Mostrando postagens com marcador Sociedade. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Sociedade. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 7 de setembro de 2026

Por que a educação feminina não está impulsionando a queda da taxa de natalidade no Japão: O Efeito Cavalo de Fogo (Artigo traduzido)

Tropecei nesse artigo do site Savvvy Tokyo e tinha que traduzi-lo e trazer para cá.  O Japão sofre com a queda da natalidade e há vários posts sobre isso no Shoujo Café.  De quem é a culpa?  Se perguntar para os velhos que mandam na política japonesa, a resposta é evidente: das mulheres.  Elas estão estudando demais, são egoístas e não querem servir ao seu país e aos homens, claro!  Obviamente, o machismo, a misoginia e a falta de políticas públicas voltadas para as famílias com crianças pequenas e o acolhimento das mães solo nada têm a ver com isso.  O que o artigo, fruto de um estudo da da Universidade de Waseda, da Universidade Nacional de Singapura e da Universidade de Serviços Humanos de Kanagawa aponta é que uma superstição tem um papel grande em quedas de natalidade em anos específicos, eles pegaram o ano do Cavalo de Fogo de 1966 e perceberam uma baixa na natalidade, porque meninas nascidas sob este signo não são vistas como auspiciosas.

O Horóscopo Chinês tem papel nas altas e baixas da natalidade na China e no Japão; já tinha lido sobre isso, mas não a partir de um estudo demográfico.  O Cavalo de Fogo é indesejável para meninas, pois acredita-se que as mulheres nascidas neste ano possuem um temperamento explosivo, excesso de independência e uma força que "supera a dos homens".  Resumindo, as mulheres nascidas no ano do Cavalo de Fogo não são dóceis e são muito ambiciosas.  Elas trariam azar para seus maridos.  O que seria ótimo em um homem é péssimo para uma mulher.  Como o ano do Cavalo de Fogo se repete a cada 60 anos, há quem esteja se questionando se teremos a natalidade despencando ainda mais no país.  Não é excesso de educação; há vários fatores para a queda da natalidade, e um deles é um preconceito de gênero misógino.

E, para quem não entendeu a história do elemento fogo, além dos doze signos do Zodíaco, há a combinação com os elementos.  Madeira, Fogo, Metal, Terra e Água.  Eu sou dragão de fogo. Nasci em 1976.  O próximo ano do dragão de fogo será em 2036.   Mas há as outras combinações.  A pior para meninas é cavalo de fogo.  Quanto aos meninos não existe um signo especificamente pouco auspicioso, as aqueles que concentram muita energia feminina (Yin) seriam menos desejáveis, como cabra e coelho.  O artigo está abaixo, mantive a estrutura do original, inclusive com os links. 

Por que a educação feminina não está impulsionando a queda da taxa de natalidade no Japão: O Efeito Cavalo de Fogo

Por Kerri King | 24 de junho de 2026 | Estilo de vida

Uma superstição de 60 anos, um novo estudo e o que isso realmente nos revela sobre trabalho, família e fertilidade no Japão.

Enquanto a taxa de natalidade no Japão continua a cair para níveis recordes, as autoridades rapidamente apontam o dedo para as mulheres que ascendem na carreira. Trata-se de uma narrativa misógina que considera o avanço pessoal das mulheres como um obstáculo social, mas será que ela se sustenta em evidências concretas? Um novo estudo publicado na revista Demography , conduzido por pesquisadores da Universidade de Waseda, da Universidade Nacional de Singapura e da Universidade de Serviços Humanos de Kanagawa, adota uma abordagem inteligente para descobrir. Ao analisar um momento atípico na história demográfica do Japão, eles separaram os fatos da ficção para verificar se a culpa é realmente justificada. 

A Superstição do Cavalo de Fogo

Uma superstição com consequências muito reais.

Para entender o estudo, precisamos primeiro analisar o Ano do Cavalo de Fogo ( hinoeuma ), um ano do zodíaco que ocorre a cada 60 anos. De acordo com uma superstição antiga, as meninas nascidas no Ano do Cavalo de Fogo possuem personalidades teimosas que trazem infortúnio para suas futuras famílias. Essa crença está ligada à história de Yaoya Oshichi, uma adolescente do período Edo executada por incêndio criminoso, cuja lenda historicamente alimentou ansiedades em relação a jovens mulheres obstinadas.

Pode parecer uma superstição, mas ela teve consequências muito reais. As taxas de natalidade caíram durante os anos anteriores ao "Cavalo de Fogo", com o declínio mais significativo ocorrendo em 1966. Temendo o estigma associado às meninas "Cavalo de Fogo", muitos pais adiaram a maternidade. Com a contracepção e o aborto mais acessíveis do que nunca, os nascimentos em todo o Japão despencaram de 21% a 24%.

O momento também foi significativo. Com os casamentos arranjados ( omiai ) ainda representando cerca de metade de todos os primeiros casamentos no Japão, muitos pais temiam que as filhas nascidas sob o signo do Cavalo de Fogo tivessem dificuldades para encontrar parceiros. Em vez de arriscar suas chances, muitos simplesmente adiaram a maternidade.

O que acontece quando mais mulheres vão para a universidade?

A educação alterou ligeiramente o cronograma.

Para a professora associada Rong Fu e seus colegas, o busto do bebê de 1966 criou uma oportunidade de pesquisa inesperada.

O ano letivo no Japão começa em abril, o que significa que as crianças nascidas entre janeiro e março são agrupadas na turma anterior. Como resultado, as mulheres nascidas nos três primeiros meses de 1967 acabaram compartilhando salas de aula com a turma de 1966, muito menor, mesmo não tendo nascido no ano do Cavalo de Fogo.

Essa peculiaridade aparentemente pequena do sistema educacional teve consequências significativas. Com menos estudantes competindo por vagas, essas mulheres enfrentaram uma concorrência drasticamente reduzida. Elas tiveram maior acesso a oportunidades educacionais ao longo de seus anos escolares e enfrentaram menos concorrência ao se candidatarem às universidades, alcançando níveis mais altos de educação puramente por sorte.

Se a narrativa que temos ouvido há anos fosse realmente verdadeira, esse grupo deveria ter um perfil muito diferente. Mais educação deveria ter resultado em casamentos significativamente mais tardios, menos filhos ou mulheres optando por não ter filhos por completo.

Só que não foi isso que aconteceu.

Os pesquisadores descobriram que as mulheres que se beneficiaram de maior acesso à educação adiaram o casamento em apenas duas semanas, em média, e seu primeiro filho nasceu apenas cerca de 40 dias depois do que o de suas pares. Aos 45 anos, elas tinham a mesma probabilidade de estarem casadas e terem filhos que mulheres de grupos comparáveis.

