sábado, 8 de dezembro de 2018

Comentando Emma (ITV, 1996)


Seguindo na minha proposta, já atrasada, aliás, de resenhar todos as adaptações de Emma que pudesse, nesse caso, o filme da Miramax de 1996, a produção para a ITV do mesmo ano, a série da BBC de 2008 e, se tiver paciência, a anterior de 1972.  Fui olhar e, bem, há várias adaptações de Emma que eu não tinha olhado (1948/BBC, 1954/NBC; 1957/NBC; 1960/BBC e 1960/CBS), mas eu não vou conseguir ter acesso, algumas nem devem tersido guardadas, porque eram ao vivo.  Enfim, até hoje torço para que desencavem e restaurem a versão da BBC de 1967 de Orgulho & Preconceito e só consegui fragmentos.  Não há DVD dela lançado, por exemplo.  

Para quem não conhece o básico do livro, Emma conta a história da única heroína de Jane Austen que é rica por nascimento e goza das vantagens que o dinheiro pode trazer.  Emma Woodhouse (Kate Beckinsale) tem bom coração, mas é um tanto mimada e tem como hobby arrumar casamentos para os outros, enquanto esquece de si mesma.  Ela se dispôs a cuidar do pai viúvo e idoso (Bernard Hepton) e acredita que sendo rica, pode evitar o casamento sem grandes problemas.  Ela tem um vizinho, George Knightley (Mark Strong), 16 anos mais velho que ela e que visita os Woodhouse com grande frequência.  Ele é o único a apontar as falhas no comportamento da protagonista, que é poupada por todos. O irmão de Knightley, John  (Guy Henry), é casado com a irmã mais velha de Emma, Isabella (Dido Miles), o que os torna parentes de certa maneira.
As cenas de Bernard Hepton
como pai da heroína são excelente.
A história começa com o casamento da governanta de Emma, arranjado pela própria, aliás.  Com a partida de Miss Taylor (Samantha Bond), Emma sente um grande vazio e decide tomar como sua  protegida uma órfã pobre, Harriet Smith (Samantha Morton), e arranjar-lhe um bom casamento.  A moça já tem um pretendente, mas Emma decide que Robert Martin (Alistair Petrie), um arrendatário de terras de Mr. Knightley, não é digno de Harriet e decide que ela irá se casar com Mr. Elton (Dominic Rowan), o pastor, que, na verdade, está em busca do dote da heroína.  A coisa não termina bem e Elton acaba se casando com uma noiva rica e esnobe (Lucy Robinson).  No meio disso tudo, dois jovens se mudam para a vila de Highbury onde se passa a história.

Jane Fairfax (Olivia Williams), moça órfã, mas de boa família e muito bem educada, é tudo o que Emma deveria ser em termos de comportamento social e não é. Emma se recente disso e negligencia a moça, evitando ao máximo conviver com ela. O outro novo morador da vila é Frank Churchill (Raymond Coulthard), filho de Mr. Weston (James Hazeldine), o homem que se casou com a governanta da protagonista.  Churchill é charmoso, mas leviano, e Emma se sente atraída por ele e se comporta mal por influência do rapaz.  A situação gera atrito entre a heroína e Mr. Knightley que, em silêncio, sempre foi apaixonado pela moça e acredita tê-la perdido para o pretendente mais jovem.  De qualquer forma, Emma termina frustrada em todos os seus planos como casamenteira e se desespera ao descobrir que ama Knightley e que pode tê-lo perdido para sua amiga, Harriet Smith.
Kate Beckinsale e Mark Strong.
Tentarei não comparar as duas versões de 1996, mas já aviso que é tentativa vã.  Revendo a versão com Kate Beckinsale e Mark Strong (❤) só reforçou a minha visão de que o filme da ITV é minha adaptação favorita do livro de Jane Austen.  E o motivo não é tanto Mark Strong, meu Mr. Kightley favorito, mas descobrir (*sim, rever filmes possibilita essas coisas*) o quanto o roteiro de Andrew Davies é bom e como ele conseguiu em 107 minutos nos oferecer o melhor de Emma com espaço para todas as personagens atuarem.   Ninguém é negligenciado e mesmo Guy Henry consegue compor um John Knightley bem marcante.  Ele não está no filme somente como figurante de luxo.

Um dos destaques dessa versão de Emma é que a discussão principal do filme não é gênero, isto é, os papéis desempenhados por homens e mulheres em uma determinada sociedade, mas classe.  E, neste caso, acredito que o olhar do diretor, Diarmuid Lawrence, pesou bastante.  Há o de sempre, o que é inescapável no caso de uma adaptação de Emma, qual seja, as diferenças de fortuna dentro de uma mesma classe social.  Miss Bates (Prunella Scales), tia de Jane Fairfax, foi muito rica e, agora, depende das gentilezas de seus vizinhos com mais recursos, os Knightleys, os Woodhouses, os Westons, mesmo os Eltons.  
Raymond Coulthard faz um Frank Churchill muito sedutor.
Apesar da situação de constrangimento vivida por Jane Fairfax, que precisa (*Horror!  Horror!*) arrumar um emprego, ela, sua tia e sua avó, pertencem ao mesmo círculo dos abastados de Highbury.  Já quando Emma olha para Robert Martin, que é arrendatário de terras, um homem honesto, mas que tem que trabalhar duro, ela o faz com desprezo.  E aí está uma sacada fantástica dessa adaptação, Emma não recebe de volta uma cortesia e um olhar carregado de humildade, a personagem interpretada por Alistair Petrie é orgulhosa e tem raiva nos olhos. Ele se curva, porque o dever exige, mas despreza a heroína, sabe que ela é a razão do afastamento dele e de Harriet.  

