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domingo, 21 de junho de 2026

Comentando Toy Story 5: humor, drama, aventura e até romance em uma mistura muito satisfatória que vai além da mera nostalgia

 

Assisti com minha filha ao filme Toy Story 5.  Pelas críticas, já sabia que não se tratava de um mero caça-níqueis, ainda que o seja em certo sentido.  Como coloquei em minhas resenhas dos filmes 3 e 4, a série poderia se fechar em uma trilogia e continuar em especiais que, de tempos em tempos, poderiam revisitar a obra.  Mantenho o que escrevi, mas não vou dizer que este quinto filme seja descartável.  Ele trouxe novas discussões sobre o uso de tecnologia, abordou de forma não maniqueísta o vício em telas, manteve a conexão com o cânone da franquia e deu o protagonismo para Jessie sem anular Woody e Buzz.  Resumindo, havia uma boa história a ser contada, que se fecha em si mesma e, ao mesmo tempo, deixa aquela vontade de rever as personagens em outras aventuras.  Mas vamos ao resumo do filme: 

Bonnie está crescendo e mantém sua imaginação ativa, apesar de ter dificuldades para fazer amigos.  Um dos problemas da menina é sua aparente timidez; o outro é a tecnologia.  Todas as crianças parecem ter tablets ou computadores.  Ao investigar as crianças vizinhas que rejeitam Bonnie, Jessie e Bala no Alvo são alertados por outros brinquedos que sua hora, isto é, o abandono, o esquecimento, estava próximo.  E não demora e Bonnie termina ganhando de presente uma Lilypad, um tablet educativo que se torna central na vida da menina, enquanto ela vai se esquecendo dos outros brinquedos.  Lilypad quer ajudar Bonnie a fazer amigas através de meios virtuais e entra em confronto com os demais brinquedos.  Já Jessie pede conselhos a Woody e, em uma incursão para se certificar de que as novas amigas de Bonnie são boas de verdade, acaba se perdendo e tendo que confrontar o seu passado e a relação traumática com sua primeira criança, Emily.  O desaparecimento de Jessie e Baa no Alvo termina por fazer Woody e Buzz partirem à sua procura com o patrulheiro espacial extremamente angustiado, porque estava prestes a pedir Jessie em casamento.

O novo Toy Story tem humor, tem drama, tem aventura e tem até romance em uma mistura muito satisfatória que vai além da mera nostalgia.  Quando o primeiro Toy Story estreou, em 1995, eu já era adulta e estava na universidade; não me interessei pelo filme a ponto de ir assisti-lo nos cinemas.  Sim, lá se foram mais de trinta anos desde a primeira animação e muitas revoluções tecnológicas podem ser observadas ao longo de todos os filmes da franquia.  De qualquer modo, não cresci com Toy Story; me afeiçoei aos filmes porque eles me tocaram de alguma forma e acabei reconhecendo suas qualidades.  Aliás, pelo menos uma personagem dos especiais foi trazida para o filme, o Comando em Ação, Command Carl, que  aparece em Toy Story de Terror.  Apesar do protagonismo de Jessie, Woody e Buzz não são rebaixados, como aconteceu no filme 4.  Aliás, fiquei feliz por não termos muito de Bo Peep em tela.  Por outro lado, trazer Woody de volta foi excelente e funcionou a piada da calvície do boneco, que está rendendo uma promoção de ingressos gratuitos para homens calvos no cinema.  Mais detalhes aqui.

O filme poderia enveredar fácil para uma estrutura de bem contra o mal, apresentando as novas tecnologias como daninhas ao desenvolvimento das crianças.  Afinal, essa histeria está presente em vários discursos desde os pedagógicos até os médicos.  E estou deixando clara a minha posição, porque tenho cinquenta anos e a minha geração já era cativa das telas, mas era a TV.  Quantas horas as crianças dos anos 1980-1990 passavam diante da babá eletrônica? Vasculhem os jornais e artigos da época e irão encontrar os mesmos discursos alarmistas sobre sedentarismo e o desaparecimento das brincadeiras tradicionais. A diferença maior é que não tínhamos o controle do que consumíamos; com as novas tecnologias, as crianças ganham uma autonomia que é perigosa, porque a internet é um lugar cheio de gente realmente ruim, mas é também incômoda, porque tira poder dos adultos de decidir tudo por elas.  Com a TV linear é mais fácil.  

De qualquer forma, uma crítica pertinente do filme passa pela adultização.  Tablets e computadores (*não se fala de celulares no filme*) afastam as crianças dos brinquedos convencionais e as pressionam a rejeitar comportamentos infantis em favor da aceitação do grupo.  Essa segunda parte, aliás, não é novidade, o que há de novo é a precocidade.  A discussão aparece quando Bonnie tenta fazer amigas usando o chat do Lily Pad e as meninas a ridicularizam por ainda brincar com brinquedos e na análise do quarto da segunda menina introduzida, Blaze, que mora na antiga casa da primeira dona de Jessie.  Ela tem 9 anos, mas seu quarto parece o de uma adolescente.  Com os brinquedos trancados em uma casa no quintal, ou dentro de uma gaveta ou, os mais queridos, em uma prateleira alta, como decoração.  Aliás, ela tem um cavalo alado da Barbie na sua coleção de cavalinhos.

Agora, falando por mim, quando tinha uns oito anos, ele morreu quando eu tinha nove; eu ouvi do meu avô que  ele esperava que eu já tivesse largado as bonecas quando estivesse com dez anos, porque já seria mais que hora de me tornar uma mocinha.  E na quinta série, quando eu estava com dez anos, a maioria dos professores fazia questão de repetir que nós não éramos mais crianças, que certos comportamentos eram inaceitáveis,  e era muito comum que um monte de homens adultos ficassem na porta do colégio assediando meninas.  Pode ser uma experiência ligada a um determinado lugar (*Rio de Janeiro, Baixada Fluminense*) e classe social, mas eu tenho lá minhas restrições sobre essa ideia de que a adutização é um fenômeno recente.  Não é, não, especialmente quando se é menina.

Mas o filme é competente em mostrar que a tecnologia isola, com cada criança parecendo presa em seu próprio mundo, e, ao mesmo tempo, permite conectar pessoas que estão distantes.  E isso é fundamental para o arco final da história.  Basta, claro, se conectar com pessoas certas.  Só que dois pontos mal arrumados do filme se ligam a isso.  Os pais de Bonnie resistem em presentear a filha com um tablet, mas se mostram muito pouco perceptivos das mudanças de comportamento da menina e rapidamente esquecem que tinham combinado que ela iria usar o Lily Pad com parcimônia.  O outro furo é que as mensagens que são importantes para que Jessie seja encontrada e que Bonnie e Blaze se conectem são enviadas pelos brinquedos, mas nenhum humano se questiona sobre elas. Que estava usando tablets e computadores para mandar mensagens?

Por outro lado, o filme tem algumas resoluções de roteiro interessantes.  Ele abre com um exército de Buzz LightYear de última geração em uma ilha deserta.  Houve um naufrágio e eu lembrei imediatamente de Robô Selvagem.  Os bonecos conseguem se ligar, mas estão com sua programação original, eles não sabem que são brinquedos, se acham patrulheiros de verdade e querem chegar com Comando Estelar.  Essa é sua missão.  Eles poderiam ser um alívio cômico e nada mais, mas eles se encaixam na história. Inclusive, há uma homenagem ao Banbie ligada a eles.  Aparecem Banbie e Tambor, além dos acordes de uma das músicas da animação.  Não sei por qual motivo cortaram Flor.

