Mostrando postagens com marcador Jane Austen. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Jane Austen. Mostrar todas as postagens

sábado, 27 de junho de 2026

The Other Bennet Sister terá um especial de Natal

The Other Bennet Sister, que ainda preciso terminar de assistir, é uma série muito simpática e centrada em Mary, a irmã Bennet mais desajeitada e apagada em Orgulho & Preconceito, de Jane Austen.  Muito bem, depois de uma série de 10 episódios, as personagens retornarão para um especial de Natal em três partes.  Segundo a BBC, a série fez um imenso sucesso no Reino Unido, no Canadá, nos EUA e nas redes sociais.  

Janice Hadlow, autora do romance The Other Bennet Sister, irá participar do roteiro, que será sobre o que acontece depois que Mary (Ella Bruccoleri) aceita se casar com Tom Hayward (Donal Finn).  Como a série foi muito bem executada, a gente simpatiza e torce por Mary e a ideia do especial é bem-vinda.  Fiz uma resenha dos primeiros episódios da série, ela está aqui.

sexta-feira, 26 de junho de 2026

Saiu o primeiro trailer de Razão & Sensibilidade: algumas considerações

Em 2026, estamos comemorando os 250 anos do nascimento de Jane Austen (1775-1817).  Ela nasceu em 16 de dezembro, então, estão contando a partir daí.  Enfim, o novo Razão & Sensibilidade estreia no dia 25 de setembro.  O trailer está abaixo:


Assim, vou assistir ao filme, claro, farei o possível para ver na estreia mesmo, por isso, espero que ele entre em cartaz no cinema perto do trabalho.  Agora, não gostei, não.  As mocinhas de cabelo solto, mesmo a Elinor (Daisy Edgar-Jones), que é tão contida, me causaram uma péssima impressão.  Acredito que a escolha foi colocar mulheres jovens com cabelo solto, mulheres maduras com cabelo preso.  Só que não era assim que a coisa funcionava.  Se você já era uma moça, tinha que prender o cabelo; a depender da época, prendia o cabelo desde menininha mesmo.  Outra coisa, a atriz que faz a Marianne (Esmé Creed-Miles), pelas poucas cenas que apareceram, pareceu mais velha que a Elinor, além de mais descabelada, claro.


O figurino também pareceu sem graça, feio até.  Eu não estou pedindo o deslumbre de Emma (2020), mas parece que economizaram demais.  E há uma cena com Marianne e Elinor com uma espécie de capuz no cabelo, que eu não entendi bem o que era.  Como elas são moças solteiras, não precisavam cobrir a cabeça.  Usar chapéu, claro, mas essas touquinhas?  Me lembrei dos puritanos do século XVII ou das criadas.  Só que as mocinhas da história não são empregadas.


E os homens do filme?  Willowghby (Frank Dillane) tem cara de caipira, se veste de forma desalinhada e é descabelado.  Já o Edward Ferrars (George MacKay) tem cara de pastel, como tem que ser, mas parece velho demais para o papel.  Edward Ferrars, dependente como é da mãe, só funciona se for um sujeito muito jovem como no livro.  Tanto que o único defeito que eu vejo no filme de 1995 é não terem adaptado a personagem de alguma forma, já que Elinor é colocada como sendo dez anos mais velha.  E o Coronel Brandon (Herbert Nordrum) tem barba!🤬🤬🤬  Quem teve essa ideia?  Acharam que o ator parecia jovem demais para o papel? Decidiram que, como ele é meio depressivo, deveria ter uma aparência descuidada?  É para disfarçar o queixo do sujeito que parece ser meio para dentro?  Enfim, homens bem nascidos não costumavam usar barba nesse período.  


Tudo que eu vi nesse filme me deixou triste.  Não acredito que será um novo Persuasão da Netflix; parece que a ideia é outra.  Agora, o visual é escuro, o figurino é pobre e a caracterização das personagens parece bem ruinzinha.  Razão & Sensibilidade merecia mais, Jane Austen merecia muito mais nesse aniversário de 250 anos.

quinta-feira, 19 de março de 2026

The Other Bennet Sister parece muito melhor do que eu poderia esperar: Resenha da Nova Série da BBC

Estreou no dia 15 de março a nova série da BBC The Other Bennet Sister.  Baseada no livro de mesmo nome de  Janice Hadlow, a série terá 10 episódios e faz parte das celebrações dos 250 anos de nascimento de Jane Austen.  Dois deles foram lançados de uma vez, não sei como será semana que vem e não consegui entender direito se no streaming da BBC foram lançados mais episódios, mas parece que sim.  Enfim, isso não importa, o que quero comentar é como esse início foi simpático, delicado e melancólico.  Mesmo acrescentando coisas ao original de Jane Austen, o roteiro foi muito respeitoso e convincente.

Só situando as coisas para quem não conhece Orgulho & Preconceito, Mary Bennet (Ella Bruccoleri) é a irmã do meio da família que é central no romance de Austen.  Acima dela estão a protagonista Elizabeth (Poppy Gilbert) e a irmã mais bonita, Jane (Maddie Close); abaixo dela estão as duas cabeças de vento, Kitty (Molly Wright) e Lydia (Grace Hogg-Robinson).  Jane tem a estima do pai e da mãe, Elizabeth é a favorita do pai, Lydia é a favorita da mãe e Kitty é a minion da irmã caçula.  Já Mary é vista como sem graça e meio que condenada a ficar solteira.  Como os Bennet não têm um filho homem, pelas regras da propriedade da família, tudo irá  para o parente masculino mais próximo.  Por conta disso, Mrs. Bennet está desesperada para ver suas filhas casadas; se não conseguir, muito provavelmente terminarão em uma situação econômica muito ruim.

No livro, Mary parece desesperada por alguma atenção.  Ela se esforça no piano, mas não consegue tocar bem.  Tenta cantar, mas é desafinada. Quer parecer culta, mas só soa pedante e moralista. Essas características estão na série, mas no segundo episódio.  No primeiro, temos uma Mary que, mesmo se sentindo inferior às irmãs, ainda sonha em ser amada.  Vemos a jovem indo ao optometrista, que é simpático, gentil e visivelmente apaixonado por ela como ela é.  Hill, a criada da família e que está no livro original, tem um papel importante na série, porque ela é a  única pessoa na casa que parece se preocupar com Mary, demonstrando simpatia e afeto pela jovem.  É ela que se preocupa em preparar um belo, ainda que simples, vestido para que a moça vá ao baile.  Observem o contraste entre a roupa de Mary e a das irmãs.  Algo bem interessante é que Hill é interpretada por Lucy Briers, a Mary Bennet da série de 1995.

