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sábado, 27 de junho de 2026

The Other Bennet Sister terá um especial de Natal

The Other Bennet Sister, que ainda preciso terminar de assistir, é uma série muito simpática e centrada em Mary, a irmã Bennet mais desajeitada e apagada em Orgulho & Preconceito, de Jane Austen.  Muito bem, depois de uma série de 10 episódios, as personagens retornarão para um especial de Natal em três partes.  Segundo a BBC, a série fez um imenso sucesso no Reino Unido, no Canadá, nos EUA e nas redes sociais.  

Janice Hadlow, autora do romance The Other Bennet Sister, irá participar do roteiro, que será sobre o que acontece depois que Mary (Ella Bruccoleri) aceita se casar com Tom Hayward (Donal Finn).  Como a série foi muito bem executada, a gente simpatiza e torce por Mary e a ideia do especial é bem-vinda.  Fiz uma resenha dos primeiros episódios da série, ela está aqui.

domingo, 15 de março de 2026

Comentando Hamnet: A Vida Antes de Hamlet (Reino Unido/EUA/2025): Um tocante Retrato do Luto e uma Ficção Histórica Muito Deficiente.

Fui negligente e não assisti praticamente nenhum dos filmes do Oscar.  Decidi que tentaria ver pelo menos Hamnet, que em nosso  país recebeu o subtítulo de "A Vida Antes de Hamlet", porque um dos assuntos da temporada era como a interpretação de Jessie Buckley seria uma unanimidade, tanto que ninguém tem dúvidas de que o Oscar é dela.  Digo o seguinte: as interpretações são o forte do filme.  E não estou falando somente de Buckley, mas de Paul Mescal, que interpreta Shakespeare, e das crianças, em especial, o menino Jacobi Jupe, que faz Hamnet, o filho cuja morte destrói emocionalmente a família.  Também é louvável o retrato do luto de pais amorosos, porque no filme, ambos o são, mas ao pensar Hamnet como filme histórico, começo a ver nele tantos problemas que ele se apequena  aos meus olhos.  Não consigo evitar, mas explico ao longo da resenha.  Comecemos com o resumo, peguei o do Adoro Cinema mesmo: 

Em Hamnet: A Vida Antes de Hamlet, um dos mais importantes escritores do cânone ocidental William Shakespeare vive uma tragédia ao lado de sua esposa Agnes Shakespeare (Jessie Buckley) quando o casal perde seu filho de 11 anos para uma das várias pragas que assolaram o século XVI. Hamnet (Jacobi Jupe) era o nome do menino e, nessa história ficcional sobre a vida doméstica de Shakespeare (Paul Mescal), Agnes é a narradora e o ponto de vista fundamental da narrativa, demonstrando o luto que acompanha o fim precoce da vida do seu herdeiro. A trama rejeita a faceta inabalável e intocável de um gênio William Shakespeare, mas apresenta um artista que era influenciado, acima de tudo, pela sua vida diária. Explorando os temas da perda e da morte, Hamnet acompanha a rotina e o dia a dia de uma família, as alegrias e as tristezas de viver numa pequena vila na Inglaterra do passado e a história de amor poderosa que inspirou a criação da peça Hamlet.

Hamnet é  um filme construído praticamente em cima do que não sabemos, trata-se de ficção histórica, não de um filme histórico.  O que sabemos então?  O casamento do jovem William Shakespeare com Anne (Agnes) Hathaway é atípico.  Ele era  um jovem de 18 anos, ela uma mulher de 26 anos.  Ele um tanto jovem demais para se casar e ela um tanto passada da idade comum para um primeiro matrimônio.  E, não, em boa parte da Europa, pessoas comuns, aquelas que não eram de famílias reais ou da alta nobreza, não costumavam casar no início da puberdade na Idade Média e boa parte da Idade Moderna, mas 26 era tarde, sim.  Sabemos que Agnes casou-se grávida.  Estavam apaixonados?  Shakespeare foi pressionado a assumir o fruto de uma aventura?  Não sabemos.

Eles têm três filhos: Susanna (Bodhi Rae Breathnach), Hamnet e Judith (Olivia Lynes).  Ele parte  para  Londres.  Não sabemos se ele a visita com frequência ou não.  Se manda  dinheiro para ajudar no sustento da família.  Há a possibilidade  de Hamnet ter morrido de desnutrição e, não, de peste.  Certamente Shakespeare não estava presente quando da morte do menino, nem em seu funeral, porque estava muito longe, em Kent, em uma turnê teatral.  Há muita discussão sobre a sexualidade do autor.  Mesmo sem consenso, há grandes possibilidades de que ele fosse bissexual.  Nada incomum para uma época em que as  pessoas não se fechavam necessariamente nas mesmas gaiolas  de nossos dias.  Enfim, na  minha cabeça, Shakespeare sempre  foi pai e marido ausente.

Sobre a Agnes histórica sabemos muito pouco, ainda  que um retrato dela  de 1708 tenha sobrevivido e isso é bastante coisa para  alguém que não era nobre ou da alta burguesia.  A primeira é que no testamento de seu pai, um camponês abastado e que lhe deixou um bom dote, ela se chama Agnes, mas em todos os outros documentos ela aparece como Anne.  Não sabemos se ela sabia ler, menos ainda escrever, pois eram duas competências vistas como diferentes e meninas muitas vezes aprendiam somente a primeira, mas descobriram recentemente uma carta que lhe foi endereçada.  Mas até aí, alguém poderia ler a carta para ela.  Receber uma carta não tornava  ninguém no século XVI ou antes, ou ainda depois, obrigatoriamente alfabetizado. Esta carta  sugere ainda que Agnes chegou a morar com o marido em Londres entre 1600 e 1610.  Antes disso, o que tínhamos era a ideia de que ela poderia ter prendido o jovem Shakespeare a um casamento de obrigação (*com um volumoso dote... Sei...*), que  ele a deixara para trás e seguido em busca de uma carreira em Londres.

Mas Hamnet, o filme, é baseado em um livro e a autora, Maggie O'Farrell, quis transformar o casamento de Agnes e Shakespeare em uma história de amor.  Agnes foi tornada uma mulher sábia, independente e de uma linhagem de bruxas.  Shakespeare em filho tiranizado pelo pai que encontra nela acolhimento.  Ambos constroem uma família, mas ela, que apoia a carreira do marido, percebe que ele não está feliz e o autoriza e estimula a ir para Londres em busca de seu sonho.  Ele parte, mas retorna com frequência, mima os filhos, não abandona a esposa.  E, algo importante, ele quer que a família resida em Londres, mas Agnes resiste.

Bruxa que é, ela conhece ervas, ela tem visões, pressentimentos, e ela viu, ainda que em sombras, que teria dois filhos chorando no seu túmulo.  O problema é  que ela teve três crianças.  Como Judith, irmã gêmea de Hamnet quase morreu ao nascer e  tem uma saúde frágil, ela acredita que a vida no campo é mais segura  para menina.  E, sim, Londres era uma cidade insalubre, assim como a maioria das cidades da época e algumas até nossos dias.  Só que não é  Judith que a morte irá levar, mas Hamnet.  E não se trata de valorizar um filho mais que uma filha.  O tom do filme, porque o livro não li, não é esse, mas é a perda de uma criança que tem o efeito devastador.  Eu sou mãe, imaginar a perda da Júlia (*ou que eu parta e a deixe sozinha*) é um dos meus maiores medos.  Lembro de como uma das minhas tias-avós ficou devastada por meses e sofre ainda hoje pelo filho caçula que  morreu aos 13 anos.  Foi a primeira vez  que vi minha mãe chorando, essa tia  tinha idade de irmã  mais velha e é assim que minha mãe a vê até hoje.  Eu tinha 8 anos e não esqueço.  A casa da minha tia, sempre  iluminada, sempre  alegre, transformou-se em um mausoléu; os muitos brinquedos que ele tinha todos guardados.  Mamãe nos admoestando para não pedirmos para brincar com eles.  Cortinas fechadas, porque a janela dava para a rua onde  meu primo tinha sido atropelado de bicicleta.  A bicicleta que estava pequena e que seria dada para mim.  Eu nunca ganhei, nem nunca aprendi a andar de bicicleta; minha mãe ficou com pavor de bicicleta por anos.  Foi a primeira experiência de luto que eu vivi.

