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domingo, 13 de setembro de 2026

Novel da Newpop tem capa tarjada na Bienal de São Paulo no que parece ser um misto de misoginia com homofobia

Amanhã é o último dia da 28ª Bienal do Livro de São Paulo, evento cultural importantíssimo e que traz muito lucro e visibilidade, também.  Não ia comentar nada do evento, não fosse a censura a uma capa de novel (romance curto) BL da Newpop.  Muito bem, na semana passada, houve um escândalo por causa de homens mascarados no estande da editora Fruto Proibido que estavam beijando e se esfregando em mulheres. Há fotos dos beijos e das mulheres no colo dos caras dentro do estande da editora. A Fruto Proibido negou ter contratado os sujeitos.  A gritaria justificada veio principalmente do fato das mulheres poderem ser menores de idade, o que configuraria crime.  Simples assim. 

Fui até a página da Fruto Proibido e ela parece ser especializada em Dark Romance.  Esse subgênero da literatura romântica combina histórias de amor tradicionais com personagens moralmente ambíguos, desequilíbrios de poder extremos e temas tabus ou violentos.  Era coisa de nicho, mas como uma matéria do Estadão (Violência, relações abusivas e erotismo: o que é o dark romance e por que ele atrai tantos leitores?) bem apresentou, agora, está entrando no mainstream.  Eu associo Dark Romance à pornografia para mulheres, ainda que eu saiba que há material LGBTQIAPN+, e não estou jogando nenhum peso negativo no fato, estou pontuando que é material para adultos naquele sentido mais direto mesmo.  Tudo o que eu já vi de Dark Romance, livros e principalmente manhwa, é coisa muito pesada.  E o roteiro nem sempre faz valer o esforço de seguir na leitura, ainda que o traço seja interessante, no caos dos quadrinhos.  Não é coisa que me agrade.  

O problema com o rompimento da bolha é que menores têm passado a ser público-alvo e estão produzindo Dark Romance para  jovens adultos (Young adults) que não é nada mais nada menos do que meninas (*porque elas são o alvo principal desse material mesmo*) que ainda estão em formação.  Volta e meia olho um canal literário em que o sujeito está criticando e falando das polêmicas desse mundinho.  Normalmente, ele pega algum título que está bombando ou alguma autora "problemática" para comentar.  Confesso que tenho preguiça de me aprofundar nesse lodaçal, mas sei que existe polêmica lá nos Estados Unidos e, claro, iria chegar aqui.  Não sei se a Fruto Proibido publica material YA desse nicho, mas, ao que parece, as autoras (*porque em sua maioria são autoras*) estão em uma competição para ver quem produz material mais extremo.

Estabelecido isso, eu diria sem problema algum que se a preocupação é com a difusão de modelos de relacionamento tóxicos e que são prejudiciais às mulheres, a literatura mainstream, a romântica em particular, está cheia disso faz tempo.  E podem meter no mesmo balaio as Princesas da Disney ou coisas como Oni no Hanayome, anime que está em exibição e é derivado de livro.  O que me leva a pensar que o que incomoda mesmo é o sexo e que pode ser de um tipo violento.  Se é material para adultos, devidamente sinalizado, a gente pode fazer a crítica, mas uma coisa é levantar pontos problemáticos e refletir sobre eles, outra coisa é pedir censura ou dizer para as pessoas pararem de ler.  No fim das contas, no cerne da questão está a ideia de que mulheres não devem/podem gostar de sexo, mais ainda, ler sobre isso. 

Muito bem, chegamos à Newpop.  Depois do escândalo da Fruto Proibido, a direção da bienal foi atrás de outros problemas para evitar polêmicas e acabou criando uma, pois mandou tarjar a bonita capa do volume 1 do romance BL Define the Relationship.  Para quem caiu aqui por acaso e não sabe o que é BL (Boys Love) trata-se de material retratando relacionamentos entre homens feitos por mulheres e para mulheres.  Na sua origem japonesa, os BL nasceram tanto dentro do shoujo mangá (Kaze to Ki no Uta, Tooma no Shinzu, entre outros) quanto no mercado de fanzines através das paródias de material shounen, principalmente, que eram chamadas de YAOI.  Com o tempo passamos a ter antologias específicas, selos de livros, doramas etc.  Material chinês, e imagino que essa novel seja chinesa, ou coreana, ou de outros países do Leste Asiático pode ter nomes específicos, características diferenciadoras, mas a fonte é a mesma.  Outra coisa, homens podem gostar de BL, muitos gostam, mas isso não invalida a sua origem e seu objetivo básico que é atender às fantasias femininas.  E, sim, há material ocidental, livros de romance para mulheres que têm a mesma função.  Alguns deles como Heated Rivalry, já pularam para a tela.

A arte da capa da novel da Newpop, segundo o Mangás Brasil, é do artista Lucas Paixão.  Olhem para ela e me digam o que há de explícito, violento ou inadequado, de alguma forma, nesta capa?  Faz sentido um negócio desses?  É simplesmente censura e homofobia, talvez.  Lembrou, ainda que em escala bem menor, do caso do prefeito Marcelo Crivella, prefeito bolsonarista e sobrinho do Bispo Macedo, na Bienal do Rio em 2019, quando mandou retirar do evento uma graphic novel dos Vingadores que trazia dois homens se beijando em seu interior (*1 - 2*).   A ação de censura resultou em uma condenação este ano e deu material para a tese de doutorado do Chris Gonzatti.

