domingo, 27 de dezembro de 2020

Comentando Bridgerton mais uma vez: Capítulos 2-4

Sim, outra resenha.  Sim, eu estou assistindo a série aos poucos, não foi uma imersão raivosa como em Gambito da Rainha.  Boa parte do tempo, assistir Bridgerton é um prazer.  Tudo é bem colorido, o figurino, mesmo com todas as suas liberdades, é encantador, e o elenco é bonito.  Phoebe Dynevor parece uma fada de livro infantil e os vestidos do período em que se passa a série só a tornam ainda mais etérea e Regé-Jean Page é o homem mais lindo que eu vejo em muito tempo e tem uma voz que... Ah!  Já Adjoa Andoh, Lady Danbury, é uma uma espécie de Lady Catherine de Bourgh do bem e ver uma atriz de cor super poderosa e usando aquele figurino de época espetacular já vale o tempo investido.

Falei somente da embalagem, certo?  Pois é, mas a história é boa.  Eu não avancei na leitura dos livros, seria leviandade minha, portanto, imputar qualquer coisa à autora, Julia Quinn, mas eu vi as cenas da infância de Simon (Regé-Jean Page) inseridas no capítulo 2 e, acredito, no 3.  Elas são praticamente idênticas ao livro, porque foi a parte que eu li até o momento.  Há quem esteja comparando Bridgerton com Austen.  Olha, salvo pela época, nada tem de Jane Austen e vou explicar os motivos.

Os livros de Jane Austen não lidam com a alta nobreza (reis, príncipes, duques, marqueses, condes, viscondes, barões), eles não aparecem nos livros da autora, porque ela não convivia com esse povo seleto, "the ton", como a série repete várias vezes.  E isso, nada tem a ver com riqueza, que fique claro.  Um Mr. Darcy poderia ser mais rico que um duque, ou príncipe, mas ele era isso "Mr.", não tinha título algum.  Posso estar enganada, mas o único membro da alta nobreza que aparece em um livro de Austen é uma viscondessa em Persuasão, o pai da Anne Elliot é um parente distante, muito abaixo dela, portanto.  Sir Walter Elliot é um baronete,  a excitação dele em encontrar a parenta, marca bem que existe um mar de diferença entre eles. 

Falando em dinheiro, o futuro Leopoldo I da Bélgica, tio da Rainha Vitória e do Príncipe Albert, que, de repente, aparecerá em um episódio dessa série, era um príncipe sem eira nem beira.  Era um homem lindo, a julgar pelos quadros, inteligente e sedutor, porque conseguiu arranjar colocação para a família inteira, incluindo um trono para si, mas era pobre, pobre, pobre.  Só que ele era um príncipe.  E títulos ainda valiam muito na Europa do século XIX e valem até hoje, porque as meninas são educadas para se acharem princesas e sonharem com príncipes, infelizmente.

Retornando, Jane Austen escreve sobre a gentry, a pequena nobreza rural, gente que, no máximo, chegava a baronete.  Quem vai escrever sobre duques, condes, príncipes, é Georgette Heyer (1902 -1974), uma romancista muito importante e que poderia ter suas histórias adaptadas para filmes e séries. Agora, quem gosta muito dessa alta nobreza, muito, muito mesmo, são as autoras de romance de banca.  E, não, não estou desprezando, porque eu leio esse material e há autoras muito competentes.  É literatura romântica, às vezes erótica, para consumo rápido e com grandes doses de felicidade.  E elas adoram essas sagas de família. A-DO-RAM!

Observando os Bridgertons, lendo o resumo de cada um dos livros, não tenho dúvida alguma de que se trata do mesmo tipo de literatura.  O fato de incorporar algo das chick-lit, isto é, um tipo de literatura feminina centradas na heroína contemporânea que passa provações e tribulações até atingir seus objetivos, que podem ser profissionais, sim, mas normalmente passam pelo coração, não faz com que a série perca de vista essa outra fonte de inspiração.  Não é Austen, portanto, é romance Harlequin para livraria, que significa que custará mais caro, receberá uma produção melhor e leitoras com preconceito contra os romances de banca vão consumir achando que é outra coisa, algo "superior".  

Estabelecido isso, as tramas de Jane Austen geralmente mantinham os pés firmes no chão, uma heroína austeniana pode até questionar as convenções, mas ela não ficaria como a Daphne (Phoebe Dynevor) repetindo uma ou duas, ou mais vezes, por episódio que só fazem tal coisa com ela, por ser mulher, ou que não a ouvem por ser mulher ou... sim, moça, é isso mesmo, você está no início do século XIX e é tutelada por sua mãe e, o pior, um irmão bem babaca.  E o roteiro já deixou as limitações impostas às mulheres claras lá no primeiro capítulo sem a necessidade desses discursos irritantes.  A gente sabe que a situação da mocinha é precária por ser mulher, ainda que, e eu comentei isso na primeira resenha, a pressa em casá-la não se justifica de forma alguma.