Em outras palavras, o temido fantasma demográfico nunca se materializou. A educação alterou ligeiramente o cronograma, mas não fez com que as mulheres optassem por não se casar ou não ter filhos. Na verdade, os resultados sugerem que a educação tem pouco impacto sobre se as mulheres, de fato, se casam ou têm filhos.

Por que culpar mulheres com formação acadêmica é ignorar o problema.

A questão não tem nada a ver com a educação das mulheres.

O estudo questiona uma antiga suposição sobre os motivos pelos quais menos pessoas estão se casando e tendo filhos. A educação feminina tem sido apontada como a principal causa da queda na taxa de natalidade no Japão, mas os pesquisadores encontraram poucas evidências que sustentem essa narrativa. As mulheres que cursaram o ensino superior apresentaram a mesma probabilidade de se casar e ter filhos que as demais.

Na verdade, essas mulheres mais instruídas não estavam rejeitando a vida familiar tradicional. Elas se casavam com níveis mais altos de participação no mercado de trabalho, embora ainda seguissem, em grande parte, os padrões tradicionais de casamento e criação de filhos.

Em outras palavras, a questão não é a educação das mulheres. As mulheres se adaptaram a uma economia em transformação, mas muitos locais de trabalho e instituições não. Elas continuam a enfrentar sexismo no ambiente de trabalho, penalizações na carreira por serem mães e dificuldades para retornar ao mercado de trabalho.

Entretanto, a resposta à queda da taxa de natalidade no Japão tem se concentrado no apoio financeiro, incluindo  o aumento dos auxílios por criança, assistência educacional e a gratuidade do parto padrão. Embora essas medidas possam aliviar o custo de criar filhos, elas pouco contribuem para solucionar as barreiras no mercado de trabalho e as expectativas sociais.

Quando a prefeita de Yawata, Shoko Kawata, anunciou que tiraria licença-maternidade, ela se viu no centro de uma reação negativa que questionava se ela deveria ter engravidado.

Foi um lembrete familiar do padrão impossível ao qual muitas mulheres são submetidas. As mulheres são incentivadas a construir carreiras, contribuir para a sociedade, casar e ter filhos. No entanto, quando alguém de fato consegue fazer tudo isso, as críticas muitas vezes surgem mesmo assim.

A questão mais importante é se os locais de trabalho podem se adaptar à forma como as mulheres já vivem e trabalham.

segunda-feira, 13 de julho de 2026

Premiada autora Yu Miri foi assediada na internet após criticar o racismo dos políticos japoneses.

O Unseen Japan trouxe uma matéria falando dos ataques xenofóbicos sofridos pela romancista Yu Miri, filha de imigrantes coreanos e descendente de um grupo chamado de Zainichi (在日), isto é, residentes estrangeiros no Japão.  Seu pai veio para o Japão quando criança, na época em que a Coreia estava ocupada pelos japoneses.  Sua mãe migrou na época da Guerra da Coreia.  Yu Miri, nascida em 1968, viu seus pais se separarem por causa da violência doméstica, sofreu racismo e bullying, tentando tirar sua vida mais de uma vez.  Seu refúgio e salvação foi a literatura e ela é uma das mais premiadas romancistas do país, que não deixa de falar das minorias, dos estrangeiros e de questões que sempre estiveram presentes em sua vida.  Por conta disso, mesmo antes dela criticar o atual governo japonês, eventos de lançamento de seus livros foram cancelados por ameaças de ataques com bomba.  Seu romance mais importante se chama Tokyo Ueno Station (上野駅公園口/Ueno-Eki Kōenguchi).  Tem em inglês e em várias outras línguas no Amazon.

Voltando para a matéria do Unseen Japan, a autora criticou os discursos da extrema direita japonesa, inclusive o partido mais radical, o Sanseito, e seu slogan "Japoneses em Primeiro Lugar" e "(...) criticou a recente retórica política anti-estrangeiros no Japão, alertando para a crescente normalização de atitudes excludentes. Suas postagens rapidamente atraíram uma onda de abusos discriminatórios, (...)".  Os haters da internet começaram a atacar a autora argumentando que ela não era japonesa e não deveria opinar sobre a política do país no qual nasceu, cresceu e sempre residiu.

Segundo a matéria, "A reação negativa logo se tornou tão severa que seu editor na revista Weekly Gendai, Hatori Ryō, saiu publicamente em sua defesa, condenando os ataques .  “Não posso fechar os olhos à discriminação”, escreveu ele.  Ele argumentou que estrangeiros e minorias étnicas que vivem no Japão têm todo o direito de expressar opiniões sobre a sociedade em que vivem.".  O racismo, acirrado pelos discursos contra os imigrantes, parece estar crescendo no Japão em um país que nunca foi muito acolhedor com os diferentes, inclusive quando se trata de japoneses étnicos.

Ainda segundo a matéria, o país tem uma Lei de Eliminação do Discurso de Ódio, que é de 2016, mas "(...) a retórica discriminatória persiste, tendo grande parte dela migrado das ruas para as redes sociais. Em 2020, por exemplo, o presidente de uma grande empresa de cosméticos utilizou retórica anti-coreana ao atacar seus concorrentes.".  Ou seja, há mais questões envolvidas nessa onda contra os imigrantes e seus descendentes do que sentimentos racistas, ainda que eles estejam lá.  De qualquer forma, o caso tem atraído grande atenção e provocado uma onda de apoio à autora, só não acho que o governo atual irá se comprometer em integrar pessoas, acredito mesmo que irá insistir em excluir.

quinta-feira, 11 de junho de 2026

Parlamento japonês planeja revisar os regulamentos que regem a casa imperial, mas sem mexer com a sucessão estritamente masculina

A família imperial japonesa está condenada à extinção se mantidas as regras atuais, que vêm da constituição de 1947.  Além da sucessão estritamente masculina, que não está na esfera de discussão, todas as mulheres da família imperial se tornam plebeias ao se casarem.  Segundo o Japan Times: 

"Em 1947, após a rendição do Japão no final da Segunda Guerra Mundial, 51 membros de 11 ramos da família imperial perderam seu status real. Atualmente, existem cerca de 10 homens solteiros na linhagem masculina desses ramos que podem ser considerados candidatos à reintegração. (...) Se todas as princesas atuais se tornarem plebeias após o casamento, o número de membros da realeza cairá para 11. (...) O tamanho da família imperial diminuiu ao longo dos anos.  Em 1989, quando a Era Showa (1926-1989) deu lugar à Era Heisei (1989-2019) com a morte do Imperador Hirohito, havia 21 membros da família real. Atualmente, esse número caiu para 16. Destes, apenas três são homens na linha de sucessão e cinco são mulheres solteiras, incluindo a Princesa Aiko, filha única do Imperador Naruhito e da Imperatriz Masako."