Temos, também, mais detalhes do passado de Jessie e de sua primeira dona, Emily.  Não vou dar detalhes sobre o que é, porque será legal acompanhar esse desenvolvimento da história.  Então, sem spoilers aqui, mas digo que o que eu imaginei que seria feito, não teve nada a ver com a escolha do filme.  Agora, infelizmente, não fizeram um bom uso da música do filme, que deve ser aposta para o Oscar, porque, pela primeira vez, como pontuou minha filha, nenhuma canção foi utilizada dentro da película.  Ela só aparece nos créditos finais.  Deveria ter entrado nessa sequência centrada em Jessie e Emily.  Agora, se você não se importa com spoilers, depois do trailer, eu comento esse ponto.

Enfim, o filme tem um detalhe curioso que é o uso recreativo da tortura e não achei fotos.  Woody é torturado pelo exército de Buzz Lightyear.  Woody e Buzz torturam Lily Pad.  Levando-se em consideração que a tortura é um ato hediondo e condenado por convenções internacionais, mas que cada vez mais é justificado pelos políticos de extrema-direita como algo legítimo, me pergunto quem teve a ideia de transformar a coisa em alívio cômico.  Podem me chamar de exagerada, eu não me importo, mas a normalização da tortura em um filme infantil me incomodou um tanto.  E a cena com o Woody nem é engraçada, é até angustiante.  No caso de Lily Pad, como ela é a vilã, ou assim os brinquedos tradicionais a percebem, a tendência é revelar a coisa até certo ponto.

Neste filme de Toy Story, as sequências de imaginação das crianças estão em um estilo de animação diferente.  Assim, se marca a separação entre a realidade e o mundo imaginado.  Temos o casamento de Garfinho abrindo o filme e outro casamento fechando a película.  Além disso, outras sequências de imaginação mostram a riqueza dos mundos criados por Bonnie e Blaze e permitirão a integração entre os brinquedos tradicionais e os tecnológicos.  Aliás, um aspecto interessante do filme parece ser a descartabilidade dos brinquedos.  Os novos personagens, os brinquedos tecnológicos de Blaze, foram esquecidos depois de poucos meses, até semanas, de uso.  Será que crianças precisam ganhar tantas coisas?

O filme cumpre facilmente a Bechdel Rule, porque tem várias personagens femininas, com nomes, que conversam entre si e sobre outras personagens femininas, principalmente, sejam elas Bonne, Blaze, Lily Pad ou mesmo Jessie.  Como o elenco de Toy Story é extenso, há personagens que só fizeram pontinhas, mas vários deles retornam para o filme.  E a escolha de Jessie como protagonista foi boa.  Diferentemente do que aconteceu no filme 4, a centralidade não resultou em deformação da personagem ou na sua conversão em uma mera girl boss.  E ela e Buzz se acertam definitivamente ou pelo menos eu acredito nisso.  Me pergunto se irão adotar algum filhinho ou filhinha.  E o desespero de Buzz e a busca de Jessie são algumas das partes melhores do filme.  😁

Concluindo, Toy Story 5 foi um filme muito satisfatório.  Ele conta uma história de verdade, lida com a nostalgia sem se tornar refém dela, sendo bem superior ao filme 4. É muitíssimo mais interessante, também, do que o filme Mario Galaxy, que eu assisti e não fiz resenha, porque, bem, ele não acrescentou nada, não me tocou em nenhum momento, foi somente uma exibição de tecnologia.  E, bem, exibição de novas tecnologias de animação é coisa que Toy Story faz melhor.  Como nos outros materiais da série, o filme consegue dialogar com adultos e crianças e não faz escolhas fáceis e maniqueístas.  A tecnologia não pode ser banida da nossa vida; ela não é uma inimiga e é preciso compreender que as crianças crescem e que os brinquedos não estarão para sempre na sua vida diária, ainda que possam ser guardados como uma preciosa recordação.  Já as personagens novas têm potencial para serem exploradas em próximas produções da franquia, que irão vir com certeza.  Recomendo muitíssimo.

Se você está aqui, não deve se importar com spoilers.  Jessie e Bala no Alvo são perdidos por Bonnie e a boneca tem o nome de Emily e o seu endereço escrito em uma parte interna de sua roupa.  Por conta disso, ao ser encontrada, um casal de idosos decide devolver a boneca e coloca os dois na caixa de correios do antigo rancho de Emily.   Se você conhece Jessie, já imagina o gatilho.  Eu imaginei que ela fosse reencontrar Emily adulta, que ela fosse ser a dona do rancho e já avó, quem sabe.  Só que não foi bem assim, mas elas irão se reencontrar, porque Jessie descobre uma cápsula do tempo enterrada e consegue compreender que continuou importante para Emily, porque a sua primeira dona deu o seu nome à sua filha.  É uma sequência bonita que estimula o amadurecimento da protagonista. 🥹 Repito novamente: Toy Story 5 merece ser assistido e já é a melhor estreia da franquia nos cinemas, mesmo não estando disponível ainda em todos os países.

terça-feira, 26 de maio de 2026

Animação da Netflix revisitará A Princesa e o Cavaleiro de Osamu Tezuka: a estreia é em agosto

O longa-metragem de animação "THE RIBBON HERO", baseado em "A Princesa e o Cavaleiro" (Ribon no Kishi/リボンの騎士) de Osamu Tezuka , será transmitido exclusivamente pela Netflix em agosto de 2026. Estou com essa notícia do Comic Natalie aberta aqui faz tempo.  Só que hoje saiu um vídeo promocional do longa-metragem.  A primeira imagem promocional, desenhada pelo designer de personagens Kei Mochizuki, apresenta a protagonista, uma jovem garota. Seu marcante laço vermelho remete ao clássico "A Princesa e o Cavaleiro" e o slogan, "Eu não quero ser a pessoa que os outros querem que eu seja", sugere as lutas da garota e sua determinação em resistir às expectativas de gênero daqueles que estão ao seu redor e escolher ser ela mesma. 

Esses sentimentos se transformarão em uma espada.

Hoje, o CN trouxe novas  imagens e um vídeo promocional do filme.  Coisa pequena ainda, certamente, outros virão.  A menina de cabelo preto é Saphire, não sei até que ponto ela é a mesma da "Princesa e o Cavaleiro", a princesa com dois corações, um de menino e outro de menina, ou uma personagem totalmente diferente.  Aguardemos mais detalhes.  O vídeo está abaixo: 

segunda-feira, 11 de maio de 2026

Anunciado o filme animado de Umi ga Hashiru Endroll

Umi ga Hashiru Endroll (海が走るエンドロール), elogiada e premiada série de John Tarachine, terá  umm filme animado, segundo anunciado hoje pelo Comic Natalie.  A série é muito elogiada e tem como protagonista uma idosa viúva que descobre sua paixão pelo cinema, não por assistir filmes, mas por ser cineasta.  E eu estranho muito que não tenham anunciado dorama ou filme live action ainda.  Até o momento, a série foi licenciada na Espanha e na França.