Resumindo a minha posição com os dados que tenho: trata-se de um caso de misoginia que resvalou em homofobia.  A ação no estande da editora Fruto Proibido foi inadequada e pouco importa se eram mulheres adultas ou menores, não era hora, nem lugar; dark romance é material para adultos e deve ser devidamente sinalizado, o que não quer dizer que deva ser censurado; o que aconteceu no estande da Fruto Proibido não pode servir de argumento para censura de outros materiais ou editoras; e a capa do BL da Newpop nada tem demais.  E, concluindo, ainda vivemos em um mundo que estigmatiza materiais feitos por mulheres para mulheres; se têm conteúdo sexual, a discriminação é ainda maior.  Nossa sociedade não compreende que mulheres podem (*não devem, vejam bem, PODEM*) gostar de sexo, que sexo não deve ser percebido como algo pecaminoso (*ainda que possa, mas isso é uma questão religiosa sua*) e que as pessoas podem ter fantasias que não sejam as suas, ainda que elas possam dizer algumas coisas sobre papéis de gênero e a sociedade em que todos nós vivemos.

terça-feira, 23 de junho de 2026

Post japonês viraliza ao apontar que os torcedores do país são admirados por limparem os estádios durante a Copa, mas, em casa, não dividem as tarefas.

"Por favor, faça isso em casa.

Os homens japoneses estão entre os que menos dedicam tempo às tarefas domésticas no mundo. Por favor, compartilhe as tarefas de cuidado não remuneradas em casa.

Comece com respeito em casa."

Esse texto acima veio de um post japonês fazendo uma súplica irônica aos homens japoneses, porque  desde que o Japão passou a ser uma presença constante nas Copas, há aquela admiração pela atitude bonita dos torcedores do país recolhendo o lixo.  "Oh, como os japoneses são educados!"  "Os japoneses são um exemplo!" E a gente lembra dos mangás e dos japoneses limpando a sala de aula, o pátio, a escola toda depois das aulas.  E, sim, nunca vi ninguém que tenha ido ao Japão e não elogie a limpeza do país.  Ruas limpas, lixo meticulosamente separado.  O post não está negando isso, esse aspecto positivo da cultura japonesa; ele está apontando outra coisa: os homens japoneses colaboram muito pouco com as tarefas domésticas.  Dentro de casa, onde ninguém está vendo, limpar e arrumar é coisa de mulher.  

Segundo a matéria do O Globo, "O post recebeu 60 mil curtidas no X e, em outra versão, foi visto 1,9 milhão de vezes.".  Desde a publicação da matéria, o post se disseminou ainda mais.  O artigo do Globo vai além e aponta que, segundo dados da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) de 2021, enquanto as mulheres japonesas dedicam três horas por dia às tarefas domésticas, os homens gastam apenas 47 minutos.  "O Escritório do Gabinete do Japão também cita os dados da OCDE ao afirmar que mulheres passam 5,5 vezes mais tempo que homens em atividades como compras, tarefas domésticas e cuidados com outras pessoas.".  Mas pode piorar, porque em famílias jovens e com filhos menores de 6 anos, o desequilíbrio é ainda maior, mesmo quando elas também têm emprego remunerado.  Talvez o cara que está limpando o estádio depois do jogo tenha uma esposa que ficou sozinha em casa cuidando da casa, das crianças e, talvez, ainda trabalhando fora.

Para ZERO surpresa de quem acompanha as discussões sobre desigualdade de gênero: "A desigualdade no Japão supera a registrada em países como Reino Unido, França e Estados Unidos, onde mulheres passam, respectivamente, 1,8 vez, 1,7 vez e 1,6 vez mais tempo que homens em trabalho não remunerado.".  E eu estou com uma matéria do Unseen Japan aberta aqui desde antes da Copa que aponta para algo que se relaciona a este problema, pois mesmo tendo uma primeira-ministra, pioneira na história do país, a questão da igualdade de gênero está estagnada no país.

O último Relatório de Desigualdade de Gênero do Fórum Econômico Mundial, mesmo com uma primeira-ministra, o que deve ter dado um monte de pontos ao país, o Japão ficou em 118º lugar entre 148 países, na última posição entre os membros do G7, as maiores economias do mundo. Na verdade, mesmo com uma primeira-ministra, o país teve uma queda em relação ao ano anterior, e um dos principais fatores que contribuíram para isso foi a falta de representação política feminina: "a subpontuação de Empoderamento Político do Japão caiu para 8,5%, ante 11,8% no ano anterior. A participação de mulheres em cargos de gestão no país era de apenas 16,1%. Sob o governo do primeiro-ministro Ishiba Shigeru, apenas 10% dos cargos ministeriais eram ocupados por mulheres."  Resumindo, o fato de uma mulher governar o país não fez com que ela montasse um governo com um maior número de mulheres ou estimulasse qualquer mudança no sistema; afinal, ela é parte do sistema.  E, só para efeito de comparação, o Brasil caiu duas posições e está em 72% lugar.

"Direitos das Mulheres são Direitos Humanos!", foto da Marcha das Mulheres de 2022.

Enfim, o post da japonesa é somente uma espécie de alerta e protesto contra a hipocrisia e a idealização do Japão que agrada tanto a um monte de gente.  Sim, o país é limpo, isso faz parte da cultura, mas, dentro de casa, os homens normalmente deixam os trabalhos domésticos e de cuidado para mulheres cada vez mais sobrecarregadas.

quarta-feira, 10 de junho de 2026

Shoujocast no Ar! Marjane Satrapi: Uma autora corajosa e que partiu cedo demais


No dia 4 de junho, foi comunicado que Marjane Satrapi, conhecida mundialmente pelo quadrinho autobiográfico Persepolis, tinha morrido de tristeza.  Ela nunca se recuperara da morte do marido, Mattias Ripa, um ano antes.  Eles permaneceram casados por quase trinta anos.  Morrer de tristeza é possível. Como meu marido é depressivo e tem um quadro severo, eu me senti particularmente tocada.  

Esse Shoujocast foi ravado um pouco na força do ódio, porque vi tantas críticas de gente "de esquerda" a Satrapi, acusações de quem não deve ter lido nenhum de seus quadrinhos ou assistido aos seus filmes, acusando-a de ser partidária da monarquia, dos Estados Unidos, de Israel.  Reclamando que ela não se pronunciou sobre a guerra contra o Irã, o bombardeio à escola de meninas em Minab, o genocídio em Gaza.  


