e a autoridade para dobrar outros ao seu comando. A narrativa romântica da personagem não é menos colorida, começando com um interesse não correspondido por Axel von Fersen até descobrir e, finalmente, retribuir os afetos de André Grandier, seu companheiro de infância, depois criado e, finalmente, subordinado do regimento.

Contra o pano de fundo da revolução, apesar de seu status privilegiado, Oscar nunca cogita a ideia de fugir para outro país. Da mesma forma, André jurou permanecer ao seu lado, e é esse conto de barreiras de classe em uma época de convulsão social que dá à história sua pungência.

Apelo Internacional Atemporal

Desde sua primeira aparição, A Rosa de Versalhes liderou as pesquisas de popularidade dos leitores e, ao longo dos anos, atingiu um recorde de 15 milhões de volumes. O trágico arco de amor de Oscar e André foi particularmente instrumental para capturar os corações do público, e o lançamento da parte em que Oscar finalmente encontra seu fim mergulhou muitos fãs em um poço de desespero.

Até 2014, a adaptação musical da Takarazuka Revue de A Rosa de Versalhes foi apresentada para cerca de 5 milhões de espectadores nos 40 anos desde sua estreia em 1974. Foto tirada em uma apresentação de 17 de fevereiro de 2006 no Tokyo Takarazuka Theatre. (©︎AFP/Jiji)

Em 1974, a história recebeu uma adaptação musical da icônica companhia de teatro feminina Takarazuka Revue. E enquanto o plano inicialmente encontrou oposição de fãs dedicados do mangá, a produção se tornou um enorme sucesso. Isto foi seguido em 1979 por uma série de anime para a TV, que, como as versões impressa e teatral, continua sendo objeto de afeição e discussão generalizada, inclusive na França, onde a série foi transmitida a partir de 1980. Com a paixão dos fãs inalterada, mesmo depois de 50 anos, pode-se dizer que o trabalho de Ikeda tem um apelo atemporal que transcende as fronteiras nacionais e geracionais.

Se você me perdoar por encerrar com o que pode parecer uma digressão repentina, gostaria de falar sobre um colega mais velho meu, que em seu tempo foi amplamente elogiado como um editor genial e ganhou um grande prêmio literário. Ele sustentou por muito tempo que todas as séries de mangá comercialmente bem-sucedidas tratavam essencialmente de temas de amizade homossocial, em vez de amor heterossexual. Devo admitir que achei seu argumento convincente, dada a presença de sucessos como a clássica série de boxe de 1968-73 Ashita no Joe (Tomorrow's Joe), mas sempre senti de alguma forma que os mangás shoujo eram uma exceção. Quando eu fiz essa proposta para uma famosa artista de mangá, ela contemplou a questão por um tempo antes de concluir: “Não, mangás shoujo não são diferentes”.

Às vezes ainda me pergunto se A Rosa de Versalhes, com seus dois arcos de história românticos, pode ser uma exceção a essa regra, mas quanto mais considero a obra, menos certeza tenho. O que você acha?

Joia comemora os 50 Anos do Mangá da Rosa de Versalhes

Estava procurando alguma notícia recente sobre os 50 anos do mangá da Rosa de Versailles (ベルサイユのばら), porque o primeiro capítulo da série foi publicado na Margaret em um 21 de maio, e acabei me deparando com uma notinha do Comic Natalie de 23 de abril.  Trata-se do lançamento de uma medalha comemorativa de ouro da série.  


Trata-se de uma joia de ouro em edição limitada, claro, e com o rosto de Oscar.  O preço com as taxas para postagem no Japão é de 109,780 ienes, em valores de hoje, 4255,68 reais.  A venda está sendo feita, se não terminaram as unidades, eu estou atrasadíssima, on line no site da PREMICO e o produto será enviado em início de junho.

Acabei não encontrando matérias recentes sobre os 50 anos da Rosa de Versalhes.  Até sábado deve sair alguma coisa nos sites japoneses, eu imagino.  Para ver todas as fotos, visite o CN.  E eu não entendi o rosto da rainha Elizabeth  II nesta foto, acredito que seja para comparativo de tamanho.

terça-feira, 17 de maio de 2022

#Bridgerton de novo: Série da Netflix decide adiantar o livro 4. O que será da história de Benedict?

