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terça-feira, 23 de junho de 2026

Post japonês viraliza ao apontar que os torcedores do país são admirados por limparem os estádios durante a Copa, mas, em casa, não dividem as tarefas.

"Por favor, faça isso em casa.

Os homens japoneses estão entre os que menos dedicam tempo às tarefas domésticas no mundo. Por favor, compartilhe as tarefas de cuidado não remuneradas em casa.

Comece com respeito em casa."

Esse texto acima veio de um post japonês fazendo uma súplica irônica aos homens japoneses, porque  desde que o Japão passou a ser uma presença constante nas Copas, há aquela admiração pela atitude bonita dos torcedores do país recolhendo o lixo.  "Oh, como os japoneses são educados!"  "Os japoneses são um exemplo!" E a gente lembra dos mangás e dos japoneses limpando a sala de aula, o pátio, a escola toda depois das aulas.  E, sim, nunca vi ninguém que tenha ido ao Japão e não elogie a limpeza do país.  Ruas limpas, lixo meticulosamente separado.  O post não está negando isso, esse aspecto positivo da cultura japonesa; ele está apontando outra coisa: os homens japoneses colaboram muito pouco com as tarefas domésticas.  Dentro de casa, onde ninguém está vendo, limpar e arrumar é coisa de mulher.  

Segundo a matéria do O Globo, "O post recebeu 60 mil curtidas no X e, em outra versão, foi visto 1,9 milhão de vezes.".  Desde a publicação da matéria, o post se disseminou ainda mais.  O artigo do Globo vai além e aponta que, segundo dados da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) de 2021, enquanto as mulheres japonesas dedicam três horas por dia às tarefas domésticas, os homens gastam apenas 47 minutos.  "O Escritório do Gabinete do Japão também cita os dados da OCDE ao afirmar que mulheres passam 5,5 vezes mais tempo que homens em atividades como compras, tarefas domésticas e cuidados com outras pessoas.".  Mas pode piorar, porque em famílias jovens e com filhos menores de 6 anos, o desequilíbrio é ainda maior, mesmo quando elas também têm emprego remunerado.  Talvez o cara que está limpando o estádio depois do jogo tenha uma esposa que ficou sozinha em casa cuidando da casa, das crianças e, talvez, ainda trabalhando fora.

Para ZERO surpresa de quem acompanha as discussões sobre desigualdade de gênero: "A desigualdade no Japão supera a registrada em países como Reino Unido, França e Estados Unidos, onde mulheres passam, respectivamente, 1,8 vez, 1,7 vez e 1,6 vez mais tempo que homens em trabalho não remunerado.".  E eu estou com uma matéria do Unseen Japan aberta aqui desde antes da Copa que aponta para algo que se relaciona a este problema, pois mesmo tendo uma primeira-ministra, pioneira na história do país, a questão da igualdade de gênero está estagnada no país.

O último Relatório de Desigualdade de Gênero do Fórum Econômico Mundial, mesmo com uma primeira-ministra, o que deve ter dado um monte de pontos ao país, o Japão ficou em 118º lugar entre 148 países, na última posição entre os membros do G7, as maiores economias do mundo. Na verdade, mesmo com uma primeira-ministra, o país teve uma queda em relação ao ano anterior, e um dos principais fatores que contribuíram para isso foi a falta de representação política feminina: "a subpontuação de Empoderamento Político do Japão caiu para 8,5%, ante 11,8% no ano anterior. A participação de mulheres em cargos de gestão no país era de apenas 16,1%. Sob o governo do primeiro-ministro Ishiba Shigeru, apenas 10% dos cargos ministeriais eram ocupados por mulheres."  Resumindo, o fato de uma mulher governar o país não fez com que ela montasse um governo com um maior número de mulheres ou estimulasse qualquer mudança no sistema; afinal, ela é parte do sistema.  E, só para efeito de comparação, o Brasil caiu duas posições e está em 72% lugar.

"Direitos das Mulheres são Direitos Humanos!", foto da Marcha das Mulheres de 2022.

Enfim, o post da japonesa é somente uma espécie de alerta e protesto contra a hipocrisia e a idealização do Japão que agrada tanto a um monte de gente.  Sim, o país é limpo, isso faz parte da cultura, mas, dentro de casa, os homens normalmente deixam os trabalhos domésticos e de cuidado para mulheres cada vez mais sobrecarregadas.

segunda-feira, 18 de maio de 2026

Língua Japonesa: Por que mais garotas japonesas estão se autodenominando “Boku”? (artigo traduzido)

Vi essa matéria no site Unseen Japan e decidi traduzir.  É interessante, ainda que inconclusiva.  Não sabia que o "watashi" tinha sido imposto às mulheres durante a Era Meiji, que antes disso, as mulheres usavam "boku" e "ore", também.  Surpreendente mesmo, embora  eu saiba que a Era Meiji impôs uma série de formatações de papéis de gênero.  Me lembro que em Fushigi Yuugi (ふしぎ遊戯), quando Nuriko assume seu amor por Miaka e decide assumir que é um homem, a protagonista observa que embora esteja se comportando de forma masculina, o guerreiro continua falando como uma mulher.  Também me lembro da entrevista com Riyoko Ikeda na qual ela observa que o anime da Rosa de Versalhes (ベルサイユのばら) a desagradou desde o primeiro episódio, quando Oscar que só usava "watashi" e "watakushi" usa "ore" que, na época, era coisa de homem mal-educado.  Enfim, mais uma das tradições japonesas inventadas ontem.

Também não sabia que grupos de idols usavam "boku" em suas músicas para que seus fãs homens pudessem cantar sem constrangimento.  Quanto à Princesa e o Cavaleiro (Ribon no Kishi/リボンの騎士), discordo da história de pintar Saphire como trans.  Ela tinha dois corações, verdade, mas qualquer um que tenha visto o anime ou lido o mangá sabe que ela foi constrangida a fingir em público que era um garoto, a aprender a ser garoto e garota e o quanto isso lhe era sofrido.  Não foi algo abraçado com alegria, como no caso de Utena, de Shoujo Kakumei Utena (少女革命ウテナ), que usava "boku" sem problema algum, ainda que o seu "boku" fosse em katakana, como uma forma de marcar a estranheza, seu caráter peculiar.  Aliás, eu tenho um artigo sobre isso.  Enfim, para quem quiser ler a  matéria no original, ela está aqui.  A estrutura foi mantida na íntegra, só acrescentei algumas notas.

