"Por favor, faça isso em casa.
Os homens japoneses estão entre os que menos dedicam tempo às tarefas domésticas no mundo. Por favor, compartilhe as tarefas de cuidado não remuneradas em casa.
Comece com respeito em casa."
Esse texto acima veio de um post japonês fazendo uma súplica irônica aos homens japoneses, porque desde que o Japão passou a ser uma presença constante nas Copas, há aquela admiração pela atitude bonita dos torcedores do país recolhendo o lixo. "Oh, como os japoneses são educados!" "Os japoneses são um exemplo!" E a gente lembra dos mangás e dos japoneses limpando a sala de aula, o pátio, a escola toda depois das aulas. E, sim, nunca vi ninguém que tenha ido ao Japão e não elogie a limpeza do país. Ruas limpas, lixo meticulosamente separado. O post não está negando isso, esse aspecto positivo da cultura japonesa; ele está apontando outra coisa: os homens japoneses colaboram muito pouco com as tarefas domésticas. Dentro de casa, onde ninguém está vendo, limpar e arrumar é coisa de mulher.
日本人男性によるサッカー場でのゴミ拾いが注目されているようだが、日本人男性の家庭内労働時間は国際的にみても極めて低い水準。まず家の中のケア労働を分担してほしい。 https://t.co/lHY3adqPEC pic.twitter.com/otbuLTDOoT
— Atsuko TAMADA (@atsukotamada) June 16, 2026
Segundo a matéria do O Globo, "O post recebeu 60 mil curtidas no X e, em outra versão, foi visto 1,9 milhão de vezes.". Desde a publicação da matéria, o post se disseminou ainda mais. A matéria vai além e aponta que, segundo dados da OCDE de 2021, enquanto as mulheres japonesas dedicam três horas por dia às tarefas domésticas, os homens gastam somente 47 minutos. "O Escritório do Gabinete do Japão também cita os dados da OCDE ao afirmar que mulheres passam 5,5 vezes mais tempo que homens em atividades como compras, tarefas domésticas e cuidados com outras pessoas.". Mas pode piorar, porque em famílias jovens e com filhos menores de 6 anos, o desequilíbrio é ainda maior, mesmo quando elas também têm emprego remunerado. Talvez o cara que está limpando o estádio depois do jogo tenha uma esposa que ficou sozinha em casa cuidando da casa, das crianças e, talvez, ainda trabalhando fora.
Para ZERO surpresa de quem acompanha as discussões sobre desigualdade de gênero: "A desigualdade no Japão supera a registrada em países como Reino Unido, França e Estados Unidos, onde mulheres passam, respectivamente, 1,8 vez, 1,7 vez e 1,6 vez mais tempo que homens em trabalho não remunerado.". E eu estou com uma matéria do Unseen Japan aberta aqui desde antes da Copa que aponta para algo que se relaciona a este problema, pois mesmo tendo uma primeira-ministra, pioneira na história do país, a questão da igualdade de gênero está estagnada no país.
O último Relatório de Desigualdade de Gênero do Fórum Econômico Mundial, mesmo com uma primeira-ministra, o que deve ter dado um monte de pontos ao país, o Japão ficou em 118º lugar entre 148 países, na última posição entre os membros do G7, as maiores economias do mundo. Na verdade, mesmo com uma primeira-ministra, o país teve uma queda em relação ao ano anterior, e um dos principais fatores que contribuíram para isso foi a falta de representação política feminina: "a subpontuação de Empoderamento Político do Japão caiu para 8,5%, ante 11,8% no ano anterior. A participação de mulheres em cargos de gestão no país era de apenas 16,1%. Sob o governo do primeiro-ministro Ishiba Shigeru, apenas 10% dos cargos ministeriais eram ocupados por mulheres." Resumindo, o fato de uma mulher governar o país não fez com que ela montasse um governo com um maior número de mulheres ou estimulasse qualquer mudança no sistema; afinal, ela é parte do sistema. E, só para efeito de comparação, o Brasil caiu duas posições e está em 72% lugar.
"Direitos das Mulheres são Direitos Humanos!", foto da Marcha das Mulheres de 2022.
Enfim, o post da japonesa é somente uma espécie de alerta e protesto contra a hipocrisia e a idealização do Japão que agrada tanto a um monte de gente. Sim, o país é limpo, isso faz parte da cultura, mas, dentro de casa, os homens normalmente deixam os trabalhos domésticos e de cuidado para mulheres cada vez mais sobrecarregadas.















































0 pessoas comentaram:
Postar um comentário