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domingo, 13 de setembro de 2026

Novel da Newpop tem capa tarjada na Bienal de São Paulo no que parece ser um misto de misoginia com homofobia

Amanhã é o último dia da 28ª Bienal do Livro de São Paulo, evento cultural importantíssimo e que traz muito lucro e visibilidade, também.  Não ia comentar nada do evento, não fosse a censura a uma capa de novel (romance curto) BL da Newpop.  Muito bem, na semana passada, houve um escândalo por causa de homens mascarados no estande da editora Fruto Proibido que estavam beijando e se esfregando em mulheres. Há fotos dos beijos e das mulheres no colo dos caras dentro do estande da editora. A Fruto Proibido negou ter contratado os sujeitos.  A gritaria justificada veio principalmente do fato das mulheres poderem ser menores de idade, o que configuraria crime.  Simples assim. 

Fui até a página da Fruto Proibido e ela parece ser especializada em Dark Romance.  Esse subgênero da literatura romântica combina histórias de amor tradicionais com personagens moralmente ambíguos, desequilíbrios de poder extremos e temas tabus ou violentos.  Era coisa de nicho, mas como uma matéria do Estadão (Violência, relações abusivas e erotismo: o que é o dark romance e por que ele atrai tantos leitores?) bem apresentou, agora, está entrando no mainstream.  Eu associo Dark Romance à pornografia para mulheres, ainda que eu saiba que há material LGBTQIAPN+, e não estou jogando nenhum peso negativo no fato, estou pontuando que é material para adultos naquele sentido mais direto mesmo.  Tudo o que eu já vi de Dark Romance, livros e principalmente manhwa, é coisa muito pesada.  E o roteiro nem sempre faz valer o esforço de seguir na leitura, ainda que o traço seja interessante, no caos dos quadrinhos.  Não é coisa que me agrade.  

O problema com o rompimento da bolha é que menores têm passado a ser público-alvo e estão produzindo Dark Romance para  jovens adultos (Young adults) que não é nada mais nada menos do que meninas (*porque elas são o alvo principal desse material mesmo*) que ainda estão em formação.  Volta e meia olho um canal literário em que o sujeito está criticando e falando das polêmicas desse mundinho.  Normalmente, ele pega algum título que está bombando ou alguma autora "problemática" para comentar.  Confesso que tenho preguiça de me aprofundar nesse lodaçal, mas sei que existe polêmica lá nos Estados Unidos e, claro, iria chegar aqui.  Não sei se a Fruto Proibido publica material YA desse nicho, mas, ao que parece, as autoras (*porque em sua maioria são autoras*) estão em uma competição para ver quem produz material mais extremo.

Estabelecido isso, eu diria sem problema algum que se a preocupação é com a difusão de modelos de relacionamento tóxicos e que são prejudiciais às mulheres, a literatura mainstream, a romântica em particular, está cheia disso faz tempo.  E podem meter no mesmo balaio as Princesas da Disney ou coisas como Oni no Hanayome, anime que está em exibição e é derivado de livro.  O que me leva a pensar que o que incomoda mesmo é o sexo e que pode ser de um tipo violento.  Se é material para adultos, devidamente sinalizado, a gente pode fazer a crítica, mas uma coisa é levantar pontos problemáticos e refletir sobre eles, outra coisa é pedir censura ou dizer para as pessoas pararem de ler.  No fim das contas, no cerne da questão está a ideia de que mulheres não devem/podem gostar de sexo, mais ainda, ler sobre isso. 

Muito bem, chegamos à Newpop.  Depois do escândalo da Fruto Proibido, a direção da bienal foi atrás de outros problemas para evitar polêmicas e acabou criando uma, pois mandou tarjar a bonita capa do volume 1 do romance BL Define the Relationship.  Para quem caiu aqui por acaso e não sabe o que é BL (Boys Love) trata-se de material retratando relacionamentos entre homens feitos por mulheres e para mulheres.  Na sua origem japonesa, os BL nasceram tanto dentro do shoujo mangá (Kaze to Ki no Uta, Tooma no Shinzu, entre outros) quanto no mercado de fanzines através das paródias de material shounen, principalmente, que eram chamadas de YAOI.  Com o tempo passamos a ter antologias específicas, selos de livros, doramas etc.  Material chinês, e imagino que essa novel seja chinesa, ou coreana, ou de outros países do Leste Asiático pode ter nomes específicos, características diferenciadoras, mas a fonte é a mesma.  Outra coisa, homens podem gostar de BL, muitos gostam, mas isso não invalida a sua origem e seu objetivo básico que é atender às fantasias femininas.  E, sim, há material ocidental, livros de romance para mulheres que têm a mesma função.  Alguns deles como Heated Rivalry, já pularam para a tela.

A arte da capa da novel da Newpop, segundo o Mangás Brasil, é do artista Lucas Paixão.  Olhem para ela e me digam o que há de explícito, violento ou inadequado, de alguma forma, nesta capa?  Faz sentido um negócio desses?  É simplesmente censura e homofobia, talvez.  Lembrou, ainda que em escala bem menor, do caso do prefeito Marcelo Crivella, prefeito bolsonarista e sobrinho do Bispo Macedo, na Bienal do Rio em 2019, quando mandou retirar do evento uma graphic novel dos Vingadores que trazia dois homens se beijando em seu interior (*1 - 2*).   A ação de censura resultou em uma condenação este ano e deu material para a tese de doutorado do Chris Gonzatti.

Resumindo a minha posição com os dados que tenho: trata-se de um caso de misoginia que resvalou em homofobia.  A ação no estande da editora Fruto Proibido foi inadequada e pouco importa se eram mulheres adultas ou menores, não era hora, nem lugar; dark romance é material para adultos e deve ser devidamente sinalizado, o que não quer dizer que deva ser censurado; o que aconteceu no estande da Fruto Proibido não pode servir de argumento para censura de outros materiais ou editoras; e a capa do BL da Newpop nada tem demais.  E, concluindo, ainda vivemos em um mundo que estigmatiza materiais feitos por mulheres para mulheres; se têm conteúdo sexual, a discriminação é ainda maior.  Nossa sociedade não compreende que mulheres podem (*não devem, vejam bem, PODEM*) gostar de sexo, que sexo não deve ser percebido como algo pecaminoso (*ainda que possa, mas isso é uma questão religiosa sua*) e que as pessoas podem ter fantasias que não sejam as suas, ainda que elas possam dizer algumas coisas sobre papéis de gênero e a sociedade em que todos nós vivemos.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

2026: Feliz Ano do Cavalo de Fogo!

