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quarta-feira, 11 de março de 2026

O que ‘Bridgerton’ entende errado sobre espartilhos (Artigo Traduzido)

Não sei por qual motivo esse artigo antigo apareceu para mim, mas ele não é ruim, na medida em que coloca no lugar algumas questões importantes e ainda explica a cena do espartilho em E O Vento Levou, mesmo que perca de vista que Scarlett não faz aquilo por ser jovem e solteira, mas por ser tremendamente vaidosa, algo que ela leva ao longo do livro e que está no filme.  De resto, é sempre aquela coisa festiva de que as mulheres não seriam bobas de usar uma coisa incômoda, quando práticas detestáveis nos são impostas e reforçadas o tempo inteiro, inclusive o sutiã.  Eu fui obrigada a usá-lo a partir dos dez anos e me acostumei.  E olha que o texto tem até a defesa do espartilho pelo costume.  Uma criança não escolhe e uma mulher que quisesse parecer decente ou precisasse parecer aceitável, porque poderia ser punida por pai, mãe, marido etc.  também não.  A graça é acreditar que temos tanta liberdade, quando convém, claro, pois volta e meia é essa história de espartilho que é trazida para a discussão.  Queria ver esse mesmo raciocínio usado para as mulheres girafas, os pés de lótus chineses ou mesmo o hijab.  Você se acostuma, então, é normal.  E é mesmo, não é verdade?  De resto, as roupas íntimas de Bridgerton são abomináveis.  Não são práticas, não são bonitas, não são sensuais.  São somente ideias ruins.

Se quiserem ler o original, ele está aqui.  As imagens que consegui trazer para o post estão nos lugares de origem, mas havia dois carrosséis com várias fotos e não consegui colocar no blog. Iria dar muito trabalho.  Enfim, é isso, segue a tradução.

O que ‘Bridgerton’ entende errado sobre espartilhos

Os direitos das mulheres eram severamente restringidos na Inglaterra do século XIX, mas suas roupas íntimas não eram as culpadas

Rachel Kaufman - Colaboradora

A representação de espartilhos no episódio de estreia de "Bridgerton" é mais um exemplo da mesma mitificação presente na cultura popular. Captura de tela via Netflix

Na cena de abertura do sensual drama de época da Netflix, "Bridgerton", Prudence Featherington, uma das filhas solteiras da ambiciosa Lady Featherington, está se vestindo para ser apresentada à rainha da Inglaterra. Prudence se curva, ofegante, enquanto uma criada aperta ainda mais os laços de seu espartilho.

"Eu conseguia espremer minha cintura até o tamanho de uma laranja e meia quando tinha a idade de Prudence", diz Lady Featherington.

Muitos filmes, tanto históricos quanto fantásticos, têm uma cena semelhante. Pense em Scarlett O'Hara, de "E o Vento Levou", agarrando-se desesperadamente a um poste da cama; Elizabeth Swann, em "Piratas do Caribe", com o espartilho tão apertado que mal consegue respirar; Rose, em "Titanic", em uma cena quase idêntica; Emma Watson, interpretando Bela na versão live-action da Disney de "A Bela e a Fera", declarando que sua personagem é independente demais para usar um espartilho.

Outro elemento compartilhado por algumas dessas cenas, entre muitas outras? Nenhuma das personagens que sofrem com a dor tem controle sobre a própria vida; em cada cena, uma figura de autoridade (as mães de Prudence e Rose, o pai de Elizabeth) diz a elas o que devem fazer. É uma metáfora bastante óbvia, afirma Alden O'Brien, curador de figurinos e têxteis do Museu das Filhas da Revolução Americana em Washington, D.C.

“Ter uma cena em que elas dizem ‘mais apertado, mais apertado’ é obviamente uma representação dos papéis restritos das mulheres na sociedade”, diz O’Brien.

O problema é que quase todas essas representações são exageradas ou simplesmente erradas. Isso não significa que Shonda Rhimes, criadora de "Bridgerton", tenha errado em sua representação dos direitos das mulheres no início do século XIX, durante o período da Regência — de fato, eles eram severamente restringidos, mas a culpa não era das roupas íntimas.

"Não se trata tanto do espartilho em si, mas sim da psicologia da cena", afirma Kass McGann, historiadora da moda que já prestou consultoria para museus, programas de TV e produções teatrais ao redor do mundo, e que fundou e é proprietária do blog e loja de figurinos históricos Reconstructing History, em um e-mail.

Ao longo de quatro séculos de inúmeras mudanças na moda, as roupas íntimas femininas passaram por grandes variações em nome, estilo e formato. Mas para aqueles cuja compreensão de dramas de época se baseia unicamente em séries e filmes como "Bridgerton", essas diferentes peças são erroneamente agrupadas sob o rótulo de espartilho.

Se definirmos um espartilho como “uma peça de roupa íntima estruturada para o torso feminino”, diz Hilary Davidson, historiadora da moda e autora de *Dress in the Age of Jane Austen*, os primeiros espartilhos surgiram no século XVI como resposta à moda feminina, que se tornava mais rígida e “geométrica”. O espartilho, reforçado com barbatanas de baleia, junco ou até mesmo madeira, de fato moldava o corpo feminino no formato de cone invertido que estava na moda, mas as mulheres não necessariamente apertavam seus espartilhos o suficiente para alcançar esse formato. Em vez disso, usavam enchimentos ou aros para dar a impressão de uma cintura mais larga (algo semelhante aos enchimentos de quadril da era elisabetana), o que, por sua vez, fazia a cintura parecer mais fina.

Essa forma persistiu mais ou menos até o período da Regência, no início do século XIX, quando houve "todo tipo de invenção, mudança e experimentação" na moda, diz Davidson. Durante esse período de 20 anos, as mulheres tinham opções: podiam usar espartilhos, peças estruturadas com barbatanas que mais se assemelham à concepção atual de um corset; macacões, roupas íntimas muito macias e acolchoadas, mas ainda assim com boa sustentação; ou corsets, que ficavam em algum lugar entre os dois. O'Brien diz que os corsets do período da Regência eram feitos de algodão macio ("imagine um jeans azul, só que branco") com cordões de algodão mais rígidos para sustentação e, ocasionalmente, canais nas costas para as barbatanas e uma abertura na frente para um suporte de metal ou madeira chamado barbatana. (Lembre-se, porém, que esses suportes eram feitos sob medida para o corpo de cada pessoa e abraçavam suavemente suas curvas.) Eventualmente, o termo corset (do francês para "pequeno corpo") prevaleceu em inglês, e a forma se consolidou no formato de ampulheta que conhecemos hoje.