O filme animado tem estreia prevista para 2027.  A direção está a cargo de Taichi Ishidate, conhecido por seu trabalho em Violet Evergarden e CITY THE ANIMATION; já a produção do filme será realizada pelo estúdio Kyoto Animation.  Umi ga Hashiru Endroll terminou em novembro de 2025 e tem 9 volumes ao todo.  Eu esperava um filme live action, não um filme animado, mas acredito que outras adaptações desse mangá ainda virão.

segunda-feira, 16 de março de 2026

Algumas palavrinhas sobre a 98ª Cerimônia do Oscar: Não levamos nenhuma estatueta, mas a festa foi muito boa!

Faz tempo que eu acompanho o Oscar.  Muito tempo mesmo.  Gosto de assistir, gosto de comentar e torcer, também.  Com brasileiros participando, a gente torce mesmo.  Mas eu escrevi um post ontem no qual explicava as chances e possibilidades de O Agente Secreto  e do  Adolpho Veloso.  E mais ou menos antecipei o que ia acontecer, não por adivinhação, mas por dedução e observação.  Por exemplo, olhe  quadro abaixo:


O Brasil não ganhou estatueta, mas esteve muito bem representado no Oscar.  Pelo quadro acima, vocês podem observar a regularidade de alguns prêmios. Se a Mubi tivesse feito uma campanha melhor para O Agente Secreto no Reino Unido, ela era a distribuidora por lá, talvez o Wagner Moura fosse indicado ao Bafta.  Estar indicado lá ou no Sindicato meio que aumenta suas chances no Oscar e ele foi o primeiro ator brasileiro indicado.   E isso é uma vitória em si mesma, porque, bem, a festa do Oscar ainda é uma festa norte-americana e filmes de terror, atores e atrizes negros também não são muito reconhecidos.  Fico feliz com o desdobramento de qualquer forma.

E eu não sabia que a Noruega nunca tinha ganho um Oscar de filme internacional.  Valor Sentimental fez história.  É engraçado, porque Dinamarca e Suécia já venceram várias vezes.  Como muita gente que eu respeito elogiou o filme, vou me esforçar para assistir até o fim, porque comecei e larguei.  De repente, volte daqui uns dias fazendo uma resenha da obra.  

Houve  muitos prêmios óbvios, todos os que Frankenstein levou eram esperados.  Figurino este ano estava uma tristeza.  Era uma indicação que eu gostaria que O Agente Secreto recebesse, porque é um dos pontos altos do filme.  Todo mundo sabia que Guerreiras do K-Pop levaria melhor longa de animação e Golden provavelmente melhor canção.  Melhor filme e diretor para Uma Batalha Após a Outra.  Mas houve surpresas como um empate em curta documentário e Amy Madigan (A Hora do Mal) como melhor atriz.  

Um dos pontos altos da cerimônia foi o In Memoriam.  Eu gosto muito dessa parte e houve um grande destaque este ano.  O auge foi Barbra Streisand homenageando Robert Redford com quem trabalhou no filme O Nosso Amor de Ontem (The Way We Were/1973).  Ela cantou com a voz muito embargada a música tema do filme.  Eu quase chorei.  Lembro de ter assistido O Nosso Amor de Ontem muitos anos atrás.  Acho que foi no SBT.  Acredito que foi o primeiro filme sobre Macarthismo que eu vi, nem sei sse já estava na faculdade.

Notável este ano foi termos 74 mulheres  indicadas.  Um recorde.  E os melhores  discursos foram os  do pessoal de Pecadores, porque todos tinham plena consciência do seu papel histórico naquela noite.  Autumn Durald Arkapaw, em especial, fez um discurso muito feminista ao receber o prêmio de Melhor Fotografia, ela reconheceu o esforço e apoio de todas as mulheres presentes.  Foi a primeira mulher a ganhar o prêmio  e a primeira mulher  negra a ser indicada.  Isso em quase 100 anos de premiação.  Em certas categorias, o Clube do Bolinha é  mais forte que em outros.  Muito mais.

Quando Michael B. Jordan recebeu o prêmio de Melhor Ator, aquele que a gente queria para o Wagner Moura, também tivemos um belo discurso no qual ele citou todos os atores e atriz negros que ganharam a categoria principal.  Foram poucos, muito poucos, se levarmos em conta que estávamos na 98ª Cerimônia do Oscar.  Ah, sim!  Quando apresentaram a música de Pecadores, a bailarina Misty Copeland entrou no palco.  Foi uma forma de espicaçar  Timothée Chalamet por causa de suas falas ridículas sobre balé e ópera,que só foram reveladas DEPOIS que a votação terminou.  Aliás, Marty Supreme foi o grande perdedor da noite pelo número de estatuetas que não levou e pela quantidade de propaganda que fez.

No geral, gostei bastante dessa cerimônia.  Mais do que eu acreditava.  E, pelo menos nos prêmios principais, quem recebeu a estatueta mereceu.  Muito diferente do ano passado, quando um filme medíocre recebeu várias estatuetas.  Acho que é isso, a lista dos vencedores  está aqui.  Preciso agora ver mais filmes do Oscar, inclusive Pecadores e Uma Batalha Após a Outra.

domingo, 15 de março de 2026

Novo filme de Razão e Sensibilidade sofre um pequeno atraso

Foi noticiado que o novo filme de Razão e Sensibilidade foi empurrado de 11 de setembro para 16 de outubro.  Segundo o The Wrap, o atraso é estratégico: "Em sua nova data de lançamento em meados de outubro, "Razão e Sensibilidade" será uma alternativa mais madura às opções mais repletas de ação com as quais dividirá o fim de semana: "Street Fighter", da Paramount, e "Whalefall", da 20th Century Fox. O filme também será lançado uma semana depois de "The Social Reckoning", da Sony Pictures, sequência de Aaron Sorkin para seu drama vencedor do Oscar sobre o Facebook, "A Rede Social"." Continuação de Rede Social?  Sério?   Enfim, espero que a nova data beneficie o filme.

O Oscar é HOJE, pessoal! Vamos torcer pelo Brasil!

Mais um ano, mais uma cerimônia do Oscar, mais uma vez o Brasil bem representado e com chances.  Não vou fazer apostas, estou torcendo mesmo para  que O Agente Secreto volte para casa com alguma estatueta, mas sei que é difícil.  Está pipocando por aí montes de matérias cretinas.  Por exemplo, há a história de que O Agente Secreto não tem chance em Melhor Filme.  Mas quem é que acompanha o Oscar acredita que o filme tem alguma chance nessa categoria?  A indicação é uma honra, um reconhecimento de mérito.  O Oscar de Melhor Filme tem um favorito, Uma Batalha Após a Outra, podendo sobrar para Pecadores e, com chances muito mais limitadas, para Hamnet.  E é isso.

A categoria Melhor Ator, outra em que o Brasil concorre, tem um favorito, Michael B. Jordan, seguido por Timothée Chalamet.  Sim, eu sei que ele soltou umas atrocidades sobre ópera e balé, mas as falas dele só saíram depois da votação estar fechada.  Se influir em alguma coisa, é  no futuro só.  Então, gente, os votos já estavam dados.  Em seguida, temos Wagner Moura cotado.  Mas ele não estava indicado no Bafta, nem no Sindicato dos Atores.  Pode ganhar?  Pode, mas ele não é favorito.  E ser um dos apresentadores do Oscar não é prêmio de consolação, é coisa que acontece.  Fora, claro, que a produção do Oscar quer a adesão dos brasileiros.

