domingo, 30 de abril de 2017

Comentando o episódio #1 de The Handmaid's Tale (O Conto da Aia)


Assisti ao primeiro episódio da série de TV baseada em The Handmaid’s Tale (O Conto da Aia), de  Margaret Atwood, o que foi disponibilizado no dia 26 de abril.  A previsão é de dez episódios, e espero que somente isso mesmo, e três deles já saíram. A série foi feita direto para streaming no Hulu, que deve ser uma espécie de Nerflix.  Será uma resenha curta, porque devo voltar a falar da série em breve.

O básico da história é o seguinte: futuro próximo, a fertilidade humana caiu drasticamente, e os EUA estão fragmentados e vivem uma guerra civil.  A ação se passa na nação chamada Gilead, um estado totalitário controlado por uma seita cristã fundamentalista.  Nesse país marcado por uma leitura estrita da Bíblia, foi instalada uma estrutura misógina.  Mulheres são impedidas de trabalhar, salvo como “Marthas”, criadas domésticas, não podem ter dinheiro, nem ler. Nesse mundo, há mulheres que são escolhidas para serem handmaids (aias) e terem filhos para as esposas estéreis dos comandantes da nação, ou seriam eles os estéreis?

Família de Offred.
A protagonista Offred (Elisabeth Moss) era uma mulher comum, casada, com uma filha e um emprego.  As mudanças, que acontecem rápido, mas não de uma só vez, lhe tiram tudo, o emprego, a família, e a liberdade.  Ela é transformada em um receptáculo de esperma e de esperança de um dos comandantes de Gilead, Fred Waterford (Joseph Fiennes) e sua esposa, Serena Joy (Yvonne Strahovski).  As angustias, memórias, submissão e pequenas insubordinações de Offred guiam a história,  A única coisa que a faz resistir e continuar em frente é o desejo de encontrar sua filha.

Handmaid’s Tale é o que chamamos de ficção científica social (*ótimo artigo aqui*), território muito explorado pelas autoras feministas.  Nesse tipo de narrativa, não raro temos um futuro distópico e o questionamento de papéis de gênero e arranjos sociais.  No caso da série em questão, trata-se de um mundo que seria um pesadelo para as mulheres, com o controle de todos os aspectos de sua vida e sua redução aos seus corpos: mulheres e não-mulheres (lésbicas, aias estéreis, ativistas etc.), esposas X aias X marthas.  O que as definiria é sua capacidade e/ou disposição para gerar vida.

Serena Joy não me agradou MESMO.
A série, que assim como o livro é profundamente feminista, mostra a doutrinação, as compensações oferecidas às mulheres que se submetem, o estimulo à rivalidade e o patrulhamento, algo típico das ditaduras e mais extremo ainda em governos totalitários.  No primeiro episódio, alguns acontecimentos foram comprimidos para que a audiência, especialmente, os que não leram o livro (*eu estou lendo, mas parando mais do que gostaria*), possam compreender em linhas gerais o funcionamento daquela sociedade.

Um aspecto realmente muito interessante, foi terem mantido na série as idas e vindas de Offred.  Presente e passado sempre entrelaçados, marcando o tédio da vida da aia, requisitada para poucas tarefas, como ir ao mercado, mas ocupando um papel central na “cerimônia”, uma relação sexual (*um estupro, na verdade*) do qual participam o comandante e sua esposa, e a esperança de reencontrar a filha.  Ao final do episódio, Offred, que significa “pertencente à Fred”, nos diz seu nome.  Ficamos sabendo, também, a idade atual de sua filha, 8 anos.  Isso quer dizer que se passaram, mais ou menos, 4 anos desde sua captura.


Não se engane com Moira.
Algumas mudanças em relação ao livro foram grandes, mas não incomodaram a narrativa.  No livro, Moira (Samira Wiley), a melhor amiga de Offred, e uma mulher lésbica, chega depois da protagonista ao centro de formação de aias.  No seriado, ela já está lá, e exerce uma espécie de liderança entre as mulheres. Janine (Madeline Brewer), que aparece no livro grávida na primeira cena do mercado, tem papel relevante e serve para ilustrar a violência imposta às mulheres.

Como pontuei, correram com muita coisa, como a amizade entre Offred e Ofglen (Alexis Bledel), sua companheira de caminhadas e mercado.  Ofglen, se não me engano, é uma agente da resistência.  Na série de TV, e no livro, se está, não cheguei nessa parte, ela conta para Offred que tem uma esposa e filho que fugiram para o Canadá.  Acho que o destino de Ofglen será trágico e, não, isso não é spoiler, nem do livro e nem da série, é achismo mesmo.