Mas, na verdade, essas peças íntimas eram apenas "peças de roupa normais", diz Davidson. As mulheres tinham uma variedade de opções, assim como as mulheres de hoje "têm um espectro de possibilidades, do sutiã esportivo ao Wonderbra". Aquelas que simplesmente ficavam em casa usavam seus espartilhos mais confortáveis, enquanto outras, que iam a um baile, poderiam "usar algo que desse uma silhueta mais elegante". Até mesmo as mulheres que trabalhavam usavam algum tipo de peça de roupa com amarração e sustentação como essas — desmentindo a ideia de que vestir um espartilho causava desmaios imediatamente. Para Davidson, o mito de que as mulheres "andavam por aí com essas coisas desconfortáveis ​​que não podiam tirar, por causa do patriarcado" é realmente irritante. "E elas aguentaram isso por 400 anos? As mulheres não são tão bobas", afirma.

Essas peças eram confortáveis, acrescenta Davidson, não apenas pelos padrões da época — as mulheres começaram a usar algum tipo de peça de roupa com espartilho e sustentação quando eram meninas, então já estavam acostumadas com elas na idade adulta — mas também pelos padrões modernos. O’Brien concorda: “Ter algo que desça mais pelo busto… eu realmente gostaria disso, porque distribuiria melhor o suporte.”

Na era vitoriana, após “Bridgerton”, os espartilhos evoluíram para um formato mais de ampulheta — o formato que muitas pessoas imaginam quando pensam em um espartilho desconfortável, que comprime os órgãos e deforma o corpo. Mas, novamente, as percepções modernas do passado moldam a forma como pensamos sobre essas peças íntimas. Davidson afirma que as saias eram maiores nessa época — “quanto mais larga a saia, menor a cintura parece”. Os museus costumam exibir espartilhos em manequins como se as bordas se encontrassem. Na realidade, eles provavelmente eram usados ​​com as bordas separadas por alguns centímetros, ou até mais folgadas, se a mulher assim desejasse.

McGann sugere que uma das razões pelas quais os espartilhos são associados à dor é porque as atrizes falam sobre o desconforto que sentem ao usar um espartilho inadequado para um papel. "Em muitos casos, os espartilhos não são feitos sob medida para a atriz, mas sim um espartilho de tamanho padrão é usado por conveniência", diz McGann. "Isso significa que elas estão usando espartilhos que não lhes servem adequadamente e, quando apertados demais, podem causar dor!"

Então, na era da Regência e em outros períodos, as mulheres apertavam os laços de seus espartilhos além do que era confortável — ou saudável — para conseguir uma cintura mais fina, de acordo com a moda? Claro, algumas faziam isso, quando queriam impressionar alguém (e, aliás, Davidson considera a cena do espartilho em "E o Vento Levou" muito precisa, já que Scarlett O'Hara é jovem, solteira e está tentando causar uma boa impressão). Em "Bridgerton", a insistência da socialite Lady Featherington em que suas filhas tenham cinturas finas parece igualmente lógica. Exceto que... na era da Regência, em que os vestidos caem a partir do busto, qual seria o sentido de ter uma cintura fina? "A ideia de apertar o espartilho ao máximo é completamente inútil... irrelevante para a moda", diz Davidson.

"Não há como aquele espartilho de época [afinar a cintura dela], e não é essa a intenção", acrescenta O'Brien.

Davidson tem outra ressalva em relação às escolhas de moda íntima de "Bridgerton" (pelo menos no primeiro episódio, que ela assistiu a pedido da revista Smithsonian). Os espartilhos e corpetes do período da Regência eram projetados menos para criar o decote que o público moderno considera atraente e mais para levantar e separar os seios como "dois globos redondos", diz Davidson. Ela acha os espartilhos de "Bridgerton" muito planos na frente.

Em uma entrevista para a Vogue, a figurinista de "Bridgerton", Ellen Mirojnick, explicou sua filosofia sobre as roupas da série: "Esta série é sexy, divertida e muito mais acessível do que um drama de época comum e contido, e é importante que a ousadia dos decotes reflita isso. Quando você vê um close, há muita pele à mostra. Exala beleza." Mas, segundo Davidson, “embora buscassem sensualidade, decote e máxima exposição, o corte das roupas, na verdade, achatava os seios de todas. Se tivessem voltado ao estilo de espartilho da Regência, o busto teria muito mais destaque. Seriam seios enormes.”

“Bridgerton”, no entanto, acerta em muitos aspectos sobre o status da mulher no início do século XIX. O casamento era uma das únicas opções para mulheres que não queriam morar com parentes pelo resto da vida, então o foco da série em encontrar “bons parceiros” no matrimônio é pertinente. Uma vez casada, a mulher se tornava legalmente propriedade do marido. Ela não podia assinar contratos ou fazer um testamento sem o consentimento dele.

Em meados do século XIX, as mulheres conquistaram avanços significativos em relação à propriedade de bens e ao divórcio. Contudo, foi somente em 1918 na Inglaterra e em 1920 nos Estados Unidos que (algumas) mulheres puderam votar. Por volta da mesma época, os espartilhos estavam saindo de moda, e muitos escritores da época viram uma conexão entre a libertação do espartilho e a libertação feminina.

Em "Bridgerton", jovens mulheres da era da Regência vestem espartilhos antes de serem apresentadas à Rainha Charlotte. Liam Daniel / Netflix

O'Brien afirma que, olhando para trás agora, essa conclusão não se sustenta. “Há muitos escritores dizendo: ‘Ah, somos muito mais libertadoras do que aquelas vitorianas terríveis, hipócritas e reprimidas, e nos livramos do espartilho.’ Bem, me desculpem, mas se vocês observarem as cintas modeladoras da década de 1920, elas faziam exatamente a mesma coisa: usavam roupas íntimas para criar a forma da moda da época”, o que, nos loucos anos 20, significava usar cintas elásticas e faixas para comprimir os seios para “reprimir completamente a forma natural da mulher”.

“A sociedade sempre tem um ideal de corpo que será impossível para muitas mulheres alcançarem, e cada mulher escolherá até onde ir na busca por esse ideal, e sempre haverá algumas que levam isso a um extremo que coloca suas vidas em risco”, acrescenta O’Brien.

O’Brien e Davidson esperam que as pessoas parem de pensar nos espartilhos como ferramentas opressoras do patriarcado ou como lembretes dolorosos da obsessão feminina pela moda. Essa atitude “tira a autonomia feminina”. O’Brien afirma: “Estamos deixando que os caprichos da moda nos dominem, em vez de escolhermos fazer algo a respeito”.

Usar um espartilho era “tão opressivo quanto usar um sutiã, e quem obriga as pessoas a usar sutiã de manhã?” (Algumas mulheres em 2021, depois de meses de reuniões por Zoom e trabalho remoto, podem estar se fazendo exatamente essa pergunta agora.) “Todas nós fazemos escolhas individuais”, diz Davidson, “sobre o quanto modificamos a nós mesmas e nossos corpos para nos encaixarmos nos grupos sociais em que vivemos”.

