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sábado, 2 de maio de 2026

O Japão é seguro... a não ser que você seja uma mulher!

O título foi tirado da frase que abre um artigo do excelente site Unseen Japan, aberta aqui no meu navegador por mais de um mês.  Ela se chama Casos de stalking e ordens de restrição no Japão batem novo recorde (Stalking Incidents, Restraining Orders in Japan Set New Record).  O Japão é um país muito seguro, especialmente se comparado com o nosso, no entanto, matérias recentes apontam que as mulheres estão se sentindo cada vez mais vulneráveis ou que a sociedade tem se tornado mais sensível à violência que elas sofrem.  

Segundo a matéria, a Agência Nacional de Polícia (NPA) registrou, em 2025,  3.717 casos de stalking e 3.037.  São recordes desde que o país passou, em 2000, sua lei contra o stalking.  Segundo a matéria, os novos números e o relatório da NPA revelam "(...) um número recorde de prisões por stalking e ordens de restrição após um caso de perseguição e assassinato de grande repercussão.".  Essas situações de assédio e stalking são comuns nos mangás.  Naqueles que são feitos para o público feminino, normalmente são mostrados como um problema, algo que causa terror, porque as autoras sabem como esse tipo de coisa pode terminar e tendem a não ser complacentes com essas coisas.  Isso,, claro, em mangás mainstream.  Por exemplo, apareceu uma situação como essa no primeiro episódio de um anime que está no ar agora, o Parede de Gelo (Koori no Jouheki/氷の城壁).   

Já nos materiais para o público masculino, o stalking pode ser apresentado através do olhar do perseguidor, como algo excitante e prelúdio para um relacionamento amoroso/sexual ou mesmo uma escalada de violência.  Sim, lembrei de uma exceção em um material para o público feminino: Koi to Yobu ni wa Kimochi Warui (恋と呼ぶには気持ち悪い).  Com o agravante de ser um homem mais velho perseguindo uma adolescente.  Escrevi sobre ele anos atrás.

A matéria também relata que a polícia diz "(...) ter consultado pessoas sobre um total de 22.881 potenciais casos de stalking. Esse é o segundo maior número desde 2000. Dos casos investigados pela polícia, 1.546 resultaram em medidas contra o perseguidor para pôr fim ao seu comportamento ilegal. Isso representa um aumento de 205 casos em comparação com 2024. 1.577 casos resultaram em advertências. Um total de 2.171 casos resultaram em acusações formais com base em outras leis. Dois casos, tragicamente, terminaram em homicídio."  Trata-se de maior sensibilidade ou de um fenômeno que vemos por aqui e que parece ser mundial?  De que estou falando, do aumento dos casos de violência contra as mulheres articulados à circulação de discursos misóginos na internet?  O Netlab da UFRJ monitora várias redes sociais e os resultados são assustadores, mas nada surpreendentes.

Os dois casos de assassinato que parecem ter chocado o Japão, segundo a notícia, não são muito diferentes do que a gente vê por aqui, no Brasil, dia sim e outro também.  "Shirai Hideyuki, de 27 anos, assassinou sua ex-namorada, Okazaki Asahi, de 20 anos, em dezembro de 2024. A polícia da província de Kanagawa não realizou buscas na propriedade de Shirai em Kawasaki durante quatro meses, mesmo após Okazaki ter consultado a polícia nove vezes sobre o fato de Shirai estar a perseguindo. O caso veio logo após outro, em março de 2025, no qual um homem assassinou sua ex-namorada, dona de uma lanchonete, em Nishitokyo. O agressor, seu ex-marido, havia cumprido pena de prisão por agressão."  Este  último caso acabou detonando questionamentos sobre a necessidade de mudanças nas leis do país, inclusive a contra  o stalking.

Os casos acabaram reforçando as queixas de defensores de direitos das mulheres que apontam que a polícia não leva a sério as queixas das mulheres e que 80% dos casos de importunação e stalking terminam não sendo registrados.  A maioria das mulheres respondeu que ao tentarem registrar queixas são recebidas por policiais pouco interessados ou que desconfiam da sua palavra e, por isso, terminam desistindo.  No Brasil, essa situação só mudou um pouco quando foram criadas as delegacias da mulher e o pessoal que lá trabalha recebeu treinamento adequado.  

O artigo termina fazendo as mesmas ponderações que eu fiz lá em cima: os casos estão aumentando ou a polícia está ficando mais atenta?  Talvez, os dois casos de assassinato em um país tão seguro tenham servido como alerta.  Agora, na base disso tudo está a estrutura patriarcal que estimula os homens a acreditarem que têm o direito sagrado de se apropriarem das mulheres e que não podem ser rejeitados, porque as mulheres precisam ser gratas por terem sido escolhidas.  Resumindo, esse problema é mundial, porque o patriarcado atravessa todas as sociedades deste mundo no qual estamos vivendo.

segunda-feira, 16 de março de 2026

Algumas palavrinhas sobre a 98ª Cerimônia do Oscar: Não levamos nenhuma estatueta, mas a festa foi muito boa!

Faz tempo que eu acompanho o Oscar.  Muito tempo mesmo.  Gosto de assistir, gosto de comentar e torcer, também.  Com brasileiros participando, a gente torce mesmo.  Mas eu escrevi um post ontem no qual explicava as chances e possibilidades de O Agente Secreto  e do  Adolpho Veloso.  E mais ou menos antecipei o que ia acontecer, não por adivinhação, mas por dedução e observação.  Por exemplo, olhe  quadro abaixo:


O Brasil não ganhou estatueta, mas esteve muito bem representado no Oscar.  Pelo quadro acima, vocês podem observar a regularidade de alguns prêmios. Se a Mubi tivesse feito uma campanha melhor para O Agente Secreto no Reino Unido, ela era a distribuidora por lá, talvez o Wagner Moura fosse indicado ao Bafta.  Estar indicado lá ou no Sindicato meio que aumenta suas chances no Oscar e ele foi o primeiro ator brasileiro indicado.   E isso é uma vitória em si mesma, porque, bem, a festa do Oscar ainda é uma festa norte-americana e filmes de terror, atores e atrizes negros também não são muito reconhecidos.  Fico feliz com o desdobramento de qualquer forma.

E eu não sabia que a Noruega nunca tinha ganho um Oscar de filme internacional.  Valor Sentimental fez história.  É engraçado, porque Dinamarca e Suécia já venceram várias vezes.  Como muita gente que eu respeito elogiou o filme, vou me esforçar para assistir até o fim, porque comecei e larguei.  De repente, volte daqui uns dias fazendo uma resenha da obra.  

