Assisti com minha filha ao filme Toy Story 5. Pelas críticas, já sabia que não se tratava de um mero caça-níqueis, ainda que o seja em certo sentido. Como coloquei em minhas resenhas dos filmes 3 e 4, a série poderia se fechar em uma trilogia e continuar em especiais que, de tempos em tempos, poderiam revisitar a obra. Mantenho o que escrevi, mas não vou dizer que este quinto filme seja descartável. Ele trouxe novas discussões sobre o uso de tecnologia, abordou de forma não maniqueísta o vício em telas, manteve a conexão com o cânone da franquia e deu o protagonismo para Jessie sem anular Woody e Buzz. Resumindo, havia uma boa história a ser contada, que se fecha em si mesma e, ao mesmo tempo, deixa aquela vontade de rever as personagens em outras aventuras. Mas vamos ao resumo do filme:
Bonnie está crescendo e mantém sua imaginação ativa, apesar de ter dificuldades para fazer amigos. Um dos problemas da menina é sua aparente timidez; o outro é a tecnologia. Todas as crianças parecem ter tablets ou computadores. Ao investigar as crianças vizinhas que rejeitam Bonnie, Jessie e Bala no Alvo são alertados por outros brinquedos que sua hora, isto é, o abandono, o esquecimento, estava próximo. E não demora e Bonnie termina ganhando de presente uma Lilypad, um tablet educativo que se torna central na vida da menina, enquanto ela vai se esquecendo dos outros brinquedos. Lilypad quer ajudar Bonnie a fazer amigas através de meios virtuais e entra em confronto com os demais brinquedos. Já Jessie pede conselhos a Woody e, em uma incursão para se certificar de que as novas amigas de Bonnie são boas de verdade, acaba se perdendo e tendo que confrontar o seu passado e a relação traumática com sua primeira criança, Emily. O desaparecimento de Jessie e Baa no Alvo termina por fazer Woody e Buzz partirem à sua procura com o patrulheiro espacial extremamente angustiado, porque estava prestes a pedir Jessie em casamento.
O novo Toy Story tem humor, tem drama, tem aventura e tem até romance em uma mistura muito satisfatória que vai além da mera nostalgia. Quando o primeiro Toy Story estreou, em 1995, eu já era adulta e estava na universidade; não me interessei pelo filme a ponto de ir assisti-lo nos cinemas. Sim, lá se foram mais de trinta anos desde a primeira animação e muitas revoluções tecnológicas podem ser observadas ao longo de todos os filmes da franquia. De qualquer modo, não cresci com Toy Story; me afeiçoei aos filmes porque eles me tocaram de alguma forma e acabei reconhecendo suas qualidades. Aliás, pelo menos uma personagem dos especiais foi trazida para o filme, o Comando em Ação, Command Carl, que aparece em Toy Story de Terror. Apesar do protagonismo de Jessie, Woody e Buzz não são rebaixados, como aconteceu no filme 4. Aliás, fiquei feliz por não termos muito de Bo Peep em tela. Por outro lado, trazer Woody de volta foi excelente e funcionou a piada da calvície do boneco, que está rendendo uma promoção de ingressos gratuitos para homens calvos no cinema. Mais detalhes aqui.
O filme poderia enveredar fácil para uma estrutura de bem contra o mal, apresentando as novas tecnologias como daninhas ao desenvolvimento das crianças. Afinal, essa histeria está presente em vários discursos desde os pedagógicos até os médicos. E estou deixando clara a minha posição, porque tenho cinquenta anos e a minha geração já era cativa das telas, mas era a TV. Quantas horas as crianças dos anos 1980-1990 passavam diante da babá eletrônica? Vasculhem os jornais e artigos da época e irão encontrar os mesmos discursos alarmistas sobre sedentarismo e o desaparecimento das brincadeiras tradicionais. A diferença maior é que não tínhamos o controle do que consumíamos; com as novas tecnologias, as crianças ganham uma autonomia que é perigosa, porque a internet é um lugar cheio de gente realmente ruim, mas é também incômoda, porque tira poder dos adultos de decidir tudo por elas. Com a TV linear é mais fácil.
