A Ediciones de la Flor, responsável por publicar Mafalda na Argentina por cinco décadas, anunciou o seu fechamento. A notícia foi dada durante a 50ª Feira Internacional do Livro de Buenos Aires, realizada entre os dias 23 de abril e 11 de maio. Ainda que o anúncio não tenha sido feito oficialmente para a imprensa, a informação foi confirmada por Ana María “Kuki” Miller, diretora da editora, para a AFP. Miller afirmou que o fechamento se deu por uma soma de fatores ligados às transformações do mercado editorial, desde os avanços tecnológicos até a crise econômica enfrentada pela Argentina. Segundo ela, a Ediciones de la Flor já não conseguia acompanhar as mudanças aceleradas do setor.
Ao jornal Página 12, Miller declarou que a editora funcionava ainda de maneira muito tradicional e explicou que muitos funcionários permaneceram na empresa por décadas e que, nos últimos anos, precisou reduzir gradualmente a equipe. Para se adaptar às novas demandas de mercado, a Ediciones de la Flor teria que se reorganizar quase que do zero, o que não seria possível. Segundo matéria do site Fora do Plástico, a situação se agravou em 2025, quando os herdeiros de Quino retiraram da editora a publicação de Mafalda alegando que a Ediciones de la Flor era muito limitada e não garantia uma boa distribuição de Mafalda. E, citando a matéria do Fora do Plástico, "A mudança envolvendo a obra de Quino começou após a morte do cartunista, em 2020. Os direitos autorais ficaram inicialmente sob responsabilidade de sua sobrinha, Julieta Colombo, que trabalhou ao lado do autor durante mais de 30 anos. Com a morte dela, em 2023, cinco sobrinhos de Quino assumiram a administração legal da obra."
A Ediciones de la Flor teve papel importante na publicação de diversos quadrinistas argentinos, como Miguel Rep e Roberto Fontanarrosa. A editora também ajudou a introduzir no mercado argentino autores internacionais e latino-americanos, entre eles Ray Bradbury, Umberto Eco, Vinicius de Moraes e Clarice Lispector. É o fim de uma era, mas é algo típico do capitalismo.
Conheci o livro Cometerra (Cometierra), de Dolores Reyes, por causa de um vídeo da Deutsche Welle (DW) sobre a proibição de livros pelo mundo. Onde quer que a extrema-direita chegue ao poder, isso é a regra e o assunto principal do vídeo era o que está ocorrendo nos Estados Unidos, mas a reportagem falava, também, das tentativas de censura promovidas pelos ditos progressistas. Só que há outro país que recebe atenção, a Argentina, porque, depois da chegada de Millei ao poder, se iniciou uma onda de perseguição à livros considerados inadequados para estar nas escolas, a maioria ABSOLUTA desses livros é de autoria feminina, vários deles com alguma temática feminista. Cometierra é um deles e eu decidi ler e terminei nesta madrugada.
Cometerra conta a história de uma menina que tem um estranho dom, se ela comer a terra pisada por uma pessoa, ela tem visões sobre ela. Esse dom, que é, também, uma maldição, faz com que ela seja procurada por diversas pessoas em busca de desaparecidos, na maioria dos casos, Cometerra só consegue ajudar a localizar seus corpos. Cometerra é uma espécie de denúncia da violência que existe nas periferias das cidades latino americanas, porque a história poderia se passar no Brasil, também, na qual pessoas pobres somem todos os dias e os feminicídios são diários.
Cometierra foi lançado, na Argentina, em 2019, e a Editora Moinhos o publicou em português, em 2022. Li a versão Kindle. Leitura rápida, capítulos curtos, prosa direta. É um romance na tradição do realismo fantástico latino americano, mas duro, sem romantismo, sem ideal moralizador e que se centra em uma família pobre e destruída pela violência. A mãe de Cometierra foi assassinada pelo pai, que fugiu. Cometierra é uma criança ainda, nunca ficamos sabendo de seu nome, ela é chamada assim, também, não sabemos sua idade, mas eu apostaria 10 ou 11 anos. A vemos crescer ao longo da história, tornar-se mulher, mas sem que saibamos quantos anos ela tem.
