sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Comentando The Girl King (2015)


Faz umas duas semanas que assisti The Girl King, a última filmagem da vida da Rainha Christina da Suécia.  Comentei o trailer em um post anterior, porque ao me deparar com ele fiquei realmente impressionada.  O filme, no fim das contas, ficou naquele meio termo, ele não é excelente, mas ganharia fácil três estrelinhas.  Uma quarta estrela poderia ser dada somente por causa da interpretação impactante de Malin Buska, como Christina, e pela raridade de se falar de uma personagem histórica queer em um filme, ainda mais uma mulher.  De quantos filmes vocês são capazes de se lembrar?

The Girl King – que no Brasil terá o título sem graça de A Jovem Rainha – acompanha a vida de Christina (Lotus Tinat, quando criança, Malin Buska, quando crescida), desde a morte em batalha de seu pai, o rei Gustavo Adolfo, até se tornar rainha.  Os conflitos com os elementos conservadores de sua corte – por ser mulher, por não desejar se casar, por ter um pensamento religioso e militar heterodoxo – são questão tão importante no filme quanto o seu romance com a Condessa Ebba Sparre (Sarah Gadon).  As frustrações acabam precipitando um dos acontecimentos mais dramáticos do século XVII, a conversão de um dos mais importantes monarcas protestantes ao catolicismo romano.

Christina e seus pretendentes.
Produzido em 2015, The Girl King é uma coprodução Finlândia, Canadá, Suécia, Alemanha e França.  Falado principalmente em inglês, o filme traz alguns diálogos em alemão e francês que não foram contemplados pelas legendas que eu consegui.   Não é nada que vá comprometer a compreensão do filme, ainda assim, o ideal é poder entender tudo com clareza, os diálogos em francês são importantes e só consegui capturar alguns fragmentos.  Afinal, é em francês que o embaixador Pierre Hector Chanut (Hippolyte Girardot) conspira para a conversão de Christina, é nesta língua que fala René Descartes (Patrick Bauchau).

Para quem não conhece a Christina (1626-1689), ela foi rainha da Suécia por seu próprio direito e seu pai, Gustavo Adolfo, herói dos protestantes na Guerra dos 30 Anos (1618-1648), deixou determinado que ela deveria ser educada como um príncipe, assim, no masculino.  Daí, Christina usava roupas masculinas, teve formação guerreira, teológica e filosófica invejável para a época.  

Christina convida Descartes para a sua corte.
Ao assumir o trono, ela discordou de seus conselheiros ao tentar buscar a paz com velhos inimigos, além disso, decidiu modernizar o país, trazendo filósofos, pintores e músicos para sua corte. Clamando para si o direito - afinal, ela era uma monarca absoluta - ela se permite pensar livremente, inclusive dialogando com o pensamento católico quando, a regra, era a intolerância.

O filme tem um núcleo de personagens bem pequeno, além de Christina e Ebba Sparre, temos Chanceler Axel Oxenstierna (Michael Nyqvist), que vê a rainha como uma filha e supervisiona sua educação, mas não mede esforços para que ela se case com seu filho, o conde Johan Oxenstierna (Lucas Bryant).  Ele é  um dos apaixonados por Christina, junto com seu primo Karl Gustav Kasimir (François Arnaud), o César Borgia de The Borgias, e o conde Jakob de la Gardie (Jannis Niewöhner).  Estes dois últimos foram, provavelmente, os primeiros amores de Christina.  

Um príncipe acima de tudo.
No filme, para evitar o assédio, ela afasta os três pretendentes da corte, dando-lhes missões honrosas e difíceis.  Historicamente, La Gardie foi afastado da corte por Oxenstierna e outros conselheiros que perceberam que Christina, ainda muito jovem, estava alimentando sentimentos por ele.  Ele é enviado como embaixador para a França.  Outras duas personagens com algum destaque são a condessa Erika Erksein (Laura Birn), que é colocada como dama de companhia de Christina para espionar a rainha para os Oxenstierna, sendo a primeira a denunciar o romance entre a monarca e Ebba Sparre, e a rainha viúva, Maria Eleonora (Martina Gedeck).