De qualquer forma, uma crítica pertinente do filme passa pela adultização. Tablets e computadores (*não se fala de celulares no filme*) afastam as crianças dos brinquedos convencionais e as pressionam a rejeitar comportamentos infantis em favor da aceitação do grupo. Essa segunda parte, aliás, não é novidade, o que há de novo é a precocidade. A discussão aparece quando Bonnie tenta fazer amigas usando o chat do Lily Pad e as meninas a ridicularizam por ainda brincar com brinquedos e na análise do quarto da segunda menina introduzida, Blaze, que mora na antiga casa da primeira dona de Jessie. Ela tem 9 anos, mas seu quarto parece o de uma adolescente. Com os brinquedos trancados em uma casa no quintal, ou dentro de uma gaveta ou, os mais queridos, em uma prateleira alta, como decoração. Aliás, ela tem um cavalo alado da Barbie na sua coleção de cavalinhos.
Agora, falando por mim, quando tinha uns oito anos, ele morreu quando eu tinha nove; eu ouvi do meu avô que ele esperava que eu já tivesse largado as bonecas quando estivesse com dez anos, porque já seria mais que hora de me tornar uma mocinha. E na quinta série, quando eu estava com dez anos, a maioria dos professores fazia questão de repetir que nós não éramos mais crianças, que certos comportamentos eram inaceitáveis, e era muito comum que um monte de homens adultos ficassem na porta do colégio assediando meninas. Pode ser uma experiência ligada a um determinado lugar (*Rio de Janeiro, Baixada Fluminense*) e classe social, mas eu tenho lá minhas restrições sobre essa ideia de que a adutização é um fenômeno recente. Não é, não, especialmente quando se é menina.
Mas o filme é competente em mostrar que a tecnologia isola, com cada criança parecendo presa em seu próprio mundo, e, ao mesmo tempo, permite conectar pessoas que estão distantes. E isso é fundamental para o arco final da história. Basta, claro, se conectar com pessoas certas. Só que dois pontos mal arrumados do filme se ligam a isso. Os pais de Bonnie resistem em presentear a filha com um tablet, mas se mostram muito pouco perceptivos das mudanças de comportamento da menina e rapidamente esquecem que tinham combinado que ela iria usar o Lily Pad com parcimônia. O outro furo é que as mensagens que são importantes para que Jessie seja encontrada e que Bonnie e Blaze se conectem são enviadas pelos brinquedos, mas nenhum humano se questiona sobre elas. Que estava usando tablets e computadores para mandar mensagens?
Por outro lado, o filme tem algumas resoluções de roteiro interessantes. Ele abre com um exército de Buzz LightYear de última geração em uma ilha deserta. Houve um naufrágio e eu lembrei imediatamente de Robô Selvagem. Os bonecos conseguem se ligar, mas estão com sua programação original, eles não sabem que são brinquedos, se acham patrulheiros de verdade e querem chegar com Comando Estelar. Essa é sua missão. Eles poderiam ser um alívio cômico e nada mais, mas eles se encaixam na história. Inclusive, há uma homenagem ao Banbie ligada a eles. Aparecem Banbie e Tambor, além dos acordes de uma das músicas da animação. Não sei por qual motivo cortaram Flor.
Temos, também, mais detalhes do passado de Jessie e de sua primeira dona, Emily. Não vou dar detalhes sobre o que é, porque será legal acompanhar esse desenvolvimento da história. Então, sem spoilers aqui, mas digo que o que eu imaginei que seria feito, não teve nada a ver com a escolha do filme. Agora, infelizmente, não fizeram um bom uso da música do filme, que deve ser aposta para o Oscar, porque, pela primeira vez, como pontuou minha filha, nenhuma canção foi utilizada dentro da película. Ela só aparece nos créditos finais. Deveria ter entrado nessa sequência centrada em Jessie e Emily. Agora, se você não se importa com spoilers, depois do trailer, eu comento esse ponto.
