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sábado, 27 de junho de 2026

The Other Bennet Sister terá um especial de Natal

The Other Bennet Sister, que ainda preciso terminar de assistir, é uma série muito simpática e centrada em Mary, a irmã Bennet mais desajeitada e apagada em Orgulho & Preconceito, de Jane Austen.  Muito bem, depois de uma série de 10 episódios, as personagens retornarão para um especial de Natal em três partes.  Segundo a BBC, a série fez um imenso sucesso no Reino Unido, no Canadá, nos EUA e nas redes sociais.  

Janice Hadlow, autora do romance The Other Bennet Sister, irá participar do roteiro, que será sobre o que acontece depois que Mary (Ella Bruccoleri) aceita se casar com Tom Hayward (Donal Finn).  Como a série foi muito bem executada, a gente simpatiza e torce por Mary e a ideia do especial é bem-vinda.  Fiz uma resenha dos primeiros episódios da série, ela está aqui.

quinta-feira, 28 de maio de 2026

Peça teatral na Alemanha junta Doctor WHO e a Rosa de Versalhes

O Dokomi é o maior festival da Alemanha dedicado a anime, mangá, jogos, cosplay, J-pop e cultura japonesa.  É realizado anualmente em Düsseldorf desde 2009, inicialmente por dois dias, e desde 2023 por três dias.   Uma das atrações deste ano é uma peça crossover de DOCTOR WHO com a Rosa de Versalhes.  Sim, é isso mesmo!  Para quem estiver interessado em saber qual a proposta, o conteúdo do post do evento está abaixo:

"🎭 Apresentando o espetáculo: “Doctor Who - A Rosa de Versalhes”

Um Senhor do Tempo errante, um comandante em conflito e uma revolução à beira do caos.

Quando a TARDIS aterrissa na França do século XVIII, o Doutor e Donna encontram não apenas ideais revolucionários, mas também Lady Oscar, dividida entre o dever e a emoção. Linhas temporais começam a ruir, a própria realidade está em jogo e dois seres misteriosos intervêm no destino da França com poder divino.

Vivencie o musical crossover único da Serenata, com vocais ao vivo poderosos, figurinos deslumbrantes e coreografias cativantes. Uma história repleta de drama, suspense e emoção, com espaço para risadas atrás de elegantes leques. 🎶✨

📍 Palco Preto
🗓️ Sábado
🕦 12:00"

sexta-feira, 3 de abril de 2026

Série da ITV com Elizabeth I trans: Vem aí mais polêmica vazia e gritaria!

Hoje fiquei sabendo por  um artigo de um jornal britânico que o canal ITV está produzindo uma série em seis partes chamada Majesty, focada em Elizabeth I (1533-1603).  No tal seriado, o maior monarca da Dinastia Tudor seria  uma mulher trans.  O artigo, que tem um paywall que eu não consegui quebrar, acusava a série de ser misógina, porque pensar uma Elizabeth trans reforçaria a ideia de que uma mulher não poderia ser um governante forte e competente.  Fui lá  investigar essa história, porque, se a série chegar a sair mesmo, teremos muito bate-boca, confusão e transfobia.

Muito bem, não sabia, mas existe uma teoria da conspiração do século XIX que afirma que Elizabeth morreu aos 9 anos e foi substituída por um menino que se parecia fisicamente com ela.  O ano era 1542, havia peste em Londres, e a menina e os funcionários responsáveis por ela deixaram a capital e foram para Overcourt House na vila de Bisley, em Cotswolds.  O rei os encontraria lá, mas a governanta da princesa, temendo a reação de Henrique VIII ao saber da morte da filha, fez a tal troca.  O Mito do Menino de Bisley ('Bisley Boy’ myth) surgiu em meados do século XIX, quando um túmulo de uma menina com roupas da Era Tudor foi encontrado na vila de Bisley e o vigário local chamado Thomas Keble inventou a história.

A história tornou-se parte do folclore local e poderia ter sido esquecida se não tivesse sido revisitada por um autor famoso.  Em 1910 ela ganhou notoriedade, quando foi mencionada por Bram Stoker, criador de Drácula, em seu livro "Impostores Famosos". Teóricos da conspiração a aproveitaram como explicação para o fato da Rainha Virgem se recusar a casar e ter filhos.  Ao que parece, a tal história não se montou, como estão querendo alardear, por não se acreditar que uma mulher pudesse ser uma governante tão impressionante, afinal, a Rainha Vitória estava ali aos olhos de todos, mas por ela deliberadamente ter evitado o casamento, algo que  poderia denunciar a sua identidade masculina.  Por qual motivo uma mulher, ainda mais correndo o risco de ter o poder usurpado por um marido, não iria querer se casar, não é mesmo?  Maternidade  é tudo  para uma mulher... 

Segundo a página Elizabeth Files, em um artigo de vários anos atrás, Bram Stoker foi muito além do surto e defendeu que o menino seria Henry Fitzroy (1519-1536), Duque de Richmond, filho de Henrique VIII fora do casamento e morto aos 17 anos, mesmo o rapaz sendo  bem mais velho que Elizabeth.  Prefiro a versão em que Henry Fitzroy virou vampiro e escritor de romances Harlequin (*no seriado de TV, ele virou quadrinista.*).  Muito bem, a proposta da série, anunciada em 2024, é a seguinte: "Majesty é uma história alternativa emocionante, divertida e com um toque contemporâneo, sobre como três forasteiros tentam sobreviver enquanto escondem um segredo que, se descoberto, abalaria a Inglaterra até seus alicerces. Majesty nos permite nos divertir com a história ao mesmo tempo que ilumina quem somos hoje. Esta série é a pura realização de um desejo: como pessoas dedicadas ao bem comum de repente se encontram em uma posição de fazer a diferença.". 

Vejam que isso poderia gerar uma série ficcional despretensiosa, que seria assistida e esquecida sem maiores problemas. Isso se acabar saindo, porque faz bem uma década que a ITV anunciou uma nova versão de Orgulho & Preconceito, que pela primeira vez colocaria na tela todos os sentimentos conturbados e eroticidade da obra original (!!!!) e estamos esperando essa bomba até agora.  Enfim,  vivemos um momento de  guerra cultural e, por conta disso, há muita gente surtando na imprensa inglesa e em sites especializados em séries de época por conta dessa série.  É como se um seriado pudesse reescrever a História.  Está me lembrando o escândalo por causa da Ana Bolena negra em uma série color blind (*1 - 2*) e como muita gente não se atenta para isso e fica achando que o seriado estava dizendo que a mãe de Elizabeth era negra.

A vida de Elizabeth é muito bem documentada.  O corpo de um rei ou rainha era público e os Tudor tiveram os seus particularmente bem monitorados.  Sabemos o que comiam, o que vestiam, o preço de suas roupas, temos informações sobre suas doenças e, no caso de Elizabeth, até seus ciclos menstruais.  Enquanto ela foi vista como noiva em potencial por vários príncipes europeus, os embaixadores buscavam registrar os ciclos da rainha e tudo o que pudesse sugerir a sua possível fertilidade.  Comentei sobre isso tempos atrás quando falei do filme da Rainha Cristina da Suécia, que menstruava, ainda que pudesse ser intersexo.  Não há dúvidas de que Elizabeth era uma mulher cis.

