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terça-feira, 18 de agosto de 2026

RIP Laura Cardoso e Glória Menezes: Um dia triste para a dramaturgia brasileira

Quando estava dirigindo para o trabalho hoje, ouvi a notícia de que a magnífica Laura Cardoso tinha nos deixado.  Ela estava com 98 anos e faria 99 no mês que vem.  Ela começou sua carreira, contra a vontade do pai e da mãe, aos 15 anos de idade e fez muitos papéis.  Foi atriz de rádio, teatro e TV, alé de dubladora.  Ela foi a primeira voz da Beth dos Flinstones, por exemplo.  E estava lúcida e bem-humorada quando partiu.  Gostava muito de Laura Cardoso, mesmo não tendo nada de nordestina, era filha de portugueses e nascida em São Paulo, ela parecia com a minha avó (*que tem 95 anos*), com as minhas tias, com as matriarcas da minha família.  

E seu papel mais antigo que me vem à memória é exatamente o de uma matriarca nordestina, a Donana, mãe de Soró (Arnaud Rodrigues), da novela Pão-Pão, Beijo-Beijo (1983).  Ela era dura, com valores  morais arcaicos, porém amorosa.  Depois deste papel, lembro dela  como a Marta de Fera Radical (1988) e como a mão das gêmeas Ruth e Raquel de Mulheres de Areia (1993).  Ela preferia a filha malvada e ajudava nas suas armações e crueldades.   E os três últimos papéis de que me lembro são Dona Carmem, em Chocolate com Pimenta (2003-2004); Laksmi, em Caminho das Índias (2009) e eu adoro essa novela; e Dorotéia de Gabriela (2012).  Sei que ela fez outras novelas do Walcyr Carrasco; na verdade, foi ele quem deu a Laura Cardoso seus últimos papéis importantes, quando Cardoso já estava bem idosa.  Goste eu ou não do Walcyr Carrasco, inegável é que ele sempre valoriza os atores veteranos.  Enfim, Laura Cardoso fará falta.

Cheguei no trabalho e comentei do falecimento de Laura Cardoso com uma colega e lembrei de Nathália Timberg e Glória Menezes.  Comentei que esta última parecia muito frágil da última vez que a vi na TV, sempre aparecendo em cadeira de rodas.  Abri a internet e fui checar sua idade; ela era bem mais nova que Laura Cardoso.  Vi que ela e Tarcísio Meira tinham tido COVID-19, que apressou  o falecimento do companheiro de uma vida da atriz, porque é mais fácil lembrar dos dois juntos, porque era algo muito marcante mesmo.  Não lembro da primeira novela que vi com a atriz, mas tenho quase certeza de que foi a Roberta de Guerra dos Sexos (1983).  E recordo muito dela como a Rosemere de Brega & Chique (1987) e a terrível Laurinha Figueroa de Rainha da Sucata (1990).  O último papel de Glória Menezes que acompanhei foi o da Tereza na reprise de Corpo a Corpo (1984-85), que eu tinha assistido quando criança e queria rever.  

Uma das atuações de Glória Menezes que eu gostaria de poder ter observado é o da sua dupla atuação em Almas de Pedra (1966), na qual ela se disfarça de homem para levar a cabo uma vingança, só que nada deve ter sobrado da obra para além de fotografias. E, sim, é inesquecível a sua Marquesa de Santos em Independência ou Morte (1972)! Menezes foi a estrela da primeira novela diária da TV brasileira, 2-5499 Ocupado, da TV Excelsior, de 1963. O fato é que fiquei realmente chocada de abrir o tablet no fim da tarde e ver que ela havia partido, também.  

Um dia triste para a dramaturgia brasileira.  Não me lembro de duas grandes atrizes ou atores terem morrido no mesmo dia.  Sim, ambas já estavam com a idade bem avançada, mas é triste do mesmo jeito.  Acredito que a única coisa positiva é que partiram cercadas por pessoas que as amavam e respeitavam e que serão ambas lembradas pelas gerações futuras, nem que seja por fragmentos de suas novelas que circulam por aí.  RIP pode ser tanto rest in peace (descanse em paz), quanto rest in power (descanse em poder), porque tanto Laura Cardoso, quanto Glória Menezes foram exemplo da força das mulheres na dramaturgia.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Shogakukan SE DESCULPA por publicar autor condenado por estupro sob pseudônimo e retira seu título da plataforma Manga One

Olha, esse caso é de um cinismo fabuloso, porque antes de contar a história já deixo registrado que ninguém irá me convencer de que os editores não estavam cientes dessa fraude.  Muito bem, vamos ao caso nojento.  

A editora Shogakukan suspendeu a distribuição do mangá Joujin Kamen (常人仮面) após descobrir que seu autor,  Ichiro Hajime, era na verdade Shouichi Yamamoto, autor  do mangá Daten Sakusen (堕天作戦). O departamento editorial do aplicativo de mangá da plataforma Manga ONE, que pertence a Shogakukan, anunciou no dia 27 que interrompeu a distribuição digital da série e suspendeu o envio dos volumes encadernados. Um comunicado oficial explicando as circunstâncias e pedindo desculpas foi publicado no site da empresa.  Tudo de forma muito discreta, sem maiores detalhes.

Mas o que o Sr. Shouichi Yamamoto fez?  Segundo informações da imprensa japonesa (*colocarei todos os links no final*), em 2016, Shouichi Yamamoto atuava como professor e iniciou um relacionamento com uma aluna de 15 anos.  Em uma das fontes que eu encontrei em inglês, os abusos foram descritos em detalhes, mas vou poupar vocês e dizer o seguinte: era coisa de mangá hentai guro.  Os abusos se estenderam por três anos.  Shoichi Yamamoto foi preso em 2020 sob a Lei de Proibição de Pornografia Infantil e condenado em processo sumário (multa de ¥300 mil).  Motivo?  Ele gravava e fotografava  os abusos e estupros.  Por  conta  disso, seu mangá Daten Sakusen foi interrompido sem divulgação pública da prisão ou dos crimes, a editora, a mesma Shogakukan, colocou como justificativa um "problema pessoal".  Percebem como protegeram o sujeito?