Houve  muitos prêmios óbvios, todos os que Frankenstein levou eram esperados.  Figurino este ano estava uma tristeza.  Era uma indicação que eu gostaria que O Agente Secreto recebesse, porque é um dos pontos altos do filme.  Todo mundo sabia que Guerreiras do K-Pop levaria melhor longa de animação e Golden provavelmente melhor canção.  Melhor filme e diretor para Uma Batalha Após a Outra.  Mas houve surpresas como um empate em curta documentário e Amy Madigan (A Hora do Mal) como melhor atriz.  

Um dos pontos altos da cerimônia foi o In Memoriam.  Eu gosto muito dessa parte e houve um grande destaque este ano.  O auge foi Barbra Streisand homenageando Robert Redford com quem trabalhou no filme O Nosso Amor de Ontem (The Way We Were/1973).  Ela cantou com a voz muito embargada a música tema do filme.  Eu quase chorei.  Lembro de ter assistido O Nosso Amor de Ontem muitos anos atrás.  Acho que foi no SBT.  Acredito que foi o primeiro filme sobre Macarthismo que eu vi, nem sei sse já estava na faculdade.

Notável este ano foi termos 74 mulheres  indicadas.  Um recorde.  E os melhores  discursos foram os  do pessoal de Pecadores, porque todos tinham plena consciência do seu papel histórico naquela noite.  Autumn Durald Arkapaw, em especial, fez um discurso muito feminista ao receber o prêmio de Melhor Fotografia, ela reconheceu o esforço e apoio de todas as mulheres presentes.  Foi a primeira mulher a ganhar o prêmio  e a primeira mulher  negra a ser indicada.  Isso em quase 100 anos de premiação.  Em certas categorias, o Clube do Bolinha é  mais forte que em outros.  Muito mais.

Quando Michael B. Jordan recebeu o prêmio de Melhor Ator, aquele que a gente queria para o Wagner Moura, também tivemos um belo discurso no qual ele citou todos os atores e atriz negros que ganharam a categoria principal.  Foram poucos, muito poucos, se levarmos em conta que estávamos na 98ª Cerimônia do Oscar.  Ah, sim!  Quando apresentaram a música de Pecadores, a bailarina Misty Copeland entrou no palco.  Foi uma forma de espicaçar  Timothée Chalamet por causa de suas falas ridículas sobre balé e ópera,que só foram reveladas DEPOIS que a votação terminou.  Aliás, Marty Supreme foi o grande perdedor da noite pelo número de estatuetas que não levou e pela quantidade de propaganda que fez.

No geral, gostei bastante dessa cerimônia.  Mais do que eu acreditava.  E, pelo menos nos prêmios principais, quem recebeu a estatueta mereceu.  Muito diferente do ano passado, quando um filme medíocre recebeu várias estatuetas.  Acho que é isso, a lista dos vencedores  está aqui.  Preciso agora ver mais filmes do Oscar, inclusive Pecadores e Uma Batalha Após a Outra.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

Feliz Natal... ou eu espero que seja...

Mais um Natal, aniversário de Jesus, porque, acreditando nele ou não, essa data festiva existe para marcar seu suposto aniversário.  Queria muito estar feliz fazendo essa postagem, infelizmente, não estou.  Só consigo pensar nos feminicídios em que eu tropecei de ontem para hoje.  Mulher decapitada na rua em Brasília, homem que trucidou com facão e martelo a esposa e três enteados crianças, sujeito preso por matar a esposa e deixa seu filho MORRER DE FOME, mulher grávida de cinco meses estrangulada pelo marido e, por fim, a morte de Tainara Souza Santos.  Ela foi a mulher arrastada por um ex-raivoso, perdeu as duas pernas e estava internada fazia 25 dias.  Ela deixou para trás dois filhos ainda crianças.  Vocês têm noção do quanto a violência contra as mulheres está escalando?  Que  só no dia de Natal, sem procurar nada, eu tropecei em três feminicídios violentos?  E eu tenho certeza de que amanhã haverá mais.

E eu estou aqui chorando por alguém que eu nem conheço, porque tudo isso é muito, muito revoltante. E o ódio que matou Tainara, mata outras mulheres todos os dias e em todos os lugares do mundo.  Mata todas nós  um pouquinho.  E políticos de extrema-direita menosprezam a vida dessas mulheres, riem em debates quando o tema é invocado, querem nos tirar o mínimo, que é a Lei Maria da Penha.  

E esse ódio mata de formas cada vez mais cruéis, porque esses feminicidas não querem SOMENTE matar, como se fosse pouco, eles querem destruir essas mulheres, privando-lhes até da possibilidade de um funeral digno. Me lembrei de uma das piores impiedades, hybris, da mitologia grega, que era desfigurar o guerreiro.  É isso, desfigurar, destruir aquilo que exteriormente essas mulheres têm de mais belo, aquilo que esses desgraçados cobiçam, tomam posse e se dão ao direito de destruir.

Enfim, mas eu vou deixar a minha mensagem de Natal, a que eu escrevi para o Facebook e Instagram, porque minha raiva está aqui borbulhando e ainda  que esse sentimento me ponha em movimento, é possível sentir outras coisas, é preciso sentir outras coisas.  Segue minha mensagem de Natal:

"Não importa se você acredita ou não, mas trata-se de uma festa de aniversário de uma criança que não tinha lugar para nascer. Ele nasceu em um estábulo, em uma manjedoura. A data, 25 de dezembro, é meramente simbólica, porque, como meu primeiro pastor dizia: Natal é quando Jesus nasce no nosso coração. Sempre é Natal para alguém, portanto.

Adorazione del Bambino, c. 1619-1620, Gerrit van Honthorst

Mas vou me fixar na ideia da falta de lugar. Enquanto alguns têm muito e outros têm pouco, há quem tenha quase nada. Separe um momento da sua festa, caso você esteja fazendo uma, claro, para pensar naqueles que nada têm. Que não tem lugar para nascer, para repousar a cabeça, que tem fome e frio, que estão ameaçados pela guerra e sem esperança no futuro. Ninguém precisa ser religioso para isso, só precisa ser humano, mesmo.

