quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

A adaptação de O Morro dos Ventos Uivantes é o que acontece quando ninguém lê. (Artigo Traduzido)

Como tropecei nesse artigo de opinião do Washington Examiner (*e nem sei qual é a tendência política desse jornal*) e comecei a traduzir.  Não iria jogar fora, porque ele levanta questões interessantes.  É quase consenso de que o filme é ruim.  Apesar das críticas ao figurino, e a Modista do Desterro fez uma live enorme sobre isso, eu ainda acredito, pelo que vi de imagens e do zum-zum-zum, que será indicado ao Oscar.  A ver.  De qualquer forma, o autor elege suas adaptações favoritas de O Morro dos Ventos Uivantes, meio que desconsidera a necessidade de Heathcliff ser um ator não-branco, mas pontua algo curioso, Edgard Linton, marido de Cathy é interpretado no filme por um ator paquistanês.  Enfim, em dado momento do texto original, quando está discutindo escalação de elenco, aparece essa frase "Fennell’s departure from strict textual literalism does not doom the film any more than casting Colin Firth would have guaranteed success (it certainly would not)."  (O afastamento de Fennell do literalismo textual estrito não condena o filme mais do que escalar Colin Firth teria garantido o sucesso (certamente não teria).).  Ao que parece, algo se perdeu na edição, porque faltou escrever que se estava falando de Orgulho & Preconceito da BBC de 1995.

Enfim, mantive a estrutura original do texto.  Ele não tem imagens, eu só coloquei a que apareceu na chamada do Instagram e que acabou me levando ao texto.  E eu não sou fã de O Morro dos Ventos Uivantes, o livro, nem tenho interesse em assistir a essa nova versão.  A única que eu vi, a de 1939, já me basta.

A adaptação de O Morro dos Ventos Uivantes é o que acontece quando ninguém lê.

Por Harry Khachatrian

O trabalho mais recente da cineasta inglesa Emerald Fennell — que conquistou um público considerável com sua comédia sombria e de gosto duvidoso de 2023, Saltburn — é uma adaptação livre de O Morro dos Ventos Uivantes, de Emily Brontë, de 1847 — sendo "livre" um termo generoso que faz mais do que o necessário — e um reflexo de uma grave crise literária que assola nossa era moderna.

Como acontece com qualquer adaptação literária, este novo O Morro dos Ventos Uivantes deve ser avaliado sob duas perspectivas: como um filme independente e como uma interpretação da obra original de Brontë.

Fennell escalou Margot Robbie e Jacob Elordi como o casal desafortunado Cathy e Heathcliff. Abrangendo apenas a primeira metade do romance — e mesmo assim, excluindo livremente personagens e desenvolvimentos considerados inconvenientes ou excessivamente complicados — o filme traça o relacionamento tempestuoso dos dois desde o dia em que o pai de Cathy, Earnshaw (Martin Clunes, que oferece a melhor atuação do filme), traz o órfão Heathcliff para casa.

O romance de Brontë é uma obra-prima multifacetada que aborda questões de classe, hierarquia social e se a escolha moral pode superar a herança e o determinismo. Infelizmente, Fennell suga essa rica essência da obra de Brontë e a torna desajeitada, reduzindo Cathy e Heathcliff a impulsos e desejos.

O problema reside em despojar tanto da estrutura do romance — seja para simplificá-lo para o público contemporâneo ou para satisfazer as próprias preocupações da diretora — que o filme carece de substância suficiente até mesmo como um drama independente. Ele falha em ambos os aspectos. Heathcliff, por exemplo, apesar de seu profundo amor por Cathy, torna-se um bruto irredimível. No romance, ele é amado por seu pai adotivo, mas impiedosamente atormentado por um irmão invejoso, uma dicotomia formativa que molda suas escolhas morais posteriores. O filme remove completamente essa tensão, eliminando o irmão e reimaginando Earnshaw como um jogador bêbado igualmente cruel com ambas as crianças, eliminando assim a ideia de que a busca por vingança de Heathcliff foi um ato de vontade e não algo inevitável.

O poder da literatura de perturbar e expandir a mente dá lugar à provocação decorativa, com seus personagens reduzidos a amantes lascivos e insípidos, com a profundidade narrativa de Cinquenta Tons de Cinza. Até mesmo a decisão crucial de Cathy de se casar com Edgar Linton é filtrada pela lente implacavelmente hormonal de Fennell, sua infelicidade transmitida por uma intimidade conjugal monótona, enquanto ela se refugia em fantasias eróticas de ser estrangulada e dominada por Heathcliff.

