segunda-feira, 31 de julho de 2017

Para quem quiser ouvir o Shoujocast


Lá em 2009, eu decidi criar um podcast.  Começou de forma bem precária.  Aí, o amigo Anderson sugeriu um nome "Shoujocast".  Vieram companheiras, a Lina Inverse, depois a Tanko e, por fim, a Tabby e, bem, fizemos 52 programas.  Pouco, eu sei, mas as agendas desencontraram.  Sempre penso em voltar, mas ainda não houve como.  Bem, eu queria disponibilizar os programas, mas descobri que não tinha todos. Perguntei se a Lina tinha.  Ela organizou tudinho e disponibilizou para download (*AQUI*).  Tudinho, não, faltou o programa 52, então, coloquei no Youtube.



Eu parei para escutar um dos meus programas favoritos o duplo sobre Orgulho & Preconceito e foi um prazer muito grande ouvir a voz das amigas queridas e da convidada especial, a Adriana Salles.  Que conversa legal foi aquela.  Enfim, se você quiser relembrar, ou conhecer o Shoujocast, esta é a oportunidade.

terça-feira, 23 de maio de 2017

E eu descobri que Roger Moore estava em um dos filmes da minha infância


Hoje, morreu Roger Moore.  Ele foi o primeiro 007 que eu conheci. Depois, bem depois de ter visto uns três filmes com ele, assisti ao primeiro com Sean Connery.  Sempre achei o Roger Moore um sujeito bem bonito, charmoso e coisa e tal, mas nunca me convenceu como ator, não me lembro de nenhum filme com Moore onde seu desempenho tenha me impressionado. Só que, graças ao falecimento dele, acabei descobrindo que um dos meus filmes da infância, que eu vi sei lá quantas vezes na Sessão da Tarde, era com ele.  O nome em português é O milagre (The Miracle) e ele foi feito em 1959.

A freira amaldiçoada e seu capitão.
O filme se passa na Espanha durante as Guerras Napoleônicas.  A protagonista é uma postulante à vida religiosa, Teresa (Caroll Baker), muito devota à Virgem Maria, mas dada à cantar canções de amor e ler livros mundanos.  Um dia, pelas grades do convento, ela vê um regimento britânico e cai de amores por um capitão (Roger Moore).  Depois de uma batalha, a madre superiora permite que os soldados feridos sejam tratados no convento e Teresa descobre o nome do capitão, Michael Stuart, e os dois se apaixonam e ele a pede em casamento.  Teresa não tem coragem de fugir do convento e passa a viver em profunda contradição.


Numa noite, depois de rezar e pedir um sinal (*que não vem, ou ela não compreende*) diante da estátua da Virgem, ela decide fugir e ir em busca do capitão, abandonando suas vestes religiosas.  É uma noite de tempestade e a cena, à época, me impressionou bastante.  A partir daí, só tragédia. Os homens que Teresa conhece pelo caminho todos se apaixonam por ela e morrem de forma trágica.  Quando, depois de algum tempo, ela reencontra seu capitão, ele continua a amando, mas ela sabe que ficar perto dele é atrair a desgraça.  Depois de ver uma sombra vermelha, e temendo pela morte do moço, ela decide abandoná-lo e voltar para o convento, se humilhar e fazer penitência.  O que ela descobre é que, enfim, ninguém tinha dado por falta dela, pois a Virgem Maria tinha tomado o seu lugar.

Casal cinematograficamente perfeito para os padrões dos anos 1950.
O verbete da Wikipedia diz que o filme é baseado em uma peça de teatro de 1911, que se passava na Idade Média, no entanto, a história está em As Pupilas do Senhor Reitor, que eu li já na adolescência.  O livro é de 1866, ou seja, a lenda era conhecida bem antes em Portugal.  Eu tenho certeza que a história de origem é de fato medieval, que circulava na forma de cantiga, enfim.  De qualquer forma, foi bom descobrir e, bem, não sei se teria coragem de rever o filme hoje e estragar minhas memórias infantis.  Deve fazer, pelo menos, uns 30 anos que assisti pela última vez.

Live and Let Die
De resto, não lembro de Roger Moore por causa do filme, mas por seu 007 mesmo.  O Espião que me Amava e Com 007 Viva e Deixe Morrer (*Live and Let Die é uma música que adoro*) foram os filmes com ele que mais gostei.  Enfim, Moore já tinha 89 anos, viveu uma longa vida, espero que tenha sido feliz e será bem lembrado pela sua longa carreira como 007, o Santo, Ivanhoé etc.

segunda-feira, 22 de maio de 2017

Rever um material pode ser uma experiência bem surpreendente


Semana passada, fiquei assistindo uns fragmentos de novelas no Youtube.  Nada sério, mas a gente perde tempo e começam a aparecer sugestões naquelas janelinhas marotas.  Resultado?  Acabei mergulhando na Casa das Sete Mulheres.  lembro que assisti em 2003 e acabei não gostando de um monte de coisas. Minha lembrança era mais crítica do que positiva.  Lembro que detestava certos lenga-lengas, como Perpétua e Inácio, fora que achava a Daniela Escobar muito fora da idade para o papel de menina-moça.    Lembro que cheguei a comprar o livro, ler e não gostei dele.  Vendi.  Só que a minissérie é baseada não em um livro só, o A Casa das Sete Mulheres, mas em Os Varões Assinalados de Tabajara Ruas.  Fosse somente em A Casa, não veríamos os combates e mal teríamos contato com os homens que lutaram a Guerra.  Tenho a impressão que bebeu mais em Tabajara Ruas do que em A Casa e já comprei o livro no Estante Virtual.

