terça-feira, 31 de julho de 2018

Para quem quiser ouvir o Shoujocast


Lá em 2009, eu decidi criar um podcast.  Começou de forma bem precária.  Aí, o amigo Anderson sugeriu um nome "Shoujocast".  Vieram companheiras, a Lina Inverse, depois a Tanko e, por fim, a Tabby e, bem, fizemos 52 programas.  Pouco, eu sei, mas as agendas desencontraram.  Sempre penso em voltar, mas ainda não houve como.  Bem, eu queria disponibilizar os programas, mas descobri que não tinha todos. Perguntei se a Lina tinha.  Ela organizou tudinho e disponibilizou para download (*AQUI*).  Tudinho, não, faltou o programa 52, então, coloquei no Youtube.



Eu parei para escutar um dos meus programas favoritos o duplo sobre Orgulho & Preconceito e foi um prazer muito grande ouvir a voz das amigas queridas e da convidada especial, a Adriana Salles.  Que conversa legal foi aquela.  Enfim, se você quiser relembrar, ou conhecer o Shoujocast, esta é a oportunidade.

segunda-feira, 14 de maio de 2018

O que era normal para um otaku 30 anos atrás e deixou de ser? Os japoneses respondem.


O Sora News publicou e comentou uma pesquisa do Gooranking sobre o que era ser um otaku “nos tempos heroicos” e como a coisa é hoje.  Como os resultados são engraçados, e estamos em ritmo de Wotakoi, decidi publicar aqui.  A pesquisa foi feita com 500 pessoas, homens e mulheres, entre 20 e 39 anos.  Deveria ter gente mais velha, gente que começou lá em meados dos anos 1970 com Yamato  (宇宙戦艦ヤマト, Uchuu Senkan Yamato/Star Blazers/Patrulha Estelar) e Gundam  (機動 戦 士 ガ ン ダ ム, Kido senshi Gandamu), mas vamos lá:

1. Se você gostava de anime, as pessoas achavam que você era melancólico. (68 respostas)
2. Não era "BL", era "yaoi" e não eram "fujoshi", eram "dojin onna". (52 respostas)
3. As pessoas não se chamavam de “otaku”. (47 respostas)
4.  Você compraria dojinshi por ordem postal. (46 respostas)
4. Quando você dizia às pessoas que você gostava de anime, elas lhe olhavam de forma estranha. (46 respostas)
6. Na contracapa do dojinshi, você veria o nome de verdade da pessoa que o desenhou e o endereço real. (44 respostas) – Sei lá, pseudônimos são usados faz tempo.  O endereço, claro, você precisava dele para entrar em contato, mas nome real??? 
7. Idols não tornavam público que eram otaku. (43 respostas)
8. Você tinha que correr para casa, porque os animes eram exibidos em horário nobre (prime time).  (40 respostas)
9. Você assistia seu anime favorito gravado em fita-cassete, repetidamente, até que a própria fita se destruía. (39 respostas)
10. Não havia tantos cosplayers quanto existem agora. (38 respostas)

Lembram disso?
Se você fosse brasileiro e otaku nos anos 1980 e 1990, acrescentaria:

- Você dependia das revistas informativas de anime e mangá, acreditava em muitas bobagens que eram escritas ali, porque não tinha como confrontar informações.
- Você assistia qualquer anime que passava na TV por ser anime, era como encontrar água no deserto.  Não importava se era bom, ou ruim, era anime.
- Você ia para reuniões com gente esquisita (*como você*) para assistir anime e tokusatsu (*live actions em geral*) sem legenda, porque, bem, era o que tinha.
- Você virava amigo/a de qualquer pessoa que gostasse de anime como você e lembrasse de alguma série que passava na TV quando você era criança.  E, claro, vai depender de quando você foi criança.  Dia desses, uns colegas de trabalho quarentões estavam me perguntando se eu via "Patrulha Estelar".
- E, claro, nesse meio tempo inventaram os fansubers.  Se você já trabalhava, como eu, ou tinha pais que bancavam seu vício, era uma alegria quando chegavam as vitas-cassete na sua casa.  Qualidade variava muito, do excelente, ao horrível, mas quem se importava?  E legenda?  Nem sempre vinha em português... 
-  E, mais importante, a maioria de nós nem saberia direito o que o termo "otaku" - fanático por alguma coisa - significava.  Nos anos 1980, você jamais o usaria.  Nos anos 1990, talvez você começasse a usar sem saber, mas alguém iria apontar que era um termo pejorativo e você poderia ficar entre confuso e furioso.  O fato é que os americanos começaram a usar e a gente embarcou, também.  Hoje, até os japoneses parecem lidar melhor com o que já foi uma ofensa séria.