É mais fácil pensar em espartilhos como “estranhos, incomuns e do passado”, diz Davidson. Pensar em um espartilho como uma ferramenta opressiva do patriarcado antigo implica que nós, mulheres modernas, somos mais esclarecidas. Mas, acrescenta Davidson, “Não usamos espartilhos porque os internalizamos. Hoje em dia você pode usar o que quiser, mas por que toda a publicidade na internet diz ‘8 truques estranhos para uma cintura fina’? Nós fazemos Pilates.” Usar um espartilho exige muito menos suor e esforço do que fazer Pilates.”

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Shoujocast no Ar! Seria a 4ª temporada a mais romântica de Bridgerton? O amor pode superar qualquer barreira?


Fazia tempo que queria comentar Bridgerton. Então, é um Shoujocast diferente e ele precisava entrar no ar antes da estreia da nova leva de episódios. Será um programa diferente e eu acabei comentando a série desde a primeira temporada, quando o objetivo seria falar do romance entre Sophie e Benedict. Fui prolixa, sei que há gente que fala muito melhor de Bridgerton, mas espero que o programa possa ser interessante.
 

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

Comentando os últimos capítulos da Terceira Temporada de Bridgerton: esse texto atrasou muito mais do que eu esperava.

Prometi terminar de resenhar a terceira temporada de Bridgerton antes da estreia da 4ª temporada.  Não consegui, como vocês já perceberam.  Faltava comentar somente os episódios 7 e 8.  Os quatro primeiros episódios da quarta temporada estrearam no dia 29 (*já terminei de assistir*) e seguirá o mesmo formato com dois blocos de quatro episódios.  A segunda remessa sai em 26 de fevereiro.  A terceira temporada, lá em 2024, adiantou o livro de Colin (Luke Newton) e Penelope (Nicola Coughlan).  Essa  escolha prejudicou o melhor andamento da série (*não tenho dúvida quanto a isso*), mais do que isso, o próprio livro foi muito mexido para se acomodar às necessidades da adaptação.  Se quiser ler minhas outras resenhas da temporada, é só clicar: 1 - 2 - 3 - 4.

O episódio 7 começa com Colin descobrindo que Penelope é Lady Whistledown.  Ele fica muito furioso e decepcionado, mas não cancela o casamento por uma questão de honra, pois ele e a jovem já tinham tido intimidades.  No livro, ele já havia descoberto antes da sequência da carruagem e de fazer amor com Penelope.  E eles correm com o casamento, porque ele teme pela honra dela.  Penelope também deseja expor Cressida (Joanna Bobin) que, por desespero, está se fazendo passar por Lady Whistledown.  Depois de exposta, Cressida acaba sendo punida pelo pai.  Ela será mandada para o interior, deverá ficar sob a tutela de uma tia velha, que irá discipliná-la, até que seu pai lhe arranje um marido, algo difícil depois do escândalo.  A tia chega a dar as caras no último episódio e Cressida não apareceu ainda na quarta temporada.

Colin confronta Eloise (Claudia Jessie) sobre a identidade de  Lady Whistledown.  Por qual motivo ela escondeu?  Há toda a questão da família ser um dos alvos mais constantes da fofoqueira e é isso que o magoa mais.  Eloise  diz que não queria entristecer o irmão, afinal, ele estava decidido a se casar com Penelope.  Daí, a gente lembra  que ela ficou chantageando a Penelope e se as coisas ocorressem conforme ela desejava, Colin ficaria extremamente ferido.  Enfim, as mães dos dois estão desconfiadas do fato de Colin e Penelope não parecerem mais tão apaixonados.  Outra questão do episódio 7 é o flerte entre o irmão de Lady Danbury (Daniel Francis) e a Viscondessa Viúva (Ruth Gemmell).  O relacionamento dos dois segue na quarta temporada, na linha da celebração do amor maduro.  Só que Violet, a dos livros pelo menos, jamais iria trair a memória do marido e uso este verbo, porque ela se sentiria fazendo isso.  É o perfil da personagem.

No episódio 8, temos Cressida chantageando Penelope e exigindo o dobro da recompensa que a Rainha ofereceu para que ela não revele a verdade.  Como Portia (Polly Walker) chega na hora, ela acaba sabendo que a filha é Lady Whistledown.  Penelope é rica e, assim como no livro, Colin se espanta ao saber o quão rica a esposa é.  Mas ele não quer que Cressida leve a melhor e decide  ir confrontá-la pessoalmente.  Ele defende Penelope e a vilã aponta que ele parece ter inveja do sucesso da esposa.  Volto a isso daqui a pouco.  Colin tenta argumentar que, mesmo Cressida tendo tentado assumir a identidade de Lady Whistledown, Penelope não a massacrou em sua coluna, mas tentou imaginar como ela se sentiria.  Cressida se recusa a ceder, dobra o valor da chantagem e exige que Lady Whistledown use sua coluna para restaurar sua reputação.

Enquanto isso, Penelope pergunta para Eloise se ela se aproximou de Cressida para feri-la ou se realmente tentou ser amiga dela.  Eloise ri e diz que não é tão mesquinha assim, mas que foi um pouco, e faz pouco caso da amizade que começou a estabelecer com Cressida.  Enfim, perdi toda a simpatia por Eloise nessa terceira temporada.  Ela é a mais mimada e insensível da prole inteira, pelo menos na série.  E não sou fã da personagem nos livros, também, a acho chata, mas toda essa trama foi inventada para a série. O fato é que Cressida se sente abandonada e está usando a chantagem como último recurso para escapar à tirania do pai.  A temporada poderia ter livrado Cressida da posição de antagonista e mesmo a redimido, mas a opção foi destruí-la mesmo.  Fazia sentido no livro, mas não era algo necessário na série da Netflix.  Nessa história toda, a falta de empatia de Eloise, que havia realmente se aproximado de Cressida, é o que mais salta aos olhos.

Depois disso, temos Portia sendo ameaçada por um advogado, que já havia aparecido anteriormente.  O fato é que para não perder o título e os bens do marido (*ela não tinha filhos homens e as propriedades iriam para um parente do sexo masculino mais próximo*), ela falsificou documentos com a ajuda de sua fiel governanta, Mrs. Varley (Lorraine Ashbourne), ela mentiu, ela cometeu crimes. Além disso, ela se apropriou de dinheiro do picareta que apareceu na segunda temporada. Penelope confronta a mãe e Portia diz que fez o que fez pela família, já Penelope se tornou Lady Whistledown  por qual motivo?  Já escrevi que Portia é  uma leoa e que mesmo com todos os seus defeitos, ela ama suas filhas e faz tudo para garantir seu bem-estar.  Penelope termina sem palavras.  Esses últimos episódios servem para aproximar Portia de Penelope, a filha que ela considerava menos competente e que se mostrou a mais bem-sucedida de todas as suas crias.