Logo, o luto que se abate sobre a família Shakespeare não é exagerado, ele é bem realista.  E  não procede uma ideia que foi disseminada pelo primeiro grande estudo histórico sobre a infância, o História Social da Criança e da Família do Philippe Ariès, de que os pais não sentiam a morte de um filho ou filha até os tempos da Revolução Industrial, que tanto fazia um pelo outro, que o luto era curto e muito mais para os olhos da sociedade.  Em alguns casos, talvez, mas há exemplos de sobra mesmo na sociedade europeia  do contrário, que se poderia sentir de forma diferente.  Obviamente, e isso o filme mostra muito bem, se poderia encarar a morte de uma criança, fato muito comum na época, como algo que fazia parte do cotidiano.

Uma das melhores personagens do filme, Mary (Emily Watson), mãe de Shakespeare, encara a morte de uma criança como uma fatalidade. Chora, lamenta, mas compreende que existem coisas que são inevitáveis, a morte faz parte do fluxo da vida, por assim dizer.  Ela também acolhe Agnes, depois de a rejeitar no início por ser bruxa, e se torna mais  mãe da nora do que a madrasta da protagonista.  Só que algo que parece muito forte no filme é que Agnes lamentava ter se enganado e acreditava ter se descuidado de Hamnet, porque cria que o menino tão saudável seria um dos filhos chorando em seu túmulo.  Seus conhecimentos e poderes de bruxa não o puderam salvar.

Além de se culpar pela morte  do menino, ela culpa Shakespeare pela sua ausência  e ambição.  O problema é  que o Shakespeare do filme nunca abandonou a família, ele esteve sempre presente, provavelmente, mais do que a maioria dos pais da época.  Ele veio às pressas para dar suporte quando soube que Judith estava muito doente e que provavelmente não resistiria.  Ainda que o luto de Shakespeare não seja destacado quando se fala do filme, ele sofre tanto quanto Agnes e Paul Mescal foi muito competente em colocar esse sentimento de dor e culpa na sua  atuação.  Só que o luto de Shakespeare vira força criativa, se transforma  em Hamlet, peça que pode, sim, ter sido uma homenagem ao filho morto, já o de Agnes se torna ressentimento, depressão e uma raiva irracional pelo marido, que, lembremos, ela mesma empurrou para Londres.

Como o elemento mágico está presente o tempo inteiro no filme, é Hamnet quem causa a própria morte.  Embora  a mãe só apareça ensinando o ofício de bruxa para as filhas, reproduzindo papéis de gênero bem previsíveis, ele tem a visão.  Ele vê a morte  vindo buscar Judith e a engana.  Ela se salva, ele é ceifado.  O menino Jacobi Jupe é  uma das melhores coisas  do filme.  Ele é expressivo, atua muito bem, é fofinho e convence em todas as suas cenas.  Todas, inclusive na sua morte, que é doída,  suja, não é uma morte tranquila. É tudo muito horrível e triste.  Mais tarde, em uma feliz escolha, colocaram seu irmão  mais velho, Noah Jupe, como Hamlet  no teatro.  Eu achei parecido, reconheci que a paleta de cores da roupa da personagem era a mesma que o menino Hamnet usava quando seu pai o viu pela última vez, mas não imaginava que fossem irmãos.  A cena da morte de Hamlet no palco é um dos grandes momentos do filme, inclusive por libertar não somente a alma de Hamnet, mas seus pais do luto.  Imagino que se eu estivesse  no cinema, eu me debulharia em lágrimas ali.

Enfim, o que escrevi até agora foram os elogios.  O filme tem sua beleza, algumas tomadas são muito bonitas mesmo.  A abertura  com Agnes deitada em posição fetal na floresta, que é  como um grande útero materno, é muito linda  A despedida entre Shakespeare e Hamnet sem saber que não se voltariam a ver, também.  A casa vazia em contraste com o palco vazio ilustra a dor de ambos os pais.  A tomada final da morte de Hamlet é belíssima e tocante.  Posso estar sendo somente uma comentarista sem grande estofo, mas a direção de arte do filme e a fotografia me parecem muito boas.  Fora isso, Chloé Zhao é  uma grande diretora e mesmo dentro do mundinho machista da categoria melhor direção, ela está entre as sete mulheres indicadas em quase cem anos, no caso dela duas vezes, e entre as três que venceram na categoria (*uma delas sem merecer, mas eu não vou perder meu tempo com isso, pois já comentei quando aconteceu.*).  Suas qualidades estão mais que reconhecidas, portanto.  E, agora, vamos para as pedradas, porque eu tenho muitas.  

Enfim, na construção de Agnes, que passa a ser elemento fundamental para a carreira do marido, temos todos os clichês possíveis sobre a mulher-bruxa.  A floresta, a atitude independente, o cabelo solto e descoberto para mostrar que ela era livre.  Em um momento de intolerância religiosa, ela  não tem pudor nenhum em mostrar que não é cristã ao recusar, quando acredita que a bebê Judith nasceu morta, que a menina não foi para o céu e admitir que nunca diria uma oração sequer na igreja, que ela se refere como dos parentes e não sua.  Embora o Período Elisabetano (1558-1603) não seja particularmente lembrado pela caça às bruxas, elas  aconteceram e se intensificaram a partir de 1563, isto é, mais ou menos no período do filme.  Isso é mostrado na 2ª Temporada de A Discovery of Witches (*Resenhas: 1 - 2*).  Logo, ser vista como bruxa, se admitir bruxa, dizer blasfêmias na frente da parteira não era bem uma boa ideia.

Falando em parteira.  A primeira filha de Agnnes nasce na floresta, é o lugar mágico, a simbologia grita desde o início.  Ela teve a criança sozinha em seu ambiente seguro.  Já os gêmeos nascem em casa.  Há uma chuva  torrencial e a sogra a obriga a ficar em casa usando da força.  Daí temos um problema, a parteira quer  manter Agnes deitada e ainda a epreende por estar gritando.  Essa posição não era comum, as mulheres se movimentavam durante o parto e, quando chegava a hora, sentavam-se em uma cadeira de parto.  Quando Hamnet nasce, ela está na cama, só não está deitada de costas porque resistiu. Depois, quando percebem que são gêmeos, a colocam em uma cadeira de parto.  Para piorar essa sequência do parto, ambas as crianças nascem limpinhas.  No caso de Hamnet, que vemos sair de debaixo das saias da mãe, não há sangue nem cordão umbilical.  Eu parei a película para respirar, porque não dá  um negócio desses.  Um filme desse nível não poderia cometer esse tipo de deslize.

É ruim, ainda que,nesta parte, a cena de Agnes com a sogra e as lembranças da mãe morta sejam boas, assim como o desespero de pensar que a menina está morta e a confusão da protagonista com o fato de ter três crianças.  Muito bem, mas já que falei da mãe de Agnes, ela emerge da floresta tal e qual saída de algum daqueles filmes ruins sobre romanos na Bretanha, Rei Arthur moderninho ou os pictos de rosto pintado.  Seu cabelo semidesgrenhado e com umas transcinhas na frente (*penteado típico desses materiais que citei*), vestindo uma túnica de tecido grosseiro e sem mangas.  E segue assim nas suas poucas cenas.  Imagine  aquele período, o frio, pense agora em uma mulher usando regata, mostrando os braços o tempo inteiro?  Mas figurino é um dos pontos mais baixos do filme e não adianta a figurinista vir com o papo de que foi planejado.  