Depois da morte da mãe e do desaparecimento do pai, uma tia paterna vem cuidar de Cometierra e seu irmão mais velho, Walther. A tia quer que Cometierra esqueça seu dom, a trata de forma ríspida, mas parece ter medo. Quando a menina vê onde está o corpo de Ana, sua professora desaparecida, a tia não aguenta mais e abandona os sobrinhos. Já Cometierra acaba largando a escola e nenhuma autoridade se preocupa com ela, ou com Walther que arranja um emprego como mecânico. A casa dos dois vira um lugar de encontro para adolescentes, que jogam playstation, fumam e bebem cerveja. Com o passar do tempo, pessoas começam a procurar por Cometierra e ela acaba cedendo e ajudando, conseguindo, também, contribuir para a renda da família.
Só que não há como Cometierra não se envolver emocionalmente com os desaparecidos, mesmo que não queira, mesmo que resista, ela não quer que mais ninguém morra, especialmente, mulheres. Ao longo do livro, ela consegue ajudar a resolver alguns casos, todos eles são comoventes a sua maneira, uns violentos, outros, acidentes. De qualquer forma, ao longo da obra, Cometierra sonha com a professora Ana, uma espécie de amiga e companheira. A cada sonho, ela fica mais próxima de Ana em idade e se angustia em saber que os assassinos de Ana nunca foram encontrados. Há nos quais Ana deseja que ela faça alguma coisa, em outros, ela deseja que Cometierra não tente descobrir nada.
Ao longo do livro, Cometierra tem dois amores. Hérnan, o primeiro, era amigo de Walther, tinha a idade do irmão de Cometierra. Como não sabemos as idades, fica a impressão de que se trata de um rapaz maior de idade e uma menina que, talvez, tenha 13, 14 anos. Não sabemos até onde eles foram, se somente beijos, ou algo mais. O fato é que Hérnan não consegue ficar ao lado de Comettierra, o dom da menina é algo com o qual ele não consegue lidar, especialmente, quando gente perigosa começa a ameaçá-la. O segundo amor de Cometierra é por Ezequiel, um policial que veio em busca de ajuda para encontrar a prima desaparecida. Cometierra não confia nele, não confia em policiais, mas fica fascinada pelo homem perfumado e tenta imaginar quantos anos ele tem, ela acredita que ele tenha a idade do irmão dela.
Com Ezequiel, Cometierra irá fazer sexo três vezes no livro. Não sabemos se a primeira das três relações sexuais foi a primeira de fato, ou a primeira narrada, porque a protagonista parece muito acostumada com a coisa toda. O fato é que as três relações sexuais são narradas de forma crua e sem romantismo, ainda que Ezequiel diga que ama a protagonista pelo menos uma vez e mostre se preocupar com ela. O fato é que Cometierra tem a necessidade do contato, há afeto, mas é basicamente sexo mesmo. São exatamente essas sequências que dispararam a crítica da extrema-direita quando o livro foi incluído na lista de leituras do Ensino Médio argentino, ou de algumas províncias do país, isso, não descobri ao certo.
A autora foi ameaçada de morte, a vice-presidenta, Victoria Villarruel, condenou o livro. E não fez somente isso, acusou a obra de ser pornográfica, pedófila e postou pedaços de outros livros, cenas de sexo, como se fossem de Cometierra. Dolores Reyes recebeu apoio de outros autores e autoras argentinos, houve protestos e o livro ganhou mais notoriedade. Ainda assim, Reyes, que é mãe de sete crianças, teve sua vida virada pelo avesso. Imagina escrever um romance que tem o feminicídio como tema central e ser ameaçada de morte? Fora o medo por suas crianças, enfim.
Se eu tivesse que dar uma nota para Cometierra, não seria a nota máxima. Daria um sete no máximo. A trama é envolvente, a ideia de que as mulheres tem ligação com a terra, que nos acolhe de volta como em um retorno ao útero materno, é já vista, mas muito bem trabalhada. O problema é que Cometierra é o primeiro livro de uma série. Não esperava por isso, então, me frustrei no final e não foi pouco. O seguimento se chama Miseria, o apelido da menina, porque Cometierra descreve a moça como pouco mais velha que ela quando sua mãe morreu, que se tornou companheira do irmão da protagonista. E eu terei que ler esse livro agora... Não esperava por isso.