Graças às Techno Girls eu
conheci uns animes maravilhosos.
Coisas que eu fiz:

- Você perdia um tempo considerável discutindo com gente que não conhecia, nem queria conhecer, a maioria homens, que tentavam dar carteirada de especialista em você em listas de discussão do Yahoo.  E, claro, se você dissesse que era pelo fato de "ser mulher", você era uma histérica.
- Você montou um grupo de discussão de shoujo (Tomodachi no Shoujo) para tentar criar um lugar amigável para fãs da demografia.
- Você entrou em um plano mirabolante com um sujeito (*com quem você terminou se casando*) para conseguir as fitas de um fansuber canadense da Rosa de Versalhes (ベルサイユのばら).  Você enviou dinheiro dentro de um envelope para o exterior (*evasão de divisas*), porque não havia paypal e outras coisas semelhantes nesse tempo.
- Você queria entrar para uma lista de discussão do Yahoo que era tão seleta, mas tão seleta, que só aceitava pedido de admissão por carta física.  E, sim, você mandou a carta para os EUA e lhe aceitaram no grupo, as Techno Girls.  Elas foram as primeiras a legendar Ace Wo Nerae (エースをねらえ!) e Oniisama E... (おにいさまへ…).
- Você leu Shoujo Kakumei Utena (少女革命ウテナ) e A Rosa de Versalhes com o mangá em japonês em uma mão e o script em inglês na outra.  Sim, não foi em scanlation, foi desse jeito aí.
- E quando você começou a ter internet, em 1998, acho, parecia o paraíso.  Você poderia ter acesso a um monte de informações, conversar com gente do mundo inteiro, e demorava horas para baixar qualquer coisa.  E quando a linha caía?  E quando você não tinha como continuar?  Episódios de anime de 5 mb demoravam 6 horas para vir.
- E como esqueci?  Quando eu estava no 1º Ano, 1990, desviei meu dinheiro de merenda e da passagem de ônibus para comprar o álbum e as figurinhas do anime Zillion (赤い光弾ジリオン/ Akai Kōdan Jirion).  Passei a ir à pé para casa.  Quando mamãe descobriu, não prestou, claro... 

E você?  É "otaku" das antigas?  O que você se lembra que acontecia, ou você fazia, e, hoje, não é mais comum?

sexta-feira, 20 de abril de 2018

Edição comemora os 50 anos da revista Sho-Comi


E saiu a edição comemorativa dos 50 anos da revista Sho-Comi. Lançada em 20 de abril, ela traz agradecimentos das muitas autoras que publicaram em suas páginas: Hagio Moto, Chie Shinohara, Yuu Watase, Chiho Saito,  Kumagai Kyoko, Keiko Takemiya, Shinjo Mayu, Kitagawa Miyuki e Mitsuru Adachi (*que não é menina*), entre outros.  São cinquenta ao todo.

Shikishi de Hagio Moto.

Shikishi de Mitsuru Adachi.
O Comic Natalie comenta que quando o nº1 da Sho-Comi foi lançado, em 10 de abril de 1968, a revista era mensal, tornando-se quinzenal por causa da sua popularidade.  Se entendi, para que você ganhe as versões dos cartões de agradecimento (Shikishi) é preciso participar de um sorteio.  Eu olho e fico imaginando que queria um monte deles, em especial, o de Waltz wa Shiroi Dress de (円舞曲は白いドレスで), de Chiho Saito. (*Se alguém me disser que eu li errado, que eles todos vem na edição, me avise, por favor, eu quero essa revista para mim!*)

A capa.
Nesta edição, a comemorativa, temos um gaiden de Tokyo Juliet (東京ジュリエット), um grande sucesso da revista e de autoria de Kitagawa Miyuki.  

