domingo, 13 de setembro de 2026

Novel da Newpop tem capa tarjada na Bienal de São Paulo no que parece ser um misto de misoginia com homofobia

Amanhã é o último dia da 28ª Bienal do Livro de São Paulo, evento cultural importantíssimo e que traz muito lucro e visibilidade, também.  Não ia comentar nada do evento, não fosse a censura a uma capa de novel (romance curto) BL da Newpop.  Muito bem, na semana passada, houve um escândalo por causa de homens mascarados no estande da editora Fruto Proibido que estavam beijando e se esfregando em mulheres. Há fotos dos beijos e das mulheres no colo dos caras dentro do estande da editora. A Fruto Proibido negou ter contratado os sujeitos.  A gritaria justificada veio principalmente do fato das mulheres poderem ser menores de idade, o que configuraria crime.  Simples assim. 

Fui até a página da Fruto Proibido e ela parece ser especializada em Dark Romance.  Esse subgênero da literatura romântica combina histórias de amor tradicionais com personagens moralmente ambíguos, desequilíbrios de poder extremos e temas tabus ou violentos.  Era coisa de nicho, mas como uma matéria do Estadão (Violência, relações abusivas e erotismo: o que é o dark romance e por que ele atrai tantos leitores?) bem apresentou, agora, está entrando no mainstream.  Eu associo Dark Romance à pornografia para mulheres, ainda que eu saiba que há material LGBTQIAPN+, e não estou jogando nenhum peso negativo no fato, estou pontuando que é material para adultos naquele sentido mais direto mesmo.  Tudo o que eu já vi de Dark Romance, livros e principalmente manhwa, é coisa muito pesada.  E o roteiro nem sempre faz valer o esforço de seguir na leitura, ainda que o traço seja interessante, no caos dos quadrinhos.  Não é coisa que me agrade.  

O problema com o rompimento da bolha é que menores têm passado a ser público-alvo e estão produzindo Dark Romance para  jovens adultos (Young adults) que não é nada mais nada menos do que meninas (*porque elas são o alvo principal desse material mesmo*) que ainda estão em formação.  Volta e meia olho um canal literário em que o sujeito está criticando e falando das polêmicas desse mundinho.  Normalmente, ele pega algum título que está bombando ou alguma autora "problemática" para comentar.  Confesso que tenho preguiça de me aprofundar nesse lodaçal, mas sei que existe polêmica lá nos Estados Unidos e, claro, iria chegar aqui.  Não sei se a Fruto Proibido publica material YA desse nicho, mas, ao que parece, as autoras (*porque em sua maioria são autoras*) estão em uma competição para ver quem produz material mais extremo.

Estabelecido isso, eu diria sem problema algum que se a preocupação é com a difusão de modelos de relacionamento tóxicos e que são prejudiciais às mulheres, a literatura mainstream, a romântica em particular, está cheia disso faz tempo.  E podem meter no mesmo balaio as Princesas da Disney ou coisas como Oni no Hanayome, anime que está em exibição e é derivado de livro.  O que me leva a pensar que o que incomoda mesmo é o sexo e que pode ser de um tipo violento.  Se é material para adultos, devidamente sinalizado, a gente pode fazer a crítica, mas uma coisa é levantar pontos problemáticos e refletir sobre eles, outra coisa é pedir censura ou dizer para as pessoas pararem de ler.  No fim das contas, no cerne da questão está a ideia de que mulheres não devem/podem gostar de sexo, mais ainda, ler sobre isso. 

Muito bem, chegamos à Newpop.  Depois do escândalo da Fruto Proibido, a direção da bienal foi atrás de outros problemas para evitar polêmicas e acabou criando uma, pois mandou tarjar a bonita capa do volume 1 do romance BL Define the Relationship.  Para quem caiu aqui por acaso e não sabe o que é BL (Boys Love) trata-se de material retratando relacionamentos entre homens feitos por mulheres e para mulheres.  Na sua origem japonesa, os BL nasceram tanto dentro do shoujo mangá (Kaze to Ki no Uta, Tooma no Shinzu, entre outros) quanto no mercado de fanzines através das paródias de material shounen, principalmente, que eram chamadas de YAOI.  Com o tempo passamos a ter antologias específicas, selos de livros, doramas etc.  Material chinês, e imagino que essa novel seja chinesa, ou coreana, ou de outros países do Leste Asiático pode ter nomes específicos, características diferenciadoras, mas a fonte é a mesma.  Outra coisa, homens podem gostar de BL, muitos gostam, mas isso não invalida a sua origem e seu objetivo básico que é atender às fantasias femininas.  E, sim, há material ocidental, livros de romance para mulheres que têm a mesma função.  Alguns deles como Heated Rivalry, já pularam para a tela.

A arte da capa da novel da Newpop, segundo o Mangás Brasil, é do artista Lucas Paixão.  Olhem para ela e me digam o que há de explícito, violento ou inadequado, de alguma forma, nesta capa?  Faz sentido um negócio desses?  É simplesmente censura e homofobia, talvez.  Lembrou, ainda que em escala bem menor, do caso do prefeito Marcelo Crivella, prefeito bolsonarista e sobrinho do Bispo Macedo, na Bienal do Rio em 2019, quando mandou retirar do evento uma graphic novel dos Vingadores que trazia dois homens se beijando em seu interior (*1 - 2*).   A ação de censura resultou em uma condenação este ano e deu material para a tese de doutorado do Chris Gonzatti.

Resumindo a minha posição com os dados que tenho: trata-se de um caso de misoginia que resvalou em homofobia.  A ação no estande da editora Fruto Proibido foi inadequada e pouco importa se eram mulheres adultas ou menores, não era hora, nem lugar; dark romance é material para adultos e deve ser devidamente sinalizado, o que não quer dizer que deva ser censurado; o que aconteceu no estande da Fruto Proibido não pode servir de argumento para censura de outros materiais ou editoras; e a capa do BL da Newpop nada tem demais.  E, concluindo, ainda vivemos em um mundo que estigmatiza materiais feitos por mulheres para mulheres; se têm conteúdo sexual, a discriminação é ainda maior.  Nossa sociedade não compreende que mulheres podem (*não devem, vejam bem, PODEM*) gostar de sexo, que sexo não deve ser percebido como algo pecaminoso (*ainda que possa, mas isso é uma questão religiosa sua*) e que as pessoas podem ter fantasias que não sejam as suas, ainda que elas possam dizer algumas coisas sobre papéis de gênero e a sociedade em que todos nós vivemos.

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