segunda-feira, 25 de maio de 2026

Comentando o volume #1 de Uma Bruxa na Mongólia: uma série surpreendente e muito emocionante.

Faz quase um ano que comprei Tenmaku no Jaadougal: A Witch's Life in Mongol (天幕のジャードゥーガル), o elogiado mangá de Tomato Soup.  Desde então, foi anunciado o anime e que a Panini iria lançar a série no Brasil.  Ontem, decidi que já era mais que hora de terminar de ler o volume e tenho muitos outros por aqui que precisam ser lidos para o meu desespero.  E, sim, o primeiro volume de Uma Bruxa na Mongólia é muito bem narrado e envolvente, além de ter uma arte bem diferente do que consideramos como mangá.  A vontade, depois que a gente se acostuma com o estilo da autora, é não parar de ler.  Segue a resenha do volume #1, mas sem prometer que não darei spoilers, porque é impossível.  E, claro, e História não existe spoiler e o mangá está cheio de acontecimentos históricos, já deixo vocês avisados.

Início do século XIII, cidade de Tus, Pérsia (Irã). Sitara é uma criança escravizada que, graças a uma transação feita pelo seu senhor, é enviada para a casa de uma família de sábios para ser educada.  O objetivo dele é aumentar o valor de venda da menina quando ela estiver mais velha.  No início, Sitara resiste, não quer aprender nada e só pensa em fugir.  Seu comportamento, porém, se transforma depois que ela conhece o filho da senhora da casa, Muhammad, um menino um pouco mais velho que ela e muito estudioso.  Ele consegue mostrar para Sitara que o conhecimento é a chave para que ela consiga mudar o seu futuro e enfrentar um mundo que até então lhe foi tão hostil.  E Sitara decide se dedicar de verdade aos estudos, além de realizar as pequenas tarefas domésticas que lhes são atribuídas.  Quando Muhammad parte para Nishapur para expandir seus estudos, ele diz para a menina que ela deve ler as cartas que ele irá enviar para a mãe.

Character design do anime.

Sete anos se passam e Sitara é vista pela sua senhora, que se chama Fátima, como uma filha.  Tal é o sentimento que ela tem pela menina, que chega a dizer que seu sonho é vê-la casada com seu único filho quando ele voltar.  Seu sonho não irá se realizar, porque os mongóis invadem Tus, destroem a cidade e massacram boa parte da população. Sitara termina sendo capturada pelo exército de Tolui, herdeiro de Gengis Khan.  Ele está em busca de um livro sobre a geometria de Euclides para presentear sua esposa.  Os livros são os maiores tesouros da casa e Sitara termina sendo impertinente e iria ser morta se sua senhora não se sacrificasse por ela. Esta é uma culpa que Sitara levará dentro de si para sempre, ao que parece.  Após ser levada como escravizada pelos mongóis em uma marcha forçada por montanhas e estepes, ela adota o nome de Fátima e começa a planejar sua vingança aproveitando-se de todas as chances possíveis e usando os seus conhecimentos para abrir as portas certas.

O Império Mongol dos séculos XIII e XIV foi o maior império de terras contínuas da história e o segundo maior império em área, perdendo apenas para o Império Britânico.  Esse império, no entanto, se fragmentou devido a guerras civis e à própria inexperiência dos mongóis, nômades das estepes sem experiência de Estado, porque uma coisa é conquistar um império colossal usando não raro do terror, outra coisa é criar as estruturas políticas, econômicas e sociais para mantê-lo por um longo tempo.  Ainda assim, os mongóis expandiram seu território da China, passando pelas Coreias, pelo Oriente Médio, pela Rússia e  chegando até as portas de Viena na sua maior extensão.  Ao ser introduzida à esposa de Tolui, Sorghaghtani Beki, agora usando o nome de Fátima, Sitara percebe nela uma grande paixão pelo conhecimento e uma consciência de que os mongóis precisam do saber para conseguir manter o império unido.

Sitara não quer estudar.

O volume #1 da edição norte-americana tem uma série de notas, algumas delas explicando termos e costumes, mas, também, notas apontando qual a versão do Corão que aparece no texto.  Recitar o livro sagrado do Islã é o ponto de partida da educação da criança muçulmana, segundo o mangá.  E é recitar mesmo, porque a língua materna de todos ali é o persa e o Corão está em árabe.  Obviamente, Sitara irá aprender o árabe, assim como Geometria, Álgebra e tudo mais o que puder.  Apesar dela ler as cartas de Muhammad para sua senhora, que é viúva, certamente Fátima é capaz de ler.  Ela também é uma mulher muito instruída e os livros são os seus maiores tesouros, além de uma lembrança de seu finado marido.

Uma das notas importantes do mangá é aquela que explica a ultiogenitura, pois Genghis Khan tem quatro filhos e o mais novo, Tolui, será o herdeiro de tudo.   Se você leu Otoyomegatari (乙嫁語り), de Kaoru Mori, deve lembrar que a tribo do marido da primeira noiva-protagonista da história era o caçula e herdeiro de tudo.  É Tolui que destrói a cidade de Tus.  Só que Tolui será preterido pelo pai em favor de outro irmão, Ögedei, e parece que é com a esposa dele, Töregeneque Fátima (Sitara) irá se unir para levar adiante a sua vingança contra os mongóis, mas isso é coisa para o volume #3.  Eu acreditei que ela fosse deixar a vingança de lado. 

