domingo, 26 de abril de 2020

Comentando Razão & Sensibilidade (Inglaterra/EUA/1995): A melhor adaptação de uma obra de Jane Austen para o cinema


Ontem, aproveitei a solidão da manhã, isto é, todo mundo dormindo e eu acordada, para rever Razão & Sensibilidade (1995). Já estava pensando em fazer isso fazia tempos, mas as fotos do Alan Rickman pipocando na minha TL do Facebook durante a semana terminaram definindo as coisas.  Para quem não sabe, Razão & Sensibilidade foi o primeiro livro publicado pela autora, que assinou "A Lady" para não ter sua identidade revelada.  Não foi o primeiro que escreveu, mas aquele que conseguiu chegar às mãos do grande público.  

O ano era 1811, quando mulheres autoras muitas vezes se escondiam sob pseudônimos masculinos, anonimato, ou arriscavam-se a toda sorte de  humilhações e recriminações. Razão & Sensibilidade é uma trama que carrega dentro de si todos os elementos que marcam a obra de Jane Austen.  Temos o forte elo entre irmãs.  A crítica às injustas leis inglesas relacionadas à herança e que prejudicam tanto as mulheres, quanto os filhos caçulas.  Temos o casamento como um destino necessário para as mulheres bem nascidas e a questão do dote, ou da falta dele, como um definidor de sua sorte. 


Duas irmãs muito diferentes.
Em Razão & Sensibilidade somos apresentados às irmãs Dashwood, Elinor (Emma Thompson), Marianne (Kate Winslet) e Margaret (Emilie François), que junto com sua mãe (Gemma Jones) são expulsas de Norland, em Sussex, pelo meio-irmão mais velho (James Fleet) e herdeiro de toda a fortuna do pai (Tom Wilkinson).  O patriarca havia feito o sujeito jurar que seria justo com a madrasta  e as irmãs, mas sua esposa, Fanny (Harriet Walter), termina por demovê-lo de sua promessa.  A urgência em mandá-las embora se torna ainda maior quando Fanny percebe o interesse de seu irmão Edward Ferrars (Hugh Grant) por Elinor, a mais sensata das irmãs.

Reduzidas a uma renda muito pequena, a família se muda para Barton Cottage, em Devonshire, graças à oferta de um primo distante da Sr.ª Dashwood, Sir John Middleton (Robert Hardy).  O cavalheiro, que no filme é viúvo, reside com sua sogra, a Sr.ª Jennings (Elizabeth Spriggs), cujo maior interesse é casar toas as pessoas que puder.  Em casa de Sir John, as Dashwood conhecem o Coronel Brandon (Alan Rickman), um amigo da família, homem muito gentil e honrado, mas com uma história de vida bem sofrida.  O Coronel termina caindo de amores por Marianne, que tem 16 anos, e não cogita a possibilidade de aceitar o amor de um homem tão mais velho que ela.


Edward surpreende um breve momento
de emoção de Elinor.  Ela vai guardar esse
lenço como uma relíquia.
Depois de sofrer um acidente, Marianne é resgatada por John Willoughby (Greg Wise), sobrinho de uma vizinha dos Middleton.  Ele é um jovem encantador e parece compartilhar dos interesses e ter uma alma tão apaixonada quanto a da moça.  Todos creem que os dois vão se casar e Marianne não tem nenhum receio de exibir publicamente o seu amor por Willoughby, que herdaria uma fortuna da tia e parecia não estar se preocupando com o fato da moça ter um dote minguado.  Enquanto isso, Elinor sofre em silêncio por amar Edward e crer não ser correspondida, ou que ele não tem coragem o suficiente para enfrentar a oposição de seus familiares e se casar com ela.

As coisa, claro, podem piorar, porque Elinor acaba sendo apresentada à Lucy Steele (Imogen Stubbs) que a toma por confidente e se apresenta como noiva secreta de Edward Ferrars.  Elinor para a ser guardiã de um segredo que lhe dilacera a alma.  Já Marianne, acaba sendo recusada por Willoughby, que precisa casar bem apesar de amá-la.  Antes das duas conseguirem alcançar a felicidade, sim, porque Jane Austen não deixaria suas heroínas na mão, teremos muito sofrimento e alguns mal entendidos antes de um belo desfecho.