E temos o apelo sexual típico das obras modernas.  Há muita tensão sexual em Jane Austen, há, também, sexo nas obras da autora. Ele está lá, nos silêncios.  Por qual motivo um homem sensato como Mr. Bennet se casou com alguém como sua esposa?  Wickham e Lydia não passaram semanas em Londres em estado de castidade.  Gente engravida nos livros de Austen.  Crianças nascem.  Em Bridgerton, que dialoga o tempo inteiro com o nosso mundo atual, tal e qual o filme Maria Antonieta (2006), temos um pouco das tensões sexuais dos livros de Austen, mas tudo é feito para agradar as sensibilidades modernas.

Simon e Daphne se apaixonam um pelo outro. Era o óbvio, trata-se do fio condutor da trama.  Mas a intimidade entre eles se cria através de gestos contidos.  A moça que toca na mão do rapaz na belíssima cena do quadro, ela tirou a luva e nós nem percebemos.  Não foi calculado, mas o toque é acolhedor e, ao mesmo tempo, traz uma carga sexual inegável.  É algo semelhante à cena da carruagem em Orgulho & Preconceito (2005) só que com ternura da parte de ambos.  Temos, depois, o momento em que eles dançam, e é uma valsa, algo que não deveria estar em uma série que se passa em 1813, e o rapaz roça as pontas do dedo por cima da linha do vestido da moça, quase no seu pescoço.  É rápido, mas é intenso e foi intencional.  Ele é um homem experiente e não resistiu á tentação, acredito. 

Isso poderia aparecer em uma adaptação de Jane Austen tranquilamente, mas, não, o mocinho ensinando a mocinha a se masturbar.  Não, não precisam se assustar.  A cena faz sentido, todos estão vestidos, são somente palavras e a cena é muito boa.  Nesse momento, eles estão se vendo como amigos, ele, muito contra sua vontade, ajuda a moça a entender assuntos sobre os quais é ignorante.  Nesse ponto, a questão de gênero apareceu de forma correta.  Por qual motivo se ensinava tão pouco às mulheres?  Claro, a mãe de Daphne parece ser particularmente obtusa nesse campo, mas vá lá, isso acontecia e deve continuar acontecendo em alguns lugares até nossos dias. É o tipo de situação que poderia estar em um romance Harlequin de época, perigando, a depender da autora, que o mocinho decidisse dar uma aula prática.

Há quem esteja comparando Bridgerton com Sanditon, como exemplos de modernização das séries de época, além de fazer a ponte com Jane Austen, claro.  Primeiro, Sanditon, a série, não é Jane Austen, porque não é fiel nem ao que a autora escreveu, nem ao seu estilo de conduzir diálogos e histórias.  Diferentemente de Bridgerton, que acolhe de coração leve essa troca com o mundo pós-moderno, Sanditon se apresentava como realista e cometia uma série de barbeiragens.  Resumindo, Bridgerton e Sanditon não são Austen, mas o primeiro é um material interessante que ganharia fácil uma nota sete, já o segundo, é bom que fique do jeito que está, morto e enterrado na sua primeira temporada.

Falando nisso, caio agora em algo que me aborreceu de verdade, especificamente um diálogo entre Lady Danbury e Simon, quando ele decide fugir de seus sentimentos por Daphne permitindo que ela se case comum príncipe prussiano.  Lady Danbury introduz do nada uma discussão sobre raça com o Duque, ela diz o seguinte:  "Olhe para a nossa rainha. Olhe para o nosso rei. Olhe para o casamento deles. Olhe para tudo o que ele está fazendo por nós, permitindo que nos tornemos. Éramos duas sociedades separadas por cores, até que um rei se apaixonou por um de nós. O amor, Sua Graça, conquista tudo." "Nós" e "Eles", casamento real "por amor" que nos deu a chance de conviver. WTF?!  Sinceramente?  Se as pessoas tem cores na série e não existe racismo, aí virou conto de fadas, saiu do nosso mundo e foi para outro no qual poderiam existir unicórnios, vampiros, fadas, zumbis.  Talvez, a Inglaterra de Orgulho & Preconceito & Zumbis, quem sabe?  

Foi uma escolha ruim, porque estava achando a ideia do elenco multirracial, de uma série na qual a etnia não estivesse em questão, onde ninguém tivesse cor dentro da narrativa, maravilhoso e tinha acabado de conversar sobre isso com meu marido.  Seria um avanço em relação a Muito Barulho por Nada e Duas Rainhas, porque atores e atrizes de cor estariam em posição de protagonismo.  Agora, se se trata de um mundo no qual as pessoas tem cor e um casamento real mudou por passe de mágica todas as estruturas sociais em todo o mundo, eu quero meu tempo de volta.  Quero não, na verdade, porque sei que esse diálogo foi um caco infeliz e duvido que ele seja retomado nesses próximos episódios.