Tire suas próprias conclusões do fato de que a única qualidade redentora do filme é seu esplendor visual. Das tomadas panorâmicas das charnecas cobertas de urze, repletas de formações rochosas escarpadas envoltas em névoa, aos figurinos impressionantes e aos pisos vermelhos laqueados da imponente Thrushcross Grange do Sr. Linton, não há como negar que Fennell sabe como compor uma bela imagem. Só lhe falta a essência.

Rapidamente se torna evidente que esta “adaptação” (um termo que hesito em usar) não se destina a espectadores minimamente familiarizados com o material original. Sob o frágil pretexto de “interpretação”, Fennell transforma um dos romances mais importantes do século XIX em algo que lembra uma fanfic extravagante, calibrada para acompanhar doses excessivas de vinho barato.

A escolha de Elordi — uma presença alta e discretamente carismática — provou ser controversa, gerando um debate previsível sobre a descrição de Heathcliff feita por Brontë como tendo feições escuras e um ar "cigano". Essas interpretações se apoiam mais em categorias contemporâneas do que na ambiguidade do romance ou em seu contexto histórico. Muito menos atenção tem sido dada ao fato de que Edgar Linton, o cavalheiro refinado com quem Cathy se casa, é interpretado por um ator paquistanês.

Mas isso, em última análise, é irrelevante. Filmes de época não dependem da composição étnica de seus elencos para sobreviver ou fracassar; a diversidade é apenas uma ferramenta que um cineasta pode usar para imergir os espectadores em um mundo ou para deliberadamente os distanciar dele. O afastamento de Fennell do literalismo textual estrito não condena o filme mais do que escalar Colin Firth teria garantido o sucesso (certamente não teria).

Em obras onde tal ambiguidade teve sucesso — como em A Tragédia de Macbeth (2021), de Joel Coen, ou mesmo na releitura estilizada de Bridgerton com toques da Regência — ela triunfou apesar dessas escolhas, não por causa delas. A verdadeira falha de O Morro dos Ventos Uivantes, de Fennell, é sua ânsia de desenterrar um punhado de imagens e personagens famosos de um clássico da literatura e enxertá-los em um melodrama erótico adolescente, esperando manter a autoridade de Brontë.

Para uma adaptação fiel, a série de duas partes da PBS de 2009 continua sendo a versão definitiva. Para uma obra mais livre, meramente inspirada em O Morro dos Ventos Uivantes, seria melhor ouvir o disco de Kate Bush de 1978.

Harry Khachatrian (@Harry1T6) é crítico de cinema do blog Beltway Confidential do Washington Examiner. Ele é engenheiro de software, possui mestrado pela Universidade de Toronto e escreve sobre vinhos no BetweenBottles.com.

10 pessoas comentaram:

O texto é legal e também não tenho vontade de ver este filme. É melhor ouvir a Kate Bush, com sua música maravilhosa.

"Ele é engenheiro de software, possui mestrado pela Universidade de Toronto e escreve sobre vinhos no BetweenBottles.com". Me impressiona como hoje em dia qualquer um se intitula crítico de cinema, cruzes. A crítica literária tem viéses, métodos, são formados por universidades e cursos específicos. Devia ser assim com qualquer tipo de "crítico".

Trata-se de um artigo de opinião, não está na seção de crítica de cinema. O jornal tem o direito de convidar o sujeito e deixar claro isso, como deixou. De resto, você comentou em um site de alguém que, sendo consumidora de audiovisual, se dá ao direito de comentar aquilo que consome. Ninguém tem o monopólio da palavra ou deveria ter, desde que fique claro que não se trata de um especialista falando.

Sim verdade, mas na legenda está "é crítico de cinema". ponto. E não estou defendendo a não expressão de pensamentos, mas você por exemplo não se intitula crítica de cinema em suas resenhas. E crítica não é somente opinião, em algo complexo e com várias vertentes.
O Waldemar Dalenogare durante muito tempo foi considerado crítico de cinema, mas a formação dele praticamente inteira é na área da história. Eu tenho formação na área da crítica literária e posso pesquisar o audiovisual pelo viés da crítica literária e suas vertentes mas isso não me torna crítico de cinema. E ser crítico é uma profissão. E não é querendo fazer falsa equivalência não, mas é semelhante alguém se intitular historiador sem o ser de fato. E gosto muito do Dale, não é uma crítica a ele. Mas crítico de cinema no mundo todo é banalizado mesmo. E não quis ofender ninguém, que fique claro.
Também acompanho canais literários e suas resenhas sobre livros e ninguém se intitula crítico literário - quando essas pessoas cometem erros técnicos na "resenha" aceitam de boas correções afinal essa não é a área deles. Ao contrário do cinema em que diversos "críticos" são produtores de conteúdo e recebem esse título com arbitragem.