As tais sete mulheres que, na série, são mais de sete.
Voltando ao ponto, ainda que gostasse muito de vários atores e atrizes do elenco, até hoje considero o melhor papel da Camila Morgado, acho que estava muito de mal humor, ou querendo exigir um rigor histórico muito grande, ou sem paciência para apreciar as traminhas românticas e o heroísmo de folhetim.  Revendo agora, me parece uma minissérie muito bem produzida, empolgante e muito bonita.  Bom para equilibrar com o terror do Conto da Aia.  Até me dei os DVDs de presente do Dia das Mães, eles devem chegar esses dias.  O problema é que a Globo edita muito mal suas minisséries e novelas.  Daí, a versão dos DVDs, que está no Youtube, elimina várias subtramas interessantes, reduzindo a participação de determinados atores e atrizes - em especial os criados e escravos - a quase nada.

Rosário e seu fantasminha.
Para a minha sorte, achei um sujeito que subiu os capítulos exibidos, provavelmente, na Croácia.  Sei que houve alguma edição, afinal, 53 episódios viraram 48, mas não é nada comparado com a tesoura da Globo.  Enfim, devo fazer outro post bem mais longo sobre a série, mas digo que mudei totalmente a minha visão dela.  Continuo vendo problemas, um deles, gritante, o luto é curtíssimo.  Do jeito que morre gente da família, as mulheres deveriam só andar de preto.   Mas deixa pra depois.  

Para aprender croata.
Lembro que, na época que assisti, achava a Rosário um porre, agora, a vejo como uma fofinha louca.  Já Manuela, bem, é uma das personagens mais chatas e intragáveis que já protagonizaram qualquer coisa.  Não é a Manuela do livro, dela, eu gostava, é a sua reinvenção para a tela que não me desce.  Fora, claro, que na sua obsessão por Garibaldi, ela ainda pisoteia o coração do bonzinho do Joaquim e do Teixeira Nunes.  Aliás, que homens idealizados esses de A Casa da Sete Mulheres.  mas está OK, em momentos que a gente precisa desanuviar, esse tipo de material é ótimo mesmo.  É isso!  Às vezes, vale a pena rever certas coisas.  Obviamente, não tenho intenção de rever os filmes que colocarei no meu post sobre "os que nunca assistirei de novo".  De repente, no fim de semana que vem escrevo sobre eles.

Shounen Oujo pode ser um mangá interessante


Estava passando pelo Goboiano, um site que sempre tem alguma coisa interessante para se ver, e me deparei com uma lista (*eles adoram fazer listas*) de 8 mangás que são subestimados. Enfim, no meio da lista, dois eram shoujo, um deles, Shounen Oujo (少年王女), me chamou a atenção.  

O mangá, que sai na revista Sylph, tem 5 volumes até o momento, todos com scanlation (!!!), e conta a história de um rapaz chamado Albert que é sequestrado por traficantes de escravos.  Obviamente, estamos em um mundo que não é o nosso, OK?  Ele termina sendo comprado pela princesa Alexia, uma jovem que, para a surpresa do rapaz, é seu sósia.  A princesa compra Albert para que ele seja seu escravo particular e assuma o seu lugar (*trata-se de um kagemusha*), para que ela possa sair pelo mundo incógnita.  Ela promete libertar o rapaz assim que atingir sua maioridade e assumir o trono.  Só que, em uma dessas escapadelas, a princesa é morta e Albert, para evitar uma crise política, assume o lugar dela.


Bem, não tive tempo de ir atrás das scanlations ainda, mas me pergunto logo de cara: será que a princesa morreu mesmo?  Outra coisa é saber se mais alguém conhece o segredo.  Parece um mangá feito na medida para virar anime, mas é shoujo, então... De qualquer forma, a arte de Utako Yukihiro parece ser interessante.  Está na minha lista de futuras leituras.

P.S.: Consegui lugar para baixar as scanlations em inglês (*AQUI*) e passei os olhos pelo primeiro capítulo.  Albert é sequestrado e comprado, junto com um amigo, o pequeno Theodore, por sujeitos mandados pela princesa, que é uma menina mimada e arrogante.  A sociedade onde a história se passa é dominada por mulheres, elas comandam, os homens, obedecem.  Albert se recusa a obedecer no início.  A princesa se enfurece e pega uma espada, se ele não obedece, não merece viver.  Theodore acaba ferido, a princesa parece mortificada, um de seus auxiliares, Guy, o moreno da segunda imagem, lhe toma a espada e diz que pode matar Albert.  O garoto pede clemência pelo amigo, pede que o curem e ele se submeterá.  O tom cômico não consegue disfarçar que a história é meio tensa, não.

Mais seriados feministas saindo do forno? Acho que SIM!