Foto: IYO / PIXTA(ピクスタ)

Língua Japonesa: Por que mais garotas japonesas estão se autodenominando “Boku”?

Jay Allen · 13 de maio de 2026 

Por volta dos 21 minutos do anime de sucesso de Makoto Shinkai, Your Name (君の名は; Kimi no Na wa), há uma piada japonesa que faz qualquer falante do idioma – nativo ou não – cair na gargalhada.

Na cena, a protagonista feminina, Mitsuha, acorda e se vê no corpo do protagonista masculino, Taki. Ao se deparar com a necessidade de conversar com os amigos de Taki em um telhado, Mitsuha imediatamente se apresenta como “watashi”, sendo questionada por um dos amigos de Taki. Inicialmente, ela tenta usar o termo ainda mais formal “watakushi”. Ela então alterna entre os dois principais pronomes masculinos – “boku” (僕) e “ore” (俺) – até que os amigos de Taki finalmente parecem satisfeitos. O amigo deles é um “ore”, sem dúvida.

Atualmente, “Watashi” ou “atashi” são considerados formas educadas e femininas de uma mulher se referir a si mesma. Mas nem sempre foi assim. E essa regra tem se tornado cada vez menos rígida. Eis o porquê de algumas fontes no Japão afirmarem que mais jovens da Era Reiwa estão optando pelo pronome tradicionalmente masculino.

Abandonando o “watashi” da Era Meiji em favor do “Boku shōjo”

“You talkin’ to 僕?” (Picture: maroke / PIXTA(ピクスタ))

Embora “watashi” seja considerado hoje o pronome “feminino” seguro, nem sempre foi assim. Como acontece com a maioria das coisas que as pessoas no exterior veem como originárias da “antiga cultura japonesa”, o uso feminino de “watashi” data apenas da Era Meiji (1868-1912).

Na Era Meiji, o japonês foi padronizado usando como base a fala de homens instruídos da classe média. No entanto, documentos dos períodos Edo e Meiji mostram que as mulheres usavam não apenas “washi” (ワシ), mas também “boku” e “ore”. As mulheres também diziam coisas como “yaa, kimi” (“Olha, cara…”) e usavam formas imperativas abruptas como “shitamae” – linguagem que hoje é considerada masculina.

Isso mudou, já que a maioria das meninas e mulheres usa “watashi”. Mas essa situação não é definitiva. A revista VERY, uma publicação voltada para mães, entrevistou vários pais que disseram que suas filhas estão usando “boku”. Algumas delas estão no ensino fundamental.

O fenômeno, conhecido como 僕少女 (boku shōjo), não é de forma alguma novo. Personagens femininas que usam pronomes masculinos são um elemento básico de videogames, animes e outras mídias da cultura pop. Embora a prática possa ser observada em obras de ficção do período pré-guerra, muitos acreditam que ela ganhou popularidade graças à obra do renomado autor de mangá Tezuka Osamu, A Princesa e o Cavaleiro (リボンの騎士; Ribon no Kishi), cuja personagem principal, Safira, tem "o coração de um menino e de uma menina". Alguns também citam a Takarazuka Revue, a companhia teatral composta exclusivamente por mulheres, como uma influência.

Sapphire defendeu os direitos das pessoas trans.

A música pop japonesa também exerceu uma forte influência na normalização do uso de "boku". Artistas como Morita Doji e Aimyon empregam a palavra em suas letras.

Por quê? Uma razão básica: porque os dois lócus de "boku" se encaixam melhor nas letras das músicas do que os três lócus de "watashi".

Vale lembrar que também existe a "teoria do karaokê", proposta por Akimoto Yasushi, criador do AKB48. Ou seja, é melhor que as artistas femininas usem "boku" para que os homens possam cantar junto sem se sentirem constrangidos. Mas, seja qual for o motivo, o fato é que as jovens japonesas crescem em um ambiente cultural em que o uso de "boku shōjo" é normalizado.

Por que essa mudança para o "boku"?

Por que as meninas usam “boku”? As pessoas entrevistadas pela VERY não acharam nada de especial. Uma aluna do primeiro ano disse que é “normal”. Uma aluna do segundo ano disse que é apenas mais curto e mais fácil de pronunciar. Enquanto isso, uma criança do jardim de infância escolheu a palavra por ser “fofa”.

Mas Nakamura Momoko, professora emérita da Universidade Kanto Gakuin e principal especialista japonesa em linguagem e gênero, argumenta que há uma dinâmica mais profunda em jogo. Os meninos, segundo ela, migraram de “boku” para “ore” para se protegerem das hierarquias masculinas. As meninas, por outro lado, trocam “watashi” por “boku” para escapar das vulnerabilidades ligadas à feminilidade, incluindo a sexualização indesejada.

Essa teoria é corroborada por artistas pop que usam “watashi”, mas também recorrem a “boku”. A artista aiko, por exemplo, disse que passou a usar “boku” para dizer coisas que seriam muito “constrangedoras” para dizer com sua própria voz.

Não está claro, no entanto, quão proeminente é a tendência do uso de “boku”. A última pesquisa conhecida sobre o assunto foi realizada pela renomada socióloga Honda Yuki. Em 2009-2010, Honda descobriu que cerca de 5% das meninas do ensino fundamental usavam pronomes masculinos – 1,2% usavam “boku” e 3,8% usavam “ore”. Portanto, as evidências do aumento do uso de “boku” são mais anedóticas do que científicas.

Miyazaki Ayumi, da Universidade Ochanomizu, também publicou um estudo de campo em 2016 sobre o uso de pronomes entre meninas do ensino fundamental. Ela descobriu que as meninas se sentiam tranquilas em usar tanto “boku” quanto “ore” com suas colegas. Aquelas que preferiam um pronome mais tradicionalmente “feminino” pareciam mais confortáveis com “uchi” do que com “atashi”.

Além disso, existe uma forte barreira cultural que impede o uso de “boku” após o ensino médio. Em um artigo de 2024 no Kōkōsei Shimbun, uma jovem de 16 anos pergunta às suas colegas se deveria parar de usar “boku” ao entrar no mundo adulto. A maioria das entrevistadas aconselhou que ela voltasse a usar “watashi” em ambientes profissionais, mas mantivesse o “boku” para quando estivesse com amigos.

