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sábado, 19 de setembro de 2026

Comentando Coyote vs. Acme (EUA/2026): uma crítica às grandes corporações que quase foi vítima de uma delas

Por causa de toda a polêmica em torno do filme, fui com a minha filha assistir a Coyote vs. Acme no sábado passado.  Para quem não sabe do que estou falando, em 2023, a Warner Bros. decidiu arquivar e/ou destruir o filme sem lançá-lo nos cinemas ou no streaming e usar a legislação dos Estados Unidos para conseguir uma restituição de impostos.  Foi o que fizeram com o filme da Batgirl.  Só que houve muita gritaria, os profissionais e artistas envolvidos falaram publicamente sobre o tema e a Warner decidiu colocar preço no filme.  Ele custou 70 milhões de dólares e a Ketchup Entertainment adquiriu os direitos de distribuição por 50 milhões.  Deve lucrar muito mais que isso.  Mas vamos a um resumo do filme: 

Wile E. Coyote decide contratar um advogado azarado chamado Kevin Avery (Will Forte) para processar a Acme depois de seus repetidos planos de capturar o Papa-Léguas serem frustrados porque os produtos da empresa não funcionam direito.  Como ele é muito organizado, tem registro de tudo o que falhou, tem os produtos guardados e, ao ver um outdoor de um advogado, decide que irá processar a Acme pelos danos sofridos.  O advogado, que é especializado em violência contra os desenhos animados, assume o processo contra a Acme e pretende pedir uma pequena indenização e fazer um acordo, mas o Coyote quer ir até o fim. No entanto, Avery logo descobrirá que um antigo colega de faculdade é o chefe da equipe de advogados da Acme, Buddy Crane (John Cena).  Crane é extremamente bem-sucedido, tudo o que Avery não é, além de ser capaz de tudo.  

O caso do Coyote pode salvar ou destruir o escritório de Avery, porque lutar contra uma grande corporação é algo extremamente difícil, mas a situação se torna ainda pior quando Avery começa a desconfiar de que seu caso pode ser somente a ponta do iceberg e que isso pode colocar em risco a sua própria vida.  Conforme a investigação avança, Avery acaba mudando a sua atitude como profissional e estabelecendo um vínculo inesperado com o seu obsessivo cliente, que parece demasiado preocupado em saber quando o Papa-Léguas irá depor no tribunal.

Nascida em 1976, cresci vendo os desenhos da Looney Tunes. Eu sempre gostei mais do Pernalonga do que de Coyote e Papa-Léguas, pois era um desenho que me parecia extremamente repetitivo, mas continuava assistindo, porque a gente não tinha opção mesmo; estava na TV, a gente consumia no automático. Às vezes, ao mudar da Globo para a TVS (SBT), acabávamos vendo de novo o mesmo desenho, porque eles eram exibidos em ambos os canais simultaneamente e o mesmo valia para material da Disney ou Popeye.  Já adulta, ainda parei para ver Animaniacs, que deve ter sido o último resquício de criatividade da Looney Tunes; já o material mais recente me parece bem ruim.

Estabelecido isso, Coyote vs Acme é mais do que uma homenagem aos clássicos da Looney Tunes; não se trata de saudosismo somente.  O filme tem um roteiro consistente e boas atuações do elenco humano, pois se trata de um filme híbrido.  E isso torna ainda mais horrível a ideia da Warner de destruir a película.  Se o ponto de partida do filme é o Coyote e sua fixação pelo Papa-Léguas ao longo do filme, temos uma crítica aguda às grandes corporações e, inclusive, às experiências pouco éticas, com o intuito de tornar a vida do cidadão comum mais cômoda.  Quer dizer, o argumento das corporações passa pela instrumentalização desses discursos de desenvolvimento, progresso e um acesso maior à tecnologia, mas, no fim das contas, o objetivo é o lucro a qualquer custo, de preferência, o mais baixo possível para a empresa.

A Acme testa suas invenções em desenhos animados para criar produtos seguros para os seres humanos.  Esse argumento é o argumento usado pelo Frangolino, o CEO inescrupuloso da corporação.  Os humanos compram a ideia, porque faz sentido para eles, expondo sua falta de empatia.  Eu estou dando aula de Segunda Guerra neste momento e, em uma das minhas turmas, ao falar da Unidade 731, uma aluna ressaltou que não saberíamos de muitas coisas, como a porcentagem de água no corpo de um ser humano, sem os atrozes experimentos feitos pelos japoneses.  O mesmo vale para testes com animais.  Partimos do princípio de que os bichos existem para nos servir.  Então, quem se importa com seu sofrimento?  Mas será que não poderíamos chegar às mesmas descobertas e conclusões sem que tantos abusos e crueldades fossem praticados?  Essa discussão pesada está no filme, mas de uma forma acessível ao público infantil.

Outro aspecto é o da luta do cidadão comum contra as grandes corporações.  Esse tipo de drama acontece todos os dias e é muito típico dos Estados Unidos.  Avery está acostumado com as migalhas, os pequenos acordos; um confronto como o que o caso do Coyote desencadeia é algo que exige uma série de gastos e pode destruir a vida de um advogado, de um escritório pequeno e mesmo do sujeito que move a ação.  O cinema já falou disso várias vezes, mas nunca usando desenhos animados.  Nesse embate, um advogado como Avery, acomodado na sua mediocridade, acaba se inspirando na persistência do Coyote para repensar sua própria vida profissional.  Ele não precisa ser tão empolgado quanto sua assistente recém-formada (*e sobrinha*), Paige Avery (Lana Condor), mas pode ter uma atitude mais digna em relação à advocacia.

E o filme fala de amizade.  Daquela que nasce entre Avery e o Coyote a partir de uma relação que começa acidentada, cheia de desconfianças, mas que vai se aprofundando ao longo da película.  E daquela entre o Coyote e o Papa-Léguas, algo que produz uma cena engraçada e ao mesmo tempo singela já no final do filme.  Por qual motivo o Papa-Léguas está sempre se esbarrando com o Coyote?  Porque gosta dele, porque o vê como um companheiro no meio do deserto.  E o uso das placas para comunicação e do Código Morse foi genial.