Por isso a cena na qual Emma, já reconhecendo seus erros, vai até ele e o cumprimenta, lembrando-se que é quem está acima que deve prestar essa gentileza, a coisa gera tanta surpresa.  Ela desarma Robert Martin, que precisa reconhecer que a esnobe Emma não é má afinal, e choca Augusta, a esposa metida de Mr. Elton.  Selada a paz entre as classes, você adia a revolução, por assim dizer.  Brincadeiras à parte, mesmo Robert Martin não é somente um figurante nessa adaptação de Emma.  Outro detalhe importante é como a câmera mostra os patrões e os criados.  E veja que esses estão abaixo de Robert Martin.
Orgulho de classe é algo que se
discute nessa versão de Emma.
Na cena do piquenique em Box Hill, fundamental à história, a câmera mostra os patrões, as personagens de nossa história, e os criados, os anônimos que garantem o bem estar de Emmas, Janes e mesmo Harriets, carregando coisas e, mais tarde, deitados na grama descansando.  Eles são gente, até eles tem sua história dentro dessa adaptação.  Há, inclusive, uma cena muito curiosa, quando Mr. Knightley convida as damas para colherem morangos.  Mrs. Elton e Miss Bates falam de como é rústica e simples essa atividade, mas para cada mexida que elas dão, há um criado para recolocar a almofadinha e as damas não sujarem suas saias.  É o contraste entre as classes ociosas e as trabalhadoras.  Tipo novela de Manoel Carlos.  Um primor de cena.  Quem você seria em Emma, ou em qualquer livro de Jane Austen?

Saindo dessa discussão.  Um dos destaque do filme é a forma concreta como se desenha a relação entre Frank Churchill e Jane Fairfax.  As pistas do relacionamento dos dois são dadas a todo instante.  Emma, claro, não percebe, ela se apetece das maledicências que Churchill semeia em relação à Jane como uma cortina de fumaça, afinal, ela hotiliza a moça.  Mr. Knightley percebe que há algo mais entre Churchill e Jane e sofre com isso.  Sofre pelas duas moças por motivos diferentes.  Exatamente por entendermos que há algo no ar (*quem leu o livro, ou assistiu outras adaptações não estava no escuro, claro*), ainda que não saibamos o quê, é que o Frank Churchill de Raymond Coulthard é tão bom e tão vil ao mesmo tempo.  Ele é sedutor, ele é bonito, e ele realmente tem influência sobre Emma fazendo com que ela se comporte mal.  
"Badly done, Emma!"
Daí, ser muito justificado o rancor de Mr,. Knightley, que chega a confrontar Churchill em uma cena para defender Jane Fairfax do mansplaining do sujeito, o que desperta a fofoca sobre o solteirão estar interessado em Jane.  Nesse filme, se fosse intenção de Frank Churchill, ele conseguiria casar com Emma, mas não era, ela é somente uma espécie de brinquedo.  Há, claro, a cena em que ele quase conta a verdade para a moça, quando parece sinceramente abalado, e, sim, Raymond Coulthard convence também nesse momento.  Nunca parei para refletir, mas ele deve ser o melhor ator nesse papel.  E a Emma, bem, ela acredita entender de assuntos do coração, mas é absolutamente inocente em sua gaiola de ouro.

Olivia Williams, que, mais tarde, interpretaria a própria Jane Austen em Miss Austen Regrets, é uma Jane Fairfax muito convincente, também, reservada demais (*e Mr. Knightley no livro justifica que, por isso, nunca a cogitaria como esposa*), ciente de sua triste condição e tentando esconder seus sentimentos.  Tentando, nem sempre conseguindo.  Ela é o contraste tanto com a aberta Harriet Smith, inculta, inocente e incapaz de se defender dos bons (*Emma*) e dos maus (*os Elton*) e com Augusta, a esposa de Mr. Elton, que é rica, mas carente do refinamento que acredita ter.
O marido rancoroso e mesquinho e a
esposa que não sabe se comportar.
A inconveniente Mrs. Elton tem ótimas cenas neste filme, uma em especial, com Mr. Knightley, quando ela se oferece para cumprir certas funções sociais de anfitriã para ele, porque ele é um solteirão.  Ele diz que somente uma mulher poderia fazê-lo e ela sugere que é Mrs. Weston e ele responde que, não, somente uma futura Mrs. Knightley.  Isso, claro, provoca a fofoquinha e a imaginação de Emma.  Aliás, uma das coisas simpáticas dessa adaptação são os delírios de Emma, ela tem sonhos, visões, uma imaginação fértil demais e que, não raro, se volta contra ela.