O baile é aquele no qual conhecemos Mr. Bingley, suas irmãs e Mr. Darcy, mas o foco está em Mary e no seu flerte com o jovem optometrista, que se chama John Sparrow (Aaron Gill).  Só que o encanto se quebra quando Mrs. Bennet intervém e proíbe Mary de dançar uma terceira vez com o moço.  Duas vezes já demonstra deferência, três vezes poderia sugerir algo mais.  Mas Mrs. Bennet (Ruth Jones) quer que as filhas se casem, só que se Mary se comprometer com um sujeito de uma classe inferior, ela poderá atrapalhar os casamentos das irmãs.  Elas, mesmo não tendo tantos recursos, são membros da gentry (*pequena nobreza rural*); já o rapaz, apesar de muito bem-educado e respeitável, vive do seu trabalho; ele não é um cavalheiro para os padrões da época.  

Lembram de Emma tentando evitar que Harriet Smith se case com Robert Martin? O filme Emma da ITV é o que melhor retrata essa questão.  Ela crê que a moça órfã seja filha de um cavalheiro, já o rapaz arrenda terras de Mr. Knightley e  vive da agricultura.  É um fazendeiro respeitável, mas não para se casar com uma moça da gentry.  Seria um casamento desigual e indigno.   O resultado é que Mary precisa dizer para Sparrow que não pode mais dançar com ele.  O rapaz entende bem o que está acontecendo e a expressão no seu rosto é de cortar o coração.  Sei que ele não deve voltar, mas queria que Mary acabasse rompendo com a mãe e ficando com ele.

Quando vi o ator Aaron Gill imaginei que ele seria de origem indiana.  Seria fácil explicar a presença do jovem, mas a questão racial não é trazida por Mrs. Bennet.  Além disso, no baile há várias figurantes que não são brancas.  Enfim, a série é mais uma produção color blind, isto é, a cor dos atores e atrizes do elenco não faz diferença, porque ninguém tem cor.  Como optaram por esse caminho, estão fazendo a coisa do modo errado, porque todo o elenco principal é branco.  Pega até mal colocarem atores não-brancos  para "colorir" o fundo.  Seria melhor não ter ninguém.  Isso invalida a série?  Não.  Mas é algo que tira um pouco do seu brilho.  De personagens "de cor" até agora na série temos Mrs. Gardner (Indira Varmaé interpretada por uma atriz de ascendência indiana e outra personagem que não apareceu ainda, Ann Baxter (Varada Sethu) é indiana mesmo.  E há ainda uma Miss Clarke (Seraphina Beh), que é interpretada por uma atriz negra.


Retornando, a origem de Mrs. Bennet é no grupo social de Mr. Sparrow; ela casou para cima.  Sabemos disso se atentarmos à reserva que as irmãs de Bingley e Darcy têm em relação ao tio de Elizabeth, Mr. Gardiner (Richard Coyle), que mora em Londres e precisa trabalhar, mesmo que sua ocupação seja respeitável, que ele tenha excelentes condições financeiras e seja mais cavalheiro do que muitos dos nobres que circulavam nos livros de Jane Austen.  A ideia da série é que Mrs. Bennet acredita que suas filhas devem se casar dentro do seu grupo social (*algo que é herdado do pai*) e se Mary ficar solteira, tudo bem, afinal, alguém precisa cuidar dos pais idosos.  Mrs. Bennet nesta série é muito cruel com Mary; o livro não sugere tanto.   É por causa desse trauma que Mary desiste do amor e decide ser a personagem que conhecemos no livro.  Ela abandona suas leituras leves (*ela já lia antes, mas eram romances, livros de História*) e passa a ler Filosofia, coletâneas de sermões.  Coisas que ela não entende ou são chatas mesmo.  Acredita que, assim, terá alguma relevância, talvez conseguindo a estima do pai.

No episódio dois, conhecemos Mr. Collins.  O ator que o interpreta, Ryan Samson, parece ir  na linha do Mr. Collins de David Bamber, que faz o papel na série de 1995.  Só que ele é ainda mais baixinho.  Acho chato que a única produção que acompanhou o livro ao escalar a personagem foi Orgulho & Preconceito & Zumbis, que escalou Matt Smith.  Mr. Collins é jovem, muito alto e desengonçado.  Só que geralmente escalam um ator  que parece passado dos 30 e meio atarracado.  O ator que faz Mr. Collins nessa produção já tem 40 anos, ainda  que pareça ter menos idade.

Mrs. Bennet, assim como no livro, quer empurrar Lizzie para o primo distante que irá herdar tudo.  Só que Mary é convencida por Charlotte Lucas (*que foi a primeira a aconselhar Mary a não dançar uma terceira vez com Sparrow*) a tentar conquistar Mr. Collins, porque ele e Lizzie não combinam.  Charlotte convence a jovem a se sacrificar pela família e se salvar do pior destino para  uma mulher, ficar solteira (*e dependendo da bondade da família*).  E ela se esforça.  Na série, Mr. Collins, diante da frieza e sarcasmo de Lizzie, começa a olhar para Mary, que sabe sermões de cor e toca piano.  Só que, mais uma vez, Mrs. Bennet intervém e rebaixa a moça.  Mr. Collins está reservado para Lizzie, ela não deveria interferir.  

Quando Lizzie rejeita Collins, Mrs. Bennet vê em Mary uma possibilidade, mas Charlotte parece perceber que pode ser sua última oportunidade de se casar.  Como Collins diz que aprecia mulheres que  sabem cantar, Charlotte estimula a moça a cantar sabendo que Mary não canta bem.  Charlotte nessa série é bem cobra criada.  Eu vi malícia nas ações  dela com o intuito de enredar Mr. Collins.  Ela meio que planejou tomar Mr. Collins para si.  Enfim, Mary canta no baile em Netherfield, do mesmo jeito que está no livro, vira motivo de chacota e envergonha toda a família.  Algo que difere do livro é que Mr. e Mrs. Gardiner estão no baile e que Elizabeth se desculpa com Mary por ter pedido ao pai para tirá-la do piano.