Estou desde a semana passada com uma matéria aberta aqui no meu computador, A Mão Esquerda da Escuridão (Left Hand of Darkness), de 1969 e vencedora do prêmio Hugo, em 1969 e do prêmio Nebula, em 1970, vai virar série de TV.  De acordo com a Variety, a empresa de desenvolvimento e produção Critical Content assinou diretamente com Ursula K. Le Guin.  Ainda não há maiores detalhes, mas suspeito que o sucesso de The Handmaids Tale fez com que o pessoal crescesse o olho para o material de ficção científica produzido por mulheres feministas.  

A Mão Esquerda da Escuridão mostra a confusão de um humano ao se deparar com uma sociedade na qual os papéis de gênero e a sexualidade não são binárias.  "Shame on Me", mas tenho este livro e não sei onde coloquei.  Perdi no meio da minha bagunça e não terminei de ler... Detalhe é que conheci Le Guin graças ao livro/filme O Clube de Leitura de Jane Austen.  Uma das personagens era fã da autora.


A outra notícia relacionada é de ontem e já está em pós-produção.  A Netflix adaptou uma obra de Margaret Atwood, a autora de The Handmaid's Tale, para uma minissérie em seis episódios.  Neste caso, trata-se do livro Alias Grace, de 1996.  A história, que tem roteiro de Sarah Polley, se passa no século XIX, conta a história de Grace Marks (Sarah Gadon), uma criada, que é acusada junto com James McDermott (Ker Logan), de assassinar o patrão da moça,  Thomas Kinnear (Paul Gross), e sua governanta, Nancy Montgomery (Anna Paquin), em 1843.  Trata-se de um caso real e, à época, havia quem defende-se a inocência de Grace Marks, que terminou tendo sua condenação de morte suspensa, mas cumpriu 30 anos de prisão.  É esperar para ver o resultado, vi a notícia na Entertainment Weekly.

domingo, 21 de maio de 2017

Adolescente brutalmente espancado por não chamar desconhecidos de senpai


Acabei tropeçando nessa notícia por acaso, mas, enfim, segundo o site News on Japan, um garoto de 15 anos, estudante do primeiro colegial, foi espancado por seis sujeitos, um deles de 20 anos e os outros cinco entre 16 e 18 anos por não os ter tratado adequadamente.  Segundo o mais velho dos agressores, ele não os tratou por “senpai”, palavra que é usada para os veteranos na escola e em outras instituições japonesas.  Os seis, então, levaram o garoto para um lugar ermo e o espancaram.  A polícia chegou e levou os sujeitos presos, mas a vítima teve ferimentos que demorarão, segundo a notícia, uma semana para sarar.


Isso é mistura de costumes tradicionais, as hierarquias sociais oriundas dos tempos dos samurais e comportamentos modernos de gangue.  De qualquer forma, algo inaceitável.  Se estivesse em um anime, ou mangá, talvez alguém considerasse exagerado, mas não é.

sábado, 20 de maio de 2017

Hollywood visita o Genocídio dos Armênios: Comentando A Promessa (The Promise, 2016)


Hoje consegui assistir ao filme A Promessa, primeira tentativa hollywoodiana de retratar o Genocídio Armênio no cinema.  Como toda primeira tentativa, está longe da perfeição, mas é um bom filme, que consegue atingir plenamente o objetivo de contar uma história, no caso a dos protagonistas presos no meio da carnificina e a de um povo submetido a uma limpeza étnica até hoje negada pelos turcos. Agora, o que faltou ao filme é romper com certa timidez e expor a violência de forma mais contundente.  Ela é mostrada, mas se comparo com Silêncio, por exemplo, A Promessa se apequena em uma questão que é fundamental para a película.

A Promessa é um filme que se propõe a narrar o horror do Genocídio dos Armênios a partir da experiência de três personagens que terminam por formar um triângulo amoroso. Tudo começa às vésperas da I Grande Guerra com o jovem Mikael Boghosian (Oscar Isaac), um jovem de uma família de apotecários que sonha em ser médico.  O sujeito não tem os recursos necessários para estudar em Constantinopla e aceita entrar em um noivado com a jovem Maral (Angela Sarafyan) e usar seu dote para completar os estudos.  Caberia a ele retornar e cumprir sua promessa de casamento, daí o título do filme, o mais rápido possível.

Chegando na cidade grande.
Em Constantinopla, ele se hospeda na casa de um tio rico, Mesrob (Yigal Naor), que o acolhe como se fosse um filho.  É na casa dos tios que ele conhece Ana (Charlotte Le Bon), tutora de suas primas, uma jovem culta, que viajou toda a Europa com o pai que era violinista, e que termina sendo o seu primeiro amor.  Só que Ana mantém um relacionamento com o jornalista americano Chris Myers (Christian Bale), que está empenhado em denunciar os abusos do governo turco contra as minorias do país.

Enquanto a guerra não vem, Mikael se empenha nos estudos, é um estudante brilhante e acaba fazendo amizade com Emre Ogan (Marwan Kenzari), um playboy cujo pai, que tem alto posto no governo Otomano, o deu duas escolhas: medicina ou o exército.  Mikael o ajuda a estudar e Emre apresenta ao jovem um mundo sofisticado que ele não conhece.  Mas vem a guerra e a situação dos armênios se torna precária e nem a amizade com Emre consegue trazer algum alento.  Armênios ricos, como tio de Mikael, tem suas propriedades tomadas, intelectuais são presos, pessoas são espancadas nas ruas.  É nessa tensão que Mikael e Ana admitem que estão apaixonados para, logo em seguida, serem separados pela prisão do moço que, a partir daí, conhece horrores que nunca imaginou.