Hoje, começa o novo ano pelo calendário Gregoriano (*o nosso*), mas muitas mangá-kas estão postando ilustrações lembrando que estamos no ano do cavalo pelo horóscopo chinês e este ano é o do elemento fogo.  São cinco os elementos do Horóscopo Chinês: Madeira, Fogo, Terra, Metal e Água.   Por exemplo, eu sou dragão de fogo (1976).  O Ano Novo Chinês começa no dia 17 de fevereiro.  A ilustração que está no post é de Kazuki Irodori, autora do mangá da série Isekai no Sata wa Shachiku Shidai (異世界の沙汰は社畜次第) ou The Other World's Books Depend on the Bean Counter.  O anime da série estreia no dia 6 de janeiro, anotem aí.  

Agora, quando eu vejo "Ano do Cavalo de Fogo", só consigo lembrar da animação Cavalo de Fogo (Wildfire), que completa quarenta anos este ano, ele foi lançado em 1986.  Cavalo de Fogo foi exibido pelo SBT, como era comum em desenhos norte-americanos da época, foram somente 13 episódios.  Tratava-se de um isekai, com uma jovem princesa, chamada Sarah, sendo enviada para o nosso mundo como uma forma de protegê-la da vilã, Lady Diabolyn, depois da morte de sua mãe, a rainha de Dar-Shan.  Aos 13 anos, a garota recebia a visita do tal cavalo de fogo, que falava e era tão racional quanto os humanos.  Ele revela para a garota o seu passado e o seu destino, tornar-se rainha depois de derrotar a usurpadora.  Sarah e o cavalo atravessam de um mundo para outro.  O que Sarah nunca descobriu, se eu bem me recordo, é que seu pai em nosso mundo era seu pai biológico, porque ele mesmo tinha sido retirado de Dar-Shan para não ser morto.  Enfim, eu adorava cantar a música de abertura brasileira e ela ficou grudada na minha cabeça. Seria um excelente ano para um revival de Cavalo de Fogo, quem sabe até para terminar a série finalmente.


segunda-feira, 21 de julho de 2025

Autoras de BL estão sendo perseguidas na China como forma de estimular modelos "saudáveis" de feminilidade

Vivemos um momento muito peculiar da História no qual vozes masculinas (*e algumas femininas*) se levantam para denunciar um ataque à masculinidade e tudo o que seria compreendido, também, como hetero e cis.  Ontem mesmo, apareceu na Folha de São Paulo uma matéria com o seguinte título  Homem branco hétero está sumindo da ficção literária? Devemos nos importar?, na linha fina, aquele resumo rápido que vem logo abaixo de um título, estava escrito "Há uma reação a conquistas alcançadas nas últimas décadas por mulheres, minorias raciais e LGBTQ+ na política e na cultura".  Durante séculos, os homens, cis, hetero e, no ocidente, percebidos como brancos, sempre foram as vozes dominantes na cultura, seja a erudita, seja a popular, o aumento de uma representatividade de outros grupos, vozes mais diversas se expressando, já é suficiente para que tenhamos até políticas estatais com o objetivo de colocar as coisas "em ordem".  O esforço do novo governo dos Estados Unidos para reduzir ou acabar com políticas de DEI (Diversidade, Equidade, Inclusão) faz parte disso.  Só que não vou falar do país governado pelo Cheetos de peruca, desta vez, mas da China.  Antes, no entanto, vamos começar definindo um conceito fundamental: gênero.  

Gênero é  uma categoria utilizada nas ciências sociais e que se refere aos papéis masculinos e femininos em uma dada sociedade em um momento histórico determinado.  O que pode ser considerado como masculino ou feminino em um dado momento, ou lugar, pode não ser em outro.  Da mesma maneira, dentro de uma mesma sociedade, certos comportamentos e expressões (de gênero) podem ser aceitáveis a um determinado grupo ou classe social, grupo étnico ou em contextos específicos.  Um exemplo bem simples, no Carnaval, um homem hetero cis pode performar uma feminilidade que não seria aceitável no dia a dia.  Ou ainda, uma mulher negra podia, no período da escravidão, ser submetida à trabalhos pesados que não seriam vistos como compatíveis com aquilo que era visto como feminino e aceitável para as não-escravizadas, em especial, as brancas.

Retornando, China, Coreia do Sul e Japão sofrem com baixas taxas de natalidade.  A China ainda tem uma população enorme, mas como se trata de uma economia planejada, os burocratas anteveem que a coisa pode se agravar e isso pode prejudicar o desenvolvimento do país.  Há várias possibilidades de combater o problema, mas ao tentar diagnosticar suas causas, desde pelo menos 2017, o governo chinês decidiu apontar que os modelos de masculinidade do país estavam sendo contaminados por ideais de feminilidade.  Por conta disso, o governo chinês decidiu promover modelos tradicionais de masculinidade propostos pela Revolução (*1 - 2 - 3*) e passou a ficar de olho na cultura pop e nas redes sociais (*1 - 2*).  Não virou uma caça às bruxas como na Rússia, mas receber esse tipo de atenção do governo nunca é muito bom. 

Uma matéria do The Guardian do ano passado, deu um bom panorama da situação dos LGBTQIAP+ na China: "Embora a homossexualidade seja legal na China, tendo sido descriminalizada em 1997 e removida da lista de transtornos mentais em 2001, o casamento entre pessoas do mesmo sexo não é reconhecido, e indivíduos LGBTQ+ enfrentam diversas formas de discriminação e carecem de proteção legal. Não há leis específicas que proíbam a discriminação com base na orientação sexual ou identidade de gênero."  Se não há uma perseguição aberta, existe uma pressão para que as pessoas fiquem no armário, que publicamente performem a heteronormatividade e uma situação de insegurança jurídica que prejudica o exercício dos direitos civis.  Não é o pior dos mundos, mas está longe de ser confortável e justo.

Muito bem, mas por qual motivo estou escrevendo esse texto?  Uma amiga me passou um artigo intitulado "Pelo menos 30 pessoas foram presas na China por escreverem material erótico gay"  (At least 30 arrested in China for writing gay erotica).  Estamos falando de quadrinhos (manhua), contos e romances com temática gay.  E, ainda que homens possam produzir esse tipo de material, a maioria dos autores são mulheres que escrevem para o consumo de outras mulheres.  É BL (Boys Love), mas os chineses também tem seu próprio termo para isso, Danmei (Chinese: 耽美).  Segundo a Wikipedia, existem plataformas on line nas quais as autoras podem postar desde os anos 1990, mas volta e meia a censura estatal atua contra esses espaços e perseguindo as autoras.  Parece ser algo meio que de veneta, não uma ação coordenada mais ampla, no entanto, neste exato momento, esse tipo de repressão parece estar aumentando e estar articulada com a promoção de um modelo de masculinidade revolucionária.

