quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Comentando Austenland (2013)


Semana passada, exatamente na quinta-feira, fiz algo bem inusitado, assisti dois filmes em cadeia, Austenland e The Girl King.  Uma comédia romântica levinha e um drama histórico... Como estou muito ocupada esses dias, e semana que vem será pior, já que é aniversário da Júlia, acabei protelando as duas resenhas.  Antes que eu tenha que rever os filmes, melhor resenhar pelo menos um deles, não é?  O mais fácil, então, Austenland.

Austenland tem como protagonista uma norte americana de 30 e poucos anos chamada Jane Hayes (Keri Russell).  Embora o filme nada tenha a ver com Japão, não seria estranho chama-la de otaku, do tipo que poderia ser personagem de  Kuragehime (海月姫) sem problema algum.  Nossa protagonista é absolutamente fanática por Jane Austen em geral, Orgulho & Preconceito, em especial, e tem um apego excessivo pelo Mr. Darcy interpretado por Colin Firth.  Eu não a condeno por isso, aliás... 

Espartilhos, ou alguém pensou que seria fácil?
Enfim, a vida amorosa de Jane é um fiasco, suas perspectivas profissionais não são lá muito excitantes, então, a moça decide pegar suas economias e partir para a Inglaterra em sua viagem dos sonhos: três semanas em Austenland, um resort que reproduz o que seria a vida no mundo no qual foi publicado Orgulho & Preconceito, isto é, a segunda década do século XIX.

A melhor amiga de Jane é contra o projeto, mas ela parte feliz da vida para o seu sonho.  Chagando lá, tem contato com a dona do lugar, Mrs. Wattlesbrook (Jane Seymour), que lhe batiza de Miss Jane Erstwhile, lhe apresenta as austeras regras do resort (*qualquer quebra de etiqueta ou posse de objeto moderno pode significar a expulsão*), e lhe avisar que ela comprou o pacote “cobre”, isto é, sem direito a uma série de atividades de Austenland.   Jane também recebe sua personagem: a prima pobre e órfã que foi acolhida pela família.  Junto com ela chega outra americana, Miss Elizabeth Charming (Jennifer Coolidge), que comprou o pacote platinum e tem direito a tudo que o resort tem a oferecer.  Elas ficam amigas, o que não pode ser dito da outra hóspede do resort, a rica Lady Amelia Heartwright (Georgia King), que tem um marido velho e cadeirante e vai todos os anos passear em Austenlad.

O descamisado ali atrás é o Capitão... 
Com o tempo, somos apresentadas aos cavalheiros que frequentam o local, o Coronel Andrews (James Callis), Mr. Henry Nobley (JJ Feild) e o Capitão George East (Ricky Whittle).  Jane e Mr. Nobley, que faz o tipo Darcy, se estranham logo no início e Jane acaba se aproximando de Martin (Bret McKenzie), um funcionário do resort.  Depois de algumas decepções, Jane decide aproveitar ao máximo sua experiência, com a ajuda de Miss Charming, no entanto, ela não consegue distinguir direito o que de fato é realidade e fantasia no mundo de Austenland.

Enfim, estou com Austenland no meu HD desde 2014, acho.  Tentei assistir o filme umas duas vezes e desisti.  Os dez primeiros minutos, com Jane sendo apresentada como uma idiota, erem de dar nos nervos.  Não sei por qual motivo, mas imagino que as fotos lindas que volta e meia aparecem em grupos austenianos no Facebook e minha queda pelo JJ Feild tenham parte nisso, aproveitei minha última folga e engrenei Austenland depois de The Girl King.  Olha, passado o momento vergonha alheia inicial e desligando metade do cérebro o filme consegue, sim, ser bem divertido.  Eu sei, apesar de não ter terminado ainda o livro (*estou lendo*), já sei que a adaptação é inferior, mas quem disse que um filme precisa ser mais que diversão ligeira?