A  rigor considero a  leitura de  que a série será ofensiva às mulheres fruto da tensão existente na Inglaterra hoje em relação à questão das pessoas trans.  E eu duvido que tenhamos mulheres trans envolvidas na produção para além da atriz que fará a protagonista.  E o Mito do Menino de Bisley foi criado e ampliado por homens cis.  Agora, é  fato que há sempre gente disposta a pegar  um mito ou teoria da conspiração e transformar em verdade pessoal, headcanon histórico, por assim dizer.  Vide a Rainha Charlotte ser negra ou que Marx e Engels eram um casal.

O artigo do Them comenta que há acadêmicos que teorizam que Elizabeth seria não-binária por  chamar-se a si mesma de rainha, rei ou príncipe em momentos diferentes.  Bem, ela ocupava um lugar muito complicado e tinha consciência disso.  Precisava se remeter à  figura paterna para justificar sua posição, porque além de haver a preferência por um monarca do sexo masculino, sua origem a fazia ser ilegítima aos olhos de vários de seus súditos.  Ser mulher não era um bônus para  ela, mas isso não sugere nada em relação a sua identidade de gênero, só que ela era uma mulher em um lugar de homem e que poderia ser, mesmo assim, tão capaz quanto qualquer homem.  E isso transparece no famosíssimo discurso de Tilbury, em que Elizabeth fala às suas tropas antes do embate com a Invencível Armada, em 1588.  Ele está em qualquer série ou filme sobre Elizabeth e a frase famosa é "Sei que tenho o corpo de uma mulher frágil e delicada, mas tenho o coração e a coragem de um rei.".

De novo, a série que está por vir trata-se de uma ficção como tantas outras e, não, revisionismo histórico reacionário, como argumenta o artigo do site Unheard.  É um exercício de imaginação histórica que falará mais sobre os nossos dias do que sobre o passado.  Elizabeth continuará lá, magnífica, poderosa e uma mulher que se considerava única, porque tinha corpo de mulher e coração de homem (*ou assim ela queria ou dizia acreditar*).  Aliás, ninguém coloque na cabeça que Elizabeth era defensora dos direitos das mulheres ou da subversão dos papéis de gênero.  Simplesmente, ela herdou a coroa e deveria levá-la com a dignidade de um Tudor, honrando tanto seu pai quanto sua mãe.  

Mas, sim, essa série pode fazer com que gente tome a teoria da conspiração como verdade de um lado e que no outro o pessoal alucine acreditando que a peça de ficção é uma agressão às mulheres cis, enquanto os tablóides sensacionalistas, como o The Sun, lucrarão muito com isso.  E aposto que será color blind  para fechar o pacote, o que vai deixar ainda mais gente urrando de raiva.  Mais uma coisa, só não sei como uma situação limite dessas, de risco iminente de descoberta poderá ser vista como DIVERTIDA.  Eu prefiro esperar para ver se sai mesmo e o quão doido esse negócio será. 

quinta-feira, 19 de março de 2026

The Other Bennet Sister parece muito melhor do que eu poderia esperar: Resenha da Nova Série da BBC

Estreou no dia 15 de março a nova série da BBC The Other Bennet Sister.  Baseada no livro de mesmo nome de  Janice Hadlow, a série terá 10 episódios e faz parte das celebrações dos 250 anos de nascimento de Jane Austen.  Dois deles foram lançados de uma vez, não sei como será semana que vem e não consegui entender direito se no streaming da BBC foram lançados mais episódios, mas parece que sim.  Enfim, isso não importa, o que quero comentar é como esse início foi simpático, delicado e melancólico.  Mesmo acrescentando coisas ao original de Jane Austen, o roteiro foi muito respeitoso e convincente.

Só situando as coisas para quem não conhece Orgulho & Preconceito, Mary Bennet (Ella Bruccoleri) é a irmã do meio da família que é central no romance de Austen.  Acima dela estão a protagonista Elizabeth (Poppy Gilbert) e a irmã mais bonita, Jane (Maddie Close); abaixo dela estão as duas cabeças de vento, Kitty (Molly Wright) e Lydia (Grace Hogg-Robinson).  Jane tem a estima do pai e da mãe, Elizabeth é a favorita do pai, Lydia é a favorita da mãe e Kitty é a minion da irmã caçula.  Já Mary é vista como sem graça e meio que condenada a ficar solteira.  Como os Bennet não têm um filho homem, pelas regras da propriedade da família, tudo irá  para o parente masculino mais próximo.  Por conta disso, Mrs. Bennet está desesperada para ver suas filhas casadas; se não conseguir, muito provavelmente terminarão em uma situação econômica muito ruim.

No livro, Mary parece desesperada por alguma atenção.  Ela se esforça no piano, mas não consegue tocar bem.  Tenta cantar, mas é desafinada. Quer parecer culta, mas só soa pedante e moralista. Essas características estão na série, mas no segundo episódio.  No primeiro, temos uma Mary que, mesmo se sentindo inferior às irmãs, ainda sonha em ser amada.  Vemos a jovem indo ao optometrista, que é simpático, gentil e visivelmente apaixonado por ela como ela é.  Hill, a criada da família e que está no livro original, tem um papel importante na série, porque ela é a  única pessoa na casa que parece se preocupar com Mary, demonstrando simpatia e afeto pela jovem.  É ela que se preocupa em preparar um belo, ainda que simples, vestido para que a moça vá ao baile.  Observem o contraste entre a roupa de Mary e a das irmãs.  Algo bem interessante é que Hill é interpretada por Lucy Briers, a Mary Bennet da série de 1995.

O baile é aquele no qual conhecemos Mr. Bingley, suas irmãs e Mr. Darcy, mas o foco está em Mary e no seu flerte com o jovem optometrista, que se chama John Sparrow (Aaron Gill).  Só que o encanto se quebra quando Mrs. Bennet intervém e proíbe Mary de dançar uma terceira vez com o moço.  Duas vezes já demonstra deferência, três vezes poderia sugerir algo mais.  Mas Mrs. Bennet (Ruth Jones) quer que as filhas se casem, só que se Mary se comprometer com um sujeito de uma classe inferior, ela poderá atrapalhar os casamentos das irmãs.  Elas, mesmo não tendo tantos recursos, são membros da gentry (*pequena nobreza rural*); já o rapaz, apesar de muito bem-educado e respeitável, vive do seu trabalho; ele não é um cavalheiro para os padrões da época.  