Melhor Filme Estrangeiro parece até mais aberto que a categoria Melhor Ator.  Valor Sentimental ainda é o favorito, porque tem muito mais indicaçõesmelhor filme, melhor filme internacional, melhor direção (Joachim Trier), melhor atriz (Renate Reinsve), melhor ator coadjuvante (Stellan Skarsgard), melhor atriz coadjuvante (Elle Fanning), melhor atriz coadjuvante (Inga Ibsdotter Lilleaas), melhor roteiro original (Eskil Vogt e Joachim Trier) e melhor edição ou montagem (Olivier Bugge Coutté).  Só que o filme parece estar perdendo fôlego e pode sair até sem melhor ator coadjuvante.  De qualquer forma, a categoria Melhor Filme Internacional está aberta, mas há um problema: Somente quatro países venceram o Oscar de melhor filme internacional em anos consecutivos.  Todos europeus.  Seremos o quinto?  Percebem a dificuldade?  Seria muito legal, mas é difícil.

Direção de Elenco é prêmio novo, mas a disputa só tem gente grande.  David Rubin fez um excepcional trabalho, o elenco é um dos pontos fortes do filme, mas acontece o mesmo com os concorrentes.  A maioria está apostando que vai ou para Uma Batalha Após a Outra ou para Pecadores.  Como acabei de assistir Hamnet, digo que se for para este filme não é injusto, porque o elenco é um dos pontos altos desse filme um tanto irregular.  Mas, repito, é a primeira vez, é histórico e sem precedentes.

E tem  Melhor Fotografia com Adolpho Veloso por Sonhos de Trem.  Ele está sendo muito elogiado, já ganhou muita coisa, mas é uma categoria difícil.  O mais cotado é Pecadores, mas, logo em seguida, vem Sonhos de Trem.  Se o Oscar seguir seu curso padrão, provavelmente, Pecadores, o recordista de indicações de todos os tempos, deve sair com poucas estatuetas.  Mas pode levar exatamente as estatuetas que a gente quer.  😁

É isso.  mesmo não tendo amado o filme, vou torcer, vou torcer MUITO.  Se o Brasil sair sem estatuetas não é problema, faz parte do jogo; se ganhar alguma coisa, acho que vou começar a gritar como se fosse gol.  

Comentando Hamnet: A Vida Antes de Hamlet (Reino Unido/EUA/2025): Um tocante Retrato do Luto e uma Ficção Histórica Muito Deficiente.

Fui negligente e não assisti praticamente nenhum dos filmes do Oscar.  Decidi que tentaria ver pelo menos Hamnet, que em nosso  país recebeu o subtítulo de "A Vida Antes de Hamlet", porque um dos assuntos da temporada era como a interpretação de Jessie Buckley seria uma unanimidade, tanto que ninguém tem dúvidas de que o Oscar é dela.  Digo o seguinte: as interpretações são o forte do filme.  E não estou falando somente de Buckley, mas de Paul Mescal, que interpreta Shakespeare, e das crianças, em especial, o menino Jacobi Jupe, que faz Hamnet, o filho cuja morte destrói emocionalmente a família.  Também é louvável o retrato do luto de pais amorosos, porque no filme, ambos o são, mas ao pensar Hamnet como filme histórico, começo a ver nele tantos problemas que ele se apequena  aos meus olhos.  Não consigo evitar, mas explico ao longo da resenha.  Comecemos com o resumo, peguei o do Adoro Cinema mesmo: 

Em Hamnet: A Vida Antes de Hamlet, um dos mais importantes escritores do cânone ocidental William Shakespeare vive uma tragédia ao lado de sua esposa Agnes Shakespeare (Jessie Buckley) quando o casal perde seu filho de 11 anos para uma das várias pragas que assolaram o século XVI. Hamnet (Jacobi Jupe) era o nome do menino e, nessa história ficcional sobre a vida doméstica de Shakespeare (Paul Mescal), Agnes é a narradora e o ponto de vista fundamental da narrativa, demonstrando o luto que acompanha o fim precoce da vida do seu herdeiro. A trama rejeita a faceta inabalável e intocável de um gênio William Shakespeare, mas apresenta um artista que era influenciado, acima de tudo, pela sua vida diária. Explorando os temas da perda e da morte, Hamnet acompanha a rotina e o dia a dia de uma família, as alegrias e as tristezas de viver numa pequena vila na Inglaterra do passado e a história de amor poderosa que inspirou a criação da peça Hamlet.

Hamnet é  um filme construído praticamente em cima do que não sabemos, trata-se de ficção histórica, não de um filme histórico.  O que sabemos então?  O casamento do jovem William Shakespeare com Anne (Agnes) Hathaway é atípico.  Ele era  um jovem de 18 anos, ela uma mulher de 26 anos.  Ele um tanto jovem demais para se casar e ela um tanto passada da idade comum para um primeiro matrimônio.  E, não, em boa parte da Europa, pessoas comuns, aquelas que não eram de famílias reais ou da alta nobreza, não costumavam casar no início da puberdade na Idade Média e boa parte da Idade Moderna, mas 26 era tarde, sim.  Sabemos que Agnes casou-se grávida.  Estavam apaixonados?  Shakespeare foi pressionado a assumir o fruto de uma aventura?  Não sabemos.

Eles têm três filhos: Susanna (Bodhi Rae Breathnach), Hamnet e Judith (Olivia Lynes).  Ele parte  para  Londres.  Não sabemos se ele a visita com frequência ou não.  Se manda  dinheiro para ajudar no sustento da família.  Há a possibilidade  de Hamnet ter morrido de desnutrição e, não, de peste.  Certamente Shakespeare não estava presente quando da morte do menino, nem em seu funeral, porque estava muito longe, em Kent, em uma turnê teatral.  Há muita discussão sobre a sexualidade do autor.  Mesmo sem consenso, há grandes possibilidades de que ele fosse bissexual.  Nada incomum para uma época em que as  pessoas não se fechavam necessariamente nas mesmas gaiolas  de nossos dias.  Enfim, na  minha cabeça, Shakespeare sempre  foi pai e marido ausente.

Sobre a Agnes histórica sabemos muito pouco, ainda  que um retrato dela  de 1708 tenha sobrevivido e isso é bastante coisa para  alguém que não era nobre ou da alta burguesia.  A primeira é que no testamento de seu pai, um camponês abastado e que lhe deixou um bom dote, ela se chama Agnes, mas em todos os outros documentos ela aparece como Anne.  Não sabemos se ela sabia ler, menos ainda escrever, pois eram duas competências vistas como diferentes e meninas muitas vezes aprendiam somente a primeira, mas descobriram recentemente uma carta que lhe foi endereçada.  Mas até aí, alguém poderia ler a carta para ela.  Receber uma carta não tornava  ninguém no século XVI ou antes, ou ainda depois, obrigatoriamente alfabetizado. Esta carta  sugere ainda que Agnes chegou a morar com o marido em Londres entre 1600 e 1610.  Antes disso, o que tínhamos era a ideia de que ela poderia ter prendido o jovem Shakespeare a um casamento de obrigação (*com um volumoso dote... Sei...*), que  ele a deixara para trás e seguido em busca de uma carreira em Londres.

Mas Hamnet, o filme, é baseado em um livro e a autora, Maggie O'Farrell, quis transformar o casamento de Agnes e Shakespeare em uma história de amor.  Agnes foi tornada uma mulher sábia, independente e de uma linhagem de bruxas.  Shakespeare em filho tiranizado pelo pai que encontra nela acolhimento.  Ambos constroem uma família, mas ela, que apoia a carreira do marido, percebe que ele não está feliz e o autoriza e estimula a ir para Londres em busca de seu sonho.  Ele parte, mas retorna com frequência, mima os filhos, não abandona a esposa.  E, algo importante, ele quer que a família resida em Londres, mas Agnes resiste.