Ana na sua forma "professora Helena".
O diretor de A Promessa é Terry George, um especialista, por assim dizer, em filmes políticos e sobre genocídios.  Ele tem no seu currículo, como diretor e/ou roteirista, Hotel Ruanda (2004) e Em Nome do Pai (1993).  Ele provavelmente foi a escolha certa para levar adiante um projeto tão importante.  Sim, repito, é um filme marco, um filme com grandes atores, Bale e Isaac, que se propõe a tocar em um caso espinhoso, uma ferida aberta.  Para quem conhece o mínimo de História do Holocausto dos judeus, ciganos e outros, acredito ser impossível não fazer a ponte direta com o que foi feito pelos turcos com a população de armênios do Império Otomano.

Ainda assim, o filme pega muito leve ao falar e mostrar o genocídio (*o autor do texto diz que o filme é um lixo, mas não é verdade*), o apagamento não somente físico, mas, também, cultural e religioso. Comentarei mais adiante.  Como fiz um post bem longo comentando o Genocídio Armênio quando soube do filme, vou ser mais breve aqui.  Primeira coisa a se estabelecer, é preciso entender que genocídio é crime de Estado, porque somente o governo pode dispor dos recursos humanos e materiais, além das permissões, para massacrar vilas inteiras, deportá-las para outras partes do país, colocá-las para trabalhar em serviços forçados, ou deixa-las morrer de inanição em campos de concentração, ou marchas da morte.  Segundo, os responsáveis pelos crimes de guerra, portanto, foram os altos oficiais do partido que controlava o país, os chamados “Jovens Turcos”; a maioria dos burocratas e militares que deram as ordens conseguiu escapar da prisão, ou execução, apesar das condenações do pós-guerra.

James Cromwell como o embaixador Mergenthau.
Havia mais de 2 milhões de armênios no Império Otomano quando do início oficial do genocídio, em 24 de abril de 1915, ao final da guerra, sobraram 388 mil armênios no país.  As estimativas são de 1 milhão e 500 mil mortos.  Toda a Armênia Ocidental, parte da antiga Anatolia, na Ásia Menor, teve sua população dizimada ou evacuada.  Parece que só sobrou uma vila armênia na Turquia atual e eles não falam do Genocídio.  Os soldados armênios convocados no início da I Guerra Mundial, e Mikael só escapa por ser estudante de medicina e pela intervenção de seu amigo Emre, foram desarmados e convertidos ao trabalho forçado.

O filme é de certa forma muito fiel ao mostrar a atuação dos norte-americanos como os primeiros a denunciarem o massacre.  Uma das personagens mais importantes nesse sentido é o Embaixador Morgenthau (James Cromwell), um homem que atuou de forma muito enérgica para denunciar o Genocídio quando ele estava em andamento, garantir que as notícias chegassem aos EUA, além de apoiar o trabalho de missionários e jornalistas e levantar fundos para ajudar os armênios em desespero.  Ele confrontou as autoridades otomanas e abandonou o cargo quando não conseguiu mais ter estômago para continuar.  Seu livro de memórias é, até hoje, uma das fontes de referência sobre o que aconteceu naqueles anos sombrios.  O ator, também um ativista pelos direitos humanos, falou com muita emoção do filme e de seu papel.

O duro trabalho nas pedreiras. Mikael come o pão que o diabo amassou no filme.
Li pelo menos uma resenha brasileira de A Promessa que acusava o filme de cair nos velhos esquemas de construção do herói branco salvador, da adulação dos norte-americanos. A crítica, claro, era à personagem de Christian Bale, um jornalista idealista, que arrisca a própria vida, e que teve um papel fundamental na denúncia do Genocídio e na tentativa de resgate de quantos armênios pudesse salvar.  Fora isso, estamos muito contaminados pela visão de que os EUA são o grande vilão do mundo e que seu povo não pode ser representado em tela em atitudes humanitárias sem que, bem, seja adulação, mentira, patriotada.  Desculpem, mas isso é generalizar para todos os momentos da História eventos isolados, ou abraçar a ideologia acima do que as fontes nos apontam.

Sei que a gente vive em um momento de profundo individualismo e incapacidade de sacrificar o bem-estar individual por causas maiores.  Tudo precisa ser por interesse.  Agora, posso sem problema listar heróis e heroínas que, em momentos nos quais seria muito mais lucrativo calar, não somente meteram a boca no trombone, mas largaram tudo, ás vezes, não somente uma vez, em prol de ideais mais nobres, ou de causas que acreditavam justas. Gente que, como dizia o cubano José Martí, esquece o seu mal quando cura o mal dos demais.   Jornalistas e missionários, durante o final do século XIX e até meados do século XX, às vezes eram os únicos na linha de frente, os que conseguiam mandar as imagens, os testemunhos, as provas, que se arriscavam para criar rotas de fuga.