Margaret é uma fofura.  Gosto muito dela no filme.
Razão & Sensibilidade deve ter sido a primeira produção adaptada de livro de Jane Austen que eu assisti na vida, muito antes de ler qualquer coisa dela.  Acredito que fazia quase uns vinte anos que eu não via o filme completo, do início até o fim. Não tenho nenhum problema em afirmar que é a melhor adaptação de Jane Austen para os cinemas das que eu vi, porque mesmo mexendo em elementos importantes da história, essas alterações terminam pesando a favor da obra e, não, contra ela.

A principal mudança é na idade das personagens.  A produção idealizada por Lindsay Doran demorou cinco anos para se concretizar  e Emma Thompson, que ficou responsável pelo roteiro (*que quase se perdeu...*), não esperava encarnar uma das protagonistas.  No livro, Elinor tem 19 anos.  Emma Thompson tinha 35 quando das filmagens.  A produtora propôs uma alteração crucial, Elinor passaria a ter 27 anos e seria uma solteirona.  Só há uma protagonista de Austen que tem essa idade, Anne Elliot de Persuasão.


Uma das fotos mais bonitas do Alan Rickman que eu já vi.
Alterada a idade, há vários momentos do roteiro em que o fato de Elinor ser uma "solteirona", e que poderia acontecer o mesmo com Marianne, foram introduzidas.  Ao mexer na idade de Elinor, tiveram que mexer na idade de Edward Ferrars, que deveria ter 23 anos no início do livro, Hugh Grant tinha 35.  Como Elinor, sua mãe, Edward eram mais velhos, escalaram Alan Rickman para ser o Coronel Brandon.  No livro, ele começa com 35 anos, ainda que a expressão "do lado errado dos 35 anos" indique que ele pudesse parecer mais velho.  Aumentou-se então o abismo de idade entre ele e Marianne.  Já Margaret, que tinha 13 anos e parecia caminhar para ser uma cabeça de vento, foi transformada em uma esperta tomboy de 11 anos. 

O filme de 1995 foi a primeira adaptação de Razão e Sensibilidade para o cinema, antes disso, o livro tinha sido adaptado para a TV pela BBC em 1971, com 4 episódios de 50 minutos, e em 1981, com sete episódios de cerca de 25 minutos.  Tudo isso é facilmente baixável pela internet.  Consegui as duas séries ontem.  Essas primeiras adaptações eliminam a irmã caçula.  Já a adaptação de 2008, com três episódios, tenta ser mais fiel ao livro.  Mas por qual motivo estou enrolando tanto?  Vamos ao filme, enfim.


Essa cena da colheita de juncos me pareceu meio sem
muita razão de existir, salvo, claro, para o Coronel ajudar Marianne.
Entendido que Razão e Preconceito mexeu em alguns detalhes o filme segue bem de perto o livro.  A película recebeu sete indicações ao Oscar: filme, melhor atriz, atriz coadjuvante, fotografia, figurino, trilha sonora e roteiro adaptado.  Emma Thompson levou o prêmio de melhor roteiro adaptado e é a única pessoa a ter premiações por melhor atriz (*Retorno à Howards End*) e roteiro.  Me pergunto como não indicaram o Alan Rickman para ator coadjuvante.

Alan Rickman tem uma interpretação excepcional nesse filme e muito bonito, também.  O ator consegue materializar em olhares e gestos contidos todo o sofrimento e a angústia da personagem por amar, não ser amado, e perceber que a o romance de Marianne e Willoughby vai dar errado.  E quando temos a sequência da tentativa de suicídio de Marianne, porque neste filme ela tenta tirar a própria vida quando está na residência dos Palmer, acredito que é impossível não sentir a dor do Coronel Brandon.  Ele parece impotente diante da possível perda da moça e suplica que Elinor lhe dê uma tarefa, ou ele irá enlouquecer.


Marianne e Willoughby exibiam seu
amor para o mundo inteiro.  Quando iriam se casar?
O Coronel Brandon deve ser o mais sofrido dos mocinhos de Jane Austen e, ao mesmo tempo, a interpretação de Alan Rickman lhe confere o auto controle que alguém na posição dele deveria externar.  Quando no livro Margaret e Marianne falam que ele está do lado errado dos 35 anos, não deve ser só por maldade, mas porque ele deveria efetivamente parecer mais velho.  E, sim, ele me parece vulnerável sem derramar lágrimas, solução e fungar como o Mr. Knightley do último Emma.  