Tokyo Juliet

Ayakashi Hisen

Já na próxima edição, teremos um gaiden de Ayakashi Hisen  (あやかし緋扇), de Kyoko Kumagai.

quinta-feira, 19 de abril de 2018

Post aleatório: Semelhanças entre Candy Candy e a Escrava Isaura


Hoje, levei Júlia para a escola a no rádio do carro estava ouvindo umas músicas, entrou a abertura de Candy Candy  (キャンディ・キャンディ), e eu comecei a cantar: 

"Sobakasu nante, ki ni shinai wa 
HANA-PECHA datte datte datte, oki ni iri 
OTENBA itazura daisuki, kakekko SUKIPPU daisuki 
watashi wa watashi wa, watashi wa CANDY
hitoribocchi de iru to, choppiri samishii 
sonna toki kou iu no, kagami wo mitsumete
* waratte waratte, waratte CANDY 
nakibesou nante SAYONARA ne, CANDY CANDY"


Daí, comecei a lembrar da disputa judicial insana entre a roteirista (Kyoko Mizuki) e a desenhista (Yumiko Igarashi).  Conhecendo o caso, eu sou a favor da roteirista, mas vejam que impedir que esse clássico seja exibido, que o mangácircule, tenha remake, whatever é um absurdo.  Acredito que a Mizuki ganharia mais (*ela alega que recebeu pouco pela obra e que a parceira se apossou dela*) fazendo um acordo.  Comecei a rememorar algumas cenas, lembrar do dramalhão que é Candy Candy, de como nós, crianças, ficamos impactados com a morte do Anthony (*a gente não assistiu ao final pavoroso, aqui, no Brasil, só poucos capítulos*) e que eu chamo Candy Candy de A Escrava Isaura japonesa.

A desenhista ficou muito mais famosa
que a roteirista, gerando problema até hoje.
O anime passou em tantos, ou mais países, que a novela da Globo (*por vias legais, ou não*).  Lembro, muitos anos atrás de uma moça turca que fez contato comigo para falar de Candy Candy.  A história é um drama torturante.  A protagonista é órfã, pura e bem intencionada.  Por outro lado, Candy é tomboy e inculta, Isaura, por outro lado, é um poço de virtudes e com um intelecto superior... E Candy chegou a ser vendida como escrava... Mas há mais semelhanças, a mocinha perde o seu primeiro amor de forma trágica... E, ooops!  Mas, ora, vejam!  Eu nunca tinha percebido essa semelhança!

Eu sei, você não viu a versão da Globo de 1976, lá Gilberto Braga inventou um primeiro amor para Isaura, algo muito necessário, já que ela e Álvaro (*o mocinho do livro*), só se encontrariam já do meio para o fim do livro.  E, à época, cabia cumprir os cânones de Janete Clair, a mocinha precisava de um amor e beijar alguém logo nos primeiros capítulos.  Só não era costume matar e da forma tão cruel como o Antônio foi morto.  Foi uma das sequências mais memoráveis que eu já vi em uma novela.   Não há vilão melhor que o Leôncio e o Rubens de Falco era maravilhoso.  Já Candy Candy, tinha uns vilões de dar vergonha, mas a trama cheia de tragédias para a heroína já era o suficiente para nos massacrar.

Isaura comeu o pão que o diabo amassou
nas mãos do "sinhozinho" Leôncio.
Era só isso.  Post aleatório, mas tem uma resenha longa de Candy Candy aqui e de A Escrava Isaura, também, claro (*1-2*).  Estava elucubrando aqui.  Quando dirijo, minha mente fica voando por aí.  Aliás, é impossível impedir que ela voe.

Mangá-ka desenha capa da edição japonesa do romance Me Chame Pelo Seu Nome


O romance Me Chame Pelo Seu Nome, de André Aciman, terá sua edição japonesa lançada por esses dias e a mangá-ka Tarako Kotobuki, que desenha BL, foi a escolhida para desenhar a capa da edição.  Vejam, é só a capa, não há mudança estrutural do livro.  Agora, não me surpreenderia se lançassem uma adaptação para mangá, não.  E é relativamente comum que mangá-kas desenhem encartes de filmes, cartazes alternativos e capas de livros, como nesse caso.