Nem todas abandonam o hábito de usar “boku”. A dubladora Haruna Fūka é uma das várias celebridades femininas que ainda usam o pronome de primeira pessoa. Por outro lado, os artistas muitas vezes têm permissão para ir contra a corrente da sociedade de maneiras que as pessoas comuns não podem.

O Informal e o Linguístico: Velozes e Furiosos: Desafio em Tóquio

Foto: kouta / PIXTA(ピクスタ)

A linguagem não é estática. O japonês não é exceção. As definições e o uso das palavras mudam ao longo do tempo em resposta às mudanças nas normas culturais.

Um exemplo claro disso é a palavra que as mulheres heterossexuais usam para se referir aos seus maridos. Antigamente, a palavra 主人 (shujin) era o termo mais comum. Hoje, a conotação de "mestre" que a palavra carrega tem um tom desagradável, levando a maioria das mulheres a optar pelo termo mais neutro 夫 (otto).

Essa evolução linguística acontece mesmo quando aqueles no poder se opõem a ela. Durante a Segunda Guerra Mundial, o governo japonês tentou proibir a maioria dos empréstimos linguísticos estrangeiros. (É por isso que, até hoje, os termos do beisebol japonês não contêm gairaigo. [1] É por isso que basquete é basukettobōru, mas beisebol é yakyū.) Um conjunto de termos que eles não conseguiram exorcizar? "Mama" e "papa", que ainda são usados ​​por crianças para se referir aos pais.

De "yabai" [2] a "egui"[3] e além, o japonês continua evoluindo. Será interessante ver para onde “boku” e seus semelhantes irão daqui em diante.


[1] Gairaigo (外来語) são palavras "emprestadas" de idiomas estrangeiros (principalmente ocidentais, como inglês, português, alemão e francês) e incorporadas ao vocabulário japonês moderno. Geralmente, são escritas no silabário katakana para indicar sua origem estrangeira, adaptando a pronúncia original à fonética japonesa.
[2] Yabai (やばい) é uma das gírias mais versáteis e comuns no Japão. Ela expressa algo em excesso e funciona de forma muito parecida com o palavrão "foda" no português: pode significar tanto algo extremamente incrível (positivo) quanto uma situação perigosa, louca ou problemática (negativo).
[3] Egui (えぐい / エグい) é uma gíria japonesa extremamente versátil usada pelos jovens para descrever algo extremo. Equivalente ao popular yabai, significa literalmente "ácido" ou "áspero", mas hoje expressa forte surpresa ou intensidade para algo chocantemente bom, ruim, difícil ou bizarro.

quarta-feira, 30 de abril de 2025

Entrevista de Riyoko Ikeda para a revista YOI - Parte 3

Em outubro do ano passado, traduzi a primeira parte da entrevista de Riyoko Ikeda para a revista YOI, ontem, publiquei a segunda parte. Sim, deveria ter publicado tudo no ano passado, mas acabei deixando para lá.  Só que a Netflix adquiriu os direitos do filme e ele estreia amanhã, 30 de abril.  Decidi terminar de traduzir as entrevistas e colocá-las no blog.  Como devo ter feito minha segunda cirurgia de catarata hoje, deixei programado para entrar no dia da estreia do filme.  Nem devo ter condições de assisti-lo, porque é melhor não forçar as vistas.  Como sempre gosto de explicar, não sei japonês.  Uso o Google Translator, comparo traduções em português  e inglês, às vezes, em outras línguas, se necessário (*desta vez, não foi*).  Se houver algum problema na tradução, por favor, me ajudem a melhorar e deixem as correções nos comentários.  A entrevista original está AQUI.  Na medida do possível, sempre tento manter a estrutura da entrevista original, com as mesmas imagens e vídeos nos mesmos lugares.  


[Entrevista a partir daqui]

[Riyoko Ikeda] "Eu sempre tenho 500 ideias para desenhar" As sementes de uma história estão sempre na minha cabeça <Entrevista especial do 3º aniversário do yoi vol.4 Parte 2>

Desde sua estreia em 1967 com "Bara Yashiki no Shoujo", a artista de mangá Riyoko Ikeda publicou inúmeras obras, incluindo histórias épicas históricas como "A Rosa de Versalhes" e "Orpheus no Mado", bem como contos que abordam questões sociais. Ela ingressou no Departamento de Música Vocal da Faculdade de Música de Tóquio aos 47 anos e atualmente se apresenta no palco como cantora soprano e também dirige óperas. Na segunda parte, perguntamos a Ikeda-sensei, que continua envolvida em atividades criativas em muitos campos diferentes, sobre seus pensamentos sobre expressão. O próximo será Yamawaki Asao, um ex-editor e escritor de revista de mangá que também atua como professor de meio período no Curso de Mangá Nova Geração da Universidade Seika de Kyoto. <Entrevista especial do 3º aniversário do yoi vol.4 Parte 2>

Índice

  1. Não importa que tipo de trabalho criativo você crie, as palavras são importantes
  2. A baixa autoestima e a falta de habilidades sociais me levaram a seguir o caminho do mangá
  3. Eu ainda penso em ideias para histórias. Tenho sempre 500 ideias em estoque
  4. Se você viver sua vida ao máximo, eventualmente encontrará o que quer fazer.


Mangá-ka/cantora

Riyoko Ikeda: Nasceu em 1947. Estreou como artista de mangá em 1967. “A Rosa de Versalhes”, que começou a ser serializado na Margaret em 1972, tornou-se um sucesso sem precedentes. Outras obras representativas incluem "A Janela de Orfeu", "Oniisama E..." e "Eikou no Napoleon". Aos 45 anos, ela decidiu fazer o vestibular para uma faculdade de música e se matriculou no departamento de música vocal da Tokyo College of Music em 1995. Ele ainda está ativa como cantora. Ele também atua como poeta e lançou sua primeira coleção de poemas, “Sabishiki Hone” (Shueisha) em 2020.

Não importa que tipo de trabalho criativo você crie, as palavras são importantes

——Você tem atuado em vários campos criativos, começando com mangás, depois ensaios, tanka [1] e roteiros para teatro. Há alguma diferença na maneira como você se sente quando trabalha nesses projetos?

Ikeda-sensei: Não há nenhuma diferença específica. Há uma diferença entre expressar algo com palavras e expressá-lo com imagens, mas mesmo que você expresse isso com imagens, as palavras são importantes.

——Os versos que você escreve são tão lindos e realmente tocam o coração. Alguns que me vêm à mente são "Olhos com o Órion do inverno neles" ou "Eu lhe darei o mais lindo lírio do vale nesta primavera". As palavras são importantes para você como escritora?