Se indignar com as injustiças, lutar por um mundo melhor para todos, todas e todes, porque somos todos nós humanos e eu não vou excluir ninguém, desejar paz na Terra, nesta aqui mesmo, e que as crianças, todas elas, possam ter um futuro melhor é ter espírito de Natal."

terça-feira, 2 de dezembro de 2025

A Campanha para a Erradicação da Violência contra as mulheres mais sangrenta que eu já vi: Misoginia não é transtorno mental, é o patriarcado que legitima a violência contra as mulheres

Sexta-feira passada, duas mulheres, uma professora e outra psicóloga, foram mortas por um colega no campus do Centro Federal de Educação Tecnológica Celso Suckow da Fonseca (Cefet), no Maracanã, na Zona Norte do Rio de Janeiro.  Eu não tive estômago para fazer um post, nem postar nada, salvo notícias no Facebook.  O meu mal-estar foi agravado por estarmos em plena campanha de Erradicação da Violência contra as Mulheres.  Fiz post no dia 25, início da campanha; ela termina no dia 10 de dezembro.  Só entre o dia 27 de novembro e 1 de dezembro, contabilizei os casos de feminicídio e tentativas que deixaram mulheres mutiladas, traumatizadas, não raro envolvendo crianças, também.  Eu estou com raiva só de ter que escrever sobre esse tema, mas não posso deixar de registrar como esses últimos dias parecem particularmente violentos para as mulheres, por serem mulheres.

Allane Pedrotti, uma das vítimas, era chefe da equipe pedagógica e acadêmica da Direção de Ensino do Cefet-RJ na Divisão de Acompanhamento e Desenvolvimento de Ensino, atuando com assessoria pedagógica e acadêmica ao Ensino Superior e à EPTNM dos 8 campi do Estado do RJ. Tinha um extenso currículo e ainda era cantora e musicista. Segundo consta, o assassino, João Antônio Miranda Tello Ramos, era funcionário de carreira do CEFET e não aceitava ser chefiado por mulheres, sendo particularmente hostil com elas.  Era esse o ponto de origem do conflito.  Ele foi transferido para outra unidade, arrumou problema por lá, pegou uma licença por motivos psiquiátricos, entrou na Justiça, conseguiu laudo atestando sanidade e foi retornado para a unidade do Maracanã.

Em uma das matérias que li, um amigo de Allane, que tinha uma filha de 13 anos (*a minha tem 12*), professor de Geografia no CEFET, disse que a professora ficou em trabalho remoto por um tempo para não ter que conviver com o assassino, porque tinha medo dele.  Uma funcionária, que pediu para não ser identificada, disse ao jornal O Dia que era alvo da perseguição do criminoso e que a direção pouco ou nada fez para resolver o problema, mesmo recebendo inúmeras reclamações:  

"Eu encaminhei algumas denúncias para os gestores, direção-geral e para o Ministério da Justiça avisando sobre situações de possíveis atiradores na escola. O Ministério da Justiça chegou a me ligar, mas não houve continuidade para consolidar estratégias de prevenção, tanto no Cefet quanto em outras escolas (...) "Eu evitava ficar no meu computador. Ele já tinha esse plano e podia entrar ali a qualquer momento. Ontem era para eu ficar até 17h, mas consegui sair meia hora antes do que aconteceu. Eu e outra colega também éramos alvos diretos dele"  (...) "Há cerca de quatro anos, a servidora vivenciou a primeira situação de alerta. "Eu estava sozinha na sala e ele entrou contando que o irmão dele se matou com um tiro na cabeça e que ele iria fazer o mesmo. Nesse dia, eu gelei. E o meu temor era esse. Temos pessoas com o mesmo perfil se encaminhando para fazer a mesma coisa. A escola deveria ter levado a sério as denúncias que foram feitas e passado a agir", alertou."

A irmã de Allane reforça essa versão, isto é, se a coisa tivesse sido levada a sério, Allane e Layse, a outra vítima, poderiam estar vivas.  A funcionária diz que evitava ficar sozinha com o criminoso ou de costas para a porta e que ele já havia falado em se matar.  Ela e uma colega, que também era perseguida por ele, saíram mais cedo no dia dos assassinatos.   Sobre a situação, uma amiga de Allane questionou nas redes sociais: "(...) o retorno de João Antônio ao trabalho na unidade. Ele estava afastado havia 60 dias por acusar uma colega de perseguição — um processo administrativo foi aberto e concluiu que a situação não existia. “Por que ele voltou ao trabalho? Onde está o nome do psiquiatra que deu o laudo para ele voltar ao trabalho?”."

Layse Costa Pinheiro, a outra vítima do colega misógino, era psicóloga e servidora pública federal no Cefet-RJ desde 2017, atuando na área de psicologia escolar.  Vi gente dizendo que ela tinha feito o laudo que resultou no afastamento do assassino, mas não encontrei nada em matéria nenhuma.  João Antônio Miranda Tello Ramos, um sujeito com problemas psiquiátricos, era CAC.  Quem foi que flexibilizou a legislação mesmo?  Um?  Quem foi? Podem colocar  parte dessa fatura na conta de Bolsonaro. Era CAC para se defender de quem?  Era CAC para matar mulheres.   E mais, misoginia não é transtorno mental.  A doença pode ter potencializado a misoginia do sujeito, mas é somente isso.

Aliás, é ridículo alguém que tem problemas com mulheres em posição de chefia escolher cursar ou se especializar em pedagogia e ir trabalhar em uma instituição de ensino.  Em 2017, último ano em que encontrei dados, 92,5% dos matriculados em pedagogia no Brasil são mulheres.  Quem trabalha em uma escola corre um risco enorme de ser liderado por mulheres.  Talvez o assassino imaginasse que, sendo homem, ele teria o direito natural de ser o chefe.  Repito, misoginia não é transtorno mental.  Uma atualização importante, o Cremerj abriu investigação sobre laudo que autorizou retorno de servidor, mesmo com muitas evidências de que ele não tivesse condições de conviver com as colegas.