E, sim, o livro não discute a questão da pedofilia, ela toma a coisa como algo consumado, que faz parte de um mundo de adolescentes deixados a própria sorte, sem carinho, sem orientação, dependendo somente de si mesmos. Como pontuei, não há nenhum intuito moralizador no livro, de denúncia, talvez, mas não de resolver problemas. O racismo é outro tema não discutido. Não há descrições físicas de Cometierra ou do irmão. Somente uma moça morta é descrita como loura e que a mãe da menina, que tinha estudado com Cometierra, se achava melhor do que os outros do bairro por causa disso. É o capital simbólico da branquitude.
A morta tinha sido proibida de ser amiga de Cometierra pelas mãe, as duas eram colegas de escola. Mais tarde, a mãe vem atrás de Cometierra pedindo ajuda. Somos levados a crer que o grande motivo da separação das duas tinha sido o horror causado pelo dom da protagonista, só que, mais tarde, Ezequiel, o policial, interpela Cometierra da seguinte forma "O que você está fazendo com esses negros?". Ela pensa que ele nunca tinha falado assim com ela e que ela não era diferente dos "negros" aos quais ele se referia com tanto desprezo. Logo, posso deduzir que a protagonista era negra, correto? E há uma passagem em que Walther diz para a irmã procurar uma mãe de santo. Não há descrições físicas das mulheres do terreiro, que Cometierra diz que se parecem com deusas, será que eram negras, também? Essa não discussão do racismo me incomodou bastante.
Já caminhando para o final, conforme eu ia lendo, ficava pensando em como Cometierra poderia dar um bom filme e que, com todo o sucesso e perseguição, ele viria. Bem, não será filme, mas uma série e ela está prestes a estrear no Prime Video. A ação foi transferida para o México, aliás, foi nesse país que se popularizou a palavra feminicídio. E é aquilo que pontuei, a história poderia ocorrer em quase qualquer lugar da América Latina. No seriado, Cometierra tem um nome, Aylín, e mora em um subúrbio da Cidade do México. O responsável principal pela adaptação é o argentino Daniel Burman e a protagonista será Lilith Curiel. O resto do elenco está no IMDB. O trailer (*logo abaixo*) parece apontar que será uma série policial. Encontrei outro vídeo, que diz que Aylín tem o dom de resolver feminicídios, bem, no livro, livro, há mais que feminicídios. De qualquer forma, espero ter paciência para dar uma olhada. Sei que vai fazer um grande sucesso.
Ontem, foi um dia complicado para mim, postei sobre a morte do Papa Chico no Instagram, mas não coloquei nada aqui no blog, mas preciso. Até explicando minha ausência por aqui, se nada acontecer de estranho, opero catarata amanhã e precisava colocar minha vida em ordem, isto é, corrigir todos os trabalhos dos meus alunos, fechar notas e tudo mais que estiver pendente. Enfim, admirava muito o primeiro papa jesuíta, que muita gente imagina que era franciscano por abraçar o nome Francisco em homenagem ao santo de Assis. Quem conhece o blog de muito tempo, e este ano esqueci de comemorar os 20 anos do Shoujo Café em 23 de março, sabe que trabalhei na graduação, mestrado e doutorado com a Ordem Franciscana nos seus primórdios, o século XIII. Considerava Francisco um estadista, o maior do século XXI até o momento, alguém que mostrou empatia pelos fracos, pelos pobres, pelos que sofrem, pelos que não tem voz e já o fazia na sua Argentina natal, onde se preocupou em criar um apostolado junto aos moradores das favelas de Buenos Aires.
Francisco, antes Jorge Mario Bergoglio, era um homem controverso em seu próprio país e eu comentei sobre isso na minha resenha do filme Dois Papas, mas, pelo menos nos últimos anos, seus inimigos, seus detratores, eram pessoas que não estão do mesmo lado que eu estou no espectro político. Mas eu já estava esperando a partida do Papa Chico, em um dos meus Shoujocast, eu comentei sobre isso. Agora, é o Conclave e eu preciso fazer a resenha do filme, que eu assisti imaginando que ele tinha algo de premonitório, desenhando muito bem as facções em disputa pelo Vaticano. além de ser excelente. Enfim, espero que não seja o fim de uma Era e que o próximo papa seja pelo menos um moderado que conserve os avanços do pontificado de Francisco. E deixo, agora, o que escrevi no Instagram, porque o texto de lá ficou bom e deve ser preservado aqui:
"Em sua última aparição pública, em sua mensagem de Páscoa, Papa Chico fez um último pedido, pediu pela paz em Gaza, pelo fim do genocídio.