Em 2021, o editor de Shoichi Yamamoto ofereceu à vítima um acordo de ¥1,5 milhão (aproximadamente 50.220 reais) com uma cláusula de confidencialidade, mas a vítima recusou (*Há suspeita de que ele tenha tentado encobrir outros casos do mangá-ka.*).  A jovem desenvolveu estresse pós-traumático e outros transtornos e acabou sendo expulsa da universidade (*o termo que apareceu foi esse*), imagino que ela não deu conta.  Em julho de 2022, a vítima entrou com um processo civil contra Yamamoto. Em 20 de fevereiro de 2026, o julgamento civil foi concluído com uma sentença que ordenou a Yamamoto o pagamento de 11 milhões de ienes em indenização.  Isso dá mais ou menos 340 mil reais.  A corte reconheceu que o professor, um adulto em posição de autoridade, se aproveitou da baixa autoestima da menina estabelecendo uma relação de dominância e a obrigando a atos sexuais contra a sua vontade.  Agora, prisão que é bom, nada.  Se o que eu li que ele fez é verdade, e fosse no Brasil, em situação normal, claro, ele iria para a cadeia.  Poderia nem ser por tanto tempo, mas além da multa teria prisão.

Como a bomba explodiu na imprensa japonesa, a Shogakukan não conseguiu fazer como lá em 2020.  E cito direto do post do Mangás Brasil: "Em comunicado próprio, a ilustradora Tsuruyoshi Eri afirmou que não tinha conhecimento do histórico judicial do roteirista quando aceitou trabalhar no projeto.  Com a repercussão do escândalo, alguns autores que publicam suas obras na plataforma estão tomando atitudes para se desvincular da empresa. Eno Sumi (Aftergod) suspendeu a serialização temporariamente. Já Ryuhei Tamura (Cosmos), entrou com um pedido para remover seu trabalho do catálogo da One. Além disso, diversos mangakás e profissionais da área, tem se manifestado em solidariedade à vítima e cobram atitudes, como Ichika Yuno (Canção do Amanhecer)."  O nome original de Canção do Amanhecer é Yoake no Uta (夜明けの唄).

Por conta dessa situação toda, a Shogakukan interrompeu a distribuição on-line e a publicação dos volumes da série do condenado. Pediu desculpas e admitiu que o agressor não deveria ter sido contratado como autor, expressando seu mais profundo pesar às vítimas, leitores e artistas.  

Vamos lá!  Eu acredito que a desenhista da série seja inocente.  Ela deve ter sido escalada pelos editores para  o projeto, mas não acredito mesmo que os editores e outros dentro da empresa estivessem no escuro em relação à identidade do autor.  Muito provavelmente, imaginavam que a Justiça não iria condená-lo e poderiam continuar fingindo demência, afinal, quando Shouichi Yamamoto foi afastado lá atrás, ninguém sabia o motivo da suspensão da sua série.  E para quem quiser comparar com o caso do Nobuhiro Watsuki (Rurouni Kenshin), ele patrocinava o abuso infantil ao comprar material pornográfico com crianças, mas ele não violou ninguém.  Esse cara aí, o Shouichi Yamamoto cometeu estupros e outros abusos.  Ele  foi muito além, ainda que, pelo que entendi do caso, eles tenham sido enquadrados dentro da mesma lei.

Para as fontes do caso: Oricon News, Oricon em inglês, Coki, Asahi, Itmedia, Sankei, ZakZak e Anime Corner.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Parece que teremos uma nova adaptação de Jane Eyre em breve.

Li em algum lugar, e sei que está em algum texto traduzido desse blog de vinte anos ou em algum link em uma resenha, sei lá, que a cada dez anos temos uma nova versão de Jane Eyre.  Enfim, mas no artigo Um outro Passeio na Charneca para “Jane Eyre”, que traduzi quando da última adaptação do livro de Charlotte Brontë para o cinema, em 2011, ressaltava que filme Jane Eyre é muito mais barato, exige menos cenários, menos cavalos, carruagens, bailes, do que qualquer obra da Jane Austen: "(...) “Jane Eyre” tem muito menos pessoas que a maioria dos filmes de época. Você não precisa de vários figurinos. E o cenário é de graça. Aponte a câmera para a charneca, e vai ficar parecendo um filme de David Lean.".  

Enfim, teremos outra adaptação de Jane Eyre em breve, segundo os sites de cinema mais importantes.  Se vai ser filme ou série de TV, ainda não sabemos, mas a protagonista deve ser interpretada pela atriz Aimee Lou Wood, que já tem 32 anos.  Ressaltei a idade, porque Jane Eyre tem 18 anos durante  boa parte da história.  Também está circulando o nome de Miriam Battye como roteirista.  O interesse por Jane Eyre, como pontuei, é cíclico, mas estamos sob o efeito da adaptação de Morro dos Ventos Uivantes para o cinema, talvez, tenha sido outro fator empurrando a nova adaptação.  Resenhei várias adaptações de Jane Eyre para o blog, falta somente a de 2006 (*a de 1934, me recuso a assistir de novo*), segue os links: 1943, 1970, 1973, 1983, 1996, 1997, 2006 e 2011.  Tem o quadrinho de 2016, também.

sábado, 26 de abril de 2025

Dando notícias da minha cirurgia de catarata

Hoje, completo as 72 horas da cirurgia de catarata. Está sendo tranquilo, o que frustrou muito meus pais, que queriam se deslocar do Rio para Brasília para cuidar de mim.

Logo de imediato, minha visão já estava OK. Ainda havia algum incômodo, afinal, mexeram dentro do meu olho, mas dor quase ZERO. No primeiro diz, havia uma certa distorção luminosa que aparecia de vez em quando, ontem, só ocorreu duas vezes, quando passei por alguma variação de luminosidade, dentro de casa mesmo, porque não coloquei os pés no quintal. O problema é que, talvez por causa da cirurgia, da tensão, a virose piorou um pouco, mas é somente um pouco, já estava meio resfriada antes de operar. Quarta-feira, opero a vista direita.