O figurino é ruim, indiscutivelmente ruim.  E  não estou pedindo fidelidade impossível, porque não se trata de uma reconstituição de roupas da época, mas o figurino tem que ser verossímil ou explicar-se.  A figurinista, no link que coloquei acima, tenta explicar a paleta de cores das roupas das protagonista e falha a meu ver.  Agnes usa vermelho durante boa parte do filme, a impressão é que ela só tem um vestido, que se desbota  um pouco, mas não rasga.  Só quando ela está grávida dos gêmeos é que fica evidente que é um vestido vermelho, mas é outro.  Quando se casa, usa branco.  Branco não era cor de vestido de noiva antes do século XIX.  Era uma cor excepcional.  E o vestido de noiva era uma roupa especial, nova ou mais vistosa, e deveria ser usado depois.  Isso valia até para gente rica.  Não vamos rever o vestido branco de Agnes.

Depois que Hamnet morre, ela passa a usar degradê de marrom, não usa preto em nenhum momento.  As cores das roupas das meninas ficam mais fechadas, também, e elas começam a cobrir a cabeça, talvez, para marcar  a passagem do tempo, afinal, entre a morte de Hamnet e a peça Hamlet se passam quatro anos.  Já quando vai para Londres tomar satisfação com o marido por causa da peça, que ela acredita explorar  a morte do filho, afinal, o filme nos explica no início que Hamnet e Hamlet eram o mesmo nome com rafias diferentes, ela volta  ao vermelho.  Em Londres, a quase totalidade dos homens e mulheres está de cabeça coberta, menos Agnes, que, com mais de 40 anos, ainda anda de cabelo solto, e Barthlomew (Joe Alwyn), o irmão fofo dela.  O irmão, aliás, está com o gibão completamente abotoado, o que era o normal, assim como todos os homens que aparecem em Londres.  No campo, ele andava mostrando a roupa íntima, mas Shakespeare é pior.

Shkesperare só tinha 18 anos no início da história, o correto seria colocarem o ator sem barba, para marcar sua juventude.  A barba poderia indicar  a passagem do tempo.  Paul Mescal aparenta a mesma idade  do início ao fim da película, mesmo se passando mais de 15 anos.  Como ele e Jessie Buckley tem mais ou menos a mesma idade, não parece que existe uma diferença de 8 anos entre eles.  E não gostei do primeiro encontro dos dois.  Posso admitir que existe o elemento mágico, o destino, seja lá o que for, mas eles se beijarem antes de saber até o  nome ficou estranho.  Mas era de figurino que eu estava falando, não é?  A paleta do filme é aquela monotonia do que alguém chamou de Hollywood medieval palette e para  os britânicos e norte-americanos, o Período Tudor (1485-1603) é Idade Média ou um momento de transição.  Mesmo as cores mais vibrantes ou pastéis, quando aparecem, precisam se mostrar sujas e fechadas.  

Shakespeare fica desfilando, seja  Stratford-upon-Avon ou em Londres, com o gibão aberto, às vezes só com a camisa de baixo mesmo, que na maioria das vezes não é branca, e com as mangas dobradas.  Imagina ele sendo professor em uma casa de família remediada e andando assim ou em Londres?  Porque ele conhece Agnes quando está dando aulas de latim para os meio-irmãos dela como forma de pagar dívidas do pai, que é fabricante de luvas.  E, em boa parte do filme, Shakespeare está com um machucado na cabeça, deve ser onde o pai batia sempre.  Depois que se revolta com o pai, o velho desaparece.  A gente nem o vê pela casa.  Só sabemos que ele morreu por causa da cena da madrasta fofoqueira de Agnes.  Aliás, essa, os meio-irmãos de Agnes e os irmãos de Shakespeare, mesmo o que era bem novinho, desaparecem.  Só sobra mesmo a irmã de Shakespeare que deve ter ficado solteirona, nem que seja somente no filme.

E eu não posso esquecer!  Quando Judith fica doente, e todo mundo sabe que é peste bubônica, deixam Hamnet ficar perto da irmã.  Quando alguém adoecia, o norma era separar os doentes.  Quem ficasse cuidando deles, porque alguém precisava fazer isso, ou já tinha tido a doença ou era alguém que estava disposto a arriscar sua vida.  A peste é tratada no filme como algo terrível e ninguém se importa em tentar impedir que ela se transmita dentro de casa, por outro lado, criança chegar perto de gente morta, ou a mãe segurar filho natimorto parece o fim do mundo.  Muito sem noção mesmo.  E nem atrapalharia o argumento, porque bastaria que o jovem Hamnet se esgueirasse para  perto da irmã quando ninguém estivesse por perto.  O que, aliás, foi o que ele fez mesmo.

Como o filme redime Shakespeare de tudo, tornando-o marido apaixonado e pai exemplar, ainda temos o choque de Agnes quando vê que, mesmo tendo comprado uma casa muito grande e confortável para a família, ele mora em um sótão arrumadinho, mas bem pequeno.  Assim, Agnes é a protagonista, mas o filme faz um grande trabalho de redenção de Shakespeare.  Se o filme tivesse me tocado de verdade, eu até iria ver o que está no livro, mas confesso que não me pegou.

Hamnet não funcionou comigo como filme histórico.  Funcionou como um relato sobre o luto, mas poderia estar em outro momento da História, em um universo alternativo, em qualquer outro lugar.  Ele não me fez mergulhar no período que busca retratar.  Mais ainda, a história da bruxaria, o figurino, a paleta de cores terminam por me passar um ar de falsidade ou falta de pesquisa histórica.  Mas é aquilo, para uma mulher ser forte, destemida, sábia, convencionou-se que ela deveria ser bruxa mesmo que o seu provável destino fosse a morte, caso houvesse alguma coerência.  De resto, ontem o Dalenogare disse que Hamnet poderia derrotar fácil Anora, se tivesse saído no ano passado.  Olha, acho que a maioria dos concorrentes do ano passado mereceriam ganhar de Anora.  Aliás, Anora será esquecido como tantos outros filmes medianos e/ou ruins que já levaram várias estatuetas.  Talvez o destino de Hamnet também seja esse, a não ser, claro, que algo fora do previsto aconteça hoje.

quinta-feira, 5 de março de 2026

The Other Bennet Sister, uma das séries comemorativas dos 250 anos de nascimento de Jane Austen, estreia este mês

The Other Bennet Sister, nova série da BBC baseada no romance de Janice Hadlow, estreia no dia 15 de março.  A sinopse da série, que terá 10 episódios, é a seguinte: "The Other Bennet Sister oferece uma nova perspectiva sobre uma das personagens mais discretas de Jane Austen: Mary Bennet. Obrigada a sair da sombra das irmãs, Mary embarca em uma jornada de autodescoberta – encontrando o amor e, principalmente, a si mesma ao longo do caminho."  Mary Bennet será interpretada por Ella Bruccoleri.  A série estará disponível na BBC ONE e no serviço BBC iPlayer.  O último trailer veio em formato vertical e no formato normal.  Ele está abaixo.

terça-feira, 27 de janeiro de 2026

O Agente Secreto Marca presença no BAFTA

O Agente Secreto, o filme sensação do Brasil em 2025, recebeu duas indicações ao BAFTA (The British Academy Film Awards), um dos prêmios cinematográficos mais importantes do mundo. Filme foi indicado ao prêmio de melhor roteiro original e melhor filme em língua não-inglesa. As duas indicações para O Agente Secreto no Bafta, mesmo com uma distribuição deficiente no Reino Unido. Aliás, foi assim como Ainda Estou Aqui no ano passado. A Mubi deixou muito a desejar e decidiu focar seus esforços em Valior Sentimental.  Por conta disso, Wagner Moura sequer apareceu na pré-lista para melhor ator.  As distribuidora nos Estados Unidos é diferente.