O filme tem muitas referências a animadores e gente que teve papel importante na história da Looney Tunes.  Vários artigos falam sobre isso; eis um deles.  Também temos participação de vários personagens da Looney Tunes, alguns somente fazendo figuração, outros, como o Gaguinho, o Patolino, a Vovó e o Piu-Piu, com falas e alguma função no filme.  Já o Pernalonga, minha personagem favorita da Looney Tunes, tem papel importante na história, mas não vou detalhar, porque seria spoiler.  Aliás, senti falta de personagens dos Animaniacs do filme.  Talvez alguns estivessem lá e eu simplesmente não os vi.  E vocês também acham que o Frangolino do filme foi parcialmente inspirado no Trump?

Concluindo, fico muito feliz que a mobilização de atores, animadores e do público tenha conseguido, assim como no filme, vencer a grande corporação, porque o abuso da Warner, a ideia de destruir o filme, é o tipo de atitude autoritária que a Acme tem.  Ao assistir ao filme, é fácil associar o abuso da Warner ao da Acme no filme, assim como refletir sobre as ações das grandes empresas capitalistas.  E tudo isso acessível para as crianças se ofender a inteligência dos adultos.  Enfim, ainda bem que consegui assistir ao filme no cinema e queria ter ficado para ver a mensagem da equipe da produção, mas a Júlia ficou impaciente e eu tive que ir embora.  E me desculpem pelas poucas resenhas este ano.  Tenho várias pendências que espero resolver antes de dezembro.

terça-feira, 30 de junho de 2026

Shoujocast no Ar! E estreou a nova temporada de animes! ✨Lista dos shoujo, josei e BL você poderá assistir.✨


E começou a nova temporada de animes! E temos uma quantidade bem generosa de animes shoujo, josei e BL. Peço desculpa por alguma falha técnica. Eu gravei durante o primeiro tempo do jogo Brasil e Japão (29/06) e estava me dividindo entre duas coisas. 😬 Deveria ter separado o que é shoujo do que é josei, mas acabei não fazendo. No fim das contas, pensem que é material para o público feminino, com uma exceção... que não é tanta exceção assim.  Para a minutagem é preciso ir lá no Youtube.  Outra coisa, há um post com todos os resumos das séries.  Ele está aqui.

 

domingo, 31 de maio de 2026

RIP Hiroyuki Kawasaki (1965-2026)

Em 28 de maio, foi comunicado pela família que o roteirista Hiroyuki Kawasaki faleceu em 23 de janeiro.  Não é incomum que essas notícias de falecimento sejam retardadas pela família, imagino que para garantir certa privacidade durante os funerais.  Não sabemos a causa da morte e o roteirista só tinha 60 anos, o que, para um japonês, está longe de ser uma idade avançada.

Segundo a Wikipedia japonesa, Kawasaki decidiu ser roteirista quando estava no colegial e seguiu seus estudos na capital, matriculando-se na Departamento de Efeitos Especiais da Academia de Artes Visuais de Tokyo e teve Kuniaki Oshikawa e Takao Koyama como professores.  Mais tarde, em 1995, Kawasaki fundou a sua própria escola de roteiristas.  Hiroyuki Kawasaki participou em séries de mmuito destaque, como a primeira animação de Ranma 1/2 (らんま½0 e Yawara! (浦沢直樹), e trabalhou em vários animes shoujo e BL, tais como: Miracle☆Girls(ミラクル☆ガールズ), Ginyuu Mokushiroku Meine Liebe (吟遊黙示録 マイネリーベ), Jigoku Shoujo Futakomori (地獄少女 二籠), Jigoku Shoujo Mitsuganae (地獄少女 三鼎), Gravitation (グラビテーション), Earthian (アーシアン), Shin Shirayuki Hime Densetsu Pretear (新白雪姫伝説プリーティア), Momoiro Sisters (ももいろシスターズ) etc.

segunda-feira, 11 de maio de 2026

Anunciado o filme animado de Umi ga Hashiru Endroll

Umi ga Hashiru Endroll (海が走るエンドロール), elogiada e premiada série de John Tarachine, terá  umm filme animado, segundo anunciado hoje pelo Comic Natalie.  A série é muito elogiada e tem como protagonista uma idosa viúva que descobre sua paixão pelo cinema, não por assistir filmes, mas por ser cineasta.  E eu estranho muito que não tenham anunciado dorama ou filme live action ainda.  Até o momento, a série foi licenciada na Espanha e na França.

O filme animado tem estreia prevista para 2027.  A direção está a cargo de Taichi Ishidate, conhecido por seu trabalho em Violet Evergarden e CITY THE ANIMATION; já a produção do filme será realizada pelo estúdio Kyoto Animation.  Umi ga Hashiru Endroll terminou em novembro de 2025 e tem 9 volumes ao todo.  Eu esperava um filme live action, não um filme animado, mas acredito que outras adaptações desse mangá ainda virão.

sábado, 3 de janeiro de 2026

Todas as Resenhas de 2025: Filmes no Cinema e em Casa

Fui poucas vezes ao cinema e, pior, assisti poucos filmes em 2025.  Nem fiz a contagem, mas sei que meus números serão dos piores.  Nem tudo o que eu assisti foi resenhado, pelo menos de um filme eu me lembro, Caras Malvados 2, que eu assisti com Júlia.  Até  foi simpática a animação, mas acredito que não comentei mesmo.  E não fiz resenha da série Miss Austen, que foi a única série assistida no ano passado, e nem resenhei The ABCs of Book Banning,  comentei ambas no último Shoujocast, o da retrospectiva do ano. Wicked 2 foi assistido duas vezes, em casa e no cinema.  Deveria render um segundo texto. Enfim, segue a lista das resenhas que eu fiz este ano, para quem quiser  ler: 

No Cinema:

  1. Super-Homem.
  2. Wicked 2.
  3. O Agente Secreto.
  4. Branca de Neve.
  5. Minecraft.
  6. Zootopia 2.
  7. Elio.

Em Casa:

  1. Maria Antonieta (2006).
  2. Northanger Abbey (2007).
  3. Northanger Abbey (1987).
  4. Conclave.
  5. Anora.
  6. Jane Austen arruinou minha vida.
  7. É Tempo de Amar.
  8. Homem com H.
  9. Flow.
  10. Apocalipse nos Trópicos. (documentário)

Muito pouco mesmo.  Só fui oito vezes ao cinema.  Houve época em que eu ia semanalmente, às vezes, duas vezes por semana. E os textos também me parecem bem mais pobres do que em outros tempos.  Inferiores mesmo, salvo raras exceções. É bem triste isso, mas os números gerais são ruins como um todo por assim dizer, mas foi um ano complicado para mim e não deve melhorar este ano, não.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

2026: Feliz Ano do Cavalo de Fogo!

