quarta-feira, 5 de julho de 2017

Comentando Jane Eyre (2016, Manga Classics)

Capa mais bonita.
Segunda-feira (03/05), terminei de ler a versão mangá de Jane Eyre, o mais famoso dos livros de Charlotte Brontë e considerado uma obra proto-feminista. O volume faz parte da série Manga Classics da editora canadense Udon. O objetivo da série é oferecer adaptações de grandes clássicos da literatura, aqueles que fazem parte de muitos currículos escolares, em um formato quadrinhos inspirado nas HQs japonesas que tanto agradam leitores e leitoras pelo mundo a fora. Mas você não conhece Jane Eyre? É possível, vamos a um resumo rápido. 

Jane Eyre dá nome ao livro e à protagonista da nossa história, começando na infância, de órfã maltratada pela tia viúva, que não queria que assumir a responsabilidade pela criança, passando pela experiência do internato para meninas pobres, até que Jane, agora com 18 anos, se torna governanta em uma propriedade aristocrática chamada Thornfield. Enquanto cuida da educação de Adéle, Jane conhece o benfeitor da menina, o Sr. Rochester, um homem bonito, inteligente, espirituoso, ainda que um pouco brusco, e vinte anos mais velho que a jovem. Apesar da diferença social e de idade, os dois se apaixonam e decidem se casar, só que o noivo guarda segredos e o que parecia ser um sonho para a jovem governanta, se torna um pesadelo. A história, obviamente, não termina por aí...

O livro, Jane Eyre, foi publicado a primeira vez em 1847, sendo um sucesso imediato. A autora, Charlotte Brontë (1816-55), assinou a obra com um nome masculino “Currer Bell”. Falamos das irmãs Brontë, todas escritoras, na resenha do filme To Walk Invisible. No século XX e XXI, o livro foi adaptado seguidamente para o cinema (*só no cinema falado: 1934, 1943, 19701996, 2011*) e para a TV (*1949, 1956, 1963, 1973, 1983, 1997, 2006*).   Mesmo entre as adaptações em língua inglesa, alguma deve ter escapado.


 Como é um dos meus livros favoritos, eu resenhei boa parte das adaptações britânicas e americanas, aqui, no blog (*a de 1934, eu me recuso*), estranhamente, acabei não escrevendo sobre uma que eu considero das melhores, a com Toby Stephens e Ruth Wilson feita em 2006. Via de regra, Jane Eyre é adaptado a cada 10 anos, fora o que se fez em outros países, quadrinhos, musical, enfim.

A responsável pela arte é a desenhista SunNeko Lee, que sempre coloca um gatinho em cena... Não entendeu? “Neko” (ねこ) é gato em japonês. Lembrei até do “tanuki” de Gekkan Shoujo Nozaki-kun (*Não conhece?  Tanto o anime, quanto o mangá, são divertidíssimos.*). Já o texto, que em uma adaptação é algo tão importante quanto a arte, foi feita por Crystal S. Chan. Se entendi bem os apêndices, é a terceira parceria das duas, elas fizeram A Letra Escarlate (*outro dos meus livros favoritos e que está sendo lido no momento*) e, acredito eu, Os Miseráveis. Jane Eyre foi lançado em 2016, bem em tempo para os 200 anos de aniversário do nascimento da autora. 




Quando tomei contato com a coleção, fiquei curiosa. A escolha das obras, que contemplam Brontë e Jane Austen, além de velhos favoritos me deixou animada. Agora, quando olhei o character design me incomodou a forma como Jane Eyre foi representada. Ela parece uma criança com seus imensos olhos. Fora isso, há uma grande diferença de altura entre Jane e Rochester. Duas coisas a se discutir, portanto. 

Vamos lá, comprovei no próprio Jane Eyre que SunNeko Lee sabe desenhar mulheres adultas. A própria Helen Burns, que é uma menina mais velha, é desenhada de uma forma mais madura se comparada com a menina Jane. Em A Letra Escarlate, Hester Prynne, a protagonista, também tem uma aparência adulta. Logo, foi uma opção fazer Jane daquele jeito. Minha teoria? Enfatizar a juventude de Jane em contraposição à Rochester. Ela tem somente 18 anos. Outro ponto, Rochester, em seu primeiro encontro com a heroína, brinca que ela parecia uma fada, pequena e misteriosa. Talvez, a opção por manter os grandes olhos queira enfatizar o caráter “mágico” que ele via na personagem. Jane, ademais, se comporta como no livro, isto é, como uma jovem madura e racional.