Ikeda-sensei: Afinal, "as palavras são tudo".

——Isso, claro, é respaldado pela sua vasta experiência de leitura?

Ikeda-sensei: Isso mesmo. Quando eu estava no ensino fundamental, eu lia principalmente o que meus pais me davam, e foi somente quando eu estava no ensino fundamental que eu comprei "Sharin no Shita",[2] de Hermann Hesse, com o meu dinheiro de mesada. Depois li Gokuchuu-ki.[3] Esta é uma coleção de cartas que Oscar Wilde enviou ao seu amante quando foi preso por sodomia. Hoje em dia, seria impensável que alguém fosse preso por homossexualidade. Além disso, durante meus três anos no ensino fundamental, li as obras completas de Dostoiévski e me interessei por obras russas. As descrições da natureza eram tão bonitas que me peguei copiando as palavras no meu caderno.

A baixa autoestima e a falta de habilidades sociais me levaram a seguir o caminho do mangá

De "Orpheus no Mado", uma das obras ambientadas na Rússia. ©Ikeda Riyoko Productions

——Leu todas as obras de Dostoiévski quando era estudante do ensino fundamental... A propósito, que tipo de criança você era quando estava no ensino fundamental?

Ikeda-sensei: Eu tinha uma autoestima relativamente baixa. Cresci ouvindo que eu era feia.

——Fiquei surpreso quando vi essa história em uma entrevista sua no passado.

Ikeda-sensei: Não, não, sério. Acho que ter tempo para mergulhar no meu próprio mundo de fantasia foi o que me levou aos meus esforços criativos. Além disso, eu era ruim em interagir com as pessoas. Quando me formei no ensino médio e decidi ir para a faculdade, o trajeto era muito difícil. Percebi: "Se está tão difícil agora, se eu conseguir um emprego em uma empresa, terei que trocar de roupa todos os dias, usar maquiagem e trabalhar com pessoas de quem não gosto, e eu não suportaria esse tipo de vida", então pensei que precisava encontrar um emprego que pudesse fazer sozinha.

——Então, você começou a escrever mangás enquanto estava na universidade. É incrível que você consiga se olhar de uma perspectiva tão ampla aos 18 anos. Naquela idade, eu nem sabia quem eu era.

Ikeda-sensei: Eu não sabia quem eu era, mas sabia que havia coisas que eu não podia fazer. Eu tinha amigos, mas apenas um ou dois. Eu tocava trompete em uma banda de metais, mas mesmo lá não era tanto uma forma de socializar com as pessoas, era mais como se eu estivesse saindo com pessoas do mesmo clube. Também entrei para o clube de física e outros clubes que poucas pessoas frequentavam.

——Ouvi dizer que você frequentemente conversava sobre música com seu primeiro amor. Estava na coleção de poemas do professor, "Sabishiki Hone".

Ikeda-sensei: Quando se tratava de música, parecia que eu estava sendo ensinada de forma unilateral. Ele foi presidente do conselho estudantil na escola onde estudou e era considerado uma criança prodígio.

——Ouvi dizer que ele era bonito.

Ikeda-sensei: Eu não achava, mas ele disse que eu era bonita. Eu não sabia como responder quando ele falava comigo, então eu simplesmente o ignorava quando ele dizia alguma coisa. Aí ele disse que era isso que o atraía. Ele estava acostumado a ser disputado pela garotas, então aquela resposta provavelmente foi uma experiência nova para ele, mas eu pensei: "Tem tanta garota bonita por aí, por que ele está falando comigo?" Então, nunca tivemos uma conversa de verdade, fomos para escolas diferentes e nos separamos. Mesmo depois de entrarmos no ensino médio, ele olhou para o trem que eu estava pegando e entrou, e eu fiquei tipo: "Nossa, ele está aqui, o que eu devo fazer?", e não conversamos mais.

——Esse episódio já é um mangá shoujo. Fiquei impressionado com sua memória incrível, com o fato de você conseguir se lembrar do seu primeiro amor tão vividamente.

Eu ainda penso em ideias para histórias. Tenha sempre 500 ideias em estoque.

Há muitas obras criadas por Ikeda-sensei. (Parte da coleção de Kimura, editor da yoi)

——Gostaria também de perguntar sobre a inspiração por trás desta peça. Você costuma começar com um livro que lhe interessa?

Ikeda-sensei: Isso mesmo.

——Como você conheceu os livros?

Ikeda-sensei: Às vezes, encontro um livro por acaso e, às vezes, compro-o depois de ler uma resenha. Eu estava conversando com Kihara Toshie e Hagio Moto, e concordamos que artistas profissionais de mangá precisam ter um estoque de cerca de 500 ideias o tempo todo para durar décadas. Ao anotar ideias como essas, com o tempo algumas delas amadurecerão.

——500 ideias! Dentre as muitas ideias que você tem em estoque, você já teve que jogar uma fora, pensando: "Essa pode não ser possível"?

Ikeda-sensei: Sim, claro. Várias vezes.

——Você ainda está pensando nesse tipo de ideia?

Ikeda-sensei: Isso é algo em que penso o tempo todo. Quando tenho uma ideia, pergunto à minha família: "O que vocês acham dessa história?" Quando faço isso, eles sempre me perguntam: "Por que você não escreve?" Se fazer um mangá não é possível, faça um romance.

Se eu tivesse mais energia, escreveria mais, mas não tenho força física e minha saúde mental está enfraquecendo à medida que envelheço. Acho que há muitos artistas que, quando passam do ponto em que realmente querem desenhar, acabam não desenhando nada, mesmo tendo coisas que querem desenhar. Os humanos têm limitações.

——Quando você tem 500 ideias, coisas assim certamente surgirão. Eu adoraria ler um romance escrito por você.

Ikeda-sensei: Eu me pergunto. Aparentemente sou ruim em escrever romances. Certa vez me inscrevi para um prêmio, mas não deu certo.

——"Se inscreveu"? Se você falasse diretamente com o departamento editorial, eles provavelmente dirão: "Sem dúvida, publique conosco!"

Ikeda-sensei: Isso aconteceu antes da minha estreia. A menção honrosa foi o melhor que consegui, então pensei que talvez eu não tivesse talento algum. No entanto, gosto de poesia tanka e adoro escrever uma variedade delas.