Não sou católica, sequer fui batizada, nasci em um lar protestante, mas tenho profunda admiração por Francisco pelo que fez e pelo que não conseguiu fazer. Qualquer pessoa que tenha estudado minimamente a História da Igreja Católica sabe que a instituição sobreviveu porque soube se adaptar ao longo de séculos. Por outro lado, é preciso ter a percepção de que a igreja não se vê somente como algo terreno, mas uma instituição com uma dimensão espiritual, fora do tempo e, portanto, com toda a eternidade para repensar e mudar questões que, para os seres humanos, são urgentes.
Francisco tentou apressar algumas dessas questões que poderiam ser empurradas para a eternidade, era um homem limitado, como todos são, papas não podem fazer tudo, nunca puderam, a igreja tem uma estrutura que é pesada demais, mas ele buscou acolher, consolar, trazer a instituição para o século XXI, deixando para trás a tentativa de seu antecessor de arrastá-la para o século XIX.
Enfim, ele era um estadista em um tempo em que eles estão em falta. Espero que as forças dentro do Conclave se equilibrem para eleger pelo menos alguém que mantenha o seu legado, mas algo me sugere que, talvez, vejamos ser eleito o primeiro papa africano e, portanto, ultraortodoxo, ou um reacionário europeu ou norte-americano."
E termino com Ilze Scamparini, correspondente da Rede Globo na Itália, falando sobre os últimos momentos de Papa Francisco.
Não tenho dúvidas de que papa Chico sabia que estava partindo e não de ontem, no entanto, como um agente político que sabia o tamanho que tinha, se esforçou por esse último ato, não somente o "Urbi et Orbi", o que liturgicamente é importante, mas de mandar uma mensagem de paz e da necessidade de tomada de posição para o mundo. E o mundo, neste caso, não se resume aos católicos, mas todos os que têm boa vontade.
Este é um dos posts políticos que não faço faz tempo. Se não quiser continuar, basta pular. Há muitos outros posts no Shoujo Café que podem lhe interessar. Sigamos!
A Copa América terminou no domingo, 14 de julho, data da Revolução Francesa. A Argentina venceu a Colômbia. Até ontem, sabia somente da confusão e do quebra-quebra que atrasou e muito a final. Nada que quem acompanhe futebol não tenha visto acontecer em algum momento, mas nos Estados Unidos, nunca tinah rolado uma selvageria assim no futebol, eu imagino. OK.
Ontem, porém, fiquei sabendo que o o subsecretário Julio Garro afirmou em entrevista que canto colocava país em 'situação ruim' e pediu que a seleção se retratasse. O resultado foi a demissão de Garro com a seguinte mensagem partida do gabinete do presidente Javier Milei: "A Presidência informa que nenhum governo pode dizer o que comentar, o que pensar ou o que fazer à Seleção Argentina, Campeã Mundial e Bicampeã Americana, ou a qualquer outro cidadão. Por isso, Julio Garro deixa de ser Subsecretário de Esportes da Nação.". Mas o que havia na música que foi puxada e divulgada pelo jogador Enzo Fernández, contratado pelo Chelsea na Inglaterra?
"Eles jogam pela França, mas são de Angola. Que bom que eles vão correr, se relacionam com transexuais. A mãe deles é nigeriana, o pai deles cambojano, mas no passaporte: francês"
Vocês conseguem entender o quanto esses versinhos são horrendos, repulsivos, absurdos? Eu fiquei enojada mesmo, como é possível gravar isso e colocar com orgulho na internet? Racismo, aliás, é coisa antiga no futebol argentino, os brasileiros volta e meia são chamados de monos (*macacos*), mas deveria ter ficado no passado. Segundo o UOL, ela tinha sido cantada por torcedores argentinos na copa do Catar em 2022 (*citando Mbappé, inclusive*), a letra está até amenizada. Mas qual o motivo disso tudo? Não foi a Colômbia o adversário derrotado?
Muito bem, para você que mora em outro planeta, assim, tipo meu marido que não liga para futebol e evita o noticiário político por motivos de saúde, a extrema-direita na França, cuja bandeira mais visível é o discurso racista contra imigrantes e seus filhos e filhas, sofreu um revés espetacular, porque tinha vencido o primeiro turno, nas eleições legislativas francesas. Para a extrema-direita local, a seleção de futebol do país não representa a França adequadamente, porque é majoritariamente negra e formada por filhos de imigrantes. Aliás, o líder maior da extrema-direita francesa, Jordan Bardella, também é, porque é de ascendência italiana e argelina, mas quem se importa, não é mesmo? Ele tem a cor de pele adequada e a religião certa.