Segundo o artigo linkado acima, no início de julho cerca de trinta autoras teve que se explicar para a polícia, não raro, sendo expostas para a família, provocando uma situação de grande vergonha.  Quem produz erótica, muitas vezes o faz de forma anônima, ou por trás de pseudônimos.  Uma matéria da BBC reproduziu a fala de uma dessas autoras "Fui avisada para não falar sobre isso (...) Nunca vou me esquecer disso: ser escoltada até o carro à vista de todos, suportar a humilhação de me despir para ser examinada na frente de estranhos, vestir um colete para fotos, sentar na cadeira, tremendo de medo, com o coração disparado."  Todas as mulheres presas estavam na casa dos 20 anos e publicavam seu material em uma plataforma on line sediada em Taiwan, a Haitang Literature City.

E não pense que a coisa fica na humilhação, pois essas mulheres podem ser enquadradas na lei anti-pornografia do país e correm o risco de pegarem até 10 anos de cadeia.  A lei visa punir "descrições explícitas de sexo gay ou outras perversões sexuais". No entanto, como o texto da BBC esclarece, representações heterossexuais costumam ter mais liberdade e obras de autores chineses aclamados, incluindo o ganhador do Prêmio Nobel Mo Yan, contêm cenas sexuais explícitas, mas estão amplamente disponíveis.

A matéria da BBC reproduz várias falas dessas moças, a maioria postada na rede Weibo e já apagada: ""Naquele momento, tudo o que senti foi vergonha", postou uma escritora cujo nome de usuário no Weibo significa "o mundo é um enorme hospital psiquiátrico". Ela disse que a polícia a tirou da aula na faculdade — e seus colegas a observaram enquanto a seguiam para revistar seu dormitório.  "Ganhei meu dinheiro palavra por palavra digitando. Mas, quando tudo deu errado, foi como se nada disso importasse. As pessoas me trataram como se eu tivesse ganhado dinheiro sem nunca ter trabalhado para obtê-lo."  Outra escreveu que a polícia foi gentil, aconselhando-a a consultar um advogado e devolver seus "ganhos ilegais" para reduzir sua sentença. "Tenho apenas 20 anos. Tão jovem, e já arruinei minha vida tão cedo."  Uma terceira disse: "Nunca imaginei que chegaria o dia em que cada palavra que escrevi voltaria para me assombrar."  Uma autora que escreve romances danmei há 20 anos não foi interrogada, mas diz que a repressão não a impedirá. "É assim que encontro a felicidade. E não consigo abrir mão dos laços que construí com a comunidade.""

A matéria segue discutindo o quanto esse tipo de fantasia permite que as autoras e suas leitoras questionem papéis de gênero, imaginem outras possibilidades para além da heterossexualidade compulsória.  Fora isso, dentro da cultura chinesa falar de sexo, especialmente sendo uma mulher, não é algo bem visto.  O fato de serem mulheres produzindo para seu próprio consumo e sobre temas vistos como tabu deve ter chamado a atenção das autoridades e essas moças estão pagando caro por terem sido um pouquinho subversivas.

""Como pais, quantos de nós podemos aceitar que nossos filhos leiam romances como esse, quanto mais que os escrevam?", perguntou um usuário do Weibo."   Algo que a matéria da BBC também pontua, e que pode ter pesado para criar essa onda de perseguição, é o fato da plataforma não ter um controle rígido de idade, há leitoras e escritoras menores de 18 anos e a matéria identificou meninas que começaram a ler pornografia aos 11 anos.  Quem conhece a internet sabe que é fácil burlar qualquer controle de idade, ainda assim, é algo preocupante.  Ser exposto jovem demais à situações de sexo e/ou violência pode acabar ajudando a construir representações muito distorcidas sobre sexualidade, consentimento, prazer etc., portanto, não vamos tapar o sol com a peneira.

No entanto, o motivo principal parece ser mesmo a promoção de valores "tradicionais" de gênero.  ""O governo chinês quer promover os valores familiares tradicionais, e gostar de romances danmei é visto como um fator que torna as mulheres menos dispostas a ter filhos", explica o Dr. Ge.  Esta é a segunda onda de prisões em massa em menos de um ano — no final do ano passado, cerca de 50 escritores de Haitang foram processados. Uma autora famosa, que ganhou cerca de 1,85 milhão de yuans, foi condenada a quase cinco anos de prisão.  As duas repressões são semelhantes, de acordo com um advogado que representou alguns dos réus no ano passado, "mas desta vez, mesmo aqueles com envolvimento menor não foram poupados"."

As mulheres não estão querendo casar e ter filhos, porque o casamento não parece compensador, porque, não raro, espera-se que elas coloquem suas carreiras em segundo plano, ou se submetam à arranjos familiares patriarcais.  E isso é um fenômeno em toda a região e já faz vários anos (*1 - 2 - 3*).  O 4Bi coreano é só uma forma mais radical de encarar o problema.  Além disso, e vale para a China, também, criar uma criança é muito caro.  O problema é o capitalismo, e o modelo chinês não foge disso, e o alto nível de investimento que você precisa fazer em um filho ou filha para ser competitivo, a ansiedade que isso era, todo esse processo desgasta muito tanto homens, quanto mulheres. Quem quer filhos, acaba, muitas vezes, tendo um só, é o que dá, especialmente, quando se é pobre, ou de classe média.  E vou citar uma matéria do IG:  "De acordo com as informações divulgadas pelo jornal sul-coreano Chosun Ibo, criar um filho até os 18 anos na Coreia custa o equivalente a 7,79 vezes o PIB per capita, o que, em dinheiro vivo, se traduz em cerca de 365 milhões de KRW. Em segundo lugar ficou a China, com um custo de 6,9 vezes o PIB per capita, seguida pela Alemanha (3,6) e pela França (2,2)."

Entenderam que, para além da misoginia e da homofobia, que não podem ser deixadas de lado, há várias coisas que podem e devem ser questionadas?  Ter filhos é muito caro.  A natalidade nesses países não está caindo porque as mulheres estão escrevendo BL, ou porque os meninos estão escolhendo expressões de gênero em desacordo com o que os velhos que controlam o Partido Comunista Chinês consideram o correto.  Mas quem vai querer mexer nesse vespeiro?  Enquanto isso, essas moças são aterrorizadas, perseguidas e presas.  E, sim, elas são poucas, afinal, pense na população da China, mas não deveriam estar sofrendo esse tipo de assédio e humilhação.

domingo, 22 de junho de 2025

Aprendendo coisas novas: Matéria sobre o 4B me apresentou o teatro feminino coreano Jeongnyeon e a Yue Opera chinesa, também.