——Entendi. Seus poemas tanka ressoam com palavras diretas. Lembro-me de um verso que me marcou muito, de "Sabishiki Hone", que foi: "Os homens também criam obras, eu só quero saber por que nasci mulher".

Ikeda-sensei: Essa música é uma reação às pessoas que dizem: “Você não precisa ter filhos”. É uma rebelião contra o fato de dizerem que seu trabalho não é um filho.[4]

Aparentemente, há muitas técnicas envolvidas na poesia tanka, então não é um poema tão simples.

——Acho que depende da individualidade de quem faz.

Ikeda-sensei: Eu também acho que está tudo bem, mas sou bastante criticada. Mas quando assisto às músicas de outras pessoas, acho que elas são muito boas.

——Você mencionou saúde mental antes, mas há algo que você faz para cuidar de si mesma quando se sente mal?

Ikeda-sensei: Hmm, se algo acontece, assisto a um filme e tiro uma soneca. Como não socializo e fico em casa, assisto cerca de três filmes por dia. Um filme que vi recentemente foi um filme coreano chamado "Milagre na Cela nº 7"[5], que achei muito bom.

Se você viver sua vida ao máximo, eventualmente encontrará o que quer fazer.


——Por fim, você poderia deixar uma mensagem para quem está lendo este artigo?

Ikeda-sensei: Houve um tempo em que eu não sabia o que queria fazer ou o que queria me tornar. No entanto, se você viver a vida ao máximo, você acabará encontrando, então espero que você não fuja. Fui forçada a começar a tocar piano quando tinha seis anos de idade e planejei me inscrever em uma faculdade de música para o ensino fundamental e médio, mas percebi que não tinha talento, então me matriculei no departamento de filosofia de uma universidade normal. No final, pensei em escrever "Orpheus no Mado" e sublimar meu desejo de ir para a faculdade de música, mas não consegui desistir e entrei na faculdade de música aos 47 anos, então, mesmo que eu não admita, sou bem persistente.

——Como resultado, você também se tornou muito ativa como cantora. Tenho certeza de que muitas pessoas se sentiram encorajadas pelo fato de você ter entrado na faculdade de música aos 47 anos. Isso me faz perceber que nunca é tarde para começar a fazer algo que você sempre quis fazer ou para mergulhar em um novo mundo.

Ikeda-sensei: Claro, existe um momento adequado para cada pessoa começar. Mas e se eu começasse a ginástica rítmica agora, certo? (risos)

——(risos). Parece que você se esforçou muito quando se candidatou à faculdade de música. Aparentemente, suas notas em alemão eram as melhores entre todos os participantes do teste.

Ikeda-sensei: Na verdade... não foi o melhor resultado na época, mas foi o melhor resultado desde que a escola foi fundada. (risos)

——Que legal…! Sou verdadeiramente grato por você continuar sendo objeto de minha admiração.

Fotografia: Eri Morikawa, Entrevista e Texto: Asao Yamawaki, Planejamento e Composição: Miki Kimura (yoi)

[1] "A palavra Tanka, na cultura japonesa, significa um poema curto, de 5 versos. De certa forma, é semelhante ao Hai Kai, composto de 3 versos. A origem deste tipo de poesia data do século VII."  Mais informações aqui.
[2] Em alemão, Unterm Rad, não achei a última edição desse livro, qual o título em português, mas ele já saiu em nosso país com o nome de O Menino Prodígio.  O link é para uma resenha no Instagram.
[3] Em português, há várias edições disponíveis como o nome de De Profundis.  Exemplo aqui.
[4] Aqui, o sentido não ficou claro para mim.  O que eu imagino, por ter lido outras entrevistas da Riyoko Ikeda, é que ela tenha superado a ideia de ter filhos e focado em sua obra, seus mangás e outros trabalhos seriam seus filhos.  Só que há quem lhe diga que não são, que ela, como mulher, tenha falhado em sua missão.
[5] O filme turco, que fez muito sucesso por aqui, é uma adaptação do filme coreano.

domingo, 27 de abril de 2025

Manga Manners: Campanha de boas maneiras usa mangás da Kodansha no Japão

Nem o Comic Natalie, nem o Sora News, deixaram claro se  é uma campanha da Kodansha, ou da editora com o governo japonês, eu acredito que sem o governo aceitar/permitir  não iria rolar.  Enfim, foram feitos pôsteres e panfletos de 17 obras da Kodansha com regras de boas maneiras que devem ser usadas no Japão.  Começando pelo Aeroporto Internacional de Narita, os painéis também estão colocados em estações de trem (shinkansen) de  Estação de Tokyo (Tokaido Shinkansen), Estação Shinagawa (Tokaido Shinkansen), Estação Nagoya, Estação de Kyoto (Tokaido Shinkansen) e Estação Shin-Osaka (Tokaido Shinkansen), entre 24 de abril e 30 de junho.  Segundo o CN, em Nagoya, onde o painel é digital, o período será diferente, mas não diz qual.

Quais obras foram escolhidas?  AKIRA, Enen no Shouboutai (炎炎ノ消防隊), Card Captor Sakura (カードキャプターさくら), Parasyte (寄生獣), Ghost in the Shell (攻殻機動隊), Shouta no Sushi (将太の寿司),  Skip to Loafer (スキップとローファー), Chiikawa: Nanka Chiisakute Kawaii Yatsu (ちいかわ なんか小さくてかわいいやつ), Tokyo Revengers (東京リベンジャーズ), Nanatsu no Taizai (七つの大罪), Sailor Moon (美少女戦士セーラームーン), Shingeki no Kyojin (進撃の巨人), Tobaku Mokushiroku Kaiji (賭博黙示録カイジ), Hataraku Saibou (はたらく細胞), FAIRY TAIL, Blue Lock (ブルーロック) e Medalist (メダリスト).  Vou traduzir quatro painéis, mas vocês podem ver todos no CN.

Se certifique de retirar os sapatos antes de entrar em certos lugares.

Cubra seu nariz e boca, quando tossir ou espirrar.

Vista seu kimono ou yukata corretamente, cruzando o lado esquerdo sobre o direito.

