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quarta-feira, 11 de março de 2026

O que ‘Bridgerton’ entende errado sobre espartilhos (Artigo Traduzido)

Não sei por qual motivo esse artigo antigo apareceu para mim, mas ele não é ruim, na medida em que coloca no lugar algumas questões importantes e ainda explica a cena do espartilho em E O Vento Levou, mesmo que perca de vista que Scarlett não faz aquilo por ser jovem e solteira, mas por ser tremendamente vaidosa, algo que ela leva ao longo do livro e que está no filme.  De resto, é sempre aquela coisa festiva de que as mulheres não seriam bobas de usar uma coisa incômoda, quando práticas detestáveis nos são impostas e reforçadas o tempo inteiro, inclusive o sutiã.  Eu fui obrigada a usá-lo a partir dos dez anos e me acostumei.  E olha que o texto tem até a defesa do espartilho pelo costume.  Uma criança não escolhe e uma mulher que quisesse parecer decente ou precisasse parecer aceitável, porque poderia ser punida por pai, mãe, marido etc.  também não.  A graça é acreditar que temos tanta liberdade, quando convém, claro, pois volta e meia é essa história de espartilho que é trazida para a discussão.  Queria ver esse mesmo raciocínio usado para as mulheres girafas, os pés de lótus chineses ou mesmo o hijab.  Você se acostuma, então, é normal.  E é mesmo, não é verdade?  De resto, as roupas íntimas de Bridgerton são abomináveis.  Não são práticas, não são bonitas, não são sensuais.  São somente ideias ruins.

Se quiserem ler o original, ele está aqui.  As imagens que consegui trazer para o post estão nos lugares de origem, mas havia dois carrosséis com várias fotos e não consegui colocar no blog. Iria dar muito trabalho.  Enfim, é isso, segue a tradução.

O que ‘Bridgerton’ entende errado sobre espartilhos

Os direitos das mulheres eram severamente restringidos na Inglaterra do século XIX, mas suas roupas íntimas não eram as culpadas

Rachel Kaufman - Colaboradora

A representação de espartilhos no episódio de estreia de "Bridgerton" é mais um exemplo da mesma mitificação presente na cultura popular. Captura de tela via Netflix

Na cena de abertura do sensual drama de época da Netflix, "Bridgerton", Prudence Featherington, uma das filhas solteiras da ambiciosa Lady Featherington, está se vestindo para ser apresentada à rainha da Inglaterra. Prudence se curva, ofegante, enquanto uma criada aperta ainda mais os laços de seu espartilho.

"Eu conseguia espremer minha cintura até o tamanho de uma laranja e meia quando tinha a idade de Prudence", diz Lady Featherington.

Muitos filmes, tanto históricos quanto fantásticos, têm uma cena semelhante. Pense em Scarlett O'Hara, de "E o Vento Levou", agarrando-se desesperadamente a um poste da cama; Elizabeth Swann, em "Piratas do Caribe", com o espartilho tão apertado que mal consegue respirar; Rose, em "Titanic", em uma cena quase idêntica; Emma Watson, interpretando Bela na versão live-action da Disney de "A Bela e a Fera", declarando que sua personagem é independente demais para usar um espartilho.

Outro elemento compartilhado por algumas dessas cenas, entre muitas outras? Nenhuma das personagens que sofrem com a dor tem controle sobre a própria vida; em cada cena, uma figura de autoridade (as mães de Prudence e Rose, o pai de Elizabeth) diz a elas o que devem fazer. É uma metáfora bastante óbvia, afirma Alden O'Brien, curador de figurinos e têxteis do Museu das Filhas da Revolução Americana em Washington, D.C.

“Ter uma cena em que elas dizem ‘mais apertado, mais apertado’ é obviamente uma representação dos papéis restritos das mulheres na sociedade”, diz O’Brien.

O problema é que quase todas essas representações são exageradas ou simplesmente erradas. Isso não significa que Shonda Rhimes, criadora de "Bridgerton", tenha errado em sua representação dos direitos das mulheres no início do século XIX, durante o período da Regência — de fato, eles eram severamente restringidos, mas a culpa não era das roupas íntimas.

"Não se trata tanto do espartilho em si, mas sim da psicologia da cena", afirma Kass McGann, historiadora da moda que já prestou consultoria para museus, programas de TV e produções teatrais ao redor do mundo, e que fundou e é proprietária do blog e loja de figurinos históricos Reconstructing History, em um e-mail.

Ao longo de quatro séculos de inúmeras mudanças na moda, as roupas íntimas femininas passaram por grandes variações em nome, estilo e formato. Mas para aqueles cuja compreensão de dramas de época se baseia unicamente em séries e filmes como "Bridgerton", essas diferentes peças são erroneamente agrupadas sob o rótulo de espartilho.

Se definirmos um espartilho como “uma peça de roupa íntima estruturada para o torso feminino”, diz Hilary Davidson, historiadora da moda e autora de *Dress in the Age of Jane Austen*, os primeiros espartilhos surgiram no século XVI como resposta à moda feminina, que se tornava mais rígida e “geométrica”. O espartilho, reforçado com barbatanas de baleia, junco ou até mesmo madeira, de fato moldava o corpo feminino no formato de cone invertido que estava na moda, mas as mulheres não necessariamente apertavam seus espartilhos o suficiente para alcançar esse formato. Em vez disso, usavam enchimentos ou aros para dar a impressão de uma cintura mais larga (algo semelhante aos enchimentos de quadril da era elisabetana), o que, por sua vez, fazia a cintura parecer mais fina.

Essa forma persistiu mais ou menos até o período da Regência, no início do século XIX, quando houve "todo tipo de invenção, mudança e experimentação" na moda, diz Davidson. Durante esse período de 20 anos, as mulheres tinham opções: podiam usar espartilhos, peças estruturadas com barbatanas que mais se assemelham à concepção atual de um corset; macacões, roupas íntimas muito macias e acolchoadas, mas ainda assim com boa sustentação; ou corsets, que ficavam em algum lugar entre os dois. O'Brien diz que os corsets do período da Regência eram feitos de algodão macio ("imagine um jeans azul, só que branco") com cordões de algodão mais rígidos para sustentação e, ocasionalmente, canais nas costas para as barbatanas e uma abertura na frente para um suporte de metal ou madeira chamado barbatana. (Lembre-se, porém, que esses suportes eram feitos sob medida para o corpo de cada pessoa e abraçavam suavemente suas curvas.) Eventualmente, o termo corset (do francês para "pequeno corpo") prevaleceu em inglês, e a forma se consolidou no formato de ampulheta que conhecemos hoje.