Gente, meu marido passou mais de 4 anos quase sem colocar os pés fora de casa.  Eu não sei do que o marido de Satrapi morreu,  mas se foi uma doença longa, e se ela o amava tanto, talvez ela só tenha ficado focada nele por boa parte do seu tempo.  Quanto à guerra contra o Irã, ela começou em fevereiro; Satrapi morreu em junho, muito provavelmente, ela estava já muito debilitada. 

Outra coisa, as  mulheres do Irã SEMPRE lutaram por seus direitos (inclusive pelo direito de poderem usar o véu, quando foi proibido).  Antes da Revolução, durante a Revolução (a favor e contra ela) e depois da vitória dos aiatolás.  Se as feministas iranianas não estão nas ruas agora, é porque é mais importante se unir por um país que está sob ataque ou pelo menos esperar melhores oportunidades.   Mas me desculpem esticar essa coisa toda, mas depois que eu gravei o programa, li muita bobagem ainda, coisa de gente insensível, inculta e/ou maliciosa.  Mas o programa ainda vale, mesmo que eu tenha falado mais do que deveria.


Enfim, volto ao Shoujocast esta semana.  Como acredito ser importante, estou trazendo os links do programa para cá, também.
Resenhas:
Para ler Satrapi: 

sexta-feira, 5 de junho de 2026

Gilead é Aqui! O Senado deseja que meninas estupradas sejam obrigadas a parir ou que morram no processo

Já escrevi várias vezes sobre o tema, isto é, o ódio às mulheres e como isso se manifesta em leis e regulamentos que tornam a nossa vida miserável, mas a coisa é particularmente mais cruel quando se trata de MENINAS.  Segundo dados da OMS, "Toda a gravidez na adolescência tem o risco aumentado. Mas para as menores de 15 anos, o risco de mortalidade materna aumenta em cinco vezes, segundo o Ministério da Saúde. Já entre gestantes de 15 a 19 anos, a probabilidade é duas vezes maior que nas mulheres de 20 ou mais."  Já o 128 do nosso Código Penal, que é de 1940, é claro: "Não se pune o aborto praticado por médico: (Vide ADPF 54) Aborto necessário I - se não há outro meio de salvar a vida da gestante; Aborto no caso de gravidez resultante de estupro II - se a gravidez resulta de estupro e o aborto é precedido de consentimento da gestante ou, quando incapaz, de seu representante legal.".  

E há ainda outro agravante: "Manter relação sexual ou praticar qualquer ato libidinoso com menores de 14 anos configura o crime de estupro de vulnerável. Pela Lei 15.353/2026, a vulnerabilidade é absoluta: o consentimento da vítima, sua experiência sexual anterior ou o eventual namoro são completamente irrelevantes.".  Mas o Senado ignorou tudo isso e, na última terça-feira, condenou as infâncias de várias meninas brasileiras.  Na verdade, para ser um pouco mais justa, parece que o Davi Alcolumbre está em uma cruzada contra tudo o que é razoável; o próximo alvo é o fim da Escala 6X1, só que roubar direitos das mulheres sempre é mais fácil do que quando a violência atinge os homens, também.

Faz vários anos que membros do legislativo (Câmara e Senado), sempre gente muito religiosa, vêm tentando criar obstáculos para a interrupção das gravidezes cobertas pela lei: estatuto do nascituro, limitação de semanas para interrupção da gravidez, necessidade de B.O., alteração no artigo 5º da Constituição etc.  Sempre com o suposto intuito de proteger "a vida", assim, dessa forma bem abstrata, o bem-estar de mulheres e meninas vem sendo agredido, sua vida negligenciada.



Pois bem, desta vez, em DOIS MINUTOS em uma SESSÃO REMOTA, de FORMA SIMBÓLICA, SEM REGISTRO NOMINAL dos votos (*para que ninguém saia queimado*) e com esvaziamento do plenário, foi aprovado o PDL 3/2025.  Ele suspende  a Resolução CONANDA 258/2024, que garantia à criança vítima de estupro prioridade de atendimento e autonomia para decidir sobre a gravidez quando a presença dos pais pudesse lhe causar dano.  A proposta era da deputada Chris Tonietto (PL-RJ), relatada pela senadora Damares Alves (Republicanos-DF).  Um projeto de decreto legislativo entra em vigor imediatamente e sem possibilidade de veto presidencial.  Um dos argumentos para a derrubada da resolução é que ela feria o poder familiar.  Sim, a preocupação não é com a vítima e o objetivo é que a demora seja tão grande que a interrupção da gravidez possa se tornar cada vez mais difícil.  E, bem, é uma forma de proteger o agressor, que, no caso de menores de 14 anos, normalmente é um familiar ou conhecido e ocorre dentro de casa.  

Eu poderia me estender em argumentos, mas vou deixar reproduzido o texto do Escola de Direitos das Mulheres e dois vídeos do Tik Tok (*1 e 2*).  Segue o texto.  Eu espero que ainda existe possibilidade de questionar o PDL no STF, mas acredito que somente as mulheres na rua novamente possam conter essa insanidade e violência.  E, claro, para quem não entendeu a referência do título do post e da charge do Chris Vector, Gilead é o país fundamentalista religioso do livro o Conto da Aia (The Handmaid’s Tale), de  Margaret Atwood, que virou famosa série de TV.

"Hoje, terça-feira de Corpus Christi, com plenário esvaziado e sem registro nominal de votos, o Senado Federal levou menos de dois minutos para aprovar o PDL 3/2025 — proposta da deputada Chris Tonietto (PL-RJ), relatada pela senadora Damares Alves (Republicanos-DF). Como projeto de decreto legislativo, entra em vigor imediatamente, sem sanção presidencial.

O que foi derrubado: a Resolução CONANDA 258/2024, que organizava o atendimento a crianças e adolescentes vítimas de violência sexual — incluindo o acesso ao aborto legal, garantido por lei brasileira desde 1940 (art. 128, II, CP). A resolução garantia à criança vítima de estupro autonomia para decidir sobre a gravidez quando a presença dos pais pudesse lhe causar dano. 