Hoje, começa o novo ano pelo calendário Gregoriano (*o nosso*), mas muitas mangá-kas estão postando ilustrações lembrando que estamos no ano do cavalo pelo horóscopo chinês e este ano é o do elemento fogo.  São cinco os elementos do Horóscopo Chinês: Madeira, Fogo, Terra, Metal e Água.   Por exemplo, eu sou dragão de fogo (1976).  O Ano Novo Chinês começa no dia 17 de fevereiro.  A ilustração que está no post é de Kazuki Irodori, autora do mangá da série Isekai no Sata wa Shachiku Shidai (異世界の沙汰は社畜次第) ou The Other World's Books Depend on the Bean Counter.  O anime da série estreia no dia 6 de janeiro, anotem aí.  

Agora, quando eu vejo "Ano do Cavalo de Fogo", só consigo lembrar da animação Cavalo de Fogo (Wildfire), que completa quarenta anos este ano, ele foi lançado em 1986.  Cavalo de Fogo foi exibido pelo SBT, como era comum em desenhos norte-americanos da época, foram somente 13 episódios.  Tratava-se de um isekai, com uma jovem princesa, chamada Sarah, sendo enviada para o nosso mundo como uma forma de protegê-la da vilã, Lady Diabolyn, depois da morte de sua mãe, a rainha de Dar-Shan.  Aos 13 anos, a garota recebia a visita do tal cavalo de fogo, que falava e era tão racional quanto os humanos.  Ele revela para a garota o seu passado e o seu destino, tornar-se rainha depois de derrotar a usurpadora.  Sarah e o cavalo atravessam de um mundo para outro.  O que Sarah nunca descobriu, se eu bem me recordo, é que seu pai em nosso mundo era seu pai biológico, porque ele mesmo tinha sido retirado de Dar-Shan para não ser morto.  Enfim, eu adorava cantar a música de abertura brasileira e ela ficou grudada na minha cabeça. Seria um excelente ano para um revival de Cavalo de Fogo, quem sabe até para terminar a série finalmente.


segunda-feira, 10 de novembro de 2025

Saiu mais um trailer de Isekai no Sata wa Shachiku Shidai

Isekai no Sata wa Shachiku Shidai (異世界の沙汰は社畜次第), ou The Other World's Books Depend on the Bean Counter, é uma série de novels de  Yatsuki Wakatsu, ilustrada por Kikka Ohashi, e que começaram a sair em 2018.  Já o mangá é publicado na revista B's-Log Comic (Enterbrain) e tem arte de Irodori Kazuki.  O anime foi anunciado alguns meses atrás e o primeiro trailer saiu em agosto deste ano.  Para quem não conhece a série, segue um resumo:

A série conta a história de Seiichirou Kondou, um salary man de 29 anos, auxiliar do gerente de contabilidade de uma grande empresa, que vive para trabalhar.  Ele é o que se chama no Japão de "shachiku" (社畜), "uma pessoa que trabalha duro por um salário baixo, é explorada por sua empresa, mas ainda é cegamente leal a ela". O jovem, que mora sozinho, um dia vê uma colegial sendo puxada para dentro de um buraco iluminado.  Ao tentar ajudá-la, ele é arrastado para outro mundo.  Sim, trata-se de um isekai.  A menina, Shiraishi Yua, deveria ocupar a posição de santa (*uma espécie de sacerdotisa*), nesse novo mundo.  Já Kondou, bem, ele não tem função nesse reino de fantasia, mas ninguém sabe como devolvê-lo.  

A pedido de Yua, ele acaba sendo colocado na contabilidade do palácio.  Resultado?  Um sujeito meticuloso e fanático por trabalho como Kondou, logo, domina a linguagem matemática do lugar e descobre que há um grande esquema de corrupção rolando e faz tempo!  Esquema esse que envolve gente poderosa e perigosa, claro!  Kondou não pode deixar que esse desvio de verbas continue, ganha apoio de um dos lordes do reino, mas vira alvo desses poderosos que estão roubando dinheiro público.  Para trabalhar mais e mais rápido, Kondou começa a consumir suplementos mágicos e acaba tomando uma overdose.  Ele acaba sendo salvo pelo capitão Indrak Aresh, que lhe pede permissão para curá-lo.  Para salvar Kondou, ele precisa retirar o excesso de mágica do corpo do sujeito e isso só pode ser feito se os dois ficarem nus e em contato pele a pele.  A partir daí, coisas acontecem.  Gosto bastante dessa série e eu espero conseguir acompanhar a animação.  O trailer está abaixo.  A data certa da estreia ainda não foi liberada.

sexta-feira, 3 de outubro de 2025

Série animada com personagem trans faz com que Netflix receba ataques, inclusive no Brasil

Dead End: Paranormal Park é uma série da Netflix que estreou em 16 de junho de 2022 e que foi cancelada em janeiro de 2023 contando com duas temporadas.  Continua no catálogo, mas é somente isso.  Segundo a Wikipedia, "A série acompanha Barney e Norma, os mais novos funcionários do parque temático local, Phoenix Parks, um parque no estilo Dollywood criado pela famosa celebridade Pauline Phoenix.  Acompanhados por Pugsley, o cachorro de infância de Barney, e Courtney, um demônio de mil anos, eles descobrem o mundo do Paranormal e também aprendem coisas novas sobre si mesmos."  O cachorro é um fantasma, enfim?  Nunca vi Júlia, minha filha de 11 anos, assistindo essa série.