O livro sai no dia 20 de abril, segundo o Comic Natalie, já o filme, que levou o Oscar de melhor roteiro adaptado, estréia no dia 27 de abril.  Para Japão, isso é muito rápido!  Duvida?  Veja esse post aqui.  Se quiser ler minha resenha de Me Chame pelo seu Nome, basta clicar.

Ranking da Oricon


Ontem, saiu o ranking do Oricon da semana 09-15/04.  Destaque entre os mangás femininos é Yume no Shizuku, Ougon no Torikago  de Chie Shinohara.  A série, que conta a história de Roxelana, que foi de escrava do harém de Suleimão, o Magnífico, à sultana e mulher mais poderosa do Império Turco Otomano de sua época e, talvez, de qualquer período desse poderoso Estado.  Yume no Shizuku, Ougon no Torikago não foi indicado a nenhum prêmio, mas é o maior sucesso de vendas da autora, lembro quando ela fez festa nas redes sociais, porque, pela primeira vez, um de seus volumes de mangá ficou no top 10.  Parece que nem com Anatolia Story (天は赤い河のほとり), que se passa mais ou menos no mesmo espaço geográfico, ela conseguiu isso, ao que parece.  Enfim, estou muito atrasada na leitura, mas fiz uma resenha do início do mangá.  De resto, temos Love Phantom, que sai na Petit Comic, entre os dez mais vendidos. Olhando o resto do ranking, autoras consagradas marcam presença forte: CLAMP, Yuu Watase e Kamio Yoko.  Enfim, a semana foi boa para os shoujo e josei.  Desta vez, no entanto, não há mangás BL na lista.

7. Yume no Shizuku, Ougon no Torikago   #11
8. Love Phantom #7
13. Card Captor Sakura ~Clear Card Hen~ #4
14. Fushigi Yuugi: Byakko Senki #1
18. Ookami Heika no Hanayome #18
25. Hana Nochi Hare ~Hanadan Next Season~ #9
30. Game ~Suit no Sukima~ #4

quarta-feira, 18 de abril de 2018

Hero Mother★League: Antigas heroínas, agora mães, se unem para combater o mal


Eu não sou fã de Tokusatsu, nem acompanho esse tipo de série.  Assistia na época da Rede Manchete (*Changeman e Flashman, especialmente, mas havia outros*), mas preferia coisas mais antigas, como Spectreman, Ultraman, Ultraseven, que se remetiam a minha infância.  Depois, com a história de Power Rangers (*e o primeiro estreou no Brasil no final da minha adolescência*), não recebemos mais séries originais do Japão, mas essas mixagens com elenco norte-americano.  Eu detesto Power Rangers do fundo do meu coração, mas sei que os japoneses são sócios nessas séries, logo, co-responsáveis por não recebermos mais os seriados originais.

Até as super-heroínas precisam ter filhos... 
Enfim, mas uma amiga postou imagens desse crossover, Hero MamaLeague (ヒーローママ★リーグ), um especial, que junta três membros de equipes diferentes de super sentai: Ninpu Sentai Hurricanger (2002/2003), Tokusou Sentai Dekaranger (2004/2005) e Mahou Sentai Magiranger (2005/2006).  As atrizes originais foram convocadas para atuar novamente: Nagasawa Nao (HurricaneBlue, Ninpu Sentai Hurricanger), Kinoshita Ayumi (DekaYellow, Tokusou Sentai Dekaranger) e Beppu Ayumi (MagiPink, Mahou Sentai Magiranger).  A sinopse do especial, que estréia no Japão bem em tempo para o Dia das Mães, é o seguinte:

Nossas heroínas.
Nanami (Nao Nagasawa), Jasmine (Ayumi Kinoshita) e Houka (Ayumi Beppu), que um dia lutaram para trazer a paz ao mundo, tem casamentos felizes e filhos.  No entanto, o mal que ameaça a humanidade é imortal e as heroínas devem largar a aposentadoria e equilibrar sua agenda entre a vida de super-heroínas e suas responsabilidades como mães.  É seu objetivo ter sucesso nessa luta e manter o mundo seguro, tornando-se a mais brilhante das "mães perfeitas". As três planejam como fazer isso em um café, mas, ao mesmo tempo, o aterrorizante plano do Space Shinobu Demost de invadir a Terra entra em ação ...  eu imagino a quantidade de estereótipos de gênero que serão jogados na cara da audiência, mas parece divertido.

terça-feira, 17 de abril de 2018

Parece que Li-Shang não estará no live action de Mulan e o texto não é sobre isso é sobre o Mito da Donzela Guerreira.


