- No dia da formatura, as meninas devem usar meias-calças de fio 80 ou superior.
- Os alunos são obrigados a dizer "obrigado" pelo menos 10 vezes por dia na escola.
- Proibição de criação de um clube de "light music".
domingo, 17 de maio de 2026 at 12:13 AM
sexta-feira, 3 de abril de 2026 at 1:26 PM
Finalmente terminei de assistir Ikoku Nikki (違国日記), uma série excepcional e muito exigente com sua audiência. Não estou fazendo pouco caso de ninguém, mas a série baseada no mangá de Tomoko Yamashita é um material adulto de verdade, não no sentido vulgar do termo, que logo imagina situações sexuais ou palavrões ou violência. Estou me referindo à capacidade de lidar com sentimentos complicados e com os diversos tipos de dramas que poderiam ser os seus, os meus, os dos seus amigos e amigas. E não pense que o fato de ser adulto torne a série inacessível para adolescentes, porque uma das protagonistas é uma menina de 15 anos e seus dramas e os de suas amigas e colegas de escola também estão lá.
Infelizmente, ficou claro no último episódio que uma continuação não estava nos planos da produção, que começou cinco anos atrás. Como eu sei disso? O salto no tempo, vermos Asa, a protagonista adolescente, e Emi, sua melhor amiga, adultas, dez anos depois dos acontecimentos do último episódio, é uma forma de marcar que era um adeus. Sim, eu sei que a série é sucesso de crítica, ainda que não saiba se é de público, também, mas ela foi planejada para terminar com seus 13 episódios. A maioria dos animes shoujo e josei não tem segunda temporada, imagino que quiseram marcar bem que ali seria o final da série, a despedida. Triste, porque o mangá só tem míseros 11 volumes. Duas temporadas, ou mesmo um filme animado, poderiam dar conta de fechar tudo.
Enfim, para quem não leu minhas resenhas anteriores (*1 - 2*), Ikoku Nikki é um anime adaptado do mangá de mesmo nome de Tomoko Yamashita e conta a história de Makio e Asa. Makio é uma novelista de 35 anos, que mora sozinha e é um tanto antissocial. Um dia, ela recebe a notícia de que sua irmã mais velha, com quem nunca se deu bem, morreu junto com o marido em um acidente de carro. Uma filha de 15 anos, Asa, ficou para trás. Nenhum parente quer ficar com ela, está disposto a dar para a garota o suporte do qual ela precisa. Makio, mesmo com todas as suas questões emocionais e de personalidade, decide assumir a sobrinha, mesmo avisando para a garota que odiava a mãe dela e que, talvez, nunca consiga amá-la. Ao longo dos episódios, Asa aprende a lidar com a tia e com o seu luto, a pensar o seu lugar no mundo e o que deseja fazer de sua vida. Já Makio acaba tendo que admitir que Asa tornou sua vida diferente para melhor, mesmo que ela mesma continue tendo muito apreço pelo seu espaço pessoal, pela sua privacidade, inclusive emocional.
Este post estava aberto fazia semanas, apaguei quase tudo que estava lá. O objetivo era comentar os episódios três e quatro, agora, é o balanço geral da série. Ainda não considero adequado o título em inglês, "Journal with Witch", porque Makio não é uma feiticeira/bruxa, seja no sentido de fazer mágica ou de ser má, ela é uma adulta com problemas emocionais, talvez neurodivergente (*sem laudo, o que deve ser muito comum no Japão*) e que acolhe a sobrinha mais por questão de justiça do que de qualquer afeto. Mas ela termina desenvolvendo fortes sentimentos por Asa e conseguindo dar para a menina um suporte que ela não esperava ser capaz de proporcionar. Makio acaba se tornando mãe de Asa, mesmo brincando que sua relação com a menina é como a de alguém que trouxe um cachorro perdido para casa.
A gente pode ser mãe ou pai por vários caminhos. Engravidar é somente um deles. O processo de adoção é outro. Mas há quem assuma a responsabilidade - afetiva, econômica, legal - por uma criança ou adolescente por motivos inesperados realmente. Quantos órfãos foram criados pela pandemia? Quantos tios, primos, mesmo irmãos ou irmãs mais velhos tiveram que assumir uma criança ou adolescente traumatizado por uma perda tão inesperada? Tal e qual o acidente que levou os pais de Asa. Por outro lado, a menina mesmo perdida, mesmo sofrendo, nunca desistiu da vida e Makio a ajudou nesse processo.
Mas eu falei do título e não retomei... a tradução de Ikoku Nikki é algo como Diário de uma Terra Estrangeira. Espero que quando o mangá aparecer por aqui, porque eu acho que virá, a opção seja nesse caminho. Na imaginação de Asa, a casa da tia, as amigas que ela tem, a própria Makio representam essa terra estrangeira. É tudo como um deserto, às vezes com alguma construção exótica, as personagens vestidas com roupas não-japonesas e falando uma língua incompreensível. A menina precisa se acostumar com adultos que são muito diferentes da mãe, sempre correta, sempre fazendo tudo o que dela se esperava, inclusive aceitar que o pai de sua filha não desejava casar oficialmente com ela, e o pai que estava lá, mas parecia sempre um tanto ausente. Aliás, fica meio que inferido que a relação entre as irmãs - Makio e Minori - era tensa porque uma sempre se dobrava ao que dela era esperado, enquanto a outra, nossa protagonista, mesmo sofrendo, mesmo um tanto perdida em seus sentimentos, queria construir seu próprio espaço nesse mundo.