Temos um alívio nas tensões com o casamento de Francesca (Hannah Dodd) e John Stirling (Victor Alli), que é um momento bem bonitinho.  Nos livros, nunca vemos a moça se casar.  A vemos solteira, e ela aparece bastante no livro do Benedict, que veio antes do do Colin, ela é referenciada no livro da Eloise, mas somente ocupa o centro quando sua história com o primo do marido, Michael, é contada.  Enfim, ela conversa com a mãe sobre seu desejo de ter sua própria casa, que almeja conhecer a Escócia e que lá possa se conhecer melhor.  Violet se mostra feliz, mas preocupada, porque a filha não parece loucamente apaixonada, como ela acredita ser necessário.  Ela acredita que falta alguma coisa ali.  Essa invenção da série dá uma nova roupagem para a relação entre John e Francesca, algo que poderia ser bem aproveitado, mas não será.  Mais tarde, é introduzida a prima de John, Michaela (Masali Baduza).  Ela é esfuziante, simpática e olha para Francesca como se quisesse devorá-la.  Já Francesca parece se sentir queimar pelo olhar da outra.

Não me importo realmente que tenham transformado Michael em Michaela, ainda que ele seja uma das minhas personagens masculinas favoritas de Bridgerton.  Talvez, a favorita. É bobagem perder tempo discutindo se ela poderia herdar o título de conde do primo, porque John morrerá em algum momento, já que a série pode colocar a Rainha resolvendo tudo com uma canetada. O que me incomodou foi a forma como Michaela foi introduzida, porque ela aparece para provocar sensações em Francesca que ela não sentia com John, mas que foram descritas com grande entusiasmo por Lady Bridgerton.  Nos livros, John e Francesca foram felizes, o único problema é que não conseguiram ter filhos.  E Michael conhece Francesca no jantar que precede o casamento do primo, sem saber quem ela era.  Ao descobrir, ele se retrai, se culpa, tenta esquecê-la, se afasta.  Ele não vai assediá-la como a Michaela da série da Netflix.  E como já vi o que saiu da quarta temporada, a coisa piora.

Criar um casal lésbico, porque pelo andar da carruagem, eu investiria em transformar Francesca em alguém que se conforma com a heterossexualidade compulsória, como tantas mulheres o fizeram por séculos, e não como uma mulher bissexual, não é um problema em si mesmo.  O que me preocupa é colocarem as duas flertando, com uma Francesca recém-casada se apaixonando por outra  bem debaixo do nariz do marido, é pintarem o casamento da moça com John como infeliz, ou, pior, colocando as duas tendo um caso.  Repito, elas podem ser um casal, mas o primeiro encontro das duas foi de mau gosto e vendo os episódios da quarta temporada, temo pelo pior.

Falando em equívocos, temos Benedict cedendo às pressões de Lady Tilley Arnold (Hannah New), porque vontade mesmo ele não me pareceu ter, e indo para cama com ela e seu amigo Paul Suarez (Lucas Aurelio).  Eu esperava que Benedict fosse transformado em homossexual na primeira temporada.  Não tiveram coragem para isso, antes de revelarem detalhes da quarta temporada, imaginei até que poderiam ser criativos e transformar Sophie em mulher trans ou investir em algo na linha Mulan, mas, de novo, não tiveram coragem.  Já essa experiência com Tilley e Suarez me pareceu forçada para produzir a ideia de que a série defende a diversidade sexual, estabelecendo Benedict como bissexual.  E tudo o que aconteceu se prestou somente para o fanservice com dois homens lindos e uma mulher muito bonita se pegando.  E nada disso teve  qualquer impacto no roteiro ou na trajetória de Benedict.  Aliás, ele recusou-se a estabelecer um relacionamento a três.  Nada do que aconteceu terá utilidade na trajetória da personagem e quando comentar a quarta temporada, eu volto a falar disso.  Mas se não fez diferença, pelo menos não me ofendeu como no caso Francesca e Michaela.

E temos Benedict e Eloise no balanço, ambos confessando o quanto se sentem fora do lugar, um tanto perdidos.  Algo de bom que a série criou é esse laço entre eles, os dois irmãos que se sentem fora do lugar. O balanço, desde a primeira temporada, é onde os dois se encontram para expressar suas inseguranças, seus desconfortos, um é o ponto de apoio do outro.  Isso não veio do livro, mas a amizade entre eles é uma das boas coisas que a série construiu.  Se seguirem de perto o livro da Eloise, talvez tenhamos algumas boas cenas de ambos na temporada 5  (*que deve ser a dela*), porque há material para ser ampliado dentro dessa lógica da série.

E chega o baile na casa das Featherington.  Penelope escreveu como Lady Whistledown  para a Rainha e ela se faz presente para que o segredo seja revelado.  Isso acaba com a chantagem de Cressida.  Todos ficam sabendo da identidade secreta da protagonista da 3ª temporada e Colin e Penelope se reconectam. No livro, o baile é na casa de Simon e Daphne e é Colin quem conta a verdade expressando todo o orgulho que sente pela esposa.  Acabou a chantagem e não existe mais Lady Whistledown.  A personagem aparece nos livros 1 até o 4, depois, ela não existe  mais.  A série mudou a ordem dos livros, mas não parece disposta a deixar Lady Whistledown se aposentar.  O problema é que a  personagem se tornou impossível, afinal, como ela poderá escrever com liberdade sobre as fofocas da alta nobreza se todos sabem quem ela é?  

Com essa revelação, a Rainha Charlotte tende a se tornar uma personagem problemática.  Coisas que ela faz, como a história da recompensa pela identidade de Lady Whistledown, nos livros, são de coisa de Lady Danbury.   Eu gostava da Rainha na primeira temporada, mas com o passar da série, ela foi se tornando cada vez mais irritante.  É nesse baile que Michaela aparece, que Eloise decide ir com Francesca para uma temporada na Escócia.  No final do livro 4, se sentindo vazia e com inveja e ciúmes de Penelope, ela foge de casa dando início à trama do livro 5.  Todos só percebem seu sumiço muitas horas depois.  Outra coisa que ocorre no baile e que é coisa da série, é Amthony anunciando que irá com Kate até a Índia

E temos o epílogo.  Penelope tem um menino, quando deveria ser uma menina, ou seja, fazem a mesma coisa que fizeram com Daphne.  Nesse aspecto, Bridgerton parece novela do Benedito Ruy Barbosa, como se filhas fossem menos importantes ou que o essencial é produzir meninos.  Vamos ver se quando Anthony e Kate aparecerem de volta na quarta temporada, se eles vão voltar com um filho ou uma filha.  No caso deles, deveria ser um menino mesmo.  O fato é que Penelope, graças às falsificações de Portia, garante  o futuro da família Featherington, pois seu filho irá herdar os títulos do avô.