Ana com Chris, aparentemente um casal.
O filme poderia assumir um outro olhar e, enfim, focar somente nos armênios e, não ter na atuação estrangeira outro ponto de apoio.  Talvez, um filme assim ainda seja feito, mas o fato de ter em um americano, que não era perfeito, vejam bem, era alcoólatra, e esse era um dos motivos que o estava afastando de Ana, em papel de destaque não torna o filme uma peça de propaganda norte-americana, ou uma revisitação aos clássicos dos anos 1960, com seu herói civilizador.  Obviamente, há algo de clichê em Chris, ele é o norte-americano destemido, que é capaz de burlar as leis, mentir, que é um tanto esquentado, mas que, e essa é uma das incoerências a apontar no filme, não andava armado.  De repente, era uma forma de proteção, se preso, ninguém poderia (*háháhá*) acusá-lo de atirar nas autoridades.  

Agora, é muito, muito improvável, que você saísse pelos interiores do Império Otomano, tentando mandar para o exterior um carregamento de órfãos, sem levar pelo menos um revólver.  Mas nem Chris é mostrado armado, nem o protagonista, Mikael, é capaz de atirar, mesmo para salvar vidas preciosas. Falando em Mikael, o filme começa de uma forma bem inusitada, afinal, o moço dá o golpe do baú para conseguir estudar medicina na capital.  Se o início não é lá muito clichê por assim dizer, o encantamento imediato dele por Ana ao vê-la dançar com suas primas meninas, é aquela coisa de romance água com açúcar.  Amor à primeira vista.

Ana e Mikael na missa cantada no 24 de abril.
Só que o sujeito, obviamente, está preso por amarras de honra.  Acredito mesmo que o título do filme “a promessa” se remeta ao juramento feito de voltar e casar com Maral, a moça da aldeia.  Somos levados a simpatizar com Ana, ela nós conhecemos, Maral é somente um lugar, representa a tradição, a honra e o dever.  Ana é moderna, faz desenhos para jornais e revistas, sabe línguas, música, exerce pontualmente a função de jornalista.  Curiosamente, o que me parece até certo ponto uma incoerência, ninguém a recrimina por sua vida livre, por manter um relacionamento aberto com um norte-americano, nem os tios de Mikael, que a contratam como professora, nem o moço, que é só encantamento.

No primeiro quarto do filme, já está definido que, a despeito da existência de Chris, que se ausenta para investigar os primeiros rumores do genocídio em uma comunidade grega, Ana e Mikael estavam irremediavelmente apaixonados e eram o par ideal.  Sim, sim, o genocídio foi de minorias cristãs em geral, mas os armênios eram uma minoria grande demais, por assim dizer.  Só que quando o tio, que tinha sido infeliz em seu primeiro casamento, que fora arranjado pela família e faz gosto na união do jovem com Ana, oferece para Mikael um escape, lhe daria o valor integral do dote, mais uma indenização para compensar Maral, o jovem recusa a proposta.  Era questão de honra casar com a moça, Ana precisa ficar para trás.  Quando Chris descobre o caso de Ana e mikael, quando o filme poderia mergulhar em um drama sentimental, vem o início do genocídio e o triângulo, o confronto não acontece.  E, bem, não deixa de haver romance, mas este não é o centro do filme.  A Promessa poderia se perder, mas salva-se por não se deixar arrastar para essa armadilha.

Nacionalistas nas ruas pedindo a morte dos armênios.
A família de Mikael começa a ser destruída a partir de Constantinopla e o rapaz é preso, apesar dos esforços de seu amigo turco.  A partir daí, como ele precisa permanecer no filme, afinal, Oscar Isaac é o protagonista, começa a sua jornada de sobrevivente improvável e retorno ao lar, que já encontra devastado.  Enviado para trabalhos forçados, ele descobre os horrores aos quais seu povo estava sendo submetido.  É na sequência da construção da ferrovia, ao conhecer um prisioneiro sobrevivente de outro campo de trabalho, que ele entende que, independentemente de qualquer coisa, o destino dos armênios era ser exterminado.  Restava saber se por inanição, frio, bala ou outro meio qualquer.

A melhor cena do filme, a mais terrível e libertadora, acontece exatamente no campo de trabalho.  Um dos prisioneiros, o sobrevivente, se vinga dos turcos usando a dinamite que tinha que carregar.  A cena está no trailer, mas não completa. Meu marido ficou vibrando e dizendo que achava que naquela situação horrenda, seria capaz de fazer o mesmo. Enfim, se me esquecer do filme inteiro, acho que não esqueço desta cena.  Em um filme que é econômico nas cenas de selvageria e violência, tão contido que isso lhe tira pelo menos uma estrelinha, esta cena é arrebatadora.

Graças à Emre, Mikael escapa do serviço militar.
Se Mikael não tem mais dúvida se a questão é fugir do Império Otomano, ou morrer, sua família ainda não entendeu isso.  Ao conseguir voltar para casa, e tome muitas cenas de desespero até chegarmos lá, afinal, o filme tem mais de duas horas, ele só encontra mulheres e velhos.  Na sua vila de origem, todos os homens jovens, e não vi nenhum menino, foram levados embora, e esse, efetivamente, foi o primeiro passo do genocídio em muitas regiões.  O que o filme não fala é que alguns desses meninos pequenos “se salvaram”, pois no processo de assimilação, foram entregues a famílias turcas para que fossem criados como muçulmanos.  A maioria, no entanto, pereceu.