Mas as notícias de violência contra mulheres de todas as idades, classes sociais, regiões do país se multiplicaram nos últimos dias.  O algoritmo vai me jogar esse tipo de coisa na cara, afinal, eu fico mais que monitorando essas desgraças, mas pareceu demais até para mim.  E o nível de violência de alguns casos foi extremo.  Segue uma cronologia:

  • 27/11 - Raquel de Oliveira Lima, de 26 anos, foi morta a facadas pelo ex-namorado, João Carlos Rodrigues de Lima, na frente do filho de seis anos, em Itararé (SP).  Motivo?  Ela não aceitou casar com ele.  Depois de matar a jovem no meio da rua, ele  fotografou o corpo e enviou os registros para o grupo da igreja que ela frequentava.
  • 29/11 - Thiago Schoba, conhecido na internet como ‘Calvo do Campari’, coach de masculinidade, foi preso em Salto, no interior de SP, por violência doméstica e lesão corporal contra a namorada Lais Gamarra, de 30 anos.  Eles mantinham um relacionamento há três meses somente.  Depois do exame de corpo e delito, foi determinado que Laís tinha onze lesões.  Ela gravou parte das agressões queforam motivadas pelo fato da mulher negar-se a fazer sexo anal com o sujeito, o que configuraria tentativa de estupro.  O Calvo do Campari ganha dinheiro ensinando homens a dominarem mulheres, disseminar ódio contra nós todas é sua profissão.  Esse mercado, aliás, é muito lucrativo, e fiz um post no ano passado, nesta mesma época, comentando uma pesquisa da UFRJ.  O Calvo da Campari passou por audiência de custódia e foi solto com pífias medidas protetivas.  E há um detalhe a mais, ele já ameaçou duas mulheres ("de processo ou bala"), quando se tornou famoso e recebeu o apelido que tem.  Os processos foram arquivados.  Ao que parece, ele vai continuar por aí dando lições de misoginia e exercitando sua violência contra mulheres impunemente.  Vai precisar matar ou mutilar alguém para ser contido?
  • 29/11 - Douglas Alves da Silva, de 26 anos, arrastou Tainara Souza Santos, uma ex-ficante ou ex-namorada, de 31 anos.  A mulher, que tem dois filhos, foi arrastada por mais de um quilômetro pela Marginal do Rio Tiête.  Testemunhas relatam que ele a atropelou de propósito.  Ela perdeu as duas pernas na altura dos joelhos e teve que receber transfusão de sangue.  Ainda corre risco de morrer.  O sujeito resistiu à prisão e mentiu dizendo que não conhecia a vítima, acrescentando depois que só queria dar um susto nela, sem intenção de causar maior dano.  Foi  uma brincaderinha somente.  Segundo as amigas, Tainara ama dançar, o que torna tudo ainda mais triste.
  • 29/11 - Jane Oliveira, 47 anos, foi assassinada a facadas e teve o corpo deixado em uma construção abandonada pelo ex-companheiro em Valparaíso de Goiás, no Entorno do Distrito Federal. Ela deixou quatro filhos.  Wesley Santos, de 36 anos, utilizava tornozeleira eletrônica e tentou fugir após o crime, mas acabou preso.  
  • 29/11 - Isabely Gomes de Macedo, 40 anos, e os filhos, Aline, 7, Adriel, 4, Aguinaldo, 3, e Ariel, 1, morreram em um incêndio, em Recife.   Segundo vizinhos, mãe e filhos eram vítimas de violência por parte do suspeito de causar o incêndio, marido e pai das vítimas.  
  • 30/12 - Adriano Vieira Alves foi preso em flagrante após agredir violentamente a própria esposa dentro de casa e tentar matá-la com uma faca.  Ele passara  horas bebendo antes de agredir a esposa.  Só não a matou, porque o filho de 5 anos se colocou na frente e pediu pela vida  da mãe, que  já havia tomado pelo menos uma facada. O caso ocorreu em Florianópolis.
  • 01/12 - Evelin de Souza Saraiva, de 38 anos, foi atacada pelo ex-marido que atirou contra ela com duas armas na pastelaria onde trabalhava em São Paulo.  O suspeito é Bruno Lopes Barreto, que fugiu do local.  A vítima foi levada de helicóptero para o hospital e está internada.

De comum, temos a violência de homens que um dia disseram amar essas mulheres.  Elas são vistas como propriedade, algo que está na raiz do patriarcado, se não aceitam mais esse papel, se se recusam a alguma coisa, podem ser mortas, afinal, esses homens se comportam como a criança mal-criada que quebra o brinquedo que não lhe satisfaz mais.  Os discursos misóginos, que proliferam em nossos dias, a ênfase em uma leitura reacionária de uma submissão bíblica vêm agravando os casos de violência.  Homens inseguros, ensinados a acreditar que têm o direito de acesso livre ao corpo das mulheres, de controlar seu destino, se tornam violentos quando contrariados. A expressão da misoginia, isto é, o ódio às mulheres, não deveria ser considerada como exercício da liberdade de expressão.  Uma mulher ou menina é morta a cada 10 minutos por seu parceiro íntimo ou outro membro da família no mundo.  No Brasil, só no primeiro semestre  de 2025, tivemos  718 feminicídios registrados.  Isso sem contar tentativas, estupros e outras violências.

Não queria ter que fazer outro post antes do fim da campanha, mas sinto que essa onda de feminicídios vai escalar.  Discutir violência de gênero é algo urgente e não somente para que as mulheres e meninas sejam protegidas, mas para que os próprios homens possam ter uma vida mais feliz e saudável. E deixo com vocês o vídeo da campanha "É problema meu" do @vozdadiversidade.



sábado, 30 de agosto de 2025

"Se até Orgulho e Preconceito precisa ter um elenco 'diverso', o drama de época inglês está morto": Quando racismo tenta se passar por rigor histórico

A amiga Jéssica  me passou um artigo do The Telegraph intitulado "Se até Orgulho e Preconceito precisa ter um elenco "diverso", o drama de época inglês está morto.  Os chefões da TV podem achar que estão sendo inclusivos. Mas receio que haja dois pequenos problemas." (If even Pride & Prejudice has to have a ‘diverse’ cast, the English period drama is dead.  TV bosses may think they’re being inclusive. But I’m afraid there are two small problems.), que parece cheio das boas intenções, mas que, na verdade, é de  um racismo descarado.  

O autor, Michael Deacon, parece ser o campeão das causas erradas, começando com a acusação de que quem denuncia o genocídio em Gaza de ser antissemita até chegar à celebração de J.K.Rowling como heroína nacional por perseguir pessoas trans. É esse tipo de gente o autor desse texto que traduzi. Enfim, vou colocar o artigo todinho traduzido e, em seguida, volto para comentar.  Irei manter a estrutura do original, mas o link é do artigo com o pay wall quebrado.  


Se até Orgulho e Preconceito precisa ter um elenco "diverso", o drama de época inglês está morto.

Os chefões da TV podem achar que estão sendo inclusivos. Mas receio que haja dois pequenos problemas.


Há cinco anos, o site da BBC publicou um artigo com o título: "Está na hora de o drama de época totalmente branco ser extinto?".[1] Bem, agora está claro. Hoje em dia, todo drama de época tem um elenco etnicamente diverso, independentemente de quando se passa: a década de 1920 (Wicked Little Letters), a década de 1530 (Wolf Hall: The Mirror and the Light), até 1066 (King and Conqueror, a próxima série da BBC sobre a Batalha de Hastings). Portanto, não foi surpresa ler, esta semana, que a nova adaptação de Orgulho e Preconceito da Netflix também terá um elenco diverso.