Falando no tal casamento real, a Rainha Charlotte (Golda Rosheuvel), esposa de George III, é uma personagem central na primeira temporada.  Ela é arrogante, vaidosa e se mete na vida das pessoas, tudo que a princesa alemã original parecia não ser e fazer.  Pois bem, há quem defenda que ela tinha sangue negro.  É certeza isso?  Não.  Normalmente, um dos argumentos de defesa é apresentar alguns quadros da rainha, especialmente, quando mais jovem, ela não tinha traços finos e sua tez era mais escura do que era moda na época.  Agora, em que esse casamento, que o diálogo infeliz descreveu como fator de elevação de toda uma raça (*foi triste essa conversa e há asiáticos em Bridgerton, também*), foi um enlace de amor, não sei.  

Primeiro, na própria série, a rainha já apareceu uma, ou duas vezes, desejando a morte de seu marido enfermo.  Não era piedade, estava claro que era desdém mesmo.  Segundo, George III casou-se com Charlotte por dever de Estado, o que era a regra, apesar de estar apaixonado pela filha de um duque. Ele achou a esposa feia, ela se esforçou para ocupar o seu lugar como rainha e no coração do marido e do povo. Terceiro, com o tempo, eles criaram entre si um laço muito forte e eram vistos como um casal equilibrado, amoroso e que se respeitava muito.  Bem, respeito é tudo o que a rainha parece não ter pelo marido na série e a coisa é pública.  O objetivo é fazer humor, mas como se trata de uma das poucas personagens realmente históricas em tela, isso me incomoda.  Outra coisa, que já falei antes, por qual motivo a rainha usa roupas de outra época? Há quadros da rainha Charlotte mais velha usando a última moda da época. De quem foi a ideia infeliz de aprisionar seu figurino na década de 1780?  Antes, até.

Já estou me prolongando demais e nem comentei um monte de pontos importantes.  Enfim, nesses episódios 2-4, aconteceu muita coisa.  Apareceu o tal príncipe prussiano (Freddie Stroma) bonitinho, gentil e cheio de amor para dar, porque dinheiro, acho que não deve ter, não. Antes disso, Lorde Nigel Berbrooke (Jamie Beamish) mostra-se uma criatura muito curiosa e super desprezível.  Toma umas pancadas de Simon e ainda tem a cara de pau de tentar chantagear a família da mocinha para casar com ela.  Ousada a criatura.  Já que a série não tem muito compromisso com a realidade, eu transformaria o sujeito em vilão e faria ele voltar mais adiante de forma bem novelesca.  Não vai acontecer, eu sei.

Anthony (Jonathan Bailey), o irmão mais velho da mocinha, e terceiro homem mais bonito da série, porque o amigo boxeador do Simon,  Will Mondrich (Martins Imhangbe) passa a frente dele, continua um babaca, mas começa a mostrar algum sentimento pela irmã.  Eloise (Claudia Jessie) e Penelope continuam sendo as duas melhores personagens femininas da série para mim, cada uma com seus dramas e com as piadas que sempre funcionam dentro dos episódios.  O segundo irmão, Benedict (Luke Thompson), que parece mais velho que o Anthony, mas não é, teve mais espaço e, ao que parece, a produção vai realmente afrontar as fãs dos livros, porque ou o moço é gay, ou ele será bissexual.  E, se não for, dentro do contexto da série, vai ser um ato de covardia do roteiro. 

Outra coisa, Bridgerton parece investir em uma linha curiosa, a de que ser irmão mais jovem de um nobre era algo tranquilo.  Aqui, novamente, é negar a História e a própria Jane Austen.  O Coronel Fitzwilliam, primo de Darcy, é filho de conde e ele tem que (*Horror!  Horror!*) trabalhar.  Motivo?  A regra era o filho mais velho ficar com tudo.  Aos outros meninos restava uma pensão que, caso a família fosse muito rica, esse deve ser o caso dos Bridgerton e de todos os romances de banca de jornal, poderia lhe garantir uma vida confortável, mas, na maioria dos casos não era.  O ideal era conseguir um bom casamento com uma mulher que tivesse um dote compensador.

No geral, os irmãos mais jovens precisavam ter uma ocupação dentro de um quadro bem restrito de profissões: militar, clero, direito, política.  Li uns romances de banca recentemente, saga de família, como os Bridgertons, em que o mocinho, que era filho caçula, era deputado na Câmara dos Comuns.  Fora isso, em 1813, a Inglaterra está em guerra, nem Benedict, nem Colin, são militares.  Fala-se da guerra como algo distante, como se Napoleão não pudesse ainda vencer a parada.  Sim, sim, estou exigindo demais, talvez, de um material que está me divertindo, mas só faço isso para reforçar que Bridgerton não é Jane Austen é romance de banca + chick-lit.  Como avancei no livro, já tenho a confirmação disso.