Lembram de Emma tentando evitar que Harriet Smith se case com Robert Martin? O filme Emma da ITV é o que melhor retrata essa questão.  Ela crê que a moça órfã seja filha de um cavalheiro, já o rapaz arrenda terras de Mr. Knightley e  vive da agricultura.  É um fazendeiro respeitável, mas não para se casar com uma moça da gentry.  Seria um casamento desigual e indigno.   O resultado é que Mary precisa dizer para Sparrow que não pode mais dançar com ele.  O rapaz entende bem o que está acontecendo e a expressão no seu rosto é de cortar o coração.  Sei que ele não deve voltar, mas queria que Mary acabasse rompendo com a mãe e ficando com ele.

Quando vi o ator Aaron Gill imaginei que ele seria de origem indiana.  Seria fácil explicar a presença do jovem, mas a questão racial não é trazida por Mrs. Bennet.  Além disso, no baile há várias figurantes que não são brancas.  Enfim, a série é mais uma produção color blind, isto é, a cor dos atores e atrizes do elenco não faz diferença, porque ninguém tem cor.  Como optaram por esse caminho, estão fazendo a coisa do modo errado, porque todo o elenco principal é branco.  Pega até mal colocarem atores não-brancos  para "colorir" o fundo.  Seria melhor não ter ninguém.  Isso invalida a série?  Não.  Mas é algo que tira um pouco do seu brilho.  De personagens "de cor" até agora na série temos Mrs. Gardner (Indira Varmaé interpretada por uma atriz de ascendência indiana e outra personagem que não apareceu ainda, Ann Baxter (Varada Sethu) é indiana mesmo.  E há ainda uma Miss Clarke (Seraphina Beh), que é interpretada por uma atriz negra.


Retornando, a origem de Mrs. Bennet é no grupo social de Mr. Sparrow; ela casou para cima.  Sabemos disso se atentarmos à reserva que as irmãs de Bingley e Darcy têm em relação ao tio de Elizabeth, Mr. Gardiner (Richard Coyle), que mora em Londres e precisa trabalhar, mesmo que sua ocupação seja respeitável, que ele tenha excelentes condições financeiras e seja mais cavalheiro do que muitos dos nobres que circulavam nos livros de Jane Austen.  A ideia da série é que Mrs. Bennet acredita que suas filhas devem se casar dentro do seu grupo social (*algo que é herdado do pai*) e se Mary ficar solteira, tudo bem, afinal, alguém precisa cuidar dos pais idosos.  Mrs. Bennet nesta série é muito cruel com Mary; o livro não sugere tanto.   É por causa desse trauma que Mary desiste do amor e decide ser a personagem que conhecemos no livro.  Ela abandona suas leituras leves (*ela já lia antes, mas eram romances, livros de História*) e passa a ler Filosofia, coletâneas de sermões.  Coisas que ela não entende ou são chatas mesmo.  Acredita que, assim, terá alguma relevância, talvez conseguindo a estima do pai.

No episódio dois, conhecemos Mr. Collins.  O ator que o interpreta, Ryan Samson, parece ir  na linha do Mr. Collins de David Bamber, que faz o papel na série de 1995.  Só que ele é ainda mais baixinho.  Acho chato que a única produção que acompanhou o livro ao escalar a personagem foi Orgulho & Preconceito & Zumbis, que escalou Matt Smith.  Mr. Collins é jovem, muito alto e desengonçado.  Só que geralmente escalam um ator  que parece passado dos 30 e meio atarracado.  O ator que faz Mr. Collins nessa produção já tem 40 anos, ainda  que pareça ter menos idade.

Mrs. Bennet, assim como no livro, quer empurrar Lizzie para o primo distante que irá herdar tudo.  Só que Mary é convencida por Charlotte Lucas (*que foi a primeira a aconselhar Mary a não dançar uma terceira vez com Sparrow*) a tentar conquistar Mr. Collins, porque ele e Lizzie não combinam.  Charlotte convence a jovem a se sacrificar pela família e se salvar do pior destino para  uma mulher, ficar solteira (*e dependendo da bondade da família*).  E ela se esforça.  Na série, Mr. Collins, diante da frieza e sarcasmo de Lizzie, começa a olhar para Mary, que sabe sermões de cor e toca piano.  Só que, mais uma vez, Mrs. Bennet intervém e rebaixa a moça.  Mr. Collins está reservado para Lizzie, ela não deveria interferir.  

Quando Lizzie rejeita Collins, Mrs. Bennet vê em Mary uma possibilidade, mas Charlotte parece perceber que pode ser sua última oportunidade de se casar.  Como Collins diz que aprecia mulheres que  sabem cantar, Charlotte estimula a moça a cantar sabendo que Mary não canta bem.  Charlotte nessa série é bem cobra criada.  Eu vi malícia nas ações  dela com o intuito de enredar Mr. Collins.  Ela meio que planejou tomar Mr. Collins para si.  Enfim, Mary canta no baile em Netherfield, do mesmo jeito que está no livro, vira motivo de chacota e envergonha toda a família.  Algo que difere do livro é que Mr. e Mrs. Gardiner estão no baile e que Elizabeth se desculpa com Mary por ter pedido ao pai para tirá-la do piano.

Falando em Elizabeth, não consigo ver a personagem do livro na atriz (Poppy Gilbert).  É uma moça bonita, ainda que sem sobrancelhas (*gosto de sobrancelhas*), mas seus olhos não me remetem aos "fine eyes" (*olhos bonitos*) do livro.  A atriz que faz a Jane, Maddie Close, não me pareceu tão bonita assim.  O par Lydia e Kitty (Grace Hogg-Robinson e Molly Wright) é engraçado e elas usam roupas combinando.  Foi uma boa ideia.  Achei o Mr. Bingley (Aled Owen) muito testudo, mas é o penteado, porque achei ele muito bonito nas fotos que achei.  E ele parece mais velho do que é.  Outro que foi enfeiado é Victor Pilard, o Mr. Darcy.  Ele ficou parecendo o Mr. Darcy "vampiro" de um quadrinho de Orgulho & Preconceito que chegou a sair no Brasil.  Mas Darcy e Bingley nem têm falas, ou tiveram até o momento, eles só aparecem de longe. Quem tem falas e humilha Mary é Caroline Bingley (Tanya Reynolds). Mesmo assim, é interessante não terem eliminado Louisa Hurst (Lucinda Dryzek), a outra irmã de Bingley, e seu marido (Fergus Craig).

Ruth Jones é uma Mrs. Bennet extremamente cruel.  Não a vemos dando chilique, o foco não é esse.  Ela continua mal-educada, mas o foco é em como ela parece desprezar a filha feia.  Richard E. Grant está deliciosamente divertido como Mr. Bennet.  Altíssimo nível de ironia e deboche mesmo.  E fica parecendo que Mary é a filha fisicamente mais parecida com ele.  Ainda assim, fora na parte dos óculos, que causam horror à mãe e às irmãs, ele apoia a filha, mas morre aí; ele é o mesmo pai negligente do livro e de qualquer outra adaptação.  Mary é invisível e precisa buscar um lugar onde possa ser valorizada e amada.