E Makio é complicada. Seu apartamento é caótico, sujo, desorganizado. Ela está sempre focada em sua escrita e é uma novelista de sucesso. Apesar de preferir o isolamento, ela tem amigas, como Nana Daigo; ela não se isola no seu mundo totalmente, mas ela tem uma necessidade de espaço que termina por causar alguns problemas na relação dela com Asa. Agora, o pior é que ela não consegue se conectar totalmente com o sujeito que provavelmente é o homem de sua vida, Shingo Kasamichi. Como os adultos de nossa história têm problemas, têm traumas, mas são adultos de verdade, eles tentam resolver seus problemas e dialogar. Kasamichi é um dos meus favoritos e a conversa dele com o rapaz do Conselho Tutelar (*ou seu similar japonês*) sobre masculinidades e pressões que os homens sofrem para se enquadrar, inclusive objetificando as mulheres para serem aceitos pelos outros machos, foi um dos pontos altos do seriado.
Falando do moço do Conselho Tutelar, a série também se preocupa em explicar algumas questões legais japonesas. Kasamichi trabalha em um banco, Makio recorre a ele para entender como lidar com a questão dos bens dos pais de Asa. Já o moço do conselho tutelar, Kasunari Touno, é um novato, que deseja fazer o seu melhor trabalho e serve de conselheiro para Asa. Ele tem que fazer visitas regulares e tenta compreender a dinâmica estabelecida entre tia e sobrinha.
E temos as adolescentes. Emiri (*Emily?*) é a melhor amiga de Asa. Sim, daquelas para a vida inteira. Só que, ao entrarem no colegial, elas ficam em turmas diferentes, estabelecem novos laços de amizade e precisam se adaptar às mudanças. Emi cresce dez centímetros, Asa continua baixinha. E a amiga começa a descobrir sua sexualidade e fica confusa. Lamento que a série animada não deixe claro que Asa sabe da orientação sexual da amiga. Nós sabemos, há uma sequência que deixa isso bem evidente, mas Asa descobre no mangá em uma parte que não foi adaptada.
A primeira pista clara, no entanto, é quando Makio, sempre perceptiva e sempre parecendo um tanto desinteressada da vida alheia, dá para Emi o DVD do filme Tomates Verdes Fritos (1991). Quem conhece esse filme, uma das pérolas do cinema norte-americano dos anos 1990, entenderia de saída do que se tratava o drama da menina. Mas há outras pistas, a recusa de Emmi de conversar sobre garotos com Asa, a irritação da menina quando lhe falam de casamento ou quando ela ouve duas colegas conversando que é inútil se esforçar tanto para ter uma carreira se elas vão casar e deixar tudo em segundo plano. Enfim, o afastamento das duas meninas me lembrou um pouco minha relação com a minha primeira amiga.
Houve um momento, quando ela já tinha entrado na adolescência e eu ainda não, porque ela era quase três anos mais velha. Ela arrumou novas amigas, começou a namorar e nos afastamos. Isso doeu muito mais em mim, acredito, porque eu tinha uma única amiga, mas terminamos por nos reconectar, redimensionamos a nossa amizade, a forma como nos relacionávamos e são mais de 50 anos de amizade, algo que valorizo muito.
Enfim, como a série parece ter sido planejada somente para os treze episódios, afinal, animes shoujo e josei raramente recebem outras temporadas, a gente não vai saber muito da vida dos colegas de turma de Asa, mas alguns deles recebem algum destaque. Um dos meninos, acredito que Yoshimura, é mostrado saindo do clube de baseball. Mesmo sendo muito bom no esporte, ele não suporta a tal construção da masculinidade pela violência, usando o bullying e a humilhação como forma de estabelecer as hierarquias. Mas ele não sai fugido, ele sai de cabeça erguida deixando muito claro o motivo de estar largando o clube. Isso, no entanto, não o impede de sofrer e ele não parece nada bem ao observar Asa cantando no último episódio.
Mas quem recebeu atenção maior foi Chiyo Morimoto e seu drama pessoal, que não é somente dela, mas das mulheres japonesas e quem mais se preocupa com equidade de gênero, se estendeu pelos últimos quatro episódios da série, começando no 8 de Março, Dia Internacional das Mulheres. Morimoto, com quem Asa sipatiza e está na sua turma, é uma aluna brilhante e deseja ser médica como seus pais. Ela faz cursinho, assim como Emiri, e está focada em atingir seu objetivo. Asa admira a menina, porque ela mesma ainda não conseguiu se decidir sobre suas escolhas de futuro.
O episódio do 8 de Março termina com a menina descobrindo um escândalo: faculdades japonesas passaram vários anos diminuindo as notas das candidatas mulheres no vestibular para terem no máximo 30% dos calouros. Não sei se a faculdade que aparece no anime existe, mas não foi somente uma, foram várias, uma delas, a Universidade Médica de Tokyo, emitiu nota na época dizendo que a ação era "um mal necessário". Já a escola de medicina da Universidade de Juntendo afirmou que era justo exigir mais das candidatas mulheres, porque elas eram menos capazes que os homens. Eu comentei no blog uma pesquisa que dizia que parte das médicas japonesas compreendia a medida, afinal, elas casam, engravidam e se dedicam menos à profissão que seus colegas homens. O machismo é estrutural, ele precisa da adesão das mulheres para que os homens continuem com seus privilégios. O mangá começou a ser publicado em 2017. O escândalo explodiu em 2018.