Enfim, o filme tem um detalhe curioso que é o uso recreativo da tortura e não achei fotos. Woody é torturado pelo exército de Buzz Lightyear. Woody e Buzz torturam Lily Pad. Levando-se em consideração que a tortura é um ato hediondo e condenado por convenções internacionais, mas que cada vez mais é justificado pelos políticos de extrema-direita como algo legítimo, me pergunto quem teve a ideia de transformar a coisa em alívio cômico. Podem me chamar de exagerada, eu não me importo, mas a normalização da tortura em um filme infantil me incomodou um tanto. E a cena com o Woody nem é engraçada, é até angustiante. No caso de Lily Pad, como ela é a vilã, ou assim os brinquedos tradicionais a percebem, a tendência é revelar a coisa até certo ponto.
Neste filme de Toy Story, as sequências de imaginação das crianças estão em um estilo de animação diferente. Assim, se marca a separação entre a realidade e o mundo imaginado. Temos o casamento de Garfinho abrindo o filme e outro casamento fechando a película. Além disso, outras sequências de imaginação mostram a riqueza dos mundos criados por Bonnie e Blaze e permitirão a integração entre os brinquedos tradicionais e os tecnológicos. Aliás, um aspecto interessante do filme parece ser a descartabilidade dos brinquedos. Os novos personagens, os brinquedos tecnológicos de Blaze, foram esquecidos depois de poucos meses, até semanas, de uso. Será que crianças precisam ganhar tantas coisas?
O filme cumpre facilmente a Bechdel Rule, porque tem várias personagens femininas, com nomes, que conversam entre si e sobre outras personagens femininas, principalmente, sejam elas Bonne, Blaze, Lily Pad ou mesmo Jessie. Como o elenco de Toy Story é extenso, há personagens que só fizeram pontinhas, mas vários deles retornam para o filme. E a escolha de Jessie como protagonista foi boa. Diferentemente do que aconteceu no filme 4, a centralidade não resultou em deformação da personagem ou na sua conversão em uma mera girl boss. E ela e Buzz se acertam definitivamente ou pelo menos eu acredito nisso. Me pergunto se irão adotar algum filhinho ou filhinha. E o desespero de Buzz e a busca de Jessie são algumas das partes melhores do filme. 😁
Concluindo, Toy Story 5 foi um filme muito satisfatório. Ele conta uma história de verdade, lida com a nostalgia sem se tornar refém dela, sendo bem superior ao filme 4. É muitíssimo mais interessante, também, do que o filme Mario Galaxy, que eu assisti e não fiz resenha, porque, bem, ele não acrescentou nada, não me tocou em nenhum momento, foi somente uma exibição de tecnologia. E, bem, exibição de novas tecnologias de animação é coisa que Toy Story faz melhor. Como nos outros materiais da série, o filme consegue dialogar com adultos e crianças e não faz escolhas fáceis e maniqueístas. A tecnologia não pode ser banida da nossa vida; ela não é uma inimiga e é preciso compreender que as crianças crescem e que os brinquedos não estarão para sempre na sua vida diária, ainda que possam ser guardados como uma preciosa recordação. Já as personagens novas têm potencial para serem exploradas em próximas produções da franquia, que irão vir com certeza. Recomendo muitíssimo.
Se você está aqui, não deve se importar com spoilers. Jessie e Bala no Alvo são perdidos por Bonnie e a boneca tem o nome de Emily e o seu endereço escrito em uma parte interna de sua roupa. Por conta disso, ao ser encontrada, um casal de idosos decide devolver a boneca e coloca os dois na caixa de correios do antigo rancho de Emily. Se você conhece Jessie, já imagina o gatilho. Eu imaginei que ela fosse reencontrar Emily adulta, que ela fosse ser a dona do rancho e já avó, quem sabe. Só que não foi bem assim, mas elas irão se reencontrar, porque Jessie descobre uma cápsula do tempo enterrada e consegue compreender que continuou importante para Emily, porque a sua primeira dona deu o seu nome à sua filha. É uma sequência bonita que estimula o amadurecimento da protagonista. 🥹 Repito novamente: Toy Story 5 merece ser assistido e já é a melhor estreia da franquia nos cinemas, mesmo não estando disponível ainda em todos os países.

























































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