segunda-feira, 23 de novembro de 2020

A escolha de uma atriz negra para fazer Ana Bolena gera controvérsia na Inglaterra

O Channel 5, emissora britânica, anunciou que irá produzir uma série sobre os últimos dias de Ana Bolena (c.1501-1536) sob a perspectiva da rainha e escalou a atriz negra Jodie Turner-Smith para o papel.  Esta notícia era uma das que eu queria discutir desde a semana passada, dentro dos posts que gostaria de fazer para a semana da Consciência Negra e não consegui.  Pois bem, como não poderia deixar de ser, essa escolha da emissora despertou uma onda de repúdio nas redes sociais e acusações de que em nome da diversidade estão querendo deformar a História.

Enfim, meus dois centavos sobre o assunto.  Eu não sou contra esse tipo de escalação desde que ela não seja a única pessoa não-branca do elenco.  Sempre cito Muito Barulho por Nada do Kenneth Branagh, mas poderia incluir o último filme sobre a rainha Mary Stuart, também, como exemplos bem sucedidos de filmes que simplesmente ignoraram a etnia e escalaram elencos multirraciais em uma história que deveria ter somente gente branca.  Problema?  Nenhum.  Há muitos atores negros maravilhosos que poderiam ser Henrique VIII.  Pelo que sabemos do elenco até o momento, talvez tenhamos um Henrique negro, também.

O que eu vejo como realmente complicado é um outro tipo de ideia de diversidade que é colocarem pessoas de cor em papéis improváveis não para discutir racismo, mas ignorando que ele existisse. Critiquei Enola Holmes por isso, assim como a última versão de Éramos Seis.  E acabei de descobrir que meu post do Dia da Consciência Negra do ano passado foi sobre a novela.  Essa inclusão sem discussão acaba fazendo parecer que a sociedade na Inglaterra do final do século XIX, ou na São Paulo dos anos 1920 e 1930 era uma democracia racial.  essas produções alienadas das questões raciais podem fazer crer que racismo é uma invenção da cabeça das pessoas (*negras*), ou de militantes de nossos dias.

Enfim, mas lendo um artigo de opinião do The Guardian vi uma crítica muito pertinente a essa nova visita ao trágico final de Ana Bolena e a essas produções de época com elenco diverso.  Segue um trecho: "Tenho certeza de que Turner-Smith será um Bolena brilhante, mas, para ser clara, não acho que haja nada particularmente progressista na decisão do elenco. Acredito que haja um equívoco generalizado de que “diversidade” significa conectar talentos não brancos a histórias e espaços brancos. O que é muito mais importante é diversificar os tipos de histórias que contamos. A história de Bolena é fascinante, mas também muito familiar. Enquanto isso, há muitas rainhas não brancas com histórias sangrentas e sedutoras que poucas pessoas conhecem.".  A autora segue citando rainhas não-brancas com histórias super interessantes e que nunca tiveram um filme, ou série feitas sobre elas.  Pessoas negras têm história.  que tal contá-las TAMBÉM?

Ana Bolena é ótima, mas será que não seria interessante contar outras histórias e não as mesmas simplesmente escalando não-brancos?  Vocês decidem.  O fato é que existem muito mais casos de branqueamento de personagens de cor (*negros, indígenas, árabes etc.*) do que o contrário e certamente essa adaptação não pretenderá afirmar que Bolena era uma mulher negra. É isso.  Amanhã tem mais.

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