Outra indicação brasileira foi o documentário Apocalipse nos Trópicos.  Não gostei do novo trabalho de Petra Costa, verdade, mas ele recebeu vários prêmios importantes e foi lembrado no BAFTA, apesar de ficar fora do Oscar.   Outro indicado brasileiro foi Adolpho Veloso para Melhor Fotografia, por seu trabalho em Sonhos de Trem.  A cerimônia do BAFTA acontece no dia 22 de fevereiro e pode funcionar como uma prévia do Oscar, porque há muitos eleitores em comum.  A lista completa dos  indicados pode ser vista aqui.

domingo, 21 de dezembro de 2025

Comentando Northanger Abbey (BBC/1987): a adaptação mais estranha já feita para uma obra de Jane Austen

Northanger Abbey recebeu sua primeira adaptação em 1987 e, assim como em 2007, foi um filme para TV.  Filmes televisivos podem ser muito bem executados, por exemplo, minha versão favorita de Emma é  um filme para TV, assim como considero Persuasão/1995 primoroso e está na mesma categoria.  Obviamente, se é um filme, muita coisa pode ficar de fora e a gente termina a experiência de assisti-lo pensando que mais dez minutinhos poderiam ter feito alguma diferença.  Estabelecido isso, não sei muito bem como definir esse Northanger Abbey, talvez, tenha sido o material adaptando Jane Austen mais estranho que eu já vi e eu resisti muito em assistir, porque é um negócio que parece gritar o que há de pior nos anos 1980.  Eu cresci nessa década e não sinto falta da estética do período, não.  Antes de começar, porém, segue um resumo: 

Catherine Morland (Katharine Schlesinger) é uma entre dez irmãos e fascinada por romances góticos.  Para ela, é difícil separar realidade de fantasia.  Logo no início da história, ela tem a oportunidade de se hospedar com o Mr. e a Mrs. Allen (Geoffrey Chater e Googie Withers), seus vizinhos abastados e sem filhos, em Bath, a cidade balneária mais importante da Inglaterra.  Lá ela espera viver uma aventura como as que lê nos seus romances. Em Bath, ela é apresentada à alta sociedade e conhece Isabella Thorpe (Cassie Stuart) e seu irmão John (Jonathan Coy), filhos de uma amiga da Mrs. Allen dos tempos de escola.  Mais tarde, Catherine descobre que Isabella está  noiva de seu irmão, James (Philip Bird), e que ele e John são muito amigos.  Em seu primeiro baile em Bath, Catherine conhece Henry Tilney (Peter Firth), um jovem bonito de família abastada, muito gentil, bem-humorado e que entende de mussellina (*um tipo de tecido de algodão*). Ela se apaixona por ele logo nesse primeiro contato.  Quando voltam a se encontrar, Henry flerta com Catherine, só que ela está sendo assediada por John Thorpe, que decide criar situações para atrapalhar um possível romance entre os dois, porque ele a quer para si.  Para conseguir Catherine, ele conta com a ajuda de sua irmã, que se tornou amiga da heroína e compartilha sua paixão pela literatura gótica sensacionalista.  

Henry apresenta Catherine a sua irmã, Eleanor (Ingrid Lacey), que simpatiza com a jovem, apesar de ela ser muito pouco refinada, se comparada com ela e o irmão. Catherine também conhece o irmão mais velho de Henry e Eleanor, Frederick (Greg Hicks), um militar mulherengo que termina por se envolver com Isabella, que vê no jovem oficial um marido mais interessante do que James.  Como o pai de Henry está interessado em saber mais sobre Catherine, John Thorpe inventa que a  mocinha é herdeira dos Allen e que eles são mais ricos do que parecem.  Por conta disso, o pai de Henry, o autoritário General Tilney (Robert Hardy), convida a jovem a visitar a  Abadia de Northanger.  E a pobre Catherine começa a delirar com os possíveis mistérios e segredos do lugar e se  consumir de curiosidade sobre a morte da mãe de Henry.  Sua curiosidade, no entanto, termina por causar certa decepção ao rapaz, o que a leva ao desespero.  Além disso, o que fará o General quando descobrir que a jovem não é rica como ele imagina?

Northanger Abbey é um dos romances menos lembrados de Jane Austen; isso justifica, inclusive, as pouquíssimas adaptações.  Escrito por volta de 1798-1799, ele parece ter sido menos revisado do que outras obras da autora, como Razão e Sensibilidade (Elinor e Marianne) e Orgulho & Preconceito (Primeiras Impressões),  que tiveram seus primeiros rascunhos feitos na mesma época.  Northanger Abbey deveria se chamar Susan, o primeiro nome escolhido para Catherine, e foi vendido para um editor em 1803.  Nunca publicado, foi comprado de volta em 1816, quando a saúde da escritora já estava declinando.  Austen tentou aprimorar o texto, que foi publicado junto com Persuasão, seu último romance completo, em 1817.  Imagino que ter que se dividir doente entre as duas obras, uma delas o seu romance mais  maduro e denso, tenha cooperado para que Northanger Abbey ficasse em segundo plano.  Por isso, mesmo com as modificações, os especialistas em Jane Austen, coisa que eu estou longe de ser, apontam que o livro, uma paródia dos romances góticos, muitos deles escritos por mulheres e que faziam muito sucesso na época, é bem irregular em comparação com outras obras da autora.

Como pontuei no início da resenha, esse filme me causa certo incômodo.  Sempre que lia resenhas sobre ele, elas eram extremamente desfavoráveis, para usar uma gíria que parece estar na moda, parecia o vale da estranheza entre as adaptações de Jane Austen, especialmente, se levamos em conta a qualidade de Orgulho & Preconceito/1980.  Não é ruim nos moldes de Persuasão da Netflix, aquilo é feito para (*supostamente*) agradar às novas gerações de fãs, que são subestimados em sua inteligência por gente da minha geração e mais  nova um pouco que acha que compreende seus gostos.  Agora, esse Northanger Abbey tem os pés firmes no texto de Jane Austen, mas tem um ar meio trash e é perturbador na criação das cenas dos delírios de Catherine, que sempre se remetem à ideia de estupro com a mocinha fantasiando com TODO e QUALQUER homem que lhe apareça pela frente, inclusive o General Tilney.  

Como assisti em seguida ao filme de 2007, e recomendo a leitura dessa outra resenha antes, a minha impressão é que o Andrew Davies, que estava bem inspirado naquela época, pegou o que o filme de 1987 inventou e pensou assim "Vou mostrar como se  faz.  Vou pegar essa feiúra toda e transformar em um espetáculo que pareça realmente elegante."  E mais, eu nunca vi um elenco tão feio colocado em um filme, nem algumas crianças escapam.  E mesmo quem não era feio, caso da atriz que faz Eleanor, Ingrid Lacey, parece que foi enfeiada para a película.  Sério, é  um desastre nesse aspecto.  Katharine Schlesinger, por exemplo, ainda tem uns olhos enormes, sempre vidrados, que parecem sugerir algum transtorno.  E mais, o Peter Firth não é o irmão mais velho feio do Colin Firth, eles não são parentes.  O Firth desse filme é  só feio mesmo e aparentando ser mais velho do que era, mas a voz dele é agradável.  Se junto com o conjunto ainda tivesse uma voz desagradável, seria o fim da picada.