E, sim, acredito que foi uma cirurgia altamente tecnológica. Poucas restrições e cuidados. Posso usar telas e posso cozinhar, duas coisas que são importantes para mim. Posso até dirigir, ainda que eu não vá fazer isso, salvo se inevitável, porque se eu ficar sem alternativas, eu vou. Parte realmente chata, como faço hidroginástica, terei que ficar trinta dias fora. Água pode prejudicar a cirurgia, contaminar. De resto, tentarei manter as coisas em ordem, inclusive a cabeça, porque antes da primeira cirurgia, fiquei bem nervosa, ainda que fingisse que não estava, ou seja, mais um dia normal na minha vida.

Para quem estranhou que eu, aos 49 anos, esteja com catarata, provavelmente, foi a pancada forte que tomei na cabeça dois anos atrás. Cabeça dura que sou, em sentido literal e figurado, parecia que estava tudo OK, mas os olhos foram atingidos. Os dois, o esquerdo estava bem ruim mesmo. Quase não consegui renovar minha carteira de motorista. Para quem estranhou que eu, aos 49 anos, esteja com catarata, provavelmente, foi a pancada forte que tomei na cabeça dois anos atrás.  Cabeça dura que sou, em sentido literal e figurado, parecia que estava tudo OK, mas os olhos foram atingidos.  Os dois, o esquerdo estava bem ruim mesmo.  Quase não consegui renovar minha carteira de motorista.  Foi mais de um ano até conseguir operar, em alguns momentos, a idas e vindas  do HFA para o HFAB, erros de prazo, problemas com a burocracia, fazer exames particulares  para ganhar tempo, me causaram profunda angústia.  Depois, quando entrei na fila do HFA, acabou a lente e me devolveram, a cirurgia foi feita  em um hospital particular conveniado.

quinta-feira, 24 de abril de 2025

"Editora" picareta publica mangá pirata no Brasil e eu espero que isso termine muito mal para o dono do empreendimento

O canal Fora do Plástico tinha noticiado que um sujeito decidiu publicar artesanalmente o manga Urusei Yatsura (うる星やつら), de Rumiko Takahashi, no Brasil.  Sim, segundo ele (*e não acredito, deixo claro*), tentou negociar os direitos com os japoneses, não conseguiu e decidiu publicar o mangá por conta própria como uma forma de chamar a atenção dos detentores dos direitos (!!!).  Sim, está na matéria da Folha de São Paulo"Eu falei, quer saber? Vou fazer algo que chame a atenção. O meu objetivo é que os japoneses me notem, conversem comigo, ouçam o meu projeto para trabalharmos juntos."  Parece o Trump metendo tarifas em todo mundo para que os prejudicados viessem se arrastando aos seus pés (*ou dispostos a beijar o seu rabo, como o próprio disse*) desesperados.  Bem, os japoneses não vão fazer isso, espero que ele tome um processo, e não me surpreenderia se esse mangá já não estivesse com os direitos nas mãos de uma das editoras brasileiras, mais especificamente, a JBC.

Assim, houve mangás piratas no Brasil, mas isso em um momento nos quais as editoras estavam engatinhando.  Mesmo assim, foi um escândalo.  O dono da "editora" Ao Leitor, com Carinho disse desejar publicar "mangás editados por fãs, com títulos produzidos numa época nostálgica para entreter e divertir".  Ele disse que comprou os originais japoneses e contratou um tradutor e uma revisora, além de escanear e tratar as imagens.  O sujeito ainda mandou um papo de nostalgia e obra que li na adolescência, quando, na verdade, é picaretagem mesmo e a escolha deve ter a ver com o recente anime baseado na obra publicada entre 1978-1987.

A matéria também cita a fala de um sujeito que reclama que a tal editora não informou que não tinha os direitos da série, mas que fazia propaganda como se fosse um lançamento regular: "Em nenhum post eles falaram que não tinham licença. Isso é enganar o público. Muitos fãs vão comprar e, quando o processo vier, a editora não vai mais publicar, fazendo as pessoas ficarem sem a obra completa. Eu não gastaria dinheiro com isso."

Um advogado também é citado na matéria da Folha e eu reproduzo aqui: "O advogado Gustavo Martins de Almeida, doutor em direito autoral, afirma que a editora infringe a Lei nº 9.610 de 1998, que regula os direitos autorais. O artigo 29 exige a autorização do autor para a edição, reprodução e tradução de uma obra.  (...) Se não houver um contrato de edição escrito, prévio e expresso com a autora original, a editora está publicando de forma irregular, sujeita a pagar indenização e a ter a obra apreendida".

Olha, nós temos um mercado de mangá, não é o melhor do mundo, temos críticas e tudo mais, só que as editoras são sérias e fazem as coisas direitinho, conseguiram o respeito dos japoneses e tudo mais.  É um absurdo ousar fazer um negócio como esse e acreditar que vai se dar bem.  Espero que esse sujeito tome um processo e tenha que se desdobrar para pagar a multa.  É aviltante isso.

Governo japonês planeja amplo apoio e iniciativas de expansão dos animes (Artigo traduzido)

O Sora News publicou uma matéria sobre o novo projeto do governo japonês para impulsionar os animes pelo mundo.   Como o artigo estava muito bom e muito crítico, decidi traduzir e, não, resumir e fazer outro texto.  Como faço com qualquer artigo que eu traduza, mantive, na medida do possível, a organização do original, com as mesmas imagens e tudo mais.  Se você lê inglês, deixe a minha tradução para lá e pegue o original, que sempre é a melhor opção.

Governo japonês planeja amplo apoio e iniciativas de expansão dos animes

Esperemos que desta vez eles realmente falem sério.

Para muitas pessoas, a primeira coisa que vem à mente quando ouvem "Japão" é anime, e com razão. Muitas vezes, é a porta de entrada que permite que pessoas ao redor do mundo vivenciem a cultura e a estética japonesas pela primeira vez.

Também é um grande negócio, com o mercado de animes japoneses no exterior avaliado em 1,45 trilhão de ienes (US$ 10 bilhões) em 2022, com franquias como One Piece se unindo a grandes organizações como a NFL e dominando toda a Times Square. E, no entanto, apesar de todos esses sucessos, ainda é uma indústria marcada pelas más condições de trabalho, baixos salários e situações horríveis que desafiam, em vez de atrair, as pessoas a entrar nela.