Muito bem, AGORA, somente AGORA, o empresário e mega vilão, empresário e quase homem mais rico do mundo, Elon Musk, que está sumido desde que foi chutado do governo Trump, decidiu iniciar uma campanha contra a Netflix, estimulando o cancelamento de assinaturas e acusando a empresa de usar desenhos animados para colocar a "Agenda Woke", essa coisa que não existe, dentro das casas das famílias de bem.  Motivo?  Barney, o protagonista, é trans e gay.  Para Musk, o cancelamento deve ser feito, porque a Netflix dá  espaço para personagens LGBTQIAPN+ em suas produções.  Como ele é inteligente demais para ter descoberto isso somente agora, imagino que haja mais alguma coisa por trás desse interesse repentino.

Gente, a perseguição às pessoas trans é real, a tentativa de transformá-las em párias, em novos ciganos ou judeus ou XXX (*ou escolha qualquer minoria que tenha sido desumanizada, perseguida, privada de qualquer direito e até da vida*), ela não é uma cortina de fumaça.  Por outro lado, temos outros interesses na mesa, quando Trump anunciou que iria taxar em 100% qualquer produção cinematográfica (*e seriados, também, imagino*) feita fora dos EUA, na semana passada, e que eu não comentei ainda por aqui, as ações da empresa despencaram.  Agora, a ação de Musk em 1 de outubro jogou as ações da empresa ainda mais para baixo.  Certamente, há alguma estratégia econômica em andamento em conjunto com a perseguição às pessoas trans e qualquer material que as mostre como o que são, pessoas, seres humanos, como quaisquer outros.

Como desdobramento da campanha, Hamish Steele, o criador da série, se pronunciou acreditando que a coisa merecia umas boas risadas, afinal, a série está cancelada há tempo.  Só que, o bom humor do autor logo se deteriorou, pois ele passou a comentar que estava recebendo e-mails homofóbicos, antissemitas e ameaças de morte (*sugerindo que ele merecia receber uma morte semelhante à de Charlie Kirk ou que ele celebrou a morte do ativista cristão nacionalista de  extrema-direita*).  Por fim, Steele veio a público dizer que iria se retirar da internet por algum tempo pelo bem de sua saúde mental.

Muito bem, segue a tradução das postagens de Steele no Bluesky:  Primeira imagem: "Post 1: "Provavelmente este vai ser um dia muito estranho."; Post 2: "Elon Musk: Isso não é OK"; Post 3: "Libs of TikTok: "OMG ["Oh, meu Deus!"]. Dead End Paranormal Park, um programa na Netflix, está forçando pró-transgênero em CRIANÇAS.  Esse programa é anunciado para CRIANÇAS DE 7 ANOS.  Está sendo promovido agora no @netflix kids.  Pais – CUIDADO."" Segunda imagem: "Post 1: "Eu só vou dizer que hoje está muito, muito pior e eu basicamente vou ficar fora de cena por um tempo. Minhas desculpas."; Post 2: "Meus comentários no Instagram agora estão cheios de respostas dizendo que EU SOU O CHARLIE KIRK e que eu comemorei a morte dele (o que eu nunca fiz) e tudo em que consigo pensar é na Yvie Oddley gritando 'O QUE ISSO TEM A VER COM QUALQUER COISA?'"; Post 3: "Eu estive basicamente muito bem hoje e achei tudo até meio engraçado, enquanto realmente aprecio todos que me procuraram, mas os e-mails extremamente desagradáveis, homofóbicos e antissemitas começaram a aparecer e isso está ficando um pouco assustador, então peço desculpas se demorar mais para responder às coisas.""  

Só para constar, a animação é recomendada para maiores de 10 anos.  Eu fui checar.  E não pensem que a extrema-direita, por ser pró-Israel, não é antissemita; são coisas separadas e recomendo o último livro do Prof. Michel Gherman sobre o tema: O não judeu judeu: A tentativa de colonização do judaísmo pelo bolsonarismo.

Muito bem, aqui, no Brasil, no dia em que a isenção do IR para quem recebe até 5 mil reais foi aprovada por unanimidade, algo que é importantíssimo para a maioria das pessoas desse país (*e não somente para o governo atual*), Nikolas Ferreira foi para a internet não falar do que realmente importa e até lucar com isso, mas para apoiar essa campanha repulsiva.  Segundo esse adolescente de quase trinta anos, que eu espero ver pagando por pelo menos algum dos seus crimes antes que eu morra, foi mostrar para seus milhões de seguidores que cancelou sua assinatura da Netflix.  Essa é a agenda da extrema-direita twitteira, falar de tudo que não importa de verdade e alimentar pânico moral, porque eles não têm propostas para o Brasil real.

Dentro do cercadinho dos progressistas, a Crunchyroll também está sob ataque.  O Sugoi Lite, perfiil do Twitter que é muito importante, porque consegue antecipar os anúncios de animação, fez uma série de postagens apontando que a Netflix estaria migrando de um programa de legendagem de código aberto para outro que é israelensse: "A maioria da equipe de legendagem da CR utilizava o Aegisub, um software de fonte aberta (OSS), mas recentemente houve várias mudanças. Agora, todos foram forçados a abandoná-lo e migrar para um software baseado em nuvem. Chamado de "OOONA", é um software totalmente israelense. Muitos funcionários ficaram muito chateados com a decisão.".  Não achei muito mais do que isso, mas deve haver coisa em português por aí.  Fora, claro, que o pessoal está falando em cancelar a Crunchyroll em protesto e "voltar" para a pirataria.  Houve, também, quem apontasse que isso é coisa velha.  É isso.  A gente não morre de tédio nesse mundo, mas eu preferia não ter que ler essas coisas, não.

segunda-feira, 7 de julho de 2025

MFINDA: o primeiro afro-anime une Japão, Congo e o patrocínio de Viola Davis

Vários sites noticiaram (Mundo Negro, Literalle, Jornal do RAP, Hollywood Reporter, Variety etc.) que, este ano (*acredito*),  será lançado MFINDA, o primeiro afro-anime (Afrime).  Segundo o Hollywood Reporter, a "JuVee Productions, produtora liderada por Viola Davis e Julius Tennon, está se expandindo para a animação com uma parceria que permitirá à produtora Woman King produzir uma série de filmes de anime afro. A JuVee está em parceria com a N LITE, uma empresa de mídia e estúdio de anime liderado por negros e japoneses, para produzir filmes de animação que se concentrarão em histórias negras e afro-indígenas."  E a ideia é produzir uma série de filmes, não somente um. 