Bruxa que é, ela conhece ervas, ela tem visões, pressentimentos, e ela viu, ainda que em sombras, que teria dois filhos chorando no seu túmulo.  O problema é  que ela teve três crianças.  Como Judith, irmã gêmea de Hamnet quase morreu ao nascer e  tem uma saúde frágil, ela acredita que a vida no campo é mais segura  para menina.  E, sim, Londres era uma cidade insalubre, assim como a maioria das cidades da época e algumas até nossos dias.  Só que não é  Judith que a morte irá levar, mas Hamnet.  E não se trata de valorizar um filho mais que uma filha.  O tom do filme, porque o livro não li, não é esse, mas é a perda de uma criança que tem o efeito devastador.  Eu sou mãe, imaginar a perda da Júlia (*ou que eu parta e a deixe sozinha*) é um dos meus maiores medos.  Lembro de como uma das minhas tias-avós ficou devastada por meses e sofre ainda hoje pelo filho caçula que  morreu aos 13 anos.  Foi a primeira vez  que vi minha mãe chorando, essa tia  tinha idade de irmã  mais velha e é assim que minha mãe a vê até hoje.  Eu tinha 8 anos e não esqueço.  A casa da minha tia, sempre  iluminada, sempre  alegre, transformou-se em um mausoléu; os muitos brinquedos que ele tinha todos guardados.  Mamãe nos admoestando para não pedirmos para brincar com eles.  Cortinas fechadas, porque a janela dava para a rua onde  meu primo tinha sido atropelado de bicicleta.  A bicicleta que estava pequena e que seria dada para mim.  Eu nunca ganhei, nem nunca aprendi a andar de bicicleta; minha mãe ficou com pavor de bicicleta por anos.  Foi a primeira experiência de luto que eu vivi.

Logo, o luto que se abate sobre a família Shakespeare não é exagerado, ele é bem realista.  E  não procede uma ideia que foi disseminada pelo primeiro grande estudo histórico sobre a infância, o História Social da Criança e da Família do Philippe Ariès, de que os pais não sentiam a morte de um filho ou filha até os tempos da Revolução Industrial, que tanto fazia um pelo outro, que o luto era curto e muito mais para os olhos da sociedade.  Em alguns casos, talvez, mas há exemplos de sobra mesmo na sociedade europeia  do contrário, que se poderia sentir de forma diferente.  Obviamente, e isso o filme mostra muito bem, se poderia encarar a morte de uma criança, fato muito comum na época, como algo que fazia parte do cotidiano.

Uma das melhores personagens do filme, Mary (Emily Watson), mãe de Shakespeare, encara a morte de uma criança como uma fatalidade. Chora, lamenta, mas compreende que existem coisas que são inevitáveis, a morte faz parte do fluxo da vida, por assim dizer.  Ela também acolhe Agnes, depois de a rejeitar no início por ser bruxa, e se torna mais  mãe da nora do que a madrasta da protagonista.  Só que algo que parece muito forte no filme é que Agnes lamentava ter se enganado e acreditava ter se descuidado de Hamnet, porque cria que o menino tão saudável seria um dos filhos chorando em seu túmulo.  Seus conhecimentos e poderes de bruxa não o puderam salvar.

Além de se culpar pela morte  do menino, ela culpa Shakespeare pela sua ausência  e ambição.  O problema é  que o Shakespeare do filme nunca abandonou a família, ele esteve sempre presente, provavelmente, mais do que a maioria dos pais da época.  Ele veio às pressas para dar suporte quando soube que Judith estava muito doente e que provavelmente não resistiria.  Ainda que o luto de Shakespeare não seja destacado quando se fala do filme, ele sofre tanto quanto Agnes e Paul Mescal foi muito competente em colocar esse sentimento de dor e culpa na sua  atuação.  Só que o luto de Shakespeare vira força criativa, se transforma  em Hamlet, peça que pode, sim, ter sido uma homenagem ao filho morto, já o de Agnes se torna ressentimento, depressão e uma raiva irracional pelo marido, que, lembremos, ela mesma empurrou para Londres.

Como o elemento mágico está presente o tempo inteiro no filme, é Hamnet quem causa a própria morte.  Embora  a mãe só apareça ensinando o ofício de bruxa para as filhas, reproduzindo papéis de gênero bem previsíveis, ele tem a visão.  Ele vê a morte  vindo buscar Judith e a engana.  Ela se salva, ele é ceifado.  O menino Jacobi Jupe é  uma das melhores coisas  do filme.  Ele é expressivo, atua muito bem, é fofinho e convence em todas as suas cenas.  Todas, inclusive na sua morte, que é doída,  suja, não é uma morte tranquila. É tudo muito horrível e triste.  Mais tarde, em uma feliz escolha, colocaram seu irmão  mais velho, Noah Jupe, como Hamlet  no teatro.  Eu achei parecido, reconheci que a paleta de cores da roupa da personagem era a mesma que o menino Hamnet usava quando seu pai o viu pela última vez, mas não imaginava que fossem irmãos.  A cena da morte de Hamlet no palco é um dos grandes momentos do filme, inclusive por libertar não somente a alma de Hamnet, mas seus pais do luto.  Imagino que se eu estivesse  no cinema, eu me debulharia em lágrimas ali.

Enfim, o que escrevi até agora foram os elogios.  O filme tem sua beleza, algumas tomadas são muito bonitas mesmo.  A abertura  com Agnes deitada em posição fetal na floresta, que é  como um grande útero materno, é muito linda  A despedida entre Shakespeare e Hamnet sem saber que não se voltariam a ver, também.  A casa vazia em contraste com o palco vazio ilustra a dor de ambos os pais.  A tomada final da morte de Hamlet é belíssima e tocante.  Posso estar sendo somente uma comentarista sem grande estofo, mas a direção de arte do filme e a fotografia me parecem muito boas.  Fora isso, Chloé Zhao é  uma grande diretora e mesmo dentro do mundinho machista da categoria melhor direção, ela está entre as sete mulheres indicadas em quase cem anos, no caso dela duas vezes, e entre as três que venceram na categoria (*uma delas sem merecer, mas eu não vou perder meu tempo com isso, pois já comentei quando aconteceu.*).  Suas qualidades estão mais que reconhecidas, portanto.  E, agora, vamos para as pedradas, porque eu tenho muitas.  

Enfim, na construção de Agnes, que passa a ser elemento fundamental para a carreira do marido, temos todos os clichês possíveis sobre a mulher-bruxa.  A floresta, a atitude independente, o cabelo solto e descoberto para mostrar que ela era livre.  Em um momento de intolerância religiosa, ela  não tem pudor nenhum em mostrar que não é cristã ao recusar, quando acredita que a bebê Judith nasceu morta, que a menina não foi para o céu e admitir que nunca diria uma oração sequer na igreja, que ela se refere como dos parentes e não sua.  Embora o Período Elisabetano (1558-1603) não seja particularmente lembrado pela caça às bruxas, elas  aconteceram e se intensificaram a partir de 1563, isto é, mais ou menos no período do filme.  Isso é mostrado na 2ª Temporada de A Discovery of Witches (*Resenhas: 1 - 2*).  Logo, ser vista como bruxa, se admitir bruxa, dizer blasfêmias na frente da parteira não era bem uma boa ideia.