Para tentar remediar o problema, está avançando na Dieta (*o Parlamento japonês*), um projeto de reforma.   Uma das propostas é a do retorno à velha prática da adoção, que permitiria que homens que descendem pela linha MASCULINA de alguns dos ramos da família imperial fossem adotados.  Isso é um costume milenar que imagino que foi abandonado em 1947; não fui procurar.  Outra proposta é que as princesas mantivessem seu status de membros da família imperial, permitindo que continuassem com suas funções de patronas de instituições ligadas à realeza, por exemplo.  Nenhuma palavra sobre qual status teriam seus filhos e filhas ou se seus maridos receberiam algum título de nobreza, nem se seriam partícipes dessas funções.

Imperatriz Suiko (須古天皇, r. 593–628), desenho feito por Tosa Mitsuyoshi, 1726. Eifukuji, Osaka.
O projeto não fala, também, da questão da possibilidade de uma imperadora (*prefiro escrever assim, porque imperatriz é a esposa do imperador*).  E já escrevi outras vezes  sobre isso, mas, para quem não sabe, o Japão já teve oito ou dez mulheres reinantes, josei tennou (女性天皇).  O número varia por causa das figuras cuja comprovação histórica é difícil.  Para os conservadores, a possibilidade de adoção resolveria o problema da sucessão, sem a necessidade de discutir essa possibilidade.

O JT comenta ainda que "Partidos liberais, incluindo o Partido Comunista Japonês, têm pressionado por uma revisão que permitiria uma imperatriz reinante. Uma pesquisa do jornal Asahi Shimbun, realizada em maio, mostrou que 72% dos entrevistados apoiavam a ideia de uma mulher da família real se tornar imperatriz reinante, e revistas e tabloides têm publicado matérias sobre a crescente expectativa de que a Princesa Aiko assuma tal papel.".  Resumindo, os velhos da Dieta (*Parlamento japonês*) estão na contramão do desejo da população, nenhuma novidade, portanto.

segunda-feira, 25 de maio de 2026

Pela primeira vez, mais mulheres jovens japonesas do que homens não querem ter filhos.

Foto: OrangeBook / PIXTA(ピクスタ)

Uma  matéria do Unseen Japan comentou os resultados do relatório da empresa Rohto Pharmaceuticals sobre Gravidez (妊活白書) e que questionou homens e mulheres de diferentes faixas etárias sobre suas opiniões a respeito da gravidez e da criação dos filhos.  400 homens e mulheres entre 18 e 29 anos se eles e elas queriam ter filhos no futuro. Um total de 62,6% respondeu que não – um aumento em relação aos 56,6% do ano anterior. É o terceiro ano consecutivo em que a resposta negativa supera a positiva.  É uma amostragem pequena, sempre é mais interessante quando temos mais gente participando, mas os resultados merecem atenção, claro.

Dentro desse grupo, 64,7% das mulheres afirmaram não querer filhos, superando os 60,7% dos homens que disseram o mesmo. O Unseen Japan destaca que é a primeira vez que as mulheres superam os homens em rejeição a ter filhos.  Ao investigar os motivos da recusa, a Rohto Pharmaceuticals descobriu que "Ao investigar o motivo, Rohto descobriu que as mulheres, mais do que os homens, temiam duas coisas. A primeira era o fardo econômico que ter filhos acarretava. As mulheres temiam isso mais do que os homens, 71,7% contra 63,2%.  Mais impressionante, porém, foi o impacto na carreira. 61,4% das mulheres classificaram isso como um risco, em comparação com apenas 51,2% dos homens – uma diferença de 10,2 pontos percentuais."  Não deveriam ficar supresos, porque são as mulheres que normalmente se veem obrigadas a abandonar a carreira ou lhes dar menos atenção ao terem filhos e isso impacta diretamente os rendimentos da família, também.

A matéria também falha em apontar que as pessoas não se mostram muito interessadas em ter filhos.  Ora, se é caro ter filhos, se no caso das mulheres isso pode ser fim de carreira, se faltam escolas maternais públicas, como as pessoas podem se sentir incentivadas a rocriar?  Segundo o artigo, No ritmo atual, 44,3% dos domicílios no Japão poderão ser compostos por apenas uma pessoa até o ano de 2050.

A matéria destaca que há algo de positivo na pesquisa em relação a ter filhos: "(...)  52,9% das pessoas entre 30 e 34 anos disseram que queriam ter filhos. Essa é a maior porcentagem já registrada, elevando a idade média para ter filhos para 31,3 anos.".  Pessoas com mais de trinta se sentem melhor preparadas para ter filhos, mas há  um porém: mulheres temem por suas carreiras.  "(...) 64,1% das mulheres nessa faixa etária afirmaram que ter filhos impactou negativamente suas carreiras. Esse número é pior do que os 61,4% das mulheres na faixa etária de 18 a 29 anos que compartilharam da mesma preocupação. Além disso, 66,8% delas disseram que consideraram mudar de emprego ou de função dentro da empresa ao começarem a criar filhos.".

Outro aspecto que aparece na matéria é que a maioria dos casais que acabaram tendo filhos afirma que se sentiu despreparada para a experiência. Um total de 62,4% dos homens e mulheres disseram que gostariam que as escolas tivessem se esforçado mais para ensiná-los sobre gravidez e parto.  Bem, seria excelente se as escolas preparassem as pessoas de verdade para a maternidade e a paternidade, porém, como o próprio artigo destaca, a sociedade japonesa precisa que as pessoas tenham filhos, mas não é amigável com quem deseja tê-los.  Não sei se o termo sociedade  é o mais correto aqui, porque quem pune é o sistema controlado por homens velhos ricos e que fazem o jogo das grandes corporações.

O artigo falha em dizer que as pessoas não querem ter filhos, depois de apontar que tê-los é caro, que pode representar fim de carreira para as mulheres.  Eu acrescentaria, também, que a falta de escolas maternais públicas é outro problema, acredito que há posts no blog sobre isso.  A matéria ainda pontua que "No ritmo atual, 44,3% dos domicílios no Japão poderão ser compostos por apenas uma pessoa até o ano de 2050".

E a matéria fecha da seguinte maneira: "Para sobreviver, o Japão precisa de mais crianças ou de mais imigrantes. Deixou claro recentemente que não quer a segunda opção . Mas aqueles que detêm o poder também não parecem dispostos a criar o ambiente necessário para que a primeira seja possível.".  Pois é... 