Morimoto tem um colapso nervoso e desaparece da escola e do cursinho. Os colegas se preocupam, afinal, ela pode perder o ano. E um dos colegas de turma, Yuuto Tougou, toma coragem e pede o contato de Morimoto para uma das colegas mais próximas a ela. Ele faz contato, parece gostar da menina, e ela volta. Quando ela retorna às aulas, tive medo de que ela se matasse por conta de uma conversa dela com Asa, mas as coisas, pelo menos na série, parecem ter se ajustado. Já Tougou mostra para Morimoto um abaixo-assinado para que as universidades sejam responsabilizadas e diz que o problema não era somente das mulheres, mas de todos na sociedade que se preocupam com aquilo que é justo. O menino, que tem um rosto comum, bem monótono, até brilhou muito nas suas poucas cenas.
Até para que vocês tenham noção do que aconteceu nesse caso, em 2019, as mulheres superaram as notas dos homens nos vestibulares de medicina do país. No caso da Faculdade de Medicina de Tokyo, 20.4% das candidatas mulheres foram aprovadas se comparado com 2,9% no ano anterior. Foram SETE ANOS de superioridade masculina. Imagine quantas jovens tiveram seus sonhos frustrados por essa política misógina? Enquanto isso, rapazes menos preparados ou capazes ficaram com suas vagas. A depressão de Morimoto é plenamente justificável. Em 2022, algumas candidatas conseguiram ganhar processos na Justiça japonesa e o direito de indenização.
Eu só consegui concluir até o momento dois dos animes da temporada, o outro foi Hana-Kimi (花ざかりの君たちへ), que está com texto em andamento faz mais de uma semana e terá uma segunda temporada, no entanto, até onde observei, Ikoku Nikki foi o melhor programa da temporada. Denso, exigente, mas ao mesmo tempo sensível, com personagens cativantes e humanas. Nada do que foi colocado em tela parecia fantasioso e poderia ocorrer no mundo real. Com algumas adaptações, Ikoku Nikki poderia se passar no Brasil, sem problema. Estou com o filme live action no meu HD, ele é de 2024. Espero conseguir assistir e resenhar para o blog e vou ler o mangá, porque quero saber o que será de Makio, Asa, Kasamichi, Emiri, Morimoto etc. no material que não foi coberto. Sentirei muita falta dessa série, fazia tempo que uma animação japonesa não exigia tanto de mim e me oferecia tanta compensação pela minha atenção.
sábado, 2 de agosto de 2025 at 1:22 AM
Uma história sem fundamento, repetida à exaustão no Brasil, é a de que professores são tão venerados no Japão que são os únicos que não se curvam diante do imperador. Na verdade, conforme fui mergulhando nas leituras sobre a sociedade japonesa, me espantei em descobrir que a vida dos professores no Japão é dura e mal paga, especialmente, se o país é comparado com outros da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico). Se pegarmos os 38 países do grupo, o Japão não vem na rabeira, mas está longe do topo. Só que há um detalhe a ser observado, dentro da OCDE, os professores japoneses são os que trabalham mais horas semanais com os piores salários proporcionalmente. Vou postar a matéria do Sora News, depois, volto para comentar mais:
"Conselho de educação emite pedido de desculpas a crianças por danos emocionais causados pelo fato de seu professor ter um emprego de meio período.
É difícil não se sentir desanimado ao ouvir sobre um professor do ensino fundamental sendo repreendido por comportamento inadequado. O educador estaria envolvido em algum tipo de ato sexual impróprio envolvendo um aluno? Ou talvez seja um caso de abuso físico, com um professor descontando suas frustrações nos alunos, dando-lhes tapas após ser percebido um ato desrespeitoso.
Descobrir que o incidente que causou problemas ao professor ocorreu em uma loja de conveniência é um pouco reconfortante, mas só um pouco. Possibilidades como ser pego furtando ou assediando funcionários também não são boas para um educador, assim como as inúmeras formas de caos alimentadas pelo álcool que podem acontecer em lugares que vendem bebidas e ficam abertos a noite toda.
No entanto, nenhum desses cenários foi o que aconteceu no início deste mês, quando um professor do ensino fundamental da Prefeitura de Okayama foi flagrado em uma loja de conveniência fazendo algo indesculpável aos olhos da administração escolar: trabalhando.
Em 4 de julho, alguém contatou o Conselho de Educação da Cidade de Okayama para relatar que tinha visto um homem de 60 anos, professor de uma das escolas públicas de ensino fundamental da cidade, trabalhando em uma loja de conveniência em Kurashiki, a cidade vizinha. No dia seguinte, o diretor da escola onde o homem leciona foi até a loja de conveniência e confirmou pessoalmente que o professor estava trabalhando lá, confrontando-o sobre o assunto.
Para esclarecer, o homem não estava matando aula para ir trabalhar na loja. A pessoa que o denunciou ao conselho de educação o viu na loja fora do horário escolar, e o dia em que o diretor o flagrou trabalhando na loja de conveniência foi um sábado, o dia de folga do professor. O tipo de trabalho que ele realizava também não era um problema. Ser balconista de loja de conveniência é amplamente visto como um trabalho respeitável e honesto no Japão, um país onde a imagem básica dos trabalhadores do setor de serviços é a de indivíduos honestos e corteses.
Não, o problema era que o homem estava realizando qualquer tipo de trabalho além de seu trabalho regular como professor na escola.
Não é incomum que contratos de trabalho no Japão incluam regras que proíbem trabalhos paralelos. Essas cláusulas também não são necessariamente cláusulas de não concorrência, como o compromisso de não trabalhar simultaneamente para outra organização cuja promoção e sucesso sejam prejudiciais ao empregador principal. Em vez disso, são promessas genéricas e generalizadas de não ganhar dinheiro fazendo outra coisa.