Falando em parteira.  A primeira filha de Agnnes nasce na floresta, é o lugar mágico, a simbologia grita desde o início.  Ela teve a criança sozinha em seu ambiente seguro.  Já os gêmeos nascem em casa.  Há uma chuva  torrencial e a sogra a obriga a ficar em casa usando da força.  Daí temos um problema, a parteira quer  manter Agnes deitada e ainda a epreende por estar gritando.  Essa posição não era comum, as mulheres se movimentavam durante o parto e, quando chegava a hora, sentavam-se em uma cadeira de parto.  Quando Hamnet nasce, ela está na cama, só não está deitada de costas porque resistiu. Depois, quando percebem que são gêmeos, a colocam em uma cadeira de parto.  Para piorar essa sequência do parto, ambas as crianças nascem limpinhas.  No caso de Hamnet, que vemos sair de debaixo das saias da mãe, não há sangue nem cordão umbilical.  Eu parei a película para respirar, porque não dá  um negócio desses.  Um filme desse nível não poderia cometer esse tipo de deslize.

É ruim, ainda que,nesta parte, a cena de Agnes com a sogra e as lembranças da mãe morta sejam boas, assim como o desespero de pensar que a menina está morta e a confusão da protagonista com o fato de ter três crianças.  Muito bem, mas já que falei da mãe de Agnes, ela emerge da floresta tal e qual saída de algum daqueles filmes ruins sobre romanos na Bretanha, Rei Arthur moderninho ou os pictos de rosto pintado.  Seu cabelo semidesgrenhado e com umas transcinhas na frente (*penteado típico desses materiais que citei*), vestindo uma túnica de tecido grosseiro e sem mangas.  E segue assim nas suas poucas cenas.  Imagine  aquele período, o frio, pense agora em uma mulher usando regata, mostrando os braços o tempo inteiro?  Mas figurino é um dos pontos mais baixos do filme e não adianta a figurinista vir com o papo de que foi planejado.  

O figurino é ruim, indiscutivelmente ruim.  E  não estou pedindo fidelidade impossível, porque não se trata de uma reconstituição de roupas da época, mas o figurino tem que ser verossímil ou explicar-se.  A figurinista, no link que coloquei acima, tenta explicar a paleta de cores das roupas das protagonista e falha a meu ver.  Agnes usa vermelho durante boa parte do filme, a impressão é que ela só tem um vestido, que se desbota  um pouco, mas não rasga.  Só quando ela está grávida dos gêmeos é que fica evidente que é um vestido vermelho, mas é outro.  Quando se casa, usa branco.  Branco não era cor de vestido de noiva antes do século XIX.  Era uma cor excepcional.  E o vestido de noiva era uma roupa especial, nova ou mais vistosa, e deveria ser usado depois.  Isso valia até para gente rica.  Não vamos rever o vestido branco de Agnes.

Depois que Hamnet morre, ela passa a usar degradê de marrom, não usa preto em nenhum momento.  As cores das roupas das meninas ficam mais fechadas, também, e elas começam a cobrir a cabeça, talvez, para marcar  a passagem do tempo, afinal, entre a morte de Hamnet e a peça Hamlet se passam quatro anos.  Já quando vai para Londres tomar satisfação com o marido por causa da peça, que ela acredita explorar  a morte do filho, afinal, o filme nos explica no início que Hamnet e Hamlet eram o mesmo nome com rafias diferentes, ela volta  ao vermelho.  Em Londres, a quase totalidade dos homens e mulheres está de cabeça coberta, menos Agnes, que, com mais de 40 anos, ainda anda de cabelo solto, e Barthlomew (Joe Alwyn), o irmão fofo dela.  O irmão, aliás, está com o gibão completamente abotoado, o que era o normal, assim como todos os homens que aparecem em Londres.  No campo, ele andava mostrando a roupa íntima, mas Shakespeare é pior.

Shkesperare só tinha 18 anos no início da história, o correto seria colocarem o ator sem barba, para marcar sua juventude.  A barba poderia indicar  a passagem do tempo.  Paul Mescal aparenta a mesma idade  do início ao fim da película, mesmo se passando mais de 15 anos.  Como ele e Jessie Buckley tem mais ou menos a mesma idade, não parece que existe uma diferença de 8 anos entre eles.  E não gostei do primeiro encontro dos dois.  Posso admitir que existe o elemento mágico, o destino, seja lá o que for, mas eles se beijarem antes de saber até o  nome ficou estranho.  Mas era de figurino que eu estava falando, não é?  A paleta do filme é aquela monotonia do que alguém chamou de Hollywood medieval palette e para  os britânicos e norte-americanos, o Período Tudor (1485-1603) é Idade Média ou um momento de transição.  Mesmo as cores mais vibrantes ou pastéis, quando aparecem, precisam se mostrar sujas e fechadas.  

Shakespeare fica desfilando, seja  Stratford-upon-Avon ou em Londres, com o gibão aberto, às vezes só com a camisa de baixo mesmo, que na maioria das vezes não é branca, e com as mangas dobradas.  Imagina ele sendo professor em uma casa de família remediada e andando assim ou em Londres?  Porque ele conhece Agnes quando está dando aulas de latim para os meio-irmãos dela como forma de pagar dívidas do pai, que é fabricante de luvas.  E, em boa parte do filme, Shakespeare está com um machucado na cabeça, deve ser onde o pai batia sempre.  Depois que se revolta com o pai, o velho desaparece.  A gente nem o vê pela casa.  Só sabemos que ele morreu por causa da cena da madrasta fofoqueira de Agnes.  Aliás, essa, os meio-irmãos de Agnes e os irmãos de Shakespeare, mesmo o que era bem novinho, desaparecem.  Só sobra mesmo a irmã de Shakespeare que deve ter ficado solteirona, nem que seja somente no filme.

E eu não posso esquecer!  Quando Judith fica doente, e todo mundo sabe que é peste bubônica, deixam Hamnet ficar perto da irmã.  Quando alguém adoecia, o norma era separar os doentes.  Quem ficasse cuidando deles, porque alguém precisava fazer isso, ou já tinha tido a doença ou era alguém que estava disposto a arriscar sua vida.  A peste é tratada no filme como algo terrível e ninguém se importa em tentar impedir que ela se transmita dentro de casa, por outro lado, criança chegar perto de gente morta, ou a mãe segurar filho natimorto parece o fim do mundo.  Muito sem noção mesmo.  E nem atrapalharia o argumento, porque bastaria que o jovem Hamnet se esgueirasse para  perto da irmã quando ninguém estivesse por perto.  O que, aliás, foi o que ele fez mesmo.

Como o filme redime Shakespeare de tudo, tornando-o marido apaixonado e pai exemplar, ainda temos o choque de Agnes quando vê que, mesmo tendo comprado uma casa muito grande e confortável para a família, ele mora em um sótão arrumadinho, mas bem pequeno.  Assim, Agnes é a protagonista, mas o filme faz um grande trabalho de redenção de Shakespeare.  Se o filme tivesse me tocado de verdade, eu até iria ver o que está no livro, mas confesso que não me pegou.