Pessoalmente, acho essa tendência fascinante. Produtores de dramas de época sempre se esforçam ao máximo para garantir que figurinos, móveis e decoração pareçam escrupulosamente autênticos. No entanto, quando se trata de escolher o elenco, eles fazem o oposto – e fingem que, 200, 500 ou 1.000 anos atrás, a Inglaterra era tão multicultural quanto é na década de 2020. Eles morreriam de vergonha se, ao fundo, os espectadores vissem um conjunto de painéis solares ou duas linhas amarelas. Mas anglo-saxões negros? Sem problema algum.

É uma combinação peculiar. Se decidimos que a verossimilhança histórica não importa mais no elenco, certamente deveríamos ser consistentes e decidir que ela também não importa mais nas roupas ou no comportamento. Que os nobres da Regência usem camisas do Arsenal. Mostrem os normandos cavalgando para a batalha em Chinooks. Que Sir Thomas More tire uma selfie no cadafalso.

De qualquer forma, a autora do artigo da BBC sobre a extinção do drama de época "totalmente branco" pareceu aprovar essa nova tendência no elenco. "Finalmente", escreveu ela, "a indústria está demonstrando que o drama de época é um gênero no qual a diversidade racial pode ser refletida e celebrada".

Tudo isso é muito bom. O problema é que dá a impressão de que a diversidade racial tem sido "celebrada" ao longo da nossa história. Para os espectadores, isso deve ser intrigante. Nos últimos anos, ouvimos incessantemente que o passado da Grã-Bretanha foi vergonhosamente racista. No entanto, os dramas de época nos dizem que era uma utopia multicultural, na qual pessoas de todas as raças eram bem-vindas em todos os níveis da sociedade.

Ainda assim, não devemos reclamar. Tenho certeza de que essa abordagem daltônica para o elenco se aplica igualmente a todos. Aguardo ansiosamente que a BBC transmita um drama de época sobre o Windrush, no qual os passageiros principais são interpretados por Hugh Grant e Keira Knightley.


Bingley será interpretado por um ator negro na série da Netflix.

Vamos lá!  Voltei!  O texto do The Telegraph pode parecer bem intencionado, mas ele se esforça para esconder o incômodo do autor em ver pessoas não-brancas na tela.  Motivo?  Isso interfere no discurso de que a Europa era branca e foi contaminada, invadida, conpuscarda pela invasão de pessoas "de cor".  Isso perverte o discurso supremacista que a extrema-direita projeta sobre o passado, especialmente, sobre a Idade Média, mas não somente.  E, para quem não sabe, sou uma medievalista aposentada, meu mestrado, doutorado, enfim, praticamente tudo o que produzi de historiografia por mais de 10 anos, é sobre o período.

E, sim, há historiografia sobre a presença de pessoas negras na Europa ao longo dos séculos e feitas por historiadores DE VERDADE. Fiz um vídeo (*tempos atrás*) para o Tik Tok sobre o livro Black Europeans, existe um livro chamado Black Tudors (*que eu preciso comprar*) e já pulei de biografia em biografia na Wikipedia de mulheres negras que serviram na Corte inglesa e escocesa desde os tempos de Catarina de Aragão.  Fora isso, já fiz mais de um texto para o blog sobre negros na Inglaterra de Jane Austen.  Inclusive, a autora criou uma mocinha negra e rica herdeira em seu inacabado Sanditon.  Certamente, o autor do texto iria acusar Austen de estar falseando a História.  Fora isso, recentemente, foi divulgada uma descoberta arqueológica interessante na Inglaterra, um túmulo do século VII contendo restos mortais de dois indivíduos inegavelmente da África Ocidental.  E, para concluir essa parte, um dos últimos programas do Historia FM trouxe um medievalista brasileiro que estuda relações raciais e racismo na Idade Média.  E ele não citou exemplos somente da Península Ibérica, para quem se interessar.  

Várias pessoas negras em iluminuras, a mais antiga é do século XII.  (Fonte)

Como escreveu o excelente perfil Actuel Moyen Âge no Twitter, "Ausência de evidências não é evidência de ausência".  Cabe um pouco de imaginação histórica não para inventar, mas para estar atento às evidências que, por uma série de motivos, não foram lidas como indício de ruptura com um modelo de História que, não raro, nega a presença e o protagonismo para quem não é homem dentro daquilo que seria considerado norma dentro de um determinado período.  É o "nem vou procurar, porque não existe".  "O que a História não diz, não existiu." é uma das frases da minha orientadora de doutorado, Tânia Navarro-Swain, que desenvolveu o conceito de História do Possível.  E Jane Austen sabia disso.  Lembram da conversa entre Anne Elliot e o Capitão Benwick sobre como a História, a oficial, é injusta com as mulheres, ou que dela devemos desconfiar, porque são sempre (*ou quase*) as palavras dos homens que são lidas?  Pois é... Achei até um artigo acadêmico discutindo isso.

Voltando ao texto do The Telegraph, ele aponta algo que eu já comentei, mas a partir de uma perspectiva equivocada.  Quando representamos um passado sem racismo, sem machismo, sem classismo, sem lgbtfobia, falseamos a história, mesmo que isso dê um quentinho no coração de quem não quer ver sofrimentos e desgraça.  Já  bati nessa tecla muitas vezes, em vários textos, um deles foi sobre Gilded Age.   O melhor seria pegar casos de pessoas de grupos minoritários que, apesar das muitas limitações impostas, venceram, mesmo que dentro de uma lógica capitalista e/ou liberal, ao invés de ficar distorcendo o passado e projetando nele valores do presente.  Se não gosto dos reacionários reinventando a História, não me agrada igualmente que os (*ditos*) progressistas o façam.

Exemplo de série color blind, Ana Bolena do Channel 4.

Apesar de apontar isso que discuti acima, o autor do artigo que traduzi não separa essas representações equivocadas do passado de material "color blind", que é coisa muito diferente.  Gostemos, ou não, do "color blind", materiais desse tipo partem do princípio de que os atores  e atrizes não têm cor.  São simplesmente pessoas emprestando seu corpo para personagens.  Deve haver o termo "gender blind", também, porque a lógica seria a mesma.  Então, ninguém nesse novo Orgulho & Preconceito será negro, mesmo que o ator ou atriz seja.  Obviamente, eu já reclamei, e não vou procurar texto para linkar dessa vez, ainda que eu saiba que ele existe, que geralmente os protagonistas da trama são brancos.  É assim no novo Orgulho & Preconceito.  Ousadia seria escalarem um Darcy negro, indiano, árabe, coreano, não deixar o cara exibir suas madeixas cor de cobre.  Percebem o meu ponto?  Também já reclamei do maniqueísmo, que apareceu em Ana Bolena, que está disponível no Globoplay, no qual os brancos eram os maus, e os não-brancos os mocinhos.