Por quê? Porque a maioria absoluta das meninas brasileiras vítimas de estupro é abusada dentro de casa, por pai, padrasto, avô, tio. Exigir que essa criança peça permissão ao agressor não é “defender a vida”. É devolvê-la, amarrada, ao algoz.

Os números que o Senado decidiu ignorar:

➤ A cada 15 minutos, uma menina de até 13 anos é estuprada no Brasil (FBSP)

➤ 38 meninas de até 14 anos viram mães todos os dias — mais de 14 mil/ano (DataSUS)

➤ Entre 2015 e 2020: 9 mil meninas estupradas engravidaram. Só 3,9% tiveram aborto legal (Intercept)

➤ Toda relação sexual com menor de 14 anos é, por lei, estupro de vulnerável (art. 217-A CP). Não existe consentimento. Existe crime.

Os Ministérios das Mulheres, da Justiça e dos Direitos Humanos já haviam alertado para a inconstitucionalidade do PDL. Mais de uma dezena de entidades, incluindo o Conselho Federal de Psicologia e a Coalizão Negra por Direitos, pediram audiência ao Senado. Foram atropelados em dois minutos.

Qualquer ordenamento que obriga uma criança de 11 anos a gestar o filho do agressor não está protegendo família. Está institucionalizando a tortura.

Em nome da Convenção dos Direitos da Criança, da CEDAW, de Belém do Pará e do Protocolo CNJ (Res. 492/2023): não vamos esquecer quem assinou."

quinta-feira, 4 de junho de 2026

RIP Marjane Satrapi: Uma autora corajosa e que partiu cedo demais

A notícia arrasadora do dia é que a franco-iraniana Marjane Satrapi (1969-2026) faleceu.  Segundo todos os sites aos quais tive acesso (Yahoo, Reuters, RFI, Carta Capital), Satrapi morreu de tristeza quase um ano depois de perder o marido, Mattias Ripa (1972-2025), que ela considerava "o amor da sua vida".  Marjane Satrapi tornou-se conhecida mundialmente devido ao seu quadrinho autobiográfico Persepólis, sobre sua experiência de crescer e se tornar jovem durante os primeiros anos da Revolução Islâmica iraniana, que virou animação e foi premiado em Cannes.  

Em nosso país, além de Persepólis, que saiu em quatro volumes (*A que eu tenho*) e em edição completa, foram lançados Bordados (*resenha aqui*), Frango com AmeixasMulher, vida, liberdade, obra coletiva de protesto contra o assassinato da estudante Mahsa Amini pela polícia religiosa em Teerã, em 2022.  Sempre crítica ao regime iraniano, mas sem nunca deixar de mostrar amor pelo seu país, Satrapi estava afastada dos quadrinhos e retornou para esse último trabalho, pois estava se dedicando ao cinema. No IMDB, são creditados a ela como diretora e roteirista os seguintes filmes: Persépolis (2007) junto com Vincent Paronnaud;  Frango com Ameixas (2011) também com Paronnaud; La bande des Jotas (2012); As Vozes (2014); a cinebiografia de Marie Curie, Radioativo (2019); Paradis Paris (2024).  

Em 2025, Satrapi recusou a Legião de Honra, a mais alta condecoração da França, citando a "atitude hipócrita" do país em relação ao Irã, segundo a imprensa francesa. "Não posso continuar vendo os filhos de oligarcas iranianos vindo passar as férias na França, chegando até a se naturalizarem, enquanto, ao mesmo tempo, jovens dissidentes têm dificuldade em obter um visto de turista para vir ver como é o país do Iluminismo e dos direitos humanos", escreveu ela na época.  Enfim, Satrapi será lembrada pela sua obra, pela sua militância e por ter ajudado a impulsionar outras carreiras.  Este ano, ela havia criado uma fundação com seu nome e o do marido para ajudar a patrocinar jovens estudantes estrangeiros de cinema na França.  Rest in power, Satrapi!

sexta-feira, 3 de abril de 2026

Ikoku Nikki acabou! 😭 Vamos fazer um balanço geral da série.

Finalmente terminei de assistir Ikoku Nikki (違国日記), uma série excepcional e muito exigente com sua audiência.  Não estou fazendo pouco caso de ninguém, mas a série baseada no mangá de Tomoko Yamashita é um material adulto de verdade, não no sentido vulgar do termo, que logo imagina situações sexuais ou palavrões ou violência.  Estou me referindo à capacidade de lidar com sentimentos complicados e com os diversos tipos de dramas que poderiam ser os seus, os meus, os dos seus amigos e amigas.  E não pense que o fato de ser adulto torne a série inacessível para adolescentes, porque uma das protagonistas é uma menina de 15 anos e seus dramas e os de suas amigas e colegas de escola também estão lá.  

Infelizmente, ficou claro no último episódio que uma continuação não estava nos planos da produção, que começou cinco anos atrás.  Como eu sei disso?  O salto no tempo, vermos Asa, a protagonista adolescente, e Emi, sua melhor amiga, adultas, dez anos depois dos acontecimentos do último episódio, é uma forma de marcar que era um adeus.  Sim, eu sei que a série é sucesso de crítica, ainda que não saiba se é de público, também, mas ela foi planejada para terminar com seus 13 episódios.  A maioria dos animes shoujo e josei não tem segunda temporada, imagino que quiseram marcar bem que ali seria o final da série, a despedida.  Triste, porque o mangá só tem míseros 11 volumes.  Duas temporadas, ou mesmo um filme animado, poderiam dar conta de fechar tudo.