Falando em Elizabeth, não consigo ver a personagem do livro na atriz (Poppy Gilbert).  É uma moça bonita, ainda que sem sobrancelhas (*gosto de sobrancelhas*), mas seus olhos não me remetem aos "fine eyes" (*olhos bonitos*) do livro.  A atriz que faz a Jane, Maddie Close, não me pareceu tão bonita assim.  O par Lydia e Kitty (Grace Hogg-Robinson e Molly Wright) é engraçado e elas usam roupas combinando.  Foi uma boa ideia.  Achei o Mr. Bingley (Aled Owen) muito testudo, mas é o penteado, porque achei ele muito bonito nas fotos que achei.  E ele parece mais velho do que é.  Outro que foi enfeiado é Victor Pilard, o Mr. Darcy.  Ele ficou parecendo o Mr. Darcy "vampiro" de um quadrinho de Orgulho & Preconceito que chegou a sair no Brasil.  Mas Darcy e Bingley nem têm falas, ou tiveram até o momento, eles só aparecem de longe. Quem tem falas e humilha Mary é Caroline Bingley (Tanya Reynolds). Mesmo assim, é interessante não terem eliminado Louisa Hurst (Lucinda Dryzek), a outra irmã de Bingley, e seu marido (Fergus Craig).

Ruth Jones é uma Mrs. Bennet extremamente cruel.  Não a vemos dando chilique, o foco não é esse.  Ela continua mal-educada, mas o foco é em como ela parece desprezar a filha feia.  Richard E. Grant está deliciosamente divertido como Mr. Bennet.  Altíssimo nível de ironia e deboche mesmo.  E fica parecendo que Mary é a filha fisicamente mais parecida com ele.  Ainda assim, fora na parte dos óculos, que causam horror à mãe e às irmãs, ele apoia a filha, mas morre aí; ele é o mesmo pai negligente do livro e de qualquer outra adaptação.  Mary é invisível e precisa buscar um lugar onde possa ser valorizada e amada.

Falando da atriz que faz Mary, Ella Bruccoleri, ela consegue passar uma melancolia muito grande para a filha que não é amada.  A série abre com Mary pensando que já é muito ruim ser bela e pobre, mas ser sem graça (plain) e pobre é uma tragédia.  A atriz não é bonita, mas não é feia.  Fizeram bem em escolher alguém que não está dentro daquela caixinha do "basta se arrumar que ela fica linda".  Ela sempre será alguém fora do padrão, bem diferente das irmãs.  Feliz escolha é não investir na linha "ela não é como as outras garotas", porque Mary quer ser como as outras, mas ela sempre foi empurrada para trás pela mãe, sempre foi negligenciada pelo pai e meio que ignorada pelas irmãs, não sendo a favorita de ninguém.  Somente a criada lhe dá algum carinho.

Quanto ao figurino, achei bonito e apropriado.  O pessoal que fica de olho em reutilização de roupas, pontuou que pelo menos um vestido que aparece sendo usado por Elizabeth veio da série da BBC de 1980 (*resenhas aqui*).  Deve haver outras roupas recicladas.  As figurantes do primeiro baile pareciam somente OK, mas as personagens com falas tinham roupas boas, até os sapatos no baile, quando aparecem, são bem bonitos.  Algo a se destacar é que todas as mulheres  usavam cabelo preso.  O único penteado que poderia estar melhor é o de Mrs. Bennet, que precisava ter algo cobrindo a cabeça para indicar que ela era uma mulher casada.  Fora isso, não tenho do que reclamar.


No final do episódio dois, até Kitty aparece casada.  Não precisavam correr  com isso, bastava até seguir o livro com Kitty passando temporadas com as irmãs que casaram bem, Jane e Elizabeth, e Mary ficando para trás.  Mas foi uma escolha da série.   Mary fica sozinha com os pais e uma grande tragédia acontece, algo que vai mudar a vida da personagem.  Vamos ver como fica a situação no episódio três.  Espero que tenhamos dois episódios de uma vez.

domingo, 15 de março de 2026

Novo filme de Razão e Sensibilidade sofre um pequeno atraso

Foi noticiado que o novo filme de Razão e Sensibilidade foi empurrado de 11 de setembro para 16 de outubro.  Segundo o The Wrap, o atraso é estratégico: "Em sua nova data de lançamento em meados de outubro, "Razão e Sensibilidade" será uma alternativa mais madura às opções mais repletas de ação com as quais dividirá o fim de semana: "Street Fighter", da Paramount, e "Whalefall", da 20th Century Fox. O filme também será lançado uma semana depois de "The Social Reckoning", da Sony Pictures, sequência de Aaron Sorkin para seu drama vencedor do Oscar sobre o Facebook, "A Rede Social"." Continuação de Rede Social?  Sério?   Enfim, espero que a nova data beneficie o filme.

Hoje estreia The Other Bennet Sister!

Esqueci de postar, mas saiu um pedacinho de The Other Bennet Sister, série da BBC que faz parte das comemorações dos 250 anos de nascimento de Jane Austen, e podemos ter uma ideia de qual será o tom da série.   Por exemplo, não imaginei pensei que teríamos material do original misturado na série.  

De resto, Mary não era só pobre (poor) e sem atrativos físicos (plain), ela era falsa moralista, fingia uma erudição que não tinha, não era uma garota fofa. Nessa abertura passeando no campo,Mary parece mais uma Elizabeth.

Outra coisa, a Elizabeth dessa série não me convence como Elizabeth. Esse cabelo da Mrs. Bennet é estranho; Richard E. Grant deve arrasar como Mr. Bennet. E se teremos material original do livro, será que teremos dois Darcy este ano?  Teremos, sim!  E o tal Victor Pilard é bonitão.  Parece  mais interessante que o Darcy da Netflix.  The Other Bennet Sister é baseado no livro homônimo de Jannice Hadlow.

quinta-feira, 5 de março de 2026

The Other Bennet Sister, uma das séries comemorativas dos 250 anos de nascimento de Jane Austen, estreia este mês