É essa a parte mais surreal do filme, ainda que absolutamente coerente com os comportamentos de grupos perseguidos que não compreendem exatamente o que está acontecendo, que não conseguem perceber que serão exterminados.  Sua mãe, Marta (Shohreh Aghdashloo) o obriga a casar e o intima a esquecer de Ana e de tudo o que viveu em Constantinopla, seu sogro, que ainda é um homem de posses, esconde o casal em uma casa nas montanhas, além disso, os urge a procriar.  Mikael tenta ser bom marido e esquecer do mundo exterior, mas a gravidez da esposa, as condições precárias de vida, o obrigam a trazê-la de volta para a vila.

Maral, a noiva.
Daí, reencontramos Ana, que por força das circunstâncias teve que ficar ao lado de Chris, e é importante deixar claro que, apesar do americano amá-la, não é dito que eles continuam como um casal, ou ele simplesmente a tem como amiga e companheira de trabalho.  O fato de ser americano representa alguma proteção para Ana e a tia (Alicia Borrachero) e as primas de Mikael, que foram acolhidas pela moça.  Chris e Ana as levam até a casa da família de Mikael, um grande erro, aliás, e, lá, a mãe do rapaz diz que o filho está morto.  Ana fica destroçada, mas existem questões mais importantes, maiores do que chorar pelo rapaz, quando tantos estão sendo massacrados.

É, assim, que eles chegam como jornalistas até a missão americana que está evacuando órfãos, o pastor (Andrew Tarbet) conta com o apoio às escondidas do Vice-Governador da província, porque nem todos os turcos querem o extermínio e, vejam só, o filme pode ter problemas, mas um deles não é o maniqueísmo.  É este oficial que avisa que todos os armênios abrigados na missão serão exterminados.  Começa uma corrida desesperada para levá-los até o mar.  É na missão que Mikael reencontra Ana, vai em busca de ajuda para salvar a família, a esposa grávida, em especial.  Mais um golpe para Ana.  Só que, brevemente, não haverá ninguém para salvar.

Ana e os órfãos.
A cena de Mikael e Chris encontrando a vila massacrada é forte.  Imaginar alguém como único sobrevivente de uma grande família, tendo como único consolo uma prima criança (Milene Mayer Gutierrez) traumatizada que passou por morta, é de cortar o coração.  Só que o filme economiza o horror. As faces transtornadas de Christian Bale e Oscar Isaac não são suficientes.  Eu queria em A Promessa um pouco da pornográfica violência de Silêncio.  Em alguns casos, é preciso chocar.  Não basta o sujeito trêmulo relatar a posteriori que abriram o ventre de sua esposa e arrancaram seu bebê lá de dentro.  Era algo que não podia ficar subentendido, mas, sei lá, de repente a censura do filme tivesse que ser mudada por causa disso.

A partir dessa cena, Chris se sacrifica para que os órfãos, Ana e Mikael escapem das tropas turcas que estavam na região.  Ser americano, ter um embaixador como Morgenthau para brigar por ele e um amigo turco importante que não abandona os amigos, acabam salvando-lhe a pele.  Aliás, nota para como Emre é um sujeito do bem, ele parecia o cara mais frívolo e miolo mole no início do filme, mas mostrou-se de uma fidelidade aos amigos que raramente se vê.  Quem assistir, entenderá, não vou dar spoilers, mas Emre é um herói improvável, por assim dizer, e ser filho de gente poderosa não lhe salvou a pele, até porque, seu pai era um dos líderes do genocídio.  E, se não me engano, uma personagem histórica, um dos condenados nos julgamentos depois da I Guerra.  Emre ganhou um espaço no meu coração entre as personagens mais trágicas, atrapalhadas e heroicas que já vi em um filme.

Morgenthau e Emre salvaram a pele de Chris.
Ana e Mikael acabam encontrando com uma população em fuga, gente vinda exatamente da vila de onde partiam os barcos salvadores de órfãos.  O local fora destruído, os barcos queimados, mas a população se recusara a ir para as marchas da morte.  Fugira.  Aqui, o relato de Mikael ajuda a convencer a população de que o destino era a morte.  O prefeito decide resistir, seguem para as montanhas.  O episódio que poderia parecer inspirado na resistência do Gueto de Varsóvia, inspirou-se no incidente real de Musa Dagh (Musa Ler em armênio), quando um grupo de fugitivos resiste aos ataques turcos com o que tem e é resgatado no último momento por um navio de guerra francês que está de passagem.  Sim, a história tem desses raros milagres e só essa passagem já daria um filme completo.  O que o filme inventa é de colocar o Chris dentro do navio cujo almirante é ótimo Jean Reno em uma pontinha de nada.

Meu marido pulou na hora dizendo que a história parecia absurda demais, mas os franceses de fato resgataram milhares de armênios e a França é um dos países que reconhece o Genocídio e tem leis para punir os negacionistas.  O epílogo do filme faz questão de registrar.  O que me incomodou no incidente, no entanto, e é uma das incoerências do filme, é que os camponeses não tenham usado no combate corpo a corpo seus instrumentos de trabalho: enxadas, foices, facões e pás.  É troca de balas e só.  A mim pareceu que não queriam, mais uma vez, mostrar alguma carnificina que pudesse tornar o filme menos palatável às audiências mais amplas.  