Hamnet não funcionou comigo como filme histórico.  Funcionou como um relato sobre o luto, mas poderia estar em outro momento da História, em um universo alternativo, em qualquer outro lugar.  Ele não me fez mergulhar no período que busca retratar.  Mais ainda, a história da bruxaria, o figurino, a paleta de cores terminam por me passar um ar de falsidade ou falta de pesquisa histórica.  Mas é aquilo, para uma mulher ser forte, destemida, sábia, convencionou-se que ela deveria ser bruxa mesmo que o seu provável destino fosse a morte, caso houvesse alguma coerência.  De resto, ontem o Dalenogare disse que Hamnet poderia derrotar fácil Anora, se tivesse saído no ano passado.  Olha, acho que a maioria dos concorrentes do ano passado mereceriam ganhar de Anora.  Aliás, Anora será esquecido como tantos outros filmes medianos e/ou ruins que já levaram várias estatuetas.  Talvez o destino de Hamnet também seja esse, a não ser, claro, que algo fora do previsto aconteça hoje.

quarta-feira, 11 de março de 2026

O que ‘Bridgerton’ entende errado sobre espartilhos (Artigo Traduzido)

Não sei por qual motivo esse artigo antigo apareceu para mim, mas ele não é ruim, na medida em que coloca no lugar algumas questões importantes e ainda explica a cena do espartilho em E O Vento Levou, mesmo que perca de vista que Scarlett não faz aquilo por ser jovem e solteira, mas por ser tremendamente vaidosa, algo que ela leva ao longo do livro e que está no filme.  De resto, é sempre aquela coisa festiva de que as mulheres não seriam bobas de usar uma coisa incômoda, quando práticas detestáveis nos são impostas e reforçadas o tempo inteiro, inclusive o sutiã.  Eu fui obrigada a usá-lo a partir dos dez anos e me acostumei.  E olha que o texto tem até a defesa do espartilho pelo costume.  Uma criança não escolhe e uma mulher que quisesse parecer decente ou precisasse parecer aceitável, porque poderia ser punida por pai, mãe, marido etc.  também não.  A graça é acreditar que temos tanta liberdade, quando convém, claro, pois volta e meia é essa história de espartilho que é trazida para a discussão.  Queria ver esse mesmo raciocínio usado para as mulheres girafas, os pés de lótus chineses ou mesmo o hijab.  Você se acostuma, então, é normal.  E é mesmo, não é verdade?  De resto, as roupas íntimas de Bridgerton são abomináveis.  Não são práticas, não são bonitas, não são sensuais.  São somente ideias ruins.

Se quiserem ler o original, ele está aqui.  As imagens que consegui trazer para o post estão nos lugares de origem, mas havia dois carrosséis com várias fotos e não consegui colocar no blog. Iria dar muito trabalho.  Enfim, é isso, segue a tradução.

O que ‘Bridgerton’ entende errado sobre espartilhos

Os direitos das mulheres eram severamente restringidos na Inglaterra do século XIX, mas suas roupas íntimas não eram as culpadas

Rachel Kaufman - Colaboradora

A representação de espartilhos no episódio de estreia de "Bridgerton" é mais um exemplo da mesma mitificação presente na cultura popular. Captura de tela via Netflix

Na cena de abertura do sensual drama de época da Netflix, "Bridgerton", Prudence Featherington, uma das filhas solteiras da ambiciosa Lady Featherington, está se vestindo para ser apresentada à rainha da Inglaterra. Prudence se curva, ofegante, enquanto uma criada aperta ainda mais os laços de seu espartilho.

"Eu conseguia espremer minha cintura até o tamanho de uma laranja e meia quando tinha a idade de Prudence", diz Lady Featherington.

Muitos filmes, tanto históricos quanto fantásticos, têm uma cena semelhante. Pense em Scarlett O'Hara, de "E o Vento Levou", agarrando-se desesperadamente a um poste da cama; Elizabeth Swann, em "Piratas do Caribe", com o espartilho tão apertado que mal consegue respirar; Rose, em "Titanic", em uma cena quase idêntica; Emma Watson, interpretando Bela na versão live-action da Disney de "A Bela e a Fera", declarando que sua personagem é independente demais para usar um espartilho.

Outro elemento compartilhado por algumas dessas cenas, entre muitas outras? Nenhuma das personagens que sofrem com a dor tem controle sobre a própria vida; em cada cena, uma figura de autoridade (as mães de Prudence e Rose, o pai de Elizabeth) diz a elas o que devem fazer. É uma metáfora bastante óbvia, afirma Alden O'Brien, curador de figurinos e têxteis do Museu das Filhas da Revolução Americana em Washington, D.C.

“Ter uma cena em que elas dizem ‘mais apertado, mais apertado’ é obviamente uma representação dos papéis restritos das mulheres na sociedade”, diz O’Brien.

O problema é que quase todas essas representações são exageradas ou simplesmente erradas. Isso não significa que Shonda Rhimes, criadora de "Bridgerton", tenha errado em sua representação dos direitos das mulheres no início do século XIX, durante o período da Regência — de fato, eles eram severamente restringidos, mas a culpa não era das roupas íntimas.

"Não se trata tanto do espartilho em si, mas sim da psicologia da cena", afirma Kass McGann, historiadora da moda que já prestou consultoria para museus, programas de TV e produções teatrais ao redor do mundo, e que fundou e é proprietária do blog e loja de figurinos históricos Reconstructing History, em um e-mail.

Ao longo de quatro séculos de inúmeras mudanças na moda, as roupas íntimas femininas passaram por grandes variações em nome, estilo e formato. Mas para aqueles cuja compreensão de dramas de época se baseia unicamente em séries e filmes como "Bridgerton", essas diferentes peças são erroneamente agrupadas sob o rótulo de espartilho.

Se definirmos um espartilho como “uma peça de roupa íntima estruturada para o torso feminino”, diz Hilary Davidson, historiadora da moda e autora de *Dress in the Age of Jane Austen*, os primeiros espartilhos surgiram no século XVI como resposta à moda feminina, que se tornava mais rígida e “geométrica”. O espartilho, reforçado com barbatanas de baleia, junco ou até mesmo madeira, de fato moldava o corpo feminino no formato de cone invertido que estava na moda, mas as mulheres não necessariamente apertavam seus espartilhos o suficiente para alcançar esse formato. Em vez disso, usavam enchimentos ou aros para dar a impressão de uma cintura mais larga (algo semelhante aos enchimentos de quadril da era elisabetana), o que, por sua vez, fazia a cintura parecer mais fina.

Essa forma persistiu mais ou menos até o período da Regência, no início do século XIX, quando houve "todo tipo de invenção, mudança e experimentação" na moda, diz Davidson. Durante esse período de 20 anos, as mulheres tinham opções: podiam usar espartilhos, peças estruturadas com barbatanas que mais se assemelham à concepção atual de um corset; macacões, roupas íntimas muito macias e acolchoadas, mas ainda assim com boa sustentação; ou corsets, que ficavam em algum lugar entre os dois. O'Brien diz que os corsets do período da Regência eram feitos de algodão macio ("imagine um jeans azul, só que branco") com cordões de algodão mais rígidos para sustentação e, ocasionalmente, canais nas costas para as barbatanas e uma abertura na frente para um suporte de metal ou madeira chamado barbatana. (Lembre-se, porém, que esses suportes eram feitos sob medida para o corpo de cada pessoa e abraçavam suavemente suas curvas.) Eventualmente, o termo corset (do francês para "pequeno corpo") prevaleceu em inglês, e a forma se consolidou no formato de ampulheta que conhecemos hoje.