The Other Bennet Sister, nova série da BBC baseada no romance de Janice Hadlow, estreia no dia 15 de março.  A sinopse da série, que terá 10 episódios, é a seguinte: "The Other Bennet Sister oferece uma nova perspectiva sobre uma das personagens mais discretas de Jane Austen: Mary Bennet. Obrigada a sair da sombra das irmãs, Mary embarca em uma jornada de autodescoberta – encontrando o amor e, principalmente, a si mesma ao longo do caminho."  Mary Bennet será interpretada por Ella Bruccoleri.  A série estará disponível na BBC ONE e no serviço BBC iPlayer.  O último trailer veio em formato vertical e no formato normal.  Ele está abaixo.

segunda-feira, 2 de março de 2026

'Ele é um homem tão horrível': Por que os leitores estão enganados sobre o Sr. Darcy (Artigo traduzido)

Ainda no espírito da celebração dos 250 anos de nascimento de Jane Austen, encontrei esse texto na BBC; trata-se de um fragmento da introdução da edição de Orgulho & Preconceito da Folio Society.  É esta belíssima  (*e caríssima*) edição aqui.  O autor da introdução é o novelista e jornalista Sebastian Faulks.  Nunca li nada dele, nem o conhecia.  Vou comentar algumas coisas do texto, mas estará depois da tradução.  Como sempre, tentei manter a estrutura do artigo original, que pode ser lido na página da BBC.  Agora, acho que o título do artigo é click bait mais do que qualquer coisa.

'Ele é um homem tão horrível': Por que os leitores estão enganados sobre o Sr. Darcy

Sebastian Faulks

Em grande parte infeliz e até mesmo "imperdoavelmente cruel", o famoso herói romântico de Jane Austen não é o que parece, escreve o autor Sebastian Faulks, em um trecho exclusivo da Folio Society, para marcar o 250º aniversário do nascimento de Austen.

Orgulho e Preconceito não é apenas o livro mais popular de Jane Austen; é um dos romances mais famosos e agradáveis ​​da língua inglesa. Publicado pela primeira vez em 1813, foi o segundo dos principais romances de Austen, após Razão e Sensibilidade, de 1811; ainda conserva um brilho juvenil quando comparado à perfeição formal de Emma ou à gravidade de Mansfield Park. Por dois séculos, os leitores têm se deliciado com os personagens e o humor que se encontra na obra. É um romance de humor e charme quase ilimitados, que resistiu às adaptações para o cinema e a televisão e às tentativas de defini-lo como um "conto de fadas" ou uma "comédia romântica".

Mesmo um leitor desconfiado de tais termos pode, a princípio, aceitar o romance pelo seu valor aparente: uma história de duas pessoas destinadas uma à outra, cada uma das quais deve superar uma das falhas que dão título à obra para alcançar seu final feliz; uma comédia de costumes que envolve nossas emoções, mas cuja certeza moral garante que os personagens recebam o que merecem.

A partir da frase de abertura, no entanto, as coisas não são o que parecem. Ela afirma declarar uma "verdade" que claramente não é verdadeira. O segundo parágrafo a contradiz imediatamente: não é o homem rico que está em busca de uma esposa; é a mãe de filhas que está em busca de maridos ricos. Jane Austen não apenas subverte ideias preconcebidas da sociedade, como também mina sua própria história e pede a ajuda do leitor para fazê-lo.

"Somos levados a aceitar que a profunda ignorância de Darcy sobre como se comportar pode ser 'corrigida' por uma garota espirituosa."

A glória deste romance reside principalmente na força vital de seus personagens, em especial Elizabeth Bennet, a mais cativante das heroínas literárias, que se apoia em seu próprio julgamento e vitalidade contra adversidades muitas vezes esmagadoras. Mas há uma riqueza na experiência de leitura que consiste em muito mais do que torcer por essa jovem espirituosa. Ela reside nos múltiplos e inconsistentes pontos de vista narrativos que Jane Austen adota. Como leitor, você se torna cúmplice deles, às vezes sem perceber. A virtude desse método é que o romance se torna satisfatório de maneiras mais complexas do que você espera inicialmente da leveza enganosa do tom; a desvantagem é que a exuberância do virtuosismo de Jane Austen pode criar problemas de interpretação.

O principal deles é o Sr. Darcy. Ele é, para dizer francamente, um homem bem horrível. O fio condutor da sua história – a essência da melodia, por assim dizer – é que, como órfão, herdeiro e irmão mais velho, ele foi tratado com demasiada reverência e passou a considerar muitas coisas e pessoas como "inferiores" a ele. No final, porém, por ter uma visão clara da sociedade, ser generoso com a sua fortuna e ter um coração bondoso apesar dos seus modos infelizes, ele só precisa se apaixonar por uma mulher que o trate não com deferência, mas como igual: então tudo ficará bem.

Matthew Macfadyen interpretou Darcy ao lado de Keira Knightley como Elizabeth na adaptação cinematográfica do romance em 2005 (Crédito: Alamy)
Embora seja certamente sedutor pensar em um homem arrogante aprendendo lições duras com alguém de uma classe social inferior, essa versão de Darcy não é tudo o que Jane Austen nos oferece. Ele também é imperdoavelmente cruel. "Você esperaria que eu me alegrasse com a inferioridade de suas conexões?", pergunta ele a Elizabeth, ao fazer seu pedido de casamento. E isso deveria realmente encerrar o assunto. A oferta relutante de matrimônio do Sr. Darcy demonstra menos autoconhecimento do que a do Sr. Collins algumas páginas antes; no entanto, somos levados a aceitar que a profunda ignorância de Darcy sobre como se comportar pode ser "corrigida" por uma garota espirituosa.

A inconsistência de ponto de vista ajuda a tornar os personagens vitais e verossímeis. Não sabemos exatamente como Elizabeth lidará com o próximo desafio porque nosso acesso aos seus processos mentais não é contínuo. Ela lida com as situações como pessoas reais: impulsivamente, de forma inconsistente e aprendendo à medida que avança. A maneira mutável como a história é contada nos permite sentir parte de um processo imprevisível.

'Uma melancolia mórbida'

Sente-se que Jane Austen quer que você reconheça essas qualidades contraditórias e chegue às suas próprias conclusões. O problema é que, uma vez envolvido nesse jogo de interpretação, você se sente no direito de questionar e desacreditar até mesmo a premissa básica da narrativa – especialmente no que diz respeito a Darcy. Dizem que ele é "inteligente", mas não há nenhum sinal disso: seus discursos têm pouca sagacidade e poucas de suas ações demonstram qualquer compreensão das outras pessoas. A chave para desvendá-lo é fornecida por Bingley, um sujeito simples, mas que conhece Darcy há muito tempo. Bingley parece sugerir que seu amigo é vítima de uma melancolia mórbida: "Declaro que não conheço objeto mais terrível do que Darcy, em certas ocasiões e em certos lugares; especialmente em sua própria casa, e em uma noite de domingo quando ele não tem nada para fazer." Mas Darcy raramente tem algo para fazer. Ele sugere, em tom de brincadeira, que o tio de Elizabeth vá pescar em sua propriedade em Pemberley, mas nunca pega uma vara de pescar ele mesmo.