Vou adiantar uma discussão que geralmente coloco mais para o final das minhas resenhas, porque acredito que seja importante para dar o tom do filme: o figurino.  Esse Northanger Abbey está colocado na década de 1790.  Não vemos em tela aquilo que identificamos como moda Regência da maioria das produções austenianas e acredito mesmo que muitas das roupas que foram utilizadas devam ter sido tomadas emprestadas de outras produções e minha principal aposta é The Scarlet Pimpernel de 1982.  Especialmente, as masculinas.  As roupas masculinas desse período, as usadas pelos homens que queriam estar na última moda, eram bem arrojadas e John Thorpe é quem melhor encarna essa moda um tanto extravagante. 

No geral, o visual me passa uma impressão de decadência, talvez a ideia seja essa mesmo e encontrei um artigo que me fez refletir sobre isso.  Bath, conhecido pelas suas águas medicinais, é um lugar de excessos, de luxo desmedido e de gente que quer ser elegante, mas que somente consegue ser ridícula.  Olhar para essa parte em Bath me lembra as caricaturas britânicas que satirizavam as damas e cavalheiros da época e seus hábitos extravagantes. Como se fosse uma espécie de crítica à decadência moral da sociedade da época, ainda sob o impacto da Revolução Francesa.  E é a moda masculina na série que melhor aponta para  isso.  Os mais velhos se vestem como no Antigo Regime, usando perucas,  e as roupas  ainda coloridas das cortes europeias do século XIX.  Jovens como Thorpe e James usam casacas com lapelas enormes e chapéus que parecem uma pré-cartola.  Não sei se Thorpe poderia ser chamado de fop, mas ele  parece estar no limite.  

Um fop era um homem elegante e obcecado por estar na última moda.  Thorpe é tudo isso, mas é um alpinista social e não consegue ser elegante de verdade, nem galante com as mulheres; ele somente quer parecer ser, porque, bem, ele está lutando para subir na vida e é um exibido.   E temos Mr. Tilney que, inclusive por conta da sua profissão, que nem é dita, ele é pastor, já está com os dois pés  firmes no século XIX e se veste com elegância e sobriedade.  Um homem dos novos tempos.  É na boca de Tilney que o roteiro coloca que eles, os ingleses, são civilizados em contraposição aos que são primitivos e violentos.  Ele está incluindo os franceses nesse grupo, afinal, ele deplora os revolucionários jacobinos.  Exatamente por isso, me pergunto se o filme não está nos sugerindo que a história deva ser situada depois de 1794, o que a forma dos vestidos das mulheres sugere, aliás.  Enfim, temos três figurinos bem marcados para os homens.  Os jovens abandonaram as perucas, salvo pelo Capitão Tilney, o irmão de Henry, porque fazia parte  do uniforme mesmo.

As roupas das mulheres e seus cabelos são do final da década de 1790.  Sem nuances nesse caso.  Cinturas altas, decotes profundos para mulheres jovens e nem tanto.  Catherine pode eventualmente aparecer com roupas mais ingênuas, por assim dizer, mas é uma escolha de figurino para marcar a personalidade da mocinha em contraposição com o ambiente excessivo e com Isabella, sua falsa amiga, que entra em cena já vestida de vermelho berrante da cabeça aos pés e é identificada imediatamente pelo Henry do filme como uma  mulher de moral um tanto frouxa.  A maquiagem é  forte e é  muito mais coisa dos anos 1980 do que de 1790.  Exceção para uma personagem inventada para o filme, Marquesa Thierry (Elaine Ives-Cameron), uma amiga do General Tilney e sua informante das fofocas da sociedade.  Ela é francesa, fugiu da revolução e usa uma maquiagem aos moldes da corte francesa que não existe mais.  Ela é uma relíquia de um passado destruído pela revolução e mais um elemento para reforçar a atmosfera gótica, quase uma vampira.  

A segunda metade da década de 1790 meio que libertou os cabelos das mulheres, depois de séculos de contenção, e o cabelo solto e esculpido para parecer natural ou um pouco selvagem faziam parte das mudanças revolucionárias.  Então, as mulheres estarem em sua maioria com cabelos soltos não está errado, o problema, e isso é gritante no caso da mocinha, é o fato de algumas delas estarem com cortes dos anos 1980.  Katharine Schlesinger usa mullets, além de uns penteados muito feios mesmo.  Assim, pegaram a década de 1790 e cruzaram com o que havia de pior nos anos 1980.  O resultado é, como pontuei lá em cima, um tanto perturbador.

Me estiquei muito nessa parte, eu sei, acho que já teve gente que largou o texto e foi embora.  Enfim, esta versão de Northanger Abbey faz questão de colocar o quanto Catherine é ignorante.  Ela não sabe pintar, desenhar, ela não fala outras línguas, ela só lê romances, porque não há ninguém que oriente os seus estudos.  E ela é muito sincera em admitir suas limitações, ainda que a crítica que Austen faz no livro às famílias grandes não esteja no filme, porque havia a chance de colocar, mais que na película de 2007.  No original, a família de Catherine não pode investir na educação da filha e ela, como a mais velha entre as meninas, é obrigada a cuidar dos menores.  Esse tipo de exploração das meninas é comum em famílias grandes até os dias de hoje.

O Mr. Tilney desse filme é atencioso com Catherine, mas é irritantemente debochado.  Ele a corrige e é complacente com a protagonista.  Tilney elogia os romances, mas lhe alerta que não se deve misturar realidade com ficção.  A relação é muito mais desigual e de tutela do que no filme de 2007, que amenizou o livro; o filme de 1987 potencializa esse lado da personagem. E a adaptação não traz uma frase importante de Tilney que serve para desculpá-lo um pouco: "(...) Pense em quantos anos eu tive a vantagem sobre você. Eu já havia começado meus estudos em Oxford, enquanto você era uma boa menina fazendo seu bordado em casa!" ("(...) Consider how many years I have had the start of you. I had entered on my studies at Oxford, while you were a good little girl working your sampler at home!”).  A diferença entre eles é de 8 anos.  Se colocassem dizendo isso, toda a atitude dele corrigindo e debochando de Catherine seria muito amenizada.

Ainda sobre Mr. Tilney, Henry é muito próximo do irmão e o Capitão Tilney dessa versão é totalmente diferente da do filme de 2007.  Ele é expansivo, ele conversa com todo mundo, sorri e flerta descaradamente.  Está escrito na cara dele que se trata de um canalha, um boy lixo.  Dá-se a entender que Henry foi educado como o irmão, mas optou por ser diferente.  Já o General Tilney parece bipolar.  Em Bath, ele é alegre, expansivo, encantador, no primeiro encontro com Catherine, a minha impressão é que ele queria a moça para  si.  Já  em casa, em Northanger Abbey, ele é soturno, autoritário e abusivo, principalmente, com Eleanor.  Há uma cena da moça desesperada falando com Henry que não suporta estar morando com o pai.  Henry a acalma, mas não há o que fazer.  E, no final do filme, ele não cria nenhuma cena para apontar para um final feliz para a jovem.  

Se o filme de 2007 temos um encerramento corrido com o auxílio da narradora, o de 1987 termina de forma brusca mesmo, como se um beijo fosse o suficiente para resolver questões complexas.  Volto a isso daqui a pouco, pois é preciso comentar que inventaram que Eleanor tinha se apaixonado aos 14 anos, em seu primeiro baile, por um dos subordinados do irmão militar.  Primeira coisa, qual moça de boa família iria debutar aos 14 anos na Inglaterra do final do século XVIII?  Nenhuma.  Seria uma irresponsabilidade paterna e o General parecia muito afeito às convenções.  E Jane Austen parece estabelecer uma idade aceitável para essas interações: os 16 anos.  Antes disso, é escândalo, é confusão, é tragédia e temos bons exemplos em Razão e Sensibilidade e Orgulho e Preconceito.  Segundo, o amado da moça parece ser amigo de Henry, passou algum tempo hospedado em Northanger Abbey, provavelmente, ali eles se conheceram.  Nenhum dos dois filmes comenta que os papéis misteriosos que Catherine encontra são, na verdade, listas de lavanderia desse moço, esquecidas por seu criado pessoal.