Isso é algo que a Agência de Assuntos Culturais do governo japonês espera mudar com um conjunto de novas iniciativas voltadas para a manutenção e expansão da indústria. O principal pilar desses esforços é o Comitê Colaborativo de Treinamento de Recursos Humanos de Anime entre a Indústria e o Acadêmico, um nome provisório, mas extremamente autoexplicativo.

Este comitê será estabelecido neste ano fiscal e fortalecerá a indústria de anime, desenvolvendo diretrizes para fornecer as habilidades necessárias para a criação de anime — como direção, storyboard, engenharia de som e edição — e incentivando estúdios, universidades e escolas profissionalizantes a implementá-las. Seus programas também se concentrarão na comunicação em línguas estrangeiras e na gestão de propriedade intelectual, para que os criadores estejam mais bem equipados para expandir no exterior.

Enquanto isso, a Agência de Assuntos Culturais incentivará mais universidades e escolas profissionalizantes a criar cursos de anime, além de trabalhar com estúdios de produção para criar uma espécie de sociedade de preservação de anime que ajude a manter e restaurar filmagens antigas.

Esta é uma parte do Conselho Público-Privado da Agência para a Indústria de Conteúdo, de amplo alcance, criado para impulsionar todos os setores de entretenimento do Japão, como cinema, música e videogames. Estima-se que toda a indústria de conteúdo do Japão no exterior valha 5,8 trilhões de ienes, mas o conselho espera elevar esse valor para 20 trilhões até 2033.

Esta notícia não pode deixar de evocar memórias da malfadada iniciativa Cool Japan do governo japonês, que se propôs a atingir objetivos muito semelhantes de impulsionar os patrimônios culturais japoneses em todo o mundo. Acabou sendo completamente mal administrada e foi quase impressionante em sua total ineficácia em atingir o objetivo pretendido.

O plano da agência desta vez parece muito mais focado e coerente do que o da Cool Japan, mas é difícil comemorar essa iniciativa depois de ter sido afetada uma vez. É difícil argumentar que muito do potencial do anime e de outras mídias japonesas foi perdido, junto com o potencial financeiro que viria com isso, então espero que tarde seja melhor do que nunca quando se trata de apoio.

quarta-feira, 23 de abril de 2025

O Blog vai entrar em hiato

Não sei quantos dias terei que ficar sem postar.  Se um, dois, ou mais.  Farei uma cirurgia hoje, coisa simples, mas estou um tanto ansiosa.  Dia 25, um Shoujocast entrará no ar.  Mas foi a última coisa que produzi.  Espero voltar a postar logo.

terça-feira, 22 de abril de 2025

RIP Papa Francisco: o homem que tentou arrastar a Igreja Católica para o século XXI

Ontem, foi um dia complicado para mim, postei sobre a morte do Papa Chico no Instagram, mas não coloquei nada aqui no blog, mas preciso. Até explicando minha ausência por aqui, se nada acontecer de estranho, opero catarata amanhã e precisava colocar minha vida em ordem, isto é, corrigir todos os trabalhos dos meus alunos, fechar notas e tudo mais que estiver pendente. Enfim, admirava muito o primeiro papa jesuíta, que muita gente imagina que era franciscano por abraçar o nome Francisco em homenagem ao santo de Assis.  Quem conhece o blog de muito tempo, e este ano esqueci de comemorar os 20 anos do Shoujo Café em 23 de março,  sabe que trabalhei na graduação, mestrado e doutorado com a Ordem Franciscana nos seus primórdios,  o século XIII.  Considerava Francisco um estadista, o maior do século XXI até o momento, alguém que mostrou empatia pelos fracos, pelos pobres, pelos que sofrem, pelos que não tem voz e já o fazia na sua Argentina natal, onde se preocupou em criar um apostolado junto aos moradores das favelas de Buenos Aires.  

Francisco, antes Jorge Mario Bergoglio, era um homem controverso em seu próprio país e eu comentei sobre isso na minha resenha do filme Dois Papas, mas, pelo menos nos últimos anos, seus inimigos, seus detratores, eram pessoas que não estão do mesmo lado que eu estou no espectro político.  Mas eu já estava esperando a partida do Papa Chico, em um dos meus Shoujocast, eu comentei sobre isso.  Agora, é o Conclave e eu preciso fazer a resenha do filme, que eu assisti imaginando que ele tinha algo de premonitório, desenhando muito bem as facções em disputa pelo Vaticano.  além de ser excelente.  Enfim, espero que não seja o fim de uma Era e que o próximo papa seja pelo menos um moderado que conserve os avanços do pontificado de Francisco.  E deixo, agora, o que escrevi no Instagram, porque o texto de lá ficou bom e deve ser preservado aqui:

"Em sua última aparição pública, em sua mensagem de Páscoa, Papa Chico fez um último pedido, pediu pela paz em Gaza, pelo fim do genocídio.

Não sou católica, sequer fui batizada, nasci em um lar protestante, mas tenho profunda admiração por Francisco pelo que fez e pelo que não conseguiu fazer. Qualquer pessoa que tenha estudado minimamente a História da Igreja Católica sabe que a instituição sobreviveu porque soube se adaptar ao longo de séculos. Por outro lado, é preciso ter a percepção de que a igreja não se vê somente como algo terreno, mas uma instituição com uma dimensão espiritual, fora do tempo e, portanto, com toda a eternidade para repensar e mudar questões que, para os seres humanos, são urgentes.

Francisco tentou apressar algumas dessas questões que poderiam ser empurradas para a eternidade, era um homem limitado, como todos são, papas não podem fazer tudo, nunca puderam, a igreja tem uma estrutura que é pesada demais, mas ele buscou acolher, consolar, trazer a instituição para o século XXI, deixando para trás a tentativa de seu antecessor de arrastá-la para o século XIX.

Enfim, ele era um estadista em um tempo em que eles estão em falta. Espero que as forças dentro do Conclave se equilibrem para eleger pelo menos alguém que mantenha o seu legado, mas algo me sugere que, talvez, vejamos ser eleito o primeiro papa africano e, portanto, ultraortodoxo, ou um reacionário europeu ou norte-americano."

E termino com Ilze Scamparini, correspondente da Rede Globo na Itália, falando sobre os últimos momentos de Papa Francisco. 