Esta semana, assisti um vídeo do movimento 4B feito pela Deutsche Welle (DW).  Não sabe o que é 4B?   É um movimento iniciado por feministas coreanas em 2016, o 4B é para "4 Nãos" em coreano:  não namoram homens, não se casam com homens, não fazem sexo com homens ou não têm filhos com homens.  Tenho mais de um post sobre o 4B, o mais importante é este aqui. A matéria é boa, mas associa o 4B, sem maiores discussões, à taxa de natalidade do país, que é de 0,72 filhos por mulher (*na verdade, ela aumentou um pouquinho em 2024*).  Zero discussão sobre como o capitalismo estimula a competição e aumenta enormemente os gastos com a educação dos filhos.  

Na mesma semana, uma matéria do IG, apontava que as crianças na Coreia do Sul começam a fazer cursinho ainda no jardim de infância e que a educação havia de tornado um "luxo privatizado", porque quem não tem como pagar esse extra educacional á se vê como um perdedor.  Mais adiante, é dito que a Coreia do Sul também é uma das nações mais caras do mundo para se criar uma criança: "De acordo com as informações divulgadas pelo jornal sul-coreano Chosun Ibo, criar um filho até os 18 anos na Coreia custa o equivalente a 7,79 vezes o PIB per capita, o que, em dinheiro vivo, se traduz em cerca de 365 milhões de KRW. Em segundo lugar ficou a China, com um custo de 6,9 vezes o PIB per capita, seguida pela Alemanha (3,6) e pela França (2,2)."  Então, quando vierem com esse papo de que o 4B, a vontade de alguns milhares de mulheres, está derrubando a natalidade, não acreditem.  Pode agradar a quem está liderando o movimento, pode servir de arma dos masculinistas contra as feministas coreanas, mas o problema vai além da resistência à violência misógina, passa pelo bolso mesmo.  Enfim, o vídeo está abaixo.  Tem legendas e dublagem em português.  Continuo depois dele.


Olhando esse vídeo, lá bem para frente, aparece uma militante lésbica que trabalha com cultura pop e é um tanto crítica ao 4B (*posso estar errada, mas o movimento parece coisa de mulher hetero mesmo*) e ela citou o revigoramento do teatro feminino coreano.  Como tenho pouquíssimos conhecimentos de Coreia, fui atrás de informações sobre o Jeongnyeon, o nome do teatro coreano no qual as mulheres fazem os papéis femininos e masculinos.  Seria anterior  ao Takarazuka?  Teria sido criado por influência japonesa?

Bem, o teatro Jeongnyeon foi criado em 1948.  Ele bebeu em outras formas de teatro feminino e o Takarazuka (*que nem era o único teatro musical feminino do Japão na primeira metade do século XX*) não foi a única fonte.  Nas pesquisas, acabei descobrindo que existe um teatro chinês feminino que só é menos popular no país que a Ópera de Pequim (!!!) e é patrimônio da UNESCO, a Yue Opera ou Shaoxing Opera.  A Yue Opera foi criada em 1906, o Teatro Takarazuka é de 1913.  A Yue Opera se tornou popular a partir de 1917, quando saiu da província do interior onde foi criado para Shangai e outros centros urbanos importantes.  E há alguns raros atores homens na Yue Opera, já  houve no Takarazuka, foram duas tentativas de integrar homens à Revue, mas eles não existem mais.  O Takarazuka tem uma inspiração no teatro de revista ocidental muito evidente e faz peças contemporâneas, ao que parece, e eu estou reunindo informações ainda, a Yue Opera e o Jeongnyeon optam por peças baseadas em histórias clássicas e mitológicas locais.

Um pôster da peça "Byeol Hana" de 1958, com as atrizes Kim Kyung-soo, à esquerda, e Kim Jin-jin.

Buscando mais informações sobre o Jeongnyeon, achei um artigo chamado "Female Masculinity and Cultural Symbolism: A History of Yeoseong gukgeuk, the All-Female Cast Theatrical Genre" (Masculinidade feminina e simbolismo cultural: uma história do Yeoseong gukgeuk, o gênero teatral com elenco exclusivamente feminino) de autoria de Ju-Yong Ha e publicado na The Review of Korean Studies.  Ele está disponível em inglês para download.  Não tive tempo de lê-lo, mas destaco uma parte do resumo:

Na história cultural coreana, a xamã mudang frequentemente assumia uma persona masculina, e na dança mascarada talchum, homens desempenham papéis femininos. No início do século XX, gisaeng, as artistas femininas, começaram a apresentar changgeuk, uma versão operística de pansori, que tinha uma tradição de artistas masculinos até então. Na Coreia pós-colonial, no final da década de 1940, outra versão do changgeuk foi criada por mulheres, com apenas cantoras. Esse gênero teatral, composto exclusivamente por mulheres, é conhecido como yeoseong gukgeuk. O legado do gisaeng, já desmantelado na década de 1930, foi reinterpretado e o yeoseong gukgeuk se desenvolveu, ganhando enorme popularidade entre o público majoritariamente feminino. Ver mulheres em papéis masculinos e, por meio dessa "masculinidade alternativa", libertou as mulheres coreanas de sua própria opressão. (...) a construção dos papéis de gênero na performance musical na Coreia na década de 1950 foi reinterpretada por artistas femininas, rompendo assim a masculinidade heroica social e cultural. As artistas apresentavam uma realidade idealista, juntamente com fantasias sexuais, que eram atraentes para o público feminino.

Mas esse teatro feminino estava em crise desde muito tempo.  Um dos motivos apontados é a falta de financiamento estatal e de grandes empresas, dificultando, inclusive, a criação de uma escola como a do Teatro Takarazuka.  Só que um K-drama do ano passado chamado "Jeongnyeon: The Star is Born" está ajudando a revitalizar o interesse pelo teatro feminino.   A história se passa nos anos 1950 e mostra a ascensão de uma jovem ao estrelato.  Pensou Kageki Shoujo (かげきしょうじょ!)?  Pois é, eu também. Como o governo coreano não é trouxa e sempre vê o potencial dos produtos da sua cultura pop, porque o Jeongnyeon é parte da cultura popular, se movimentou para promover um evento chamado "Korea's First Women's Opera: Women Who Became Legends" (A primeira ópera feminina da Coreia: mulheres que se tornaram lendas) através da Korea Cultural Heritage Foundation (Serviço de Patrimônio da Coreia).  Detalhe importante, "Jeongnyeon: The Star is Born" é baseado em uma webtoon. Tem scanlations em inglês.

De um lado o dorama, do outro a Webtoon.