Curvar-se em um ângulo de 45º e o costume para mostrar gratidão.

quarta-feira, 9 de abril de 2025

Mangá Histórico de Ryoko Yamagishi vira peça do Teatro Noh

Hi Izuru Tokoro no Tenshi (日出処の天子), de Ryoko Yamagishi, é um dos mangás shoujo mais importantes dos anos 1980, publicado na revista LaLa entre 1980 a 1984, a série cobre a vida do príncipe Shoutoku (574-622), responsável por promover a difusão do Budismo e da influência cultural chinesa no Japão.  No mangá, o príncipe é retratado como abertamente homossexual.  A série teve 11 volumes e recebeu o 7º Kodansha Manga Award na categoria shoujo.

O Comic Natalie trouxe o cartaz da peça de teatro Noh chamada "Noh Kyogen: Hi Izuru Tokoro no Tenshi", que será apresentada em agosto no Teatro Kanze Noh. A escola Kanze de Teatro Noh foi fundada no século XIV. O post do CN traz o nome dos atores e tudo mais, mas eu não vou colocar aqui.  O cartaz do espetáculo traz a ilustração mais conhecida do mangá.


quinta-feira, 31 de outubro de 2024

Autor de Ashita no Joe, Tetsuya Chiba, recebe maior comenda cultural do Japão

Tetsuya Chiba criou um dos maiores shounen mangá de todos os tempos, uma obra que deveria ser lida por todos os que apreciam os quadrinhos japoneses, Ashita no Joe (あしたのジョー).  E, sim, se você não conhece a série e acredita que conhece mangá, você tem um problema.  

Muito bem, aos 85 anos, ele foi o PRIMEIRO mangá-ka a receber a Ordem da Cultura (文化勲章, Bunka-kunshou) do Estado Japonês pelas contribuições notáveis ​​ao desenvolvimento cultural do país.  A Ordem da Cultura não tem graus, ela é única.  A matéria saiu primeiro no Japan Anime News e no site do próprio autor.

Enfim, se você quiser conhecer a obra maior de Tetsuya Chiba, ela está em publicação no Brasil pela Newpop.  O vol. 1 está com um bom desconto no Amazon.  Para quem quiser, segue um resumo do início do mangá: Joe Yabuki, um jovem delinquente, vagueia pelas favelas de Tóquio, mas quando bandidinhos locais tentam incomodá-lo, ele lhes ensina uma lição dura com os punhos, o que é observado por Danpei Tange, um boxeador fracassado e ex-técnico que vê algo especial no menino. Ele implora a Joe para treinar com ele, mas o rapaz arrogante o esnoba, mais tarde, quando Joe é preso em um centro de detenção juvenil, ele percebe que precisará aprimorar suas habilidades de luta se quiser sobreviver. Assim nasce uma parceria que pode levar Joe ao topo.  A animação deveria ter sido exibida no Brasil, ela é espetacular e a música de abertura é inesquecível.

sexta-feira, 26 de abril de 2024

Riyoko Ikeda desenha Murasaki Shibiku

Apareceu para mim a notícia de que Riyoko Ikeda desenhou Murasaki Shibiku para um goshuin (御朱印), que será vendido no santuário Shimogamo, em Kyoto.  Vamos explicar o que é isso tudo que eu escrevi.

Riyoko Ikeda é a mangá-ka lembrada, principalmente, pela sua obra Rosa de Versalhes.  Já Murasaki Shibiku é a autora da obra Genji Monogatari, datada no século XI, e considerada por muitos o primeiro romance da literatura mundial.  Um goshuin é um selo-amuleto vermelho que pode ser comprado, porque é tratado hoje como souvenir, em templos xintoístas e budistas.  Já o templo Shimogamo é um dos mais antigos e importantes santuários xintoístas do Japão.  Ele é tombado pela UNESCO e data do século VI.

Pelo que entendi, houve uma colaboração entre Ikeda e o famoso santuário para produzir um goshuin-mangá. Ele será vendido a partir de primeiro de maio no templo.  E existe, segundo o Mag Japan, uma coisa chamada Kawai Shrine Award, porque esses goshuin são colecionados, e outro selo, um com a deusa Tamayori Hime, mãe do primeiro imperador do Japão, também estará disponível na mesma data.  Se vocês observarem, as duas personagens estão usando roupas de eras distintas, Lady Murasaki da Era Heian (794-1185) e Tamayori Hime da Era Nara (710-794), eu acho, ou até antes. Esse tipo de amuleto é colecionado por muitas pessoas no Japão, trata-se de uma coleção especial.

segunda-feira, 10 de julho de 2023

Nanpei Yamada desenha a capa da enciclopédia de Genji Monogatari

Genji Monogatari (源氏物語) é um clássico da literatura japonesa e é considerado o primeiro romance (livro) da Literatura Mundial.  Escrito por Murasaki Shikibu, uma as damas da corte do imperador, no século XI, o livro conta as aventuras do Príncipe  Hikaru Genji, filho do imperador, seus casos de amor, e as intrigas políticas da corte durante o Período Heian (794-1185).  

Segundo o Comic Natalie, a nova edição da enciclopédia traz o resumo da história, biografias das personagens e da autora, detalhes sobre as personagens históricas, o dia-a-dia da corte no Período Heian e outras coisas mais.  Nanpei Yamada é uma experiente mangá-ka, conhecida por trabalhos como Orange Chocolate (オレンジチョコレート) e Koi Suru Moon Dog (恋上月犬男子).

sábado, 8 de julho de 2023

Sato Cinema: O Bairro da Liberdade terá uma sala especializada em produções japonesas

Localizado no andar térreo do do Museu Histórico da Imigração Japonesa no Brasil, o Sato Cinema será inaugurado no dia 16 de julho, para marcar as comemorações do 115º aniversário da imigração japonesa em nosso país.  Contando com 759 lugares no térreo, mas podendo chegar a 1100 lugares com o mezanino, trata-se de uma das maiores salas de cinema de São Paulo. O cinema funcionará aos sábados e domingos, com uma média de cinco sessões diárias de diferentes gêneros cinematográficos.  O cinema é a realização de um sonho de Nelson Sato, dono da Sato Company.

A ideia é atender tanto ao público mais jovem, quanto os saudosistas do cinema, animação e outras produções do cinema nipônico.  E serão três dias de exibições especiais neste mês de julho no cinema localizado na rua São Joaquim, 381: 

16 de julho de 2023 (domingo) – 10h até às 20h35:
10h – Kamen Rider Zero-One: Real x Time + Episódio 51 Kamen Rider Black (BÔNUS) – 105 min.
12h05 – O Deus do Cinema – 125 min.
14h25 – Kamen Rider Zero-One: Real x Time + Episódio 51 Kamen Rider Black (BÔNUS) – 105 min.
16h30 – O Deus do Cinema – 125 min.
18h50 – Kamen Rider Zero-One: Real x Time + Episódio 51 Kamen Rider Black (BÔNUS) – 105 min.