Mas, na verdade, essas peças íntimas eram apenas "peças de roupa normais", diz Davidson. As mulheres tinham uma variedade de opções, assim como as mulheres de hoje "têm um espectro de possibilidades, do sutiã esportivo ao Wonderbra". Aquelas que simplesmente ficavam em casa usavam seus espartilhos mais confortáveis, enquanto outras, que iam a um baile, poderiam "usar algo que desse uma silhueta mais elegante". Até mesmo as mulheres que trabalhavam usavam algum tipo de peça de roupa com amarração e sustentação como essas — desmentindo a ideia de que vestir um espartilho causava desmaios imediatamente. Para Davidson, o mito de que as mulheres "andavam por aí com essas coisas desconfortáveis ​​que não podiam tirar, por causa do patriarcado" é realmente irritante. "E elas aguentaram isso por 400 anos? As mulheres não são tão bobas", afirma.

Essas peças eram confortáveis, acrescenta Davidson, não apenas pelos padrões da época — as mulheres começaram a usar algum tipo de peça de roupa com espartilho e sustentação quando eram meninas, então já estavam acostumadas com elas na idade adulta — mas também pelos padrões modernos. O’Brien concorda: “Ter algo que desça mais pelo busto… eu realmente gostaria disso, porque distribuiria melhor o suporte.”

Na era vitoriana, após “Bridgerton”, os espartilhos evoluíram para um formato mais de ampulheta — o formato que muitas pessoas imaginam quando pensam em um espartilho desconfortável, que comprime os órgãos e deforma o corpo. Mas, novamente, as percepções modernas do passado moldam a forma como pensamos sobre essas peças íntimas. Davidson afirma que as saias eram maiores nessa época — “quanto mais larga a saia, menor a cintura parece”. Os museus costumam exibir espartilhos em manequins como se as bordas se encontrassem. Na realidade, eles provavelmente eram usados ​​com as bordas separadas por alguns centímetros, ou até mais folgadas, se a mulher assim desejasse.

McGann sugere que uma das razões pelas quais os espartilhos são associados à dor é porque as atrizes falam sobre o desconforto que sentem ao usar um espartilho inadequado para um papel. "Em muitos casos, os espartilhos não são feitos sob medida para a atriz, mas sim um espartilho de tamanho padrão é usado por conveniência", diz McGann. "Isso significa que elas estão usando espartilhos que não lhes servem adequadamente e, quando apertados demais, podem causar dor!"

Então, na era da Regência e em outros períodos, as mulheres apertavam os laços de seus espartilhos além do que era confortável — ou saudável — para conseguir uma cintura mais fina, de acordo com a moda? Claro, algumas faziam isso, quando queriam impressionar alguém (e, aliás, Davidson considera a cena do espartilho em "E o Vento Levou" muito precisa, já que Scarlett O'Hara é jovem, solteira e está tentando causar uma boa impressão). Em "Bridgerton", a insistência da socialite Lady Featherington em que suas filhas tenham cinturas finas parece igualmente lógica. Exceto que... na era da Regência, em que os vestidos caem a partir do busto, qual seria o sentido de ter uma cintura fina? "A ideia de apertar o espartilho ao máximo é completamente inútil... irrelevante para a moda", diz Davidson.

"Não há como aquele espartilho de época [afinar a cintura dela], e não é essa a intenção", acrescenta O'Brien.

Davidson tem outra ressalva em relação às escolhas de moda íntima de "Bridgerton" (pelo menos no primeiro episódio, que ela assistiu a pedido da revista Smithsonian). Os espartilhos e corpetes do período da Regência eram projetados menos para criar o decote que o público moderno considera atraente e mais para levantar e separar os seios como "dois globos redondos", diz Davidson. Ela acha os espartilhos de "Bridgerton" muito planos na frente.

Em uma entrevista para a Vogue, a figurinista de "Bridgerton", Ellen Mirojnick, explicou sua filosofia sobre as roupas da série: "Esta série é sexy, divertida e muito mais acessível do que um drama de época comum e contido, e é importante que a ousadia dos decotes reflita isso. Quando você vê um close, há muita pele à mostra. Exala beleza." Mas, segundo Davidson, “embora buscassem sensualidade, decote e máxima exposição, o corte das roupas, na verdade, achatava os seios de todas. Se tivessem voltado ao estilo de espartilho da Regência, o busto teria muito mais destaque. Seriam seios enormes.”

“Bridgerton”, no entanto, acerta em muitos aspectos sobre o status da mulher no início do século XIX. O casamento era uma das únicas opções para mulheres que não queriam morar com parentes pelo resto da vida, então o foco da série em encontrar “bons parceiros” no matrimônio é pertinente. Uma vez casada, a mulher se tornava legalmente propriedade do marido. Ela não podia assinar contratos ou fazer um testamento sem o consentimento dele.

Em meados do século XIX, as mulheres conquistaram avanços significativos em relação à propriedade de bens e ao divórcio. Contudo, foi somente em 1918 na Inglaterra e em 1920 nos Estados Unidos que (algumas) mulheres puderam votar. Por volta da mesma época, os espartilhos estavam saindo de moda, e muitos escritores da época viram uma conexão entre a libertação do espartilho e a libertação feminina.

Em "Bridgerton", jovens mulheres da era da Regência vestem espartilhos antes de serem apresentadas à Rainha Charlotte. Liam Daniel / Netflix

O'Brien afirma que, olhando para trás agora, essa conclusão não se sustenta. “Há muitos escritores dizendo: ‘Ah, somos muito mais libertadoras do que aquelas vitorianas terríveis, hipócritas e reprimidas, e nos livramos do espartilho.’ Bem, me desculpem, mas se vocês observarem as cintas modeladoras da década de 1920, elas faziam exatamente a mesma coisa: usavam roupas íntimas para criar a forma da moda da época”, o que, nos loucos anos 20, significava usar cintas elásticas e faixas para comprimir os seios para “reprimir completamente a forma natural da mulher”.

“A sociedade sempre tem um ideal de corpo que será impossível para muitas mulheres alcançarem, e cada mulher escolherá até onde ir na busca por esse ideal, e sempre haverá algumas que levam isso a um extremo que coloca suas vidas em risco”, acrescenta O’Brien.

O’Brien e Davidson esperam que as pessoas parem de pensar nos espartilhos como ferramentas opressoras do patriarcado ou como lembretes dolorosos da obsessão feminina pela moda. Essa atitude “tira a autonomia feminina”. O’Brien afirma: “Estamos deixando que os caprichos da moda nos dominem, em vez de escolhermos fazer algo a respeito”.