Enfim, para quem não leu minhas resenhas anteriores (*1 - 2*), Ikoku Nikki é um anime adaptado do mangá de mesmo nome de  Tomoko Yamashita e conta a história de Makio e Asa.  Makio é uma novelista de 35 anos, que mora sozinha e é  um tanto antissocial.  Um dia, ela recebe a notícia de que sua irmã mais velha, com quem nunca se deu bem, morreu junto com o marido em um acidente de carro.  Uma filha de 15 anos, Asa, ficou para trás.  Nenhum parente quer  ficar com ela, está disposto a dar para a garota o suporte do qual ela precisa.  Makio, mesmo com todas as suas questões emocionais e de personalidade, decide assumir a sobrinha, mesmo avisando para a garota que odiava a mãe dela e que, talvez, nunca consiga amá-la.  Ao longo dos episódios, Asa aprende a lidar com a tia e com o seu luto, a pensar o seu lugar no mundo e o que deseja fazer de sua vida.  Já Makio acaba tendo que admitir que Asa tornou sua vida diferente para melhor, mesmo que ela mesma continue tendo muito apreço pelo seu espaço pessoal, pela sua privacidade, inclusive emocional.

Este post estava aberto fazia semanas, apaguei quase tudo que estava lá.  O objetivo era comentar os episódios três e quatro, agora, é o balanço geral da série.  Ainda não considero adequado o título em inglês, "Journal with Witch", porque Makio não é uma feiticeira/bruxa, seja no sentido de fazer mágica ou de ser má, ela é  uma adulta com problemas emocionais, talvez neurodivergente (*sem laudo, o que deve ser muito comum no Japão*) e que acolhe a sobrinha mais por questão de justiça do que de qualquer afeto.  Mas ela termina desenvolvendo fortes sentimentos por Asa e conseguindo dar para a menina um suporte que ela não esperava ser capaz de proporcionar.  Makio acaba se tornando mãe de Asa, mesmo brincando que sua relação com a menina é como a de alguém que trouxe um cachorro perdido para casa.

A gente pode ser mãe ou pai por vários caminhos.  Engravidar é somente um deles.  O processo de adoção é outro.  Mas há quem assuma a responsabilidade - afetiva, econômica, legal - por uma criança ou adolescente por motivos inesperados realmente.  Quantos órfãos foram criados pela pandemia?  Quantos tios, primos, mesmo irmãos ou irmãs mais velhos tiveram que assumir uma criança ou adolescente traumatizado por uma perda tão inesperada?  Tal e qual o acidente que levou os pais de Asa.  Por outro lado, a menina mesmo perdida, mesmo sofrendo, nunca desistiu da vida e Makio a ajudou nesse processo.

Mas eu falei do título e não retomei... a tradução de Ikoku Nikki é algo como Diário de uma Terra Estrangeira.  Espero que quando o mangá aparecer por aqui, porque eu acho que virá, a opção seja nesse caminho.  Na imaginação de Asa, a casa da tia, as amigas que ela tem, a própria Makio representam essa terra estrangeira.  É tudo como um deserto, às vezes com alguma construção exótica, as personagens vestidas com roupas não-japonesas e falando uma língua incompreensível.   A menina precisa se acostumar com adultos que são muito diferentes da mãe, sempre correta, sempre fazendo tudo o que dela se esperava, inclusive aceitar que o pai de sua filha não desejava casar oficialmente com ela, e o pai que estava lá, mas parecia sempre um tanto ausente.  Aliás, fica meio que inferido que a relação entre as irmãs - Makio e Minori - era tensa porque uma sempre se dobrava ao que dela era esperado, enquanto a outra, nossa protagonista, mesmo sofrendo, mesmo um tanto perdida em seus sentimentos, queria construir seu próprio espaço nesse mundo.

E Makio é complicada.  Seu apartamento é caótico, sujo, desorganizado.  Ela está sempre focada em sua escrita e é uma novelista de sucesso.  Apesar de preferir o isolamento, ela tem amigas, como Nana Daigo; ela não se isola no seu mundo totalmente, mas ela tem uma necessidade de espaço que termina por causar alguns problemas na relação dela com Asa.  Agora, o pior é que ela não consegue se conectar totalmente com o sujeito que provavelmente é o homem de sua vida, Shingo Kasamichi.  Como os adultos de nossa história têm problemas, têm traumas, mas são adultos de verdade, eles tentam resolver seus problemas e dialogar.  Kasamichi é um dos meus favoritos e a conversa dele com o rapaz do Conselho Tutelar (*ou seu similar japonês*) sobre masculinidades e pressões que os homens sofrem para se enquadrar, inclusive objetificando as mulheres para serem aceitos pelos outros machos, foi um dos pontos altos do seriado.

Falando do moço do Conselho Tutelar, a série também se preocupa em explicar algumas questões legais japonesas.  Kasamichi trabalha em um banco, Makio recorre a ele para entender como lidar com a questão dos bens dos pais de Asa.  Já o moço do conselho tutelar, Kasunari Touno, é um novato, que deseja fazer o seu melhor trabalho e serve de conselheiro para Asa.  Ele tem que fazer visitas regulares e tenta compreender a dinâmica estabelecida entre tia e sobrinha.

E temos as adolescentes.  Emiri (*Emily?*) é a melhor amiga de Asa.  Sim, daquelas para a vida inteira.  Só que, ao entrarem no colegial, elas ficam em turmas diferentes, estabelecem novos laços de amizade e precisam se adaptar às mudanças.  Emi cresce dez centímetros, Asa continua baixinha. E a amiga começa a descobrir sua sexualidade e fica confusa.  Lamento que a série animada não deixe claro que Asa sabe da orientação sexual da amiga. Nós sabemos, há uma sequência que deixa isso bem evidente, mas Asa descobre no mangá em uma parte que não foi adaptada.  

A primeira pista clara, no entanto, é quando Makio, sempre perceptiva e sempre parecendo um tanto desinteressada da vida alheia, dá para Emi o DVD do filme Tomates Verdes Fritos (1991).  Quem conhece esse filme, uma das pérolas do cinema norte-americano dos anos 1990, entenderia de saída do que se tratava o drama da menina.  Mas há outras pistas, a recusa de Emmi de conversar sobre garotos com Asa, a irritação da menina quando lhe falam de casamento ou quando ela ouve duas colegas conversando que é inútil se esforçar tanto para ter uma carreira se elas vão casar e deixar tudo em segundo plano.  Enfim, o afastamento das duas meninas me lembrou um pouco minha relação com a minha primeira amiga.  