Tolui, o quarto filho de Gengis Khan.

Fui ler sobre essa cidade persa e descobri que foi berço de vários sábios e poetas e já era um centro de conhecimento desde muito antes do Islã, além de ser uma cidade muito rica da Rota da Seda.  O quadro com a devastação da cidade é um dos mais impactantes desse primeiro volume.   Nishapur, a cidade para a qual Muhammad se dirigiu, também era um grande centro de estudos, comércio e artesanato.  Esta cidade também foi devastada e toda a sua população, menos alguns artesãos mais competentes, foi morta pelos mongóis.  Fátima se desespera ao imaginar que seu adorado Muhammad possa ter perecido lá, mas ela nada pode fazer.

Uma coisa que as notas explicam é que os sábios dentro do mundo muçulmano costumavam viajar para buscar conhecimento com outros mestres e, assim, visitavam vários lugares diferentes ao longo de sua formação ou mesmo da vida.  Bem, na Alta Idade Média europeia ocorria o mesmo.  O sujeito viajava para diferentes lugares em busca de mestres e de livros que estavam nas bibliotecas de algum mosteiro.  Somente com as universidades, a partir dos séculos XII-XIII, é que os professores passaram a se congregar em um lugar e a figura do sábio andarilho deixou de ser comum.

O esconderijo foi descoberto.

As notas do fim do mangá também falam da escravidão no Islã e de como havia certa mobilidade social entre os escravizados, além de possibilidades de comprar sua liberdade.  Houve escravizadas que terminaram sendo mães de sultões e se tornaram esposas de monarcas, por exemplo, ou generais e conselheiros de grandes autoridades.  A longa nota comenta sobre a existência dos escravos de ganho, que viviam fora da casa do senhor e entregavam parte de seus rendimentos ao seu dono.  Essa prática era comum no ambiente urbano brasileiro da Colônia e do Império.  É explicada, também, a obrigação do senhor de libertar uma escravizada e seu filho ou filha caso ele a engravidasse.  O que ninguém gosta de comentar é que a escravizada não tinha o direito de consentir ou não, logo, tudo começava, na maioria dos casos, com um estupro.  Outra coisa que as notas não fazem questão de ponderar é que, nos primórdios do Islã, havia muita discussão sobre manter escravizado outro muçulmano; depois, simplesmente deixou-se isso para lá.  Todos os escravizados que aparecem no mangá são muçulmanos.

Falando em questões de gênero, o mangá mostra muito bem a separação entre o mundo das mulheres e o dos homens dentro da Pérsia.  Havia contato, mas as mulheres se relacionavam entre elas.  Muhammad, por ser ainda um menino, circula nos espaços femininos, mas mesmo ele não se sente mais tão confortável com isso e repreende Sitara por ela estar sem véu (hijab) diante dela.  A protagonista retruca que ainda é uma criança e não precisa cobrir seus cabelos ainda e que ele não é um homem adulto, o que de certa forma o ofende.  Entre os xiitas, as meninas cobrem os cabelos aos 9 anos de idade, entre os sunitas o padrão é depois da primeira menstruação.  

Os bárbaros também usam um relógio solar.

Além do espaço doméstico, outro espaço de socialização das mulheres, onde elas conversam e trocam informações e firmam laços de amizade, é o hamam, que chamamos de banho turco.  A mãe de Muhammad volta a frequentar os banhos depois de cumprir o seu luto.  Não a vemos lá, mas Sitara lamenta a destruição dos banhos, quando vê Tus devastada pelos mongóis.  Tudo o que era caro para os persas não existe mais, os bárbaros não deixaram mais do que escombros.

Já concluindo, Fátima (Sitara) é uma personagem muito simpática e inteligente, além de ter desenvolvido um grande senso de oportunidade.  Quando o jovem intérprete persa Sira lhe oferece a chance de ser útil à esposa de Tolui, ela não somente agarra essa chance como pede que ele lhe ensine a língua dos mongóis, algo importante para que ela não precise de intermediários; ela também se esforça por observar os costumes dos "bárbaros", aprendê-los e usá-los a seu favor.  Acompanhar como a personagem irá crescer e executar sua vingança deve ser algo interessante.  É Sira que lhe diz que Sitara (Ishtar/Estrela) não é nome de mulher importante, mas de escravizada, que lhe faz escolher Fátima.  Ao longo dos volumes, e eu não sei quão extenso será o mangá ou o que estará no anime, devemos ser introduzidos a uma série de conceitos matemáticos, filosóficos, teológicos, porque o primeiro volume já é cheio deles.  

Fatima e Töregene.

Uma Bruxa na Mongólia é uma série muito premiada e elogiada, não vejo nela os defeitos de Ototyomegatari, que eu chamo de mangá antropológico.  A série parece mais interessada em mostrar usos e costumes do que em contar a história de suas personagens.  Ficou em primeiro lugar no Kono Manga ga Sugoi!  em 2023, apareceu nas listagens dos anos que se seguiram e levou o grande prêmio na divisão de quadrinhos da  Associação de Cartunistas do Japão (JCA) este ano.  O anime estreará em julho, mas não temos o dia ainda, nem o quanto da história estará nele.  São cinco volumes de mangá lançados até o momento.  Quanto à edição brasileira, ela sairá em 31 de julho.  Dessa vez, a Panini não perdeu a oportunidade.  O primeiro volume está em pré-venda no Amazon e na página da editora.

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