Presumivelmente, a lógica é que o empregador quer que o trabalhador concentre toda a sua energia em seu trabalho principal, encarando um trabalho paralelo como algo que reduzirá o foco e o tempo de recuperação necessários para mantê-lo trabalhando em ótimas condições, ou teme que seus clientes/usuários vejam as coisas dessa forma e percebam que permitir que os trabalhadores tenham um segundo emprego é uma falta de comprometimento em fornecer a melhor qualidade.
Aplicado a este caso, a escola aparentemente pensa que um professor que trabalha em um segundo emprego fará um trabalho ruim ao dar aulas, ou pelo menos quer evitar que os pais tenham esse medo.
Depois que o professor foi flagrado pelo diretor, veio à tona que ele trabalhava meio período em uma loja de conveniência, fora do horário escolar, desde novembro de 2023. No total, ele ganhou cerca de 1,7 milhão de ienes (pouco menos de US$ 12.000) [1], com seus meses mais lucrativos em torno de 130.000 ienes. Não é exatamente um salário para viver no luxo, e quando questionado sobre o motivo de ter aceitado um segundo emprego, o professor disse que o fazia para "complementar seus rendimentos, em resposta às suas condições de vida" após sua "recontratação". Isso pode soar como se ele já tivesse sido flagrado em algum tipo de violação trabalhista antes, mas, na verdade, o termo se refere a uma prática trabalhista comum no Japão, em que os trabalhadores são demitidos por seus empregadores ao atingirem a idade de aposentadoria e, em seguida, são recontratados para fazer essencialmente o mesmo trabalho, mas com um salário reduzido.
“Independentemente da minha situação pessoal, minha conduta prejudicou a confiança dos educadores públicos e a ética profissional”, disse o professor em um comunicado de desculpas, “e lamento profundamente minhas ações”. Enquanto isso, o chefe do Conselho de Educação da Cidade de Okayama declarou: “Pedimos profundas desculpas pela grande angústia e preocupação causadas às crianças, seus responsáveis e a todos os moradores da cidade”, prometendo tomar medidas para garantir que tal incidente não se repita e “fazer esforços para restaurar a confiança no sistema educacional”.
Agora, admito prontamente que fui um adolescente muito cínico, e provavelmente seria um exagero dizer que me livrei de todos os vestígios dessa atitude depois de me tornar adulto. Ainda assim, tenho dificuldade em imaginar alunos do ensino fundamental acordados à noite, sem conseguir dormir, não porque estejam preocupados com provas, valentões ou se a paixonite gosta deles, mas agarrados aos travesseiros enquanto sussurram ao luar, com as vozes sufocando as lágrimas: "Eu simplesmente NÃO acredito que meu professor também trabalha em uma loja de conveniência... Como ele pôde?". Então, pedir desculpas às crianças parece uma demonstração desnecessária de arrogância, no que na verdade é mais uma tentativa de apaziguar pais possivelmente chateados, especialmente quando nenhuma crítica foi feita, pelo menos publicamente, quanto à qualidade real das aulas que o professor estava dando.
No entanto, o homem indicou que planeja se demitir do cargo de professor por causa do incidente. Ele também parou de trabalhar na loja de conveniência como parte da consequência, então ele está prestes a passar de duas fontes de renda para nenhuma, e como ele aparentemente não tem uma reserva grande o suficiente para se aposentar, parece que ele precisará procurar um novo emprego, mas pelo menos ele estabeleceu suas credenciais como alguém que trabalha duro."
Há muita informação na matéria. Existe o falso moralismo em relação ao fato do professor trabalhar em um segundo emprego causar alguma forma de angústia nos alunos e alunas. A matéria, aliás, comenta que nenhuma queixa foi feita sobre a qualidade das aulas do professor. Outro ponto, é que o salário de professor somente não é capaz de suprir as necessidades do homem, que já tem sessenta anos, é aposentado, mas foi recontratado para continuar trabalhando com um salário menor.
Não consegui descobrir se ao aceitar a recontratação, a pensão referente à aposentadoria fica suspensa, mas eu sei, porque tive que pesquisar sobre isso, que aposentados não recebem pensões confortáveis no Japão. Se você trabalha durante 40 anos no Japão, recebe pensão integral. Se você se aposenta aos 60 anos, recebe 76% do valor, se se aposenta com mais de 75 anos é bonificado e recebe uma pensão que equivale a 184% do valor médio que e de 816 mil ienes anuais [2], que já podem estar desatualizados, ou variar de acordo com a função, ou seja, há quem ganhe mais e quem ganhe menos. De qualquer forma, temos um idoso sendo obrigado a trabalhar em um segundo emprego por não conseguir se sustentar. Com o escândalo gerado, ele terminou perdendo os dois empregos, o que piorou ainda mais a sua situação. A matéria não comenta o motivo pelo qual ele se aposentou aos 60 anos, mas algum deve haver.
Em 2021, a remuneração média anual de um professor do Ensino Médio no Japão era de U$62.670,37 e o país estava atrás de Luxemburgo, Alemanha, Coreia do Sul, Estados Unidos, Portugal, Canadá, México e Dinamarca. Só que, conforme encontrei, os salários variam a depender do lugar onde você trabalha. Quem leciona em Tokyo recebe mais do que quem trabalha em uma cidade menor, ou no interior. Fora isso, como acontece no Brasil, quem trabalha no ensino médio recebe mais do que quem está no Fundamental II, que recebe mais do que quem está no Fundamental I, que ganha mais do que quem trabalha com a Educação Infantil. É injusto, pelo menos na minha percepção, porque professores que trabalham com crianças menores se desdobram muito mais do que eu, que trabalho com adolescentes mais velhos. De qualquer forma, quando pegamos a média de todos os segmentos, a colocação do Japão na OCDE piora bastante.