Falando da atriz que faz Mary, Ella Bruccoleri, ela consegue passar uma melancolia muito grande para a filha que não é amada.  A série abre com Mary pensando que já é muito ruim ser bela e pobre, mas ser sem graça (plain) e pobre é uma tragédia.  A atriz não é bonita, mas não é feia.  Fizeram bem em escolher alguém que não está dentro daquela caixinha do "basta se arrumar que ela fica linda".  Ela sempre será alguém fora do padrão, bem diferente das irmãs.  Feliz escolha é não investir na linha "ela não é como as outras garotas", porque Mary quer ser como as outras, mas ela sempre foi empurrada para trás pela mãe, sempre foi negligenciada pelo pai e meio que ignorada pelas irmãs, não sendo a favorita de ninguém.  Somente a criada lhe dá algum carinho.

Quanto ao figurino, achei bonito e apropriado.  O pessoal que fica de olho em reutilização de roupas, pontuou que pelo menos um vestido que aparece sendo usado por Elizabeth veio da série da BBC de 1980 (*resenhas aqui*).  Deve haver outras roupas recicladas.  As figurantes do primeiro baile pareciam somente OK, mas as personagens com falas tinham roupas boas, até os sapatos no baile, quando aparecem, são bem bonitos.  Algo a se destacar é que todas as mulheres  usavam cabelo preso.  O único penteado que poderia estar melhor é o de Mrs. Bennet, que precisava ter algo cobrindo a cabeça para indicar que ela era uma mulher casada.  Fora isso, não tenho do que reclamar.


No final do episódio dois, até Kitty aparece casada.  Não precisavam correr  com isso, bastava até seguir o livro com Kitty passando temporadas com as irmãs que casaram bem, Jane e Elizabeth, e Mary ficando para trás.  Mas foi uma escolha da série.   Mary fica sozinha com os pais e uma grande tragédia acontece, algo que vai mudar a vida da personagem.  Vamos ver como fica a situação no episódio três.  Espero que tenhamos dois episódios de uma vez.

domingo, 15 de março de 2026

Hoje estreia The Other Bennet Sister!

Esqueci de postar, mas saiu um pedacinho de The Other Bennet Sister, série da BBC que faz parte das comemorações dos 250 anos de nascimento de Jane Austen, e podemos ter uma ideia de qual será o tom da série.   Por exemplo, não imaginei pensei que teríamos material do original misturado na série.  

De resto, Mary não era só pobre (poor) e sem atrativos físicos (plain), ela era falsa moralista, fingia uma erudição que não tinha, não era uma garota fofa. Nessa abertura passeando no campo,Mary parece mais uma Elizabeth.

Outra coisa, a Elizabeth dessa série não me convence como Elizabeth. Esse cabelo da Mrs. Bennet é estranho; Richard E. Grant deve arrasar como Mr. Bennet. E se teremos material original do livro, será que teremos dois Darcy este ano?  Teremos, sim!  E o tal Victor Pilard é bonitão.  Parece  mais interessante que o Darcy da Netflix.  The Other Bennet Sister é baseado no livro homônimo de Jannice Hadlow.

quarta-feira, 11 de março de 2026

O que ‘Bridgerton’ entende errado sobre espartilhos (Artigo Traduzido)

Não sei por qual motivo esse artigo antigo apareceu para mim, mas ele não é ruim, na medida em que coloca no lugar algumas questões importantes e ainda explica a cena do espartilho em E O Vento Levou, mesmo que perca de vista que Scarlett não faz aquilo por ser jovem e solteira, mas por ser tremendamente vaidosa, algo que ela leva ao longo do livro e que está no filme.  De resto, é sempre aquela coisa festiva de que as mulheres não seriam bobas de usar uma coisa incômoda, quando práticas detestáveis nos são impostas e reforçadas o tempo inteiro, inclusive o sutiã.  Eu fui obrigada a usá-lo a partir dos dez anos e me acostumei.  E olha que o texto tem até a defesa do espartilho pelo costume.  Uma criança não escolhe e uma mulher que quisesse parecer decente ou precisasse parecer aceitável, porque poderia ser punida por pai, mãe, marido etc.  também não.  A graça é acreditar que temos tanta liberdade, quando convém, claro, pois volta e meia é essa história de espartilho que é trazida para a discussão.  Queria ver esse mesmo raciocínio usado para as mulheres girafas, os pés de lótus chineses ou mesmo o hijab.  Você se acostuma, então, é normal.  E é mesmo, não é verdade?  De resto, as roupas íntimas de Bridgerton são abomináveis.  Não são práticas, não são bonitas, não são sensuais.  São somente ideias ruins.

Se quiserem ler o original, ele está aqui.  As imagens que consegui trazer para o post estão nos lugares de origem, mas havia dois carrosséis com várias fotos e não consegui colocar no blog. Iria dar muito trabalho.  Enfim, é isso, segue a tradução.

O que ‘Bridgerton’ entende errado sobre espartilhos

Os direitos das mulheres eram severamente restringidos na Inglaterra do século XIX, mas suas roupas íntimas não eram as culpadas

Rachel Kaufman - Colaboradora

A representação de espartilhos no episódio de estreia de "Bridgerton" é mais um exemplo da mesma mitificação presente na cultura popular. Captura de tela via Netflix

Na cena de abertura do sensual drama de época da Netflix, "Bridgerton", Prudence Featherington, uma das filhas solteiras da ambiciosa Lady Featherington, está se vestindo para ser apresentada à rainha da Inglaterra. Prudence se curva, ofegante, enquanto uma criada aperta ainda mais os laços de seu espartilho.

"Eu conseguia espremer minha cintura até o tamanho de uma laranja e meia quando tinha a idade de Prudence", diz Lady Featherington.

Muitos filmes, tanto históricos quanto fantásticos, têm uma cena semelhante. Pense em Scarlett O'Hara, de "E o Vento Levou", agarrando-se desesperadamente a um poste da cama; Elizabeth Swann, em "Piratas do Caribe", com o espartilho tão apertado que mal consegue respirar; Rose, em "Titanic", em uma cena quase idêntica; Emma Watson, interpretando Bela na versão live-action da Disney de "A Bela e a Fera", declarando que sua personagem é independente demais para usar um espartilho.

Outro elemento compartilhado por algumas dessas cenas, entre muitas outras? Nenhuma das personagens que sofrem com a dor tem controle sobre a própria vida; em cada cena, uma figura de autoridade (as mães de Prudence e Rose, o pai de Elizabeth) diz a elas o que devem fazer. É uma metáfora bastante óbvia, afirma Alden O'Brien, curador de figurinos e têxteis do Museu das Filhas da Revolução Americana em Washington, D.C.

“Ter uma cena em que elas dizem ‘mais apertado, mais apertado’ é obviamente uma representação dos papéis restritos das mulheres na sociedade”, diz O’Brien.

O problema é que quase todas essas representações são exageradas ou simplesmente erradas. Isso não significa que Shonda Rhimes, criadora de "Bridgerton", tenha errado em sua representação dos direitos das mulheres no início do século XIX, durante o período da Regência — de fato, eles eram severamente restringidos, mas a culpa não era das roupas íntimas.