Houve um momento, quando ela já tinha entrado na adolescência e eu ainda não, porque ela era quase três anos mais velha.  Ela arrumou novas amigas, começou a namorar e nos afastamos.  Isso doeu muito mais em mim, acredito, porque eu tinha uma única amiga, mas terminamos por nos reconectar, redimensionamos a nossa amizade, a forma como nos relacionávamos e são mais de 50 anos de amizade, algo que valorizo muito.

Enfim, como a série parece ter sido planejada somente para os treze episódios, afinal, animes shoujo e josei raramente recebem outras temporadas, a gente não vai saber muito da vida dos colegas de turma de Asa, mas alguns deles recebem algum destaque. Um dos meninos, acredito que Yoshimura, é  mostrado saindo do clube de baseball.  Mesmo sendo muito bom no esporte, ele não suporta a tal construção da masculinidade pela violência, usando o bullying e a humilhação como forma de estabelecer as hierarquias.  Mas ele não sai fugido, ele sai de cabeça erguida deixando muito claro o motivo de estar largando o clube.  Isso, no entanto, não o impede de sofrer e ele não parece nada bem ao observar Asa cantando no último episódio.

Mas quem recebeu atenção maior foi Chiyo Morimoto e seu drama pessoal, que não é somente dela, mas das mulheres japonesas e quem mais se preocupa com equidade de gênero, se estendeu pelos últimos quatro episódios da série, começando no 8 de Março, Dia Internacional das Mulheres.  Morimoto, com quem Asa sipatiza e está na sua turma, é uma aluna brilhante e deseja ser médica como seus pais.  Ela faz cursinho, assim como Emiri, e está focada em atingir seu objetivo.  Asa admira a menina, porque ela mesma ainda não conseguiu se decidir sobre suas escolhas de futuro.

O episódio do 8 de Março termina com a menina descobrindo um escândalo: faculdades japonesas passaram vários anos diminuindo as notas das candidatas mulheres  no vestibular para terem no máximo 30% dos calouros.  Não sei se a faculdade que aparece no anime existe, mas não foi somente uma, foram várias, uma delas, a Universidade Médica de Tokyo, emitiu nota na época dizendo que a ação era "um mal necessário".  Já a escola de medicina da Universidade de Juntendo afirmou que era justo exigir mais das candidatas mulheres, porque elas eram menos capazes que os homens. Eu comentei no blog uma pesquisa que dizia que parte das médicas japonesas compreendia a medida, afinal, elas casam, engravidam e se dedicam menos à profissão que seus colegas homens. O machismo é estrutural, ele precisa da adesão das mulheres para que os homens continuem com seus privilégios.  O mangá começou a ser publicado em 2017.  O escândalo explodiu em 2018.

Morimoto tem um colapso nervoso e desaparece da escola e do cursinho.  Os colegas se preocupam, afinal, ela pode perder o ano.  E um dos colegas de turma, Yuuto Tougou, toma coragem e pede o contato de Morimoto para uma das colegas mais próximas a ela.  Ele faz contato, parece gostar da menina, e ela volta.  Quando ela retorna às aulas, tive medo de que ela se matasse por conta de uma conversa dela com Asa, mas as coisas, pelo menos na série, parecem ter se ajustado.  Já Tougou mostra para Morimoto um abaixo-assinado para que as universidades sejam responsabilizadas e diz que o problema não era somente das mulheres, mas de todos na sociedade que se preocupam com aquilo que é justo.  O menino, que tem um rosto comum, bem monótono, até brilhou muito nas suas poucas cenas.

Até para que vocês tenham noção do que aconteceu nesse caso, em 2019, as mulheres superaram as notas dos homens nos vestibulares de medicina do país.  No caso da Faculdade de Medicina de Tokyo,  20.4% das candidatas mulheres foram aprovadas se comparado com 2,9% no ano anterior.  Foram SETE ANOS de superioridade masculina.  Imagine quantas jovens tiveram seus sonhos frustrados por essa política misógina?  Enquanto isso, rapazes menos preparados ou capazes ficaram com suas vagas.  A depressão de Morimoto é plenamente justificável.  Em 2022, algumas candidatas conseguiram ganhar processos na Justiça japonesa e o direito de indenização.

Eu só consegui concluir até o momento dois dos animes da temporada, o outro foi Hana-Kimi (花ざかりの君たちへ), que está com texto em andamento faz mais de uma semana e terá uma segunda temporada, no entanto, até onde observei, Ikoku Nikki foi o melhor programa da temporada.  Denso, exigente, mas ao mesmo tempo sensível, com personagens cativantes e humanas.  Nada do que foi colocado em tela parecia fantasioso e poderia ocorrer no mundo real.  Com algumas adaptações, Ikoku Nikki poderia se passar no Brasil, sem problema.  Estou com o filme live action no meu HD, ele é de 2024.  Espero conseguir assistir e resenhar para o blog e vou ler o mangá, porque quero saber o que será de  Makio, Asa, Kasamichi, Emiri, Morimoto etc. no material que não foi coberto.  Sentirei muita falta dessa série, fazia tempo que uma animação japonesa não exigia tanto de mim e me oferecia tanta compensação pela minha atenção.

domingo, 8 de março de 2026

Shoujocast no Ar! Hoje é 8 de Março: Temos alguma coisa para comemorar? #8M


8 de março é um dia de luta, é um dia em que devemos lembrar das gerações de mulheres que vieram antes de nós para que tivéssemos o mínimo de direitos, é uma data para que nos unamos para defender o que temos, porque os direitos das mulheres estão sob ataque. Mas este ano não temos muito o que comemorar e eu estou aqui com um programa bem depressivo para provar.  Sim, poderia ter sido um texto, mas eu tive que escolher e acabei fazendo o vídeo.  Para a minutagem é preciso ir até o Youtube.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Novo livro sobre Yuri promete discutir o gênero sob uma perspectiva dos estudos feministas e queer