Uma coisa que comentei em To Walk Invisible era como a atriz que fazia Charlotte Brontë era pequena, mirrada.  Ora, foram meses de privações em um internato. E isso, a memória do colégio interno, o frio, a comida pouca e ruim, ela transfere para seu livro. Jane, logo no início,  é apresentada como pequena para a idade e continuará assim. O quadrinho só reforça este aspecto, eu diria.

A diferença de altura entre os protagonistas é o outro ponto a discutir. Lá nos apêndices, que são parte importante da obra, eu enfatizo, a desenhista diz que se inspirou na roteirista e seu marido para desenhar o par Rochester e Jane. Que a diferença de altura entre eles seria tão grande quanto a mostrada no quadrinho. Fora isso, ela diz que Rochester, a aparência dele, foi inspirada no companheiro de Crystal S. Chan. De resto, peguem a versão para a TV de 1983, a diferença de altura entre Zelah Clark e Timothy Dalton deve ser a mesma do Rochester e da Jane no mangá.



Mas sei que muita gente ficou preocupada com outra coisa, em nossos dias há toda um cuidado com a questão da pedofilia. Não vejo nada disso na relação Rochester-Jane. No século XIX, um homem ter vinte anos de diferença em relação à esposa não era lá grande coisa, especialmente, sendo um sujeito bem colocado na vida e saudável. Dentro do livro, e isso está no quadrinho, há uma preocupação com a inexperiência de Jane frente um homem vivido, até promíscuo como Rochester, isso seria uma preocupação de nossos dias, também, imagino, mas a questão mais incomoda é a diferença social entre os dois, o abismo, que deveria ser intransponível, entre a governanta e o patrão. A tensão do livro, que também é sexual, foi muito bem transposta para o mangá.

Um elogio que devo fazer a obra, bem grande, aliás, é que foi a melhor adaptação da fase da infância de Jane Eyre. No cinema, continua sendo o filme de 1970, mas o quadrinho igualou e me fez ficar com lágrimas nos olhos quando da morte de Helen. Foi tudo muito bem feito, a arte casou bem com a fase de sofrimento de Jane ao chegar em Lowood e Helen Burns é adorável. Foi ali que Crystal S. Chan e SunNeko Lee me ganharam e eu recomendo fortemente a leitura.


O vestuário, a representação da moda da segunda metade da década de 1830 é deficiente. Funciona, verdade, mas não passaria pelo crivo do site Frock Flicks. Em uma comparação com o Helena feito pelo Studio Seasons, a arte de Simone Beatriz ficaria anos luz de distância, o apuro, a pesquisa para representar em detalhes a época, são muito mais presentes na oba das brasileiras. Agora, Jane Eyre do Manga Classics é muito, muito mais dinâmico na sua narrativa. Daí, se um é superior na arte e reconstituição de época, o outro é superior na narrativa visual.

Uma coisa curiosa, é que, em alguns momentos, me lembrei das músicas do musical Jane Eyre. O texto ficou muito próximo das letras das músicas, especialmente, os diálogos com Helen Burns e com St. John. Aliás, falando no primo de Jane Eyre, a representação do pastor protestante, talvez por vício tomado de empréstimo dos japoneses, não diferiu da do sacerdote católico. O japonês não tem muita noção de como as coisas são, mas, aqui, cabia ajustar as coisas. Pastores anglicanos não usam batina em seu dia-a-dia como mostrado no quadrinho. Bastaria pegar referências visuais, livros, filmes, minisséries, e colocar as coisas da forma correta. 



Minha capa.
É isso. Infelizmente, já que não tenho uma boa conexão nas férias, não tenho como colocar boas imagens, tampouco, os links como gostaria. Recomendo Jane Eyre e, acredito, toda a coleção da Manga Classics deve ser interessante. É entretenimento e guarda um caráter didático, também. Um dia, pretendo mostrar para a Júlia.  Jane Eyre foi um livro que conheci na obsolescência e, acredito, toda menina deveria ler.

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1 pessoas comentaram:

Olá Valéria, gostei da resenha do livro, essa aparência infantil da Jane me deixou com o pé atrás desde que vi esse quadrinho. Já vi adaptações de Jane Eyre que possuiam um traço melhor na hora de representar a protagonista. Sei até de uma adaptação de Jane Eyre que saiu aqui no Brasil pela editora ebal, anos atrás, acredito que tenha disponível na internet.
Dessa coleção de clássicos eu tenho Pride and Prejudice e Emma, só li o primeiro até agora, confesso que não goatei do design do Mr. Darcy, que parece um vampiro e nem do Mr. Knightley em Emma. Gosto de ver uma editora investindo em quadrinhos clássicos estilo manga, mas no fundo queria que lançassem aquelas edições japonesas com traços maravilhosos.
Essa capa de Jane Eyre me deixa com o pé atrás para investir dinheiro nela, já que o dólar está caro.

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