Ontem, a notícia importante sobre Bridgerton foi a antecipação da história de Penelope  (Nicola Coughlan), que sabemos ser Lady Whistledown, e Colin Bridgerton (Luke Newton).  Se a sequência dos livros fosse mantida, a próxima temporada deveria cobrir o livro An Offer From a Gentleman (Um perfeito cavalheiro), a história de Benedict (Luke Thompson).  Estou surpresa com mais mudanças, porque a série tem se afastado um tanto dos livros, não.  Jess Brownell, a nova showrunner da série depois da saída de  Chris Van Dusen, deu uma entrevista para a Variety dandp algumas explicações que não explicam nada.  "Benedict será muito importante na terceira temporada."

Olha, não sou apaixonada pelos livros a ponto de reclamar, eu torço mesmo para que juntem mais e uma história em uma temporada, porque acho oito muita coisa.  De qualquer forma, vou voltar na minha aposta lá da primeira temporada.  Acredito que a série vá conduzir Benedict para a bissexualidade, ou algo próximo.  Não imagino que ele vá ter uma história como a do livro, do qual só li o resumo até o momento.  O Benedict poderia ser Bi sem problema e poderíamos ter uma história bem ousada em torno dele.  Afinal, já meteram o pé mesmo nessa coisa de que ele é meio louquinho por ser artista.

Por outro lado, não vejo grande graça em Colin, no que aparece na série.  Gosto muito da Penelope e acompanhava a Nicola Coughlan desde Derry Girls, que eu preciso terminar de assistir.  Olhando a série da Netflix, acho que Penelope merecia coisa melhor.  E eu realmente não suporto ver esse monte de homem que não vai herdar título sem fazer nada nessa família e nenhuma palavrinha sobre Guerras Napoleônicas.  Um dos moços Bridgerton deveria estar na guerra, mas, nesse caso, estão mantando o que a autora escreveu.  Fora isso, Bridgerton é história alternativa mesmo.  

É isso.  Colin e Penelope juntos na próxima temporada e que venha logo.  O livro dos dois é Romancing Mister Bridgerton (Os segredos de Colin Bridgerton).  Quem quiser ler os meus outros textos sobre a série, eles estão aqui: 1-2-3-4-5-6.

domingo, 15 de maio de 2022

Comentando Como pensam evangélicas, que podem definir eleição para presidente (BBC/2022): Como a defesa da "família" pode selar o destino do país

Me pediram para fazer uma resenha do excelente documentário da BBC chamado Como pensam evangélicas, que podem definir eleição para presidente.  O povo está querendo que eu tenha uma crise de gastrite, porque a história da caderneta da gestante e este vídeo acabaram com meu humor por hoje.  E não se trata somente, no caso do documentário, de uma possibilidade da reeleição do atual presidente, mas do nível de degradação espiritual e intelectual que parece imperar no meio evangélico do qual eu fiz, ou faço, parte.  Eu realmente não sei mais, porque não consigo me conectar com o tipo de Cristianismo que parece estar na moda nas igrejas evangélicas do Brasil.

E escrevo isso, porque há toda uma necessidade de parte das entrevistadas em justificar como, mesmo com tudo o que está acontecendo no país, elas irão repetir o seu voto em Bolsonaro.  Eu me senti mal, estou me sentindo muito mal mesmo, porque eu já escrevi outras vezes e mantenho, nem todos os que votaram em Bolsonaro são maus, mas todos os maus votaram em Bolsonaro.  Agora, se quatro anos depois, com tudo o que ele fez e deixou de fazer, com as vítimas da pandemia, e ainda é capaz de defendê-lo, não há salvação.  O vídeo do documentário está abaixo:

Logo abaixo do vídeo temos um resumo do que se trata e irei reproduzir aqui: "Quase 70% de evangélicos votaram em Jair Bolsonaro no segundo turno da eleição de 2018, que o elegeu presidente. Naquele ano, os evangélicos definiram o resultado, dando 11 milhões de votos a mais a Bolsonaro na disputa com o candidato do PT, Fernando Haddad.  Mas, neste ano, pesquisas de intenção de voto mostram que a presença do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva na disputa tem provocado rachas nesse eleitorado – homens evangélicos continuam com Bolsonaro, mas as mulheres estão praticamente divididas entre os dois candidatos, conforme as últimas pesquisas de opinião.  E, segundo especialistas, são as evangélicas, que em sua maioria são de baixa renda, pretas e pardas, que poderão definir quem vai presidir o Brasil a partir de 2023. Afinal, elas são quase 60% dos evangélicos no Brasil.  Para entender o que busca esse eleitorado, nossa repórter Nathalia Passarinho viajou para Brasília, Rio de Janeiro, São Paulo e Bahia e conversou com evangélicas que pretendem repetir neste ano o voto em Bolsonaro em 2018 e outras que mudaram de opinião.  Nas entrevistas, algumas questões chamaram a atenção: a conexão com candidatos que falem em "proteção da família", a decepção com a gestão da pandemia, o medo de perda de controle sobre o que filhos aprendem na escola e a demanda por medidas nas áreas de saúde, educação e segurança."

É algo assentado, tanto nos meios acadêmicos, quanto nos jornalísticos, que o voto evangélico definiu as eleições em 2018 e pode decidir novamente.  Muito bem, ao que parece, dentro do grupo dos evangélicos, e não adianta querer separar os neopentecostais dos demais, porque está tudo muito mais misturado do que alguns parecem crer, e digo mais, não é de hoje, é coisa que vem lá dos anos 1990, as mulheres parecem estar repensando seu voto.  Será mesmo?

Entre os homens evangélicos, e o documentário fala disso a partir de conversas com especialistas, a adesão ao presidente continua muito grande.  Isso, aliás, é apontado pelas pesquisas.  Visto como um "modelo de masculinidade", seja lá o que isso signifique, os homens evangélicos se identificam com a "espontaneidade" do presidente e sua (suposta) coragem e humildade, que vai de encontro a uma manipulação discursiva de textos bíblicos.  Bolsonaro seria indigno e, por isso mesmo, Deus faria milagres através dele.  Neste momento, aquele vídeo de Malafaia dizendo “Deus escolheu as coisas loucas, escolheu as coisas fracas, escolheu as coisas desprezíveis, por isso ele escolheu você, Bolsonaro!”.  Muito bem, continuam esperando pelo milagre.

um texto da BBC resumindo o documentário e o cito aqui: "A face típica do evangélico no Brasil é feminina, negra e jovem: 58% são mulheres, 59% são pretos ou pardos e mais de 60% têm entre 14 e 44 anos. Os dados são de uma pesquisa Datafolha de 2020, a mais ampla feita até agora sobre o perfil do evangélico brasileiro."  O documentário entrevista mulheres evangélicas na Bahia, Rio de Janeiro e Brasília.  Contrariando uma fala logo do início do documentário, que afirma que a maioria das eleitoras evangélicas é jovem, negra e periférica, o documentário entrevista poucas mulheres jovens, a maioria tem mais de 40 e, para efeito de senso, juventude vai até os 35 anos.  Nas igrejas batistas, as organizações de jovens também seguem esse padrão, só para dar o exemplo.  Fez 36, não fica mais na Mocidade.  Antes dava até briga isso.  Agora, há uma coerência na amostragem que é selecionar somente mulheres pentecostais e neopentecostais.

Alexia Pimenta, uma pastora de 22 anos de Belford Roxo (RJ), cidade onde mora o meu irmão, é uma dessas jovens com destaque no filme.  Só que ele dá um grande espaço a uma pastora de Brasília, Jacqueline Rolim, que destoa do recorte proposto.  Ela não se identificou como negra na sua fala, não é jovem e parece muito mais com aquele eleitor médio de Brasília que votou por vários ciclos eleitorais no PT, mas que, em um dado momento, abraçou o antipetismo.  Rolim decidiu se desculpar publicamente por seu voto em Bolsonaro quando ele debochou das vítimas de COVID com falta de ar.  Ao fazer isso, tornou-se alvo de retaliações.