Esse artigo me fez lembrar de uma matéria do Sora News que eu acabei não comentando,  mas cujo título é "A maioria das mulheres japonesas entrevistadas se arrepende de ter se casado com seus maridos, mas isso é apenas metade da história". E cito a matéria "A pesquisa, realizada pela empresa Presia (...), perguntou a 287 mulheres japonesas casadas, com idades entre 20 e 59 anos, como elas se sentem em relação aos seus cônjuges, e 70% delas disseram que se arrependeram de ter se casado com seus maridos. Alguns desses arrependimentos são bastante fortes, já que 54% das mulheres também disseram que, se pudessem voltar no tempo e recomeçar do zero, não se casariam novamente com seus maridos atuais.".

Por qual motivo as mulheres se arrependem tanto de terem se casado?  Quem se arrepende de ter se casado talvez não queira ter filhos, ou se arrepende de tê-los.  Segundo a pesquisa, o principal motivo de arrependimento é econômico.  Talvez, o casamento tenha representado um fim de carreira e um rebaixamento no padrão de vida.  O Japão tem um custo de vida muito alto e um governo que não tem grandes programas sociais que auxiliem seus cidadãos, mesmo sendo um país rico.  Fora isso, culturalmente, as mulheres são pressionadas a se tornarem donas de casa e vivam em função do marido e dos filhos.  Elas querem mais e isso parece não incluir a maternidade.

sábado, 2 de maio de 2026

O Japão é seguro... a não ser que você seja uma mulher!

O título foi tirado da frase que abre um artigo do excelente site Unseen Japan, aberta aqui no meu navegador por mais de um mês.  Ela se chama Casos de stalking e ordens de restrição no Japão batem novo recorde (Stalking Incidents, Restraining Orders in Japan Set New Record).  O Japão é um país muito seguro, especialmente se comparado com o nosso, no entanto, matérias recentes apontam que as mulheres estão se sentindo cada vez mais vulneráveis ou que a sociedade tem se tornado mais sensível à violência que elas sofrem.  

Segundo a matéria, a Agência Nacional de Polícia (NPA) registrou, em 2025,  3.717 casos de stalking e 3.037.  São recordes desde que o país passou, em 2000, sua lei contra o stalking.  Segundo a matéria, os novos números e o relatório da NPA revelam "(...) um número recorde de prisões por stalking e ordens de restrição após um caso de perseguição e assassinato de grande repercussão.".  Essas situações de assédio e stalking são comuns nos mangás.  Naqueles que são feitos para o público feminino, normalmente são mostrados como um problema, algo que causa terror, porque as autoras sabem como esse tipo de coisa pode terminar e tendem a não ser complacentes com essas coisas.  Isso,, claro, em mangás mainstream.  Por exemplo, apareceu uma situação como essa no primeiro episódio de um anime que está no ar agora, o Parede de Gelo (Koori no Jouheki/氷の城壁).   

Já nos materiais para o público masculino, o stalking pode ser apresentado através do olhar do perseguidor, como algo excitante e prelúdio para um relacionamento amoroso/sexual ou mesmo uma escalada de violência.  Sim, lembrei de uma exceção em um material para o público feminino: Koi to Yobu ni wa Kimochi Warui (恋と呼ぶには気持ち悪い).  Com o agravante de ser um homem mais velho perseguindo uma adolescente.  Escrevi sobre ele anos atrás.

A matéria também relata que a polícia diz "(...) ter consultado pessoas sobre um total de 22.881 potenciais casos de stalking. Esse é o segundo maior número desde 2000. Dos casos investigados pela polícia, 1.546 resultaram em medidas contra o perseguidor para pôr fim ao seu comportamento ilegal. Isso representa um aumento de 205 casos em comparação com 2024. 1.577 casos resultaram em advertências. Um total de 2.171 casos resultaram em acusações formais com base em outras leis. Dois casos, tragicamente, terminaram em homicídio."  Trata-se de maior sensibilidade ou de um fenômeno que vemos por aqui e que parece ser mundial?  De que estou falando, do aumento dos casos de violência contra as mulheres articulados à circulação de discursos misóginos na internet?  O Netlab da UFRJ monitora várias redes sociais e os resultados são assustadores, mas nada surpreendentes.

Os dois casos de assassinato que parecem ter chocado o Japão, segundo a notícia, não são muito diferentes do que a gente vê por aqui, no Brasil, dia sim e outro também.  "Shirai Hideyuki, de 27 anos, assassinou sua ex-namorada, Okazaki Asahi, de 20 anos, em dezembro de 2024. A polícia da província de Kanagawa não realizou buscas na propriedade de Shirai em Kawasaki durante quatro meses, mesmo após Okazaki ter consultado a polícia nove vezes sobre o fato de Shirai estar a perseguindo. O caso veio logo após outro, em março de 2025, no qual um homem assassinou sua ex-namorada, dona de uma lanchonete, em Nishitokyo. O agressor, seu ex-marido, havia cumprido pena de prisão por agressão."  Este  último caso acabou detonando questionamentos sobre a necessidade de mudanças nas leis do país, inclusive a contra  o stalking.

Os casos acabaram reforçando as queixas de defensores de direitos das mulheres que apontam que a polícia não leva a sério as queixas das mulheres e que 80% dos casos de importunação e stalking terminam não sendo registrados.  A maioria das mulheres respondeu que ao tentarem registrar queixas são recebidas por policiais pouco interessados ou que desconfiam da sua palavra e, por isso, terminam desistindo.  No Brasil, essa situação só mudou um pouco quando foram criadas as delegacias da mulher e o pessoal que lá trabalha recebeu treinamento adequado.  

O artigo termina fazendo as mesmas ponderações que eu fiz lá em cima: os casos estão aumentando ou a polícia está ficando mais atenta?  Talvez, os dois casos de assassinato em um país tão seguro tenham servido como alerta.  Agora, na base disso tudo está a estrutura patriarcal que estimula os homens a acreditarem que têm o direito sagrado de se apropriarem das mulheres e que não podem ser rejeitados, porque as mulheres precisam ser gratas por terem sido escolhidas.  Resumindo, esse problema é mundial, porque o patriarcado atravessa todas as sociedades deste mundo no qual estamos vivendo.

domingo, 1 de fevereiro de 2026

Pílula do dia seguinte finalmente liberada no Japão, mas ainda com restrições

O Japão foi o último país-membro da ONU a legalizar a pílula anticoncepcional em 1999.  Em 2020, o Japão permitirá que as mulheres possam comprar a pílula do dia seguinte, um contraceptivo de emergência, sem a prescrição médica, no entanto, tropecei em outra matéria em 2023, dizendo que essa decisão da Dieta (*Parlamento*) não tinha sido implementada ainda.  E estamos em 2026 e o Sora News volta à questão para dizer que ainda não tinha sido liberada a compra sem prescrição médica, que só vai valer mesmo a partir de fevereiro.  Mas é o quê?  Sim, é isso mesmo.  Prometiam e voltavam à discussão.  Os homens velhos que mandam no país não precisam ter pressa.