O Yuri é  um gênero aborda  o amor e a amizade entre mulheres.  Não considero que é uma demografia, porque está distribuído em publicações das mais diferentes demografias (shoujo, josei, shounen, seinen etc.) e as revistas e selos especializados são bem restritos.  O interesse por material yuri, que cada vez está  sendo mais referido como GL (Girls Love), é grande, mas sempre desconfio que há uma boa dose de fetiche masculino nesse balaio, ainda que muitas mulheres se sintam felizes de terem algum material lésbico para consumir.  Estabelecido isso, o livro Hajimete no Yuri Studies: Queer/Feminist no Shiten Kara (はじめての百合スタディーズ: クィア/フェミニストの視点から), em português Introdução aos Estudos Yuri: Uma Perspectiva Queer/Feminista, foi escrito por três otaku e se propõe a discutir yuri a partir da perspectiva feminista, lésbica e queer, abordando, também, como o material é recepcionado no Japão e nos Estados Unidos, principalmente.  O livro será lançado em 27 de fevereiro no Japão.

No livro há capítulos escritos por Erica Friedman e Shinada Reika.  Erica Friedman é a responsável pelo site Yuricon e uma das pessoas que mais conhecem yuri nessa internet e fora dela.  Ela publicou um livro sobre a história do gênero; eu tenho em casa.  No site Yuricon, há uma longa descrição do livro, com o sumário e tudo mais.  Está em japonês, então, traduzi e trouxe dois trechinhos para cá: "As definições de yuri, assim como os escritores e leitores, são diversas. Embora animes, mangás, dramas e outras obras que poderiam ser chamadas de "yuri" estejam facilmente disponíveis, o gênero yuri muitas vezes tem sido isolado do público yuri da vida real e dos debates feministas e queer. Este livro aborda a história e a evolução do yuri tanto no Japão quanto no exterior, e reexamina o gênero, que é aberto a todos, a partir da perspectiva daqueles que estão envolvidos." e "Exemplos de Tópicos Abordados Neste Livro: Yuri sem "Lésbicas" / Tendências Atuais em Animes Yuri / Diferenças entre Animes Yuri e Dramas de TV / Igualdade e Diferenças de Poder em BL e Yuri / O Olhar Feminino sobre Mulheres / Combatendo a Supremacia Heterossexual e a Afinidade do Yuri / Masculinidade e Identidade / Representação Transgênero e Yuri / "Yuri" Fora das Revistas Yuri / O Futuro do Gênero Yuri... etc.".

No artigo do Yahoo Japão sobre o livro, temos outros detalhes.  A capa é de Akiko Morishima. Além disso, o sumário está esmiuçado em detalhes.  O livro parece ser bem interessante e em uma perspectiva que me parece acadêmica  mesmo.  Espero que seja lançado nos Estados Unidos.  Há boa possibilidade de que isso aconteça. 

sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

GROK está sendo utilizado para violar a integridade de meninas e mulheres e um mangá-ka se meteu em encrenca por utilizar a ferramenta.

Um dos escândalos da última semana para cá é o uso do GROK, a inteligência artificial do Elon Musk para criar fotos eróticas e violentas de mulheres e meninas menores de 14 anos.  Estamos falando aqui de se apossar de fotos que estão online e adulterá-las ou de deepfake mesmo.  E eu vou escrever aqui o que vi em um perfil norte-americano: há pornografia de sobra na internet, material que pode ser apropriado gratuitamente, no entanto, a gaça está em não ter o consentimento, em violar a integridade de uma mulher ou menina, porque se trata de violação mesmo.  É uma forma nova de abuso sexual e de intimidação, porque pode prejudicar a vida profissional e pessoal da vítima, desde a sua saúde mental até a sua empregabilidade.  E a culpa não é de quem colocou a foto na internet ou não colocou seu perfil no privado; esses sujeitos podem se apropriar de fotos de pessoas utilizando várias ferramentas; eles são os criminosos.

Isso cresceu tanto nos últimos dias que virou uma trend no Twitter (*Onde mais?*), inclusive já colocaram fotos adulteradas de biquíni de Renee Nicole Good, cidadã  norte-americana assassinada pelo ICE anteontem.  Para se ter uma ideia, segundo uma matéria da Folha de São Paulo: "Durante uma análise de 24 horas das imagens que a conta @Grok publicou no X, o chatbot gerou cerca de 6.700 por hora que foram identificadas como sexualmente sugestivas ou de nudez, de acordo com Genevieve Oh, pesquisadora de mídias sociais e deepfakes. Os outros cinco principais sites para esse tipo de conteúdo tiveram uma média de 79 novas imagens de nudez por IA por hora no período de 24 horas, de 5 a 6 de janeiro, segundo Oh.".  

Como no Brasil existe legislação a respeito, não especificamente para IA, mas para a divulgação de fotos não autorizadas e de material erótico-pornográfico com menores, a deputada Erika Hilton acionou o Ministério Público, e mesmo com deboche do Elon Musk, aparentemente (*vejam bem, APARENTEMENTE*) o GROK terá alguma limitação no Brasil.  Veremos isso.

Enfim, um mangá-ka utilizou o GROK para desnudar uma idol do grupo STU48.  O mangá-ka Yoichiro Tanabe, que faz mangás sobre idols, usou o GROK para  criar uma foto sexualizada de Riko Kudo, do grupo STU48, usando um biquíni.  A moça viu, a coisa chegou aos empresários do grupo e o mangá-ka pode enfrentar alguma ação judicial.  Correu a internet brasileira a história de que ele havia sido demitido.  Não encontrei nada disso, o que eu achei foi o pedido de desculpa do sujeito e cito o Oricon News:  "Em resposta, Tanabe divulgou uma declaração escrita intitulada "Sobre minha recente publicação inadequada", na qual pediu desculpas. Ele escreveu que lamentava profundamente ter causado desconforto e reconheceu diversas falhas, incluindo a falta de conhecimento sobre direitos de imagem, compreensão insuficiente do uso de IA generativa e um julgamento equivocado e arrogante sobre os limites apropriados com os ídolos com quem trabalhou profissionalmente."