Aliás, antes que eu me esqueça, o único mocinho de Austen que eu imagino capaz de chorar em público e parecer plausível é Edward Ferrars.  Acho interessante e interpretação de Hugh Grant, mas, ao mesmo tempo, o tipo de personalidade de Edward pedia efetivamente que ele fosse jovem.  Como um sujeito chegaria aos 30 e poucos anos tão dependente da mãe?  De qualquer forma, ele transmite toda a timidez e a angústia (*porque como esse filme é cheio de gente angustiada*) da sua posição.  


Marianne permite que Marianne e Willoughby
corte uma mecha de seu cabelo como um talismã.
Ele é um cavalheiro, ele se comprometeu com uma mulher precipitadamente e quando se descobre realmente apaixonado, está envolvido em um noivado secreto que não pode romper.  Agora, efetivamente, a trama dele, dada a idade do ator, fica um tanto fora de lugar.  No livro, Edward tinha 18 anos quando empenhou sua palavra com Lucy Steele.  No filme, ele teria trinta.  Fica difícil de engolir, mas, vá lá, nenhum filme é perfeito.

E por conta desse rolo todo, temos o sofrimento de Elinor e a possibilidade de Emma Thompson oferecer uma das melhores interpretações de sua vida.  A Elinor de Emma Thompson parece carregar o mundo nas costas e precisa esconder seus sentimentos o tempo inteiro.  Como é constrangedora a situação de amizade forçada de Lucy Steele e suas confidências, ou a obrigação de esconder a todo o custo o seu sofrimento.  E, como é um filme de detalhes, a cena em que Steele faz questão de usar um lenço com o monograma de Edward na frente de Elinor é particularmente cruel.


Lucy Steele, a noiva de Edward.
Quando, no final, a atriz arranca aquele soluço do fundo da alma ao descobrir que Edward está livre e veio ao seu encontro, eu consigo acreditar que a coisa era real, ainda que não fosse.  E isso, claro, depois de duas horas meio que sofrendo junto com ela e o Coronel Brandon, porque Edward aparece muito pouco, apesar do nome de Hugh Grant, na época em alta em Hollywood, aparecer em quarto lugar nos créditos.

E temos Marianne... Revendo o filme tanto tempo depois e bem mais velha, consegui sentir empatia pela personagem.  Marianne Dashwood é a protagonista de Jane Austen que menos gosto, continua sendo.  A vejo como leviana, egoísta, mas, ao mesmo tempo, consigo perceber o quão imatura ela era e como foi fácil se tornar vítima de um sedutor como Willoughby.  Talvez, um dos meus problemas em perceber Marianne como uma adolescente venha do fato de Kate Winslet, que era uma adolescente à época, sempre me parecer mais velha do que era de verdade.  


Boa parte do filme, Marianne só o esnoba.
Antes que eu me perca, desta vez, pelo menos, consegui ver Marianne mudando e amadurecendo com o sofrimento.  Aceitar o Coronel Brandon era uma saída honrosa para alguém que estava manchada pelo escândalo, sem dúvida, mas consegui ver sentimentos genuínos da parte dela.  Não paixão, claro, mas a percepção de que é possível amar de várias maneiras.  O filme também foi muito eficaz em mostrar o sofrimento de Willoughby, a cena final do ator no alto da colina observando o casamento da moça, e em trazer para dentro do filme uma discussão prática e bem austeniana.  O amor sobreviveria a uma carteira vazia?

Agora, que ninguém pense que estou relevando Willoughby, porque ele faz parte daquele grupo dos boy lixo de Jane Austen.  Ele não abandonou Marianne, a quem tentam nos convencer que ele amava de verdade, mas, antes disso, tinha seduzido e abandonado grávida uma adolescente, Elisa, chamada de Beth no filme.  E, claro, por aqueles acasos de Jane Austen, ela era protegida do Coronel Brandon.  Lembrem-se, também, que Lydia tinha 15 anos quando Wickham a seduziu e que a irmã de Darcy tinha a mesma idade quando ele tentou fazer o mesmo com ela.  Austen gosta dessa idade.