Pegando a média de remuneração todos os segmentos, o Japão fica atrás de Luxemburgo, Alemanha, Dinamarca, Áustria, Holanda, Austrália, Turquia, Estados Unidos, Espanha, Noruega, Canadá, Finlândia, Irlanda, Nova Zelândia, França, Portugal, Coreia do Sul, Lituânia, Itália e Eslovênia. E, só para recordar, o salário no Japão ainda varia depender de onde você está e os professores do país são os que mais trabalham proporcionalmente dentro da OCDE. Em 2018, professores chegavam a trabalhar 11 horas por dia. E deve variar aa depender do que você leciona também, eu imagino. E é fácil encontrar informação sobre salários de professores de inglês e que a remuneração seria melhor nos Estados Unidos (*1 - 2*).
Enfim, ser professor é um trabalho complicado em todo lugar do mundo, eu imagino, mas sempre acho engraçado quando as pessoas romantizam a educação no Japão e ficam imaginando que o magistério lá é viver em um mundo perfeito. Até bico professor faz por lá, assim como faz por aqui. E ninguém faz bico, tem mais de um emprego, se não estiver apertado. Espero que esse colega japonês não venha a passar mais necessidades por causa dessa canalhice que fizeram com ele.
[1] Em uma cotação de U$1,00 = R$5,60, o valor seria R$67.200.
[2] Algo como R$30.461,07.
sábado, 20 de abril de 2024 at 12:36 PM
sexta-feira, 29 de março de 2024 at 4:24 PM
Acompanho dois perfis no Twitter (@DoomScroling e @ask_aubry) que repostam absurdos postados pela extrema-direita cristã fascista (que muitas vezes não ousa dizer o nome) norte-americana. Coloquei três prints de um tópico começado por uma figura chamada @godlywomanhood. É uma senhora de 50+ que defende que mulheres tem um destino estabelecido por Deus, serem esposas, mães e donas de casa e somente isso. Cheguei nela, porque um dos perfis que sigo repostou um post da tal mulher defendendo que alguém que lhe pediu conselho não denunciasse o marido por estupro marital, que ela perdoasse e esquecesse. Enfim, mas eis que ela fez um post que me chamou a atenção, falando de escola e como elas não são feitas para meninos:
"As escolas feminizam os meninos, fazendo-os sentar-se em cadeiras a maior parte do dia; ler, escrever e coisas que as meninas gostam. Os meninos PRECISAM correr, pular, criar e construir. Eles são construídos de forma diferente das meninas. As escolas foram feitas para meninas, não para meninos. Traga seus meninos para casa e deixe-os ser meninos!"
Pergunto-me então, o que os meninos vão aprender. Marcenaria? Serem ferreiros? Camponeses? Estão pensando em qual tipo de educação? Uma medieval, talvez? Li um artigo sobre educação dos camponeses na Idade Média que ponderava que para uma família de artesãos, ou camponeses não fazia muito sentido enviar seus filhos e filhas para a escola, a educação deles não precisava ser formal, por assim dizer. Para quê um garoto filho de um camponês precisaria aprender latim, por exemplo? Até tropecei em um artigo sobre educação na Inglaterra medieval enquanto escrevia este texto, que afirma que somente um dos filhos de um servo, isto é, um camponês que não era livre, poderia ser mandado para a escola, desde que fosse se tornar padre. Isso só teria mudado no século XV, quando essa condição foi suspensa.
E, sim, havia escolas públicas básicas em algumas cidades medievais. Poderiam ser mantidas pela municipalidade, pela igreja, por gente rica, isso variava muito. Mas uma família camponesa, mesmo se não tivesse que pagar taxas, teria que arcar com o alojamento de seu filho na cidade, era dispendioso enviar alguém para a escola. Ainda assim, há farto material de famílias camponesas inglesas do século XIV pedindo permissão ao senhor para enviar um de seus filhos para a escola na cidade próxima. O senhor poderia, ou não, permitir, se deixasse aquele menino certamente estaria destinado a ter uma certa ascensão social, seja como padre, ou outra profissão que exigisse uma educação formal. Esses meninos meninos que esta senhora diz que precisam ser retirados da escola, irão estudar e aprender o quê? Não faço ideia.
Pois bem, que tipo de escola tínhamos na Idade Média (500-1500 AD)? Eram horas sentado lendo, escrevendo, aprendendo a contar e por aí vai. Temos fontes – escritas e imagéticas – suficientes mostrando que o modelo de escola, todos sentados em fileiras ou em círculo, seus livros e anotações nas mãos, não mudou muito. Então, o que incomoda essas pessoas na escola? A bronca é somente com a escola pública? Nas particulares seria diferente? Passemos ao segundo comentário, percebam a bandeirinha de Israel, o significado em um perfil é o mesmo que temos por aqui, a pessoa diz que lecionou por vinte e cinco anos em uma escola pública:
"Lecionei em escolas públicas, alunos do 5º/6º ano por 25 anos, esta é uma afirmação 100% verdadeira. Salve seus meninos, tire-os das escolas públicas. As escolas públicas são totalmente contra a masculinidade. Quanto mais masculino um menino, mais ele é discriminado hoje na escola."