Só mais uma coisa: no livro, quando Colin e Penelope se casam, o que gera algum conflito entre eles é que o marido se sente menos capaz como escritor do que a esposa. O que sobrou disso foi a acusação de Cressida de que ele tinha inveja do sucesso da esposa.  Só que, no livro, Penelope elogia os escritos dele e se propõe a ajudá-lo a organizar suas memórias de viagem, que somam mais de dez anos e não poucos meses como no seriado.  No fim das contas, ele consegue publicar o seu livro e acaba se tornando um sucesso, depois que Penelope faz a revisão do manuscrito, já a moça decide se tornar uma escritora, também.  Sim, não era algo que todo mundo considerasse adequado, mas havia mulheres escritoras, inclusive da alta nobreza. Penelope será uma delas.

Concluindo, digo que ainda que os episódios tenham sido satisfatórios e eu goste das personagens, ou da maioria delas, a temporada 3 foi a que menos me agradou.  O figurino se tornou muito pouco realista, a maquiagem e os cabelos eram modernos demais, forçaram a barra para tornar Colin um sujeito atraente, além de garanhão.  Além disso, a inversão na ordem dos livros terminou por correr com acontecimentos que precisavam acontecer em um longo período de tempo, como as viagens de Colin e, claro, destruíram Lady Whistledown.  E há ainda o desastre que estão fazendo com a Francesca. Claro, os problemas começaram lá atrás com a saída do Duque e, agora, de Daphne.  Mesmo com participações pequenas, são personagens que estão presentes em praticamente todos os livros.  Eu teria simplesmente trocado o ator e fingido demência.  Enfim, é isso.  Agora tenho que escrever a resenha da quarta temporada e retomar os animes antes que eu termine me perdendo.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Bridgerton tem oito temporadas confirmadas: Será que precisa de tudo isso?

A quarta temporada de Bridgerton estreou no dia 29 de janeiro.  Já concluí a leva de 4 episódios iniciais e irei comentar.  Muito bem, antes mesmo da estreia, foi confirmado que o foco das próximas temporadas, a 5ª e a 6ª, seriam Eloise (Claudia Jessie) e Francesca (Hannah Dodd), como acontece nos livros.  Hoje, apareceu a informação de que teremos oito temporadas (*1 - 2*), que já está garantido, e que todos os irmãos terão seus livros adaptados.  A tomar pelo rumo da série, pergunto-me se há fôlego para oito temporadas.  A inversão da ordem dos livros fez muito mal para a série, pois, com a identidade de Lady Whitesdown revelada, Penelope (Nicola Coughlan) fica em uma posição pouco crível e meio prisioneira da Rainha Charlotte (Golda Rosheuvel).  E nem vou me demorar em outros problemas.  Fora isso, a saída do duque e de Dafne (Phoebe Dynevor) já tinha tido um efeito ruim, porque mesmo com menos importância na trama, todos os irmãos e irmãs e seus respectivos maridos e esposas normalmente aparecem nos livros até o fim da série ou são referenciados.  Eu teria colocado outro ator no lugar do Regé-Jean Page e fingia demência. Atores bons, bonitos e baratos há aos montes.  Aliás, peguem o que ele fez depois de Bridgerton e comprovem que a carreira dele não deslanchou e ainda prejudicou a pobre da Phoebe Dynevor.

terça-feira, 14 de outubro de 2025

Já temos as datas de estreia da 4ª temporada de Bridgerton

Gosto de Bridgerton, tanto que há uma tag no blog sobre a série  da Netflix.  Li alguns dos livros e só resenhei um deles, o do Benedict e da Sophie, Um perfeito cavalheiro (An Offer From a Gentleman), porque foi o que eu mais gostei.  Como já escrevi em algum dos meus textos sobre Bridgerton e deixo o link para dois aqui: resenha do livro, antes da escalção de Yerin Ha e o texto sobre o primeiro vídeo da 4ª temporada.  De resto, não foi uma boa ideia mudarem a ordem dos livros e a terceira temporada, mesmo adorando a Penelope, foi a  que eu menos gostei e ainda nem terminei de resenhar.  Tenho medo de que os acontecimentos de lá possam impactar a 4ª temporada, afinal, todo mundo já sabe quem é a Lady Whistledown, e ela está sob a proteção (*e ordens*) da Rainha agora. Mas estou positiva em relação à 4ª temporada, não pensem que não e eu apostaria que vão esquecer aquela bobagem de colocar o Benedict na cama com um homem e uma mulher.  

Mas vamos ao ponto.  A nova temporada terá oito episódios, como as demais, e irá estrear em dois  momentos, como foi com a terceira.  Em 29 de janeiro teremos quatro episódios e a segunda leva  em 26 de fevereiro.  Sairam novas  fotos, também.  Algo que considero imperdoável é terem colocado Sophie com um vestido com silhueta contemporânea no baile de máscaras no qual ela conhece Benedict, porque ela estava com um vestido antigo, que tinha sido de sua avó, deveria ser um vestido do século XVIII. Simplesmente, quem está vestida à moda do século XVIII é uma de suas irmãs de criação.  Por qual motivo fizeram isso, vai saber?  De qualquer forma, espero que preservem minimamente três sequências do livro: o baile, a cena do lago e o barraco na cadeia.  Como já mudaram muita  coisa, acredito que o livro não será seguido de  muito perto, não.

domingo, 5 de outubro de 2025

Precisamos de mais dramas de época com "cara de iPhone"? (Artigo traduzido)

Não conhecia o site Life Style Asia, mas um artigo apareceu na minha TL do Facebook e achei que valia a pena traduzi-lo.  Como concordo com boa parte das ideias que estão no texto, minha simpatia estava garantida, por assim dizer.  Compartilho do desprezo pela versão da Netflix de Persuasão, mas não concordo que o filme de 1995 seja mais ou menos, mas isso não é tão relevante.  É meio que um sinal de que a pessoa não tem mais de 30 anos o fato de não citar a série Orgulho e Preconceito de 1980, que é excelente.  Como costumo fazer, mantive a estrutura original do texto, as mesmas imagens e há várias, nos mesmos lugares.  Coloquei os links presentes na matéria, também.  Como vários dos filmes séries citadas têm resenha no blog, basta clicar nos links a seguir: Orgulho & Preconceito - 1995, Razão e Sensibilidade - 1995, Persuasão - 2022, Persuasão - 1995, Persuasão - 2007, Emma - 2020 e Bridgerton (*a tag*).   E eu não tenho resenha do filme de 2005, preciso fazer ainda este ano por motivos óbvios: os vinte anos do filme e preencher a lacuna aqui no blog.  Para quem quiser ler o artigo original, basta clicar: Do We Need More “iPhone Face” Period Dramas?.