"Não se trata tanto do espartilho em si, mas sim da psicologia da cena", afirma Kass McGann, historiadora da moda que já prestou consultoria para museus, programas de TV e produções teatrais ao redor do mundo, e que fundou e é proprietária do blog e loja de figurinos históricos Reconstructing History, em um e-mail.

Ao longo de quatro séculos de inúmeras mudanças na moda, as roupas íntimas femininas passaram por grandes variações em nome, estilo e formato. Mas para aqueles cuja compreensão de dramas de época se baseia unicamente em séries e filmes como "Bridgerton", essas diferentes peças são erroneamente agrupadas sob o rótulo de espartilho.

Se definirmos um espartilho como “uma peça de roupa íntima estruturada para o torso feminino”, diz Hilary Davidson, historiadora da moda e autora de *Dress in the Age of Jane Austen*, os primeiros espartilhos surgiram no século XVI como resposta à moda feminina, que se tornava mais rígida e “geométrica”. O espartilho, reforçado com barbatanas de baleia, junco ou até mesmo madeira, de fato moldava o corpo feminino no formato de cone invertido que estava na moda, mas as mulheres não necessariamente apertavam seus espartilhos o suficiente para alcançar esse formato. Em vez disso, usavam enchimentos ou aros para dar a impressão de uma cintura mais larga (algo semelhante aos enchimentos de quadril da era elisabetana), o que, por sua vez, fazia a cintura parecer mais fina.

Essa forma persistiu mais ou menos até o período da Regência, no início do século XIX, quando houve "todo tipo de invenção, mudança e experimentação" na moda, diz Davidson. Durante esse período de 20 anos, as mulheres tinham opções: podiam usar espartilhos, peças estruturadas com barbatanas que mais se assemelham à concepção atual de um corset; macacões, roupas íntimas muito macias e acolchoadas, mas ainda assim com boa sustentação; ou corsets, que ficavam em algum lugar entre os dois. O'Brien diz que os corsets do período da Regência eram feitos de algodão macio ("imagine um jeans azul, só que branco") com cordões de algodão mais rígidos para sustentação e, ocasionalmente, canais nas costas para as barbatanas e uma abertura na frente para um suporte de metal ou madeira chamado barbatana. (Lembre-se, porém, que esses suportes eram feitos sob medida para o corpo de cada pessoa e abraçavam suavemente suas curvas.) Eventualmente, o termo corset (do francês para "pequeno corpo") prevaleceu em inglês, e a forma se consolidou no formato de ampulheta que conhecemos hoje.

Mas, na verdade, essas peças íntimas eram apenas "peças de roupa normais", diz Davidson. As mulheres tinham uma variedade de opções, assim como as mulheres de hoje "têm um espectro de possibilidades, do sutiã esportivo ao Wonderbra". Aquelas que simplesmente ficavam em casa usavam seus espartilhos mais confortáveis, enquanto outras, que iam a um baile, poderiam "usar algo que desse uma silhueta mais elegante". Até mesmo as mulheres que trabalhavam usavam algum tipo de peça de roupa com amarração e sustentação como essas — desmentindo a ideia de que vestir um espartilho causava desmaios imediatamente. Para Davidson, o mito de que as mulheres "andavam por aí com essas coisas desconfortáveis ​​que não podiam tirar, por causa do patriarcado" é realmente irritante. "E elas aguentaram isso por 400 anos? As mulheres não são tão bobas", afirma.

Essas peças eram confortáveis, acrescenta Davidson, não apenas pelos padrões da época — as mulheres começaram a usar algum tipo de peça de roupa com espartilho e sustentação quando eram meninas, então já estavam acostumadas com elas na idade adulta — mas também pelos padrões modernos. O’Brien concorda: “Ter algo que desça mais pelo busto… eu realmente gostaria disso, porque distribuiria melhor o suporte.”

Na era vitoriana, após “Bridgerton”, os espartilhos evoluíram para um formato mais de ampulheta — o formato que muitas pessoas imaginam quando pensam em um espartilho desconfortável, que comprime os órgãos e deforma o corpo. Mas, novamente, as percepções modernas do passado moldam a forma como pensamos sobre essas peças íntimas. Davidson afirma que as saias eram maiores nessa época — “quanto mais larga a saia, menor a cintura parece”. Os museus costumam exibir espartilhos em manequins como se as bordas se encontrassem. Na realidade, eles provavelmente eram usados ​​com as bordas separadas por alguns centímetros, ou até mais folgadas, se a mulher assim desejasse.

McGann sugere que uma das razões pelas quais os espartilhos são associados à dor é porque as atrizes falam sobre o desconforto que sentem ao usar um espartilho inadequado para um papel. "Em muitos casos, os espartilhos não são feitos sob medida para a atriz, mas sim um espartilho de tamanho padrão é usado por conveniência", diz McGann. "Isso significa que elas estão usando espartilhos que não lhes servem adequadamente e, quando apertados demais, podem causar dor!"

Então, na era da Regência e em outros períodos, as mulheres apertavam os laços de seus espartilhos além do que era confortável — ou saudável — para conseguir uma cintura mais fina, de acordo com a moda? Claro, algumas faziam isso, quando queriam impressionar alguém (e, aliás, Davidson considera a cena do espartilho em "E o Vento Levou" muito precisa, já que Scarlett O'Hara é jovem, solteira e está tentando causar uma boa impressão). Em "Bridgerton", a insistência da socialite Lady Featherington em que suas filhas tenham cinturas finas parece igualmente lógica. Exceto que... na era da Regência, em que os vestidos caem a partir do busto, qual seria o sentido de ter uma cintura fina? "A ideia de apertar o espartilho ao máximo é completamente inútil... irrelevante para a moda", diz Davidson.

"Não há como aquele espartilho de época [afinar a cintura dela], e não é essa a intenção", acrescenta O'Brien.

Davidson tem outra ressalva em relação às escolhas de moda íntima de "Bridgerton" (pelo menos no primeiro episódio, que ela assistiu a pedido da revista Smithsonian). Os espartilhos e corpetes do período da Regência eram projetados menos para criar o decote que o público moderno considera atraente e mais para levantar e separar os seios como "dois globos redondos", diz Davidson. Ela acha os espartilhos de "Bridgerton" muito planos na frente.

Em uma entrevista para a Vogue, a figurinista de "Bridgerton", Ellen Mirojnick, explicou sua filosofia sobre as roupas da série: "Esta série é sexy, divertida e muito mais acessível do que um drama de época comum e contido, e é importante que a ousadia dos decotes reflita isso. Quando você vê um close, há muita pele à mostra. Exala beleza." Mas, segundo Davidson, “embora buscassem sensualidade, decote e máxima exposição, o corte das roupas, na verdade, achatava os seios de todas. Se tivessem voltado ao estilo de espartilho da Regência, o busto teria muito mais destaque. Seriam seios enormes.”

