Não sei por qual motivo esse artigo antigo apareceu para mim, mas ele não é ruim, na medida em que coloca no lugar algumas questões importantes e ainda explica a cena do espartilho em E O Vento Levou, mesmo que perca de vista que Scarlett não faz aquilo por ser jovem e solteira, mas por ser tremendamente vaidosa, algo que ela leva ao longo do livro e que está no filme. De resto, é sempre aquela coisa festiva de que as mulheres não seriam bobas de usar uma coisa incômoda, quando práticas detestáveis nos são impostas e reforçadas o tempo inteiro, inclusive o sutiã. Eu fui obrigada a usá-lo a partir dos dez anos e me acostumei. E olha que o texto tem até a defesa do espartilho pelo costume. Uma criança não escolhe e uma mulher que quisesse parecer decente ou precisasse parecer aceitável, porque poderia ser punida por pai, mãe, marido etc. também não. A graça é acreditar que temos tanta liberdade, quando convém, claro, pois volta e meia é essa história de espartilho que é trazida para a discussão. Queria ver esse mesmo raciocínio usado para as mulheres girafas, os pés de lótus chineses ou mesmo o hijab. Você se acostuma, então, é normal. E é mesmo, não é verdade? De resto, as roupas íntimas de Bridgerton são abomináveis. Não são práticas, não são bonitas, não são sensuais. São somente ideias ruins.
Se quiserem ler o original, ele está aqui. As imagens que consegui trazer para o post estão nos lugares de origem, mas havia dois carrosséis com várias fotos e não consegui colocar no blog. Iria dar muito trabalho. Enfim, é isso, segue a tradução.
O que ‘Bridgerton’ entende errado sobre espartilhos
Os direitos das mulheres eram severamente restringidos na Inglaterra do século XIX, mas suas roupas íntimas não eram as culpadas
Rachel Kaufman - Colaboradora
| A representação de espartilhos no episódio de estreia de "Bridgerton" é mais um exemplo da mesma mitificação presente na cultura popular. Captura de tela via Netflix |
"Eu conseguia espremer minha cintura até o tamanho de uma laranja e meia quando tinha a idade de Prudence", diz Lady Featherington.
Muitos filmes, tanto históricos quanto fantásticos, têm uma cena semelhante. Pense em Scarlett O'Hara, de "E o Vento Levou", agarrando-se desesperadamente a um poste da cama; Elizabeth Swann, em "Piratas do Caribe", com o espartilho tão apertado que mal consegue respirar; Rose, em "Titanic", em uma cena quase idêntica; Emma Watson, interpretando Bela na versão live-action da Disney de "A Bela e a Fera", declarando que sua personagem é independente demais para usar um espartilho.
Outro elemento compartilhado por algumas dessas cenas, entre muitas outras? Nenhuma das personagens que sofrem com a dor tem controle sobre a própria vida; em cada cena, uma figura de autoridade (as mães de Prudence e Rose, o pai de Elizabeth) diz a elas o que devem fazer. É uma metáfora bastante óbvia, afirma Alden O'Brien, curador de figurinos e têxteis do Museu das Filhas da Revolução Americana em Washington, D.C.
“Ter uma cena em que elas dizem ‘mais apertado, mais apertado’ é obviamente uma representação dos papéis restritos das mulheres na sociedade”, diz O’Brien.
O problema é que quase todas essas representações são exageradas ou simplesmente erradas. Isso não significa que Shonda Rhimes, criadora de "Bridgerton", tenha errado em sua representação dos direitos das mulheres no início do século XIX, durante o período da Regência — de fato, eles eram severamente restringidos, mas a culpa não era das roupas íntimas.
"Não se trata tanto do espartilho em si, mas sim da psicologia da cena", afirma Kass McGann, historiadora da moda que já prestou consultoria para museus, programas de TV e produções teatrais ao redor do mundo, e que fundou e é proprietária do blog e loja de figurinos históricos Reconstructing History, em um e-mail.
Ao longo de quatro séculos de inúmeras mudanças na moda, as roupas íntimas femininas passaram por grandes variações em nome, estilo e formato. Mas para aqueles cuja compreensão de dramas de época se baseia unicamente em séries e filmes como "Bridgerton", essas diferentes peças são erroneamente agrupadas sob o rótulo de espartilho.
