domingo, 30 de abril de 2017

Ainda é importante falar do caso Su Tonani X José Mayer, aliás, mais do que nunca!



Eu acompanhei o caso da acusação de assédio da figurinista Su Tonani contra José Mayer.  E acompanhei desde o início, afinal eu leio a coluna de fofocas do Leo Dias, o primeiro a noticiar, já que o único jornal do Rio que acompanho doariamente é o Jornal O Dia.  Pois bem, não comentei, porque estava sem tempo à época.  Comecei o texto e não segui adiante com ele, está nos rascunhos, mas se comentasse, iria na mesma linha da maioria dos sites feministas, como o da Lola, sem claro, ser tão empolgada, já que eu não vejo o momento que vivemos hoje como positivo ou progressista, mas como uma ante-sala do Conto da Aia.

Enfim, agora, o mesmo Leo Dias fez o seguinte artigo "Reviravolta no caso Zé Mayer: Saiba por que Su Tonani não quis processar o ator".  Já vi gente reacionária e antifeminista comemorando por aí, mas o que mesmo o Leo Dias diz na matéria?  Tonani teve, sim, um caso com José Mayer, um homem casado, mas eles tinham terminado antes do início das gravações da novela A Lei do Amor, quando ocorrera o assédio. Isso era sabido por todos no Projac.  Ora, o que eu, Valéria, uma mulher feminista, posso dizer sobre esse caso?  


Mayer admitiu o assédio e pediu desculpas.
Houve assédio.  O fato de Tonani ter tido um relacionamento com Mayer não obriga que ela esteja disponível para ele a partir de então.  Namoros, casamentos, casos, acabam e "não" é "não".  Se você não concorda com isso, você é machista. O problema é que a nossa cultura parte do princípio que, uma vez que uma mulher tenha tido alguma coisa com um homem, ela tem que estar disponível para ele sempre. Ela tem um passado e isso, para a mulher, é motivo de vergonha.  Sabe, os amiguinhos do "Não mereço, mulher rodada"? Pois é.

Outra coisa, a moça, por ter mantido relacionamento com um sujeito casado, passa a ser vista como má sem apelação, a "destruidora de lares". Fora isso, ela mentiu (*sim, mentiu*), quando disse que tinha recusado os avanços dele inclusive argumentando que poderia ser sua filha.  Certamente, isso pesa contra ela.  De resto, vítima boa é vítima absoluta.  Sabe, aquela sem mancha? Por isso, muita gente, só para lembrar outro caso contemporâneo que não comentei, não considera a Emily, do BBB17, talvez nem mesmo ela se considere, uma vítima de agressão.  Afinal, ela fazia sexo com o sujeito, ela tinha um relacionamento com ele.  Voltando ao caso Tonani/Mayer, enquanto isso, o adúltero, coitadinho, nem é levado em conta. Corre-se o risco de virarem os canhões contra a esposa, afinal, como ela admite esse tipo de coisa???  É uma amélia essa aí!  Ou não quer perder as "mordomias" de esposa!  Ou o cara é muito gostoso! Ou... 


Atrizes mobilizadas.
São as mulheres que sempre precisam explicar por qual motivo se deixam agredir, trair e humilhar, aos homens, fica a complacência dos próprios homens e de muitas mulheres. Lembrem-se que cultura é sistema de códigos e mesmo pessoas muito progressistas podem estar sujeitas, vez por outra, às regras que mantém uma determinada sociedade funcionando.  Nossa sociedade é machista, patriarcal e, por vezes, misógina.  O mesmo sujeito que pede a punição do estuprador, sua morte, que percebe o indivíduo que agride, como possível, porque sabe que homens são formado para serem agressivos, é aquele que duvida da vítima ou questiona a sua idoneidade, afinal, a tribo dos homens precisa se defender.  No fim das contas, se individualiza a culpa, se dá vasão ao desejo de vingança, mas a vítima é o de menos. Será que é vítima mesmo? 

A maioria não duvidou que Mayer pudesse assediar uma funcionária (*e mesmo uma colega de trabalho*), normal isso.  Ele é homem, primeiro fator; galã cuja imagem foi construída em torno da idéia de que ele era irresistível a qualquer mulher, dos 13 aos 90 anos.  Fora, claro, outra das pérolas machistas, o meio artístico é promíscuo mesmo, ainda mais no Brasil.  Assim sendo, quem lá entra sabe o que vai encontrar.  Só os fortes sobrevivem e pare de mi-mi-mi.  Até não muito tempo atrás, era difícil separar as profissões artísticas femininas da prostituição, para a sociedade, na média era tudo a mesma coisa.  Moça de família não podia ser atriz.


O BBB17 mostrou cenas de violência explícita contra as mulheres.
Terminando, o que eu tiro desse caso? 1. Su Tonani não mentiu sobre o assédio.  2. Os casos de assédio são comuns no meio artístico, afinal, muitas mulheres se mobilizaram no #MexeuComUmaMexeuComTodas e contaram casos antigos, ressaltando, inclusive, o "quem iria acreditar em mim, ele era famoso/poderoso e eu, quem era?".  3. Mayer tinha outros casos nas costas, todo mundo no meio sabia, mas acobertava, ou se calava.  Ele não foi afastado da sua próxima novela, nem teve que se desculpar à toa. 4. A reviravolta de caso Tonani X Mayer não é uma vitória sobre as feministas, ou uma evidência de que o assédio sexual no ambiente de trabalho não existe, ainda que você, machista de plantão, acredite nisso.

De resto, pena que ela tenha recuado, mas eu entendo perfeitamente os motivos.  Um acordo talvez seja mais interessante do que se colocar na berlinda e ser queimada na fogueira. Gostaria de esperar que o caso fosse o ponto de partida tanto para que se repensasse a função de vítima, quanto a sociedade que é complacente com o agressor.  Inegável, que algumas reflexões e ações interessantes ocorreram, só que não vivemos um momento dos mais positivos para os direitos das mulheres.

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