Por causa de toda a polêmica em torno do filme, fui com a minha filha assistir a Coyote vs. Acme no sábado passado. Para quem não sabe do que estou falando, em 2023, a Warner Bros. decidiu arquivar e/ou destruir o filme sem lançá-lo nos cinemas ou no streaming e usar a legislação dos Estados Unidos para conseguir uma restituição de impostos. Foi o que fizeram com o filme da Batgirl. Só que houve muita gritaria, os profissionais e artistas envolvidos falaram publicamente sobre o tema e a Warner decidiu colocar preço no filme. Ele custou 70 milhões de dólares e a Ketchup Entertainment adquiriu os direitos de distribuição por 50 milhões. Deve lucrar muito mais que isso. Mas vamos a um resumo do filme:
Wile E. Coyote decide contratar um advogado azarado chamado Kevin Avery (Will Forte) para processar a Acme depois de seus repetidos planos de capturar o Papa-Léguas serem frustrados porque os produtos da empresa não funcionam direito. Como ele é muito organizado, tem registro de tudo o que falhou, tem os produtos guardados e, ao ver um outdoor de um advogado, decide que irá processar a Acme pelos danos sofridos. O advogado, que é especializado em violência contra os desenhos animados, assume o processo contra a Acme e pretende pedir uma pequena indenização e fazer um acordo, mas o Coyote quer ir até o fim. No entanto, Avery logo descobrirá que um antigo colega de faculdade é o chefe da equipe de advogados da Acme, Buddy Crane (John Cena). Crane é extremamente bem-sucedido, tudo o que Avery não é, além de ser capaz de tudo.
O caso do Coyote pode salvar ou destruir o escritório de Avery, porque lutar contra uma grande corporação é algo extremamente difícil, mas a situação se torna ainda pior quando Avery começa a desconfiar de que seu caso pode ser somente a ponta do iceberg e que isso pode colocar em risco a sua própria vida. Conforme a investigação avança, Avery acaba mudando a sua atitude como profissional e estabelecendo um vínculo inesperado com o seu obsessivo cliente, que parece demasiado preocupado em saber quando o Papa-Léguas irá depor no tribunal.
Nascida em 1976, cresci vendo os desenhos da Looney Tunes. Eu sempre gostei mais do Pernalonga do que de Coyote e Papa-Léguas, pois era um desenho que me parecia extremamente repetitivo, mas continuava assistindo, porque a gente não tinha opção mesmo; estava na TV, a gente consumia no automático. Às vezes, ao mudar da Globo para a TVS (SBT), acabávamos vendo de novo o mesmo desenho, porque eles eram exibidos em ambos os canais simultaneamente e o mesmo valia para material da Disney ou Popeye. Já adulta, ainda parei para ver Animaniacs, que deve ter sido o último resquício de criatividade da Looney Tunes; já o material mais recente me parece bem ruim.
Estabelecido isso, Coyote vs Acme é mais do que uma homenagem aos clássicos da Looney Tunes; não se trata de saudosismo somente. O filme tem um roteiro consistente e boas atuações do elenco humano, pois se trata de um filme híbrido. E isso torna ainda mais horrível a ideia da Warner de destruir a película. Se o ponto de partida do filme é o Coyote e sua fixação pelo Papa-Léguas ao longo do filme, temos uma crítica aguda às grandes corporações e, inclusive, às experiências pouco éticas, com o intuito de tornar a vida do cidadão comum mais cômoda. Quer dizer, o argumento das corporações passa pela instrumentalização desses discursos de desenvolvimento, progresso e um acesso maior à tecnologia, mas, no fim das contas, o objetivo é o lucro a qualquer custo, de preferência, o mais baixo possível para a empresa.
A Acme testa suas invenções em desenhos animados para criar produtos seguros para os seres humanos. Esse argumento é o argumento usado pelo Frangolino, o CEO inescrupuloso da corporação. Os humanos compram a ideia, porque faz sentido para eles, expondo sua falta de empatia. Eu estou dando aula de Segunda Guerra neste momento e, em uma das minhas turmas, ao falar da Unidade 731, uma aluna ressaltou que não saberíamos de muitas coisas, como a porcentagem de água no corpo de um ser humano, sem os atrozes experimentos feitos pelos japoneses. O mesmo vale para testes com animais. Partimos do princípio de que os bichos existem para nos servir. Então, quem se importa com seu sofrimento? Mas será que não poderíamos chegar às mesmas descobertas e conclusões sem que tantos abusos e crueldades fossem praticados? Essa discussão pesada está no filme, mas de uma forma acessível ao público infantil.
Outro aspecto é o da luta do cidadão comum contra as grandes corporações. Esse tipo de drama acontece todos os dias e é muito típico dos Estados Unidos. Avery está acostumado com as migalhas, os pequenos acordos; um confronto como o que o caso do Coyote desencadeia é algo que exige uma série de gastos e pode destruir a vida de um advogado, de um escritório pequeno e mesmo do sujeito que move a ação. O cinema já falou disso várias vezes, mas nunca usando desenhos animados. Nesse embate, um advogado como Avery, acomodado na sua mediocridade, acaba se inspirando na persistência do Coyote para repensar sua própria vida profissional. Ele não precisa ser tão empolgado quanto sua assistente recém-formada (*e sobrinha*), Paige Avery (Lana Condor), mas pode ter uma atitude mais digna em relação à advocacia.
E o filme fala de amizade. Daquela que nasce entre Avery e o Coyote a partir de uma relação que começa acidentada, cheia de desconfianças, mas que vai se aprofundando ao longo da película. E daquela entre o Coyote e o Papa-Léguas, algo que produz uma cena engraçada e ao mesmo tempo singela já no final do filme. Por qual motivo o Papa-Léguas está sempre se esbarrando com o Coyote? Porque gosta dele, porque o vê como um companheiro no meio do deserto. E o uso das placas para comunicação e do Código Morse foi genial.
O filme tem muitas referências a animadores e gente que teve papel importante na história da Looney Tunes. Vários artigos falam sobre isso; eis um deles. Também temos participação de vários personagens da Looney Tunes, alguns somente fazendo figuração, outros, como o Gaguinho, o Patolino, a Vovó e o Piu-Piu, com falas e alguma função no filme. Já o Pernalonga, minha personagem favorita da Looney Tunes, tem papel importante na história, mas não vou detalhar, porque seria spoiler. Aliás, senti falta de personagens dos Animaniacs do filme. Talvez alguns estivessem lá e eu simplesmente não os vi. E vocês também acham que o Frangolino do filme foi parcialmente inspirado no Trump?
Concluindo, fico muito feliz que a mobilização de atores, animadores e do público tenha conseguido, assim como no filme, vencer a grande corporação, porque o abuso da Warner, a ideia de destruir o filme, é o tipo de atitude autoritária que a Acme tem. Ao assistir ao filme, é fácil associar o abuso da Warner ao da Acme no filme, assim como refletir sobre as ações das grandes empresas capitalistas. E tudo isso acessível para as crianças se ofender a inteligência dos adultos. Enfim, ainda bem que consegui assistir ao filme no cinema e queria ter ficado para ver a mensagem da equipe da produção, mas a Júlia ficou impaciente e eu tive que ir embora. E me desculpem pelas poucas resenhas este ano. Tenho várias pendências que espero resolver antes de dezembro.















































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