Durante o segundo turno, vários jogadores da seleção francesa tiveram um papel importantíssimo na campanha contra a extrema-direita, em especial, Kylian Mbappé, estrela do time. Ele fez campanha contra a extrema-direita, assim como nosso craque Raí, que mora na França e vai carregar a tocha olímpica. Vou colocar o vídeo dele no final do post, porque raramente via alguém sintetizar tão bem os ideais da Revolução Francesa e do Iluminismo.
Muito bem, Mbappé já foi apontado como tendo namorado uma mulher trans. A França perdeu a final da Euro para a Espanha, cuja principal estrela é um adolescente filho de imigrantes, mas a extrema-direita mundial se sentiu representada, porque, sim, os neofascistas estão em um eixo internacional, na vitória espanhola. Para quem não sabe, algo que incomoda muito os racistas é o fato de na França, nos Estados Unidos, no Brasil, também, enfim, funcionar ojus soli (lei do solo), quem nasce no país é seu cidadão por lei e direito. Fora isso, países colonialistas, caso da França, estão ligados de alguma forma as suas ex-colônias, no caso da França, de forma muito efetiva até hoje. A imigração tem a ver com esses laços e uma dívida histórica, por assim dizer.
Acredito que o tal Enzo Fernández se sentiu estimulado a fazer a gracinha, afinal, ainda era a data da Queda da Bastilha, e o resto da seleção acompanhou e Messi, grande estrela do time, está em silêncio. Foi horrendo. O subsecretário se pronunciou e foi punido. Por fim, a vice-presidenta, Victoria Villarruel, que é ligada à grupos que defendem a ditadura militar argentina, saiu defendendo a seleção de seu país, seu racismo e sua transfobia e cito o UOL, mas o artigo traz o post da autoridade:
"Victoria Villarruel se manifestou no X (antigo Twitter), nesta quarta-feira (17). A vice-presidente afirmou que "nenhum país colonialista vai intimidar" a Argentina. Ela também chamou os franceses de "hipócritas" e pediu que as pessoas "parem de fingir indignação". Por fim, Victoria afirmou que "banca" Enzo Fernández, jogador que gravou o momento do cântico racista e transfóbico e agradeceu a Messi."
Enfim, a vice argentina instrumentalizou o imperialismo da forma mais livre possível para justificar o direito ao racismo. O próprio presidente argentino postou em sua conta no Twitter que criticava a cobrança de "desculpas a alguns europeus colonizadores por uma música que também diz a verdade". Absurdo, enfim. O Chelsea, time de Fernández se pronunciou em nota oficial, após o pedido de desculpas do jogador:
"O Chelsea Football Club acredita que todas os comportamentos discriminatórios são completamente inaceitáveis. Nós nos orgulhamos de ser um clube diverso e inclusivo, em que pessoas de todas as culturas, comunidades e identidades se sentem bem-vindas. Tomamos conhecimento e valorizamos o pedido público de desculpas do nosso jogador e usaremos essa oportunidade para educar. O clube instaurou um processo disciplinar interno.", comunicou a equipe inglesa.
Pode dar ruim para o engraçadinho, não é? O salário de Enzo Fernández não é pago por Milei. E como foi o pedido de desculpas de Fernández e cito da BBC:
""Quero pedir desculpas sinceras por um vídeo postado no meu canal do Instagram durante as comemorações da seleção. A música inclui uma linguagem muito ofensiva e não há absolutamente nenhuma justificativa para essas palavras", disse o atleta" "Oponho-me à discriminação em todas as suas formas e peço desculpas pela euforia das comemorações na Copa América. O vídeo, aquele momento e essas palavras não refletem as minhas crenças ou o meu caráter”, acrescentou."
Se arrepende NADA, só vai colocar a mão na consciência se pesar no bolso. Mas bobo ele não é, porque, na Inglaterra, onde ele trabalha, a coisa não pegou nada bem. Como teremos Olimpíadas na França, o técnico da seleção argentina veio à público tentar colocar panos quentes, mas piorou as coisas, eu diria:
"Se existe algo que nós argentinos não somos é racista, longe disso. Acho que tudo foi tirado de contexto", disse o ex-Barcelona, à agência AFP." " Eu conheço o Enzo, é um bom garoto e não tem nenhum tipo de problema com isso. O que acontece é que muitas vezes, dentro de uma comemoração, pegam uma parte de um vídeo e tiram de contexto – insistiu Mascherano." "Muitas vezes é preciso entender a cultura de cada país e muitas vezes o que entendemos como uma brincadeira pode ser mal interpretado em outro lugar", disse o treinador."
