sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

Comentando o volume 1 e 2 de Yume no Shizuku, Ougon no Torikago


Se você acompanha o Shoujo Café nos últimos anos – quer dizer, a coisa nem é tão recente assim – talvez se lembre que eu comentei todos os 28 volumes de Anatolia Story, série da veterana Chie Shinohara.  Sabendo do meu fraco pelo trabalho dessa mulher e como as séries históricas dela acabam me fazendo sair por aí pesquisando e lendo um monte de coisas, mantive-me afastada do seu mangá atual.  

Feliz, ou infelizmente, acabei não conseguindo mais, especialmente, depois de descobrir que a série é uma biografia de Roxelana (1502/04-1558), ou Hürrem, ou ainda Alexandra, uma mulher que começou escrava e se tornou a esposa do sultão Suleiman, o Magnífico.  Sim, outro mangá histórico, outra vez na mesma região, já que a Anatólia fica na atual Turquia, e outra vez eu aqui capturada...  Vamos lá!


Amor não correspondido?
Nossa história começa em uma vilazinha da atual Rússia, ou Ucrânia.  A jovem Alexandra deseja conhecer o mundo, voar como as aves, mas parece condenada, como sua mãe e avó, a nunca deixar aquele lugarejo.  Essa certeza é destruída quando sua vila é atacada, saqueada, e a moça e uma amiga são levadas pelos tártaros.  Alexandra é vendida em uma cidade e, agora como carga, levada para além do Mar Negro.  

No novo grupo de escravos há uma moça Elizabeth, chamada de Veta, que foi vendida pelos pais e acredita que será comprada por um homem rico e, com sorte, transformada em concubina.  Uma noite, os traficantes de escravos esquecem a porta aberta e Alexandra e Olga, sua amiga, tentam fugir.  Alexandra não vai muito longe e é atacada por um grupo de homens que rasgam sua roupa e tentam estupra-la.

O Sultão.
A moça é salva por um homem moreno que espanta os atacantes.  Ele e Alexandra conversam, a moça fica surpresa, porque ele sabe sua língua.  Ela conta sua história e diz querer ser livre, oferece-se a ele para que a deixe ir.  O homem, que se apresenta como Mateus, diz que ela sozinha não terá muito futuro.  Será pega, ou violentada, levada para um bordel.  Se tiver sorte, talvez, termine concubina de algum homem, já que moças como ela, louras de olhos claros, são requisitadas na região.  Ele confronta a idéia de liberdade que Alexandra tem.  Qual liberdade ela tinha em seu lugarejo?  Ele lhe diz que naquelas regiões há escravos mais ricos e livres do que muitos homens e mulheres livres.  Por fim, ele a leva de volta a seus captores e pede que não a punam.

Por fim, Alexandra é levada para Istambul e colocada no mercado.  Quando estava prestes a ser exposta nua, Mateus reaparece e compra por uma quantia exorbitante.  Ela acredita que fará parte de seu harém, mas ele não toca nela e contrata os melhores professores para que a moça possa ser lapidada.  Com toda essa preocupação, Alexandra crê que será concubina, ou esposa de Mateus.  Ao final de seu processo de educação, no entanto, ele a leva para o palácio do sultão e lhe avisa que ela é um presente para o soberano.  


Alguns quadros do mangá do são bem bonitos.
Hürrem está decepcionada, mas disposta a encarar o seu destino no harém.  Seus privilégios sendo motivo de inveja e perseguição. Mateus, que ela agora sabe ser Ibrahim, lhe dá um eunuco branco (*todos os guardas do harém eram eunucos negros*) surdo e mudo para sua proteção e uma gaiola de ouro aberta.  Sim, o harém é uma gaiola de ouro e, também, um lugar muito, muito perigoso e cheio de possibilidades.

Esse é o ponta pé inicial do mangá que é recheado de personagens históricas, informações sobre as relações geopolíticas do início do século XVI e um monte de vocabulário para entender a posição de cada uma das mulheres na complexa rede de relações do harém e deste com o soberano.  Suleiman, chamado no Ocidente de “o Magnífico”, foi o monarca de mais longo reinado entre os otomanos, governando de 1520 até 1566.  Conhecido como sábio, grande guerreiro (*liderou várias campanhas pessoalmente*) e cruel.  Assim como um Ivan, o Terrível, mandou matar o próprio filho mais velho, que foi estrangulado diante dos seus olhos, favorecendo os filhos com Roxelana.  Durante o governo de Suleiman, o Ocidente cristão quase foi engolido pelos turcos, sendo os dois cercos mal sucedidos (1529 e 1532*) de Viena já no centro da Europa, o ponto de inflexão no avanço do Império de Suleiman.