Usar um espartilho era “tão opressivo quanto usar um sutiã, e quem obriga as pessoas a usar sutiã de manhã?” (Algumas mulheres em 2021, depois de meses de reuniões por Zoom e trabalho remoto, podem estar se fazendo exatamente essa pergunta agora.) “Todas nós fazemos escolhas individuais”, diz Davidson, “sobre o quanto modificamos a nós mesmas e nossos corpos para nos encaixarmos nos grupos sociais em que vivemos”.

É mais fácil pensar em espartilhos como “estranhos, incomuns e do passado”, diz Davidson. Pensar em um espartilho como uma ferramenta opressiva do patriarcado antigo implica que nós, mulheres modernas, somos mais esclarecidas. Mas, acrescenta Davidson, “Não usamos espartilhos porque os internalizamos. Hoje em dia você pode usar o que quiser, mas por que toda a publicidade na internet diz ‘8 truques estranhos para uma cintura fina’? Nós fazemos Pilates.” Usar um espartilho exige muito menos suor e esforço do que fazer Pilates.”

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2025

Já temos os vencedores do Sindicato dos Figurinistas, um dos termômetros do Oscar

Ontem, foram anunciados os vencedores do Sindicato dos Figurinistas, que serve como indicativo do que pode acontecer no Oscar. Eu gosto de observar os figurinos dos filmes, então, é uma premiação que, desde que eu descobri que existe, eu gosto de postar e comentar.  Muito bem, o Costume Designers Guild Awards (CDGA) premia cinema e TV.  Diferentemente do que ocorre no Oscar, há três categorias, filme contemporâneo, época e ficção científica.  É legal separar, porque mais gente é contemplada.  Normalmente, o Oscar meio que ignora filmes contemporâneos, mas, este ano, todos os vencedores estão indicados.

Conclave venceu em filme contemporâneo, Nosferatu em filme de época, e Wicked em filme de fantasia e ficção científica.  Quem são os outros indicados no caso do Oscar?  Um Completo Desconhecido e Gladiador 2.  Pelo que eu observei, o favorito no momento para o Oscar é Wicked, seguido de Nosferatu, que tem um figurino super elogiado.  Se quiserem saber mais, assistam o vídeo da Modista do Desterro.  


Em TV, o mais premiado foi Shogun, porque levou em figurino de época e, também, em ilustração de figurino.  Já em fantasia e ficção científica, o prêmio foi para Duna (*tem uma série de TV*) e Hacks levou contemporâneo.  A lista completa dos premiados pode ser encontrada aqui

sábado, 5 de outubro de 2024

Pequeno Anime apresenta 40 anos de moda feminina no Japão. Ele é comemorativo da loja Shinjuku Mylord

Pelo que entendi, a Shinjuku Mylord é uma loja de departamentos que fica ao lado da estação de metrô de Shinjuku.  Segundo o Sora News3,5 milhões de pessoas que passam pela estação em um dia normal, o que dá muita visibilidade para a loja. Ela completará 50 anos em 2025 e lançou um video animado de 30 segundos apresentando as mudanças na moda feminina japonesa nesse período.  É bem fofinho mesmo, vi a matéria no SN, mas eles linkaram o vídeo do Twitter.  Procurando, achei no Youtube, baixei e trouxa para cá.  Deem uma olhada: 



domingo, 12 de março de 2023

E chegou o Oscar e eu não vi nada... e ainda não comentei o prêmio do sindicato dos figurinistas!

Vixe, nem acredito que hoje é o Oscar e eu bati o recorde, não assisti praticamente nada do que está indicado aos prêmios principais. Saudade do tempo em que eu ia ao cinema, aliás, é uma das coisas que eu mais sinto falta, mas teve a pandemia e tudo o que veio depois. 😞 Enfim, mas eu tinha deixado aberto aqui com a premiação do  CDGA (Costume Design Guild Award), porque tenho sempre comentado esse prêmio nos últimos anos, porque é assunto que me interessa.  Enfim, o anúncio foi no dia 27 de fevereiro, para vocês verem o quão defasada eu estou.  De qualquer forma, segue a lista.  Quem ganha o CDGA, normalmente, ganha o Oscar.

Época (cinema): Elvis de Catherine Martin.

Época (televisão): The Crown: Ipatiev House de Amy Roberts.

Contemporâneo (cinema): Glass Onion: A Knives Out Mystery de Jenny Eagan.

Contemporâneo (TV): Wednesday: Wednesday’s Child is Full of Woe de Colleen Atwood & Mark Sutherland.

Ficção Científica/Fantasia (cinema): Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo  de Shirley Kurata.

Ficção Científica/Fantasia (TV): House of the Dragon: The Heirs of the Dragon de Jany Temime.

Bem, Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo  e Elvis estão indicados ao Oscar, são ambos favoritos, mas eu apostaria em Elvis, não por ter melhor figurino, mas porque acredito que há uma tendência a valorizar mais esse filme do que ele merece e é filme de época, o que o coloca meio que como favorito.  Minha torcida, no entanto, é por Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo.

sábado, 30 de abril de 2022

Anunciados mais dois filmes de Sailor Moon em 2023 e algumas reflexões sobre o sucesso muito maior da animação original

Ontem, e eu estava muito cansada para publicar qualquer coisa, foi anunciado que teremos dois filmes de Sailor Moon em 2023.  A ideia é que Sailor Moon Cosmos (美少女戦士セーラームーンCosmos) coloque fim à nova adaptação animada que foi iniciada nas comemorações dos 20 anos da série.  O fato, como bem destaca o Sora News, é que a nova adaptação animada de Sailor Moon não conseguiu a mesma popularidade da original, que foi planejada para estrear quase que simultaneamente com o mangá.  Mas é preciso levar em consideração que, hoje, temos uma cartela muito maior de opções e que a série original representou uma nova e bem sucedida abordagem do gênero garota mágica, além de oferecer para a maioria dos ocidentais uma grande novidade, quando praticamente nada era oferecido para as garotas.  

E, sim, apesar de shoujo, Sailor Moon conquistou muitos fãs homens, independentemente da sua orientação sexual, porque é fato que meninos gays, que também eram subrepresentados e mal atendidos encontraram algo para si em Sailor Moon.  O sucesso da série original não pode ser analisado sem levar em consideração o contexto.  A ausência de representações mais diversificadas de mulheres, ou meninas, como heroínas, a forma como a série abordou a questão da sexualidade e identidade de gênero de forma muito natural é algo a ser levado em conta.  E o natural que usei tem dupla face, porque, por um lado, Sailor Moon mostrava, por exemplo, um casal formado por duas mulheres sem ligar para as sobrancelhas levantadas, por outro, não aprofundava discussões sobre o tema.  