Não tenho dúvidas de que papa Chico sabia que estava partindo e não de ontem, no entanto, como um agente político que sabia o tamanho que tinha, se esforçou por esse último ato, não somente o "Urbi et Orbi", o que liturgicamente é importante, mas de mandar uma mensagem de paz e da necessidade de tomada de posição para o mundo. E o mundo, neste caso, não se resume aos católicos, mas todos os que têm boa vontade.

terça-feira, 11 de março de 2025

Milhares de lojas de conveniência no Japão deixam de vender mangás impressos


Cerca de 10 mil lojas das redes FamilyMart e Lawson deixarão de vender antologias e mangás impressos no Japão a partir deste mês.  Não é a rede completa de nenhuma das lojas de conveniência, que fique claro, no entanto, a Fundação da Indústria Editorial do Japão para a Cultura informou em relatório que cerca de 28% das municipalidades japonesas não tem livrarias e essas lojas são importantes quando se trata de venda de mangás e revistas. 

A motivação principal é a queda das vendagens das revistas físicas e o fato de muita gente preferir comprar mangás em formato digital, segundo a editora e distribuidora Tohan.  Segundo um post do Facebook, hoje, 72% dos mangás é vendido em formato digital.  Imagino que esteja correto, mas eu preciso confirmar em outras fontes.  O Sora News informa, no entanto, que os preços de distribuição de produtos no Japão subiram bastante, ainda mais para regiões rurais, fora isso, "revistas não podem ser transportadas nos mesmos contêineres de caminhão que itens alimentícios, o que impede potenciais eficiências na combinação de cargas destinadas a lojas rurais".

Esse enxugamento dos pontos de venda não significa, no entanto, que as pessoas sem a opção de compra de revistas e mangás físicos, pois outras redes continuarão vendendo mangá.  Segundo o SN, a 7-Eleven, a maior rede de lojas de conveniência do Japão com mais de 21.000 filiais, continuará vendendo as revistas, dizendo que, como os leitores hoje têm menos lugares onde podem comprar mídia impressa, e, por isso, é ainda mais importante continuar vendendo. Dito isso, trata-se de uma notícia ruim, que aponta (*também*) para uma mudança de mercado, mas está longe de ser o fim do comércio de mangás impresso.

quarta-feira, 20 de novembro de 2024

Luminárias japonesas são retiradas de rua na Liberdade a pedido de movimento negro e indígena


Eu gosto muito do Bairro da Liberdade.  Passei minha lua de mel lá, em 2001, voltei várias vezes.  Conheço por alto a história do bairro da Liberdade, essa rua, a da Capela de Nossa Senhora dos Aflitos, é, também, a de uma das entradas do hotel Issei, a principal é na Rua da Glória.  Agora, teremos postes de LED.  A matéria da Folha de São Paulo trouxe várias falas, vou transcrevê-las aqui: 

""Não somos contra a memória japonesa, mas as luminárias não têm a ver com o prédio histórico", diz Eliz Alves, 60, coordenadora da Unamca. "Não é luxo nosso, é preciso que a cidade tenha sensibilidade com um patrimônio de 245 anos."  "O que São Paulo busca apagar está guardado ali", afirma Alves sobre o beco que é tomado por caminhões, vans e motos que abastecem estoques de lojas na região. "A rua é uma doca, não conseguimos nem abrir o portão da capela", completa ela."

"A Prefeitura de São Paulo afirma, em nota, que a decisão respeita a diversidade cultural e histórica da cidade. "As lanternas, que remetem à imigração japonesa, foram consideradas inadequadas para o local, uma vez que o Beco dos Aflitos abriga a Capela de Nossa Senhora dos Aflitos, um marco histórico da época da escravidão no Brasil."(...) "As lanternas suzuranto foram mantidas no restante do bairro, preservando a herança da imigração japonesa.""

"Nas redes sociais, perfis se posicionam contra a substituição das luzes. "Apoiamos a cultura negra, mas não acreditamos em derrubar uma cultura para impor outra. Esse não é o melhor caminho", publicou a página Minha Liba, que tem 35 mil seguidores."

""Achamos uma falta de respeito com todo o trabalho que os orientais tiveram para construir o bairro. A igreja é um patrimônio histórico do nosso bairro, mas as suzurantos também são", conclui a publicação, curtida pela Acal (Associação Cultural e Assistencial da Liberdade)."

"Para o arquiteto Silvio Oksman, a Liberdade concentra uma somatória de camadas histórias, assim como o bairro do Bom Retiro.  "Essas disputas na cidade são saudáveis", diz Oksman, 52, coordenador do curso de arquitetura e urbanismo do Ibmec-SP. "É absolutamente legítimo ter um grupo organizado reivindicando sua memória, temos que ouvi-los, assim como temos que ouvir a comunidade japonesa que também reconhece ali seu território."  Segundo ele, essa é uma questão que não existia há 20 anos na cidade. "É um bom debate, que mostra que evoluímos como sociedade", diz ele."

De minha parte, considero realmente triste a retirada dos postes.  Sei que há disputa, há apagamento da presença negra, mas será que retirar os postes, negando uma das presenças mais importantes do bairro da Liberdade ajuda em alguma coisa?  Há camadas várias histórias que se entrelaçam no bairro, são camadas de memórias, há disputas.

Rebatizar a estação de metrô de Japão-Liberdade é um erro, mas retirar os postes me parece outro erro.  O Bairro da Liberdade assim se chamava antes da chegada dos japoneses e seus descendentes.  Seu nome está ligado ao castigo e resistência dos negros.  Em 2023, a Praça da Liberdade foi rebatizada de “Liberdade África-Japão”, tentando deixar clara a múltipla origem do lugar.  E isso é importante.

Inaugurar, em 2022, a estátua de Deolinda Madre, também conhecida como Madrinha Eunice, fundadora de uma das primeiras escolas de samba de São Paulo, a Lavapés, foi um avanço.  Acredito que exista os espaço para as duas heranças, ou mais até, porque quem visita a Liberdade hoje, percebe outras presenças lá, como a dos chineses.  Enfim, só queria comentar a matéria e deixar o registro do ocorrido.

sábado, 20 de abril de 2024

Inteligência Artificial como ferramenta e o artista injustamente acusado de usá-la


Passei parte considerável da minha semana em um seminário no meu trabalho sobre o uso da Inteligência Artificial na educação.  Não escolhi estar lá, mas tentei aproveitar o máximo que pude.  Sim, a IA é parte da nossa vida, já a usamos sem perceber, mas querem cooptar os professores a verem essas ferramentas como aliados na educação.  Podem ser?  Sim, claro, mas tenho cá as minhas reservas. 