E vamos falar de Catherine Morland.  Além dos olhos esbugalhados, de penteados lamentáveis, ela é usada para potencializar a estranheza do filme.  No livro, Catherine é descrita como uma tomboy antes de se tornar leitora compulsiva de romances.  O filme de 2007 mostra isso no início, sempre usando a voz da narradora, que não existe em 1987, que já introduz  a moça aos 17 anos, ávida por aventuras em Bath.  Ela recebeu uma educação pouco requintada e é tratada principalmente por sua mãe (Helen Fraser) como uma cabeça de vento sem salvação, por assim dizer.  As interações dela em Bath são parecidas com o livro, mas inventam uma cena doida dela correndo pela cidade com as saias levantadas até os joelhos para tentar avisar os Tilney de que foi enganada por Thorpe e que ele mentiu para eles.  Ela invade a casa do General da forma mais insana possível e, para a minha surpresa, o pai de Henry não a escorraça de lá, mas a trata com uma gentileza absurda e, também, um interesse suspeito.  Foi a primeira cena do General Tilney no filme.  No livro, ela não é recebida e tem que se esforçar para desfazer a confusão.

Já em Northanger Abbey temos aquelas situações estranhas, com ela se perdendo pela abadia, umas como sonho, outras como realidade.  Há a cena do canário na gaiola, um pássaro que, no filme, ela desconhecia.  Tilney explica o que ele é  e ela lamenta que o bicho esteja preso, ao que o rapaz diz que ele não poderia viver de outra forma.  Talvez seja uma analogia com a forma como o General trata as pessoas de sua família e que ela não aceitaria isso de bom grado, ou as palavras dela um alerta para que Henry tomasse uma posição e rompesse com essa submissão absurda em relação a um pai cruel.

Agora, a cena mais estranha, levando-se em conta que os delírios eróticos começam antes da estadia na abadia, é  a do sarau com a marquesa e duas moças, uma delas a única atriz realmente bonita no filme, no qual Henry canta em italiano várias músicas e meio que flerta com essa moça.  Catherine está  sentada entre encantada e incomodada, mas o pequeno pajem da marquesa, um menino negro (Raphael Alleyne), puxa sua manga e ela sai com ele para o jardim.  Lá, o menino começa a dar estrelinhas no jardim.  E ninguém nem nota que ela saiu. E a cena não tem função nenhuma. Ou seria sonho?  E quando ela é expulsa de Northanger Abbey pelo General a sequência é toda tão insípida, tão sem emoção, não chega perto do livro e perde muito para o filme de 2007.  Já o confronto de Henry Tilney com o pai horroroso é  uma das melhores cenas do filme, porque mesmo com os problemas que já apontei, os atores são bons e o texto no geral é de Jane Austen.

Mas esse filme supera a adaptação de 2007 em um ponto importante: John Thorpe. Neste filme, ele é um delirante, um canalha e abusivo.  Fica muito claro que ao dizer que Catherine é uma herdeira para o General Tilney, ele o faz por acreditar na sua mentira e  para conseguir atrair a atenção de um homem bem relacionado como o pai de Henry Tilney, mostrando-lhe que ele  é  alguém interessante.  O que Thorpe não imaginava é que o militar iria querer a falsa  rica herdeira para seu filho.  Quando ele percebe que Catherine está interessada em Henry Tilney, ele tenta fazer chantagem emocional, mas, também, usar da violência, apontando para o marido que poderia ser.  Ele a segura com força pelo braço.  E, o que foi surpreendente, ela reagiu.  

Ela não se deixa intimidar por ele.  A Catherine desse filme não se mostra amedrontada ou em qualquer débito em relação às atenções que Thorpe lhe dedica.  E, sim, a vingança faz sentido, ele conta para o General que se enganou e que Catherine é uma aventureira sem dinheiro algum.  Outro ponto positivo é coisa pequena, Mr. Allen age como no livro e tenta proteger Catherine do escândalo com um cuidado paternal.  É ele quem começa a alertar Catherine de que Thorpe não se comporta como um cavalheiro e pode comprometer sua reputação.  Enquanto isso, Mrs. Allen é uma deslumbrada que não percebe o perigo que a moça corre.  E esse cuidado paternal é importante, porque nem a mãe nem o pai de Catherine parecem muito interessados nela, na sua educação, nos seus sentimentos.  São muitos filhos, muita atenção para dividir e nem somos informados de que são dez filhos nesse filme de 1987.


No livro, a mãe de Catherine também não é muito compreensiva com o trauma da moça ao ser expulsa de Northanger Abbey.  A protagonista acredita que Henry a despreza por ter invadido os aposentos de sua mãe e inventado fantasias sobre seu pai, que esse foi o motivo da ação do Genneral.  É muito diferente da atenção amorosa que ela recebe da mão no filme de 2007.  A mãe do livro  quer que Catherine esqueça o que passou e volte a ser útil, isto é, dividir as tarefas domésticas e ajudar a cuidar dos irmãos e irmãs  mais novos. Esse tema poderia ter sido abordado por Andrew Davis em 2007, mas também não foi.

Davis poderia ter explorado, porque o seu Emma é  muito bom em trazer as questões de classe, mas discutir classe social pode ser importante para falar dos homens e, neste caso, teríamos que discutir gênero e desigualdades que, talvez, não lhe parecessem tão urgentes.  Vai saber, não é?  Enfim, no filme de 1987, nem isso, a mãe parece não ter esperança em relação à Catherine.  E eis que quando a moça está vagando meio atordoada no meio de um matagal, me aparece Henry Tilney.  E ele diz que não precisa da autorização do pai para casar.  Isso é verdade, ele tem mais de 25 anos, ele pode se casar sem a assinatura dele.  Ele a beija, e fim.  E é  tudo tão esquisito, tão pouco satisfatório, que esse filme é, sem dúvida alguma, a adaptação mais estranha que eu já assisti de Jane Austen.

Concluindo, há  uma sequência das personagens em uma das casas de banho termais de Bath.  A cidade era um balneário desde a época romana; suas águas quentes e com minerais eram muito apreciadas, são até hoje.  Só que no século XVIII, a medicina da época  atribui ao lugar um valor maior.  Havia outras cidades com banhos medicinais, mas Bath é uma personagem de mais de um dos livros de Jane Austen; ela morou lá por um tempo.  E em Bath, havia banhos públicos para os pobres, também, o que me surpreendeu.  Os últimos banhos foram fechados em 1978.  