Mas, na verdade, essas peças íntimas eram apenas "peças de roupa normais", diz Davidson. As mulheres tinham uma variedade de opções, assim como as mulheres de hoje "têm um espectro de possibilidades, do sutiã esportivo ao Wonderbra". Aquelas que simplesmente ficavam em casa usavam seus espartilhos mais confortáveis, enquanto outras, que iam a um baile, poderiam "usar algo que desse uma silhueta mais elegante". Até mesmo as mulheres que trabalhavam usavam algum tipo de peça de roupa com amarração e sustentação como essas — desmentindo a ideia de que vestir um espartilho causava desmaios imediatamente. Para Davidson, o mito de que as mulheres "andavam por aí com essas coisas desconfortáveis ​​que não podiam tirar, por causa do patriarcado" é realmente irritante. "E elas aguentaram isso por 400 anos? As mulheres não são tão bobas", afirma.

Essas peças eram confortáveis, acrescenta Davidson, não apenas pelos padrões da época — as mulheres começaram a usar algum tipo de peça de roupa com espartilho e sustentação quando eram meninas, então já estavam acostumadas com elas na idade adulta — mas também pelos padrões modernos. O’Brien concorda: “Ter algo que desça mais pelo busto… eu realmente gostaria disso, porque distribuiria melhor o suporte.”

Na era vitoriana, após “Bridgerton”, os espartilhos evoluíram para um formato mais de ampulheta — o formato que muitas pessoas imaginam quando pensam em um espartilho desconfortável, que comprime os órgãos e deforma o corpo. Mas, novamente, as percepções modernas do passado moldam a forma como pensamos sobre essas peças íntimas. Davidson afirma que as saias eram maiores nessa época — “quanto mais larga a saia, menor a cintura parece”. Os museus costumam exibir espartilhos em manequins como se as bordas se encontrassem. Na realidade, eles provavelmente eram usados ​​com as bordas separadas por alguns centímetros, ou até mais folgadas, se a mulher assim desejasse.

McGann sugere que uma das razões pelas quais os espartilhos são associados à dor é porque as atrizes falam sobre o desconforto que sentem ao usar um espartilho inadequado para um papel. "Em muitos casos, os espartilhos não são feitos sob medida para a atriz, mas sim um espartilho de tamanho padrão é usado por conveniência", diz McGann. "Isso significa que elas estão usando espartilhos que não lhes servem adequadamente e, quando apertados demais, podem causar dor!"

Então, na era da Regência e em outros períodos, as mulheres apertavam os laços de seus espartilhos além do que era confortável — ou saudável — para conseguir uma cintura mais fina, de acordo com a moda? Claro, algumas faziam isso, quando queriam impressionar alguém (e, aliás, Davidson considera a cena do espartilho em "E o Vento Levou" muito precisa, já que Scarlett O'Hara é jovem, solteira e está tentando causar uma boa impressão). Em "Bridgerton", a insistência da socialite Lady Featherington em que suas filhas tenham cinturas finas parece igualmente lógica. Exceto que... na era da Regência, em que os vestidos caem a partir do busto, qual seria o sentido de ter uma cintura fina? "A ideia de apertar o espartilho ao máximo é completamente inútil... irrelevante para a moda", diz Davidson.

"Não há como aquele espartilho de época [afinar a cintura dela], e não é essa a intenção", acrescenta O'Brien.

Davidson tem outra ressalva em relação às escolhas de moda íntima de "Bridgerton" (pelo menos no primeiro episódio, que ela assistiu a pedido da revista Smithsonian). Os espartilhos e corpetes do período da Regência eram projetados menos para criar o decote que o público moderno considera atraente e mais para levantar e separar os seios como "dois globos redondos", diz Davidson. Ela acha os espartilhos de "Bridgerton" muito planos na frente.

Em uma entrevista para a Vogue, a figurinista de "Bridgerton", Ellen Mirojnick, explicou sua filosofia sobre as roupas da série: "Esta série é sexy, divertida e muito mais acessível do que um drama de época comum e contido, e é importante que a ousadia dos decotes reflita isso. Quando você vê um close, há muita pele à mostra. Exala beleza." Mas, segundo Davidson, “embora buscassem sensualidade, decote e máxima exposição, o corte das roupas, na verdade, achatava os seios de todas. Se tivessem voltado ao estilo de espartilho da Regência, o busto teria muito mais destaque. Seriam seios enormes.”

“Bridgerton”, no entanto, acerta em muitos aspectos sobre o status da mulher no início do século XIX. O casamento era uma das únicas opções para mulheres que não queriam morar com parentes pelo resto da vida, então o foco da série em encontrar “bons parceiros” no matrimônio é pertinente. Uma vez casada, a mulher se tornava legalmente propriedade do marido. Ela não podia assinar contratos ou fazer um testamento sem o consentimento dele.

Em meados do século XIX, as mulheres conquistaram avanços significativos em relação à propriedade de bens e ao divórcio. Contudo, foi somente em 1918 na Inglaterra e em 1920 nos Estados Unidos que (algumas) mulheres puderam votar. Por volta da mesma época, os espartilhos estavam saindo de moda, e muitos escritores da época viram uma conexão entre a libertação do espartilho e a libertação feminina.

Em "Bridgerton", jovens mulheres da era da Regência vestem espartilhos antes de serem apresentadas à Rainha Charlotte. Liam Daniel / Netflix

O'Brien afirma que, olhando para trás agora, essa conclusão não se sustenta. “Há muitos escritores dizendo: ‘Ah, somos muito mais libertadoras do que aquelas vitorianas terríveis, hipócritas e reprimidas, e nos livramos do espartilho.’ Bem, me desculpem, mas se vocês observarem as cintas modeladoras da década de 1920, elas faziam exatamente a mesma coisa: usavam roupas íntimas para criar a forma da moda da época”, o que, nos loucos anos 20, significava usar cintas elásticas e faixas para comprimir os seios para “reprimir completamente a forma natural da mulher”.

“A sociedade sempre tem um ideal de corpo que será impossível para muitas mulheres alcançarem, e cada mulher escolherá até onde ir na busca por esse ideal, e sempre haverá algumas que levam isso a um extremo que coloca suas vidas em risco”, acrescenta O’Brien.

O’Brien e Davidson esperam que as pessoas parem de pensar nos espartilhos como ferramentas opressoras do patriarcado ou como lembretes dolorosos da obsessão feminina pela moda. Essa atitude “tira a autonomia feminina”. O’Brien afirma: “Estamos deixando que os caprichos da moda nos dominem, em vez de escolhermos fazer algo a respeito”.

Usar um espartilho era “tão opressivo quanto usar um sutiã, e quem obriga as pessoas a usar sutiã de manhã?” (Algumas mulheres em 2021, depois de meses de reuniões por Zoom e trabalho remoto, podem estar se fazendo exatamente essa pergunta agora.) “Todas nós fazemos escolhas individuais”, diz Davidson, “sobre o quanto modificamos a nós mesmas e nossos corpos para nos encaixarmos nos grupos sociais em que vivemos”.

É mais fácil pensar em espartilhos como “estranhos, incomuns e do passado”, diz Davidson. Pensar em um espartilho como uma ferramenta opressiva do patriarcado antigo implica que nós, mulheres modernas, somos mais esclarecidas. Mas, acrescenta Davidson, “Não usamos espartilhos porque os internalizamos. Hoje em dia você pode usar o que quiser, mas por que toda a publicidade na internet diz ‘8 truques estranhos para uma cintura fina’? Nós fazemos Pilates.” Usar um espartilho exige muito menos suor e esforço do que fazer Pilates.”