Precisamos de mais dramas de época com "cara de iPhone"?

Por Pilar Gonzalez (2 de outubro de 2025)

Com a iminência de uma nova onda de adaptações de Jane Austen, o gênero drama de época está em jogo — entre uma reinvenção significativa e o risco de menosprezar as melhores partes do material original.

Para contextualizar, o que motivou este artigo foi o lançamento do primeiro trailer de O Morro dos Ventos Uivantes, de Emerald Fennell (ou, como gosto de chamá-lo, 50 Tons de Heathcliff). Como esperado, o vídeo desencadeou outra rodada de debates online sobre dramas de época, especificamente sobre as maneiras como as adaptações distorcem seus materiais originais. Isso me lembrou do desastre que foi Persuasão, de 2022 (falarei mais sobre isso depois) e me fez pensar na nova onda de remakes de Austen que se avizinha.

Não quero ser esnobe; ainda assistirei a O Morro dos Ventos Uivantes nos cinemas para ver a visão completa de Fennell antes de dar minha opinião final, sem ser solicitada. Afinal, ela colocou o título entre aspas: uma sutil indicação visual de que o filme não pretende ser fiel à obra seminal de Emily Brontë. E esse pequeno detalhe importa? Bem, sim — porque ele invariavelmente molda expectativas que mudam a forma como fãs do material original e não leitores julgam a qualidade de uma adaptação.

O que torna uma adaptação de drama de época "boa"?

Na verdade, a pergunta se aplica a adaptações em geral, embora dramas de época tenham suas próprias nuances. Não estou aqui para impor restrições ou afirmar que tudo deveria ter terminado com o incomparável Orgulho e Preconceito de Joe Wright. Embora remakes medíocres sejam ruins, sua existência é um sinal de que as obras de Austen sobrevivem em nosso imaginário coletivo, e as pessoas continuam a encontrar valor em revisitá-las.

Susannah Harker e Jennifer Ehle na minissérie da BBC de 1995 Orgulho e Preconceito.

Além disso, debater a "melhor" adaptação de Austen é um exercício inútil. É como escolher sua cor ou prato favorito — todos têm seus motivos, e ninguém se mexe. Um exemplo: nunca peça para comparar a minissérie Orgulho e Preconceito da BBC com o filme de Wright, a menos que você esteja pronto para ser o árbitro de uma discussão acalorada e interminável (embora todos concordemos que ambos são espetaculares à sua maneira).

Brenda Blethyn, Rosamund Pike, Keira Knightley e Jena Malone em Orgulho e Preconceito de 2005.

Mas, para o propósito deste artigo, reduzi os motivos pelos quais as adaptações de dramas de época fracassam e dão certo, resumindo-os em dois pontos principais. Você pode concordar ou discordar, mas esses são apenas pontos que considero cruciais como escritor; a maioria das observações gira em torno da narrativa, mesmo quando abordam elementos inerentemente visuais do cinema.

O Fenômeno da Cara de iPhone

Vou começar com o gancho do título deste artigo: o que os internautas estão chamando de fenômeno "Cara de iPhone" ou "Cara de Instagram". Podemos defini-lo como o visual típico, quase homogêneo, de celebridade — inegavelmente refinado naquele sentido moderno, que tira o público de um filme de época. Pode-se referir a cabelo e maquiagem, mas também aponta para as modificações físicas que se tornaram populares hoje em dia: botox, rinoplastia e, claro, facetas (porque as pessoas no século XIX preferiam consertar os dentes a encontrar uma cura para a tuberculose).

Dakota Johnson em Persuasão de 2022.

Muitos exemplos me vêm à mente, mas vamos usar Persuasão, de 2022, como ponto focal. Dakota Johnson, que interpreta sua heroína Anne Elliot, se parece com Dakota Johnson — bonita, sim, mas não uma mulher vivendo na Inglaterra da era Regência. Isso é o suficiente para quebrar a ilusão do cenário histórico de um filme. Os homens do filme também não são poupados disso: Henry Golding, que interpreta o primo traiçoeiro de Anne, William, parece estar prestes a desfilar no tapete vermelho do MET Gala, em vez de arrasar pelas extensas colinas do interior britânico.

Dakota Johnson e Henry Golding em Persuasão (2022).

Há contra-argumentos a serem apresentados aqui: "Você não pode mudar os rostos deles" ou "Por que somos tão obcecados pelo que as pessoas fazem com seus corpos?".  Ambos são válidos, mas não podem ser desculpas para uma produção cinematográfica ruim. Se Robert Eggers consegue transformar Bill Skarsgård em um Nosferatu monstruosamente irreconhecível, então certamente escolhas estéticas mais propositais podem ser feitas para contar uma história que respeite seu material de origem. Acho que o que quero dizer é que eu gostaria que as pessoas se esforçassem um pouco mais.

Parte do que fez uma adaptação excepcional de Austen como Razão e Sensibilidade (1995), de Ang Lee, funcionar é a aparência "despojada" de seus atores. Isso não quer dizer que não houvesse cosméticos envolvidos, mas eles serviam à história e não deixavam as tendências de beleza atuais se infiltrarem nela. A maquiagem (e os figurinos) fizeram o que deveriam: recriar o mundo de Austen — não perfeitamente, mas da forma mais fiel possível.

Kate Winslet e Emma Thompson em Razão e Sensibilidade (1995).

"Moderno" é ruim? Não, se você realmente se dedicar a ele

Orgulho e Preconceito, de Wright, prova que uma adaptação moderna pode ser perfeita. Os figurinos são 100% fiéis à época? Não, e Wright admite isso, afirmando que preferia os estilos da Inglaterra do século XVIII, em vez das silhuetas no estilo Regência de Austen (início do século XIX). No entanto, a liberdade criativa funciona a favor do filme, não contra ele. Os figurinos são deslumbrantes e os atores imbuem seus personagens com uma autenticidade que parece ao mesmo tempo original e fiel à visão de Austen.

Matthew Macfadyen e Keira Knightley em Orgulho e Preconceito (2005).

Acho que podemos dizer que é uma daquelas raras peças que transita entre a adaptação "fiel" de um drama de época e a abordagem contemporânea, o que é um equilíbrio incrivelmente difícil de alcançar. Ainda assim, para todos os efeitos, inclina-se firmemente para o drama histórico. Sabe exatamente o que quer ser. O roteiro tem uma crueza vívida e sincera que não só é fácil de acompanhar, mas também atemporalmente ressonante, mantendo-se fiel à linguagem marcante da obra de Austen, ao mesmo tempo que lhe confere algo absolutamente único. Em outras palavras, contribui para a conversa existente.