Mfinda e uma floresta mítica dentro das tradições religiosas congolesas e, no filme, uma menina de 12 anos é transportada para lá.  Odi é o nome da menina e ela vive na década de 1970, um momento muito difícil, marcado por instabilidade e violência, na República Democrática do Congo (Ex-Zaire, Ex-Congo Belga).  Lá, ela se junta a outra menina e embarca em uma jornada para encontrar a mágica Nkisi, na esperança de encontrar o caminho de volta para casa.

O filme foi anunciado pela primeira vez no Festival de Cinema de Animação de Annecy, em 2023.  Eu não tinha visto, mas, mês passado, voltaram a falar dele e apareceram as primeiras imagens promocionais.  Olhando o pouco que já apareceu, lembra visualmente a Ghibli.  Quero ver como vai ser o resultado.  Espero que seja lançado ainda este ano, mas nem trailer temos ainda.  Os japoneses envolvidos na produção e que tiveram seus nomes revelados são como Gisaburou Sugii (diretor de “Street Fighter II”) e Masao Maruyama (fundador do estúdio Madhouse).

domingo, 29 de junho de 2025

Comentando Elio: Um filme não precisa ser revolucionário para ser bom

Ontem, assisti Elio, novo filme da Disney-Pixar com a minha filha de 11 anos.  Sala vazia, somente nós duas, em um dos shoppings mais importantes de Brasília.  Considero uma grande injustiça.  Elio é um filme muito sensível, muito mesmo. Sabendo que ele foi refeito, que o conceito original foi alterado, me admira muito que tenha terminado saindo tão arrumadinho com a produção acidentada que teve. Infelizmente, a Disney não investiu na promoção de Elio e, agora, vem essa história de que foi a pior estreia da Pixar em todos os tempos. Senti falta do curta na abertura, também. Segue o resumo do filme, continuo depois. 

Elio é um menino de 11 anos que mora com sua tia, a Major Olga, em uma base militar norte-americana.  Ele perdeu os pais, não sabemos se meses ou anos antes, e seu estado de luto o mantém alienado do mundo.  Ele não tem amigos e acredita que sua tia não o quer, que ele atrapalha sua vida.  De fato, Olga abriu mão de um sonho, integrar o programa de treinamento de astronautas para cuidar do sobrinho, mas ela acolhe Elio e o ama, apesar de ter, sim, que lidar com sua frustração.  Um dia, depois de entrar em uma exposição fechada sobre a sonda Voyager 1, ele decide que quer ser abduzido e vai fazer o possível para conseguir, o que, efetivamente, acontece.  A partir daí, Elio consegue aprender o valor da amizade, da família e tem que fazer escolhas que podem mudar o destino de muitos seres.  

Elio é uma história de amadurecimento (*coming of age*) na qual um menino deixa de ser uma criança e passa a ser outra coisa, ainda não um homem, mas alguém que tem consciência de que precisa assumir responsabilidades, diante do mundo, do universo até, e das pessoas que ele ama e o amam.  Você já viu essa história muitas vezes, muitas, de forma bem e mal contada. Em Elio, temos uma história bem contada, a relação entre a tia e o sobrinho é crível.  Uma mulher que vive para o seu trabalho e que de repente, recebe uma criança que está perdida, porque as duas referências emocionais, o pai e a mãe, foram perdidas.  Ela não tem experiência, ela precisa amadurecer, também, e o faz, mas sem abrir mão de sus personalidade, ainda que tenha que rever seus objetivos de vida.

Já o menino, sofre por se achar um peso.  Elio quer amigos, mas não sabe que quer.  Se sente um alienígena em uma base militar.  Ao que parece, essa parte, do crescer em uma base, ou trocando de base para base, sem criar raízes, foi a experiência vivida por Adrian Molina e que ele quis colocar dentro do filme.  Quando é abduzido, pelo menos na versão do filme, Elio parece estar em um sonho no qual é importante, amado, feliz, onde não sofre bullying e não precisa se esforçar para se enquadrar.  Houve um momento que eu imaginei que Elio seria TEA, alguém dentro do Espectro Autista, mas o filme não enveredou por aí.  E, nesse novo mundo, ele faz um amigo, Gordon, uma criança como ele e que tem problemas para se relacionar com o pai.

Ainda que todos os aliens pareçam muito humanos em seus comportamentos e dramas, Elio traz aliens com aspecto muito variado, coisa rara de ser em filmes.  Gordon poderia ser transformado em um alien humanoide como a maioria que vemos por aí, mas ele parece um verme e poderia ser visto como um monstro.  Mensagem clara temos aqui, o exterior é só o exterior.  Elio e Gordon são duas crianças solitárias,, com problemas familiares e vão formar um elo muito forte.  Gordon quer agradar ao pai, ele pertence a uma raça guerreira e conquistadora, mas ele tem alma de artista.

Esses dramas super comuns, mas humanos, vividos por gerações de seres em diferentes culturas e com desdobramentos dos mais diversos conseguem dialogar bem com a audiência.  E Elio parece apelativo, é porque, talvez, muita gente esteja em busca de emoções incomuns e extremas que um filme com enfoque familiar, naquele sentido mais genuíno se proponha a entregar.  Elio não é um Toy Story 3, por exemplo, uma sequência impecável e que nos comove em sua sequência final, mas eu quase chorei assistindo ao filme.  Talvez, influenciada, também, pelo fato de ser a minha primeira ida ao cinema depois da cirurgia de catarata e conseguir ver os pelinhos nos braços de Elio e no corpinho de Gordon.  Estar vendo com clareza me a valorizar essas pequenas coisas.

A única parte do filme que não me agradou, talvez por ser absurda e longa demais, foi a dos rádio amadores e dos detritos no espaço.  E achei o figurino pobre.  Olga é militar, mas ela está usando uniforme o tempo inteiro.  Militares usam roupas civis quando estão fora de serviço, quando estão em casa e isso mesmo quando moram em bases.  Escolha meio preguiçosa, eu diria.