Enfim, eu sempre gosto de descobrir coisas novas e descobri esses dois teatros femininos, o coreano e o chinês.  Preciso ler o artigo que citei e a entrevista que eu acho ser com a artista que disse que comentou sobre o Jeongnyeon.  Ela está aqui.  Se alguém se interessar e quiser que eu traduza, é só deixar algum comentário, imagino que não haverá nenhum (🤣), blogs não são mais tão populares e praticamente ninguém comenta aqui, inclusive por ter moderação, sem ela, não dou conta do chorume, porque esse tipo de comentário sempre aparece.  Concluindo, vou ficar de olho para ver se encontro mais alguma coisa sobre a Yue Opera e o  Jeongnyeon.

domingo, 9 de julho de 2023

Uma Estátua supostamente japonesa com muitos problemas!

Esta imagem acima foi repassada para o grupo do Shoujo Café no Facebook.  Pensei em deletar, mas vi uma grande oportunidade de fazer um post sobre os elementos presentes nessa foto, que está circulando no internet brasileira e, claro, tem como origem sites norte-americanos.  Achei um post no Reddit com a foto e a mesma legenda, só que em inglês. Sabe, a "Tia do Zap" não foi inventada no Brasil.  Enfim, primeira coisa, esta estátua não está no Japão, ele está na cidade chinesa de Heihe (黑河), Heilongjiang. Usando as palavras certas, a gente chega à várias fotos dela em sites de viagem, principalmente.  Atribuir a obra de um povo a outro é um roubo, pode ser inocente, mas é um roubo sempre.  Agora, por qual motivo dizer que está no Japão? 

Bem, para reforçar a representação do povo japonês como sábio, é aquilo que o Normose chamou de "mito do japonês inteligente" (*recomendo o vídeo o canal*),  uma representação social construída durante a Guerra Fria.  O  Japão é aliado dos EUA, a China, não. Criou-se, então, o "bom asiático" em oposição ao que continuava sendo o inimigo.  Além disso, a imagem vem somar ao imaginário da internet brasileira sobre o Japão como aquela outra mentirinha (*porque é mentira mesmo*) de que somente os professores não precisam se curvar diante do imperador, porque professores, tão humilhados e agredidos (*caso 1 e 2*) no nosso país, seriam realmente valorizados no Japão. Todo mundo se curva no Japão, é a forma corrente de cumprimentar, o imperador é uma autoridade venerada e todos se curvam diante dele e professores não estão isentos.  E, apesar do respeito confucionista às autoridades, a vida de professor não e tão tranquila assim.  Sobre o tema, recomendo um post que eu fiz no Shoujo Café sobre como professores são explorados e mal pagos no Japão.  

Segundo, bibliotecas inteiras cabem em um celular. Por mais que eu goste e livros físicos, eu sei que o espaço para colocá-los em nossas casas é cada vez mais restrito. Livros digitais são bem-vindos.  Não é o celular o problema, mas o uso que se faz do aparelho. Uma pessoa pode ler milhares de livros, consultar enciclopédias e bibliotecas do mundo inteiro somente com esse aparelho. Tecnologia veio para nos ajudar e não deve ser demonizada. É isso que a estátua faz, mas existe um terceiro ponto, que talvez tenha escapado para a maioria, a estátua é gordofóbica.

O homem com o celular é gordo. Desde as vésperas do Renascimento (séc. XIV), no Ocidente, o gordo passou a ser associado à preguiça, falta de inteligência, feiura, desleixo etc.  Um dos meus historiadores favoritos, Georges Vigarello, escreveu um livro inteiro sobre o tema.  Nunca li nada sobre gordura na sociedade chinesa, mas é fácil encontrar material sobre como a melhora das condições socioeconômicas tem impulsionado a ganho de peso no país, agora, eu sei que na Índia, por exemplo, desde o final do século passado, a influência de representações ocidentais de beleza fez com que ser cheinho, algo que indicava boa saúde, acesso à alimentação e, claro, boas condições econômicas, passou a ter significado semelhante ao que se tem no mundo ocidental em geral. Em outros países nos quais a pobreza e a fome ainda são muito fortes, a gordura como signo de distinção social, beleza, continua presente.

Enfim, o homem gordo com o celular não é somente menos sábio que a menina, ele está vestido de forma relaxada, de bermuda e chinelo. Esses signos estão lá para enfatizar que o celular é a porta e entrada de uma série de males, a obesidade é um deles. Ninguém questiona um magro sedentário sobre sua saúde, afinal, ele é magro e isso é esteticamente agradável. Agora, uma pessoa gorda, seja ela saudável, ou não, seja ela ativa, ou não, será sempre questionada sobre a forma como conduz sua vida.  Se uma pessoa emagrece por motivos de doença, muitas vezes recebe elogios e congratulações, afinal, até depressão ou mesmo um câncer pode ser benéfico, não é mesmo?  Não é saúde, é estética.  Para discussões sobre essa questão, eu recomendo o canal Não Sou Exposição, da nutricionista Paola Altheia.

A estátua pode, também, ter uma conotação misógina,  porque em uma sociedade patriarcal, coloca um homem em uma condição ridícula e em desvantagem em relação a uma menina.  Ou seja, um homem que não cuida de seu intelecto e sua saúde se torna inferior a uma menina, não é nem a uma mulher, mas a uma criança do sexo feminino.  Não se trata de um elogio à sabedoria de uma menina, podem ter certeza.  Mas não vou esticar mais.  Sim, há muita coisa errada com essa estátua. Muita mesmo.

domingo, 1 de janeiro de 2023

Feliz 2023! Mais um Ano do Coelho.

Estamos no primeiro dia de 2023, no horóscopo Chinês é ano do Coelho da Água.  Os chineses trabalham com cinco elementos  Madeira, Fogo, Terra, Metal e Água, então, além do ciclo de 12 anos para que o signo se repita, temos este outro aspecto, também.  Eu, por exemplo, sou Dragão de Fogo (1976).  OK, gosto de horóscopo, mas não acredito nele, é um passatempo somente.  Enfim, as autoras de mangá estão postando suas ilustrações no Twitter, todas se remetendo ao coelho de alguma maneira, com raras exceções.  Esta ilustração de abertura é do mangá-ka Mitsuya Ryou (*acho que é um homem*).  

Para quem quiser ver outras ilustrações, a acima é de Ichigo  Takano (Orange), é só acessar a lista que criei no Twitter com artistas.  Tem de tudo, mangá-kas e outros desenhistas que não são.  Agora, normalmente, as revistas repostam as artes das suas autoras.  Esta outra lista que eu fiz no Twitter é das revistas Shoujo, Josei e TL, só mangá-kas, então.  E não precisa me seguir, seguir a lista é diferente de seguir uma pessoa.  Abaixo, arte de Amu Meguro. 