Até mesmo a versão de Emma de Autumn de Wilde, de 2020 — com toda a sua glória em tons pastéis — captura a essência do texto, apesar de alguns equívocos nas caracterizações e imprecisões. Visualmente, permanece inovador, ao mesmo tempo em que convence o público de seu cenário da Regência e da era georgiana. Os figurinos são impecáveis, o cabelo e a maquiagem contidos, e o roteiro nunca parece artificial ou modernizado à força. E bem, podemos desculpar o rosto esculpido e modelar de Anya Taylor-Joy aqui porque ele realmente se encaixa na narrativa, com Austen descrevendo sua heroína Emma Woodhouse como "bonita, inteligente e rica". A garota "It" essencial do período, se preferir.

Mia Goth e Anya Taylor-Joy em Emma (2020).

Adaptações livres também podem ser excelentes — se souberem o que são (e o que não são). Aliás, alguns dos meus filmes favoritos são versões decididamente modernas de obras antigas. Pense em 10 Coisas que Eu Odeio em Você (baseado em A Megera Domada, de Shakespeare), Easy A (vagamente inspirado em A Letra Escarlate, de Nathaniel Hawthorne) e O Diário de Bridget Jones (uma versão icônica de Orgulho e Preconceito) — todos filmes que mal se parecem com seu material original à primeira vista, mas demonstram uma profunda compreensão de seus temas e personagens.

Heath Ledger, Allison Janney e Julia Stiles em 10 Coisas que Eu Odeio em Você (1999).

Como em qualquer arte, você pode "quebrar as regras" com sucesso quando domina os fundamentos. É por isso que esses filmes continuam brilhantes: eles interrogam, distorcem e reinventam com maestria o material de origem para refletir o zeitgeist, porque sabem o que fez a obra original ressoar em primeiro lugar.

Eu nem consigo odiar Bridgerton pelo que ele é, apesar de todas as suas falhas (parei de assistir assim que ouvi um cover de "thank u, next" da Ariana Grande durante uma cena de baile, mas isso pode ser um problema meu). A série tem plena consciência de que está reescrevendo a história, abraçando sem remorso seus elementos exagerados, excitantes, melodramáticos e com cara de iPhone. É divisivo, sim, mas pelo menos é honesto e não é indiferente.

Phoebe Dynevor e Regé-Jean Page na série Bridgerton.

Estudo de Caso: Como Persuasão, de 2022, não foi tão persuasivo

Persuasão, de 2022, para ser franca, não entendeu a tarefa. Na verdade, pareceu perder completamente o sentido do texto. Sua personagem principal, Anne Elliot, é uma heroína corajosa e "excêntrica" que bebe garrafas de vinho tinto em seu quarto e olha ironicamente para a câmera à la Fleabag (uma sequência inútil de quebras da quarta parede que, ao contrário de Fleabag, não acrescentam nada à história).

Desde o início, fica claro que os cineastas queriam que ela atraísse a garota Millennial ou da Geração Z, cansada e "liberada" de hoje (se quisessem um exemplo perfeito, bastariam olhar para Elizabeth Bennett, interpretada por Keira Knightley). Mas Anne não é nada disso. Essa afronta é mais perceptível para os fãs de longa data da obra, mas mesmo aqueles que não estão familiarizados com a história provavelmente terão essa sensação de "frieza" insípida e inteligência esforçada que simplesmente não parece merecida.

Nia Towle, Dakota Johnson e Izuka Hoyle em Persuasão (2022).

Persuasão é, como o título sugere, em última análise, a história de uma mulher impressionável, gentil e de fala mansa, cujo fracasso inicial em defender seus desejos a leva a um de seus maiores arrependimentos na vida: perder o homem que ama, o Capitão Frederick Wentworth. Ela se curva às opiniões dos outros, incluindo sua família rica, que considera Wentworth um parceiro inadequado devido à sua falta de fortuna. Mas quando as circunstâncias mudam e o capitão retorna à sua vida, Anne tem a chance de finalmente dar nome ao que deseja: um processo lento, mas constante, que é reconfortante e gratificante de ver se desenrolar.

Nossa heroína não é a glamorosa Dakota Johnson: na verdade, o livro descreve que sua "o auge de sua beleza se foi cedo", pelo menos para os padrões de sua época. Com sua natureza reservada e gentil, ela certamente não beberia durante o dia nem faria piadas sarcásticas. Ela é a garota para todas as garotas que foram levadas a sentir que sua gentileza é fraqueza, e é por isso que tantos leitores a adoram (inclusive eu). A história não trata de matar a ternura com cinismo ou ressentimento, mas sim de alimentá-la com uma admirável força interior. "Talvez você goste da Heroína, pois ela é quase boa demais para mim", escreve Austen, descrevendo Anne em uma carta de 1817 para Fanny Knight, sua sobrinha mais velha.

Hardy Yusuf, Jake Siame e Dakota Johnson em Persuasão (2022).

Lydia Rose Bewley, Richard E. Grant, Dakota Johnson e Yolanda Kettle em Persuasão (2022).


Cosmo Jarvis em Persuasion (2022).

Infelizmente, o filme, de alguma forma, transformou Persuasão em uma história sobre o luto amargo por uma antiga paixão, da maneira mais barulhenta possível. O que, por si só, é bom — mas não é Persuasão. Como personagem, Anne é adorável precisamente porque faz exatamente o oposto: aprende a navegar pelas segundas intenções e maquinações daqueles ao seu redor com graça silenciosa e respeito próprio. Esquecer isso é esquecer o talento de Austen para criar mulheres complexas. Mas suponho que, se servir de consolo, nenhuma adaptação cinematográfica de Persuasão realmente acertou em cheio as delicadas complexidades da personagem de Anne; os filmes de 1995 e 2007 a retratam como uma pessoa muito mansa e submissa, embora sejam muito melhores do que a versão de 2022.

A adaptação parece não conseguir decidir o que quer ser: um drama histórico wrightiano que infunde inventividade suficiente para ressoar com o público moderno, ou um remake contemporâneo que habilmente quebra as regras. O resultado é algo que parece quase vivo, uma história que não está nem aqui nem ali, que erra todos os alvos e remove qualquer traço do espírito de Austen.

Anne Elliot e o Capitão Frederick Wentworth em uma ilustração de 1922 de CE Brock/Foto cortesia da Jane Austen Society of Australia, Inc.

Como passamos de "Nunca poderia ter havido dois corações tão abertos, nenhum gosto tão parecido, nenhum sentimento tão uníssono, nenhum rosto tão amado. Agora eles eram como estranhos; não, piores que estranhos, pois nunca poderiam se conhecer. Era um distanciamento perpétuo", para "Mas um segundo atrás, não havia duas almas mais em sintonia do que Wentworth e eu. Agora somos estranhos. Piores que estranhos. [suspiro] Somos ex-namorados". Eu também estou suspirando, Dakota, mas por um motivo diferente.