E o SN ainda explica que, mesmo com a liberação, há ainda alguns obstáculos: 1) Só há uma marca de pílula do dia seguinte liberada no país (Norlevo, da Aska Pharmaceuticals) é cara para o padrão japonês; 2) Vendas online ou por entrega não são permitidas, tem que ir até a farmácia pessoalmente comprar; 3) Após ser comprada em uma farmácia, a pílula deve ser tomada imediatamente, no local, na presença de um farmacêutico.  Privacidade ZERO.  Pense nas adolescentes.  As mulheres não podem comprar e levar para casa ou comprar mais de uma para uma outra emergência.  O SN ressalta que foram QUINZE ANOS de discussões e o avanço foi esse aí.

sábado, 31 de janeiro de 2026

O número de suicídios no Japão cai para o menor patamar já registrado, mas aumenta entre crianças e jovens.

O título do post é de uma matéria do Sora News (Japan’s suicides fall to lowest recorded number ever, but one demographic hits all-time high) e traz informações muito importantes de uma questão que é um problema sérissimo no Japão.  Segundo o SN, desde 1978, quando começaram a registrar os números de suicídios no Japão, a cifra sempre ficou acima de 20 mil mortes ao ano.  Em 2025, o número de suicídios no Japão caiu para 19.097. Essa redução de 1.223 suicídios representa uma diminuição de 6% em relação ao ano anterior.  Por anos, e eu já falei sobre isso em vários momentos (*Ex.: 2008, 2012, 2015, 2020*), o governo japonês vem tentando criar estratégias para diminuir os seus números de suicídio.  Ainda é algo modesto, mas está acontecendo.

O SN comenta que os números continuam maiores entre os homens.  É assim na maioria dos países, dados mundiais de 2023 apontam que 80% dos suicidas são do sexo masculino, mas as mulheres tentam se matar com mais frequência.  No caso do Japão, em 2025 houve 13.117 suicídios masculinos que representaram uma redução de aproximadamente 5% em relação a 2024, enquanto os suicídios femininos diminuíram 8,3%, para 5.980.  Segundo o SN, "(...)as pessoas na faixa dos 50 anos representaram o maior número de suicídios (3.732), seguidas pelas da faixa dos 40 anos (2.951). Os homens na faixa dos 50 anos (2.696) constituíram o maior grupo demográfico por idade/gênero, mas o número total de suicídios diminuiu para todas as faixas etárias adultas em 2025. Ao examinar os fatores que contribuíram para o suicídio, constatou-se que os problemas de saúde foram uma causa muito menos comum em 2025, sendo identificados como causa em 736 casos a menos, 6,1% a menos do que em 2024."

Mas há o dado preocupante: o número de suicídios diminuiu em 2025 em todas as faixas etárias adultas, mas aumentou entre estudantes do ensino fundamental, médio e superior, somando 532 casos. O artigo comenta que apesar de serem apenas três a mais do que em 2024, é o maior número de suicídios já registrado para essa faixa etária e o segundo ano consecutivo com um novo recorde histórico. Encontrei um artigo de 2020, apontando a mesma coisa, ou seja, os números estão em ascensão nessa faixa etária faz algum tempo.  Ainda segundo a matéria, no "(...) o ano passado, a Dieta, o parlamento japonês, aprovou uma revisão da Lei Básica de Prevenção ao Suicídio, que exige que a Agência da Criança e da Família, escolas, instituições médicas e municípios locais abordem e previnam de forma mais ativa o suicídio infantil. Com a entrada em vigor da lei em abril deste ano, espera-se que as taxas de suicídio no Japão diminuam em todas as faixas etárias, incluindo crianças, em 2026."

Esse aumento nos índices de suicídio entre os jovens é mundial, não é coisa do Japão.  Encontrei um artigo de 2024 apontando que eles estão aumentando no mundo desde 2010.  No Brasil, esta é a única faixa etária na qual os números de suicídio vêm aumentando e as taxas estão em ascensão desde a pandemia de COVID-19.  Enfim, a queda de suicídios no Japão precisa ser comemorada e as crianças e jovens precisam ser observados de perto e apoiados, não só lá, mas na maioria dos países do mundo.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

Maioria da população japonesa aceitaria uma mulher sentada no trono imperial... Mais uma vez!

Segundo a matéria do Sora News, uma nova pesquisa, porque uma de 2021 já apontava a mesma tendência, 69% dos japoneses e japonesas são a favor de permitir que uma mulher herde o título de imperatriz, com 24% indecisos e apenas 7% claramente contra.  Para quem não sabe, porque o povo vem com essas histórias de tradição e perde de vista que elas podem ser inventadas, a lei que rege a sucessão ao trono japonês é da constituição de 1947; ela foi feita para asfixiar a nobreza japonesa e estabeleceu que a sucessão ao trono é exclusivamente masculina e pela linhagem paterna.  O atual imperador tem somente uma filha, a Aiko, Princesa Toshi, de 24 anos.  Quem deve  assumir o trono é seu primo, filho do irmão do imperador, o Príncipe Hisahito, de 19 anos.  Para se ter uma ideia, qualquer princesa imperial que se case, salvo com um primo da linha paterna, deixa de fazer parte da Casa  Imperial.   Se houve mudanças na lei, coisa que eu não acredito que aconteça, porque os velhos políticos não vão ceder, não irá valer para essa geração.

Só encerrando, há três possibilidades de sucessão mais comuns: primogenitura com preferência masculina, isto é, qualquer menino passa na frente das irmãs; primogenitura absoluta, que passou a ser a mais usada nas monarquias europeias nesse século; e a exclusão das mulheres e, aqui, cabe explicar.  A Lei Sálica francesa não excluía a linhagem feminina, mas só homens poderiam ascender ao trono; a lei russa desde Paulo I, que odiava a mãe, Catarina, a Grande, estabeleceu que qualquer parente masculino do imperador passava a frente das filhas do czar; e há essa aberração japonesa que é mais burra ainda, mas foi imposta pelos  norte-americanos.  E, sim, já houve imperadoras no Japão (*oito ao todo, mais duas de difícil comprovação histórica*), prefiro chamar assim, seguindo o paradigma embaixador/embaixadora, já que imperatriz é a esposa do imperador, ainda  que sempre  a preferência fosse por homens. 

quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

Campanha do Casamento Igualitário tem um revés no Japão, mas a luta continua

Vou começar reproduzindo um parágrafo do meu post de março deste ano, quando o tribunal superior de Osaka reconheceu que a não existência do casamento igualitário vai contra a constituição japonesa: "No Japão, não há reconhecimento por parte do governo federal do casamento igualitário.  Como o ordenamento jurídico lá é diferente do nosso, as prefeituras e governos regionais podem conceder direitos e mesmo reconhecer os casamentos de pessoas do mesmo sexo, mas a constituição não reconhece.  Dito isso, a coisa pode ser judicializada e ir parar em uma corte federal e o cônjuge não ter seus direitos respeitados.  Uma das críticas da Anistia Internacional  é que esses acordos não asseguram oferecendo alguns direitos, mas estes não dão direitos como herança, visitas hospitalares ou reconhecimento parental."