Criou-se, também, todo um drama digno de novela de Walcyr Carrasco para a a pobre Miss Thompson (Ruby Barker).  Mais um motivo para não ser Jane Austen, porque é muito drama, muito mal entendido, muito sofrimento, ainda compartilhado com Penelope, porque Colin Bridgerton está interessado pela moça.  E, claro, é muito rolo para um romance Harlequin padrão, as autoras desse tipo de literatura não cruzam tantas tramas em um mesmo livro, porque você tem que seguir algumas diretrizes que podem ser encontradas no site da própria editora (*acabei de descobrir que a Harlequin não publica mais faroeste desde 2019, mas outras editoras continuam lançando esse tipo de livro*).  Há um número de páginas que deve ser respeitado, se bem que os livros de Julia Quinn tem o tamanho certinho para caber no molde dos romances históricos.

Concluindo, porque já escrevi muito mesmo, falemos do figurino.  Simon continua sem gravata, mas no episódio 5 ele aparece usando e fica muito mais bonito, por qual motivo não colocarem antes?  Nem Anthony, nem Simon, nem o príncipe parecem gostar de sapatos.  Acredito que quem montou o figurino acha feio as calças curtas daquele período e decidiram que os moços vão usar botas quase o tempo inteiro.  Já existia a possibilidade das calças compridas, mas a produção parece não gostar muito delas nos atores principais.  Ah, sim, nem a mocinha, nem o mocinho parecem gostar de usar chapéu, que era um item obrigatório para uma dama, ou um cavalheiro.

Houve um baile promovido por uma viúva alegre que chutou qualquer verosimilhança para o espaço.  Muita gente se apresentando meio pelada, poderia ser OK em um bordel, mas em um baile formal e familiar???  A anfitriã vestia uma roupa, só vimos a parte de cima, que parecia saída dos anos 1940, um fascinator e uma espécie de terninho e ainda leva o bebê para o baile, parece que só para que Penelope e Colin pudessem fazer uma piada sobre a paternidade da criança, que estava com uma roupa muito estranha, também.  Abaixo, coloquei uma imagem de Lady Cressida (Jessica Madsen), a rival de Daphne pelas atenções do príncipe e eu realmente não faço ideia do que é isso na cabeça da moça.

Outra que parece em outro século desde o início da série é Lady Featherington (Polly Walker).  Seus vestidos tem uma estrutura que lembra o dos anos 1950, esses da dona de casa ideal, mas com longas saias.  É a úncia que usa roupas acinturadas que não são do século XVIII.  Também tivemos várias vezes umas meninas dançando com uns vestidos estranhos (*o efeito era bonito, mas parecia coisa barata*), com saia de tule.  Eram figurantes, estão lá para compor o fundo.  

Os vestidos das protagonistas seguem o modelo império/regência o tempo inteiro.  Podem ter algum detalhe mais contemporâneo, mas se mantém firmes com os pés no início do século XVIII.  Agora, a mocinha e outras atrizes apareceram várias vezes com o cabelo solto.  Daphne nunca parece descabelada como a mocinha de Sanditon, só para fazer uma comparação, ela estava sempre linda, mas era cabelo de criança, não de moça adulta, por assim dizer. E não foram nas cenas usadas para ressaltar a inocência de Daphne, ela apareceu assim em bailes e em público e, claro, sempre sem chapéu.  Ela e o duque nunca usam chapéu.

Ah, acabei de descobrir que a atriz que faz a Penelope, Nicola Coughlan, estava em Derry Girls.  É de lá que eu a conhecia.  É isso.  Escrevi demais.  Termino dizendo que Bridgerton não é Austen, nem no formato pavoroso de Sanditon.  É uma boa novela, que diverte, entretêm e oferece um casal de protagonistas lindo como raramente se viu.  Espero só fazer mais uma resenha.  Desculpem a empolgação.

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2 pessoas comentaram:

Vamos esperar até que chegue no final.

Assisti essa série em dois dias, fascinada pelas roupas lindas, pelas jóias e pessoas deslumbrantes, fiquei triste quando acabou, espero que haja uma próxima temporada em breve. Só depois fui saber que era literatura popular. Também estava adorando a presença de pessoas negras entre a nobreza, sem nenhuma explicação, até aquela personagem abrir a boca e quebrar todo o encanto. Antes da fala dela, eu assistia a série imaginando como o mundo real seria diferente e mais bonito se as coisas tivessem sido assim. Paciência. Feliz ano novo, Valéria e demais leitores.

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