Ao que parece, a representação do filme é bem fiel, mesmo que estranha, especialmente o lanchinho, eu diria.  As pessoas usavam roupas especiais, havia banhos mistos, para mulheres somente e alguns que alternavam dias da semana para um sexo e outro.  Então, sim, ter homens e mulheres juntos era possível.  É sempre bom lembrar que a moral do período Georgiano (1714-1837) não era a mesma que vai se construir no período Vitoriano (1837-1901).  O pessoal era bem mais livre e aprontava abertamente  muito mais do que muita gente acredita. Agora, acabou a resenha.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

Comentando Northanger Abbey (ITV/2007): Talvez a adaptação mais fofinha de uma obra de Jane Austen


Há algumas adaptações importantes de Jane Austen para o cinema e a TV que eu não tinha resenhado ainda.  Como estamos comemorando os 250 anos de nascimento da autora, decidi reassistir a Northanger Abbey de 2007 e finalmente fazer a resenha.  Acho que de todas as adaptações de Jane Austen é a que eu considero mais fofinha, sim, o termo é esse.  Primeiro, porque Catherine Morland, a mocinha da história, é a mais jovem das heroínas de Jane Austen, uma adolescente que está tentando descobrir qual o seu lugar no mundo.  E o termo heroína está no livro mesmo.  Segundo, porque Felicity Jones e JJ Feild ficam muito bonitinhos juntos.  Sei que o filme faz alterações sensíveis em relação ao original, mas tudo flui tão bem que o filme termina sendo muito satisfatório mesmo.  Segue um resumo bem resumido, para quem não conhece a história: 

Quando Catherine Morland (Felicity Jones) tem a oportunidade de se hospedar com o Mr. e a Mrs. Allen (Desmond Barrit e Sylvestra Le Touzel), seus vizinhos abastados e sem filhos, em Bath, ela espera viver uma aventura como as que lê nos romances. Lé ela é apresentada à alta sociedade e conhece Isabella Thorpe (Carey Mulligan) e seu irmão John (William Beck), filhos de uma amiga da Mrs. Allen dos tempos de escola.  Mais tarde, Catherine descobre que Isabella está  noiva de seu irmão, James (Hugh O’Conor), e que ele e John são muito amigos.  Em seu primeiro baile em Bath, Catherine conhece Henry Tilney (JJ Feild), um jovem bonito de família abastada, muito gentil, bem-humorado e que entende de mussellina.  Henry flerta com Catherine e a menina se apaixona por ele, ao mesmo tempo em que é assediada por John Thorpe, que decide criar situações para atrapalhar um possível romance entre os dois, porque ele a quer para si.


Henry apresenta Catherine a sua irmã, Eleanor (Catherine Walker), que simpatiza com a jovem, e mesmo com os obstáculos criados por Thorpe, eles voltam a se encontrar. Catherine também conhece o irmão mais velho de Henry e Eleanor, Frederick (Mark Dymond), um militar arrogante que termina por se envolver com Isabella, que vê no jovem oficial um marido mais interessante do que James.  Entre as mentiras que John Thorpe espalha, está a história de que Catherine é herdeira dos Allen e eles são mais ricos do que parecem.  Só que por conta disso, o pai de Henry, o soturno General Tilney (Liam Cunningham), convida a jovem a visitar a  Abadia de Northanger.  E a pobre Catherine começa a delirar com os possíveis mistérios e segredos da Abadia e a curiosidade sobre a morte da mãe de Henry.  Sua curiosidade, no entanto, termina por causar certa decepção ao rapaz, o que a leva ao desespero.  Além disso, o que fará o General quando descobrir que a jovem não é rica como ele imagina?

Northanger Abbey é um dos romances menos lembrados de Jane Austen.  Escrito por volta de 1798-1799, ele parece ter sido menos revisado do que outras obras da autora, como Razão e Sensibilidade (Elinor e Marianne) e Orgulho & Preconceito (Primeiras Impressões),  que tiveram seus primeiros rascunhos feitos na mesma época.  Northanger Abbey deveria se chamar Susan e foi vendido para um editor em 1803.  Nunca publicado, foi comprado de volta em 1816, quando a saúde da escritora já estava declinando.  Ela tentou aprimorar o texto, que foi publicado junto com Persuasão, seu último romance completo, em 1817.  Mesmo com as modificações, os especialistas em Jane Austen, coisa que eu estou longe de ser, apontam que o livro, uma paródia dos romances góticos, muitos deles escritos por mulheres e que faziam muito sucesso na época, é bem irregular em comparação com outras obras da autora.


A protagonista, que começa a história com 17 anos, é leitora voraz de vários livros que traziam tramas cheias de mistérios, crimes, aventuras e até romances mais picantes do que o seria desejado para jovens solteiras da época.  Essa ideia é muito forte no filme de 2007, porque Catherine sonha e tem devaneios se imaginando como a heroína dos romances que lê.  Só que sua mente fértil e sua inexperiência dentro da sociedade, afinal, ela vivia uma vida relativamente modesta e retirada com a mãe, o pai e seus nove irmãos e irmãs no interior, ela não tem o traquejo social que os Tilneys e os Thorpes têm, a colocam em algumas situações embaraçosas.

Felicity Jones representou muito bem essa jovem heroína, porque ela dá à personagem a ingenuidade, curiosidade e um ar inocente e um pouco atrapalhado que a personagem pede.  A atriz nem era uma adolescente, mas ela consegue convencer de que ainda era.  Há quem aponte que Northanger Abbey é menos sobre amor e casamento e mais sobre o crescimento da personagem, que passa de menina a mulher, tratando-se então de um romance de formação (Bildungsroman, em alemão).  Nesse aspecto, o roteiro de Andrew Davies coloca mais ênfase na moça aprendendo com os acontecimentos e tira um pouco o peso de Mr. Tilney, que no romance age como alguém que está disposto a aprimorar a educação da heroína, inclusive sugerindo os livros "certos" para a moça. 


Ele é homem, mais velho, teve acesso a uma educação muito superior, então, o paternalismo e a condescendência estão de acordo com as expectativas de gênero da época de Jane Austen.  O filme não faz como em Emma (2020), que coloca Mr. Knightley e a protagonista em pé de igualdade, como se pudesse haver simetria entre eles.  Ainda assim, o roteiro elimina muito daquilo que poderia tirar um pouco da simpatia de Mr. Tilney.  Independentemente disso,  eu o considero o mocinho mais bem resolvido de todos os romances de Jane Austen.  Ele parece compreender seu lugar no mundo, ele protege a irmã, ele busca compreender Catherine, percebendo sua sinceridade, e não se deixa enredar nas armadilhas de Thorpe.  Ele sabe se comunicar e gosta da moça.  Tudo isso está no livro e permaneceu no filme.  Henry Tilney é o anti-Edward Ferrars, só para  lembrar do quão vulnerável é o mocinho de Razão e Sensibilidade. Aliás, eles partilham a mesma profissão, ambos são reverendos.  E tudo isso no pacotinho do JJ Feild, que é muito simpático, bonito e charmoso.  O que eu vou enfatizar sempre é que o Mr. Tilney desse filme é atenuado, mas não a ponto de ser descaracterizado. 

O filme Northanger Abbey é curto, mas bem redondinho.  Ele fez parte da The Jane Austen Season, que contou com mais duas adaptações no mesmo ano, Persuasão e Mansfield Park, além de uma reexibição de Emma (1996), que também conta com o roteiro do Andrew Davies.  Aliás, traduzi um artigo recente no qual ele fala de seus próximos projetos no universo de Jane Austen.  Davies tem um currículo absurdamente bom, mas, nos últimos tempos, ele vem colocando cada vez mais sexo e sensualidade em seus trabalhos.  É dele, por exemplo, a ideia da camisa molhada de Mr. Darcy (Colin Firth) em Orgulho e Preconceito (1995).  Dos três filmes do The Jane Austen Season da ITV, Northanger Abbey é o melhor e deve muito ao elenco afinado e ao roteiro de Davies.


Em Northanger Abbey, ele coloca a sensualidade que o mobiliza tanto, mas ainda sob algum controle, nos sonhos eróticos que a mocinha tem.  Tudo muito leve para o que ele anda fazendo e pensando em fazer, mas ele traz para dentro da história um livro gótico mais pesado, O Monge (1796), de Matthew G. Lewis, que não está no original de Austen.  Em Northanger Abbey, são citados vários livros, sendo o mais famoso, Os Mistérios de Udolpho de Ann Radcliffe. Encontrei um artigo chamado Seducing the Viewer: Sex, Power and Heightened Drama in Northanger Abbey (2007), de Vanessa E. Cook, na página da JASNA (Jane Austen Society of North America), no qual a autora defende que Andrew Davies usou essas passagens de sonho para dar livre vasão ao seu interesse de colocar passagens sensuais e para marcar a diferença de papéis de gênero entre homens e mulheres, com Tilney sempre em posição de ação, de poder, de intimidação sexual até e Catherine muito mais passiva e vulnerável do que nas interações reais dos dois, sendo mesmo uma passagem de estupro do livro O Monge transformada em excitante pela a imaginação da mocinha (*na verdade, do roteirista*).  