23 de julho de 2023 (domingo) – 10h às 20h35:
10h – Human Lost – 110 min.
12h10 – The Promissed Neverland – 118 min.
14h30 – Human Lost – 110 min.
16h30 – The Promissed Neverland – 118 min.
18h45 – Human Lost – 110 min.

30 de julho de 2023 (domingo) – 10h às 20h35:
10h – Kamen Rider Zero-One: Real x Time + Episódio 51 Kamen Rider Black (BÔNUS) – 105 min. 12h05 – Human Lost – 110 min.
14h15 – Kamen Rider Zero-One: Real x Time + Episódio 51 Kamen Rider Black (BÔNUS) – 105 min.
16h20 – Human Lost – 110 min.
18h30 – Kamen Rider Zero-One: Real x Time + Episódio 51 Kamen Rider Black (BÔNUS) – 105 min.


O Geekpop News trouxe uma entrevista com Nelson Sato e ele diz que filmes de outros países asiáticos (China, Filipinas, Coreia do Sul etc.) poderão entrar na programação, assim como produções brasileiras que tenham temática relacionada e tenham nipo-brasileiros no elenco.  O ingresso cheio, porque deve ter meia entrada, custará 35 reais.

O cinema terá, também, áreas instagramáveis com as armaduras dos heróis, em exibição.  E, segundo o mesmo site, Nelson Sato informou que uma moto do Kaneda, de Akira, também está nos estágios finais de montagem e ficará no local também.  Outros sites que eu usei nesse post foram a Folha de São Paulo e o Tela Viva.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2023

Enredo sobre Samurai Negro vence o Carnaval de São Paulo e, agora, sei por qual motivo o filme sobre Yasuke ainda não foi lançado

Ainda falando de Carnaval, mas desta vez conectado ao tema do blog, a Mocidade Alegre venceu levando para a avenida um samba enredo sobre o Yasuke, o samurai negro.  Não vi nada do desfile, só vi umas duas ou três imagens, mas talvez você não conheça Yasuke e achei uma boa ideia, em uma cidade que tem uma imensa colônia japonesa e em uma festa que nasceu negra, e assim continua em grande medida, falar da personagem.  

Em 2019, antes da pandemia, fiz um post todo feliz sobre Yasuke, porque tinha sido anunciado que um filme hollywoodiano sobre ele estava em produção.  Fiquei me perguntando a quantas andava essa história.  Bem, recuperando o meu post, entendo o motivo do projeto ter sido interrompido, o escalado para ser o protagonista era Chadwick Boseman, projetado ao estrelato por Pantera Negra.  Como você deve saber, Boseman faleceu em 2020.  Não deve ter sido a pandemia a atrapalhar a produção, enfim.  😞  

Mas, neste post de 2019, contei a história de Yasuke e trouxe os parágrafos para cá.  Há links no texto, mas quem quiser vê-los, por favor, vá ao post original, que já está linkado no post.

"(...) não se sabe se Yasuke era originário de Moçambique (*talvez, pertencesse ao povo macua*), da Etiópia, ou de Angola, tampouco sua data de nascimento. Provavelmente, ele nasceu entre 1555 e 1566.  Há discussões sobre seu nome.  Seria Yao + suke?  Os yao são um povo bantu de Moçambique e suke seria um sufixo masculino.  Seu nome também poderia ser uma versão nipônica de Isaque, o que poderia indicar que ele era cristão convertido, ou cristão etíope.  Yasuke chegou ao Japão no ano de 1579 como assistente do jesuíta italiano Alessandro Valignano.  O fato de ser negro chamou a atenção dos japoneses e, em especial, de Oda Nobunaga.  Esse daimiô ficou fascinado pelo africano, sua cor, sua altura elevada para os padrões japoneses, e o recrutou como guarda-costas.  Yasuke se tornou fluente em japonês e, em 1581, ele se tornou samurai, corria a lenda de que ele tinha a força de 10 homens.  Nobunaga pretendia unificar o Japão, mas não conseguiu vencer algumas resistências.  Em 21 de junho de 1582, o general Akechi Mitsuhide se revoltou contra seu mestre, como a vitória era impossível, Nobunaga cometeu seppuku – suicídio ritual.  Yasuke se juntou ao filho de Nobunaga, Oda Nobutada. O samurai negro lutou ao lado das forças do herdeiro por um longo tempo, mas ele não conseguiu resistir por mais de um dia, sendo forçado a se matar.  Yasuke preferiu continuar vivo, o que, para mim, aponta que ele era cristão.  Yasuke ofereceu sua espada para Mitsuhide que o recusou, chamando-o de "fera que não sabia nada".  Só que o governo de Mitsuhide durou 13 dias. Yasuke voltou a servir aos jesuítas e nada mais se ouviu falar dele."

segunda-feira, 7 de março de 2022

"Hello Kitty se torna parte do mangá mais antigo do Japão com nova linha de acessórios"

O título é tradução direta do artigo do Sora News, que fez uma matéria sobre a nova linha de produtos da Hello Kitty, série da Sanrio, mesclada com o Choju-giga, um pergaminho do século XII-XIII, mostrando animais em atividades humanas.  

O pergaminho é considerado pro muitos estudiosos como o primeiro mangá, ou o mais antigo exemplo do uso de um tipo de narrativa que seria comum nos mangás.



São dez tipos de produtos diferentes, há toalhas de vários tamanhos, copos, folhas ao estilo agenda, adesivos, bolsinhas, meias etc.  São muito fofinhos mesmo e as personagens da Sanrio, especialmente a gatinha Kitty aparecem interagindo com os animais do pergaminho original.

Coloquei algumas fotos, mas há muito mais no SN.  Deem uma olhadinha, porque vale a pena.  Muita criatividade mesclar um manuscrito clássico com personagens da cultura pop.

domingo, 2 de janeiro de 2022

Mangá-kas festejam o Ano do Tigre

2022 é o Ano do tigre no Horóscopo Chinês e começa no dia 1 de fevereiro com o ano novo segundo o calendário chinês, que é lunisolar.  No entanto, como no Japão se utiliza o Calendário Gregoriano, que é solar, as autoras de mangá estão postando suas ilustrações desde o dia 01. Escolhi colocar aqui  o de Orange, de Ichigo Takano. Se você quiser acessar outras ilustrações basta checar a lista de autoras que eu montei no Twitter.  Seguir a lista não significa me inscrever seguir, que fique claro.