Se definirmos um espartilho como “uma peça de roupa íntima estruturada para o torso feminino”, diz Hilary Davidson, historiadora da moda e autora de *Dress in the Age of Jane Austen*, os primeiros espartilhos surgiram no século XVI como resposta à moda feminina, que se tornava mais rígida e “geométrica”. O espartilho, reforçado com barbatanas de baleia, junco ou até mesmo madeira, de fato moldava o corpo feminino no formato de cone invertido que estava na moda, mas as mulheres não necessariamente apertavam seus espartilhos o suficiente para alcançar esse formato. Em vez disso, usavam enchimentos ou aros para dar a impressão de uma cintura mais larga (algo semelhante aos enchimentos de quadril da era elisabetana), o que, por sua vez, fazia a cintura parecer mais fina.
Essa forma persistiu mais ou menos até o período da Regência, no início do século XIX, quando houve "todo tipo de invenção, mudança e experimentação" na moda, diz Davidson. Durante esse período de 20 anos, as mulheres tinham opções: podiam usar espartilhos, peças estruturadas com barbatanas que mais se assemelham à concepção atual de um corset; macacões, roupas íntimas muito macias e acolchoadas, mas ainda assim com boa sustentação; ou corsets, que ficavam em algum lugar entre os dois. O'Brien diz que os corsets do período da Regência eram feitos de algodão macio ("imagine um jeans azul, só que branco") com cordões de algodão mais rígidos para sustentação e, ocasionalmente, canais nas costas para as barbatanas e uma abertura na frente para um suporte de metal ou madeira chamado barbatana. (Lembre-se, porém, que esses suportes eram feitos sob medida para o corpo de cada pessoa e abraçavam suavemente suas curvas.) Eventualmente, o termo corset (do francês para "pequeno corpo") prevaleceu em inglês, e a forma se consolidou no formato de ampulheta que conhecemos hoje.
Mas, na verdade, essas peças íntimas eram apenas "peças de roupa normais", diz Davidson. As mulheres tinham uma variedade de opções, assim como as mulheres de hoje "têm um espectro de possibilidades, do sutiã esportivo ao Wonderbra". Aquelas que simplesmente ficavam em casa usavam seus espartilhos mais confortáveis, enquanto outras, que iam a um baile, poderiam "usar algo que desse uma silhueta mais elegante". Até mesmo as mulheres que trabalhavam usavam algum tipo de peça de roupa com amarração e sustentação como essas — desmentindo a ideia de que vestir um espartilho causava desmaios imediatamente. Para Davidson, o mito de que as mulheres "andavam por aí com essas coisas desconfortáveis que não podiam tirar, por causa do patriarcado" é realmente irritante. "E elas aguentaram isso por 400 anos? As mulheres não são tão bobas", afirma.
Essas peças eram confortáveis, acrescenta Davidson, não apenas pelos padrões da época — as mulheres começaram a usar algum tipo de peça de roupa com espartilho e sustentação quando eram meninas, então já estavam acostumadas com elas na idade adulta — mas também pelos padrões modernos. O’Brien concorda: “Ter algo que desça mais pelo busto… eu realmente gostaria disso, porque distribuiria melhor o suporte.”
Na era vitoriana, após “Bridgerton”, os espartilhos evoluíram para um formato mais de ampulheta — o formato que muitas pessoas imaginam quando pensam em um espartilho desconfortável, que comprime os órgãos e deforma o corpo. Mas, novamente, as percepções modernas do passado moldam a forma como pensamos sobre essas peças íntimas. Davidson afirma que as saias eram maiores nessa época — “quanto mais larga a saia, menor a cintura parece”. Os museus costumam exibir espartilhos em manequins como se as bordas se encontrassem. Na realidade, eles provavelmente eram usados com as bordas separadas por alguns centímetros, ou até mais folgadas, se a mulher assim desejasse.
McGann sugere que uma das razões pelas quais os espartilhos são associados à dor é porque as atrizes falam sobre o desconforto que sentem ao usar um espartilho inadequado para um papel. "Em muitos casos, os espartilhos não são feitos sob medida para a atriz, mas sim um espartilho de tamanho padrão é usado por conveniência", diz McGann. "Isso significa que elas estão usando espartilhos que não lhes servem adequadamente e, quando apertados demais, podem causar dor!"
Então, na era da Regência e em outros períodos, as mulheres apertavam os laços de seus espartilhos além do que era confortável — ou saudável — para conseguir uma cintura mais fina, de acordo com a moda? Claro, algumas faziam isso, quando queriam impressionar alguém (e, aliás, Davidson considera a cena do espartilho em "E o Vento Levou" muito precisa, já que Scarlett O'Hara é jovem, solteira e está tentando causar uma boa impressão). Em "Bridgerton", a insistência da socialite Lady Featherington em que suas filhas tenham cinturas finas parece igualmente lógica. Exceto que... na era da Regência, em que os vestidos caem a partir do busto, qual seria o sentido de ter uma cintura fina? "A ideia de apertar o espartilho ao máximo é completamente inútil... irrelevante para a moda", diz Davidson.