Ah e só pra terminar, o próprio Dale não se declara como crítico de cinema na bio do seu canal do YouTube, diferente da legenda desse artigo de opinião do gringo e na maioria das "críticas" postadas a rodo por aí.

Bem, bem, é um artigo de opinião. Não sei por qual motivo incomodou tanto e é preciso tentar descobrir britânicos e norte-americanos não percebem a profissão de forma diferente. Não me espantaria.

Enfim, crítico literário não é a mesma coisa que crítico de cinema, ainda que um crítico literário possa ser as duas coisas. No caso do Dalenogare, ele trabalha com cinema, são as fontes dele, do doutorado, com certeza. Eu passei pela Letras, nao concluí o curso, comparando a grade da UFRJ com a da UnB, vi que havia muita diferença. Seu mestrado/doutorado é em crítica literária? Graduação, imagino que não exista.

É um incômodo geral na vdd, acho que exagerei na reação.

Todo curso de letras, seja bacharelado ou licenciatura formam em certa medida críticos literários. Já há também o curso de Estudos literários (bacharelado) na Unicamp, voltado para pesquisa, crítica, história e teorias da literatura.
Mas em todas as matérias de literatura da graduação você já se depara com crítica literária - no início apreende a analisar um poema, conto, novela é incentivado a fazer pesquisa e análise pelo viés da crítica literária. Na graduação bilíngue, paguei 5 matérias voltadas para as literaturas brasileiras, 2 para portuguesa e 4 para literatura inglesa e 1 para a norte americana. Estou fazendo meu mestrado em literatura e pesquisando sobre romances meta-literários, como Possession que você resenhou por aqui

Há geralmente críticas aos cursos de letras no Brasil inclusive pq se estuda muito pouco prática de ensino: ou você estuda linguística ou foca em crítica/teorias da literatura. Eu mesmo na graduação só paguei uma cadeira de prática na Federal rural de Pernambuco

Bem, prática de ensino você tem na licenciatura. Na UFRJ, se não houve reforma, você cursa o bacharelado e, se quiser, puxa as matérias de licenciatura. A Licenciatura tem um núcleo comum, nos colocam todos juntos, por isso eu fiz várias matérias com gente da Letras, da Educação Física, da Enfermagem até. No curso de História é História. A gente tinha duas cadeiras específicas de Prática de Ensino de História, as outras eram de pedagogia. Agora, a UnB tem habilitações separadas desde o vestibular. A Licenciatura pode ser cursada como curso específico mesmo. Quem escolhe um ou outro pode escolher cobrir as disciplinas e sair com dupla habilitação.

E no curso de Letras, espera-se que a gente pague matérias de crítica literária, mas não sei se a Graduação torna alguém linguista ou crítico literário. Por isso, perguntei de Mestrado e Doutorado. Eu comecei Letras Português-Italiano. Na UnB, sei que as graduações são bem diferentes.

Não resenhei esse livro, não. Resenhei o filme de 2002. 😁

De certa forma você não está errada, mas por exemplo vejo uma diferença de conteúdo gritante entre uma pessoa de outra área falando de literatura (Isabela Lubrano por exemplo) e alguém que é da área (Aline Aimée, mas ela é mestra na área tbm).
A graduação já oferece uma base sólida: o curso é letras plenas e suas literaturas, ele estuda história da literatura. Teoria da narrativa, poesia e drama, estudos comparados, movimentos literários e fundamentos de crítica. É uma formação epistemológica e obrigatória. Não necessariamente a pessoa sai de lá crítica ou linguísta, pq é verdadeiro no sentido de que a especialização plena se dá na pós-graduação, mas o graduando já
aprende a ler criticamente textos complexos, a operar categorias analíticas, compreender tradições estéticas e
dialogar com correntes críticas. Já na graduação a gente questionava senso comuns como "Machado de Assis é um escritor realista" ou "Jane Austen é romântica", anyway.

A minha graduação foi obrigatória nos dois idiomas e eu achava um saco as aulas de língua portuguesa.

O livro é bem melhor que o filme, recomendo.

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