De resto, desejo um feliz 2023 para todos vocês que visitam o Shoujo Café, alguns desde muito tempo.  Estou saindo de férias hoje, quer dizer, saindo de Brasília.  É possível que as postagens rareiem, talvez, não, vai depender da minha internet.  Raros anos foram tão dramáticos quanto 2022, derrotamos o fascismo nas urnas, mas ele não foi derrotado na sociedade.  Há muito o que fazer, precisamos continuar nos organizando para reconstruir o país, erradicar a fome, voltar a vacinar e conduzir as questões políticas e do dia-a-dia de forma minimamente racional.  Lamento informar, porém, que ainda iremos ver atentados da extrema-direita, eles foram armados, empoderados, e muitos eles vivem em uma realidade alternativa.

O 22 fugiu, mas ele precisa enfrentar a lei pelos crimes que cometeu.  Dá para respirar aliviado e, por isso, deixei esta tirinha da Laerte, mas ainda teremos muito o que fazer.  Feliz Ano Novo e que a posse de Lula hoje transcorra como a festa que merece ser.

domingo, 28 de agosto de 2022

Saiu o trailer do dorama chinês de Gekkan Shoujo Nozaki-kun

Em janeiro, comentei que Gekkan Shoujo Nozaki-kun (月刊少女野崎くん ), de Izumi Tsubaki, iria virar dorama na China com o nome de The Comic Bang.  Ache o trailer muito apegado a certas sequências do mangá, quase uma reprodução do original, por assim dizer.  Para quem não conhece, a série, cujo anime está na Netflix, para quem não sabe, Gekkan Shoujo Nozaki-kun conta a história de Sakura, uma colegial que está no segundo ano e que é apaixonada por Nozaki, um sujeito bonito, alto e de poucas palavras.  A menina toma coragem para se declarar e acaba descobrindo o segredo do garoto por acidente.  Ele pensa que ela quer seu autógrafo, porque ele é "uma famosa" autora de shoujo mangá.  Nozaki arregimenta Sakura como sua assistente e a menina descobre que não está sozinha, que vários colegas de escola auxiliam Nozaki.  A partir daí várias personagens aparecem e passamos a conhecer um pouco das engrenagens de construção de um shoujo mangá, do rascunho até a editora.  

Sakura será interpretada por Shen Yue com o nome de Zuo Qian Dai e Nozaki será Wang Jing Xuan como Lu Ye Qi.  No My Drama List, está que estreia este mês, mas não há data.  

domingo, 13 de março de 2022

Crossing Egypt~Becoming The Pharaoh's Bride~: Manhua histórico ruim começa a ser lançado no Japão

Ontem, gastei parte do meu pouco tempo lendo os 13 capítulos disponíveis em inglês do manhua Crossing Egypt: Becoming The Pharaoh's Bride (*ou Passing Through Egypt: Become the King's Bride, ou ainda Traveling Through Egypt: Turning Into the Bride of the King*), que o Comic Natalie anunciou que começou a ser publicado oficialmente no Japão pela plataforma Piccoma. Como leitora de shoujo mangá, historiadora feminista e fã de Anatolia Story (天は赤い河のほとり), a série me ofendeu bastante e, por isso, abro espaço para falar sobre ela. No momento em que escrevo, esse manhua conta com 31 capítulos no momento e usando este nome que eu coloquei em inglês, porque li as scanlations nessa língua, mas há em espanhol, o que é realmente triste, porque sei que há material muito bom precisando ser traduzido para línguas ocidentais e que não recebem atenção.  Mas vamos lá!  Isso é uma resenha e eu tenho umas palavrinhas para falar sobre esse manhua.  Segue o resumo do Mangaupdates:

"Sob o desejo de Yuya, o gato preto, Nefertiti viajou para o antigo Egito e se tornou a princesa que estava destinada a ser noiva do futuro faraó. Por que ela, que só queria encontrar um caminho de volta à era moderna, acidentalmente atraiu a atenção do próximo faraó, Akhenaton? E Yuya, que esteve ao seu lado o tempo todo, parecia ter um segredo. O amor do destino começou silenciosamente a partir do reencontro." 

Temos alguns ingredientes conhecidos dos shoujo mangá nessa história, o primeiro deles, a garota que viaja no tempo.  A protagonista, e não sabemos o seu nome moderno, só que ela, no passado assume o corpo de Nefertiti.  O segundo elemento, a mocinha deslocada no tempo atrai a atenção do cara que vai ser, ou já é, o governante de uma poderosa nação, neste caso, o Egito.  O terceiro ponto, trata-se de uma variação do gênero mais em voga no momento, o isekai, porque o Egito da história tem a mesma função de terra de fantasia, e seria uma série OK se o/a autor/a não tivesse escolhido uma ambientação real, mas um mundo alternativo qualquer.  Ponto positivo da história, não temos o toque macabro da morte da mocinha antes da sua transmigração para outro mundo.

Na série, escolheram fazer de Nefertiti uma princesa Mitanni, um estado poderoso que, no momento em que a série se passa, século XIV a.C., estava comprimido entre duas superpotências, o Egito e o Império Hitita.  A possibilidade de Nefertiti ser uma princesa mitanni é aventada por arqueólogos e historiadores, ainda que já tenha sido praticamente descartada, então, nenhum problema aqui.  O manhua é colorido e o começo primeiro capítulo é realmente bonito visualmente, com algumas explicações sobre as divindades egípcias, daí, temos a silhueta dessa moça de nossos dias e um gato preto falante em seu colo oferecendo a ela a possibilidade de ir para o Antigo Egito.  

Encontrar gato preto falante é o ponto de partida de Sailor Moon (美少女戦士セーラームーン), mas a mocinha, que parece ter algum juízo, deveria ter pensado duas vezes, porque a partir do momento em que ela está no passado, pelo menos no início, ela só quer voltar para casa o mais rápido possível.  Mas, sim, acho que ela ficará por lá, porque de cara ela já é agarrada e beijada por um sujeito moreno, musculoso, com cabelo estiloso e tatuado.  Ela bate forte nele, a nossa mocinha domina artes marciais, ou pelo menos alguma delas, porque o quadrinho não se dá ao trabalho de nos dizer qual.  O rapaz lhe diz que prefere mulheres submissas, mas que gostou dela e some pelos telhados da cidade.

Cena é cortada para o palácio e o capítulo 2 mostra Nefertiti sendo apresentada, acompanhada pelo gato, ao faraó Amenhotep III.  Ela foi mandada ao Egito para se casar.  Aparece o príncipe Akenaton e a mocinha descobre que é o sujeito que a agarrou na rua.  Ele diz que gostou dela e a quer como consorte e seu pai se regozija e torce para que eles se entendam, isto é, que façam sexo.  Mais tarde, é revelado que, até então, o jovem nunca tinha se interessado por mulheres. Entendam como quiser, pela alegria de papai, eu só consegui pensar em uma coisa.