“Bridgerton”, no entanto, acerta em muitos aspectos sobre o status da mulher no início do século XIX. O casamento era uma das únicas opções para mulheres que não queriam morar com parentes pelo resto da vida, então o foco da série em encontrar “bons parceiros” no matrimônio é pertinente. Uma vez casada, a mulher se tornava legalmente propriedade do marido. Ela não podia assinar contratos ou fazer um testamento sem o consentimento dele.

Em meados do século XIX, as mulheres conquistaram avanços significativos em relação à propriedade de bens e ao divórcio. Contudo, foi somente em 1918 na Inglaterra e em 1920 nos Estados Unidos que (algumas) mulheres puderam votar. Por volta da mesma época, os espartilhos estavam saindo de moda, e muitos escritores da época viram uma conexão entre a libertação do espartilho e a libertação feminina.

Em "Bridgerton", jovens mulheres da era da Regência vestem espartilhos antes de serem apresentadas à Rainha Charlotte. Liam Daniel / Netflix

O'Brien afirma que, olhando para trás agora, essa conclusão não se sustenta. “Há muitos escritores dizendo: ‘Ah, somos muito mais libertadoras do que aquelas vitorianas terríveis, hipócritas e reprimidas, e nos livramos do espartilho.’ Bem, me desculpem, mas se vocês observarem as cintas modeladoras da década de 1920, elas faziam exatamente a mesma coisa: usavam roupas íntimas para criar a forma da moda da época”, o que, nos loucos anos 20, significava usar cintas elásticas e faixas para comprimir os seios para “reprimir completamente a forma natural da mulher”.

“A sociedade sempre tem um ideal de corpo que será impossível para muitas mulheres alcançarem, e cada mulher escolherá até onde ir na busca por esse ideal, e sempre haverá algumas que levam isso a um extremo que coloca suas vidas em risco”, acrescenta O’Brien.

O’Brien e Davidson esperam que as pessoas parem de pensar nos espartilhos como ferramentas opressoras do patriarcado ou como lembretes dolorosos da obsessão feminina pela moda. Essa atitude “tira a autonomia feminina”. O’Brien afirma: “Estamos deixando que os caprichos da moda nos dominem, em vez de escolhermos fazer algo a respeito”.

Usar um espartilho era “tão opressivo quanto usar um sutiã, e quem obriga as pessoas a usar sutiã de manhã?” (Algumas mulheres em 2021, depois de meses de reuniões por Zoom e trabalho remoto, podem estar se fazendo exatamente essa pergunta agora.) “Todas nós fazemos escolhas individuais”, diz Davidson, “sobre o quanto modificamos a nós mesmas e nossos corpos para nos encaixarmos nos grupos sociais em que vivemos”.

É mais fácil pensar em espartilhos como “estranhos, incomuns e do passado”, diz Davidson. Pensar em um espartilho como uma ferramenta opressiva do patriarcado antigo implica que nós, mulheres modernas, somos mais esclarecidas. Mas, acrescenta Davidson, “Não usamos espartilhos porque os internalizamos. Hoje em dia você pode usar o que quiser, mas por que toda a publicidade na internet diz ‘8 truques estranhos para uma cintura fina’? Nós fazemos Pilates.” Usar um espartilho exige muito menos suor e esforço do que fazer Pilates.”

quinta-feira, 5 de março de 2026

The Other Bennet Sister, uma das séries comemorativas dos 250 anos de nascimento de Jane Austen, estreia este mês

The Other Bennet Sister, nova série da BBC baseada no romance de Janice Hadlow, estreia no dia 15 de março.  A sinopse da série, que terá 10 episódios, é a seguinte: "The Other Bennet Sister oferece uma nova perspectiva sobre uma das personagens mais discretas de Jane Austen: Mary Bennet. Obrigada a sair da sombra das irmãs, Mary embarca em uma jornada de autodescoberta – encontrando o amor e, principalmente, a si mesma ao longo do caminho."  Mary Bennet será interpretada por Ella Bruccoleri.  A série estará disponível na BBC ONE e no serviço BBC iPlayer.  O último trailer veio em formato vertical e no formato normal.  Ele está abaixo.

segunda-feira, 2 de março de 2026

'Ele é um homem tão horrível': Por que os leitores estão enganados sobre o Sr. Darcy (Artigo traduzido)

Ainda no espírito da celebração dos 250 anos de nascimento de Jane Austen, encontrei esse texto na BBC; trata-se de um fragmento da introdução da edição de Orgulho & Preconceito da Folio Society.  É esta belíssima  (*e caríssima*) edição aqui.  O autor da introdução é o novelista e jornalista Sebastian Faulks.  Nunca li nada dele, nem o conhecia.  Vou comentar algumas coisas do texto, mas estará depois da tradução.  Como sempre, tentei manter a estrutura do artigo original, que pode ser lido na página da BBC.  Agora, acho que o título do artigo é click bait mais do que qualquer coisa.

'Ele é um homem tão horrível': Por que os leitores estão enganados sobre o Sr. Darcy

Sebastian Faulks

Em grande parte infeliz e até mesmo "imperdoavelmente cruel", o famoso herói romântico de Jane Austen não é o que parece, escreve o autor Sebastian Faulks, em um trecho exclusivo da Folio Society, para marcar o 250º aniversário do nascimento de Austen.

Orgulho e Preconceito não é apenas o livro mais popular de Jane Austen; é um dos romances mais famosos e agradáveis ​​da língua inglesa. Publicado pela primeira vez em 1813, foi o segundo dos principais romances de Austen, após Razão e Sensibilidade, de 1811; ainda conserva um brilho juvenil quando comparado à perfeição formal de Emma ou à gravidade de Mansfield Park. Por dois séculos, os leitores têm se deliciado com os personagens e o humor que se encontra na obra. É um romance de humor e charme quase ilimitados, que resistiu às adaptações para o cinema e a televisão e às tentativas de defini-lo como um "conto de fadas" ou uma "comédia romântica".

Mesmo um leitor desconfiado de tais termos pode, a princípio, aceitar o romance pelo seu valor aparente: uma história de duas pessoas destinadas uma à outra, cada uma das quais deve superar uma das falhas que dão título à obra para alcançar seu final feliz; uma comédia de costumes que envolve nossas emoções, mas cuja certeza moral garante que os personagens recebam o que merecem.

A partir da frase de abertura, no entanto, as coisas não são o que parecem. Ela afirma declarar uma "verdade" que claramente não é verdadeira. O segundo parágrafo a contradiz imediatamente: não é o homem rico que está em busca de uma esposa; é a mãe de filhas que está em busca de maridos ricos. Jane Austen não apenas subverte ideias preconcebidas da sociedade, como também mina sua própria história e pede a ajuda do leitor para fazê-lo.

"Somos levados a aceitar que a profunda ignorância de Darcy sobre como se comportar pode ser 'corrigida' por uma garota espirituosa."