Jacqueline Rolim aponta a falta de amor cristão de Bolsonaro, mas destoa das demais por não abraçar a agenda moral em seu discurso.  Ela se decepcionou com o PT por causa das acusações de corrupção, enquanto as demais falam de "liberdade religiosa" e de "família", a palavra chave nessa questão toda, ao que parece.  E cito Jaqueline Teixeira de novo: "Essas mulheres, quando falam em respeito à família, estão abordando as posições das pessoas dentro do contexto familiar. Então, filhos que obedecem e respeitam seus pais, coisas que crianças de determinada idade não podem ver. E esse temor de perda de controle foi muito instrumentalizado na eleição de 2018 e deve voltar a ser explorado nas campanhas deste ano."

As fake news investem pesadamente no discurso de que a esquerda impõe pautas a toda a coletividade.  Como não poderia deixar de ser, a questão dos direitos dos LGBTQIA+ é invocada.  Também se fala de uma velha mentira, oriunda lá da eleição de 1989 e passada dos púlpitos de igrejas neopentecostais, porque lembro da minha tia Rute repetindo essas bobagens, de que o PT iria fechar as igrejas.  Quando vim para Brasília, em 2001, lembro da primeira eleição e das centenas de folhetinhos, que imagino que tenham sido jogados de helicóptero com essa mesma balela.  Quatro governos do PT, nada nesse sentido foi feito, mas a historinha continua a circular, ganhar novos matizes e detalhes. 

A ameaça comunista curiosamente não apareceu no documentário, mas uma pastora do Rio, Raquel Prado, afirmou que os jovens vão para a universidade são cooptados por ideologias sem explicar quais.  "Eu vejo famílias perdendo os seus filhos para ideologias."  De novo, o conflito com a família, os valores aprendidos.  Agora, que família é essa, e as famílias evangélicas são plurais, quais valores são esses, nada é aprofundado.  O que sinto falta nesse material discutindo os evangélicos é uma amostragem do tipo de família que temos nas igrejas.  Nas comunidades pobres, e eu sou de São João de Meriti (RJ), é muito comum termos avós que cuidam de netos, mães solo, o filho "marginal" que volta e meia retorna ao lar e à igreja, separações que são acomodadas, ou não, pela comunidade, sujeitos com mais de uma família e que se mantém ativos na igreja (*que finge não ver*), o irmãozinho ou irmãzinha que se mantém no armário e tem espaço na igreja por ser filho/a de alguém importante etc.  Parece que quem estuda o grupo não se preocupa em confrontar o ideal de família, se é que ele existe, ou quais são, e as famílias reais, quais as angústias e dores dessas pessoas.

O que fica evidente na maioria das falas, maioria mesmo, é que mesmo decepcionadas com o governo atual, a agenda moral, na verdade o terror em relação a temas sensíveis, é o maior definidor do voto.  Para justificar, temos de tudo.  Desde mulher negra dizendo que nunca sofreu racismo na vida, nem ninguém de sua família, ainda que saiba que ele existe, até a pastora Alexia contando um caso horrível de racismo sofrido por sua irmã e irmão para, em seguida, afirmar que não votaria em racista e que Bolsonaro não é racista.

O documentário segue para o Nordeste e diz que foi a única região onde Bolsonaro não venceu.  Em Salvador, entrevista Luciene Pereira, assistente social, e a típica irmã da Assembleia de Deus que é reconhecível em qualquer lugar do país.  Uma mulher com sólida formação intelectual e, muito provavelmente, respeitada em sua comunidade.  Ela arrasa Bolsonaro: "Como presidente de uma nação, ele podia usar a mídia para dar um conforto às famílias que estavam perdendo seus entes queridos. Muitas vezes a gente se sentia abandonado, tipo solto, como se não tivesse ninguém por nós. A gente sentia como se ele estivesse legislando contra nós brasileiros, ele sendo o nosso presidente."  Ela certamente não irá votar em Bolsonaro?  Certo?  Observe o print abaixo:

Pereira vai criar uma série de escusas para continuar votando em alguém que não se qualifica como cristão.  Ele é o único que fala de família.  Todos os políticos mentem.  Por fim, a jornalista lhe mostra o vídeo da Hebraica (RJ), aquele que envergonha uma parte da comunidade judaica, aqueles que estavam protestando do lado de fora, e no qual Bolsonaro chamou Laura de fraquejada, e disse que viu quilombolas que deveriam pesar mais de sete arrobas e que não serviam nem para procriar.

