terça-feira, 7 de junho de 2011

Comentando Jane Eyre (BBC, 1973)



Um dos meus desafios pessoais este ano era ver ou rever o máximo de versões de Jane Eyre possíveis. A versão de 1973, com Sorcha Cusack e Michael Jayston, era uma das que eu mais gostaria de olhar, afinal, vivia tropeçando em sites e artigos que a apontavam como “a melhor” entre todas. Diferente do que acontece com o fandom da série de Orgulho & Preconceito de 1980, as fãs dessa versão normalmente não são agressivas – no feminino, porque as mulheres são maioria – mas cordiais e prestativas, recebi inclusive um e-mail de um português recomendando um excelente site e relatando a sua experiência quando assistiu à série pela primeira vez. Tudo isso porque comentei em um vídeo do Youtube que gostaria muito de ver essa versão de Jane Eyre.

Depois de procurar muito (*em vão*), desisti de baixar a série, que foi a segunda adaptação que a BBC fez para o livro, e comprei os DVDs. Eles não têm legendas, então, para quem não domina o inglês razoavelmente ou sabe o livro de frente para trás e de trás para frente, não é uma boa opção. Como esta é uma das adaptações mais badaladas, eu esperava que eles tivessem lançado os DVDs com mais carinho. No mais, a qualidade da imagem e do som estão muito boas. A série tem uma produção excelente (*figurinos, locações, detalhismo*), que, aliás, parece ser a marca, pois está parelha com Persuasão e Emma que foram feitas na mesma época. A interpretação de alguns atores é bem teatral, mais do que televisiva, no entanto, houve a vantagem de um elenco bem escalado. A única exceção é Geoffrey Whitehead, como St. John Rivers, que parece uma assombração com seu rosto magro e carcomido e sua brancura de fantasma, além de ser velho demais para o papel.

Para quem não conhece a história, Jane Eyre é uma menina órfã que é educada pela tia que a odeia. Aos dez anos ela é enviada para uma escola para meninas pobres, onde as condições de vida são tão duras que a tia tinha esperanças de que ela morresse. Jane resiste, aproveita ao máximo sua estadia na instituição e se torna um acompetente governanta. aos 18 anos, ela é contratada para ser professora de uma menininha que é protegida do sr. Rochester. Jane e o patrão se apaixonam e se reconchem como iguais, mas há várias barreiras para que o amor dos dois possa se concretizar. Idade, posição social e um obstáculo ainda mais intransponível: Rochester é casado.

A série de 1973 se prende bastante ao livro, mas não de forma doentia, pois mexe em algumas passagens, como todas as outras adaptações também fizeram, omite informações, como a amada de St. John. Aliás, só lembro de vê-la na série de 2006 mesmo. O irritante, já que este recurso não me agrada, é a voz de Jane como narradora. É a protagonista que marca as transições e nos guia ao longo dos cinco episódios. Esse preenchimento eu dispensaria, poderíamos substituir a leitura em off pela ação. Mas é algo que não empobrece ou atrapalha, somente algo que não me agrada.

Mas vamos aos comentários gerais, porque tenho que sair correndo para o trabalho daqui a pouco. A série de 1973 é realmente excelente, é indisputável, e é superior às demais adaptações da BBC na fase da infância. A série de 2006, por exemplo, escalou mal as meninas que faziam Jane e Helen Burns, e não teve um cuidado com aspectos básicos como a rigidez imposta às meninas na arrumação de seus cabelos. A série de 1973 tem crianças e adolescentes que atuam bem e segue de forma adequada os acontecimentos do livro. Quando assistir de novo o filme de 1970, vou comparar com a fase da infância dessa adaptação que, na minha memória, é a melhor. Mas foi minha primeira versão de Jane Eyre, e me causou forte impressão lá pelos meus 9, 10 anos.