A adaptação de 2022 poderia ter funcionado melhor se tivesse abraçado seu tom contemporâneo de cara, reformulando-se como um remake "solto" ambientado nos dias atuais ou em uma realidade alternativa. É aí que definir o tom e gerenciar as expectativas do público se torna crucial: faça uma escolha, comprometa-se com ela e garanta que as liberdades criativas aprimorem a história — ou, pelo menos, adicionem algo significativo — em vez de miná-la.

Só posso esperar que a próxima leva de remakes de Austen (e remakes literários em geral, como o novo A Época da Inocência, que está em andamento... sobre o qual permanecerei cética até que me provem o contrário) se baseie em seus queridinhos, em vez de destruí-los. Os clássicos devem continuar a ser alvo de engajamento — é assim que se mantêm relevantes. Adaptações e releituras não precisam ser fiéis à letra, mas se pretendem desconstruir e recriar, devem fazê-lo munidos de conhecimento, respeito e esforço cuidadoso. É o mínimo que podem fazer para honrar o brilhantismo de seu material de origem.

quarta-feira, 14 de maio de 2025

Netflix confirma a 5ª e 6ª temporada de Bridgerton

Hoje, a Netflix confirmou que a quarta temporada de Bridgerton estreia SOMENTE em 2026 e que teremos pelo menos mais duas temporadas, a quinta e a sexta.  Ao todo são oito livros, porque é o número de filhos e filhas da família Bridgerton (Anthony, Benedict, Colin, Daphne, Eloise, Francesca, Gregory e Hyacinth).  Como a série da Neetflix está se afastando muito do original, deve dar para condensar os últimos livros em uma temporada só, sei lá.

Além disso, liberaram mais um vídeo de Sophie e Benedict, protagonistas do terceiro livro (*resenha*) e da quarta  temporada.  Lamento que não tenham colocado Sophie com o vestido da avó, que seria uma roupa do século XVIII, mas um vestido moda império-regência.  O vídeo está abaixo, o que me faz lembrar que eu não terminei as resenhas da terceira temporada. 

sábado, 15 de fevereiro de 2025

Saiu o primeiro vídeo da 4ª temporada de Bridgerton: algumas ponderações

Ontem, foi um dia muito corrido para mim e eu nao tive tempo de comentar, mas foi publicado o primeiro vídeo da  quarte temporada de Bridgerton (Sophie e Benedict) e liberaram muitas fotos.  Enfim, tenho ainda que terminar de resenhar a terceira temporada (*pendências do ano passado*), mas não desgostei da série, não.  Estou ansiosa pela estreia até porque dos livros da série que eu li, o terceiro livro é o que eu mais gostei (*resenha*).  O vídeo está abaixo, depois, eu volto.

O vídeo mostra cena dos bastidores e algumas da temporada.  Para quem leu os livros, é possível reconhecer o baile (*claro*), que é onde Benedict (Luke Thompson) e Sophie (Yerin Ha) se conhecem, uma cena dos dois que parece ser no "My Cottage", outra que já  parece ser de quando Sophie passa a ser acompanhante, mais do que uma maid (serviçal) de Eloise e Hyacinth (*seria da Francesca, também, mas já a casaram*) ou é somente o áudio dele dizendo que não iria contar para sua mãe (*que a beijou?*) foi inserido ali.  Há outra cena de Sophie vestida como maid, pode ser da casa onde Benedict a conheceu e salvou de uma violência, mas não deve ser da casa da mãe dos Bridgerton, porque Sophie usava roupas antigas das filhas e, não, um uniforme.

Boa notícia, Jonathan Bailey aparece no final e com barba por fazer, isso quer dizer que ele não foi eliminado da série como foi o caso dos protagonistas da primeira temporada, mas não vimos Simone Ashley, salvo se ela estiver mascarada.  Imagino que possa ser de uma gravação de cena em que ele esteja esperando o nascimento de um dos filhos e a série pretende criar um drama em cima disso?  Será?  

O marido de Francesca aparece rapidamente, também.  Não sei o que vão fazer deles e de Eloise nessa temporada.  Agora, colocaram Sophie usando roupas estilo regência (*ou império*) no baile e algo importante do livro, até para dar o ar de Cinderela, é que ela vai ao baile usando um vestido antigo da mãe de seu pai, que seria algo de trinta ou mais anos antes.  Enfim, é esperar para ver.


Ainda considero a Katie Leung muito jovem para ser Aramintha.  Isso fica evidente nas fotos.  Será que vão enfatizar esse fato como algo distintivo?  Uma mulher que é tão bela que parece não envelhecer?   No geral, acredito que foi um erro de escalação.  observando o teaser e a Rainha Charlotte (Golda Rosheuvel ), fico imaginando se não estão correndo com os acontecimentos para manter a soberana na história.  Ela deveria morrer em 1818 e, bem, não que Bridgerton, a série da Netflix, não os livros, tenha grande apego pela história, mas os acontecimentos dos livros #3 em diante se passam um bom tempo depois da morte dela.

terça-feira, 10 de dezembro de 2024

Saíram os indicados ao prêmio dos Sindicato dos Maquiadores e Cabelereiros de Hollywood (Que eu nem sabia que existia)

Eu não sabia, mas deveria imaginar, claro, que da mesma forma que o sindicato dos figurinistas tinham uma premiação, o sindicato dos cabelereiros e maquiadores (Make-Up Artists & Hair Stylists Guild) também existia e tinha a sua premiação (MUAHS Awards).  O sindicato existe desde 1937 e a premiação, com dezenove categorias, foi criada em 2016 e os indicados saíram hoje.  Fiquei sabendo, porque Bridgerton foi indicado em duas categorias, Maquiagem e/ou Personagem de Época (Erika Okvist, Jessie Deol, Bethany Long) e Cabelo e/ou Personagem de Época (Erika Okvist, Farida Ghwedar, Emma Rigby), ambos para a TV.

Estou longe de ser entendida neste assunto, mas gosto de cinema e sou uma chata.  Então, acredito que essa premiação tenha um problema, o  MUAHS não separa Época de Fantasia.  Então, se formos para as categorias de cinema, temos indicados em Maquiagem e/ou Personagem de Época Beetlejuice Beetlejuice (*que parece ser o favorito), Deadpool & Wolverine, Gladiador II, MaXXXine e Wicked.  Três filmes de fantasia, ou dois de fantasia e um contemporâneo, e dois filmes de época (Gladiador II e MaXXXine).  A premiação de figurino divide as categorias.  

Além dessas categorias que eu comentei (Melhor Maquiagem e Melhor Cabelo), há efeitos de maquiagem, há uma premiação com categorias para programas de TV que não são séries e filmes, e os programas para crianças, reunindo tudo, nesse caso ficam separados.  E isso me fez descobrir que The Loud House agora tem live action.  Faz muito tempo que minha filha não vê a Nickelodeon.