É visível a angústia e a perplexidade no rosto de Luciene.  Eu me senti mal de olhar a reação dela, porque parecia carregar um grande sofrimento.  Ela efetivamente não conhecia o vídeo.  Só que, assim que terminou, ela começou a levantar escusas para o presidente. Ele não deveria dizer o que disse, o problema, segundo ela, é que ele se expõe, enquanto Lula não faz isso.  Por fim, Luciene reafirma que o voto dos evangélicos não é determinado por pastor, que há autonomia.  Eu realmente acredito que isso seja uma verdade em muitos sentidos, no entanto, o público em questão parece facilmente manipulável pelo terror moral, um dos pilares do fascismo, segundo Jason Stanley.

E, no fim das contas, como ficou sugerido, Bolsonaro não precisa nem falar a verdade, basta falar em "família", "Deus", "liberdade religiosa".  Resta saber, claro, se os adversários irão deixar que ele monopolize a eleição com suas pautas morais, ou trarão para a ordem do dia a inflação, a fome, desemprego, acesso à educação, aposentadoria, a violência e mesmo a corrupção.  Ainda assim, não sei se a agenda moral conjugado com o discurso de que os humilhados estão sendo exaltados neste governo não irá definir novamente a eleição e teremos que ouvir a ladainha do ruim com ele, mas, pelo menos, ele se fala da família.  Pronto, era resenha que vocês queriam?  Está aí.

Caderneta da Gestante é mais uma prova de que o governo está em guerra contra as mulheres

Quando estava grávida de Júlia e nos primeiros anos dela comigo, minha filha completa 9 anos em outubro, escrevi várias vezes sobre parto humanizado e violência obstétrica.  Não me desinteressei do tema, mas confesso que me afastei um pouco dessa militância.  Muito bem, sigo a professora e médica Dr.ª Melania Amorim e vi uma postagem dela falando contra episiotomia, ou ponto do marido, e manobra Kristeller.  Eu passei batida e segui em frente, mas me deparei hoje com a matéria do Intercept sobre o lançamento da polêmica Caderneta da Gestante, como uma das ações comemorativas do Dia das Mães.  Trata-se, ao que parece, de um show de horrores, mas que contempla plenamente ou interesses do grupo de médicos cesaristas, que odeiam as doulas, e adeptos de práticas duvidosas que configuram violência obstétrica, termo que eles querem banir, e que apoiaram fervorosamente a eleição do atual presidente.  Cito parte da matéria do Intercept de autoria de Bruna de Lara:

"O MINISTÉRIO DA SAÚDE, na figura do secretário de Atenção à Saúde Primária Raphael Câmara, anunciou na última semana o lançamento da sexta edição da Caderneta da Gestante. Serão distribuídos mais de três milhões de exemplares pelo SUS, todos com o preocupante estímulo a uma prática violenta e ultrapassada: a episiotomia, corte feito na vagina durante o parto para facilitar o trabalho do médico. Em 2018, a Organização Mundial da Saúde reconheceu que não há qualquer evidência científica que apoie a realização da episiotomia.  O documento ainda promove uma diretriz duvidosa ao ressaltar a amamentação exclusiva como método para prevenir uma nova gravidez nos primeiros seis meses após o parto, apesar de complementar que esta proteção não é plena. Raphael Câmara, vale mencionar, é um fervoroso defensor da promoção da abstinência sexual como contracepção para jovens, opondo-se ao ensino do uso de contraceptivos.  Pior: no evento que lançou a caderneta, Câmara defendeu abertamente não só a episiotomia – considerada uma “mutilação genital” por Marsden Wagner, ex-diretor da área de Saúde da Mulher e da Criança da OMS – mas também a realização da manobra de Kristeller. Ela consiste em fortes empurrões e apertos na barriga da gestante feitos com as mãos, braços ou cotovelos durante o parto – isso quando o profissional de saúde não sobe na barriga da mulher. No mesmo documento de 2018, a OMS os destacou como uma fonte de “grande preocupação” pelo potencial de “dano à mãe ou ao bebê”."