Estava lá, é importante, é corajoso, mas não queremos ir além disso.  Tanto é que eu DUVIDO que a autora tivesse pensado Haruka Tenou/Sailor Urano como gender fluid, ou não-binária, não sei bem onde ela está encaixada, simplesmente, ela olhou para o mundo e para outras representações de mulheres andróginas, abundantes dentro da cultura pop japonesa, seja nos mangás, seja no Teatro Takarazuka.  Em 1998, a autora afirmou que a personagem era lésbica, já na época de Sailor Moon Crystal, a coisa foi além.  Além de Urano, havia outras personagens LGBTQUIA+, inclusive censuradas em dublagens e exibições em alguns países ocidentais.  


A série original, mesmo que de forma ingênua e superficial aos olhos de muita gente nos nossos dias, era muito avançada, o que não a impedia de ter momentos machistas, também, porque não se tratava de um material feminista, mas feminino e sempre pode surgir ruído na transmissão de uma mensagem.  Agora, antes o ruído do que o silêncio, ainda que ele fale muita coisa sobre certos produtos e a sociedade que os produziu.  O silêncio pode falar mais alto e gritar mais forte do que certos discursos muito arrumadinho que vemos por aí, aliás.  E, para quem quiser uma discussão mais acadêmica sobre os sentidos do silêncio, recomendo o livro As Formas do Silêncio da Eni Orlandi.

E vamos levar em conta que Sailor Moon é um produto direcionado para meninas entre 9 e 13 anos orginalmente.  Ainda que não devamos ser inocentes em pensar que lá no seu planejamento os empresários já não imaginavam que a coisa pudesse transbordar seu público alvo, como tantos shoujo antes de Sailor Moon, é preciso levar em conta que o mangá saia na Nakayoshi e a ideia era oferecer mais uma série de garotas mágicas, um dos gêneros mais consolidados dentro da animação para meninas e não somente, porque há mahou shoujo em todas as demografias.  Sailor Moon, o anime original,se destacou, também, por um diálogo com a moda da sua época, por exemplo, algo que não ficou tão evidente na nova adaptação.  Há um artigo traduzido aqui no blog sobre o tema.

Voltando para Sailor Moon Cosmos, os dois filmes para o cinema serão lançados no Verão japonês e terão um novo diretor, Tomoya Takahashi. Kazuko Tadano, designer de personagens do anime Sailor Moon original dos anos 90 e Eternal retorna no mesmo papel, assim como o roteirista Kazuyuki Fudeyasu, que escreveu Eternal, lançado em 2021.  A Netflix tem disponibilizado a nova série e a JBC lançou todo o mangá e em mais de uma versão.  O teaser do próximo filme, está logo abaixo:


quinta-feira, 8 de julho de 2021

Gals!! ganha coleção exclusiva de roupas no Japão

Gals!! (ギャルズ!) de Mihona Fujii está passando por um revival.  A série original teve 10 volumes e foi publicada entre 1998 e 2002 na revista Ribon, com o sucesso, virou uma animação com o nome de Super Gals!! Kotobuki Ran (超ギャルズ!寿蘭) em 2001, e teve três games.  A nova série estreou em 2019 na plataforma Manga Mee, que é voltada para mangás femininos, e está no terceiro volume.


Pois bem, a grife CECIL McBEE fez uma coleção exclusiva inspirada na série e estará com uma loja aberta em Shibuya entre os dias 9 e 18 de julho.  É possível acessar os produtos na internet, também.  No Comic Natalie há várias imagens das roupas.

segunda-feira, 5 de julho de 2021

Exposição apresenta 1500 anos das vestimentas femininas japonesas

O Sora News trouxe uma matéria sobre uma exposição monumental sobre a indumentária feminina japonesa ao longo de quinze séculos começando no Período Kofun (300-538) e seguindo até nossos dias.  

A exposição é uma colaboração entre a Associação Cultural de Tingimento e Tecelagem de Kyoto, que está completando 80 anos, e o Museu do Traje Bunka Gakuen, com sede em Shibuya, e visa atender tanto os interessados por história da indumentária, quanto os apaixonados por quimonos.  Infelizmente, as imagens do SN não abriram e a da página oficial da mostra são super pequenas.  A foto da abertura do post é do SN, as demais vieram do site Ikidame Nippon que tem modelos vestindo roupas a partir do Período Asuka  (538-710).

A exposição abrirá suas portas em 15 de julho e ficará funcionamento até 28 de setembro. Há ingressos diferenciados para os visitantes comuns e os diversos tipos de estudantes, portadores de deficiência física e seus acompanhantes têm entrada gratuita. A depender do número de visitantes, a entrada pode ser escalonada para atender as medidas de prevenção necessárias em tempos de COVID-19.A mostra também oferecerá uma série de palestras e workshops em japonês sobre técnicas de costura e tingimento de quimonos, que podem ser inscritas aqui.

sexta-feira, 11 de junho de 2021

Por que a moda avançada de Sailor Moon nunca deixará de atrair novos fãs

O site Dazed publicou uma longa matéria sobre a moda em Sailor Moon, a série dos anos 1990, e a fascinação que ela exerce sobre os fãs até hoje com a proliferação de contas no Tik Tok, Isntagram e Youtube falando do assunto.  O texto fala, também, da paixão de Naoko Takeuchi por moda. Achei que valia a pena e traduzi.  Para quem quiser ler o original, ele esta aqui.  E, para quem não sabe, os novos filmes de Sailor Moon estão na Netflix e espero que façam sucesso.

terça-feira, 20 de abril de 2021

Aquecimento para o Oscar: Saíram os Vencedores do Prêmio da Associação de Figurinistas

O Oscar está chegando e eu pouco tenho postado sobre as premiações que o antecedem, não que eu tenha feito isso o ano passado, a pandemia me deixou desestimulada a postar sobre cinema, mas, enfim, eu tinha comentado as indicações para o CDGA (Costume Designers Guild Awards), que é a premiação do sindicato dos figurinistas e essa é uma área que eu gosto muito.  Normalmente, quem vence essa premiação, que é bem diversificada, vence o Oscar na mesma categoria, quando está indicado, claro.  Então, quem  saiu premiado no CDGA?  Não vou colocar tudo, OK?