Nossa mocinha bate nele de novo, ele lhe avisa que poderia forçá-la se quisesse, porque ele é o príncipe herdeiro e eles estão casados, aparece o gato, que vira um rapaz e conversa com o  Akenaton.  Ambos se conhecem.  O filho do faraó se retira e a mocinha diz ao gato que quer ir embora, voltar para o seu tempo.  Ela dorme ao lado do gato e acorda de conchinha Akenaton.  De novo, a mesma coisa, ela pede ajuda ao gato, que está dormindo e nem liga, bate no filho do faraó, ele se mostra apaixonado daquele jeito descrito antes, ameaçando estuprá-la e coisas do gênero, mas sem nada gráfico, ele diz que uma princesa não deveria saber lutar.  Não sei se é nesse momento que ela diz que quer ir embora e ele lhe diz que ela não iria muito longe, porque não sabe ler, nem escrever.  

Pensei eu, uma princesa mitanni realmente não saberia ler e escrever em língua egípcia, mas a maioria da população do país não sabia, também, pois eram camponeses e era uma escrita muito complexa.  Enfim, vai ficar esquisita essa conversa.  Bem, já tínhamos dois bishounen na história, Akenaton e a versão humana do gato, e aparecem mais dois, o general Horemheb e um sujeito, secretário do príncipe, chamado Kay, que eu imagino ser Ay.  Tanto Horemheb, quanto Ay, se tornarão faraós depois do filho de Akenaton, Tutankamon.

Para quem não lembra, porque é uma das coisas que a gente tem que ensinar na escola sobre Egito, Akenaton, antes disso Amenófilis IV, promoveu uma reforma religiosa radical.  Ele aboliu o culto a TODAS as divindades e decretou que só havia um deus, Aton, o arco solar, que diferentemente dos outros deuses, não tinha representação humana, ou animal.  O faraó e sua esposa principal seriam, a partir de então, os intérpretes da vontade do deus, falando diretamente com ele.  Além disso, ele construiu uma nova capital, Amarna, no meio do deserto, deu liberdade criativa para os artistas e outras coisas mais.  Nas representações dele mesmo, não raro, estavam Nefertiti, sua rainha, e, às vezes, as seis filhas que teve com ela.  

Sendo uma civilização politeísta, vocês imaginam que essa medida não deve ter sido bem aceita, mesmo que o faraó fosse visto, ele mesmo, como deus vivo.  Que gerou apreensão no povo, angústia profunda, medo da ira divina.  Fora isso, os sacerdotes, especialmente, o de Amon, tinham muito poder e riqueza e a revolução desencadeada pelo faraó tinha como um dos desdobramentos, talvez, um de seus objetivos, reduzir sua influência sobre o Estado, o povo e o faraó.  Até a mudança da capital, porque Tebas, a anterior, era a cidade do deus Amon.  Akenaton concentrou poderes em suas mãos, usou a seu favor a ideia de que o faraó era rei, governou 17 anos e foi, provavelmente, assassinado.  Sua morte não resolveu a confusão, ela se aprofundou e conduziu ao final da 18ª dinastia.

Para delimitar a personalidade do príncipe, temos uma cena em que Akenaton está ouvindo petições junto com Horemheb e Kay.  Dois sacerdotes trazem uma moça que pede por sua família, eles foram entregues ao templo por sabe-se lá quem como pagamento por sabe-se lá o quê.  A mocinha está ouvindo atrás de uma coluna.  A moça pede por sua família.  O príncipe se mostra pouco incliná-lo a ouvir a suplica da garota, PORÉM um dos sacerdotes se mostra arrogante e ameaça Akenaton com a irá dos deuses.  O príncipe saca da espada e mata o cara na hora, afirmando que ele, como filho do faraó, é um deus vivo.  Foi violento e a mocinha passa a acreditar que ele poderia matá-la.

Sobra um sacerdote, que se mostra menos arrogante, e usa a lei para afirmar que a moça e sua família pertencem ao templo.  Durante toda essa sequência, está subentendido que ele queria violentar a garota.  Ele a pega pelos cabelos, enquanto ela suplica a bondade de Akenaton.  Neste momento, a mocinha intervém e enfrenta o sacerdote, que quer saber quem é ela.  Ela se dirige a Akenaton e pergunta se tudo no Egito pertence ao faraó, ele diz que, sim, e que ele, o príncipe, fala pelo soberano, ele assente de novo.  Ela pede, então, que ele lhe dê a  moça e sua família.  Akenaton assente e diz ao sacerdote indignado que ela é sua esposa.  Toma a mocinha nos braços e percebe que ela está tremendo, vê-lo matar um homem a assustou, ela não se mostrará mais tão afrontosa com ela como foi no início.

Akenaton acha estranho que ela não tivesse medo dele antes, mas ao vê-lo matar um homem tenha ficado aterrorizada.  Bem, acho difícil de entender, não é mesmo?  De qualquer forma, Horemheb e Kay percebem que o príncipe está estranho, apaixonado, claro.  E a mocinha começa a sentir coisas por ele, também.  A garota vira sua atendente e as duas conversam.  A mocinha quer aprender a ler e escrever e a atendente se mostra horrorizada.  Daí, vem uma aula errada sobre sociedade do Egito Antigo e a serva afirmando que as mulheres eram proibidas de aprender ler e escrever, que ocupavam a base da sociedade, eram desprezadas e sem poder algum e que sua função única era ter filhos e cuidar da casa.  Eu quase dei um berro nessa cena.  

A mocinha, que é feminista, que lembra da mãe como seu exemplo de luta pela igualdade, engata um discurso que todos são iguais e sobre a importância das mulheres fazendo links com as divindades do Egito e o próprio Nilo, que ela diz, ser uma deusa.  Está errado, o rio não era visto como uma deidade feminina.  Outro erro, portanto.  Akenaton está ouvindo atrás da porta e entra nessa hora.  Adverte a esposa de que ela poderia ser morta somente por dizer coisas assim.  A serva tenta assumir para si a responsabilidade, ele a repreende dizendo que ela deveria usar outra forma de tratamento para a mocinha, que ela não estava usando da devida deferência com a futura rainha do Egito e a manda sair.  A sós com a mocinha, Akenaton a intima a repetir o que disse, pergunta se ela não tem medo de morrer, a mocinha pensa duas vezes, mas diz tudo de novo.  O príncipe fica pensativo e decide que irá ajudá-la a aprender a ler e escrever.  Que irá colocar um professor a sua disposição.