Jane é boa de tiro.  Detalhe no figurino marrom de prima órfã pobre.
Austenland é cheio de estereótipos, e não falo dos atores que trabalham no resort e incorporam tipos austenianos ideais (*se bem que não sei de onde sacaram o Capitão saradão, enfim...*), a começar pela protagonista, passando pelas outras personagens femininas, mas as coisas funcionam bem.  O elenco é competente e algumas piadas – a maioria delas, aliás – funcionam bem.  Tentar descobrir quem é inglês de verdade e se decepcionar com a descoberta dentro do filme é bem legal.  Agora, perderam a chance de fazer piada com o banheiro moderno, apesar das regras estritas de Austenland... 

A transformação de Jane, que passa por um processo de empoderamento adequado ao tipo de filme, sua capacidade de se ver como uma pessoa que pode ser feliz independente de uma companhia masculina, também é importante.  Ela passa a confiar em si mesma, em suas capacidades, ver-se como bela, enfim.  E, sim, isso não quer dizer que ela não fique com um dos moços, mas que ela precisa acertar-se consigo mesma primeiro.

Tinha que ter um baile, pelo menos um!
O figurino do filme, que pode ter sido aproveitado de outras produções, eu imagino, é muito bonito.  Os vestidos que Jane recebe ao chegar, não são, afinal, ela era a órfão acolhida, mas, depois que Miss Charming pega alguns “emprestado” da riquíssima Lady Amelia, ela fica.  A protagonista, Keri Russel, faz bem o papel de moça ingênua, porém decidida e com caráter, além disso, tem química tanto com JJ Feild, quanto com Bret McKenzie.  A idéia do criado, aliás, como par para a moça pobre é bem a cara da maquiavélica Mrs. Wattlesbrook, mas pouco tem a ver com Jane Austen.

De resto, Rupert Vansittart, que faz o marido de Mrs. Wattlesbrook, estava em Orgulho & Preconceito de 1995.  Ele era Mr. Hurst, marido de uma das irmãs de Mr. Bingley.  Assim como no seriado da BBC, ele passa boa parte do tempo bêbado e agindo de forma preguiçosa.  A diferença é que ele, na verdade, assediava as hóspedes, especialmente, imagino eu, as pobres como Jane.  Uma das coisas interessantes do filme – e não vou dar spoiler – é como a nova Jane, tão humilhada lá no início da película, age em relação a isso.  Falando em Mrs. Wattlesbrook, no filme, juntam duas personagens em uma só para que Jane Seymour fique mais tempo em cena.

Quem escolher?
JJ Feild já foi um austen boy antes, ele fez o fofinho Mr. Tilney, o mais bem resolvido das personagens masculinas de Austen, na minha opinião, em Northanger Abbey (2007).   Ele está muito bonito como Mr. Nobley e, bem, é fácil ficar bonito quando se é bonito e quando o figurino e a personagem ajudam.  Tudo convergia neste caso.   De resto, a personagem era professor de história antes de ir para Austenland.  É raro ver historiadores em tela sem passar vergonha, ainda que o fato dele ter esta profissão não tenha impacto algum no filme.

Austenland cumpre a Bechdel Rule?  Evidentemente.   Trata-se de um filme feminista?  Obviamente, não.  O filme é ofensivo?  Também, não, mas não espera nada mais que uma diversão ligeira, porque é somente isso mesmo.  Vejam o trailer e tomem a decisão, vencidos os dez primeiros minutos de filme, a gente consegue gostar dele.  De resto, o filme é dirigido por uma mulher, Jerusha Hess, e tem como produtoras também duas mulheres, Gina Mingacci e Stephenie Meyer.  Sim, ela mesma, a criadora da saga Crepúsculo.   Ufa!  É bom colocar em dia alguns filmes, não imaginam quantos outros estão aqui guardados para sabe-se lá quantas encarnações... 

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