O terceiro comentário é somente aplauso, mas o quarto é uma pérola e sinaliza o que incomoda essas pessoas DE VERDADE. A autora do post não o contestou, ele já tinha alguns likes e somente duas pessoas mostraram indignação e ele continua lá postando mais material do mesmo calibre para pior. Segue o post e há muito na imagem a se comentar:
"😂Isso foi o que aconteceu nas escolas o dia todo"
Olhando a imagem, ela é muito rica. Há um rapaz branco, identificado como ariano, ele é obrigado a engolir “O Diário de Anne Frank” e há outros materiais que falam de Holocausto, tolerância, e coisas que incomodam uma fatia desse público dito conservador em cena. O professor, parece ser negro, mas se você atentar bem, ele tem o nariz adunco e os pequeninos olhos (*olhos de porco*), que as ilustrações nazistas colocavam nos judeus. A ilustração grita antissemitismo e, claro, racismo em todos os detalhes e pode ser inserida dentro da produção de material antissemita que bebe nesse passado nazista e circula na internet nos nossos dias. O que a escola pública, e estou mantendo a terminologia usada por eles, deve estar fazendo de errado, então, deve ser ensinar sobre Holocausto, tolerância e que todos são humanos. Talvez seja isso. E, repito, já se passaram horas e a dona do post não fez nada.
Mas, enfim, defendendo o homeschooling somente para garotos, ou sabe-se lá o que essas pessoas estejam querendo, lembrei do documentário Felicidade aparente – Os Segredos da Família Duggar e como explicam que o primeiro impulso à educação domiciliar veio nos anos 1960, quando da luta pelos direitos civis. Era preciso livrar as crianças brancas, meninos e meninas, do contato com pessoas inadequadas, afinal, as escolas públicas estavam deixando de ser segregadas e ensinando conteúdos que colocavam em questão ideias racistas e que admitiam que a cidadania era para todos. Ensinar a um menino que as mulheres são seres humanos como eles são deve ser realmente muito ofensivo.
Mas este pessoal que quer tirar os meninos da escola é mais radical, ou alucinado, não sei, porque há uma corrente mais pé no chão e que se fia em supostas descobertas científicas que defende salas de aula separadas, meninos de um lado e meninas do outro. A ideia é que homens e mulheres são seres naturalmente diferentes e que aprendem de formas distintas. Colocá-los juntos traria prejuízos ao aprendizado de ambos, mas, claro, especialmente, dos meninos. Este tipo de proposta tem adeptos nos Estados Unidos, onde as escolas públicas já tendiam a ser coeducacionais em meados do século XIX, e há experimentos em andamento em estados como a Flórida, principalmente.
Eu lembro de ter lido sobre a questão quando fazia Sociologia da Educação, eram textos de sociólogos australianos, eles defendiam escolas separadas, mas para o benefício das meninas, porque em ambientes seguros e com o estímulo necessário, elas poderiam desenvolver suas plenas potencialidades. Defendo a coeducação como forma de ensinar igualdade e respeito, mas os textos que li na licenciatura não eram norteados em ideias obscurantistas, mas em dados quantitativos e qualitativos coletados no sistema educacional britânico e australiano por mais de uma década. Agora, o que temos é o uso (pre) conceitos para segregar meninos e meninas para, supostamente, garantir que meninos sejam meninos e meninas sejam meninas. Se existe ideologia de gênero, ela está em ação exatamente aqui.
De qualquer forma, é a primeira vez que vejo alguém defendendo que a escola é para meninas e que os garotos devem ser tirados do ambiente escolar convencional. Ler, escrever, sentar para estudar é coisa de menina. Tantos séculos excluindo e cerceando o direito das mulheres À educação formal e, agora, essa. Esse povo é muito estranho e perigoso, também, claro.
sábado, 9 de dezembro de 2023 at 8:48 AM
Quando prestei vestibular, Rio de Janeiro, 1992, nenhuma das universidades públicas (*eu só tentei para elas*) tinha lista de leituras, mas a FUVEST, na época, já fazia a sua. Fora isso, no meu Ensino Médio (*antigo Segundo Grau*), não li nenhuma autora brasileira, meu excelente livro do José de Nicola só começava a falar delas no século XX. Eram todas mulheres socialmente brancas, bom marcar: Raquel de Queirós, Lygia Fagundes Telles, Cecília Meirelles, Clarice Lispector. Só lembro mesmo dessas quatro. Criava-se a impressão de que não haveria escritoras mulheres antes do terceiro ano do ensino médio e, mesmo assim, elas eram muito poucas.
Fui conhecer várias autoras já na faculdade e na pós-graduação, minha área é de Estudos Feminista e de Gênero, então, a gente tropeça nessas coisas e começa a refletir sobre os motivos da exclusão. Acho que poucos casos de invisibilidade me indignaram tanto quanto o da romancista Júlia Lopes de Almeida, que ajudou a criar a ABL, mas terminou sendo deixada de fora por ser mulher. Como consolação, deram uma cadeira para seu marido, considerado um poeta menor. Tivemos que esperar muito tempo para que editoras, primeiro independentes, inclusive a antiga Editora Mulheres, começasse a publicar essas mulheres brancas; só muito mais recentemente, as autoras negras começaram a receber atenção.
Estamos em 2023 e a USP anuncia algo revolucionário e chocante, uma lista formada por 100% de mulheres autoras. Ela ficará em vigor por 100 anos? Não, não, somente três, 2026, 2027 e 2028. Não acompanhei o incômodo no Twitter, deve ter acontecido alguma gritaria, mas esbarrei em uma matéria da Folha de São Paulo intitulada "Escritoras criticam lista do vestibular da USP só com livros de mulheres", logo a seguir, um reforço "Editora feminista diz que excluir autores dos séculos 18 e 19 pode mascarar o machismo da literatura da época; professores cobram transparência na escolha das obras.".