"Às vezes, parece que estamos em um perigoso jogo de adivinhação contra uma inteligência superior – e uma que, como narradora, detém todas as cartas na manga."

Boa parte do comportamento de Darcy torna-se mais explicável se o considerarmos como alguém que sofre de uma espécie de depressão clínica. Ele não consegue se esforçar para ser educado em Netherfield, Rosings ou Longbourn: seu silêncio melancólico é o único fator comum nessas casas tão diferentes. Como seu primo, o Coronel Fitzwilliam – uma espécie de Darcy com boas maneiras – diz a Elizabeth: "É porque ele não se dá ao trabalho". Pense na maneira como ele chega e se senta em silêncio na casa dos Bennet quando Bingley renova sua corte a Jane; ou no ódio a si mesmo que revela quando Elizabeth finalmente se torna sua noiva, falando das falhas de seu passado que precisam ser enfrentadas: "Lembranças dolorosas irão surgir, que não podem, que não devem ser repelidas".

Colin Firth criou uma versão icônica do personagem melancólico na clássica série de TV da BBC de 1995 (Crédito: Alamy)
Quando finalmente se mobiliza, ele se mostra incapaz de assumir a responsabilidade pelas consequências. Ele aponta para Bingley o quão vulgares são os Bennet e afirma, erroneamente, que Jane não corresponde aos fortes sentimentos de Bingley. Darcy persuade Bingley a não retornar para sua casa em Hertfordshire e esconde dele o fato de que Jane está em Londres, onde Bingley poderia encontrá-la. Sobre esse engano, ele mais tarde diz a Elizabeth que "condescendeu de usar de certos artifícios" (mentiu, em outras palavras) e que "Talvez esse disfarce, essa ocultação, tenha sido indigno de mim... Não tenho mais nada a dizer, nenhuma outra desculpa a oferecer". O fato de um homem considerar seu próprio comportamento "indigno" e indigno de desculpas nos faz preocupar com seu estado mental. Mas a verdade é que Darcy precisa desesperadamente de Bingley por perto para suprir a energia que lhe falta. Ele não pode arriscar perder Bingley para Jane, ou terá que se casar com alguém "inferior" a ele – Elizabeth – para garantir a vitalidade antidepressiva de que precisa.

A ansiedade do leitor consiste em se perguntar o quanto Jane Austen quer que cheguemos às nossas próprias conclusões sobre Darcy. Às vezes, parece que estamos em um perigoso jogo de adivinhação com uma inteligência superior – e uma que, como narradora, detém todas as cartas na manga. Elizabeth, notoriamente, data a mudança de sua própria atitude em relação a Darcy ao momento em que o viu pela primeira vez nos jardins de sua grande casa. Ela não é obrigada por sua irmã Jane, pouco curiosa, nem pela autora, a dar uma resposta mais séria. Ela não usa a palavra "amor" para descrever seus sentimentos até depois do noivado.

Elizabeth realmente ama Darcy?

Uma nova tensão surge nas páginas finais do romance. Elizabeth está realmente "apaixonada" por Darcy e pode ser feliz com ele? O casamento deveria funcionar bem, do ponto de vista prático. Ele tem a casa e o dinheiro; ela tem a inteligência e a energia. Ela lhe dará a faísca vital que lhe falta; ele lhe dará a estabilidade e o status social que sua coragem e inteligência merecem. Mas o leitor moderno quer saber: ela realmente o "ama"? Como alguém poderia amar um homem que acredita que sua família é "repugnante" e "desagradável"?

Para encontrar respostas, devemos analisar o que inicialmente motiva Elizabeth a se aproximar de Darcy. Parece ser o constrangimento que ela sente por ter sido mal informada sobre o que aconteceu entre Darcy e Wickham. Há um forte componente de classe na vergonha de Elizabeth: ela não conseguiu entender, ou adivinhar, como as pessoas "inteligentes" se comportam; ela sente que sua indignação foi "de classe média" de uma forma humilhante. Ela está tão ansiosa para se redimir e restaurar seu amor-próprio que está até disposta a ignorar o fato de que Darcy, de forma egoísta, tentou arruinar a felicidade de Jane, a pessoa que ela mais ama.

Jack Lowden estrelará ao lado de Emma Corrin em uma adaptação da Netflix de Orgulho e Preconceito, com estreia prevista para 2026 (Crédito: Getty Images)
O que mais poderia fazê-la amar um homem assim? Bem, talvez haja a sensação de que ela pode cuidar dele como uma mãe ou "curá-lo" de sua melancolia, embora haja sinais de que ela já esteja exasperada quando o repreende: "Mas diga-me, por que você veio a Netherfield? Foi apenas para cavalgar até Longbourn e passar vergonha?" É necessária uma intervenção milagrosa – a de Lady Catherine de Bourgh – para levar Elizabeth a finalmente se apaixonar por Darcy.

E, no entanto, nas cenas finais, o ritmo de sua fala é amoroso; há uma clara correnteza de emoção nas páginas finais. O que torna o final do livro tão picante é que essa liberação de sentimento parece estar em desacordo com os fatos da situação. O Sr. Bennet expressa a dúvida por todos nós: "Agora dou [meu consentimento] a você, se estiver decidida a tê-lo. Mas permita-me aconselhá-la a repensar isso. Conheço sua disposição, Lizzy." É um consentimento, mas não é uma bênção.