Enfim, é preciso falar das mulheres do filme para além de Christina e Ebba Sparre.  O filme cumpre fácil a Bechdel Rule, claro, há quatro mulheres com nomes, que conversam entre si e o principal assunto é a protagonista.  Já a forma como as mulheres são retratadas para além de Christina já é outra história.  Ebba Sparre é arrastada pela rainha.  Christina é passional, é autoritária como qualquer monarca absoluto pode ser.  Ebba ama a rainha?  Não saberia dizer, ela parece massa de modelar nas mãos de todos, sempre delicada, sempre sensível, sempre na defensiva.

Companheira de cama.
A condessa Erika é também massa de modelar.  Ela não é má, mas está prisioneira dos papéis de gênero e das hipocrisias religiosas de sua época.  Grávida por causa de uma aventura, ela teme ser dispensada do serviço de Christina e cair em desgraça.  Assim, apesar de todo o seu fervor religioso, ela acaba se obrigando a fazer um aborto pressionada por Johan Oxenstierna.  É através de Erika que sabemos da misoginia de Christina, educada que foi para se sentir acima das mulheres e desprezar tudo o que era feminino, mas o filme só mostra a rainha sendo gentil.  Veronica Buckley discute a questão em uma biografia da Rainha Christina que tenho aqui em casa.  O único vislumbre desse lado sombrio da soberana, que o roteiro não mostrou apropriadamente, é em uma pequena cena em que Christina maltrata Ebba Sparre.   E morre aí.

Quanto à rainha Maria Eleonora, o filme opta por pintá-la como louca.  Enfim, considerada a rainha mais bela de seu tempo, Maria Eleonora sofria por não ter filhos.  Eles nasciam e morriam. Salvou-se uma só, Christina, que era rejeitada pela mãe por ser morena, escura, enfim.  O filme mostra muito bem o luto extremado da soberana, que manteve o cadáver do marido e a filha consigo por dois anos.  A menina Christina era obrigada a beijar o cadáver do pai todos os dias e o ambiente era tudo menos saudável para qualquer pessoa, ainda mais, uma criança.  O filme apresenta muito bem esse drama da infância da protagonista.

Mamãe nunca lhe amou.
O Chanceler Oxenstierna resgata Christina e manda enterrar o cadáver, condenando Maria Eleonora a uma espécie de prisão domiciliar, sem poder algum sobre a filha.  Ele faz cumprir a vontade de Gustavo Adolfo de ver  a filha educada como um príncipe.  Nas suas primeiras cenas, mal é possível entender o que Maria Eleonora fala.  Pergunto-me se estava em alemão (*e eu entenderia alguma coisa*), ou se tratava, o mais provável, de retratar algo que Veronica Buckley descreve na biografia de Christina: Maria Eleonora, nos últimos anos de casamento, parecia incapaz de falar sueco, ou alemão, sua fala era misturada e pouco compreensível.  

A biógrafa se questiona se isso era fruto de algum transtorno psiquiátrico, ou de um derrame sofrido em um dos difíceis partos.  O fato é que, no filme, isso ajuda a compor a imagem de louca, damulher que não deve ser ouvida.  A rainha só é convocada a aparecer em cena de novo quando Oxenstierna quer sua ajuda para que Christina seja convencida a casar, o que não faz muito sentido, afinal, Maria Elonora não tinha ingerência alguma sobre ela.  Elas se desentendem e o saldo do encontro é lançar mais uma nódoa sobre a rainha-viúva.

Relações perigosas.
Vou explicar, no filme, Christina tinha uma cicatriz de uma queda sofrida ainda bebê.  No início, é dito que um criado a tinha deixado cair, descobrimos nesta cena que foi a mãe quem tentou matá-la.  Amando loucamente o marido como amava, Maria Eleonora não tentaria matar o herdeiro do trono.  O fato é que Christina tinha uma má formação de coluna.  É possível que não fosse seu único problema.  Veronica Buckley se questiona se ela não poderia ser, também, intersexuada, ou ter alguma má formação genital, porque, ao nascer, foi identificada como menino.