Sorcha Cusack talvez seja uma das Janes mais feinhas, e, por isso mesmo, a que mais se aproxima da idéia do livro, já que a protagonista era uma moça sem atrativos físicos, e que parecia, aos olhos de Rochester “uma fada” ou um “espírito da floresta”. A atriz talvez nem seja tão pequena, mas ela passa essa imagem de fragilidade, de ser pequenina, ao mesmo tempo que cresce na interpretação. Ela é o oposto de Zelah Clarke (1983), que era pequena e parecia ainda menor na sua interpretação contida demais. Já Sorcha Cusack, quando sorri não fica propriamente bonita, mas seu rosto se ilumina e consegue atrair para si as atenções. A minha Jane favorita continua sendo Ruth Wilson, mas Sorcha Cusack foi uma grata surpresa.

Michael Jayston é um Mr. Rochester bem arrebatador, ele consegue convencer e tem uma interpretação bem pessoal da personagem. E pelo que percebi Toby Stephens se inspirou na interpretação dele para compor a sua. A forma de olhar, o posicionamento em cena, tudo é muito parecido. Claro, que a interpretação de Stephens em 2006 era mais dinâmica e sensual, Michael Jayston parece muito mais em um palco do que na TV, mas, com certeza, ele é um dos melhores Rochester que eu já vi. Na verdade, eu só não suporto o Rochester de William Hurt (1996)... e não considero o filme de 1934 como digno de atenção, claro. Fora isso, ele é bem charmoso, até diria bonito. Outro papel de destaque do ator foi o Czar Nicolau II em Nicholas & Alexandra.

Já disse que Geoffrey Whitehead não foi uma boa escolha por parecer velho demais para interpretar St. John Rivers, mas ele faz muito bem o papel e convence como o pastor disciplinado e manipulador, afinal, ele quer convencer Jane que “é vontade de Deus” que ela se case com ele e vá para a Índia, mas com um bom coração. Stephanie Beacham é, talvez, a melhor Blanche Ingram, a que fisicamente mais se parece com a do livro. Alta, morena, orgulhosa. Ela realmente impressiona em cena. E a coisa mais fofa da série é a menina Isabelle Rosin, que faz Adéle, a protegida de Rochester e razão para que Jane se torne governanta a seu serviço. O problema é que a pequena Adéle fala muita coisa em francês, como no livro, e muito rápido, eu não consegui acompanhar tudo. Mas ela realmente parece com a criança do livro.

Na parte romance, a série surpreende. Há muitos beijos e demonstrações de afetividade que estão no livro e que outras adaptações simplesmente omitem. A série de 2006 foi criticada por seu excesso de erotismo, mas nisso, também as duas adaptações se aproximam. Em 1973, a tensão erótica também está presente, a abordagem é mais casta e contida, mas ela não anula uma das características que tornam Jane Eyre um livro tão interessante e até chocante para a época. Afinal, para mim, Jane é uma proto-feminista, que só se admite ao lado de um homem que a considere como sua igual. Isso tudo está na série de 1973 de forma impecável. Minha única crítica, e que mostra que nem tudo do texto está na série, é terem cortado uma das partes mais singelas, e uma das minhas favoritas, que é quando Jane fala que Rochester recuperou a visão de um dos olhos e é capaz de ver a cor dos olhos do filho mais velho que são como eram as dele antes do acidente... Nem tudo é perfeito, claro. Mas Rochester perde a mão... Isso raramente aparece nas adaptações.

Sei que é difícil conseguir a série completa, mas recomendo que os interessados assistam no Youtube. Muita coisa está lá, cenas importantes, como a que usei para ilustrar o post, e é possível apreciar a interpretação dos atores e atrizes. Recomendo, também o site Jane Eyre, o melhor sobre a adaptação de 1973. Acredito que a próxima adaptação que comentarei é a versão de 1997, com Ciárán Hinds (*que foi criticado na sua interpretação, mas que é um ator que eu adoro*) como Mr. Rochester. Ah, sim, e para quem não sabe, é Mr. Rochester minha personagem masculina favorita da literatura inglesa, não o Mr. Darcy, e mal posso esperar para ver Michael Fassbender, o Magneto de X-Men First Class, no papel. Jane Eyre é um dos meus livros favoritos até hoje e eu recomendo como leitura para qualquer adolescente, especialmente as meninas, junto com outro que me encantou bastante lá nos meus 13 anos, Os Três Mosqueteiros.

GOSTOU?

0 pessoas comentaram:

Related Posts with Thumbnails