Esses reconhecimentos municipais ou regionais, no entanto, não são suficientes, pois, como explica o Unseen Japan: "(...) os sistemas de união estável não podem garantir direitos abrangidos pelo governo nacional, como direitos de herança. Eles também estão vinculados ao município de residência atual, o que significa que os casais podem perder o reconhecimento da união se precisarem se mudar (por exemplo, por motivo de transferência de emprego)."

Muito bem, o movimento Marriage For All vem conseguindo avançar no Japão utilizando-se da seguinte estratégia, conseguir que as cortes supremas das províncias reconheçam que todos são iguais diante da lei e que, por isso, negar aos LGBTQIAPN+ o direito de se casar e gozar dos mesmos direitos das pessoas cis hetero seria inconstitucional.  Sendo assim, onze cortes supremas regionais reconheceram total ou parcialmente este princípio.

Depois de uma série de vitórias,  no entanto, no dia 28 de novembro, o Supremo Tribunal de Tokyo reconheceu que a identidade de gênero e a orientação sexual como características pessoais importantes que devem ser levadas em consideração em questões legais, porém, não apontou inconstitucionalidade na negativa do governo federal em reconhecer os casamentos de pessoas LGBTQIAPN+, bastando, na visão do tribunal, que se conceda a união estável, algo que já existe em Tokyo.  Os militantes e advogados demonstraram sua insatisfação, pois a decisão do tribunal negaria um princípio de igualdade que está na constituição do país.  

Shinya Yamagata, ao centro, um dos autores de uma ação judicial que contesta a proibição do casamento entre pessoas do mesmo sexo no Japão, e seus advogados realizam uma coletiva de imprensa em Tóquio, em 11 de dezembro de 2025, após apresentarem um recurso ao Supremo Tribunal. (Kyodo)

Pela decisão do Tribunal Superior de Tokyo: "(...) o sistema de casamento atual é útil para preparar um ambiente para a criação dos filhos e que é razoável interpretar "marido e mulher" como um homem e uma mulher.  O tribunal também afirmou que a liberdade de casamento garantida pelo Artigo 24 da Constituição não se aplica a casais do mesmo sexo."  Esse trecho veio da matéria do Mainichi Shinbum relatando que o grupo entrou com um recurso no tribunal com o objetivo de reverter a decisão de 28 de novembro, a primeira derrota da campanha em um tribunal superior até o momento.

terça-feira, 25 de novembro de 2025

25 de Novembro: Mais um Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra a Mulher e as coisas não parecem estar melhorando

Todos os anos, eu faço um post no Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra a Mulher.  A data  foi estabelecida em 1981, durante o Primeiro Encontro Feminista da América Latina e Caribe, realizado em Bogotá,  a data escolhida foi o 25 de novembro como Dia Internacional da Não-Violência contra as Mulheres.  Trata-se do ponto de início de uma campanha que termina no dia 10 de dezembro, Dia dos Direitos Humanos.   A ONU oficializou a data em 1999.  

Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra a Mulher  foi criado para lembrar o assassinato das irmãs Mirabal, Minerva, Pátria e Maria Tereza, chamadas  de “Las Mariposas”, em 25 de novembro de 1960, pela ditadura de Trujillo, que governava com mão de ferro a República Dominicana.  As irmãs foram presas com seus maridos, mas a comoção foi grande e elas foram libertadas.  Mais tarde, quando iam visitar os maridos na prisão, a ditadura simulou um acidente de carro, os corpos das irmãs foram encontrados no fundo de um precipício, elas já  estavam mortas antes de serem atiradas no abismo.  A morte das três irmãs acabou precipitando a queda do ditador (*apoiado pelos Estados Unidos*), no poder desde 1930.  Hoje, a editora Nemo postou um fragmento do quadrinho francês Ousadas, de Pénélope Bagieu, contando a história das três irmãs.  

Em 2024, estima-se que 50 mil mulheres e meninas foram assassinadas por parceiros íntimos ou familiares em todo o mundo, 137 por dia. Embora os homens representem a maioria das vítimas de homicídio globalmente, as mulheres são assassinadas de forma desproporcional dentro de seus próprios lares: 60% de todas as mulheres assassinadas intencionalmente morreram pelas mãos de parceiros ou parentes.  Uma mulher é assassinada pelo parceiro ou por um parente a cada 10 minutos no mundo, segundo dados da ONU.

A violência de gênero afeta todas as regiões. Em 2024, a África registrou o maior número de feminicídios por parceiros íntimos/familiares (22.600) e o maior nível de risco (3 por 100.000 mulheres). A Ásia veio em seguida, com 17.400 casos, enquanto as Américas apresentaram um dos maiores riscos relativos (1,5 por 100.000). A ONU informa, no entanto, que há muitas lacunas de dados e vários países não têm enviado informações sobre o número de feminicídios.  A África do Sul, por exemplo, envia seus dados regularmente e é a recordista de feminicídios no mundo atual.  Será que o país é realmente o recordista?

A data é importante para que lembremos do quanto as mulheres ainda precisam conquistar, começando com coisas básicas, como direito de ir e vir, autonomia sobre seus corpos, a possibilidade de dizer "não" a um homem sem ter sua vida interrompida.  Aqui, no Brasil, temos índices pavorosos de casamentos infantis, e estou falando de meninas entre 10 e 14 anos, porque se somarmos as adolescentes como um todo, a coisa piora, isso sem falar na gravidez na adolescência, não raro fruto de estupro; estamos entre os países com o maior número de feminicídios no mundo, sendo a maioria das vítimas mulheres negras, e as taxas estao crescendo; estamos em uma batalha permamente para que direitos de interrupção da gravidez que datam de 1940 não nos sejam tirados e que mulheres sejam enquadradas como assassinas se interromperem a gestação mesmo em caso de estupro, risco de morte ou de estarem carregando um feto inviável, os únicos admitidos pela lei.  E ainda vemos crescer o movimento antifeminista, que é alimentado principalmente por visões religiosas extremamente misóginas e pela ignorância mesmo, a falta de letramento de gênero.  