Escalar um elenco "color blind" não é o mesmo que tentar reimaginar um passado diverso e acolhedor.  Para o autor, não há diferença entre uma coisa e outra porque o que lhe incomoda é a própria presença de pessoas negras em produções de época.  E ele cita o seriado King & Conqueror, que estreou na BBC em 24 de agosto, porque aparece um soldado negro nas tropas de Guilherme o Conquistador ou de Haroldo, teria que olhar a série.  Os racistas estão se rasgando de dentro para fora por causa de um único frame.  Como pontuou o Actuel Moyen Âge, ainda que improvável, a presença de um negro ali não seria impossível.  E o perfil mostra evidências nas fontes medievais para tanto, fora que não é possível reconstituir o passado como ele foi por vários motivos.  Só que, como é muito bem colocado, esse não é o ponto e eu vou citar: "Então, por que a reclamação aqui? Porque os perfis que reclamam veem essa presença como um projeto político ("wokeísmo") que consideram insuportável.  O argumento do "realismo histórico" é simplesmente um pretexto que lhes permite legitimar seu racismo.".  

Então, desconfiem sempre de quem cobra (*suposto*) realismo em questões raciais ou de papéis de gênero, porque geralmente é o mesmo tipo de gente que não se importa com mudanças históricas que lhe sejam interessantes.  Mesmo que elas sejam absurdas e grosseiras.  É também o mesmo tipo de gente que ADORA imaginar um passado, especialmente a Idade Média, no qual era possível praticar toda a sorte de violências (*sexuais*) contra as mulheres, como se não houvesse regra nenhuma.  Seria o mundo perfeito, porque homens brancos católicos (*na visão deles, claro*) dominariam sobre tudo e todos e as mulheres, especialmente nós, seríamos meros objetos de cama e mesa.  

Enfim, as preocupações do autor do texto poderiam ser legítimas, se ele mal pudesse disfarçar o seu racismo, porque, no final, ele escancara ao falar com certo desprezo de Windrush, o primeiro navio de muitos que trouxe uma leva de imigrantes negros do Caribe, especialmente da Jamaica, para o Reino Unido, a partir de 1948.  Esses negros e negras vieram para suprir a falta de mão de obra barata.  Eles e elas foram discriminados e sofreram racismo.  Para o autor, seria justo que pessoas brancas os interpretassem, porque, bem, "color blind" deveria ir para os dois lados.  Percebe qual o incômodo dele?  E, que eu saiba, só existe um ÚNICO seriado da BBC, filme nunca ouvi falar, contando a história desses imigrantes, Small Island.  E voltamos ao ponto, precisamos contar essas histórias, elas fariam muito mais diferença do que reinventar o passado ou ficar fazendo material "color blind".  Mas essa é somente a minha opinião.

sábado, 23 de agosto de 2025

E o Mr. Darcy da Netflix será louro mesmo. Isso, sim, é inédito!

Apareceram novas fotos dos bastidores de Orgulho & Preconceito da Netflix.  É um material muito esperado, mesmo que a gente não leve muita fé nos resultados.  E eu realmente não concordo com falas  do tipo "Austen deve estar se revirando no túmulo.", porque, seja qual for o resultado, o livro continuará lá para a eternidade e as boas adaptações, também.  E, como eu sempre digo, se essa adaptação nova levar mais gente para o livro, ela cumpriu sua função e FIM de caso para mim.

Mas eis que decidiram deixar o novo Mr. Darcy louro mesmo. Lembrando que o Colin Firth teve que escurecer o cabelo em 1995, porque o padrão de herói romântico exigia cabelos escuros.  Lembro do Shoujocast, quando era somente áudio, da Adriana Sales, uma das maiores especialistas em Jane Austen no Brasil, comentando que cabelos escuros sugeriam mistério, que muitos mocinhos desses romances populares no final do século XVIII e início do XIX eram morenos, italianos até.  Austen não descreve Darcy.  Não sabemos da sua aparência, porém, as adaptações para o teatro e, mais tarde, para o cinema e a TV.  Então, Darcy louro, ou ruivo, porque acredito que Jack Lowden é mais ruivo do que louro.  

Quanto às fotos, imagino que, como os dois estão sozinhos, que sejam do segundo pedido, já no final da história, portanto. E essa ventania, essas rochas, isso tem mais cara de Morro dos Ventos Uivantes do que de Orgulho & Preconceito. E sei que seria difícil manter um chapéu com um vento desses, mas não me surpreenderia se tivessem eliminado os chapéus do figurino, como em Bridgerton.  E ainda não consigo ver Elizabeth Bennet em Emma Corrin, espero que lancem o trailer logo para que eu possa visualizar melhor as coisas.  As fotos vieram do The Mirror.

sábado, 16 de agosto de 2025

The Gilded Age parece representar os negros em um material de época com um realismo raro na TV ou no cinema

Começo dizendo que não assisto  The Gilded Age.  Sei muito sobre a série, porque leio sobre ela, acompanho os posts do Frock Flicks e de gente que eu conheço e assiste ao seriado que é do mesmo criador de Downton Abbey, Julian Fellowes.  Muito bem, posso acabar indo assistir, mas esse post veio, porque preciso falar do mini-doc que vi circulando no Facebook.  Ele está no final e comenta o baile da elite negra, no qual a personagem Peggy (Denée Benton) tem um papel central.  Ao que parece, houve dois bailes, um da elite branca, outro da elite negra.  Eles aconteceram ao mesmo tempo.

Algo que é destacado no mini-doc é o cuidado em apontar que o evento dos negros seguia o mesmo padrão daquele dos brancos, ou seja, eles reproduziam o que era a NORMA da elegância no mundo dos brancos, nada de enfiar um arrasta-pé lá no meio, ou algo que rompesse com o que a cultura europeizada dos norte-americanos refinados via como adequado.  E não havia misturas raciais.  Observando o espectro da cor da pele das pessoas presentes ao baile dos negros, fosse no Brasil, vários daqueles homens e mulheres seriam vistos como socialmente brancos.  Nos Estados Unidos, o buraco era mais embaixo, bastava uma gota de sangue negro e você era negro.  Algo que eu só comprovaria se fosse assistir a série, mas que infiro pelo pouco que vi de The Gilded Age, é que essa elite negra se orgulha de ser o que é, rica, negra e, em alguns casos, culta (*também para os padrões brancos*).