Mas a discussão entre os dois, a cena em que os devaneios de Catherine são expostos, quando ela invade a área proibida de Northanger Abbey, os aposentos da falecida mãe de Tilney.  A mocinha está convencida pela atmosfera gótica do lugar e pela disposição pouco amigável do General, que é temido pelos filhos, de que a mãe de Henry pode ter sido morta pelo marido.  Essa ideia ofende profundamente Tilney e faz com que Catherine cresça, na medida em que percebe que ler é importante, mas não se deve arrastar pelas fantasias dos livros de sua preferência.  Só que ela superdimensiona a decepção de Henry, que a ama muito mais do que ela imagina.


Se as interações entre Henry e Catherine são românticas e castas, não se pode dizer o mesmo de Isabella e Frederick.  Mesmo antes de conhecer o Capitão Tilney, ela sempre parecia estar flertando com os  rapazes e tentando conseguir o melhor partido possível.  A moça termina sendo seduzida e abandonada pelo Capitão Tilney, porque, como Eleanor sugere para Catherine, o herdeiro de Northanger Abbey jamais iria se unir a uma mulher que não tivesse posses.  Sendo assim, o sujeito nunca esteve disposto a ter nada sério com uma moça de posição tão inferior, economicamente falando, às de sua família, só queria se aproveitar dela e como a jovem é cabeça de vento como Lydia, terminou arruinada, já que não sabemos do seu futuro para além do que o livro e o filme nos contam.  

Também falando em dinheiro, Eleanor, que é tiranizada pelo pai, vive um dilema de amar um sujeito (*que é grande amigo de Henry*) que não tem as posses que o General considera ideais para o futuro marido da filha.  O próprio General Tilney se casou por dinheiro e é isso que ele espera que Henry faça, daí, seu interesse por Catherine.   E o jovem, tanto no livro quanto no filme, deixa claro para a mocinha que sabe disso, que talvez, por  ser o caçula, deveria pensar nessas questões ao escolher uma esposa, mas eis que a grosseria do pai, ao mandar Catherine embora sozinha no meio da noite, precipita a tomada de decisão do moço.  Só que o filme dá mais capacidades a Henry do que ele tem no livro.   Ele se insurge contra o pai, é expulso de casa, até porque ele tem sua própria casa, com gente que trabalha nas suas terras, não sei se é herança da mãe, de um tio, de quem é, o livro não explica.  Eu acredito que ele ficava em Northanger, para tentar proteger a irmã da crueldade do pai, mas ele não pode fazer tudo o que  lhe der na telha.


Enfim, no livro, Henry pede Catherine em casamento, consegue, inclusive, levá-la para passear a sós em Fullerton, onde ela mora, para se explicar.  Pode ter-lhe dado o beijo como no filme, quem sabe?  E ele vai voando mesmo, tão logo descobre a cachorrada que o pai fez com ela; no filme parece que a separação dos dois foi mais longa, mas pode ser impressão minha mesmo.  No livro, foram míseros três dias.  A família da moça aquiesce no passeio, mas não no casamento.   Henry teria que ter a aprovação do pai em presença ou por escrito.  Ela vem depois do casamento de Eleanor com um visconde, na verdade, o mesmo moço que ela ama, mas que herdara o título.  É uma espécie de Deus ex machina, Austen gosta dessas coisas, usou em Razão e Sensibilidade, também.  

Trata-se de uma resolução fortuita para que Eleanor seja feliz e possa interceder de cima para que o General ceda e aceite o casamento de Henry com Catherine, mesmo que ela não seja uma rica herdeira.  No livro, ele  estava tão satisfeito com o casamento da filha que pode permitir que o filho se comporte como um idiota, palavras de Austen.  No filme, a família da mocinha aceita o casamento contra a vontade do pai do moço sem problema nenhum e chegamos até a ver o primeiro filho do casal.  Somente depois disso, Eleanor se casa com o moço que ela ama e que ficou rico.  A inversão, como pontuei, eleva Henry, mas o livro enfatiza o quanto a família de Catherine queria fazer as coisas do jeito certo e tradicional, mesmo acreditando que o pai do moço terminaria cedendo.


Austen até brinca no final que a resistência do General pode até ter ajudado a fortalecer os laços de afeto entre Henry e Catherine, que  o período de um ano entre o primeiro encontro dos dois e o casamento nem foi tanto tempo assim.  E termina deixando para os leitores a escolha, teria a autora elogiado a 
tirania paterna ou recompensado a desobediência filial?  O fato é que o General é um pai tirano e, neste filme, ele termina sozinho, sem amor e afastado dos dois filhos mais novos, porque o mais velho estava mais era esperando o velho morrer para ficar com tudo mesmo.  Um sujeito pintado como bem insensível.

Duas curiosidades desse filme: Sylvestra Le Touzel, que faz Mrs. Allen, foi Fanny Price na melhor adaptação de Mansfield Park; e Carey Mulligan faz sua segunda coadjuvante em uma adaptação de Jane Austen, ela foi Kitty Bennet no filme Orgulho e Preconceito.  Eu realmente lamento que a excelente Mulligan  nunca tenha sido escolhida para ser protagonista de uma obra de Jane Austen, o tempo passou e, agora, não é mais possível.  Ah!  Outra curiosidade, JJ Feild está em Austenland, nesse filme que mostra uma norte-americana fanática por Austen em um parque temático da autora na Inglaterra, ele faz uma espécie de Mr. Darcy, um dos possíveis interesses românticos das mulheres que pagam para poder viver as suas fantasias. Recomendo muito.  😊


Antes de concluir, este filme tem um cuidado grande em reproduzir algumas situações que normalmente escapam em alguns filmes e seriados de época.  Mr. Tilney tem sua primeira interação com Mrs. Allen e Catherine, a sequência em que ele mostra que entende de tecidos de musselina, mas não pode conversar com elas, muito menos dançar com a mocinha, sem que sejam apresentados formalmente.  Para resolver as coisas, ele vai buscar o mestre de cerimônias do baile, que parece ser um daqueles eventos públicos, como no início de Orgulho e Preconceito, para resolver a questão.  Outra coisa, o figurino é bom, não é exuberante, mas é competente e coloca a história no início do século XIX.  E as atrizes aparecem sempre com seus cabelos presos.  Basta lembrar que Mansfield Park, que faz parte do The Jane Austen Season, foi uma tristeza absoluta nesses dois fundamentos.

Enfim, Northanger Abbey é a única das obras principais de Austen sem minissérie, mas mesmo cortando e modificando coisas, o filme é muito simpático, bem escrito e bem executado.  E Felicity Jones e JJ Feild são um casal muito fofinho e temos sequências muito boas dos dois ou deles com Eleanor.  Além disso, Jones cavalga como uma dama e não como um homem.  Em muitas produções mais contemporâneas, ninguém parece se importar com isso. E a cena dos dois andando a cavalo é bem romântica e tem uma sensualidade muito delicada, já no seu final.  E temos beijo, beijos, na verdade, e mais bonitinhos por serem meio desastrados.  Então, recomendo muito para todo mundo que assista a esta adaptação, porque eu duvido que fãs de Austen ou de histórias de época não irão gostar.  Agora, meu desafio é assistir à adaptação horrível de 1987.  Já está no meu HD esperando.