Outra coisa, Elio é cheio de referências a filmes de terror, reconheci umas três (*a de Alien foi muito evidente*), mas imagino que havia mais algumas, só que terror não é meu gênero favorito.  Há uma sequência que é clara homenagem ao voo de Luke Skywalker antes de destruir a Estrela da Morte.  Curioso que eu tenha visto poucos comentários, ou nenhum, sobre essas cenas homenagem nas críticas que olhei.  A maioria só faz acusar Elio de ser emocionalmente apelativo e de não revolucionar em nada.  

Todos os sites que comentaram a produção isso desde antes da estreia, enfatizam que o primeiro trailer, lançado dois anos atrás é muito diferente do atual.  Assisti aos dois, um é mais sombrio, o outro muito solar e colorido.  Um dos responsáveis por Elio, Adrian Molina, foi deslocado para Viva: A Vida é uma Festa! 2 (2029).  Elio tinha tudo para dar errado, mas é um filme coerente e que entrega o que se propõe a fazer.  É revolucionário? Não, absolutamente, não.  Mas será que é preciso que todo filme seja revolucionário?  Será que os críticos não estão cobrando demais?  Elio me tocou muito mais que Divertidamente 2, que não precisava existir como filme para o cinema, e mais, ser um filme novo já é revolucionário em tempos de sequências e franquias vazias de significado para além do financeiro.

O filme não cumpre a Bechdel Rule, ou a cumpre raspando.  Há mulheres militares, mas não lembro se elas têm nome, ainda que conversem sobre temas diversos, como suas carreiras.  E Elio é um filme sobre sobre o crescimento de um menino, além de ser um filme que celebra a importância família, que não é tão convencional assim, e da amizade. Bem tradicional em suas mensagens, é verdade, mas que é sincero naquilo que deseja transmitir.  Reforço que nenhum estúdio tem o dever de revolucionar a cada novo filme e que a Disney colaborou para que Elio não tivesse a atenção necessária, os esforços em propaganda estavam em outro lugar, não em um filme original.  Espero que o reconhecimento venha no streaming, porque Elio é um filme que merece ser assistido.

quarta-feira, 5 de março de 2025

Quais os animes com gatos mais amados pelos japoneses?

Acredito que por causa do dia do gato no Japão, 22 de fevereiro,  Gooranking fez uma pesquisa para saber qual é o anime com gatos favorito dos japoneses.  Mesmo para os padrões do site, foram poucos votantes, somente 368.  Então, fiquei somente com os 10 primeiros.  Há vários conhecidos nossos no topo do ranking, entre eles, o desenho animado Tom & Jerry, porque, sim, para os japoneses é anime, também.  E temos, claro, Sailor Moon e Natsume Yuujinchou, dois shoujo.

1. Ramen Aka Neko - 80 votos
2. Neko no Ongaeshi (O Reino dos Gatos) - 66 votos
3. Majo no Takkyuubin (O Serviço de Entregas da Kiki) - 51 votos
4. Tom & Jerry - 41 votos
5. Natsume Yuujinchou - 27 votos
6. Chiikawa - 24 votos
7. Dekiru Neko wa Kyou mo Yuuutsu - 22 votos
8. Tonari no Totoro (Meu Vizinho Totoro) - 12 votos
9. What's Michael? - 11 votos
10. Sailor Moon - 10 votos

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2025

Comentando Flow (Letônia/2024): Um filme muito simpático com forte influência do Estúdio Ghibli

Sábado, assisti Flow (Straume), uma das animações sensação do ano de 2024.  O filme produzido com recursos limitados, foi o primeiro da Letônia a ser indicado ao Oscar (*na verdade, dois*) e levou o Globo de Ouro de Melhor Animação.  Além disso, o filme atraiu curiosidade por ser completamente renderizado no software de código aberto Blender e não conter nenhum diálogo, utilizando somente os barulhos dos animais.  Como foi revelado que Flow (*esse acabou se tornando seu nome*) foi dublado por uma gata laranja, usarei o feminino para me referir à personagem na minha resenha.

Flow se passa em um lugar indefinido que parece ser o nosso mundo.  Não há humanos e a gatinha cinza escuro Flow parece manter uma rotina de visitar a floresta em busca de alimentos e retornar para a casa onde viveu com seu humano, que parecia ser um escultor obcecado por gatos.  Um dia, a água começa a subir muito rápido.  Para se salvar, Flow tem que vencer seu medo d'água e acaba se juntando a um grupo de animais muito peculiar (*uma capivara gentil, um labrador que parece um tanto deslocado de sua matilha de cães violentos e traiçoeiros, um lêmure que coleciona coisas "bonitas" e uma ave secretária que foi expulsa de seu bando por defender a gatinha*).  Eles não tem um destino certo, seu único desejo é sobreviver.

Flow é um filme simpático e que consegue colocar em tela bichos se comportando como bichos boa parte do tempo, porque, sim, há alguns breves momentos em que seus comportamentos acabam sendo excepcionais, por assim dizer.  Vínculos entre animais de diferentes espécies não são incomuns, eles também podem demonstrar piedade, tristeza e outros sentimentos que muitos julgam serem humanos, mas não são. Agora, animais não pilotam barcos, não de forma consciente, como no filme.  Olhando o grupo improvável de animais, eles formam uma espécie de Exército de Brancaleone no qual um grupo de solitários e/ou rejeitados precisam sobreviver, neste caso à água que parece que vai continuar subindo indefinidamente. Há também uma espécie de monstro marinho que parece uma baleia que, ao aparecer de tempos em tempos, salva Flow e chega a ajudar o bando de animais quando seu barco encalha.

Não sabemos em que lugar a história se passa, não sabemos onde estão os humanos, ainda que seja evidente que o humano de Flow, sumiu faz pouco.  Flow, a gatinha, tem um grande medo, a água e ela precisa não somente sobreviver a ela, mas aprender a tirar dela seu sustento. Na fuga desesperada, ela faz aliados que se tornam amigos. É preciso aprender a tolerar um cachorro emocionado, a entender a simpática e taciturna capivara, a não entrar em conflito com o lêmure. Já ave secretária estabelece um vínculo especial com a protagonista.  O pássaro termina expulso do bando por ajudar a felina.