Outro ponto muito legal do mini-doc é que há uma ênfase em estabelecer que se tratam de PESSOAS REAIS, isto é, ou são personagens históricas da Nova York da década de 1870-80, acredito que seja a temporalidade da série, ou inspiradas nelas.  Não estamos no terreno da fantasia histórica, caso de Bridgerton, ou produções color blind como Ana Bolena (*1 - 2*) ou  Persuasão da Netflix (*e o futuro Orgulho & Preconceito vai na mesma linha*), ou ainda, materiais que ignoram o racismo que imperava no século XIX, porque a ciência era racista, como Enola Holmes.  E quem quiser, eu fiz duas aulas para os meus alunos sobre racismo científico (*1 e 2*), mas é aula mesmo, a Valéria professora. E eu já gastei muito tempo escrevendo textos de como acho curioso a recriação de passados nos quais o racismo não existe (*exemplo*), MAS que continuam sendo classistas e machistas (*ou até misóginos*).  Cada um faz ficção do que quiser, porém trata-se de uma escolha curiosa, que merece ser analisada e discutida, fora, claro, que o que parece reconfortante pode produzir uma falsa percepção do passado.

De resto, eu queria mais materiais que mostrassem pessoas de cor, para usar um termo da língua inglesa, isto é, gente que não é branca, mas que foi real, e tenho posts sobre várias delas, e que tiveram vidas extraordinárias, porque o ordinário era ser pobre, obscuro e sofrer racismo o tempo inteiro (*e recomendo o vídeo do Negritude em Letras, que mostra que ser rico não anula o racismo, ainda que possa escamoteá-lo de alguma forma*).  Isso não desmontaria a regra, a norma, mas mostraria que houve filósofos, cientistas, militares, empresários, intelectuais, herdeiros etc., de ambos os sexos em vários casos, que não eram brancos e venceram (*no sentido liberal da coisa mesmo, dentro do capitalismo e em sociedades pré-capitalistas, também*), mesmo lutando contra os racismos de sua época.  Isso empoderaria muito mais do que um Bridgerton, que eu acho bastante divertido, mas é somente isso.  E é preciso contar as vidas de grandes figuras que estavam em suas culturas, em outros espaços que não eram nem a Europa, nem a América, e nos quais o fato de não serem brancos não fazia a mínima diferença.  

E é maravilhoso, pelo menos para mim, ver atores e atrizes não-brancos podendo vestir essas belíssimas roupas de época sem ser em material de fantasia.  Era o mundo dessas pessoas, elas existiram, havia essa elite ilustrada e rica que convivia paralelamente, às vezes, se tocando, com a elite branca, e o mundo não era menos racista por causa disso, mas nem todos os negros e negras estavam lá sofrendo o tempo inteiro.  O mini-doc está abaixo, para quem quiser assistir: 

segunda-feira, 10 de março de 2025

Shoujocast no Ar! Café e Conversa: Anora é plágio?, Time Sett ou Time Azure?, Shoujos obrigatórios e Dia Internacional das Mulheres.

Como já tivemos um programa sobre Watashi no Shiawase na Kekkon, este é um programa tema livre.  Peguei uma série de coisas que eu queria comentar, esqueci de umas duas, ficou longo demais, mas tem um Sumário com a minutagem bem certinha (*está no Youtube*).  Por conta dos tais "Shoujo Obrigatórios", retomei a leitura de 200 M Saki no Netsu  estou indignada de alguém acusar a série de ser ruim, ou tóxica.  Vou ter que fazer uma nova resenha (escrita), é urgente.  Enfim, espero que vocês gostem do programa.  Tinha que ter saído ontem, mas não deu.  Coloquei vários links no programa, mas estão no Youtube.

sábado, 25 de janeiro de 2025

Garota do Momento tem a personagem mais feminista que eu já vi em uma telenovela

Preciso fazer um pequeno post sobre a novela Garota do Momento, houve um primeiro texto de análise dos primeiros capítulos, ele está aqui.  Haveria mais coisas a comentar, gosto da novela, tenho críticas, também, mas vou ficar somente com uma personagem, que não é protagonista, mas é, pelo menos para mim, a mais revolucionária da trama, Lígia Sobral.

Interpretada por Paloma Duarte, Lígia é mãe de um dos protagonistas, Beto (Pedro Novaes), casada com Raimundo (Danton Mello), o mais velho de seus filhos, os outros dois são Celeste (Débora Ozório) e Ronaldo (João Vítor Silva).  Quando o filho mais jovem do casal tinha 10 anos de idade, ela foi embora de casa.   Ela não partiu por causa de um amante, ou por não amar o marido, mas porque queria ser LIVRE.  E enfatizei a palavra, porque mais do que ter abandonado o lar para ser cantora, nesta semana, a autora, Alessandra Poggi, colocou pequenas cenas que ajudaram a explicar os comportamentos da personagem.

Qual mãe abandona os filhos?  Celeste é a que mais odeia a mãe, porque ela era tão jovem que mal se lembrava dela.  Em uma cena mais lá atrás, Verinha (Tatiana Tiburcio), a governanta da casa, mulher negra, confrontou Lígia com uma verdade: ela foi a mãe dos filhos da patroa (*e amiga*), deixando seu próprio filho com menos atenção do que poderia receber.  Empregadas que são mães substitutas são uma constante na História do Brasil e na nossa dramaturgia e não falo somente de TV, Que horas ela volta?  é sobre isso, também.  

Esta cena daria outro post, mas é preciso marcar que o vazio deixado por Lígia não ficou vazio, havia alguém lá.  Esse mesmo vazio poderia não ter sido produzido por uma ação tão radical, o abandono do lar, mas por morte, ou mesmo uma agenda social intensa e muito mais importante (*para o marido*).  Mães burguesas delegavam a maternagem (*o cuidar, o estar junto*) para outras mulheres, as da nobreza já o faziam antes.  Nem sempre por escolha consciente, ou de boa vontade, mas não era incomum.  O problema, ou a inovação, no caso de Lígia é que ela se ausentou do lar por vontade própria.

Se Verinha preencheu o vazio materno de alguma forma, ainda que não tenha evitado o trauma, que é forte, ainda que diferente, nos três filhos, o pai, Raimundo, tratou de plantar uma imagem negativa da mãe.  Lígia não amava os filhos, não amava a família, não era uma mulher "de verdade".  Ao longo dos capítulos, ficamos sabendo que Lígia sempre tentou manter contato com os filhos, mas foi bloqueada pelo marido, especialmente, se a aproximação era com a filha.