Já que toquei em Emma, Kate Beckinsale compõe sua protagonista como uma menininha esnobe.  Ela parece, no filme, mais jovem do que era.  É uma Emma que parece brincar de ser mãe do próprio pai, um maravilhoso Bernard Hepton, mas que é, ao mesmo tempo, ciosa das diferenças de classe.  Ciosa demais, daí a cena que comentei com Robert Martin ser tão importante para expressar o seu amadurecimento.  É uma Emma imatura, mas que se esforça por melhorar, e a atriz demonstra nas suas expressões faciais todos os sentimentos necessários para compor as diversas cenas.  Seja a malícia que Frank Churchill desperta nela, ou o arrependimento, quando Mr. Knightley chama sua atenção.
A bela e refinada Jane Fairfax sofre pela sua condição social muito frágil.
Falando nele, o Mr. Knightley de Mark Strong é reservado, sério, mas capaz tanto de expressar algum humor, quanto a sua insatisfação e irritação, além, claro, do ciúme.  O ator, em várias cenas, demonstra com o olhar e somente isso, os sentimentos e pensamentos da personagem.  E os olhos de Mark Strong são o que há de mais expressivo no rosto dele.  Peguem a cena terna em que ele e Emma fazem as pazes, quando a moça está com a sobrinha no colo, por exemplo.  Ou, mais adiante, a cena em que Emma maltrata, estimulada por Frank Churchill, Miss Bates no piquenique, ele repreende a mocinha, a pega pelo braço (*mas não a sacode*) e o tom da sua voz quando eles se separam tem uma nota de dor, quase choro.  Ali, ele acreditava que tinha perdido Emma, por isso, precisa partir, ficar longe dela.  Já na cena em que ele se declara, enfim, ele realmente parece que cavalgou horas debaixo da chuva, está com a barba por fazer, e isso é importante para convencer a audiência.

Que mais falar?  Sandra Bond, que está muito bem como Mrs. Weston, foi Maria Bertram na melhor versão de Mansfiend Park (*resenha*).  O figurino é bonito, correto, mas discreto.  Trata-se de uma produção de TV de primeira linha para a época, mas é algo bem menos grandioso do que o filme lançado no mesmo ano.   Os vestidos de baile é que trazem um pouco de luminosidade, apesar do principal traje de Jane Fairfax ser preto.  A falta de educação e real refinamento de Augusta Elton se destacam em várias cenas, especialmente, na familiaridade com que trata Mr. Knightley, dispensando o "Mr.", ou no fato de usar apelidos carinhosos para o marido em público e ele, em contrapartida, chamá-la pelo primeiro nome, algo considerado, na época, como pouco adequado e até escandaloso.  Só há um casal que o faz sem ser ridículo em Jane Austen, mas não estou comentando Persuasão.  
Esses olhos... e ele nem cantou nesse filme. 
Ah, o Mr. Elton de Dominic Rowan é muito bom, também.  Ele era absolutamente bandeiroso quanto ao seu interesse por Emma, que nada percebe.  Na cena em que se declara ele efetivamente chega a agarrar a mocinha e quer interpretar o choque dela como modéstia e timidez.  E, mais tarde, seu rancor contra a protagonista, seu desprezo e dissabor, sua inveja de Mr. Knightley, ficam evidentes em seu rosto.  O ator trabalhou muito bem.  Não poderia esquecer dele.

No final, do filme, na última cena, é repetida aquele diálogo que comentei na resenha anterior que é o que define o tom da interpretação de Mr. Knightley.  "Brother and Sister?  No indeed".  Só que é ele que convida Emma para dançar e ela é que usa o trecho do diálogo.  Uma pena que não tenhamos nessa adaptação Emma tentando chamar Mr. Knightley pelo nome só para desistir.  É uma sequência que, normalmente, é excluída das adaptações.  É isso, deu vontade de assistir de novo enquanto eu estava resenhando.  É realmente uma das minhas adaptações favoritas dos livros de Jane Austen, entre outras coisas por ter feito tanto e tão bem com tempo tão limitado.  


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1 pessoas comentaram:

Mais uma excelente resenha, estava com saudades das resenhas de filmes/seriados de época, esse ano de 2018 não teve nada de adaptação de Jane Austen, mas ano que vem espero por Sandition e a nova versão de Orgulho e Preconceito, já estou no aguardo das resenhas.
Você pretende resenhar outros filmes da Jane Austen como as versões da ITV de Northanger Abbey e os filmes de Mansfield Park?
A editora norte americana Manga Classics lançou uma versão em manga de Emma, o traço não chega a se comprar com o traço dos mangas japoneses mas acho interessante essas adaptações dos livros da Jane Austen para manter a obra em circulação.
Um grande abraço :)

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