A protagonista cedo aprende
a sobreviver no harém. 
Já Ibrahim era um escravo que foi mordomo do palácio, falcoeiro mor de Suleiman, até se tornar o grande vizir.  Despertou invejas e terminou sendo executado por ordem do sultão.  Há quem acredite que a mão de Roxelana esteja envolvida na derrocada de Ibrahim, mas não há certeza.  De qualquer forma, no mangá, Ibrahim é o amado da protagonista.  O homem que lhe deu a oportunidade de crescer, de rever seus conceitos sobre liberdade e a quem ela deseja agradar sendo a mãe dos filhos do sultão.  Nos dois primeiros volumes, a protagonista – chamada ainda de Hürrem por conta de sua bela voz e sorriso – está tentando sobreviver e aprendendo rapidamente como lutar em um ambiente hostil.  

Não sei por quanto tempo a autora vai estender essa história, se até o casamento de Hürrem com Suleiman, o que não daria para mais de 15 volumes, ou se até o fim da vida das personagens, o que poderia dar em outro Anatolia Story, ou ainda mais.  O fato é que Yume no Shizuku, Ougon no Torikago (夢の雫、黄金の鳥籠) é a série mais bem sucedida da autora em termos de vendagem e foi com um volume deste mangá que ela conseguiu entrar no top 10 da Oricon pela primeira vez.  O que me deixa um tanto curiosa é se Shinohara vai fazer uma série “chapa branca”, ou se terá a coragem de colocar toda a complexidade das personagens no papel.  Roxelana/Hürrem não é Yuuri; Suleiman certamente não é Kail, ainda que ela tenha “contratado” o mesmo ator para o papel. (^_^) 
Um triângulo inesperado.
A relação entre as protagonistas, Suleiman-Roxelana-Ibrahim, é bem complexa.  Ibrahim parece amar Roxelana e tem suas capacidades e possibilidades em alta conta, mas não poderia tocar nela.  Somente mulheres virgens poderiam ser presenteadas ao sultão.  A moça certamente ama Ibrahim e gostaria de ser sua “qualquer coisa”, o que não sei se irá se concretizar em algum momento.  O mangá tem 9 volumes, mas scanlations só até o início do volume 5.  O início do relacionamento dela com Suleiman nada tem de romântico, aliás.  

Ela cumpre seu dever para com Ibrahim, sabendo que a imagem dele dependia do seu sucesso em agradar o sultão.  É deflorada sem particular afeto (*o sultão também está cumprindo um dever*) e começa a surpreender o sultão ao pedir como presente da primeira noite, algo do protocolo do harém, não jóias, ou ouro, mas livros.  Ele lhe dá uma chave para a sua biblioteca e a liberdade de ir até lá, e sair do harém para isso, quando desejasse.  Depois, lhe manda um professor, o mesmo homem que cuidou de sua educação e da de Ibrahim, quando jovens.


Roxelana continua desejando Ibrahim.
E Suleiman?  Enfim, a relação dele com Ibrahim é de senhor, amigo e amante.  Ele tem um caso com Ibrahim, assim como mantém relacionamentos afetivos/sexuais com várias mulheres.  Nesse sentido, o elo entre eles é muito incomum, eu diria, porque temos um triângulo inusitado.  Não me recordo de um triângulo nesse feitio no qual os dois homens (*ou mulheres*) são amantes e há uma terceira pessoa envolvida com fortes ligações com ambos.  Suleiman é, também, extremamente inteligente e perceptivo.  Ele não sabe somente do que ocorre em seu vasto império, mas das minúcias do harém... 

O Suleiman construído por Shinohara parece se divertir com as disputas entre suas mulheres, como se só merecesse real valor aquela que fosse mais forte, mais astuta.  Privilégio de quem tudo pode e, por mais que ele possa vir a amar a protagonista, uma atitude machista e sádica.  Nessa disputa interna, Hürrem será bem sucedida, já sabemos, mas tem como grande rival Gülbahar (*historicamente mais conhecida como Mahidevran).


A mãe do sultão e a mãe do filho
do soberano.  Mulheres poderosas e perigosas.
Quando Gülbahar aparece pela primeira vez, ela parece uma dama perfeita, passando tranquilidade e gentileza.  Ela é mãe do único filho de Suleiman até aquele momento, Mustafa.  O primeiro encontro com Hürrem se dá no salão da mulher mais poderosa do harém, a mãe de Suleiman, Hafsa, a primeira a ser chamada de Valide Sultana (*mãe do sultão*), algo que se torna um verdadeiro cargo dentro do harém e do governo.  A mãe de Suleiman deseja netos, quanto mais melhor para o Império, mas, nas sombras, Gülbahar faz de tudo para eliminar concorrentes para seu filho.  Gülbahar tem olhinhos de Nakia, a vilã de Anatolia Story.  Outro caso de mesma atriz no papel.  