Raimundo queria fazer de Celeste uma "moça de família" perfeita e destinada a um casamento que não fosse destruído por ambições e comportamentos pouco femininos.  Conforme os capítulos avançam, entendemos que há amor entre Raimundo e Lígia, mas que um dos motivos da esposa ir embora foi o ciúme e o comportamento do marido que, sim, é um homem típico de sua época.  Danton Mello está excelente, e digo sem problema que nunca fui fã do ator, como esse marido e pai normal, ele poderia ser transferido para os anos 1950 e se perder lá sem problema.  Digo mais, nos anos 1950, ele seria um sujeito normal e positivo, ele estaria na média para cima.  O problema é que Lígia é uma mulher muito fora da média.

Em todos os meus anos vendo novela, nunca vi uma personagem como Lígia em tela, não uma que fosse positiva, porque através dela a autora vem externando pautas feministas que já existiam desde muitos séculos, mas que são muito impopulares.  Lígia nunca sonhou em casar, em ter filhos, em estar ligada a um marido.  E, no caso dessa última ligação, isso significava perdia AUTORIZAÇÃO POR ESCRITO para votar, trabalhar fora de casa, viajar.  O marido também poderia receber o salário pela esposa, ou obrigá-la a voltar para casa sob a ameaça de prisão (*abandono do lar*). Se a matasse em caso de adultério, ele provavelmente terminaria livre. Se a agredisse fisicamente, talvez o caso nem fosse acolhido em uma delegacia. 

Não havia igualdade, os feminismos foram e são necessários e a luta das mulheres que não se identificavam como feministas, também.  Por isso, defendo que o Raimundo está um pouco acima da média.  Lígia disse para a filha em uma conversa esta semana, quando confrontada pela garota sobre o motivo de ter se casado e tido filhos, que foi ensinada a acreditar desde pequena que esse era seu destino, seu único destino possível (*de mulher branca e burguesa, que fique claro*) e que tentou se acomodar, mas não conseguiu. 

Diante da questão dos filhos, ela disse que amava os filhos, que tê-los não foi um erro, mas que amava mais a si mesma.  A uma mulher não é permitido nem viver um dos mandamentos bíblicos mais primordiais “Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Mateus 22:39).  A mulher deve amar os outros para ser amada, deve acreditar que ao amar e se sacrificar, ela está cumprindo sua função nesse mundo.  Eu cresci ouvindo da minha mãe um adágio atribuído a Gandhi "Quem não vive para servir, não serve para viver.".  É bonito e justo, mas como se pode servir de forma apropriada se você não se ama?  se está genuinamente infeliz?  Além de amar os filhos, Lígia ama o marido, mas não o arranjo que a sociedade lhe impõe.  

Quando Poggi entrega um papel tão difícil nas mãos de uma grande atriz, ela garante que a gente possa sentir simpatia por uma personagem que pode levantar bandeiras pouco populares.  Porque, sim, para ser feliz, plena, para conseguir se construir como ser humano, Lígia abandonou os filhos, ela não se sacrificou.  Que mulher é essa?  É uma mulher que quer ser dona de si e que sabe que não poderá amar se não se amar.  No caso do marido, e eu torço para que Lígia e Raimundo se entendam, ela não conseguia viver em uma gaiola de ouro, adorada, verdade, mas uma propriedade.  Em outro mundo, com um arranjo diferente, poderia não ser assim, talvez, eles nunca se tivesse separado.


Agora, nesse momento, temos o drama do desquite.  Lígia prometera que nunca pediria a separação, mas ela quer autonomia legal e acesso aos bens que lhe pertencem por direito.  O estopim foi uma crise de ciúmes do (ex)marido, que chegou a rasgar o seu passaporte para que ela não pudesse viajar, já que ele não daria sua assinatura novamente.  A Lei do Divórcio (Lei 6.515/1977) foi sancionada somente 26 de dezembro de 1977, antes disso, ainda que o Estado admitisse a separação, os laços eram indissolúveis e geravam estigma para os envolvidos, especialmente, se tentassem constituir uma nova família. 

Espero que a autora não lide com o tema de forma tão ligeira, e nem falo tanto no caso da família Sobral, mas de outros casamentos que estão se desfazendo (*Alfredo/Teresa, Anita/Nelson*).  A questão não era leve, no caso das mulheres, e estou pensando em Teresa (Maria Eduarda de Carvalho), irmã de Lígia, que é dona de casa, mãe, esposa e ama esse papel, poderia representar trauma e grande rebaixamento econômico.  No caso de Teresa, ela ainda sofre de um transtorno mental, vamos ver como a autora desenvolve as coisas aqui, mas este é um dos pontos da novela que não parece caminhar muito bem.

Antes que eu me esqueça, mesmo com a obstrução do marido, Lígia exerceu algum papel na vida dos filhos.  Ronaldo, o filho do meio, é quem ativamente procurou a mãe, mesmo que mantendo com ela uma relação conturbada, ele considera aquilo que Lígia lhe diz e, sentindo-se menos amado pelo pai, aceita seu afeto.  Já o mais velho, a rejeitava categoricamente até que começou a perceber que, talvez, somente talvez, ela não fosse tão ruim quanto ele imaginava, ou o pai lhe pintara.  Já com a filha, neste momento da trama, ela está abrigada na boate da mãe, a quem chama pelo nome, como todos os filhos, já que é uma forma de lhe negar a maternidade.  

A relação com a menina está melhorando e rendendo ótimas cenas e reflexão sobre os papéis femininos de ontem e hoje.  Não sei quando e se Celeste irá retornar para a casa do pai.  Antes disso, mesmo que rechaçada, Lígia atuou para acabar com a relação abusiva entre Mauro (João Vithor Oliveira) e Celeste, apoiando a menina, quando ela se acreditava culpada pelo comportamento violento do "namorado" e suja.  Deveria escrever um texto sobre isso, também, mas não será agora.

Enfim, concluindo, porque já me estiquei demais, eu realmente nunca vi uma personagem feminista tão corajosa em assumir bandeiras impopulares, mas necessárias.  Porque ninguém pede a um homem que ele se anule, ele sempre terá uma mulher para lhe apoiar, seja esposa, mãe, irmã, mas uma mulher, dentro daquilo que é esperado socialmente, ela deve se construir a partir dessa subordinação às necessidades dos outros.  Vamos ver como a autora conduz a trama e espero muito que a Lígia não se descaracterize, mesmo que ela e Raimundo se entendam no final.