Suponho que quem escreveu essa história leu ZERO coisas sobre Egito, não leu nem Anatolia Story, ou Ouke no Monshou (王家の紋章), o básico japonês desse tipo de história, e está pensando está em The Handmaid's Tale. E, bem, toda revista de História tem matéria de Egito, edição sim e a outra, também, há inúmeros sites e documentários para todos os aspectos possíveis sobre a Terra dos Faraós.  O Egito não é uma civilização obscura sobre a qual sabemos muito pouco, é o inverso.  Mas falemos das mulheres, por isso estou escrevendo esta resenha.  O Egito é lembrado, porque ficou escrito para a eternidade, como uma das civilizações antigas onde as mulheres tinham mais direitos, elas ocupavam várias profissões especializadas e não havia qualquer interdição ao aprendizado da escrita, porque sabemos os nomes de algumas mulheres que eram escribas, isto é, profissionais da área.

Cito um parágrafo do site USHistory: "As mulheres egípcias podiam ter seus próprios negócios, possuir e vender propriedades e servir como testemunhas em processos judiciais. Ao contrário da maioria das mulheres no Oriente Médio, elas tinham permissão para estar na companhia de homens. Elas poderiam escapar de casamentos ruins se divorciando e se casando novamente. E as mulheres tinham direito a um terço da propriedade que seus maridos possuíam. Os direitos políticos e econômicos das mulheres egípcias as tornaram as mulheres mais liberadas de seu tempo."  Acrescento ainda que as mulheres egípcias poderiam ficar com a guarda dos filhos em caso de divórcio.  

Especificamente sobre mulheres escribas, a divindade patrona de todos eles era feminina, Seshat, associada à sabedoria, conhecimento e escrita.  Fora isso, há registros de mulheres escribas e deveríamos ter mulheres que dominavam a escrita, alguma delas, e que não eram profissionais da área, como as médicas.  De qualquer forma, o drama criado em cima disso no quadrinho, a afirmativa de que as mulheres eram oprimidas e excluídas no Egito antigo, inclusive do direito de sair do palácio, algo que Akenaton e a mocinha irão discutir mais adiante, é absurdo.  Na verdade, a autora, ou autor, do manhua quer projetar no passado desigualdades e exclusões que não existiam na sociedade egípcia.  Parece que esse mangá está contaminado pela obsessão que vi nos poucos manhwa que é representar a vida das mulheres como miserável nesses passados recriados.

Resumindo, se você quer fazer um mangá histórico, precisa estudar um tiquinho para não passar vergonha.  Esse Crossing Egypt: Becoming The Pharaoh's Bride não traz nada de novo que mereça que a gente feche os olhos para essas falhas.  Fora a representação absolutamente equivocada das mulheres e da própria sociedade do Egito do século XIV, a autora não pesquisou vestimentas, e, de novo, temos muitas representações sobre o que se vestia no país na época, ou a arquitetura.  É uma tristeza.  Se Crossing Egypt: Becoming The Pharaoh's Bride se passasse em um país fictício, em um mundo de fantasia, estava tudo OK.  

Concluindo, o capítulo 13 fecha com um ataque feito ao palácio do faraó e a mocinha sendo cercada por um bando de criminosos.  Ela pode lutar e derrubar todos eles, ela é muito boa em artes marciais, mas há muita gente em volta e ela PREFERE assumir uma atitude de COITADA e fica esperando que venham salvá-la.  E acaba o capítulo.  Não sei como a coisa seguirá, mas foi bem brochante essa sequência.  Imagino que ela, que já está apaixonada por Akenaton, será domesticada.  Sinceramente?  Os japoneses não precisavam publicar esse material, não.  Não faz falta.  É mal pesquisado.  É cheio de clichês.  E chega a ser ofensivo ao tratar do papel das mulheres no antigo Egito.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2022

Gekkan Shoujo Nozaki-kun terá dorama chinês este ano!

Vi ontem no Twitter que a série, que eu amo, Gekkan Shoujo Nozaki-kun (月刊少女野崎くん ), de Izumi Tsubaki, terá um dorama este ano.  A parte curiosa?  Será chinês e com o nome de The Comic Bang.  A série original conta a história de Sakura, uma colegial que está no segundo ano e que é apaixonada por Nozaki, um sujeito bonito, alto e de poucas palavras.  A menina toma coragem para se declarar e acaba descobrindo o segredo do garoto por acidente.  Ele pensa que ela quer seu autógrafo, porque ele é "uma famosa" autora de shoujo mangá.  Nozaki arregimenta Sakura como sua assistente e a menina descobre que não está sozinha, que vários colegas de escola auxiliam Nozaki.  A partir daí várias personagens aparecem e passamos a conhecer um pouco das engrenagens de construção de um shoujo mangá, do rascunho até a editora.  Nozaki-kun, o mangá, fez dez anos em 2021 e teve uma única temporada animada em 2014.

O My Drama List traz um resumo que tem mudanças significativas em relação ao original:  "Lu Ye Qi (Zhao Yi Qin) é um estudante inteligente do segundo ano do curso de matemática, sempre foi conhecido por seu perfil discreto e misterioso. Sem o conhecimento de outros, ele tem uma ocupação oculta - como um artista profissional de shoujo mangá. No entanto, como estudante de ciências, ele não possui certos conhecimentos sobre quadrinhos shoujo. Lu Ye Qi originalmente queria escrever quadrinhos juvenis com ação e violência, mas de alguma forma se desviou em seu caminho. No entanto, como ele é apaixonado por quadrinhos, ele decidiu persistir em perseguir seus sonhos. Zuo Qian Dai (Shen Yue), que tem uma queda por Lu Ye Qi, decide confessar seu amor um dia; mas suas intenções foram mal compreendidas e ela acabou sendo recrutada para sua equipe de desenho.  Desde que Lu Ye Qi conheceu Qian Dai, ele ganhou uma nova inspiração para a criação e, à medida que os dois passam o tempo juntos, eles também acenderam uma nova paixão por fazer quadrinhos. À medida que sua equipe de quadrinhos continua a crescer e se estabilizar, novas oportunidades e desafios também surgem. Diante das dificuldades desconhecidas, os membros da equipe vivenciaram confusão, desconfiança e discussões. No entanto, eles eventualmente saem mais fortes e mais unidos do que nunca como uma equipe. Com confiança e apoio mútuos, histórias de juventude, amizade e sonhos continuam a florescer dentro do pequeno estúdio."

Basicamente a mesma coisa e, ainda assim, bem diferente.  Enfim, há várias fotos no Twitter do elenco caracterizado.  Não sei se vou assistir ao dorama, mas Nozaki-kun é um mangá que eu queria ver no Brasil e seria ótimo ter uma nova temporada animada anunciada.