Resistir par anão morrer como ovelhas.
Esse tipo de covardia e, neste caso, muita inverosimilhança, tende a cobrar um preço e rouba parte da grandeza da obra.  Meu marido também reclamou que os lançadores de morteiros que os turcos usavam eram britânicos, mas ele bem não tinha certeza, vai que eram alemães?  Também disse que os canhões da nave de guerra francesa tinham mais alcance do que a artilharia turca.  No filme, os franceses desembarcam para o resgate, mas o navio não atira.

Nessa sequência desesperada, porque é tenso ver gente desarmada, crianças fugindo debaixo do fogo dos turcos e morrendo, Mikael segue com um problema muito sério, ele não consegue atirar.  Sei lá, acho muito complicado que um homem de aldeia, acostumado a caçar, provavelmente, enfim, mesmo sendo apotecário e depois estudante de medicina, vendo tudo o que viu, passando tudo o que passou, não conseguisse dar uns tiros para ajudar a salvar sua pele e a de tanta gente.  Mas o fato é que ele não consegue. Ele diz querer se vingar, mas não consegue ser violento. Ana até o consola dizendo que ele existe para salvar vidas, algo que ele faz sob fogo cerrado, mas, ainda assim, é pouco realista.  Ele poderia até entrar em crise depois de matar, mas quando assumiu que não queria ser ovelha, ele deveria ter no horizonte esse tipo de necessidade.

Chris e Mikael, mais parceiros que rivais.
É isso, escrevi muito.  Quer falta dizer?  O filme precisava de uma cena pelo menos com Chris ou Morgenthau recebendo um informe, ou um “ouvi dizer”, falando dos estupros, das meninas vendidas para haréns, das crucificações.  O filme mostra o Genocídio, mas o faz com uma timidez e pudor que me deixaram um tanto enervada.  Crimes sexuais não são citados e esses crimes, em sua maioria, são cometidos contra mulheres. E falando das mulheres em A Promessa, várias tem nomes e falas: Marta, a mãe, Maral, a esposa, Lena, a tia, Yeva e Tamar (Lucía Zorrilla), as primas, e Ana, a amada.  Há conversas entre as mulheres, conversas relevantes, mas são sempre sobre os homens, Mikael, claro, o tio que foi preso.  O filme não cumpre a Bechdel Rule, mas é um filme com mulheres fortes.

Uma das conversas importantes entre mulheres é a de Ana e Marta, quando a mãe do rapaz, que sobrevive algum tempo ao massacre, confessa para a moça que foi ela que o obrigou o filho a se casar, que ele não queria, mas ela o forçou.   Isso limpa a barra dele com a moça.  O filme tem mulheres fortes, Ana é uma delas, apesar da sua aparente fragilidade física (*poucas vezes vi uma atriz tão esquálida*), ela cumpre múltiplas funções, ela é delicada e elegante, dança, encanta, é culta, trabalha, ganha seu próprio dinheiro, vai para o campo de batalha, atira, cuida de crianças.  Não há discussões feministas no filme, mas Ana, sem parecer forçado, representa as possibilidades de uma mulher que é moderna, sem abrir mão de funções mais tradicionais.  

Chris consola Ana, quando ela descobre o casamento de Mikael.
Ana, no entanto, não tem história própria.  Sua história, suas raízes, as quais ela se apega, nunca são encontradas.  A história é centrada no genocídio e tem dois protagonistas masculinos fortes demais. Ana não é somente a musa, como enfatizei, mas sua narrativa é subordinada, nunca é central.  Mais ainda, o amor de Chris e Mikael por ela termina por reforçar a amizade dos dois e não o confronto.  Chris é uma espécie de porto seguro, o homem mais velho que estará lá esperando por ela, já Mikael é o moço dos sonhos, alguém quase inalcansável.  Ao final do filme, ficamos mais com um bromance, os dois muito unidos na sua dor e nas experiências terríveis que passaram, ou nos eventos pavorosos que presenciaram.

Ainda falando das mulheres do filme, tanto meu marido, quanto um senhor idoso que estava com a esposa atrás de mim, ficaram comentando, curiosamente, falavam quase juntos as mesmas coisas, da beleza das atrizes.  Que Maral, ou melhor dizendo, Angela Sarafyan, era mais bonita que Charlotte Le Bon,  Bem, o o mocinho não se encanta por Ana por ela ser mais bonita, simplesmente, o casamento com Maral era um arranjo, um negócio tradicional, mas se, por acaso, tivesse vingado, certamente ele viria a amá-la pelas suas qualidades e, porque, bem, era o que a sociedade esperava.  Aliás, isso já estava desenhado nas cenas domésticas dos dois.  Fora que já vimos muitas histórias assim, o sujeito, porque geralmente é uma narrativa sobre um homem, ama loucamente uma mulher magnífica, mas termina por se casar com a mocinha (*aparentemente*) dócil e muito mais adequada que lhe escolheram.  Como eu sempre digo aos meus alunos, casamento durante muito tempo foi assunto deveras sério para ser deixado nas mãos dos jovens.  