Acho justo dizer que as ambiguidades são intencionais e que a ideia de Darcy como um galanteador romântico é uma ilusão do leitor, não uma intenção da escritora. O constrangimento de Elizabeth com o mal-entendido com Wickham é em parte uma humilhação de classe; mas o que há de errado se a vergonha social for o primeiro fator que impulsiona seus novos sentimentos por Darcy? Este é um mundo em que essas coisas importavam muito. Talvez, no fim, Elizabeth esteja ciente das limitações de Darcy e esteja "apenas apaixonada o suficiente" por ele; há claramente uma atração física a ser explorada; e a falta de amor pode muito bem ser compensada por uma consideração prática de encontrar o "melhor antídoto para a carência". E Darcy também faz concessões; em vez de ter uma amante animada, que lhe proporcionasse vitalidade como se fosse por prescrição médica, ele se prendeu para sempre a toda a família Bennet. Isso parece um reflexo fiel de como as coisas eram no mundo de Jane Austen. Os motivos são complexos; tudo é mais comprometido do que parece à primeira vista. O casamento era um assunto complicado em 1813.

A maneira como Jane Austen permite ao leitor espaço para especulações pessoais parece ousada e à frente de seu tempo; e a suspeita de que parte dessa liberdade seja concedida involuntariamente não diminui em nada a euforia de ler este livro. Podemos discordar sobre os personagens, mas o que parece indiscutível é que essas pessoas são reais. Independentemente de como reagimos a eles – e, no caso da maioria das pessoas, a reação muda ao longo dos anos – a família Bennet e seus amigos permanecem tão vibrantes, exasperantes e interessantes quanto qualquer outro que tenhamos conhecido na vida real.

É essa intensa vitalidade que tornou o livro tão amado por 200 anos – "Isso será ótimo, minha filha. Você já nos encantou por tempo suficiente" – e pode muito bem continuar a fazê-lo por mais 200 anos.

Este é um trecho editado da introdução de Sebastian Faulks a Orgulho e Preconceito, de Jane Austen: Os Romances Completos (Folio Society).


Jemima Rooper como Amanda Price  e Elliot Cowan como Mr. Darcy em Lost in Austen (2008).
No texto, o autor defende que, em Orgulho & Preconceito, Jane Austen deixa muito espaço para interpretação. Para ele, Mr. Darcy tem depressão e ele vai defendendo a sua tese. Não sei, não sei mesmo.  Sempre percebi o Darcy de 2005 como tímido, o de Colin Firth como demasiado preocupado com como as pessoas o viam, um tanto sobrecarregado pelas responsabilidades.  Já o de David Rintoul era a encarnação do senso de superioridade de classe e um tanto sem traquejo social, mas muito sociável a partir do momento que se sente confortável. Cada ator dá o tom do seu Darcy. Mas e no livro?  Será que o Darcy de Jane Austen era depressivo? Realmente, não sei.

Agora, discordo dele em algumas colocações. Não há conflito de classe social entre Darcy e Elizabeth, porque eles pertencem ao mesmo grupo, a (landed) gentry, pequena nobreza. Sim, pequena nobreza não quer dizer ser pobre, simplesmente significa que você pode não ter título ou ter um título de nobreza menor, como baronete, que é hereditário, ou cavaleiro, que não é. Darcy não tem título, porque o pai dele não tinha. A mãe dele era filha de um conde, isto é, pertencia à alta nobreza (*ton*). O povo lá de Bridgerton é pertencente à alta nobreza. Só que alguém da gentry poderia ser mais rico que um duque, mas não tinha o título. 
Elizabeth Garvie como Elizabeth Bennet e David Rintoul como Mr. Darcy em Orgulho & Preconceito (1980).
Dito isso, sim, há uma desigualdade econômica entre os Darcy e os Bennet, a mãe de Elizabeth era de uma condição inferior, isto é, era de uma família burguesa, além disso, não era  uma mulher refinada, mas a linhagem se faz pela linha paterna. Por isso mesmo, uma das passagens que eu mais gosto do livro é quando Lady Catherine de Bourgh, tia de Darcy, confronta Elizabeth e tenda colocá-la no que ela acredita ser o lugar da moça e a protagonista a confronta: "Ele é um cavalheiro, eu sou filha de um cavalheiro. Assim sendo, somos iguais." ("He is a gentleman, I am a gentleman's daughter. So far we are equal".).  Fosse Elizabeth alguém de classe média, como o autor do texto coloca, esta frase não faria sentido nenhum.  Acredito que o que causa o constrangimento à Elizabeth é o fato dela se sentir provinciana e tão pouco educada, tanto no sentido acadêmico quanto no conhecimento do mundo.

E, bem, Lady Catherine não faz Elizabeth se apaixonar por Darcy, mas a faz compreender seus sentimentos por ele e enunciá-los, ainda que de forma indireta.  Acho que é isso.  Tenho vários outros artigos para traduzir e ainda tenho várias resenhas para escrever.  A da 4ª temporada de Bridgerton, inclusive.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Orgulho e Preconceito aos 20: Como uma adaptação fascinante se tornou a comédia romântica definitiva do século XXI (Artigo Traduzido)

Sob o efeito dos 250 anos de nascimento de Jane Austen, temos o aniversário de vinte anos do filme Orgulho & Preconceito de 2005.  No final do texto do The Independent, está escrito que ele voltará aos cinemas britânicos em abril.  No Brasil, ele esteve em cartaz no final do ano passado.  Este filme, eu assisti no cinema.  Me senti impactada por ele até assistir as minisséries da BBC de 1995 e 1980.  Teve função em minha vida, abriu portas, mas o que me fez ler o livro foi outro livro, Lendo Lolita em Teerã, sobre uma professora universitária de Literatura Inglesa durante e depois da Revolução Islâmica.  Ela faz um júri simulado de Mr. Darcy.  Foi esse livro, mas que o filme, que me fez ler Austen.  Mas, sim, a cena da flexão de mãos é a melhor do filme.  Não sabia que tinha sido improvisada.

Muito bem, o texto é excelente.  Carregado de afeto e preciso ao nao fazer pouco caso de outras adaptações, mas ressaltar os motivos que tornaram o filme de 2005 tão importante. Eu preciso revê-lo, porque das grandes adaptações de Orgulho & Preconceito é o única que não tem resenha no canal.  Para quem quiser uma resenha em formato de vídeo extremamente apaixonada, elegante e bem fundamentada, recomendo o vídeo da Eneida Queiroz.  Vale  a pena assistir.  Ah, sim!  Tive que mexer na formatação, porque o texto tem um vídeo e eu substituí por uma foto.