O Horóscopo Chinês é muito presente nos mangas femininos e é central em Fuits Basket, de Natsuki Takaya.  O Zodíaco Chinês tem um ciclo anual principalmente representado por 12 animais: Rato, Boi, Tigre, Coelho, Dragão, Serpente, Cavalo, Carneiro, Macaco, Galo, Porco e Cão. Além disso, há ainda os 5 elementos Fogo, Terra, Água, Metal e Madeira. Este ano é do Tigre de Madeira. Eu, por exemplo, sou Dragão de Fogo.

segunda-feira, 5 de julho de 2021

Exposição apresenta 1500 anos das vestimentas femininas japonesas

O Sora News trouxe uma matéria sobre uma exposição monumental sobre a indumentária feminina japonesa ao longo de quinze séculos começando no Período Kofun (300-538) e seguindo até nossos dias.  

A exposição é uma colaboração entre a Associação Cultural de Tingimento e Tecelagem de Kyoto, que está completando 80 anos, e o Museu do Traje Bunka Gakuen, com sede em Shibuya, e visa atender tanto os interessados por história da indumentária, quanto os apaixonados por quimonos.  Infelizmente, as imagens do SN não abriram e a da página oficial da mostra são super pequenas.  A foto da abertura do post é do SN, as demais vieram do site Ikidame Nippon que tem modelos vestindo roupas a partir do Período Asuka  (538-710).

A exposição abrirá suas portas em 15 de julho e ficará funcionamento até 28 de setembro. Há ingressos diferenciados para os visitantes comuns e os diversos tipos de estudantes, portadores de deficiência física e seus acompanhantes têm entrada gratuita. A depender do número de visitantes, a entrada pode ser escalonada para atender as medidas de prevenção necessárias em tempos de COVID-19.A mostra também oferecerá uma série de palestras e workshops em japonês sobre técnicas de costura e tingimento de quimonos, que podem ser inscritas aqui.

sexta-feira, 18 de setembro de 2020

Karuta da Rosa de Versalhes

Karuta (かるた) é um jogo de cartas japonesa derivado de um antigo jogo de cartas português do século XVI.  Eu não entendo a lógica do jogo, então, não tentarei sequer explicar, tem o verbete da Wikipedia aqui com muitos detalhes.  

Agora, o jogo é o centro de um dos mangás (*anime, dorama, filme*) josei mais importante da atualidade, Chihayafuru (ちはやふる).  Enfim, o deck da Rosa de Versalhes  (ベルサイユのばら) é muito bonito.   Alguém postou as fotos no Twitter.  Eu queria para mim. 

quinta-feira, 16 de julho de 2020

Suprema Corte do Japão confirma condenação por obscenidade de artista que fez esculturas de sua própria vagina


Dias atrás, publiquei um post sobre uma artista feminista russa que pode ser condenada à seis anos de prisão por acusações de produção de material pornográfico e apologia à homossexualidade.  Enfim, a Rússia em nossos dias não é bem uma democracia e se você quiser se aprofundar sobre esse tipo de discussão, sugiro o livro Como as Democracias Morrem.  De qualquer forma, um caso curioso e um tanto semelhante chegou ao seu desenlace no Japão esta semana.


O caiaque obsceno.
Uma artista japonesa chamada Megumi Igarashi, de 48 anos, estava recorrendo de decisões de cortes inferiores que a tinham condenado por obscenidade.  Igarashi, cujo nome artístico é "Rokudenashi-ko" (garota inútil) tinha feito digitalizações 3D de sua própria vagina que foram compradas por admiradores de seu trabalho em 2013 e 2014, segundo o Kyodo News.  Igarashi distribuiu os dados em 3D de sua genitália como parte de uma campanha de crowdfunding para fazer um caiaque também em forma de genitália. 

Foto do Kanamara Matsuri. 
Segundo o ANN, a polícia a prendeu inicialmente por acusações de obscenidade em julho de 2014. Ela foi novamente presa em dezembro de 2014 depois de exibir uma obra de arte de gesso na janela da loja de adultos de Minori Watanabe (também conhecida como Minori Kitahara) no início daquele ano. Sim, ela chegou a ser presa duas vezes.  O Tribunal Distrital de Tóquio decidiu em maio de 2016 que ela era culpada de violar leis de obscenidade devido à distribuição de dados 3D, mas não era culpada por acusações relacionadas ao caiaque e à exibição da loja.  
Foto do Hounen Matsuri. 
Pensem que o Japão tem mais de um festival tradicional (*Hounen Matsuri e o Kanamara Matsuri são os que eu conheço*) que gira todo em torno de falos eretos, mas uma vagina é considerada obscenidade.  Como já escrevi antes, homens são ensinados a exibir com orgulho a sua genitália, símbolo de superioridade e poder, já as mulheres (cis) devem esconder suas vaginas e sequer dizerem o nome das suas genitais em voz alta, porque é feio.  E não pensem que estou entrando no mérito da arte de Igarashi, simplesmente, é mais um dos casos bem evidentes de discriminação de gênero.

E ela publicou um quadrinho.
Hoje, a Suprema Corte Japonesa recusou a apelação de Igarashi e manteve a condenação por obscenidade.  A pena da artista é uma multa de 400.000 ienes (3.740 dólares), conforme ordenado pelos tribunais inferiores.  A artista deu declarações públicas após o julgamento afirmando a injustiça da sentença, afinal, "Era uma expressão artística questionando por que (os dados) são tratados como obscenos".  Ela afirmou, também, que a legislação do país é ultrapassada.  
"Esta correto.  Eu sou parte do seu corpo."
"Sem nenhuma diferença em relação aos
seus olhos ou pés ou nariz ou boca."
"Mas todos me ignoram." "Isso é estranho,
se você é parte do meu corpo,
então, você é importante."
"Isso deveria ser normal."
Durante a pendenga judicial, Igarashi publicou o livro de memórias gráficas What is Obscenity?: The Story of a Good For Nothing Artist and her Pussy (*o preço do livro em reais é, sim, obsceno*) em inglês em maio de 2016. Além disso, ela aparece no diretor Graham Kolbeins e no projeto documental Queer Japan, da co-roteirista Anne Ishii.