Eu devia estar escrevendo meu gigantesco texto sobre Orgulho & Paixão, ele está aqui aberto.  Eu devia continuar minha pesquisa sobre a quadrinista mexicana Yolanda Vargas Dulché, que eu descobri ontem e estou aqui de queixo caído.  Só que ontem anunciaram, quer dizer, o NerdAsians no Twitter estava subindo pelas paredes, porque o Li-Shang – que eu esperava ver materializado em um lindo ator asiático no live action de Mulan – não vai estar no filme.  OK.  Eu também estou muito, muito, muito brava, se for verdade. Agora, houve confirmação mesmo?  Porque eu escrevi sobre essa coisa lá atrás, em março de 2017.  Só que a galera, o The Mary Sue inclusive (*e eu vou escrever umas duas palavrinhas sobre o texto delas comparando o Prof. Bhaer e o Mr. Darcy, Ah, se vou!*), estão lamentando que o "príncipe" mais LBTQIA  (lesbian, gay, bisexual, transgender, queer/questioning, intersex, and allies) da Disney vai ser cortada.  Horror!  Horror!

Não sei, acho que cai no mesmo caso dos meninos ocidentais que curtem BL por falta de representatividade no meio dos quadrinhos, ou das meninas ocidentais que acreditam que o shounen da Jump precisa representar suas agendas feministas, quando, na verdade, o produto é pensado para garotos japoneses e meninas daquele país que curtem fazer fanzine BL com as personagens masculinas.  Pode me odiar, mas é basicamente isso.  E se a gente entende consegue se relacionar com o material, criticá-lo até, sem cair em armadilhas.

Mulan salva Li-Shang e a China.
Voltando para a relação Li-Shang e Ping/Mulan, e eu vi umas cinco ou seis vezes o desenho nos últimos meses por causa de Júlia, eu percebo como um reforço da heteronormatividade.  Aliás, eu conheço trocentos pares semelhantes, já que o molde é o mesmo, o mito da Donzela Guerreira.  Explicando. Temos uma moça que assume uma identidade masculina.  Ela esconde tudo o que pode denunciá-la em seu corpo.  Corta os cabelos, amarra os seios, usa roupas mais largas, ou está sempre vestida (*a cena do banho coletivo, que existe em Mulan, é recorrente*).  Ela é valente, ela é destra nas armas, ou em alguma arte que seja considerada masculina.  E eis que há o cara mais bonitão – e normalmente menos babaca que a média – do entorno da mola que estabelece uma relação próxima com essa mulher que esconde sua identidade.  

No início, o sujeito que, normalmente, é mais velho (*ou mais alto, ou mais forte, ou mais experiente*), desenvolve uma relação fraternal em relação à heroína que ele acha que é um rapaz.  É como se fosse seu irmão caçula.  Daí, caraminholinhas (*um esbarrão aqui, um olhar ali, um toque de mãos que a moça retira rápido*) começam a deixar o sujeito nervoso.  Ele nunca olhou para homem algum.  O que é isso?  O que papai iria pensar?  E os coleguinhas?  Em certos casos, há até outras mulheres, ou uma que ele acredita amar.  Só que o diabinho fica atentando.  Ele descobre a verdade.  Temos a explosão, ele fica furioso, a moça precisa ser punida, afinal, ela usurpou o lugar masculino, ela o fez pensar "bobagens".  Só que, ao mesmo tempo, vem o alívio.  O moço não é gay.  Sua natureza não tinha se enganado.  Era uma mulher o tempo inteiro.  Seu corpo e seu coração já sabiam.  Viva!!!!!!  E temos o selo de heteronormatividade e uma história bonita e/ou trágica nas mãos.