Em São Paulo, por exemplo, virou notícia esta semana o fato do secretário de educação, vulgo um dos donos da Multilaser, colocou os professores da rede para corrigirem, isso mesmo, corrigirem, aulas geradas por IA.  Daí, inverte-se a proposta de humanos usarem ferramentas e o professores são postos à serviço da IA.  A matéria diz que a produtividade aumentou.  A precarização, também, e sabe-se lá quais comandos (prompts) foram usados para gerar as tais aulas.


Voltando ao seminário que assisti, passei um tempão em uma demonstração de como criar um vídeo de 30 segundos com animação, narração e legendas em IA.  Usaram uns seis ou sete aplicativos, deles só conhecia o chatgpt e o capcut, e demorou tanto que eu tenho certeza que faria sem IA o mesmo vídeo muito mais rápido.  Enfim, deixa pra lá.  Queria comentar uma notícia que também saiu esta semana, o artista chinês, Jingxiong Guo, foi acusado de ter usado IA para fazer capas de quadrinhos para a DC.  Ele nega: 

“Não usei IA, mas sou um artista que foi ferido nessa caça às bruxas. Estou nessa indústria há mais de trinta anos e meu desenho sempre foi tradicional à mão ." No entanto, ele disse que "não sou contra a IA; acho que pertence ao campo da ciência. Não me preocupa e, na verdade, o desenvolvimento da IA não tem nada a ver comigo, mas estou grato que a IA possa forneça-me traduções precisas." Por que as capas mudaram? “A DC e eu consideramos mudar a capa porque a imagem polêmica pode afetar suas vendas. Isso não significa que prova que se trata de um trabalho de IA”." 


Minha filha, uma menina de 10 anos, tem um olho clínico para identificar IA.  Ela raramente erra, eu já sou enganada com grande frequência.  Ainda falando de escândalos ligados à IA, a Netflix foi acusada de usar fotos criadas ou manipuladas por IA em um documentário true crime.  Obviamente, sem avisar, claro.  Isso é manipular o olhar da audiência, não que manipulação de sentimentos não seja a tônica desse tipo de material.

Outro ponto da fala de Jingxiong Guo é que a DC não comprou a acusação de uso de IA, mas imaginou que isso pudesse gerar rejeição ao produto e ele, o artista, teve que refazer seu trabalho, inclusive mostrando os rascunhos para provar que fez as artes das capas.  Aliás, no Instagram do artista há várias amostras de como ele trabalha, vídeos, enfim.  Se a acusação é injusta, e parece ser, pense no absurdo que isso tudo é.  Mas acredito que teremos que lidar cada vez mais com esse tipo de problema.


O fato é que a IA desemprega artistas e vai fazer o mesmo com toda sorte de profissionais se não houver regulamentação.  Por outro lado, fico preocupada em ver artistas sendo acusados injustamente de usarem IA.  De novo, usar IA como ferramenta, como são usados outras ferramentas digitais deveria ser demonizado?  Acho que não.  Agora, usar somente IA deveria ser aceito?  Eu acredito que não, também.

sábado, 30 de março de 2024

Warner Bros. Japão produzirá mais de 10 títulos de anime por ano

O ANN publicou a notícia de que o presidente da Warner Bros. Discovery da Ásia-Pacífico, James Gibbons, declarou ao site Variety que o estúdio da empresa produzirá mais de 10 títulos por ano, dobrando o que seria a média dos anos anteriores.  Segundo Gibbons, “o anime é uma das melhores maneiras de atingir o público entre 18 a 30 ano”. Ele continuou dizendo que a empresa tem um forte público de anime nos EUA, em partes da Europa e na América Latina.  O estúdio de anime da empresa foi lançado em 2011 e já produziu mais de 80 títulos, incluindo JoJo’s Bizarre Adventure, Record of Ragnarok e SPY x FAMILY.

Warner Bros. Japan é uma produtora da Warner Bros. Discovery e está envolvida em várias propriedades de anime.  O Japão e sua empresa-mãe também lidam com produções nacionais e internacionais de filmes live actions como Godzilla, Rurouni Kenshin, Gintama e Death Note. A empresa anunciou recentemente uma nova adaptação para anime de Hokuto no Ken. Atualmente também está produzindo o anime original Suicide Squad ISEKAI com o Wit Studio, que estreará em julho.  A WarnerMedia se fundiu com a Discovery em 2021.

quinta-feira, 25 de janeiro de 2024

Termina o julgamento do homem que ateou fogo ao estúdio da Kyoto Animation em 2019

No dia 18 de julho de 2019, um homem ateou fogo ao prédio da Kyoani, a Kyoto Animation, causando a morte de 36 funcionários, a maioria mulheres, e ferindo  outras 33 pessoas.  Cerca de 70 pessoas que estavam no prédio saíram fisicamente ilesas, mas as instalações ficaram destruídas. O criminosos acusava o estúdio de plágio e usou sua crença como justificativa para o atentado.  

O julgamento começou em setembro do ano passado e, ontem, o criminoso (*e não irei escrever o seu nome*), agora com 45 anos, foi condenado à pena de morte por um tribunal no distrito de Kyoto.  Era o desfecho que a maioria esperava.  Não conheço a legislação japonesa, então, não sei se cabe recurso a alguma corte superior.  As fontes para este post são o ANN e o Sora News.

segunda-feira, 15 de janeiro de 2024

Voltei!

Fiquei longe do computador entre o dia 11 e ontem.  Fiz um pequeno deslocamento dentro da minha viagem de férias e decidi que não levaria o laptop junto.  Como detesto postar do tablet, menos ainda do celular, o blog ficou parado. AUma delícia! Também não assisti o segundo episódio das séries que comecei a resenhar (Fluffy Paradise e Yubisaki to RenRen), tentarei colocar em dia.  Tentarei.  liás, com as chuvas torrenciais no Rio, minha viagem de volta que deveria ser de 4h30 minutos, se muito, durou mais de 10 horas, não tive ânimo de mexer com nada ontem.  