O genro e a sogra.
O resto do elenco está muito bem.  Acho que a eliminação da esposa de Sir John torna a permanência da Sr.ª Jennings na casa do genro um tanto estranha, mas é menos complicado lidar com isso do que com um Edward Ferras mais velho do que sua trama permite.  Outro destaque é Harriet Walter que faz uma Fanny absolutamente detestável, cruel e sem nenhuma capacidade de solidariedade com os desfavorecidos.  Ela merece ser chamada de vilã sem nenhum desconto.

É divertidíssimo ver o casal Palmer atuando, Imelda Staunton e Hugh Laurie, são a exacerbação da animosidade respeitosa do Sr. e Sr.ª Bennet, porque, enfim,o marido trata a esposa muito mal mesmo.  Já Richard Lumsden, Robert Ferras pode ser o filho favorito, mas como está deliberadamente feio nesse filme.  E, sim, Emilie François, que faz Margaret é uma gracinha.


O casal Palmer.  
Modificar a personagem, transformá-la em uma tomboy no meio daquele processo de enquadramento para se tornar uma dama (*"Não corra!" "Se não tem nada melhor para falar, fale do tempo."*) é bem divertido. É através da menina que o filme discute algumas questões de gênero de forma contundente e sem parecer forçado.  Fala-se da herança ser preferencialmente passada de pai para filho, da precariedade da situação das mulheres.  

Por outro lado, acredito que poucas obras de Jane Austen tenham tocado tão bem nas injustiças que poderiam acontecer, também, com os homens.  O Coronel Brandon era caçula, foi impedido de casar com a mulher que amava e mandado para longe de casa.  Mesmo um filho mais velho, caso de Edward, poderia ter sua vida atrapalhada por pais autoritários, afinal, ele não poderia escolher sua profissão.  E é engraçado quando Sir John exclama que um homem sem profissão certamente é um cavalheiro.  Sim, mesmo na Inglaterra, um cavalheiro preferencialmente vivia de rendas.  


Fanny, a vilã, e Robert, o irmão feio.
Edward quer ser clérigo, é uma profissão decente para alguém de sua classe social, não é esse o ponto, e, curiosamente, a mãe transfere suas expectativas e bens para o irmão caçula.  Poderia acontecer, mas não sei quais os percursos jurídicos que ela seguiu.  De qualquer forma, deveria ser difícil a rebeldia de um filho, ainda mais colocando em risco sua herança, e o ato extremo de deserdá-lo.  Agora, é nessa atitude corajosa de Edward que Jane Austen mostra o abismo entre um homem honrado e disposto a enfrentar as dificuldades que a vida lhe colocar e um Willoughby.  Ah, sim!  No livro, a mãe perdoa o filho, afinal, o que o caçula do coração apronta com ela...  

Caminhando para o fim, considero Razão & Sensibilidade de 1995 a melhor adaptação para o cinema de um livro de Jane Austen.  O elenco é competente, as alterações não prejudicam a história, as discussões de gênero (*nesse caso as limitações e injustiças impostas às mulheres*) e outras importantes na obra da autora estão dentro do roteiro.  O figurino é bonito e fiel na medida que um filme precisa ser, os cabelos são adequados.  E recomendo uma visita ao canal do Youtube da Oxford Academics, pois as entrevistas com o editor de Razão & Sensibilidade discute vários temas pertinentes ao livro e que podem ser percebidos no filme.


E, sim, o filme termina com dois bonitos casamentos.
Um ponto curioso, é engraçado, e, neste caso, não olhei o livro, a maioria das personagens chama Marianne pelo nome, mas ela é tão informal e atirada que não me parece fora do lugar.  Ela permite essa intimidade.  Aliás, Razão & Sensibilidade é construído no contraste entre Marianne, que não tem freios, que trabalha com o coração, e Elinor, que tenta ser racional e sofre escondendo seus sentimentos.  E, pelo menos neste filme, eu sofri junto.  


Não tem beijo no filme e não fez falta.  A única cena de beijo
foi cortada e está nos extras do DVD.
Mesmo já tendo visto a película, houve momentos em que eu quase chorei do nada.  Pode ser o momento em que a gente vive, essa história de pandemia tem me feito mal, pode ser o Alan Rickman, cuja morte é algo difícil de digerir até hoje, mas é o filme, também.  muito injusto que o Ang Lee, o diretor, não tenha recebido a sua indicação, também.  Se eu tiver tempo, assisto a minissérie de 2008 e tento resenhar.

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