A não ser que tenhamos um zoológico por perto, não estamos na Europa (Letônia). Só que as aves secretárias estão em bando e ele é grande. São pássaros africanos  e não são migratórios. E temos bananeiras, também. E um montão de lêmures, que são de Madagascar. Enfim, o lugar não importa muito no filme. Os cenários são muito bonitos e certamente parcialmente inspirados em lugares que existem de fato. 

Se tivesse que apontar um problema, achei muito abrupta a descida da água, muito mesmo. Quando começa a enchente, há momentos em que a água sobe mais rápido, ou mais devagar, mas quando ela desce é muito, muito rápido mesmo.  Antes do final e da água descer, há um momento meio místico.  Não sei se é magia, se são extraterrestres, ou o que seja. Já a baleia tinha muitas nadadeiras e  parecia mais um ser de outro mundo.  Talvez essa baleia estranha tenha uma ligação com o evento místico que uniu Flow e a ave secretária.  

Fora a baleia, todos os animais, que foram animados à mão, são fruto de longas horas estudando a sua versão real e seus sons são de animais reais. Somente a capivara recebeu sons de outro animal, nesse caso, um camelo filhote.  Segundo o diretor, o som real da capivara era muito agudo e não combinava com a personagem do filme. E os bichos se comportam mesmo como os verdadeiros, os movimentos do gato são iguais aos dos meus gatos e o cachorro parece com o meu Meteoro, só que mais emocionado que ele, por assim dizer.

O diretor e corroteirista de Flow, Gints Zilbalodis, mantém uma conta no Instagram, em inglês, na qual comenta sobre o filme e sua trajetória.  Inclusive, foi o diretor que informou que a gata não tinha nome, mas como todo mundo a estava chamando de Flow, esse acabou sendo o seu nome. E é preciso esclarecer que o filme é uma coprodução  com a França e a Bélgica.  Mas foi inscrito somente pela Letônia no Oscar, eu imagino, afinal, o filme francês é Emilia Perez.  E há  uma pequena cena pós-crédito, pequenininha mesmo.

O final do filme é bem "não Disney", talvez melancólico demais, e ao longo de toda a película é evidente a forte influência do material do Estúdio Ghibli, inclusive a sua linda trilha sonora. É um filme barato e que foi muito feliz na sua execução.  Melhor que Divertidamente 2, com certeza, e mais corajoso que o belo Robô Selvagem. Estou torcendo por Flow em melhor animação e acredito que ele não é concorrente real em melhor filme estrangeiro, categoria no qual compete com o filme brasileiro Ainda Estou Aqui.  Com certeza, Flow é um grande orgulho para a Letônia e um presente para os amantes de gatos. Queria uma estátua do Flow na minha estante, porque a gatinha é muito fofa.

domingo, 6 de outubro de 2024

Comentando Placa Mãe (Brasil/2024): Primeiro longa de animação mineiro é interessante, mas senti falta de ouvir o mineirês sendo falado.

Ontem, assisti com a Júlia o filme de animação brasileiro Placa Mãe (site oficial/IMDB).  Na verdade, ele é vendido como o primeiro sci-fi mineiro, ou do centro-oeste de Minas, porque o filme foi feito e se passa em Divinópolis. O diretor, Igor Bastos, é o mais jovem brasileiro a dirigir um longa de animação e está sendo chamado de "Walt Disney da Roça". Placa mãe mostra um Brasil do futuro, que mantém suas terríveis desigualdades sociais.  A história é a seguinte:

Nadi é uma androide que pertence a uma elite dentro dos robôs: ela tem cidadania.  Seu trabalho é conseguir adoções para robôs descartados e ultrapassados.  Ela e seu pai-criador, o cientista Theon, consertam os robôs e os vendem em uma feira que fica entre a área pobre da cidade e um imenso lixão.  Um dia, Nadi conhece duas crianças órfãs (*Lina e David*) e descobre que deseja adotar os dois, porque  as probabilidades de que a menina e o menino, que são irmãos, sejam acolhidos juntos é mínima.  

Nadi seria o primeiro androide a se tornar mãe-adotante e o caso chama a atenção de um candidato a reeleição para o Senado chamado Asafe.  Esse sujeito tem como sua plataforma a defesa da família e da humanidade.  Ele decide usar o caso de Nadi para aumentar suas chances de reeleição e, ao mesmo tempo, barrar o avanço dos direitos dos robôs que, para ele, deveriam ser meros escravos.  Nadi conseguirá adotar as duas crianças?  Se ela falhar como mãe, são seus próprios direitos de cidadania que estarão em jogo.

Muito bem, usando esse mundo futurista, o filme discute adoção tardia, porque as crianças, Lina, de 7 anos e David, de 11 anos, cada vez têm menos chances de serem adotados, ainda mais, juntos.  Há candidatos para adotarem Lina, mas David ficaria para trás.  Outro tema, é o das famílias não-tradicionais.  Nadi é um androide, mas poderia ser uma mulher trans.  Políticos como Asafe estão pouco se importando com o futuro de Lina e David, tampouco, tem uma agenda pró-família tradicional, eles querem manter seus privilégios e só.

O filme é bom?  Sim, é.  A história geral é coerente, as personagens são simpáticas.  Há a mistura de animação 2D com outros estilos como stop motion, quando Nadi conta histórias para as crianças.  O tema da família não é somente sangue, mas é quem a gente ama e escolhe é muito bem encaminhado.  Nadi, quando enfrenta crises com David, é levada a compreender que Theon, que nunca teve filhos biológicos, que, como ele mesmo diz, se dedicou à ciência, sempre a viu como uma filha, especial, entre todos os robôs que criou.

As discussões sobre exploração dos robôs, os limites da humanidade são bem encaminhados, também.  Quando David foge de casa, e isso está no trailer, ele encontra com duas crianças na rua que debocham da sua condição de filho de robô.  Robôs não podem ser mães, nem pais.  O menino diz algo como "Um robô não pode decidir ser algo diferente do que é, não pode ser mãe.  Mas, de repente, eu chego em casa e começo a chamar minha geladeira de mãe."  Escolher o que se é, trata-se de um argumento muito comum entre as pessoas que são contra os direitos dos LGBTQIAPN+.  Só que se trata de um robô.