Como estava na casa de uma amiga dorameira, acabei assistindo alguns episódios de Doutor Cegonha na Netflix (Kounodori - Dr. Stork) e Knight Flower (밤에 피는 꽃) no Viki.  Talvez, comente alguma coisa, especialmente, de Doutor Cegonha, série baseada em mangá, que me deixou bem irritada.  Além disso, li a biografia recém lançada de Gilberto Braga.  

Haverá resenha, preciso comentar o conteúdo.  Por enquanto, é isso.  Estou de férias, não estou em casa.  Não vou comentar boatos de Twitter com acusações de pedofilia do Kunihiro Ikuhara, diretor e co-criador de Utena, porque não vi nada disso em site confiável nenhum. Me marcaram, mas estou aguardando material mais sólido sobre a questão.

sexta-feira, 8 de dezembro de 2023

Série da BBC irá mostrar a relação entre Jane Austen e sua irmã Cassandra

Não conhecia o livro Miss Austen de  Gill Hornby, mas parece que é um romance de grande sucesso e que explora a relação entre Cassandra e sua irmã Jane Austen.  Descobri hoje que ele está sendo gravado e vai estrear na BBC ano que vem.  A produção, segundo o site Masterpiece, tem uma direção e elenco de primeira linha e esta sob a responsabilidade da norte-americana Bonnie Productions.  A série terá 4 capítulos e o resumo é o seguinte, segundo o Masterpiece:

"O drama começa em 1830, um pouco depois da morte de Jane [*pouco?  Ela morreu em 1817!*]. Cassandra (Keeley Hawes) corre para ver sua jovem amiga Isabella (Rose Leslie), que está prestes a perder sua casa após a morte de seu pai. Cassandra está supostamente lá para ajudar sua amiga, mas seu verdadeiro motivo é encontrar um estoque de cartas particulares que, nas mãos erradas, poderiam destruir a reputação de Jane. Ao descobri-los, Cassandra fica emocionada ao ser transportada de volta à sua juventude. Em flashback, conhecemos a jovem Cassy e Jane (Patsy Ferran) enquanto elas experimentam as paixões, brigas familiares e esperanças frustradas que moldaram suas vidas e lançaram as bases para as histórias inesquecíveis de Jane. A reavaliação de Cassandra sobre seu passado eventualmente a leva a perceber o quão cega ela tem sido para a verdadeira causa da dor e angústia de Isabella. Encontrando uma maneira de guiar Isabella em direção à verdadeira felicidade, Cassandra finalmente consegue compreender e celebrar os sacrifícios que escolheu fazer por sua brilhante irmã, Jane."

Cassandra era a pessoa mais próxima de sua irmã e foi a responsável por destruir parte da farta correspondência que trocaram.  Miss Austen toma esse ato como ponto de partida, ao que parece.  Agora, é fato que as censuras aos diários e correspondências de parentes eram muito comuns nos séculos XVIII e XIX, porque conheço vários casos, mas deveriam acontecer antes e depois.  Aliás, quando meu tio morreu, minha avó queria queimar toda a correspondência dele, eu acabei ficando com várias cartas e terminei por descobrir que meu tio, que nunca teve um interesse romântico, tivera um amor de juventude que nunca se concretizou.  

Resumindo, o que Cassandra fez era algo banal na época, tudo o que poderia ser embaraçoso para a família, para a pessoa, poderia ser apagado e isso, claro, a gente lamenta como historiadora e como alguém que se interessa pela pessoa em questão.  De qualquer forma, essa série é ficcional, provavelmente boa parte dessas experiências vividas pelas irmãs vão começar com fatos verídicos e se desdobrar em situações imaginadas pela autora.  Isso é ruim?  De forma alguma, a questão é sempre a execução. Enfim, é ficar de olho para ver quando essa série será lançada.

domingo, 12 de novembro de 2023

Jovem coreana é atacada por ter cabelos curtos: as feministas merecem ser agredidas

Raramente falo de Coreia do Sul, porque leio poucos manhwas e vejo praticamente nada de K-drama, mas acompanho as notícias de lá, especialmente quando relacionadas às mulheres, como sigo o que acontece nos outros países.  Isso significa que quando se trata de feminismo, questões de gênero e afins, a coisa pode cair no meu radar.  Foi assim que li essa notícia sobre uma jovem balconista, ou funcionária em meio período de uma loja, que foi atacada por um homem que argumentava que “Como você tem cabelo curto, você deve ser feminista. Sou um homem chauvinista e acho que as feministas merecem ser agredidas.”.  

O sujeito chegou a conclusão de que a moça era feminista, porque ela usava cabelos curtos.  Um cliente de meia idade foi ajudar a garota e terminou sendo agredido pelo meliante, até que a polícia apareceu.  Tanto a moça, quanto o homem que foi ajudá-la, foram feridos, o senhor na casa dos 50 anos teve várias fraturas na face, ou seja, foi feio.  A polícia argumentou que não pode enquadrar o caso como tentativa de assassinato, ainda que as lesões tenham sido graves.  Segundo o site Koreaboo, o ataque gerou uma onda de indignação e apoio on line à vítima, inclusive uma campanha chamada "Eu devo apanhar por ter cabelo curto?".

Prontamente lembrei do caso da arqueira, campeã olímpica, três medalhas de ouro para seu país, que sofreu forte perseguição nas redes por ter cabelos curtos, eu escrevi sobre isso.  O Koreaboo cita o caso.  A misoginia na Coreia do Sul, ou a capacidade de mobilização dos grupos de odiadores de mulheres, parece ser enorme na Coreia.  Agora, olhando o último relatório sobre desigualdade de gênero do Banco Mundial, a Coreia melhorou bastante e está em 105º, enquanto o Japão amarga a 125ª colocação.  Só para efeito de comparação, dentre os 146 países, o Brasil está em 57º lugar.  É possível que as explosões de violência sejam uma forma de homens mimados tentarem intimidar as mulheres, culpabilizando as feministas pelos avanços, ainda que tímidos, dos últimos anos.  O site NDTV apontou que "feminista" é uma palavra tão estigmatizada na Coreia do Sul a ponto de muitas pessoas considerá-la um palavrão.