Olha só! Uma feminista não gostou da lista! Ela deve ter problema, certo? Feministas, aliás, vocês sabem, são sempre chamadas para opinar e são ouvidas. Professores também não gostaram! Eu, como professora, sei o quanto somos convidados para interferir nesse tipo de coisa, afinal, somos fundamentais no processo de ensino e aprendizagem. Espero que entendam a ironia, mas rarissimamente professores do ensino básico são ouvidos para qualquer coisa, pois não somos tratados como especialistas em educação, mas executores de políticas de quem realmente sabe o que a gente tem que fazer em sala de aula e quais são os currículos a serem ensinados.
No fim das contas, somente duas mulheres vistas como qualificadas falam na matéria. Vou reproduzir-lhes as falas, mas não irei escrever os seus nomes, eles estão na matéria. A que mais é ouvida, começa logo assim: "E eu sou superfeminista, milito por mil coisas para as mulheres, de aborto a sistema prisional. Mas, nessa questão da lista, acho que há pontos importantes a serem refletidos" e segue "A lista da Fuvest realmente teve a predominância de homens por muitos anos. Mas, ao mesmo tempo, fazer agora uma lista só com obras de mulheres exclui autores fundamentais e fundantes da literatura brasileira." Depois, continua com "Agora, finalmente, Machado é reconhecido como um autor negro, depois de anos em que isso foi omitido" e arremata "No tempo de Machado, havia menos mulheres escrevendo do que homens. Uma lista da Fuvest só com mulheres, de certa forma, mascara o machismo daquele período (...) hoje em dia, as mulheres têm mais espaço na literatura, daqui a 30, 50 anos, vamos ter essas autoras refletidas em uma lista de cânones".
Começo tendo que comentar que professores são inúteis, porque não devem comentar em sala de aula que as mulheres eram obstruídas nos cursos secundários e superiores, casavam-se cedo no Brasil (*com exceções*) e eram tolhidas, quando de boas famílias, de exercerem atividades profissionais. Imagino que, na cabeça da entrevistada, a lista com 100% de mulheres não será lida como um manifesto, mas como cortina de fumaça. Mas a coisa vai além disso, claro!
Então, que tal, da próxima vez, uma lista só com escritores negros e negras, ein? Quanto ao sentar e esperar, porque as mulheres estão tendo mais visibilidade, é negócio risível, afinal, a introdução das autoras no cânone não se deu sem disputas, sem pressão, sem uma série de obstáculos que se materializam nos livros didáticos e nas poucas mulheres na ABL. Para essa superfeminista, talvez os direitos das mulheres tenham sido dados e, não, conquistados.
Voltando para a última fala dessa entrevistada, que é dona de editora, ela diz o seguinte: "Por que não priorizar as mulheres, deixá-las, por exemplo, com 70% da lista? Ou então aumentar essa lista, inclusive acrescentando mais autoras, em vez de torná-la excludente?" Sim, sim, claro! Eu até poderia concordar parcialmente, manter alguns homens poderia dar uma melhor ideia da literatura brasileira, mas a acusação é de exclusão. Uma lista só com mulheres é excludente, uma só com homens será que geraria esse incômodo todo? Parem para pensar.
A outra entrevistada é uma professora da UNICAMP, porque, como pontuei lá em cima, quem dá aula no ensino médio não seria chamado a opinar em assunto tão sério. Ela estuda práticas de leitura no Ensino Médio e é especializada em Machado de Assis. Ela começa com o seguinte: "Ao negar a inserção de obras criadas por homens na lista das leituras, a decisão é excludente, não só em relação aos homens, mas também em relação a outros gêneros".
Gêneros textuais? Identidades de gênero? De que estamos falando aqui? Ainda bem que esta não se identificou com um "sou super feminista". Alívio, né? De qualquer forma, supondo-se que sejam gêneros textuais e, não, dar visibilidade a autores e autoras trans, vão parar de ensinar Barroco e Arcadismo por causa disso nas escolas de Sâo Paulo? Vão parar de ler os Românticos, Realistas, Naturalistas, Parnasianos, Simbolistas por causa da FUVEST? Vai sair do currículo?
Sim, talvez uma lista 100% feminina não dê conta da literatura brasileira, e eu ainda estou sentindo falta da Maria Firmina dos Reis (Úrsula), primeira romancista brasileira, mulher negra, mas por qual motivo isso incomoda tanto? Mais ainda, por qual motivo o jornal tem que chamar mulheres para externá-lo? Simples, malandramente o jornal percebeu que se fossem homens falando ficaria evidente que a rejeição não se pauta por critérios técnicos, mas por machismo e/ou misoginia. Mulheres especialistas, uma delas se identificando como feminista (*Ela é a favor do aborto, gente!*) dá legitimidade ao conteúdo da Folha. Sim, minorias políticas são excelentes para cumprir esse papel.
A professora da UNICAMP vai além (*ou a Folha selecionou trechos muito específicos de sua entrevista*) e ataca a comissão que fez a lista: "é preconceituosa em relação às próprias escritoras mulheres, cujas obras não dependem de um processo seletivo de vestibular para serem valorizadas e para afirmarem sua qualidade estética", "a decisão da Fuvest é um equívoco que desconhece a natureza e a função da literatura". "A obra literária resulta da reflexão de seu autor ou de sua autora sobre experiências humanas, situando-as em determinado tempo e lugar, e oferece ao leitor a possibilidade de vivenciar outros mundos, de exercitar o conhecimento próprio." "Para a seleção de obras literárias, afirma, o fato de o autor ser homem ou mulher "não pode se sobrepor à capacidade humanizadora"".