Eu estou realmente alterada por ter lido o que li.  A guerra contra as mulheres neste país não é somente contra as que não querem gerar, as que não querem parir e desejam interromper uma gravidez, mas contra todas sem distinção.  O que o documento lançado por este governo defende é a legitimação da violência obstétrica mais grosseira e da desinformação, como no caso da amamentação exclusiva como meio eficaz de contracepção.  No fim das contas, é dar viés científico à práticas duvidosas, ou condenadas pelas organizações médicas no Brasil e no Exterior.  Este post, portanto, tem o objetivo de informar, mas, também, de externar a minha indignação, meu horror, meu nojo.  

E se você acredita que a sua episiotomia foi necessária como conforto já que seu/sua obstetra é tão bonzinho, trata-se de uma forma de consolo para a sua dor e, talvez, ele ou ela nem soubesse realmente do mal que estava lhe causando.  Agora, tenha certeza de que seu bebê não foi salvo por um corte cujo intuito é apressar o parto e supostamente não alargar você e desagradar o seu marido, ou parceiro.  Por favor, me poupe do seu comentário, ele será apagado.  

A violência contra as mulheres é algo que se perpetua, porque somos levadas a acreditar que é normal, ou que merecemos, ou que não pode ser diferente.  Ser feminista é se preocupar com as mulheres e respeitar suas opções, gerar, ou não gerar uma vida, por exemplo, não apoiar que sejam enganadas para que não reflitam sobre sua condição de opressão.  Se você quiser ver os posts que a Melania fez no Facebook, é só clicar:  - 1 - 23 - 4 - 5.

Quais os animes sobre profissões que mais inspiraram os japoneses? Célula é uma profissão?!

O Gooranking faz umas pesquisas curiosas, a última que eu vi e decidi traduzir aqui é sobre qual o anime focado em uma atividade profissional mais motivador que você já assistiu.  Acabei descobrindo que existe um termo para esse gênero, Oshigoto Anime (お仕事アニメ).  Sempre é bom aprender alguma coisa, ainda que um anime sobre balé, teatro, ou esportes facilmente cairia nesse gênero, ainda que não seja...  Ou será que eles se cruzam.  Achei o número de votantes baixo, somente 525, mas é interessante de qualquer forma e há séries que eu gosto muito na lista fora, claro, que a profissão do primeiro colocado...  Vamos ao ranking:

1. Hataraku Saibou/Working Cells (Célula)*** - 105 votos - COMO ASSIM?!  Eu esperava Biólogo, mas...
2. Hakozume ~Koban Joshi no Gyakushuu~/Police in a Pod (Policial) - 49 votos
3. Blackjack (Médico) - 41 votos
4. Uramichi Oniisan (Apresentador de Programa Infantil) - 34 votos
5. Oishinbo (Jornalista) - 29 votos
6. Uchuu Kyoudai (Astronauta) - 28 votos
7. Nodame Cantabile (Músico) - 24 votos
8. Hataraki Man (Editor) - 21 votos
9. Bakuman。(Mangá-ka) - 17 votos
10. WORKING!! (Funcionário de um restaurante familiar) - 14 votos
14. Gekkan Shoujo Nozaki-kun (Mangá-ka) - 11 votos (shounen)
24. Ranwei de Waratte (Estilista e Modelo de Passarela) - 7 votos (shounen)
27. Shiroi Suna no Akuatōpu (Funcionário de Aquário) - 5 votos (anime original)
27. Arte (pintor) - 5 votos (seinen)
27. Dōkyonin wa Hiza, Tokidoki, Atama no Ue。(Novelista) - 5 votos
34. Showa Genroku Rakugo Shinjuku (Rakugo/Contador de Histórias) - 3 votos
34. Mayonaka no Occult Koumuin (Funcionário Público) - 3 votos


***Para quem não sabe, Cells at Work, que é muito elogiado pelo pessoal da Biologia, tem anime que está na Netflix e o mangá está em pré-venda pela Panini.

Thread no Twitter lista todos os golpes das sailors no anime clássico

Sailor Moon (美少女戦士セーラームーン) completando trinta anos e um perfil do Twitter decidiu listar os golpes de todas as sailors em todos os 200 capítulos do anime clássico. Começou com as inner senshi (Moon, Mercúrio, Marte, Júpiter e Vênus), não sei a pessoa vai levar a coisa até o fim e incluir as outras sailors.  E não sei se a pessoa pegou tudo, mas estou colocando o Thread aí embaixo.  Fiz o post para não esquecer e poder checar de tempos em tempos.