De qualquer forma, espero que esse sujeito seja punido e que casos assim deixem de existir.  Associar roupas, penteados ou o que seja a um grupo específico pode conduzir a muitos erros e um membro de um grupo de ódio pode se sentir validado por esses indícios a expressar sua violência.  As vítimas, claro, normalmente são gente que o imbecil considera inferior, mais fraca, e fácil de atingir, o que significa que mulheres e LGBTQ+ são alvos em potencial de ações como esta que vitimou a moça de cabelos curtos e o homem que veio em seu apoio.  

E esses ataques objetivam a intimidação e impedir que minorias, no caso das mulheres, políticas, possam ter liberdade de expressão.  As mulheres se veem moldadas para atender as expectativas masculinas, o olhar dos homens, se não se adequam, a violência é uma das formas de calá-las e discipliná-las.  E isso não é algo típico da Coreia do Sul, mas uma prática que atravessa as sociedades patriarcais e se manifesta em menor ou maior grau a depender do nível de educação em relação às questões de gênero, aos direitos das mulheres e ao exercício geral da cidadania.

sábado, 28 de outubro de 2023

A palavra "dorama" entra no vocabulário da ABL e causa polêmica.

Notícia importante, esta semana, a Academia Brasileira de Letras incluiu a palavra "dorama", que é a vocalização japonesa de "drama", no seu vocabulário da língua portuguesa (do Brasil) com a seguinte definição "substantivo masculino. Obra audiovisual de ficção em formato de série, produzida no leste e sudeste da Ásia, de gêneros e temas diversos, em geral com elenco local e no idioma do país de origem.".  O problema é que o verbete segue dando um grande peso para o Japão como ponto de origem e difusor de uma mídia que foi apropriada, adaptada e aperfeiçoada em outros países, como a Coria do Sul e China.  

E o verbete segue explicando que "para identificar o país de origem, também são usadas denominações específicas, como, por exemplo, os estrangeirismos da língua inglesa J-drama para os doramas japoneses, K-drama para os coreanos, C-drama para os chineses".  Isso irritou particularmente a comunidade coreana, porque as produções de cada país teriam suas peculiaridades e até denominações próprias.  

Não sou dorameira, tampouco, tenho grandes reflexões sobre o tema, no entanto, á cansei de ver gente usando C-Drama, K-Drama, TW-Drama, Thai Drama etc. por aí (*exemplo*).  Está correto?  Está errado? Só a gente usa? É pronunciado do-ra-ma, como no Japão, ou é falado drama?  Acredito que a acusação de "orientalismo", que está no artigo que linkei no parágrafo anterior, termo que sempre aparece para denunciar os ocidentais (*e os brasileiros se sentem parte do Ocidente*), rotulá-los de preconceituosos, delirantes e reducionistas em relação aos asiáticos, um exagero.  Aliás, quando vejo três termos "narrativa", "lugar de fala" e "orientalismo" na boca ou texto de alguém, já fico esperando pelo pior.  No caso do uso de "orientalismo" e "lugar de fala", especialmente em certos círculos de fãs e da internet como um todo, serve de sinônimo para "cale a boca".  O fato é que dorama é termo em japonês e isso ofende os coreanos, porque as relações entre os dois países são complicadas por conta do que o imperialismo do Japão aprontou na região.  Valeria a pena usá-lo como termo guarda-chuva?

Qual termo usar, então?  Não sei.  Eu chamaria de série japonesa, série coreana, série chinesa, ou meteria um novela, que é termo guarda-chuva que a gente usa para as produções de vários países, e não iria me estressar com a questão.  Mas eu nao sou especialista, estou escrevendo um artigo de opinião e, não, um texto acadêmico, e realmente não estou incomodada com as reclamações.  Não é meu foco mesmo.  Há grande diferença na estrutura das séries dos diversos países?  Porque o que eu vi de K-drama, é muito parecido com o que eu vi de J-drama, mas eu vi MUITO POUCA COISA, que fique claro (*Se dependesse as sugestões de minha amiga Natania, estaria gastando seis horas do meu dia assistindo séries coreanas*).  

Agora, quando olhei certas coisas chinesas, elas me pareceram ser bem mais longa na média, que as coreanas, japonesas e taiwanesas que eu conheço. De Taiwan, aliás, só vi material que é adaptação de mangá mesmo, como Mars, ou seja, foi coisa curta. Até achei um artigo no Jovem Nerd falando das diferenças, mas até eu sei que o que foi descrito como dorama japonês é somente o tipo de material que chega aqui, não representa a variedade do que se produz por lá.

O fato é que falando em novela, é que a maioria dos países deve ter um termo específico para esse tipo de produção, mas nunca vi comoção à respeito. Aliás, a depender do dorama japonês, algo que conheço um tiquinho, porque volta e meia mangá vira série live action, ele pode ser curto, 8, 10, 12 episódios, ou passar dos 100 tranquilamente, tudo depende do tipo de série, do horário e do público alvo. Esses doramas longuíssimos, alguns passando de 300 episódios, são dramas históricos protagonizados por samurai ou mulheres que têm que superar uma série de obstáculos (*chorando rios de lágrimas*), ou grandes sagas de família.  O nome disso, pelo menos no Brasil, é novela.  Imagino que seria visto da mesma forma no resto da América Latina, mas muita gente que despreza este tipo de produção, nossas novelas, se sentiria ofendido.

Para além essa história de número de episódios, um dorama  pode ter especiais de duas horas, ou ser dividido em temporadas, ou voltar no cinema para a sua conclusão, vide Hana Yori Dango (花より男子), que está na imagem. Será mesmo que a palavra dorama era necessária em nossa língua?  Agora, depois de escrever este texto, acredito que não.  Mas fica a minha dúvida, os coreanos usam a palavra dorama, ou não usam?  Eu sei que os tailandeses têm um termo próprio, Lakorn, ainda assim, já vi se usando Thai Dorama por aí e não vi reclamações a respeito até o verbete da ABL aparecer.