Balela essa historinha de falta de conhecimento da lei e do uso de IA.  Espero que ele tenha que indenizar a moça.  Aliás, a tentativa é de enquadrá-lo por assédio sexual. Não se trata de "cancelar" como aparece em várias páginas em português e espanhol do Facebook e Instagram, é crime mesmo, tem que punir.  E, repito, não achei fonte segura alguma sobre demissão, se alguém tiver fonte em japonês, por favor, me passe.  E, como pontuei lá em cima, isso é uma nova forma de violação, de estupro mesmo.

Atualização (10/01): a Indonésia bloqueou o GROk temporariamente por causa dessa sujeira toda.  A GrÃ-Bretanha pode fazer o mesmo, mas há políticos republicanos que estão ameaçando o país na internet. O post da deputada republicana ameaçando o primeiro-ministro da Inglaterra e o país inteiro está abaixo:  


"Se Starmer conseguir banir o @X na Grã-Bretanha, darei prosseguimento à legislação que está sendo elaborada para sancionar não apenas Starmer, mas a Grã-Bretanha como um todo. Isso espelharia ações tomadas anteriormente pelos Estados Unidos em resposta a governos estrangeiros que restringiram a plataforma, incluindo a disputa com o Brasil em 2024-2025, que resultou em tarifas, revogações de vistos e sanções e consequências relacionadas a preocupações com a liberdade de expressão contra autoridades brasileiras devido a preocupações com censura e violações da liberdade de expressão. Starmer deveria reconsiderar essa linha de ação, ou haverá consequências. Sempre há falhas técnicas durante as fases iniciais de novas tecnologias, especialmente de IA, e esses problemas geralmente são resolvidos rapidamente. O X trata essas questões com seriedade e age prontamente. Para que fique claro: isso não se trata de conformidade técnica. Esta é uma guerra política contra @elonmusk e a liberdade de expressão — nada mais."

Se  Trump é o imperador do mundo, esse pessoal se acha no direito de fazer o que quiser.  Mas, repito, quem ganhou a queda de braço com o Musk foi o Alexandre de Moraes, ou melhor dizendo, os representantes do Estado brasileiro na figura do STF.  E Elon Musk diz que a reação é desculpa para censura, está em vários lugares.  Oh, estou muito surpresa com a reação dele... Aliás, apesar de supostamente ele ter restringido as funções do GROK, essa postura de acusar censura denuncia o quanto ele está preocupado.  

quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

Feliz Natal... ou eu espero que seja...

Mais um Natal, aniversário de Jesus, porque, acreditando nele ou não, essa data festiva existe para marcar seu suposto aniversário.  Queria muito estar feliz fazendo essa postagem, infelizmente, não estou.  Só consigo pensar nos feminicídios em que eu tropecei de ontem para hoje.  Mulher decapitada na rua em Brasília, homem que trucidou com facão e martelo a esposa e três enteados crianças, sujeito preso por matar a esposa e deixa seu filho MORRER DE FOME, mulher grávida de cinco meses estrangulada pelo marido e, por fim, a morte de Tainara Souza Santos.  Ela foi a mulher arrastada por um ex-raivoso, perdeu as duas pernas e estava internada fazia 25 dias.  Ela deixou para trás dois filhos ainda crianças.  Vocês têm noção do quanto a violência contra as mulheres está escalando?  Que  só no dia de Natal, sem procurar nada, eu tropecei em três feminicídios violentos?  E eu tenho certeza de que amanhã haverá mais.

E eu estou aqui chorando por alguém que eu nem conheço, porque tudo isso é muito, muito revoltante. E o ódio que matou Tainara, mata outras mulheres todos os dias e em todos os lugares do mundo.  Mata todas nós  um pouquinho.  E políticos de extrema-direita menosprezam a vida dessas mulheres, riem em debates quando o tema é invocado, querem nos tirar o mínimo, que é a Lei Maria da Penha.  

E esse ódio mata de formas cada vez mais cruéis, porque esses feminicidas não querem SOMENTE matar, como se fosse pouco, eles querem destruir essas mulheres, privando-lhes até da possibilidade de um funeral digno. Me lembrei de uma das piores impiedades, hybris, da mitologia grega, que era desfigurar o guerreiro.  É isso, desfigurar, destruir aquilo que exteriormente essas mulheres têm de mais belo, aquilo que esses desgraçados cobiçam, tomam posse e se dão ao direito de destruir.

Enfim, mas eu vou deixar a minha mensagem de Natal, a que eu escrevi para o Facebook e Instagram, porque minha raiva está aqui borbulhando e ainda  que esse sentimento me ponha em movimento, é possível sentir outras coisas, é preciso sentir outras coisas.  Segue minha mensagem de Natal:

"Não importa se você acredita ou não, mas trata-se de uma festa de aniversário de uma criança que não tinha lugar para nascer. Ele nasceu em um estábulo, em uma manjedoura. A data, 25 de dezembro, é meramente simbólica, porque, como meu primeiro pastor dizia: Natal é quando Jesus nasce no nosso coração. Sempre é Natal para alguém, portanto.

Adorazione del Bambino, c. 1619-1620, Gerrit van Honthorst

Mas vou me fixar na ideia da falta de lugar. Enquanto alguns têm muito e outros têm pouco, há quem tenha quase nada. Separe um momento da sua festa, caso você esteja fazendo uma, claro, para pensar naqueles que nada têm. Que não tem lugar para nascer, para repousar a cabeça, que tem fome e frio, que estão ameaçados pela guerra e sem esperança no futuro. Ninguém precisa ser religioso para isso, só precisa ser humano, mesmo.

Se indignar com as injustiças, lutar por um mundo melhor para todos, todas e todes, porque somos todos nós humanos e eu não vou excluir ninguém, desejar paz na Terra, nesta aqui mesmo, e que as crianças, todas elas, possam ter um futuro melhor é ter espírito de Natal."