Tony Ramos e Bruna Lombardi na versão da
Globo de Grande Sertão Veredas.
Mulan-Li-Shang (Mulan), Riobaldo-Diadorim (Grande Sertão: Veredas), Avigdor-Yentl (Yentl), Filipe-Doralice (Cordel Encantado), Drue-Connaught (To Touch the Sun) e posso engrossar a lista com outros exemplos da literatura, do cinema, da animação etc.  Toda a tensão homoerótica se evapora quando descobrimos a verdade.  Claro, que ela pode se sustentar por mais tempo se não a sabemos, mas o mito da Donzela Guerreira sempre se conclui com a descoberta.  No modo tradicional desse tipo de história, a moça precisa morrer, ou, pelo menos, seu "eu" masculino tem que desaparecer.  Pensem em A Princesa e o Cavaleiro (リボンの騎士).  

Mulan, o desenho da Disney, não a lenda, rompe com isso, porque sua identidade é revelada bem antes do final da película e é como mulher que a jovem se torna heroína da China. Só que, tal e qual na lenda (*que tem várias versões*), ela rejeita um cargo de ministro do rei e volta para casa levando as insígnias de sua vitória para seu pai, razão de seu sacrifício.  Não vou ser má, quer dizer, vou, sim, mas apesar de Mulan, no desenho, enfrentar o maior vilão de todos, o patriarcado, ela volta para casa e o confirma.  Mas não é resenha de Mulan, certo?


No mangá, Oscar lamenta não ter nascido homem
e poder amar Rosalie.  Isso é queer o suficiente para vocês?
E EU AMO ESSE TIPO DE HISTÓRIA, mas da parte do moço não consigo ver nada de queer, não, o centro de toda a questão é a mulher travestida, a protagonista.  Talvez, eu seja velha.  Talvez, eu seja hetero demais.  De resto, A Rosa de Versalhes (ベルサイユのばら), que a JBC irá lançar em breve, não é o mito da donzela guerreira porque todos (*menos Fersen, ele é meio lento*) sabem que Oscar é uma mulher desde o início.  Ela é uma mulher fazendo de forma competente o trabalho de um homem.  Ela é uma mulher andrógina que faz outras mulheres suspirarem por ela (*isso, sim, é queer*).  Claro, que assim como Sílvio Santos coloca as filhas para fazerem e acontecerem no SBT, ela só conseguiu estar ali, em primeiro lugar, porque papai conseguiu que o rei a nomeasse para o posto de capitão da guarda real, mas ela faz justiça ao espaço que ocupa e vai além do que o pai esperava dela, inclusive rompendo com sua tutela e com sua classe social.  E Oscar não morreu por ter sua identidade revelada, nem abdicou de sua vocação militar (*o anime torce as coisas*).  

Outro exemplo de subversão do modelo, ainda que mais bobinho, é HanaKimi (花ざかりの君たちへ/Hanazakari no Kimitachi e).  Sano descobre desde o primeiro dia que Mizuki é uma garota se passando por garoto em uma escola masculina.  Ninguém sabe, ninguém pode saber, ele precisa proteger o segredo dela e assim o faz, sacrificando durante boa parte da série o seu desejo pela moça. E a garota fica pisando em ovos, porque ela não sabe que seu companheiro de alojamento no internato sabe de tudo o TEMPO TODO.   Heteronormativo do mesmo jeito, mas é uma história legal.  E, detalhe, para quem não conhece HanaKimi, a autora fez um final de qualquer jeito e, por pressão dos fãs, teve que produzir um segundo último capítulo.  Caso raro, raríssimo.
Tensão sexual aos montes em Hanakimi.
Terminando, desde março de 2017, está rolando essa história de que não teremos Li-Shang, nem músicas, no live action de Mulan, o que me faz crer que esse longa não vai me agradar.  Mas não acho adequado que se comece a projetar que isso é uma perseguição às personagens gays, ou bissexuais, porque, bem, minha percepção de Mulan é que se trata, de novo, do Mito da Donzela Guerreira. Se há subversão, ela reside na personagem feminina, ela é a protagonista e não podemos esquecer.  A personagem masculina, seu interesse romântico, só está lá para ter sua natureza heterossexual confirmada e reiterada no final.