  • Excelência em Filme de Época: Ma Rainey’s Black Bottom (Ann Roth)
  • Excelência em Filme Contemporâneo: Promising Young Woman (Nancy Steiner)
  • Excelência em Ficção Científica/Fantasia: Mulan (Bina Daigeler)
  • Excelência em Produção de Época para a TV: The Queen’s Gambit: “End Game” (Gabriele Binder)
  • Excelência em Produção Contemporânea para a TV: Schitt’s Creek: “Happy Ending” (Debra Hanson)
  • Excelência em Produção de Ficção Científica/Fantasia para a TV: Westworld: “Parce Domine” (Shay Cunliffe)


Bem, de TV, só posso falar de The Queen's Gambit e o figurino dessa série, que eu assisti e resenhei, é maravilhoso.  Agora, falando em filme de época, Emma estava no páreo e eu não vi Ma Rainey’s Black Bottom, mas eu duvido que algo supere a produção baseada em Jane Austen, porque a película é mais aparência do que qualquer outra coisa e pontua altíssimo nesse quesito.  Dos premiados no CDGA, quem está indicado ao Oscar? Ma Rainey’s Black Bottom, Emma e Mulan.  Dois dos filmes foram premiados, mas ainda acho que estão os três na disputa.  Quem são os outros indicados na categoria?  Mank, que é o filme mais indicado do ano, concorrendo em 10 categorias, o que não significa nada, claro, ou pode significar tudo, e Pinocchio, que deve ser a carta fora do baralho.  A cerimônia do Oscar será no dia 25 de abril.  Está chegando já.

quinta-feira, 4 de março de 2021

Associação dos figurinistas revela sua lista de indicados

Eu gosto de observar o figurino dos filmes e séries mesmo sendo leiga, então decidi dar destaque ao 23º Costume Designers Guild Awards (CDGA).  Eles não fazem como no Oscar e tem categorias diferentes para filmes de fantasia, contemporâneos e de época, além de premiarem seriados, também.  Não incluí shows musicais e realities no post, basta acessar o site da premiação.  Os vencedores serão conhecidos em 13 de abril.  Vamos aos indicados!

Sci-Fi/Fantasy Film

Dolittle - Jenny Beavan

Jingle Jangle: A Christmas Journey - Michael Wilkinson

Mulan - Bina Daigeler

Pinocchio - Massimo Cantini Parrini

Wonder Woman 1984 - Lindy Hemming

Desse grupo, assisti Dolitle, que eu esqueci que assisti em 2020, porque é muito ruim, e Wonder Woman 1984.  Não vi nada demais em nenhum dos dois.  Olhei Mulan por alto, talvez seja o melhor do grupo.

Contemporary Film

Barb and Star Go to Vista Del Mar - Trayce Gigi Field

Birds of Prey - Erin Benach

Da 5 Bloods - Donna Berwick

Promising Young Woman - Nancy Steiner

The Prom - Lou Eyrich

Do grupo, só vi The Prom.  E não entendo por qual motivo Birds of Prey não está na outra categoria.

Period Film

Emma - Alexandra Byrne

Judas and the Black Messiah - Charlese Antoinette Jones

Ma Rainey’s Black Bottom - Ann Roth

Mank - Trish Summerville

One Night in Miami - Francine Jamison-Tanchuck

Só vi Emma e, bem, o forte do filme é o visual, o figurino é impecável.  Eu gostaria que vencesse a categoria e levasse o Oscar, também.

Sci-Fi/Fantasy Television

The Mandalorian: “Chapter 13: The Jedi” - Shawna Trpcic

Snowpiercer: “Access is Power” - Cynthia Summers

Star Trek: Picard: “Absolute Candor” - Christine Bieselin Clark

Westworld: “Parce Domine” - Shay Cunliffe

What We Do in the Shadows: “Nouveau Théâtre des Vampires” - Amanda Neale

Star Tek indicado... Nunca consegui achar os figurinos de Jornada interessantes, mas não vi Picard, então... 

Contemporary Television

Emily in Paris: “Faux Amis” - Patricia Field & Marilyn Fitoussi

Euphoria: “Part 1: Rue – Trouble Don’t Last Always” - Heidi Bivens

I May Destroy You: “Social Media is a Great Way to Connect” - Lynsey Moore

Schitt’s Creek: “Happy Ending” - Debra Hanson

Unorthodox: “Part 2” - Justine Seymour

Só vi Unorthodox e não tenho opinião sobre esta categoria.

Period Television


Bridgerton: “Diamond of the First Water” - Ellen Mirojnick & John W. Glaser III

The Crown: “Terra Nullius” - Amy Roberts

Lovecraft Country: “I Am.” - Dayna Pink

Mrs. America: “Shirley” - Bina Daigeler

The Queen’s Gambit: “End Game” - Gabriele Binder

Bridgerton deveria estar em fantasia, não se propõe a ser fiel ao figurino da época que se propõe a retratar.  Vi umas análises do figurino de Lovecraft Country que me fizeram dizer "UAU!".  E The Queen's Gambit tem um deslumbre de figurino.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021

Keiko Takemiya vai fazer continuação de mangá sobre História da Moda publicado nos anos 1990

Um dos mangás de Keiko Takemiya que eu não conhecia se chama Hermès no Michi (エルメスの道)  ou Le Chemin d'Hermès.  Contando com um único volume publicado em 1997, o mangá contou a a história da marca francesa de luxo Hermès. A nova sequência contará com três capítulos. O primeiro capítulo é sobre o edifício Ginza Maison, construído em 2001. O segundo capítulo gira em torno da competição equestre Saut Hermès. O terceiro capítulo é sobre a linha de produtos Petit h da marca.  

Com esse revival, haverá uma republicação do volume original e os três capítulos, que a autora fará sem auxiliares, serão publicados em um volume em março.  Essa continuação estará à venda nas livrarias japonesas e nas lojas da Hermès, segundo o ANN.  Eu nem sei o que pensar, parece um mangá de promoção de uma marca e, não, um quadrinho sobre História da Moda, como aparece no título do ANN e em outros lugares.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2021

Panini anuncia o relançamento de Paradise Kiss

 

Seguindo com a temporada de anúncios, a Panini noticiou o relançamento de Paradise Kiss (パラダイス・キス), mangá de Ai Yazawa previamente publicado pela Conrad.  É um mangá importante, se não me engano, o primeiro josei a sair no Brasil, eu gostaria de ter a série em uma encadernação com mais qualidade, PORÉM relançamento não tem o mesmo gosto que um mangá inédito.  Eu preferia Gokinjo Monogatari (ご近所物語), que tem ligação com Paradise Kiss, compartilhando com ele algumas personagens, ou Tenshi Nanka Ja Nai  (天使なんかじゃない).  Pergunto-me se a Panini pretende republicar mais algum shoujo, ou josei.  