A  gente  não precisa sair do Brasil para apontar casos de violência contra as mulheres, mas se observarmos o mundo, a coisa não fica muito melhor, não.  A Itália recentemente tipificou o feminicídio, mas o editorial do La Stampa fala do quanto o feminismo é mal visto no país e que os direitos das mulheres são motivo de deboche.  Se olharmos para os Estados Unidos, depois da derrubada da Roe vs Wade, temos os direitos reprodutivos das mulheres sob ataque com um número cada vez maior de estados proibindo o aborto na maioria dos casos.  

Com as proibições, mulheres  que chegam perdendo a gravidez ou com alguma complicação não raro têm os cuidados negados, porque os médicos têm medo.  Várias já morreram ou ficaram estéreis.  Enfim, as taxas de mortalidade materna nos EUA, que já eram altas em relação a outros países desenvolvidos, pioraram (*1 - 2 - 3*).  E, claro, o ataque às mulheres trans avança nos países desenvolvidos, com destaque para os Estados Unidos de Donald Trump, já que pessoas trans foram eleitas como o INIMIGO pela extrema-direita com a conivência de alguns grupos feministas.

Se sairmos dos países desenvolvidos, temos o Afeganistão como o símbolo do rebaixamento das mulheres e meninas com o confisco de direitos humanos básicos, como a educação, o lazer, a expressão de pensamento, a saúde básica.  E a maioria do mundo não parece disposta a pressionar o talibã.  Quem se importa com as mulheres?  Com os terremotos que assolaram o país, mulheres foram deixadas sob os escombros, porque os homens consideravam que estariam pecando se as tocassem ou as vissem sem véu ou roupas consideradas corretas ou por medo do regime.  Mulheres morreram por causa disso, seu número provavelmente nunca saberemos.  

No Sudão, mulheres e meninas estão sendo estupradas em massa e mortas pelas Forças de Apoio Rápido (RSF) e seus aliados com o patrocínio dos Emirados Árabes Unidos.  No Iraque, depois de quase uma década de resistência e luta das mulheres, a idade de casamento para as meninas foi reduzida para os 9 anos para as meninas xiitas e 15 anos para as sunitas.  Sob Saddam Hussein, a idade era de 18 anos.  Sim, Saddam Hussein não era um sujeito legal, mas o nome disso é retrocesso.  Os EUA derrubaram o governo iraquiano pelo petróleo, não para garantir os direitos das mulheres ou de qualquer minoria. Agora, o direito de família saiu das mãos do Estado e foi praticamente entregue aos clérigos, o que precariza ainda mais a situação das mulheres.  

E vou fechar com o horror que se repete na Nigéria onze anos depois do sequestro das 276 meninas de Chibok, estudantes de um colégio cristão que foram levadas pelo Boko Haram.  A maioria foi obrigada a se converter e se casar com jihadistas, foi estuprada, teve filhos de seus captores e nem todas foram devolvidas.  No dia 22, mais de 300 alunos, a maioria meninas, e 12 professores de uma escola católica no estado do Níger, na Nigéria, foram sequestrados. Os números começaram com cinquenta e foram aumentando.  50 deles parece que conseguiram fugir, mas a maioria continua retida.  Havia um alerta para que as escolas fechassem, mas imagino a dificuldade para enviar as crianças e adolescentes para casa, normalmente, em zonas rurais.  Não seria arriscado, também?  O primeiro ataque relatado foi a um ônibus.  É o horror para essas meninas e suas famílias.

Enfim, a violência contra as mulheres  persiste e ela tem várias modalidades; identificá-las é importante para um combate eficaz.  Às formas listadas aqui, outras poderiam ser acrescentadas, como a simbólica.  Uma das discussões do momento é a volta dos padrões de magreza extrema.  Algumas matérias sobre o elenco de Wicked: For Good  estão destacando isso (*1 - 2*).  Magreza como sinônimo de beleza, de sucesso, mas de uma feminilidade frágil, que ocupa pouco espaço público.  Como esses padrões são extremamente opressivos, eles terminam por pressionar as mulheres e  meninas  e buscar um ideal inalcançável e pouco saudável.  Como resultado, temos angústia, transtornos alimentares e muito lucro para inúmeras indústrias que vivem da criação e exploração das "necessidades femininas".  

E é isso.  Devo fazer outro post  no final da campanha, mas não terei estômago de escrever sobre o tema diariamente, como fiz em algum ano que ficou para trás.  Falar de violência contra as mulheres é fácil, porque basta que eu abra um grande portal e saia contando as notícias, mas é muito desgastante.  Eu sou mulher, sou mãe de uma mulher, estou irmanada com todas as mulheres do mundo.

sábado, 25 de outubro de 2025

Japão tem uma inédita primeira-ministra e ela é mais reacionária do que a gente imaginava

Desde o início de outubro, quando noticiaram que Sanae Takaichi havia vencido as eleições dentro do Partido Liberal Democrata (PLD), partido dominante da política japonesa desde a sua fundação em 1955, estava meio que evidente que ela seria a nova primeira-ministra.  Sendo mulher, seria algo inédito.  O PLD só não foi governo em dois momentos da história recente japonesa, 1993-1996 e 2009-2012.  Trata-se de um partido de direita e, em nossos dias, com setores cada vez mais à extrema-direita.  Takaichi é exatamente dessa ala mais à direita do partido. 

 Talvez sua eleição tenha sido impulsionada por algo que ocorreu em julho, quando o PLD perdeu maioria no Senado e viu a extrema-direita assumida avançar dentro da casa.  Eles precisavam de 50 cadeiras para dominar a câmara alta superior e conseguiram, com o apoio de partidos aliados de centro-direita e direita, 44 cadeiras.  Já a extrema-direita pulou de 10 para 22 cadeiras, um avanço de fato significativo.  Estabelecido isso, os caciques do PLD devem ter feito os cálculos e escolhido um quadro reacionário para primeiro-ministro, mesmo inovando ao selecionarem uma mulher.

Takaichi, que sucederá a Shigeru Ishiba, trabalhou nos Estados Unidos nos anos 1980 e é da ala do partido próxima do finado Shinzo Abe.  Segundo O Globo: "Takaichi não é vista como defensora dos direitos das mulheres. Ela se opõe à mudança da lei que impede que mulheres ascendam ao trono como imperadoras e já se manifestou contra a revisão da norma centenária que exige que casais compartilhem o mesmo sobrenome legal, alegando que a mudança poderia levar a divórcios ou casos extraconjugais. Takaichi também se posiciona contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo.".  Muito promissor, não é mesmo?  