Bem, havia tanta vontade de ver nascido um herdeiro e tanto temor que Gustavo Adolfo, que estava muito doente na ocasião, morresse de desgosto, que, para mim, não é surpresa que a menina fosse identificada como menino.  O fato é que o rei pareceu não se importar, o filme mostra uma cena de flashback do amoroso pai com a pequena Christina, com roupas de menino, correndo pelo palácio e brincando.  Além disso, ficou registrada a frase de que “ela tinha enganado à todos.  Chorou tão forte, que pensaram ser um garoto.”.  Aliás, Riyoko Ikeda usa a mesma frase no mangá da Rosa de Versalhes, pois Christina foi a fonte de inspiração para Oscar.

A menina Christina.
Li algumas resenhas de The Girl King que não foram muito favoráveis.  Até concordo com algumas críticas, mas a maioria me pareceram má vontade.  O filme poderia ser mais longo, verdade, há questões que poderiam ser melhor desenvolvidas ao longo da película.  Não concordo com a representação de Christina como lésbica, por tudo que já li sobre ela, a protagonista estaria mais para bissexual, ou, como eu prefiro, seria um espírito livre mesmo.  Alguém que ama e ponto final, sem se preocupar com maiores questões.  

Ao transformarem Christina em lésbica, coisa que ninguém poderia ter certeza, eo romance com Ebba Sparre se torna central para a história e é narrado de forma delicada e, ao mesmo tempo, passional, só que a protagonista se apequena um pouco.  Especialmente quando, já no final do filme,  Ebba Sparre é  separada da Rainha e obrigada a se casar, Christina adoece de amor, tenta o suicídio e parece mesmo abraçar o catolicismo no meio de uma grande amargura coo uma espécie de compensação.  Esse dramão amoroso pode funcionar em um filme, mas roubou parte da força da personagem que é encarnada com firmeza por Malin Buska.  

Sparre precisa ir embora da corte.
Christina abdicou com somente 23 anos, mas, segundo as fontes de época, sua saúde estava se degradando rápido.  As pressões para se casar e a separação de Sparre poderiam ser motivo? Sim, mas o filme não presenta de forma clara o fato dela ser uma workaholic que trabalhava e estudava intensamente e dormia somente três a quatro noites por noite.  Isso, provavelmente, desde que se tornara rainha com 7 anos de idade.  Estudos, treinamento físico e, mais tarde, o exercício pessoal do poder tinham seu preço.  Curiosamente, depois de abdicar, a saúde de Christina melhora muito e ela vive bem até os 62 anos, sempre causando controvérsia, mas sendo protegida do papado, porque, bem, ela era um triunfo da Contrarreforma (*detesto a nova grafia...*) Católica.

O que eu mais amei no filme?  A semelhança de  Malin Buska com Oscar, a protagonista da Rosa de Versalhes.  A atriz, com o devido cabelo louro, seria excelente no papel.  E há uma sequência do filme na qual ela usa um figurino tão inapropriado quando os usados, às vezes, pela personagem de Riyoko Ikeda. Alguém já viu calças bocas de sino no século XVII?  Pois é, Christina aparece usando e Oscar usou em algumas cenas do mangá, que se passava no século XVIII.


Pantalonas.
Só que Christina, como monarca absoluta, se preocupa menos com os outros do que Oscar.  Ela ama intensamente, faz tudo, aliás, intensamente.  Algumas passagens interessantes do filme que ilustram bem isso são a do vestido azul e a da celebração do saque de Praga.  Tinta azul era algo muito caro, difícil de fixar ou feito com tintura importada.  Christina ganha de Oxenstierna pai (*ele diz que o presente é do filho*) vários vestidos.  O objetivo, e Christina debocha disso, é que ela precisa se preocupar com sua aparência.  Acostumadas com roupas masculinas, ela ri, se recusa, na verdade, a se tornar um objeto para o olhar masculino.  Pega o vestido mais bonito e dá de presente para Ebba, a quem ela olha com desejo.  É o vestido do quadro famoso da condessa.  Não sei se na realidade foi dado por Christina, ou se a seqüência tem algum fundo de verdade.