De qualquer forma, ainda que eu não me anime, para quem não pode colecionar a série, afinal, o lançamento já tem bem mais de uma década, é interessante, sim.  Paradise Kiss é uma série que trata do mundo da moda e tem como protagonista uma jovem super pressionada para ser a aluna perfeita, Yukari, conhece um grupo de estudantes de moda e acaba se tornando sua modelo.  Paradise Kiss tem personagens interessantes, eu gosto bastante do mangá e ele foi publicado originalmente não em uma antologia, mas na revista de moda Zipper.  Agora, Ai Yazawa não trabalha muito bem uma relação abusiva que existe na série, mais detalhes não darei.  No seu formato normal, ParaKiss tem cinco volumes.  A série também virou animação e é relativamente fácil de encontrar, não sei se está em algum serviço de streaming.

domingo, 27 de dezembro de 2020

Comentando Bridgerton mais uma vez: Capítulos 2-4

Sim, outra resenha.  Sim, eu estou assistindo a série aos poucos, não foi uma imersão raivosa como em Gambito da Rainha.  Boa parte do tempo, assistir Bridgerton é um prazer.  Tudo é bem colorido, o figurino, mesmo com todas as suas liberdades, é encantador, e o elenco é bonito.  Phoebe Dynevor parece uma fada de livro infantil e os vestidos do período em que se passa a série só a tornam ainda mais etérea e Regé-Jean Page é o homem mais lindo que eu vejo em muito tempo e tem uma voz que... Ah!  Já Adjoa Andoh, Lady Danbury, é uma uma espécie de Lady Catherine de Bourgh do bem e ver uma atriz de cor super poderosa e usando aquele figurino de época espetacular já vale o tempo investido.

Falei somente da embalagem, certo?  Pois é, mas a história é boa.  Eu não avancei na leitura dos livros, seria leviandade minha, portanto, imputar qualquer coisa à autora, Julia Quinn, mas eu vi as cenas da infância de Simon (Regé-Jean Page) inseridas no capítulo 2 e, acredito, no 3.  Elas são praticamente idênticas ao livro, porque foi a parte que eu li até o momento.  Há quem esteja comparando Bridgerton com Austen.  Olha, salvo pela época, nada tem de Jane Austen e vou explicar os motivos.

Os livros de Jane Austen não lidam com a alta nobreza (reis, príncipes, duques, marqueses, condes, viscondes, barões), eles não aparecem nos livros da autora, porque ela não convivia com esse povo seleto, "the ton", como a série repete várias vezes.  E isso, nada tem a ver com riqueza, que fique claro.  Um Mr. Darcy poderia ser mais rico que um duque, ou príncipe, mas ele era isso "Mr.", não tinha título algum.  Posso estar enganada, mas o único membro da alta nobreza que aparece em um livro de Austen é uma viscondessa em Persuasão, o pai da Anne Elliot é um parente distante, muito abaixo dela, portanto.  Sir Walter Elliot é um baronete,  a excitação dele em encontrar a parenta, marca bem que existe um mar de diferença entre eles. 

Falando em dinheiro, o futuro Leopoldo I da Bélgica, tio da Rainha Vitória e do Príncipe Albert, que, de repente, aparecerá em um episódio dessa série, era um príncipe sem eira nem beira.  Era um homem lindo, a julgar pelos quadros, inteligente e sedutor, porque conseguiu arranjar colocação para a família inteira, incluindo um trono para si, mas era pobre, pobre, pobre.  Só que ele era um príncipe.  E títulos ainda valiam muito na Europa do século XIX e valem até hoje, porque as meninas são educadas para se acharem princesas e sonharem com príncipes, infelizmente.

Retornando, Jane Austen escreve sobre a gentry, a pequena nobreza rural, gente que, no máximo, chegava a baronete.  Quem vai escrever sobre duques, condes, príncipes, é Georgette Heyer (1902 -1974), uma romancista muito importante e que poderia ter suas histórias adaptadas para filmes e séries. Agora, quem gosta muito dessa alta nobreza, muito, muito mesmo, são as autoras de romance de banca.  E, não, não estou desprezando, porque eu leio esse material e há autoras muito competentes.  É literatura romântica, às vezes erótica, para consumo rápido e com grandes doses de felicidade.  E elas adoram essas sagas de família. A-DO-RAM!

Observando os Bridgertons, lendo o resumo de cada um dos livros, não tenho dúvida alguma de que se trata do mesmo tipo de literatura.  O fato de incorporar algo das chick-lit, isto é, um tipo de literatura feminina centradas na heroína contemporânea que passa provações e tribulações até atingir seus objetivos, que podem ser profissionais, sim, mas normalmente passam pelo coração, não faz com que a série perca de vista essa outra fonte de inspiração.  Não é Austen, portanto, é romance Harlequin para livraria, que significa que custará mais caro, receberá uma produção melhor e leitoras com preconceito contra os romances de banca vão consumir achando que é outra coisa, algo "superior".  

Estabelecido isso, as tramas de Jane Austen geralmente mantinham os pés firmes no chão, uma heroína austeniana pode até questionar as convenções, mas ela não ficaria como a Daphne (Phoebe Dynevor) repetindo uma ou duas, ou mais vezes, por episódio que só fazem tal coisa com ela, por ser mulher, ou que não a ouvem por ser mulher ou... sim, moça, é isso mesmo, você está no início do século XIX e é tutelada por sua mãe e, o pior, um irmão bem babaca.  E o roteiro já deixou as limitações impostas às mulheres claras lá no primeiro capítulo sem a necessidade desses discursos irritantes.  A gente sabe que a situação da mocinha é precária por ser mulher, ainda que, e eu comentei isso na primeira resenha, a pressa em casá-la não se justifica de forma alguma.

E temos o apelo sexual típico das obras modernas.  Há muita tensão sexual em Jane Austen, há, também, sexo nas obras da autora. Ele está lá, nos silêncios.  Por qual motivo um homem sensato como Mr. Bennet se casou com alguém como sua esposa?  Wickham e Lydia não passaram semanas em Londres em estado de castidade.  Gente engravida nos livros de Austen.  Crianças nascem.  Em Bridgerton, que dialoga o tempo inteiro com o nosso mundo atual, tal e qual o filme Maria Antonieta (2006), temos um pouco das tensões sexuais dos livros de Austen, mas tudo é feito para agradar as sensibilidades modernas.

Simon e Daphne se apaixonam um pelo outro. Era o óbvio, trata-se do fio condutor da trama.  Mas a intimidade entre eles se cria através de gestos contidos.  A moça que toca na mão do rapaz na belíssima cena do quadro, ela tirou a luva e nós nem percebemos.  Não foi calculado, mas o toque é acolhedor e, ao mesmo tempo, traz uma carga sexual inegável.  É algo semelhante à cena da carruagem em Orgulho & Preconceito (2005) só que com ternura da parte de ambos.  Temos, depois, o momento em que eles dançam, e é uma valsa, algo que não deveria estar em uma série que se passa em 1813, e o rapaz roça as pontas do dedo por cima da linha do vestido da moça, quase no seu pescoço.  É rápido, mas é intenso e foi intencional.  Ele é um homem experiente e não resistiu á tentação, acredito. 