Orgulho e Preconceito aos 20: Como uma adaptação fascinante se tornou a comédia romântica definitiva do século XXI

Duas décadas após seu lançamento, a interpretação exuberante de Joe Wright do clássico de Jane Austen – estrelada por Keira Knightley, indicada ao Oscar – continua sendo um marco geracional de tirar o fôlego para millennials e a Geração Z. Clarisse Loughrey celebra seu legado, sua ousadia… e seu infame gesto de flexão de mão

A sabedoria convencional nos diz que existem cinco linguagens do amor: presentes, atos de serviço, tempo de qualidade, toque físico e palavras de afirmação. Mas, como os fãs da adaptação de Orgulho e Preconceito de Joe Wright, de 2005, bem sabem, existe uma sexta secreta: o gesto de flexão de mãos. Essas três palavras se referem a um breve momento, narrativamente insignificante, nunca descrito na obra-prima de Jane Austen, de 1813. Elizabeth Bennet (Keira Knightley), a segunda mais velha de cinco irmãs, todas em busca de casamentos, chega a Netherfield Park para visitar sua irmã Jane (Rosamund Pike), que está incapacitada por um resfriado contraído enquanto cavalgava na chuva para ver o belo e rico Charles Bingley (Simon Woods) – exatamente como sua astuta mãe (Brenda Blethyn) planejou.

O confidente mais próximo de Bingley, o Sr. Darcy (Matthew Macfadyen), está lá. Elizabeth o acha arrogante e taciturno. Eles trocam farpas sutis enquanto aguardam a recuperação de Jane. Finalmente, as irmãs se despedem dos moradores de Netherfield Park e embarcam em sua carruagem para voltar para casa. Só que esta versão repentinamente foca na expressão de Elizabeth. Ela olha para baixo, em choque – a palma da mão de Darcy acariciou a dela, guiando-a gentilmente até seu assento. Ele não diz nada. Ele se vira sem quase nenhum contato visual.

Então, a câmera dá o golpe final: um close dos dedos de Darcy abertos enquanto os músculos se contraem, como se ele estivesse tentando se livrar do fantasma do toque dela. Isso, o chamado "flexão da mão", encapsula perfeitamente o tipo de euforia romântica que se apegou à versão do diretor Wright para o romance de Austen, que retorna agora aos cinemas do Reino Unido para marcar o 20º aniversário de seu lançamento.

Orgulho e Preconceito foi bem recebido em seu lançamento, recebendo quatro indicações ao Oscar – entre elas a de Melhor Atriz para Knightley – e a nota máxima do crítico Roger Ebert, que o declarou “uma das adaptações mais encantadoras e comoventes feitas de Austen ou de qualquer outro autor”. No entanto, para o público millennial e da Geração Z, o filme se tornou algo maior e mais definitivo, um marco de sua juventude e desenvolvimento romântico.

Na internet, a expressão “flexão de mão” – apesar do momento ter se originado como uma improvisação de Macfadyen – tornou-se uma abreviação para qualquer expressão de desejo tortuosamente sutil. A distribuidora americana Focus Features, como parte do relançamento do filme, começou a vender produtos com a expressão “flexão de mão”, incluindo camisetas e broches. A artista Jenna Lee Ahlman, por sua vez, pinta e vende suas próprias interpretações da cena.

“A primeira vez que vi [o filme], fui transformada atomicamente”, ela me conta. “É a personificação do olhar feminino. Ele ficou tão sem palavras com um simples toque que precisou reagir fisicamente? Me derrete como um sundae de sorvete.” A princípio, ela havia escolhido a cena apenas como referência para um estudo de mãos, “mas não imaginei que sentiria um frio na barriga enquanto pintava. Eu ria o tempo todo e sinto que consegui infundir toda essa apreensão na obra. Agora não consigo parar.”

A adaptação de Wright é menos uma tradução literal e mais uma porta de entrada para o mundo de Austen (Shutterstock)

Seria fácil psicoanalisar o apego dos millennials e da Geração Z ao gesto de "flexionar a mão" como uma rejeição subconsciente do nosso cenário de encontros cada vez mais digitalizado e impessoal. Não existe equivalente ao "flexionar a mão" no Tinder; não há como comunicar um anseio silencioso de uma forma que não seja inevitavelmente interpretada como ghosting. No entanto, a abordagem tátil de Wright para Orgulho e Preconceito, e suas origens no roteiro de Deborah Moggach, vai além da repressão emocional romantizada – é uma maneira de revelar sutilmente a psique de seus personagens ao público antes mesmo de Austen fazê-lo em sua obra.

Como Ferdosa, crítica e aficionada por dramas de época que escreve para o Muses of Media, me disse: “Para realmente apreciar o gesto de flexão de mão, é preciso ver e reconhecer o precursor, a dupla olhada. Quando o Sr. Darcy, ladeado pelos Bingleys, atravessa o salão de baile, ele vê Elizabeth e sua cabeça balança para frente e para trás. Ele pensou que tinha sido esperto com a rápida recuperação, mas o pobre Sr. Darcy foi pego. Ele teve uma reação instantânea de ‘amor à primeira vista’”.

A adaptação para a TV da BBC de 1995 do romance, estrelada por Jennifer Ehle e Colin Firth e apresentando sua própria sequência delirante do Sr. Darcy emergindo, com a camisa molhada, de um lago, permanece inegavelmente a adaptação mais fiel do romance de Austen. Ferdosa, no entanto, considera a adaptação de Wright "concisa, mas fiel ao material original", condensando os longos namoros nessas apresentações sutis, porém provocativas, do desejo (um momento subestimado: um Bingley apaixonado, seguindo Jane pela pista de dança, segura alegremente uma fita na parte de trás do vestido dela e se deixa conduzir como um animal de estimação).

Portanto, é mais eficaz não como uma tradução literal (deixem as críticas de lado, puristas), mas sim como uma porta de entrada para o mundo de Austen, habilmente revitalizado para uma nova geração. "Provavelmente devo agradecer a Joe Wright por me apresentar a Jane Austen, pois me apaixonei por suas obras por um tempo graças a ele", observa Ahlman.

Joe Wright dirige Knightley no set (Shutterstock)

A escritora e acadêmica Drª. Gabrielle Malcolm, que editou a coletânea de ensaios Fan Phenomena: Jane Austen e escreveu There’s Something About Darcy, este último dedicado inteiramente ao estudo da “Darcymania”, defende o papel dessas adaptações mais acessíveis como uma espécie de chave mestra para aqueles que são novos na prosa de Austen.