A glória deste romance reside principalmente na força vital de seus personagens, em especial Elizabeth Bennet, a mais cativante das heroínas literárias, que se apoia em seu próprio julgamento e vitalidade contra adversidades muitas vezes esmagadoras. Mas há uma riqueza na experiência de leitura que consiste em muito mais do que torcer por essa jovem espirituosa. Ela reside nos múltiplos e inconsistentes pontos de vista narrativos que Jane Austen adota. Como leitor, você se torna cúmplice deles, às vezes sem perceber. A virtude desse método é que o romance se torna satisfatório de maneiras mais complexas do que você espera inicialmente da leveza enganosa do tom; a desvantagem é que a exuberância do virtuosismo de Jane Austen pode criar problemas de interpretação.

O principal deles é o Sr. Darcy. Ele é, para dizer francamente, um homem bem horrível. O fio condutor da sua história – a essência da melodia, por assim dizer – é que, como órfão, herdeiro e irmão mais velho, ele foi tratado com demasiada reverência e passou a considerar muitas coisas e pessoas como "inferiores" a ele. No final, porém, por ter uma visão clara da sociedade, ser generoso com a sua fortuna e ter um coração bondoso apesar dos seus modos infelizes, ele só precisa se apaixonar por uma mulher que o trate não com deferência, mas como igual: então tudo ficará bem.

Matthew Macfadyen interpretou Darcy ao lado de Keira Knightley como Elizabeth na adaptação cinematográfica do romance em 2005 (Crédito: Alamy)
Embora seja certamente sedutor pensar em um homem arrogante aprendendo lições duras com alguém de uma classe social inferior, essa versão de Darcy não é tudo o que Jane Austen nos oferece. Ele também é imperdoavelmente cruel. "Você esperaria que eu me alegrasse com a inferioridade de suas conexões?", pergunta ele a Elizabeth, ao fazer seu pedido de casamento. E isso deveria realmente encerrar o assunto. A oferta relutante de matrimônio do Sr. Darcy demonstra menos autoconhecimento do que a do Sr. Collins algumas páginas antes; no entanto, somos levados a aceitar que a profunda ignorância de Darcy sobre como se comportar pode ser "corrigida" por uma garota espirituosa.

A inconsistência de ponto de vista ajuda a tornar os personagens vitais e verossímeis. Não sabemos exatamente como Elizabeth lidará com o próximo desafio porque nosso acesso aos seus processos mentais não é contínuo. Ela lida com as situações como pessoas reais: impulsivamente, de forma inconsistente e aprendendo à medida que avança. A maneira mutável como a história é contada nos permite sentir parte de um processo imprevisível.

'Uma melancolia mórbida'

Sente-se que Jane Austen quer que você reconheça essas qualidades contraditórias e chegue às suas próprias conclusões. O problema é que, uma vez envolvido nesse jogo de interpretação, você se sente no direito de questionar e desacreditar até mesmo a premissa básica da narrativa – especialmente no que diz respeito a Darcy. Dizem que ele é "inteligente", mas não há nenhum sinal disso: seus discursos têm pouca sagacidade e poucas de suas ações demonstram qualquer compreensão das outras pessoas. A chave para desvendá-lo é fornecida por Bingley, um sujeito simples, mas que conhece Darcy há muito tempo. Bingley parece sugerir que seu amigo é vítima de uma melancolia mórbida: "Declaro que não conheço objeto mais terrível do que Darcy, em certas ocasiões e em certos lugares; especialmente em sua própria casa, e em uma noite de domingo quando ele não tem nada para fazer." Mas Darcy raramente tem algo para fazer. Ele sugere, em tom de brincadeira, que o tio de Elizabeth vá pescar em sua propriedade em Pemberley, mas nunca pega uma vara de pescar ele mesmo.

"Às vezes, parece que estamos em um perigoso jogo de adivinhação contra uma inteligência superior – e uma que, como narradora, detém todas as cartas na manga."

Boa parte do comportamento de Darcy torna-se mais explicável se o considerarmos como alguém que sofre de uma espécie de depressão clínica. Ele não consegue se esforçar para ser educado em Netherfield, Rosings ou Longbourn: seu silêncio melancólico é o único fator comum nessas casas tão diferentes. Como seu primo, o Coronel Fitzwilliam – uma espécie de Darcy com boas maneiras – diz a Elizabeth: "É porque ele não se dá ao trabalho". Pense na maneira como ele chega e se senta em silêncio na casa dos Bennet quando Bingley renova sua corte a Jane; ou no ódio a si mesmo que revela quando Elizabeth finalmente se torna sua noiva, falando das falhas de seu passado que precisam ser enfrentadas: "Lembranças dolorosas irão surgir, que não podem, que não devem ser repelidas".

Colin Firth criou uma versão icônica do personagem melancólico na clássica série de TV da BBC de 1995 (Crédito: Alamy)
Quando finalmente se mobiliza, ele se mostra incapaz de assumir a responsabilidade pelas consequências. Ele aponta para Bingley o quão vulgares são os Bennet e afirma, erroneamente, que Jane não corresponde aos fortes sentimentos de Bingley. Darcy persuade Bingley a não retornar para sua casa em Hertfordshire e esconde dele o fato de que Jane está em Londres, onde Bingley poderia encontrá-la. Sobre esse engano, ele mais tarde diz a Elizabeth que "condescendeu de usar de certos artifícios" (mentiu, em outras palavras) e que "Talvez esse disfarce, essa ocultação, tenha sido indigno de mim... Não tenho mais nada a dizer, nenhuma outra desculpa a oferecer". O fato de um homem considerar seu próprio comportamento "indigno" e indigno de desculpas nos faz preocupar com seu estado mental. Mas a verdade é que Darcy precisa desesperadamente de Bingley por perto para suprir a energia que lhe falta. Ele não pode arriscar perder Bingley para Jane, ou terá que se casar com alguém "inferior" a ele – Elizabeth – para garantir a vitalidade antidepressiva de que precisa.

A ansiedade do leitor consiste em se perguntar o quanto Jane Austen quer que cheguemos às nossas próprias conclusões sobre Darcy. Às vezes, parece que estamos em um perigoso jogo de adivinhação com uma inteligência superior – e uma que, como narradora, detém todas as cartas na manga. Elizabeth, notoriamente, data a mudança de sua própria atitude em relação a Darcy ao momento em que o viu pela primeira vez nos jardins de sua grande casa. Ela não é obrigada por sua irmã Jane, pouco curiosa, nem pela autora, a dar uma resposta mais séria. Ela não usa a palavra "amor" para descrever seus sentimentos até depois do noivado.

Elizabeth realmente ama Darcy?

Uma nova tensão surge nas páginas finais do romance. Elizabeth está realmente "apaixonada" por Darcy e pode ser feliz com ele? O casamento deveria funcionar bem, do ponto de vista prático. Ele tem a casa e o dinheiro; ela tem a inteligência e a energia. Ela lhe dará a faísca vital que lhe falta; ele lhe dará a estabilidade e o status social que sua coragem e inteligência merecem. Mas o leitor moderno quer saber: ela realmente o "ama"? Como alguém poderia amar um homem que acredita que sua família é "repugnante" e "desagradável"?