Única cena de sexo entre Mikael e Ana, lá do início do filme.
Se eu tivesse que discutir beleza feminina, diria que nenhuma das duas era bonita naquele sentido cinematográfico.  Sarafyan tinha olhos lindos, uma aparência exótica.  Le Bon me pareceu comum, mas tinha algo que me surpreendeu.  Os dentes bem tortinhos.  Foi a primeira vez que vi uma atriz ocidental de dentes tão desalinhados, isso é comum entre as atrizes japonesas, é considerado bonitinho, mas fora dos filmes e doramas nipônicos, nunca vi.  De resto, as beldades do filme são os homens.  Christian Bale tem seu fã clube, não o acho particularmente atraente, mas é um ator excelente.  O que me saltou aos olhos, no entanto, é que ele parecia mais velho do que é.  Se dissessem que ele, no filme, era um homem de 50 anos, passaria.  E, bem, para mim, o atrativo adicional do filme é o Oscar Isaac, que eu acho lindo, lindo desde Alexandria.  Só não precisavam ter colocado um sotaque esquisito nele. Aliás, todos os armênios, em sua maioria atores e atrizes de origem latina, iraniana e mesmo armênia, tem um sotaque para diferenciá-los dos turcos.  Desnecessário fazer isso e o resultado foi irregular.

Isso tudo que escrevi, e escrevi muito mesmo, não torna o filme mediano.  Eu daria 7,5 para ele. Lembrem, trata-se de um filme pioneiro.  Falar de um assunto não falado é pisar em terreno minado e não mapeado.  E o assunto é tão não falado que eu só fui saber deste Genocídio em 2009, quando uma aluna querida (*Ariadne, sou-lhe grata*) me perguntou sobre ele.  Fui pesquisar e me horrorizar.  De lá para cá, descobri tantos outros genocídios, alguns, eu chamaria de holocausto.  O Armênio foi um dos primeiros do século somente.  E termino até lembrando que Christian Bale já está virando habitué nesses filmes sobre genocídios, porque ele está em Flores do Oriente, que fala sobre o Estupro de Nanquim.  De resto só me vieram lágrimas nos olhos no finalzinho, quando um texto é lido, um belo texto sobre resistência e renascimento.  Eu achei que ia ficar meio lá, meio cá como em Silêncio e iria ter que decidir qual dos dois filmes me tocou mais, no entanto não tenho dúvidas, o filme de Scorcese é superior.


Como isso nada tem a ver com o filme em si, deixei para depois do trailer.  Já que vivemos tempos de ignorância, na mesma resenha que criticava o filme por apresentar o americano herói, como se americanos e franceses e tantos outros não tivessem feito muito para tentar salvar os armênios, uma mocinha comenta que queria ver é terem coragem de falar sobre o Holodomor, o genocídio dos ucranianos provocado por Stálin.  Não sei o que passa na cabeça de gente assim, mas falar do Genocídio dos Armênios não é crítica ao capitalismo, ou exaltação ao socialismo.  Aliás, isso nem estava em pauta na época, ou no filme.  Será que qualquer genocídio ou crime cometido por um governo de país não-socialista passa a ser apologia ao comunismo? Será que falar em qualquer genocídio não ocorrido em país socialista é agenda ideológica das esquerdas?  

Eu tenho medo desses nossos tempos.  Tenho medo de um mundo que assiste, hoje, a construção de campos de concentração para homossexuais na Chechênia e se cala, ou que é complacente com os abusos do ISIS, porque, bem, eles acontecem bem distante dos nossos olhos.  Ou que não se compadece das meninas de Chibok, sequestradas pelo Boko Haram, porque, bem, eles e elas lá na Nigéria devem estar acostumados com essas desgraças.  Ou que acham que índios massacrados no Brasil hoje, com mãos amputadas, bebês mortos, são coisa banal, ou fizeram por merecer.  Genocídios e outros crimes abomináveis acontecem o tempo inteiro e há gente ignorante, cruel que não se importa, que está muito mais disposta a convocar outras tragédias e outros cenários simplesmente para desqualificar a luta alheia, a compaixão e ação alheia.  E citando novamente José Martí: "Se não lutas, tem ao menos a decência de respeitar aqueles que o fazem.”  Há muita gente indecente demais nesse nosso mundo de hoje.

sexta-feira, 19 de maio de 2017

Kawahara Izumi lança seu primeiro mangá em 6 anos


Kawahara Izumi foi uma das grandes mangá-kas dos anos 1980 e está ainda em atividade.  Seu mangá mais lembrado é Warau Daitenshi  (笑う大天使), que teve filme live action para o cinema em 2006.  


Se entendi bem o Comic Natalie, seu último mangá Barnum Kouka de Aru Aru ga Aru (バーナム効果であるあるがある) foi publicado, ou começou a ser publicado, na revista Melody em 2011.  Somente agora, sairá o primeiro volume.  a data é 5 de julho.  Junto com esse mangá, teremos a reedição kanzenban (*acho*) de Warau Michael e Comet-san nimo Hana ga Aru (コメットさんにも華がある).  


A autora também aparecerá na próxima edição da Melody, há um booklet sobre os trabalhos da autora como brinde. Me pergunto se não vão anunciar um dorama ou filme baseado em trabalho de Kawahara.