Por trás de grades: o mundo das mulheres encolheu.
Além do desempenho da protagonista e da atriz que faz a Moira, quem dá um show é Ann Dowd como Tia Lydia, a sádica supervisora do centro de formação de aias.  Sim, sim, os homens precisam delegar poderes às mulheres.  Até o Taleban, no Afeganistão, que baniu as mulheres do trabalho remunerado, das escolas (*olha as semelhanças com O Conto da Aia!*), manteve as carcereiras e algumas policiais femininas, já que o papel delas na repressão é indispensável.  

Voltando aos destaques, eu diria que as três atrizes dividem as cenas de maior impacto, mas Dowd impõe terror, tem um olhar fanático.  Lydia consegue moldar as mulheres que resistem.  Submeter-se, ou pagar o preço.  O que começa como resultado do medo, pode vir a se tornar uma adesão voluntária ao fanatismo da seita, ou, simplesmente, o efeito de manada.  Depois, a tomada de consciência e a dor.  "Como pude fazer isso?"  Todas essas questões estão no primeiro capítulo.  Ápice da violência?  Não sei, difícil escolher, mas não foi a cena do linchamento.  Há violências muito mais sutis.

Tia Lydia.
Mudanças que não vi função: As meninas, filhas dos comandantes, se vestiam de branco.  Não comentei, mas as mulheres são codificadas por cores.  Na série, aparecem de rosa. Não sei se vão diferenciar crianças de adolescentes, já prontas para os casamentos arranjados, ou o quê.  Não vi rosa ainda no mundo de Margaret Atwood, mas nosso mundo tem essa tara gendrada por rosa e azul.  Outra coisa, as esposas dos comandantes também cobriam a cabeça, na série, elas não usam véu, ou chapéu algum.  Deveriam usar, pois não havia privilégio para elas neste caso.  Cabelo é tentação.

Mudanças que não gostei:  Primeira coisa, rejuvenesceram várias personagens e isso pode ter impacto na história.  Rita, a martha (*só deixaram uma, no livro, são duas*) que cuida da casa do comandante, deveria ser uma cinquentona, virou uma moça novinha na pele de Amanda Brugel.  Serena Joy certamente é mais jovem que Offred, além disso, parece frágil, encolhida.  Ela era uma mulher que tinha um passado (*se ele não estiver na série, comento em uma próxima resenha*), segura e que sabia o poder que tinha dentro da pequena comunidade doméstica.  Na série, sua primeira cena é uma demonstração de fragilidade e ciúmes de Offred com seu marido.  Querem uma Serena Joy próxima do livro? Peguem Faye Dunaway divina no papel no filme de 1990.


Faye Dunaway, bem mais Serena Joy, apesar de também não usar véu.
Essa mudança é significativa, porque as esposas dos comandantes e outros oficiais eram, no geral, mulheres mais velhas, mulheres que tinham passado da idade de ter filhos.  Serena Joy certamente tinha mais de 50.  Agora, se rejuvenesceram a esposa, fizeram o mesmo com o marido.  Joseph Fiennes é jovem demais para ser o comandante, no livro um velho pervertido.  É absurdo terem rejuvenescido o comandante, porque a sociedade de Gilead também é marcada por hierarquias masculinas, jovens e velhos, comandantes e subordinados, talvez brancos e não-brancos.  Acredito que inspirada nas seitas fundamentalistas mórmon, a autora quis representar aquele modelo no qual os homens velhos se apossam da maioria das mulheres jovens e, no caso do romance, férteis.  

Ao longo do livro e na série, logo de saída, é comentado por alto que há homens com status tão baixo que não tem esposa.  Max Minghella, o motorista, é um desses homens.  Na série, ele usa camisas de mangas curtas, algo meio absurdo em uma sociedade tão puritana, no livro, até para marcar seu não-conformismo, ele dobra as mangas.  Um problema relacionado aos homens é que Offred parece flertar com o comandante em sua primeira cena juntos (*no livro, ao chegar, ela só vê Serena Joy*) e faz isso meio que o tempo inteiro com o motorista.  OK, falar de desejo reprimido, de confisco da liberdade sexual, mas não vejo esse caminho como interessante,  Há uma trama a se desenrolar entre eles, mas temo que a relação de Offred com o Comandante, marcada pelo estupro institucionalizado e pelo controle, possa ser romantizados pela audiência.  Fosse ele um velho, como no livro, ou no filme de 1990, dificilmente isso ocorreria, mas, para início de conversa, não houve flerte da parte de Offred.

Olhar crítico de Offred marca a série.
Já terminando, a série tem uma diversidade étnico-racial muito interessante. Peguem o filme de 1990 e vejam como ele era branco.  A graça é que, no livro, não há descrições físicas para muitos personagens.  E, bem, não tem descrição, é branco, não é mesmo?  De resto, o ritual envolvendo a aia, o comandante e sua esposa, deriva da leitura de Gênesis 30, onde Raquel, que era estéril, entrega ao marido sua criada, Bila, para que ele tenha filhos com ela.  Enfim, o mundo de Margaret Atwood é assustados, mais ainda, porque ele é possível, basta olhar em volta. 

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