terça-feira, 6 de janeiro de 2026

Comentando o primeiro episódio de Ikoku Nikki: Anime adulto sobre luto e relações familiares

Ontem, assisti ao primeiro episódio de Ikoku Nikki (違国日記), anime baseado no mangá de Tomoko Yamashita.  O original foi publicado na revista Feel Young, tem 11 volumes e já foi transformado em live action em 2024.  Não li o mangá.  Depois do primeiro episódio do anime, fiquei curiosa em relação ao live action.  A série parece ser uma história sensível e adulta sobre alguns temas que são universais, por assim dizer, como família e luto.  Segue um breve resumo: 

Makio Koudai é uma escritora de romances de 35 anos extremamente antissocial e que mora em um apartamento caótico. Ela termina acolhendo em sua casa  sua sobrinha de 15 anos, Asa Takumi, depois que os pais da adolescente, incluindo a irmã que Makio odiava, morrem em um acidente de carro. Makio sequer lembrava do nome da sobrinha, mas percebendo que ela ficaria à deriva, já que nenhum membro da família parecia de fato querer ficar com a menina, ela decide assumir a garota, mesmo a advertindo de que, talvez, ela nunca viesse a amá-la.  A partir daí passamos a acompanhar a difícil convivência entre essas duas mulheres tão diferentes e como uma termina preenchendo o vazio da outra.

Sabia que iria gostar de Ikoku Nikki, era inevitável.  A série tem um ritmo de filme cult, pegue Sentimental Value (Valor Sentimental), que eu estou assistindo aos poucos, e coloque lado a lado com Ikoku Nikki e vocês irão perceber que é o mesmo tipo de experiência.  Sentimentos contidos, narrativa fragmentada, um desapego em relação à rigidez da temporalidade.  Quando o primeiro episódio começa, tia e sobrinha já estão convivendo, a casa de Makio já parece uma casa e Asa prepara refeições saudáveis para ambas.  Daí, retornamos no tempo para o dia do acidente.

Makio odiava a irmã.  Não sabemos o motivo ainda, não sei se saberemos.  Sabemos que ela é a mais nova.  Makio acaba indo até o necrotério, lá, ela encontra a sobrinha com uma parenta mais velha.  A adolescente está sonolenta e a velha senhora diz que vai assumir a responsabilidade pela papelada.  Makio é reservada, parece fria, mas se preocupa com o bem-estar da garota e a leva para comer alguma coisa.  É uma forma de apoio muito consistente.

Como esse episódio é feito de fragmentos temporalmente desorganizados, temos pesadelos de Asa.  Ela ouve a conversa dos adultos.  Todos têm pena dela, mas ninguém a quer.  Lembrei de  Diário de uma Cidade Litorânea (Umimachi Diary), série também adulta e sobre família que começa com a morte de um pai que abandonou esposa e filhas por outra mulher.  Agora, ele morreu e deixa para trás uma menina de 13 anos que ninguém quer.  As irmãs mais velhas, que nunca a tinham visto, que tinham motivos para odiar o pai, a acolhem.  Um novo arranjo familiar se constrói a partir desse momento.

Famílias são plurais e certamente Makio e Asa irão se constituir como família.  A tia solitária e que se vê como autossuficiente terá sua vida transformada pela adolescente.  Já a menina, que sonha que está sozinha em um deserto e se sente deslocada ao se ver morando com essa adulta estranha, passará a ver a vida por outro ângulo.  Não peguei spoilers, mas apostaria nisso.  Makio não esconde de Asa que odiava a sua mãe, mas lhe dá um conselho precioso, que ela mantenha um diário (journal), que registre seus pensamentos e sentimentos, que isso ajudaria a lidar com a dor.

Não vou me estender mais nessa resenha.  O título Ikoku Nikki significa "Diário de uma Terra Estranha", em português, mas tem como título em internacional Journal with Witch (Jornal com [a] Bruxa).   Só que Assa não vê a tia como uma bruxa, mas como uma rainha de uma terra estranha.  Não sei o motivo da escolha.  Concluindo, a arte da série é sóbria, nada de exageros estilísticos, é tudo simples e elegante.  A abertura  e o encerramento são bem bonitos, delicados mesmo.  Espero poder continuar assistindo.  Espero mesmo.  A série está disponível na Crunchyroll.

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