Aliás, essa discussão, foi antecipada em Jornada nas Estrelas - A Nova Geração.  Data, o androide que era oficial de Enterprise D, tinha sido admitido na Frota Estelar, mas terá os seus direitos de cidadania questionados o tempo inteiro nas primeiras temporadas.  O primeiro a colocar isso em evidência foi o episódio The Measure Of A Man (S02/E09), quando a capacidade de consciência de Data é questionada por um cientista que deseja desmontá-lo e investigar seu sistema.  

O outro é The Offspring (S03/E13), no qual Data constrói um/a filho/a e lhe permite que escolha sua identidade de gênero (*antes disso ser uma discussão*).  Lal decide que quer ser uma menina, mas eis que volta o mesmo cientista para tentar se apossar da criança.  Data resiste, o Capitão Picard o apoia, mas Lal acaba desenvolvendo consciência e sentimentos de forma muito acelerada por causa da pressão e apresente defeitos que são incontornáveis.  Lal morre.  Se você nunca assistiu esses episódios, eu recomendo muito.  Não conheço os envolvidos na produção de Placa Mãe, mas desconfio que eles possam ter dialogado com STNG.  

A trilha sonora também é um destaque do filme.  Há músicas bem tradicionais, outras mais modernas e uma versão em inglês de Erva Venenosa, que eu, um zero à esquerda em música, achava que era da Rita Lee.  Mas Erva Venenosa é que é uma versão.  Enfim, a música Poison Ivy é o tema do vilão e cantada por um homem.  Aliás, o vilão é a cara do Marco Feliciano, mas não o atual com barbinha bem cortada, topete e demonização facial, mas aquele mais pobrinho, que alisava o cabelo de alguns anos atrás. 

Vamos aos problemas que vi em Placa Mãe e que não comprometem, quero ressaltar, a possibilidade de se gostar do filme.  O orfanato fica em um lixão, apontando o baixo status dos órfãos naquela sociedade do futuro.  A diretora do orfanato é uma megera.  Mas juntar lixão, órfãos e uma velha estranha é se remeter à Avenida Brasil, a novela de maior sucesso deste século da rede Globo.  Na novela, Mãe Lucinda não é má, só é ambígua, mas a menina protagonista é Nina, no filme, a menininha é Lina.   O orfanato é mal explicado, só são mostradas duas crianças. 

Lá no início um casal de americanos tenta levar Lina.  Eles pagam pela menina.  Muito provavelmente, a ideia era que ninguém sentiria falta da criança órfã, negra e pobre.  Mas quem eram aquelas pessoas?  Eles não pareciam querer uma filha.  Pensei em tráfico de órgãos.  Toda a participação desse casal ficou estranha, mas foi o detonador do encontro entre Nadi e as crianças.

Outro ponto, no filme se fala de Brasil, então, continuamos tendo uma unidade, não é Bacurau.  Agora, o que o Senado da República, que parece misturar Senado e STF, estaria fazendo em Divinópolis?  Não se explica.  E, bem, há uma questão importante, se fala pouco mineirês no filme.  Há um influenciador digital que defende Nadi e ataca Asafe que tem sotaque, mas não fala um "trem" sequer.  Já David parece não ter sotaque mineiro, mas do meio do filme para lá, ele passa a ter.  Só que ele só fala "trem" uma única vez.  Ora, os dubladores principais são vozes conhecidas.  Temos sotaques paulistas, cariocas, mas a propaganda do filme fala que usaram gente do local para dublar as crianças.  Só se forem os dois que atacam David na rua.

Outro ponto importante, o filme perdeu a chance de recompensar o minion do vilão.  Ele é um marginal, porque não teve opção, ele é chantageado pelo vilão, que ameaça mandá-lo para a cadeia, ele perdeu a família em um acidente de barragem (*Mariana e Brumadinho referenciados*).  No fim, ele acaba optando por ajudar David e, não, matá-lo como o vilão queria.  Ora, nada mais justo do que ajudar esse sujeito, mas o filme o larga só.  Ele começa e termina o filme no desespero.  Não foi justo.  E os robôs do cara, que ajudam David nem são mostrados no fim.  Pensei que seriam acolhidos por Nadi e Theon.

Por fim, o desfecho da história de Nadi, das crianças e Theon teve um apelo emocional muito grande, tudo termina bonitinho, mas acho que erraram ali.  Não posso comentar, porque é spoiler, mas acredito que a opção que juntou Asafe usando o Senado para confiscar a cidadania de Nadi foi mal encaminhado.  

Gostei do filme, sim, mas com essas ressalvas.  A meu ver, foi uma iniciativa muito boa.  E, importante, a discussão não é sobre MATERNIDADE, mas sobre FAMÍLIA mesmo.  E, ainda que menos central na trama, CIDADANIA, aquelas coisas básicas que abrem a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão (1789): "Artigo I – Os homens nascem e permanecem livres e iguais em direitos. As distinções sociais só podem ser fundadas no bem comum.".  Ou da Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948): "Artigo 1: Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos. São dotados de razão e consciência e devem agir em relação uns aos outros com espírito de fraternidade."  

Só que valendo para robôs, androides e humanos que, em uma ordem capitalista, podem não ter valor algum.  Algo que Nadi chega a dizer em algum momento se referindo ao Brasil, especificamente.  Falei em capitalismo, claro, mas o filme nao aprofunda essa discussão, que fique claro.  É só algo que está no filme, caso a pessoa queira ver.

Terminando, assisti ao filme com a Júlia em uma sala vazia.  Somente nós duas.  Há outra animação brasileira em cartaz, além de Transformers.  Placa Mãe está em cartaz em vários cinemas de Brasília, em uma única sessão, a primeira, mas quem sabe que esse filme está passando?  Parece que, nos últimos tempos, a programação está super fragmentada.  Mesmo um arrasa-quarteirão como Coringa 2 não está monopolizando salas.  Não sei se isso é lucrativo.  Acredito que esse tipo de arrumação tenha que ser repensada pelo bem das salas de exibição.