A pobre Veta, que foi companheira de Hürrem nas mãos dos traficantes de escravos, não consegue nem começar direito sua carreira no harém.  Ela era a favorita do sultão quando da chegada de Hürrem.  Muito orgulhosa de sua posição e pisando em todas. Hürrem se desvencilha dela fácil e Veta, que parecia tão esperta, termina vítima de Gülbahar.  Já a protagonista, desde o primeiro dia, sofre com as tentativas de envenenamento e outras sabotagens.  Sabe aquela dinâmica das intrigas de harém?  Pensei, “será que vai ficar só nisso?”.  Não, não se trata de um mangá sobre um harém, como Ooku, mas sobre uma mulher que soube ir além dele.  


Há várias cenas bem hot.
Vemos o harém e fora dele.  Shinohara é muito talentosa nesse aspecto e Roxelana (*Hürrem*) tornou-se figura proeminente na política e, não somente, no aspecto micro do harém.  Quando começa a segunda fase de sua educação, já no palácio do sultão, rapidamente ela adquiri competência em várias línguas e passa a estudar a geopolítica da época.  É deliciosa a sequência do barco com o sultão fugindo de seus conselheiros, que desconfiavam de sua pouca idade, e debatendo política e estratégia no Bósforo com Ibrahim e Hürrem.  Quando a barca do grande vizir se aproxima e ele tenta cobrar satisfações do sultão (*algo muito, muito perigoso*), Hürrem reverte toda a situação recitando um poema e fazendo o papel da “mulherzinha” que só queria um passeio e alguns momentos com seu amado (*nesse caso, dois amados*).  Funciona.

Vejam que o papel da protagonista é sinuoso, ela é forte, porque sobreviver no harém é perigoso, mas ela é ainda mais forte, por subverter as estruturas e conseguir poder fora dele.  De escrava à esposa oficial do sultão.  Ao contrário do que dizia o costume, ela teve cinco filhos homens com ele, contrariando a regra de um filho por mulher.  Suleiman não permitiu que ela deixasse a corte acompanhando o filho mais velho, ou um dos filhos, neste caso, quando eles atingissem a maioridade.  Ela sempre esteve no palácio e ela suplantou facilmente Gülbahar no coração do sultão.  A Hürrem verdadeira não contou com nenhuma vantagem, aliás, a do mangá, chega ao harém credenciada pelo melhor amigo e amante do sultão.  Não é pouca coisa.


Hürrem terá cinco filhos homens com o sultão. 
Enfim, Yume no Shizuku, Ougon no Torikago não é Ooku, Chie Shinohara não é Fumi Yoshinaga.  O que eu quero dizer é que não se deve esperar grande elegância ou mesmo o apuro visual minimalista de Yume no Shizuku, Ougon no Torikago.  A trama é complexa, interessante, mas não vai oferecer uma arte de encher os olhos de uma Kaoru Mori, também.  Shinohara, no entanto, se sai muito bem tanto em cenas mais estáticas, quanto em cenas de ação e batalhas, ainda que sua arte não seja atualizada faz tempo.  Ela não está desenhando melhor do que em Anatolia Story, trata-e da mesma arte funcional, competente e bonita, desde que você goste do trabalho da autora, como eu.

De resto, temos nudez, sexo e violência, também na mesma medida que em Anatolia Story, ainda que a série seja josei (* o mangá sai na Anekei Petit Comic*).  As cenas de sexo parecem mais elegantes e menos romance harlequin, mas com dois volumes, ainda é cedo para dizer.  Potencialmente, talvez, Yume no Shizuku, Ougon no Torikago possa ter mais violência, mas tudo vai depender do que a autora quiser contar e até qual momento ela vai seguir da vida dos protagonistas.  Eu não imagino Ibrahim sendo executado por conspiração de Hürrem, mas, enfim, ainda há muito mangá que eu não li...

Istambul é suficientemente grande para você? 
É isso. Recomendo Yume no Shizuku, Ougon no Torikago.  É uma série interessante e bem ao estilo de Chie Shinohara.  Só que, fatalmente, você terá o impulso de ler e ler mais sobre as personagens e a época.  Olhando por aí, já encontrei série e novelas turcas sobre Hürrem e Gülbahar, além da irmã do Sultão,  Hatice, que, pelo menos na ficção,  parece ser colocada como esposa de Ibrahim (*ela aparece no volume #3*).  O fato é que todos ali estavam em gaiolas de ouro, só que algumas delas são maiores, mais espaçosas, elegantes que outras.  O estranho foi uma escrava conseguir mudar de gaiola e se manter no espaço que não lhe era destinado por todos os seus dias e com grande sucesso.

Já que eu falei de reutilização de elenco.  Hürrem é a cara da neta de Yuuri que aparece em um gaiden sendo enviada para se casar com Ramssés II, como parte do tratado da batalha de Kadesh.  Foi de coadjuvante à protagonista. Shinohara deve ter gostado de seu desempenho.

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