Isso poderia aparecer em uma adaptação de Jane Austen tranquilamente, mas, não, o mocinho ensinando a mocinha a se masturbar.  Não, não precisam se assustar.  A cena faz sentido, todos estão vestidos, são somente palavras e a cena é muito boa.  Nesse momento, eles estão se vendo como amigos, ele, muito contra sua vontade, ajuda a moça a entender assuntos sobre os quais é ignorante.  Nesse ponto, a questão de gênero apareceu de forma correta.  Por qual motivo se ensinava tão pouco às mulheres?  Claro, a mãe de Daphne parece ser particularmente obtusa nesse campo, mas vá lá, isso acontecia e deve continuar acontecendo em alguns lugares até nossos dias. É o tipo de situação que poderia estar em um romance Harlequin de época, perigando, a depender da autora, que o mocinho decidisse dar uma aula prática.

Há quem esteja comparando Bridgerton com Sanditon, como exemplos de modernização das séries de época, além de fazer a ponte com Jane Austen, claro.  Primeiro, Sanditon, a série, não é Jane Austen, porque não é fiel nem ao que a autora escreveu, nem ao seu estilo de conduzir diálogos e histórias.  Diferentemente de Bridgerton, que acolhe de coração leve essa troca com o mundo pós-moderno, Sanditon se apresentava como realista e cometia uma série de barbeiragens.  Resumindo, Bridgerton e Sanditon não são Austen, mas o primeiro é um material interessante que ganharia fácil uma nota sete, já o segundo, é bom que fique do jeito que está, morto e enterrado na sua primeira temporada.

Falando nisso, caio agora em algo que me aborreceu de verdade, especificamente um diálogo entre Lady Danbury e Simon, quando ele decide fugir de seus sentimentos por Daphne permitindo que ela se case comum príncipe prussiano.  Lady Danbury introduz do nada uma discussão sobre raça com o Duque, ela diz o seguinte:  "Olhe para a nossa rainha. Olhe para o nosso rei. Olhe para o casamento deles. Olhe para tudo o que ele está fazendo por nós, permitindo que nos tornemos. Éramos duas sociedades separadas por cores, até que um rei se apaixonou por um de nós. O amor, Sua Graça, conquista tudo." "Nós" e "Eles", casamento real "por amor" que nos deu a chance de conviver. WTF?!  Sinceramente?  Se as pessoas tem cores na série e não existe racismo, aí virou conto de fadas, saiu do nosso mundo e foi para outro no qual poderiam existir unicórnios, vampiros, fadas, zumbis.  Talvez, a Inglaterra de Orgulho & Preconceito & Zumbis, quem sabe?  

Foi uma escolha ruim, porque estava achando a ideia do elenco multirracial, de uma série na qual a etnia não estivesse em questão, onde ninguém tivesse cor dentro da narrativa, maravilhoso e tinha acabado de conversar sobre isso com meu marido.  Seria um avanço em relação a Muito Barulho por Nada e Duas Rainhas, porque atores e atrizes de cor estariam em posição de protagonismo.  Agora, se se trata de um mundo no qual as pessoas tem cor e um casamento real mudou por passe de mágica todas as estruturas sociais em todo o mundo, eu quero meu tempo de volta.  Quero não, na verdade, porque sei que esse diálogo foi um caco infeliz e duvido que ele seja retomado nesses próximos episódios.

Falando no tal casamento real, a Rainha Charlotte (Golda Rosheuvel), esposa de George III, é uma personagem central na primeira temporada.  Ela é arrogante, vaidosa e se mete na vida das pessoas, tudo que a princesa alemã original parecia não ser e fazer.  Pois bem, há quem defenda que ela tinha sangue negro.  É certeza isso?  Não.  Normalmente, um dos argumentos de defesa é apresentar alguns quadros da rainha, especialmente, quando mais jovem, ela não tinha traços finos e sua tez era mais escura do que era moda na época.  Agora, em que esse casamento, que o diálogo infeliz descreveu como fator de elevação de toda uma raça (*foi triste essa conversa e há asiáticos em Bridgerton, também*), foi um enlace de amor, não sei.  

Primeiro, na própria série, a rainha já apareceu uma, ou duas vezes, desejando a morte de seu marido enfermo.  Não era piedade, estava claro que era desdém mesmo.  Segundo, George III casou-se com Charlotte por dever de Estado, o que era a regra, apesar de estar apaixonado pela filha de um duque. Ele achou a esposa feia, ela se esforçou para ocupar o seu lugar como rainha e no coração do marido e do povo. Terceiro, com o tempo, eles criaram entre si um laço muito forte e eram vistos como um casal equilibrado, amoroso e que se respeitava muito.  Bem, respeito é tudo o que a rainha parece não ter pelo marido na série e a coisa é pública.  O objetivo é fazer humor, mas como se trata de uma das poucas personagens realmente históricas em tela, isso me incomoda.  Outra coisa, que já falei antes, por qual motivo a rainha usa roupas de outra época? Há quadros da rainha Charlotte mais velha usando a última moda da época. De quem foi a ideia infeliz de aprisionar seu figurino na década de 1780?  Antes, até.

Já estou me prolongando demais e nem comentei um monte de pontos importantes.  Enfim, nesses episódios 2-4, aconteceu muita coisa.  Apareceu o tal príncipe prussiano (Freddie Stroma) bonitinho, gentil e cheio de amor para dar, porque dinheiro, acho que não deve ter, não. Antes disso, Lorde Nigel Berbrooke (Jamie Beamish) mostra-se uma criatura muito curiosa e super desprezível.  Toma umas pancadas de Simon e ainda tem a cara de pau de tentar chantagear a família da mocinha para casar com ela.  Ousada a criatura.  Já que a série não tem muito compromisso com a realidade, eu transformaria o sujeito em vilão e faria ele voltar mais adiante de forma bem novelesca.  Não vai acontecer, eu sei.

Anthony (Jonathan Bailey), o irmão mais velho da mocinha, e terceiro homem mais bonito da série, porque o amigo boxeador do Simon,  Will Mondrich (Martins Imhangbe) passa a frente dele, continua um babaca, mas começa a mostrar algum sentimento pela irmã.  Eloise (Claudia Jessie) e Penelope continuam sendo as duas melhores personagens femininas da série para mim, cada uma com seus dramas e com as piadas que sempre funcionam dentro dos episódios.  O segundo irmão, Benedict (Luke Thompson), que parece mais velho que o Anthony, mas não é, teve mais espaço e, ao que parece, a produção vai realmente afrontar as fãs dos livros, porque ou o moço é gay, ou ele será bissexual.  E, se não for, dentro do contexto da série, vai ser um ato de covardia do roteiro. 