"Não há como aquele espartilho de época [afinar a cintura dela], e não é essa a intenção", acrescenta O'Brien.
Davidson tem outra ressalva em relação às escolhas de moda íntima de "Bridgerton" (pelo menos no primeiro episódio, que ela assistiu a pedido da revista Smithsonian). Os espartilhos e corpetes do período da Regência eram projetados menos para criar o decote que o público moderno considera atraente e mais para levantar e separar os seios como "dois globos redondos", diz Davidson. Ela acha os espartilhos de "Bridgerton" muito planos na frente.
Em uma entrevista para a Vogue, a figurinista de "Bridgerton", Ellen Mirojnick, explicou sua filosofia sobre as roupas da série: "Esta série é sexy, divertida e muito mais acessível do que um drama de época comum e contido, e é importante que a ousadia dos decotes reflita isso. Quando você vê um close, há muita pele à mostra. Exala beleza." Mas, segundo Davidson, “embora buscassem sensualidade, decote e máxima exposição, o corte das roupas, na verdade, achatava os seios de todas. Se tivessem voltado ao estilo de espartilho da Regência, o busto teria muito mais destaque. Seriam seios enormes.”
“Bridgerton”, no entanto, acerta em muitos aspectos sobre o status da mulher no início do século XIX. O casamento era uma das únicas opções para mulheres que não queriam morar com parentes pelo resto da vida, então o foco da série em encontrar “bons parceiros” no matrimônio é pertinente. Uma vez casada, a mulher se tornava legalmente propriedade do marido. Ela não podia assinar contratos ou fazer um testamento sem o consentimento dele.
Em meados do século XIX, as mulheres conquistaram avanços significativos em relação à propriedade de bens e ao divórcio. Contudo, foi somente em 1918 na Inglaterra e em 1920 nos Estados Unidos que (algumas) mulheres puderam votar. Por volta da mesma época, os espartilhos estavam saindo de moda, e muitos escritores da época viram uma conexão entre a libertação do espartilho e a libertação feminina.
Em "Bridgerton", jovens mulheres da era da Regência vestem espartilhos antes de serem apresentadas à Rainha Charlotte. Liam Daniel / Netflix
O'Brien afirma que, olhando para trás agora, essa conclusão não se sustenta. “Há muitos escritores dizendo: ‘Ah, somos muito mais libertadoras do que aquelas vitorianas terríveis, hipócritas e reprimidas, e nos livramos do espartilho.’ Bem, me desculpem, mas se vocês observarem as cintas modeladoras da década de 1920, elas faziam exatamente a mesma coisa: usavam roupas íntimas para criar a forma da moda da época”, o que, nos loucos anos 20, significava usar cintas elásticas e faixas para comprimir os seios para “reprimir completamente a forma natural da mulher”.
“A sociedade sempre tem um ideal de corpo que será impossível para muitas mulheres alcançarem, e cada mulher escolherá até onde ir na busca por esse ideal, e sempre haverá algumas que levam isso a um extremo que coloca suas vidas em risco”, acrescenta O’Brien.
O’Brien e Davidson esperam que as pessoas parem de pensar nos espartilhos como ferramentas opressoras do patriarcado ou como lembretes dolorosos da obsessão feminina pela moda. Essa atitude “tira a autonomia feminina”. O’Brien afirma: “Estamos deixando que os caprichos da moda nos dominem, em vez de escolhermos fazer algo a respeito”.
Usar um espartilho era “tão opressivo quanto usar um sutiã, e quem obriga as pessoas a usar sutiã de manhã?” (Algumas mulheres em 2021, depois de meses de reuniões por Zoom e trabalho remoto, podem estar se fazendo exatamente essa pergunta agora.) “Todas nós fazemos escolhas individuais”, diz Davidson, “sobre o quanto modificamos a nós mesmas e nossos corpos para nos encaixarmos nos grupos sociais em que vivemos”.
É mais fácil pensar em espartilhos como “estranhos, incomuns e do passado”, diz Davidson. Pensar em um espartilho como uma ferramenta opressiva do patriarcado antigo implica que nós, mulheres modernas, somos mais esclarecidas. Mas, acrescenta Davidson, “Não usamos espartilhos porque os internalizamos. Hoje em dia você pode usar o que quiser, mas por que toda a publicidade na internet diz ‘8 truques estranhos para uma cintura fina’? Nós fazemos Pilates.” Usar um espartilho exige muito menos suor e esforço do que fazer Pilates.”














































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