Para encontrar respostas, devemos analisar o que inicialmente motiva Elizabeth a se aproximar de Darcy. Parece ser o constrangimento que ela sente por ter sido mal informada sobre o que aconteceu entre Darcy e Wickham. Há um forte componente de classe na vergonha de Elizabeth: ela não conseguiu entender, ou adivinhar, como as pessoas "inteligentes" se comportam; ela sente que sua indignação foi "de classe média" de uma forma humilhante. Ela está tão ansiosa para se redimir e restaurar seu amor-próprio que está até disposta a ignorar o fato de que Darcy, de forma egoísta, tentou arruinar a felicidade de Jane, a pessoa que ela mais ama.

Jack Lowden estrelará ao lado de Emma Corrin em uma adaptação da Netflix de Orgulho e Preconceito, com estreia prevista para 2026 (Crédito: Getty Images)
O que mais poderia fazê-la amar um homem assim? Bem, talvez haja a sensação de que ela pode cuidar dele como uma mãe ou "curá-lo" de sua melancolia, embora haja sinais de que ela já esteja exasperada quando o repreende: "Mas diga-me, por que você veio a Netherfield? Foi apenas para cavalgar até Longbourn e passar vergonha?" É necessária uma intervenção milagrosa – a de Lady Catherine de Bourgh – para levar Elizabeth a finalmente se apaixonar por Darcy.

E, no entanto, nas cenas finais, o ritmo de sua fala é amoroso; há uma clara correnteza de emoção nas páginas finais. O que torna o final do livro tão picante é que essa liberação de sentimento parece estar em desacordo com os fatos da situação. O Sr. Bennet expressa a dúvida por todos nós: "Agora dou [meu consentimento] a você, se estiver decidida a tê-lo. Mas permita-me aconselhá-la a repensar isso. Conheço sua disposição, Lizzy." É um consentimento, mas não é uma bênção.

Acho justo dizer que as ambiguidades são intencionais e que a ideia de Darcy como um galanteador romântico é uma ilusão do leitor, não uma intenção da escritora. O constrangimento de Elizabeth com o mal-entendido com Wickham é em parte uma humilhação de classe; mas o que há de errado se a vergonha social for o primeiro fator que impulsiona seus novos sentimentos por Darcy? Este é um mundo em que essas coisas importavam muito. Talvez, no fim, Elizabeth esteja ciente das limitações de Darcy e esteja "apenas apaixonada o suficiente" por ele; há claramente uma atração física a ser explorada; e a falta de amor pode muito bem ser compensada por uma consideração prática de encontrar o "melhor antídoto para a carência". E Darcy também faz concessões; em vez de ter uma amante animada, que lhe proporcionasse vitalidade como se fosse por prescrição médica, ele se prendeu para sempre a toda a família Bennet. Isso parece um reflexo fiel de como as coisas eram no mundo de Jane Austen. Os motivos são complexos; tudo é mais comprometido do que parece à primeira vista. O casamento era um assunto complicado em 1813.

A maneira como Jane Austen permite ao leitor espaço para especulações pessoais parece ousada e à frente de seu tempo; e a suspeita de que parte dessa liberdade seja concedida involuntariamente não diminui em nada a euforia de ler este livro. Podemos discordar sobre os personagens, mas o que parece indiscutível é que essas pessoas são reais. Independentemente de como reagimos a eles – e, no caso da maioria das pessoas, a reação muda ao longo dos anos – a família Bennet e seus amigos permanecem tão vibrantes, exasperantes e interessantes quanto qualquer outro que tenhamos conhecido na vida real.

É essa intensa vitalidade que tornou o livro tão amado por 200 anos – "Isso será ótimo, minha filha. Você já nos encantou por tempo suficiente" – e pode muito bem continuar a fazê-lo por mais 200 anos.

Este é um trecho editado da introdução de Sebastian Faulks a Orgulho e Preconceito, de Jane Austen: Os Romances Completos (Folio Society).


Jemima Rooper como Amanda Price  e Elliot Cowan como Mr. Darcy em Lost in Austen (2008).
No texto, o autor defende que, em Orgulho & Preconceito, Jane Austen deixa muito espaço para interpretação. Para ele, Mr. Darcy tem depressão e ele vai defendendo a sua tese. Não sei, não sei mesmo.  Sempre percebi o Darcy de 2005 como tímido, o de Colin Firth como demasiado preocupado com como as pessoas o viam, um tanto sobrecarregado pelas responsabilidades.  Já o de David Rintoul era a encarnação do senso de superioridade de classe e um tanto sem traquejo social, mas muito sociável a partir do momento que se sente confortável. Cada ator dá o tom do seu Darcy. Mas e no livro?  Será que o Darcy de Jane Austen era depressivo? Realmente, não sei.

Agora, discordo dele em algumas colocações. Não há conflito de classe social entre Darcy e Elizabeth, porque eles pertencem ao mesmo grupo, a (landed) gentry, pequena nobreza. Sim, pequena nobreza não quer dizer ser pobre, simplesmente significa que você pode não ter título ou ter um título de nobreza menor, como baronete, que é hereditário, ou cavaleiro, que não é. Darcy não tem título, porque o pai dele não tinha. A mãe dele era filha de um conde, isto é, pertencia à alta nobreza (*ton*). O povo lá de Bridgerton é pertencente à alta nobreza. Só que alguém da gentry poderia ser mais rico que um duque, mas não tinha o título. 
Elizabeth Garvie como Elizabeth Bennet e David Rintoul como Mr. Darcy em Orgulho & Preconceito (1980).
Dito isso, sim, há uma desigualdade econômica entre os Darcy e os Bennet, a mãe de Elizabeth era de uma condição inferior, isto é, era de uma família burguesa, além disso, não era  uma mulher refinada, mas a linhagem se faz pela linha paterna. Por isso mesmo, uma das passagens que eu mais gosto do livro é quando Lady Catherine de Bourgh, tia de Darcy, confronta Elizabeth e tenda colocá-la no que ela acredita ser o lugar da moça e a protagonista a confronta: "Ele é um cavalheiro, eu sou filha de um cavalheiro. Assim sendo, somos iguais." ("He is a gentleman, I am a gentleman's daughter. So far we are equal".).  Fosse Elizabeth alguém de classe média, como o autor do texto coloca, esta frase não faria sentido nenhum.  Acredito que o que causa o constrangimento à Elizabeth é o fato dela se sentir provinciana e tão pouco educada, tanto no sentido acadêmico quanto no conhecimento do mundo.

E, bem, Lady Catherine não faz Elizabeth se apaixonar por Darcy, mas a faz compreender seus sentimentos por ele e enunciá-los, ainda que de forma indireta.  Acho que é isso.  Tenho vários outros artigos para traduzir e ainda tenho várias resenhas para escrever.  A da 4ª temporada de Bridgerton, inclusive.