Ficando somente com a questão do trono, a proibição para que mulheres ocupassem o trono é de 1889, confirmada em 1947, ou seja, é mais um retrocesso fruto do processo de modernização da Era Meiji (1868-1912).  O mesmo vale para a política dos sobrenomes, que é coisa da Era Meiji, também.  Agora, imaginem alguém acreditar que uma mulher pode governar de fato o país, mas não ocupar o trono.  Como foram quarenta anos sem o nascimento de nenhum homem na Família Imperial, houve a discussão sobre a mudança na lei.  O PLD votou contra em massa, imagino que Takaichi tenha dado um dos votos.  Daí, vocês tiram a coisa toda.

Por outro lado, Takaichi prometeu "(...) montar um ministério com equilíbrio de gênero, inspirado nos países nórdicos, onde a participação feminina costuma se aproximar de 50%. Mas Mieko Nakabayashi, professora de ciência política na Universidade Waseda, em Tóquio, afirmou que Takaichi frequentemente atuou como um “obstáculo” para pautas feministas."  Atualmente, as mulheres representam 1/5 da Dieta, o Parlamento japonês, e ocupam somente dois ministérios.  O Japão ocupa o 118º lugar entre 148 no relatório de 2025 do Fórum Econômico Mundial sobre a disparidade de gênero.  Para se ter uma ideia, o Brasil ocupa a 72ª posição.  E ninguém espera que Takaichi faça nada de positivo pelas mulheres, afinal, ela é apontada como a Margaret Thatcher japonesa, o que não quer dizer que ela irá durar no cargo, como explicarei a seguir.

Uma matéria da BBC, intitulada Por que imigrantes brasileiros no Japão estão preocupados com nova primeira-ministra, tocou na questão da fragilização do PLD.  Takaichi será o quarto primeiro-ministro em cinco anos e o PLD não tem maioria em nenhuma das duas câmaras, mas nenhum outro partido tem, então, é preciso compor uma maioria.  Como ela é uma guinada à extrema-direita, o que fez com que o partido Komeito, aliado do PLD por 26 anos, rompesse a aliança, adotou um discurso contra imigrantes e turistas em um momento no qual há um aumento significativo de residentes estrangeiros no país e o número de visitantes aumentou.  Durante a campanha, assim como fez Trump, ela reproduziu informações "não verificadas", vulgo fake news, com acusações a ambos os grupos.  A oposição acusa a nova primeira-ministra de xenofobia.  Já Trump, a elogiou.  

Para fechar essa exposição do reacionarismo de Takaichi, antes mesmo de ser confirmada como primeira-ministra, no dia 17 de outubro, ela visitou o polêmico templo Yasukuni.  Criado em memória dos mortos de guerra do Japão desde a Guerra Boshin (1868-69), o templo "(...) lista os nomes, origens, datas de nascimento e locais de morte de 2.466.532 pessoas. Entre elas estão 1.066 criminosos de guerra condenados da Guerra do Pacífico, doze dos quais foram acusados ​​de crimes de Classe A (o planejamento, a preparação, o início ou a condução da guerra).".  O último primeiro-ministro japonês a visitar o templo foi Shinzo Abe.  Toda vez que esse tipo de visita acontece, China e Coreia do Sul costumam reclamar e com razão, mas Takaichi não deve estar se importando com isso.

Mas quem é Sanae Takaichi?  Takaichi nasceu em 7 de março de 1961, na província de Nara.  Seu pai trabalhava numa empresa automotiva ligada à Toyota e a mãe serviu na polícia da prefeitura de Nara. Graduou-se em Administração de Empresas pela Universidade de Kobe em março de 1984.  Segundo a Wikipedia, "Embora tivesse se qualificado para ingressar nas universidades Keio e Waseda em Tokyo, não pôde frequentá-las, pois seus pais se recusaram a arcar com as mensalidades caso ela deixasse a casa ou escolhesse uma universidade particular por ser mulher.".  Ela viajava seis horas todos os dias para ir e vir da universidade, que era subsidiada com recursos governamentais. E, ainda assim, ela não é sensível às discussões sobre desigualdade de gênero.

Durante seus anos na universidade, tocou bateria em uma banda de heavy metal e seus hobbies incluem mergulho, motocicletas e rock pesado.  Olha só que ousada! Depois de se formar, teve experiências variadas: trabalhou como assistente parlamentar, fez estágio nos EUA como fellow no Congresso americano e também teve atuação na TV.  Entrou para a política em 1993, quando foi eleita para a Câmara dos Representantes como candidata independente; mais tarde, em 1996, filiou-se ao PLD, ocupando vários cargos no partido e no governo como ministra.  E ela tem pelo menos duas fotos com Margaret Thatcher, na época, Takaichi tinha 36 anos.

Entre suas propostas estão a revisão da Constituição japonesa para reforçar o papel das Forças de Autodefesa, afinal, ela é da ala "nacionalista" (*militarista*) do PLD; restrição da imigração e das leis que garantem a permanência de estrangeiros (*isso quando o Japão enfrenta uma queda de natalidade que se agrava ano a ano*); críticas ao casamento entre pessoas do mesmo sexo (*que é garantido em algumas províncias e prefeituras, mas não conta com uma legislação nacional*) e à adoção de sobrenome separado por casais, pois é alinhada aos valores tradicionais.  E, como todo reacionário que se preze, ela é divorciada, porque essa preocupação com família tradicional é sempre em relação aos outros.  Ah, mas ela defende mais creches e escolas maternais para que as mulheres que trabalham possam ter mais apoio.  É alguma coisa, não é mesmo?

Para terminar, é preciso falar de representatividade, a quantitativa e a qualitativa.  Há quem não considera a representatividade quantitativa, mas ela tem seu valor, também.  Uma menina que vê uma mulher em uma posição de poder ou destaque pode tirar dessa imagem a força para lutar para chegar lá, pode rever suas crenças a respeito do "lugar das mulheres" ou do que é ser uma "verdadeira mulher", ou pode simplesmente olhar para aquela mulher fazendo tanto estrago e pensar que, no lugar dela faria diferente, faria melhor.  Obviamente, se houver um homem melhor para ocupar o cargo, ele deveria passar à frente.

Já a representatividade qualitativa é a que mais importa.  É colocar no poder mulheres que façam a diferença para melhorar a vida das outras mulheres e trabalhar para o bem-estar da coletividade como um todo.   No entanto, como bem colocou o professor Sadafumi Kawato, professor emérito da Universidade de Tokyo, para a AFP, essa mulher não será Sanae Takaichi, pois "A sua eleição seria um passo em frente para a participação das mulheres na política, mas ela demonstrou pouca inclinação para lutar contra as normas patriarcais.”.  Então, é isso, a eleição de Takaichi é um marco, ser  uma mulher é importante, mas ela é uma agente do patriarcado e do capitalismo, também, além de ser uma militarista de extrema-direita.