“Conversei com muitos fãs internacionais de Austen ao longo dos anos e é a isso que eles sempre retornam”, ela me diz. “Até que seus estudos de inglês se tornassem bons o suficiente para ler os romances originais, eles tinham as adaptações, que os ajudavam a entender e acompanhar a narrativa e a ter uma noção da sociedade. Esse tipo de cena – a ‘camisa molhada’ ou o ‘gesto de mão’ – resulta em uma espécie de código e um vocabulário universal para os fãs de Austen em todo o mundo. Sabemos o que significa – nós ‘entendemos’ – assim como Austen também entendia!”

O que se perde nessa mistura é parte da "brilhante selvageria" da sátira de Austen, e "o desafio e a rebeldia que o romance possui", atenuados em favor de versões mais explicitamente românticas (e mais explicitamente simpáticas) de Elizabeth e Darcy. Para Austen, o casamento deles não era apenas uma vitória do coração, mas uma vitória contra a rígida hierarquia social. A autora era, como Malcolm descreve, "uma defensora da autonomia, da mobilidade e da capacidade de decisão das mulheres", cujo próprio senso de modernidade era personificado por uma frase (cortada do filme), na qual Elizabeth declara firmemente que o Sr. Darcy é "um cavalheiro, eu sou a filha de um cavalheiro. Nesse aspecto, somos iguais."

O roteiro de Moggach minimiza a presença da tia de Darcy, Lady Catherine de Bourgh (Judi Dench), e da irmã de Bingley, Caroline (Kelly Reilly), que no romance são apresentadas como antagonistas à ascensão social de Elizabeth. Wright, por sua vez, expressa essa tensão ambientando o filme na década de 1790, quando Austen começou a trabalhar em um romance intitulado "Primeiras Impressões", que eventualmente se tornaria Orgulho e Preconceito. No período entre a concepção do livro e sua publicação final em 1813, os efeitos da revolução industrial criariam o que Malcolm chama de "distinções sociais mais sutis".

Jena Malone, Donald Sutherland, Rosamund Pike, Brenda Blethyn, Carey Mulligan, Keira Knightley e Talulah Riley no filme (Shutterstock)

O filme de Wright, no entanto, mantém uma divisão mais rígida entre cidade e campo – entre os ares refinados de Darcy e a animada casa de fazenda dos Bennet, onde cães, galinhas e um porco com testículos avantajados interrompem a ação com prazer. Para o público moderno, é essa energia particular que o diferencia. Como Ferdosa observa, “Ele se entrega ao esplendor e ao romantismo da época, ao mesmo tempo que é muito realista e cru”.

De acordo com Malcolm, o “uso – invenção dela – do que hoje chamamos de ‘estilo narrativo indireto livre’” por Austen está no cerne de sua popularidade duradoura, em sua capacidade de alternar rapidamente entre tons e perspectivas, inserindo sua própria voz e sagacidade na história. “É por isso que os fãs gostam dela, como pessoa, e acreditam que poderiam ser amigos da própria Jane!”, acrescenta ela. E há uma certa sensação dessa conexão entre público e narrador na atuação de Knightley, particularmente em seus olhos, que oscilam entre travessura, brilho intenso e raiva, mas que sempre parecem nos convidar, o espectador, a compartilhar essa emoção com ela.

Há também uma emotividade marcante no Darcy de Macfadyen. Ele é menos resistente e arrogante do que as versões anteriores, sendo, em vez disso, “um introvertido profundamente leal que protegerá aqueles que ama”, como descreve Ahlman. “Darcy é um personagem mais simpático. Você o vê com sua clavícula provocante passeando pelo campo e é o auge do romance!” Mas essa melancolia (e essa “clavícula provocante” também) levou Malcolm a sugerir que “o Darcy de Macfadyen se aproxima mais de um estilo vitoriano – como o Sr. Rochester de Jane Eyre – do que de um cavalheiro da Regência”.

“As cenas matinais de Darcy caminhando pelos campos na neblina são típicas da região de Brontë! Enquanto Charlotte não gostava ou não aprovava a obra de Austen, acho que ela teria gostado desta versão!” Brontë também pode ser vista na cena de Elizabeth em pé em uma crista de arenito, olhando dramaticamente para o Vale Hope, no Parque Nacional Peak District, com o vento açoitando seu casaco. Austen morreu um ano depois do nascimento de Charlotte Brontë. É difícil dizer se ela teria desaprovado da mesma forma as paixões febris de Jane Eyre.

Mas para Wright, claramente, o truque funcionou. Ele adaptou Desejo e Reparação (2007), de Ian McEwan, e Anna Karenina (2012), de Leo Tolstoy, de maneira muito semelhante, estabelecendo uma tendência de adaptações de época em grande parte fiéis, embora espirituosas, que Ferdosa aponta terem sido desafiadas recentemente por “dramas de época que são interpretações anacrônicas e pós-modernas impulsionadas pela estética e pela cultura pop” – o exemplo mais óbvio, claro, sendo a série Bridgerton, da Netflix, uma versão mais leve de Austen. Dito isso, será que Simon Basset (Regé-Jean Page) teria lambido aquela colher se não fosse pelo “gesto de flexibilidade da mão”?

Macfadyen e Knightley na estreia de ‘Orgulho e Preconceito’ em Toronto, em 2005 (Getty)

Seja como for, Orgulho e Preconceito viverá feliz nos corações de seus fãs, um lembrete constante de que uma mulher nascida há quase 250 anos compartilhou nossos mesmos sentimentos de desgosto, de irmandade e de ter 27 anos sem dinheiro e sem perspectivas. “Minha lembrança mais querida de assistir Orgulho e Preconceito foi durante um período difícil na universidade”, diz Ferdosa. “Revi o filme e, pela primeira vez, me dei conta de que ‘Os Bennets têm uma forte ligação com a cultura somali’. O tempo, o lugar, a religião, a etnia e o modo de falar dos personagens eram estranhos para mim, mas me senti conectada. Me senti representada.”

“Sempre que me sentia triste ou esperançosa quando criança, desde meu primeiro desgosto amoroso até as comemorações de aniversário, minha despedida de solteira e a recuperação após duas cesarianas, Orgulho e Preconceito era uma constante”, acrescenta Ahlman. “Este filme me acompanhou por toda a minha vida.”

‘Orgulho e Preconceito’ volta aos cinemas em 25 de abril.