A outra cena, uma das mais sexualmente explícitas do filme, é quando o apaixonado Karl Gustav volta em triunfo e recebe uma festa, mas Christina não comparece.  Ela, na verdade, está vendo o espólio e se comemorando com Ebba.  As duas terminam transando e são flagradas por Karl Gustav e quase acontece uma tragédia.  Karl Gustav não é pintado como alguém que deseja o trono, mas como um homem apaixonado que deseja Christina.  Enquanto Ebba se encolhe, Christina enfrenta e não se intimida.  Não somente por ser rainha, mas por ser quem ela é.

Para quem não entendeu.  Livros são afrodisíacos.
Outras duas questões importantes do filme são o conflito religioso e a Guerra dos Trinta Anos, a mais destrutiva antes da I Guerra Mundial.  Para os suecos luteranos, qualquer contato com os católicos, para além das inevitáveis alianças de guerra, era algo absurdo.  Para Christina, no entanto, sua sede de conhecimento e de refinamento (*vide a cena da prataria e dos cristais*) não tinha barreiras.  O desejo de fazer a paz e suas estratégias militares arrojadas enraiveciam a nobreza e as autoridades religiosas que somente a percebiam como um útero, um interregno entre um grande rei e um outro que viria.  Há uma das cenas em que um nobre diz que o dever dela era ter um herdeiro e se morresse no parto, tanto melhor.  

Christina queria mais, queria conhecimento, queria viver a vida, e encontra no celibato uma saída, no catolicismo a acolhida para as suas inquietações.  Convidar Descartes é o começo, para alguém que desejava modernizar o país, tornar a Suécia um centro intelectual e cultural.  O saque de Praga com seus tesouros é outro dos momentos de glória da rainha, mas a resistência era grande.  Ela termina cedendo, não a sua liberdade, mas o trono.  E parte para o exílio em grande estilo.  Que o reino fique para o primo, Karl Gustav, que não tem do que reclamar, os frustrados são os Oxenstierna, que sonhavam controlar o trono.

O quadro.
Talvez, uma personagem como Christina merecesse mais, um filme ainda melhor.  E, sim, este filme foi melhor que o com Greta Garbo, porque Christina parece humana, uma leoa tentando sobreviver enjaulada e, não, um ícone.  No entanto, ainda está aquém da personagem, uma das três mulheres enterradas na Basílica de São Pedro, no Vaticano.  Ainda precisamos de um filme que considere a vida da Rainha depois da renúncia, seus conflitos, sua intensa vida intelectual (*e, talvez, amorosa*) e, não, que coloque o auge de sua vida no abandono do trono.  

De resto, o diretor e o roteiro deslizaram, porque, bem, no epílogo é dito que Christina morreu virgem.  Ora, bolas, o filme faz questão de pintá-la como lésbica e fortalecer a idéia de que tais relacionamentos eram menos escandalosos no século XVII para, no final, tornar tudo inócuo. Sexo lésbico não é sexo, então?  Christina só deixaria de ser virgem se tivesse relacionamento com um homem?  Coisa que não há no filme.  O roteiro confundiu celibato com virgindade?  Qual a necessidade da afirmativa?  Mas isso não estraga o filme, afinal, você pode terminar de assisti-lo e nem sequer olhar o epílogo em texto rolando na tela.


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2 pessoas comentaram:

Este comentário foi removido pelo autor.

Muito boa sua análise do filme! Fiquei com vontade de conferir e descobrir mais sobre essa figura histórica da qual ainda não tinha ouvido falar.
Você já assistiu a 'O Diário Secreto da Senhorita Anne Lister'? Adoraria ver a resenha desse filme no blog...

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