Imagina esses argumentos sendo utilizados quando os autores selecionados são todos homens... As autoras escolhidas são ruins? É isso? Será que uma Nísia Floresta ou uma Júlia Lopes de Almeida, ou qualquer das mulheres da lista não se qualificam para integrá-la? Elas não expressão as ideias e sentimentos de sua época? De sua classe social? Homens escrevem do seu lugar masculino de privilégio e são lidos por todos e todas, porque as mulheres não podem ser? Ou homens não escrevem do seu lugar de homem? Eles seriam neutros em relação ao seu sexo, formação intelectual, classe social? Será que as leituras de literatura brasileira no Ensino Médio não são direcionadas de sala de aula? É escolha eletiva? Não parece ser assim como as gerações de alunos que acompanhei, nem era bate com a minha experiência de estudante. Na maioria dos casos, salvo raras exceções, a gente depende que o professor ou professora nos apresente o autor.
Querem ver, todos os meus alunos conhecem Maria Firmina dos Reis, porque, até esse ano, ela estava na lista da UnB. Deve sair para o ano que vem. Se não estivesse, talvez, não tivesse sido apresentada a eles e elas. Tenho alunos e alunas que leem muito, mas por vontade própria raramente são livros de autorres e autoras nacionais. Quando eu era estudante, li por obrigação: Iá Iá Garcia (Machado de Assis), A Viuvinha e os Cinco Minutos (José de Alencar), O Guarani (José de Alencar), Esaú e Jacó (Machado de Assis) e O Cortiço (Aluísio de Azevedo). Isso no 1º e 2º Ano, porque no 3º era Pré-Vestibular e, no Rio, bastava saber as características dos autores. Mas eu amava o meu livro de literatura e pedi para a minha mãe O Ateneu (Raul Pompeia) e Helena (Machado de Assis). Na minha casa, já havia Memórias Póstumas de Brás Cubas (Machado de Assis). Foi o que eu li a mais da nossa literatura. As Três Marias, li aos 9 anos, porque minha mãe me deu, mas não é leitura para criança e tive que reler adulta para saborear o livro, tem resenha no blog. Ou seja, até a universidade, só li uma autora brasileira, Raquel de Queirós, e mal, porque no momento errado. Não consigo engolir essa história de excludente e impositivo, quando toda a dinâmica do ensino de literatura é assim desde, sei lá, sempre?
Ninguém vai esquecer de Machado de Assis, porque ele vai ficar fora da FUVEST por três anos, ele é muito maior que qualquer vestibular e deveria continuar sendo ensinado em sala de aula. Ou em São Paulo as coisas são diferentes do Rio e de Brasília? Só ensinam o que está na lista, é isso? O problema, então, leitores e leitoras, não é a lista, é o ensino de literatura no Estado de São Paulo. Agora, certamente, as editoras podem lucrar menos se certos figurões estiverem fora das listas do maior vestibular de São Paulo. Será que não é essa a razão de tanta indignação por parte do jornal e, talvez, das entrevistadas? Se a FUVEST não pede o cânone e tudo gira em torno dele, alguém vai perder dinheiro, vai lucrar menos.
E quem sabe a essa lista 100% feminina se segue uma somente com negros e negras? A matéria não deu voz à reclamação de que somente agora (*caramba, isso não tem pelos menos uns 15 anos? Eu lembro da propaganda polêmica da Caixa Econômica.*) descobriram que Machado de Assis é negro. Seria legal, não seria? Dava para recolocar Machado em seu merecido trono e, ao mesmo tempo, dar espaço para outros autores e autoras negros de relevo. Resumindo, o problema da lista não é a lista. O problema está em outros lugares.
quinta-feira, 7 de dezembro de 2023 at 1:30 PM
Para alguns pode ser confuso, mas há ensino público que não é gratuito. Por exemplo, eu leciono em uma escola do Exército, um colégio militar de ensino Fundamental II e Médio, no qual há mensalidade. Normalmente, em escolas públicas que não são gratuitas, os valores das mensalidades estão muito abaixo dos preços de mercado, além disso, sempre há estudantes que podem ser dispensados do pagamento. As propostas que existem para as universidades públicas brasileiras é que elas passem a ser assim, porque, lá nos primórdios, havia taxas a ser pagas e que só foram proibidas de todo na constituição de 1988.
No Japão, a educação é compulsória e gratuita por 9 anos, aos 15 anos um adolescente pode deixar a escola. Obviamente, a maioria não o faz, porque seria praticamente impossível conseguir um bom emprego. O Sora News trouxe uma matéria comentando esses detalhes e informando que, a partir do início do próximo ano letivo, em abril, as escolas de ensino médio em Tokyo serão gratuitas, mesmo para os que podem pagar.
É importante essa ênfase do texto do SN, porque é uma ideia que temos por aqui na cabeça de alguns, se pode pagar, não deve ser isento. O fato é que público, do latim "publicus", "relativo ao povo", ou “aberto a toda a comunidade”, implica em ser "para todos" e, não somente, para os que podem pagar. A ideia geral é que a educação é um direito e, não, um privilégio, ou produto. No Japão, são isentos das taxas famílias que recebem menos de 9.1 milhões de ienes (US$ 61.900) anuais. Yuriko Koike, a governadora de Tokyo, comunicou, também, que os alunos das escolas particulares receberão um subsídio que servirá para diminuir o peso financeiro das famílias.
O Japão é um país com um índice de natalidade entre declinante e estável em níveis muito baixos. Acredito que isentar as famílias de taxas nas escolas públicas é um incentivo para que, talvez, as pessoas pensem em um segundo filho já calculando os gastos em investimento com a criança. Vamos ver se a coisa se amplia, porque, na maioria dos países, todo o ensino básico oferece a modalidade pública e gratuita, deixando as discussões sobre taxas para o ensino superior. Nesse sentido, a legislação japonesa é bem arcaica e já é hora de começar a mudar.
terça-feira, 7 de novembro de 2023 at 9:12 AM