Outra coisa, Bridgerton parece investir em uma linha curiosa, a de que ser irmão mais jovem de um nobre era algo tranquilo.  Aqui, novamente, é negar a História e a própria Jane Austen.  O Coronel Fitzwilliam, primo de Darcy, é filho de conde e ele tem que (*Horror!  Horror!*) trabalhar.  Motivo?  A regra era o filho mais velho ficar com tudo.  Aos outros meninos restava uma pensão que, caso a família fosse muito rica, esse deve ser o caso dos Bridgerton e de todos os romances de banca de jornal, poderia lhe garantir uma vida confortável, mas, na maioria dos casos não era.  O ideal era conseguir um bom casamento com uma mulher que tivesse um dote compensador.

No geral, os irmãos mais jovens precisavam ter uma ocupação dentro de um quadro bem restrito de profissões: militar, clero, direito, política.  Li uns romances de banca recentemente, saga de família, como os Bridgertons, em que o mocinho, que era filho caçula, era deputado na Câmara dos Comuns.  Fora isso, em 1813, a Inglaterra está em guerra, nem Benedict, nem Colin, são militares.  Fala-se da guerra como algo distante, como se Napoleão não pudesse ainda vencer a parada.  Sim, sim, estou exigindo demais, talvez, de um material que está me divertindo, mas só faço isso para reforçar que Bridgerton não é Jane Austen é romance de banca + chick-lit.  Como avancei no livro, já tenho a confirmação disso.

Criou-se, também, todo um drama digno de novela de Walcyr Carrasco para a a pobre Miss Thompson (Ruby Barker).  Mais um motivo para não ser Jane Austen, porque é muito drama, muito mal entendido, muito sofrimento, ainda compartilhado com Penelope, porque Colin Bridgerton está interessado pela moça.  E, claro, é muito rolo para um romance Harlequin padrão, as autoras desse tipo de literatura não cruzam tantas tramas em um mesmo livro, porque você tem que seguir algumas diretrizes que podem ser encontradas no site da própria editora (*acabei de descobrir que a Harlequin não publica mais faroeste desde 2019, mas outras editoras continuam lançando esse tipo de livro*).  Há um número de páginas que deve ser respeitado, se bem que os livros de Julia Quinn tem o tamanho certinho para caber no molde dos romances históricos.

Concluindo, porque já escrevi muito mesmo, falemos do figurino.  Simon continua sem gravata, mas no episódio 5 ele aparece usando e fica muito mais bonito, por qual motivo não colocarem antes?  Nem Anthony, nem Simon, nem o príncipe parecem gostar de sapatos.  Acredito que quem montou o figurino acha feio as calças curtas daquele período e decidiram que os moços vão usar botas quase o tempo inteiro.  Já existia a possibilidade das calças compridas, mas a produção parece não gostar muito delas nos atores principais.  Ah, sim, nem a mocinha, nem o mocinho parecem gostar de usar chapéu, que era um item obrigatório para uma dama, ou um cavalheiro.

Houve um baile promovido por uma viúva alegre que chutou qualquer verosimilhança para o espaço.  Muita gente se apresentando meio pelada, poderia ser OK em um bordel, mas em um baile formal e familiar???  A anfitriã vestia uma roupa, só vimos a parte de cima, que parecia saída dos anos 1940, um fascinator e uma espécie de terninho e ainda leva o bebê para o baile, parece que só para que Penelope e Colin pudessem fazer uma piada sobre a paternidade da criança, que estava com uma roupa muito estranha, também.  Abaixo, coloquei uma imagem de Lady Cressida (Jessica Madsen), a rival de Daphne pelas atenções do príncipe e eu realmente não faço ideia do que é isso na cabeça da moça.

Outra que parece em outro século desde o início da série é Lady Featherington (Polly Walker).  Seus vestidos tem uma estrutura que lembra o dos anos 1950, esses da dona de casa ideal, mas com longas saias.  É a úncia que usa roupas acinturadas que não são do século XVIII.  Também tivemos várias vezes umas meninas dançando com uns vestidos estranhos (*o efeito era bonito, mas parecia coisa barata*), com saia de tule.  Eram figurantes, estão lá para compor o fundo.  

Os vestidos das protagonistas seguem o modelo império/regência o tempo inteiro.  Podem ter algum detalhe mais contemporâneo, mas se mantém firmes com os pés no início do século XVIII.  Agora, a mocinha e outras atrizes apareceram várias vezes com o cabelo solto.  Daphne nunca parece descabelada como a mocinha de Sanditon, só para fazer uma comparação, ela estava sempre linda, mas era cabelo de criança, não de moça adulta, por assim dizer. E não foram nas cenas usadas para ressaltar a inocência de Daphne, ela apareceu assim em bailes e em público e, claro, sempre sem chapéu.  Ela e o duque nunca usam chapéu.

Ah, acabei de descobrir que a atriz que faz a Penelope, Nicola Coughlan, estava em Derry Girls.  É de lá que eu a conhecia.  É isso.  Escrevi demais.  Termino dizendo que Bridgerton não é Austen, nem no formato pavoroso de Sanditon.  É uma boa novela, que diverte, entretêm e oferece um casal de protagonistas lindo como raramente se viu.  Espero só fazer mais uma resenha.  Desculpem a empolgação.

sábado, 26 de dezembro de 2020

Janet Stephens, a cabeleireira arqueóloga

Estava lendo um verbete na Wikipedia acho que sobre as vestais, sacerdotisas romanas, e ele falava de Janet Stephens, uma cabeleireira que se especializou em recriar penteados de eras passadas usando dos apetrechos disponíveis naquele momento.  Ela investiga, também, se, por exemplo, penteados espetaculares como o da época Flaviana (69-96 d.C.) em Roma usavam apliques, ou todo o cabelo era natural.  Procurando informações, tropecei no canal da Janet Stephens.  ela não aprece tão ativo nesse momento, mas há uma série de vídeos reproduzindo penteados de época.  Para quem se interessar pelo tópico, vale a visita.

Falando em penteado flaviano, achei as fotos abaixo de uma reconstituição, mas não há vídeo mostrando como foi feito, infelizmente.  

Vou ver se encontro mais material sobre isso.  Sites e canais do Youtube.  Eu gosto muito de observar os cabelos em filmes e séries históricas, quem lê minha resenha sabe disso, e uma das coisas que mais me aborrece, ainda que eu entenda motivos para infidelidade histórica envolvidos, é ver as moças de cabelos solto quando deveria estar preso, enfim.