Argentinos não são racistas, mas é preciso compreender a cultura do país. Aham... Daí, vem e diz que a coisa foi tirada de contexto e isso quando o próprio autor da façanha, Enzo Fernández, já tinha se desculpado. O fato é que a Federação Francesa de Futebol se pronunciou com dureza, não esperava menos, e pediu punição à FIFA, alguns jogadores também se posicionaram, e a FIFA abriu investigação. E, claro, podemos ter violência nas Olimpíadas.
Depois desse posicionamento do governo argentino, do silêncio (*se alguém se posicionou, me passem o link, por favor!*) do Messi e outros membros da seleção, e a tentativa de naturalizar como "parte da cultura do pais" essa nojeira, a FIFA e o Comitê Olímpico fariam bem em punir a Argentina. Multa e uma bela suspensão de eventos internacionais. E espero que o tal Enzo Fernández passe um aperto na Inglaterra, que ande certinho daí para frente, ou volte para casa, onde, ao que parece, passou a ser admissível ser aberta e orgulhosamente racista e escroto por conta de um governo de extrema-direita. E, como disse que faria, abaixo está o vídeo do Raí. Isso, sim, faz a gente se orgulhar:
Hebe de Bonafini (1928-2022) líder das Mães da Praça de Maio, um grupo de mulheres que confrontaram a ditadura argentina (1976-1983), uma das mais cruéis da América Latina, faleceu no último domingo (*1 - 2 - 3*). Todas as quintas-feiras, usando lenços brancos na cabeça, desde 1977, elas se reuniam diante da Casa Rosada, a residência oficial da presidência argentina, exigindo que seus filhos e filhas lhes fossem devolvidos. Com o passar do tempo, as mães viraram avós, porque uma das práticas mais cruéis da ditadura militar argentina era sequestrar crianças, filhos e filhas de prisioneiros políticos, e as darem em adoção para casais de confiança do regime. Em alguns casos, os próprios carrascos adotavam essas crianças (*Exemplo*). Estima-se que mais de 500 crianças tenham sido roubadas e até hoje, há quem procure seus netos e netas e muita gente traumatizada em descobrir que seu amoroso pai talvez tenha sido o torturador e assassino de sua mãe biológica.
Hoje, o Mães da Praça de Maio se transformou em uma poderosa entidade, que hoje possui um instituto universitário, um jornal, uma rádio e uma livraria. E, não, isso não é ruim, só mostra a importância da luta dessas mulheres, a maioria donas de casa sem nenhum envolvimento político na época do início do movimento, e a força de sua causa. Além disso, administra um centro cultural que funciona hoje numa das ex-sedes clandestinas de tortura, a ESMA (Escola Superior de Mecânica da Marinha).
Bonafini teve dois de seus três filhos sequestrados e mortos pela ditadura. As Mães da Praça de Maio até hoje marcham em memória dos seus filhos e filhas e para manter viva a memória das atrocidades da ditadura e formar novos militantes pela causa dos direitos humanos. Sim, é preciso não esquecer, ou novas ditaduras podem acontecer. Os argentinos merecem toda a admiração por não terem nem perdoado, nem esquecido, os criminosos responsáveis pela ditadura em seu país. Com a idade avançada e a saúde já se deteriorando, Bonafini passou a participar cada vez menos as marchas, que foram suspensas por dois anos por causa da pandemia.
Bonafini foi homenageada por várias autoridades da Argentina e, também, do exterior. Sua luta e a de outras mães para encontrarem os cerca de 30 mil desaparecidos durante a ditadura é publicamente reconhecida em seu país. Eu prometo terminar de assistir Argentina 1985 e resenhar. É um filme necessário. Para quem quiser saber mais sobre o roubo de crianças, recomendo o filme História Oficial, que ganhou inúmeros prêmios, incluindo o de melhor filme estrangeiro no Oscar de 1986. Sim, os argentinos não esperaram vinte anos para enfrentar seus fantasmas. Para quem está curioso, houve sequestro e adoções ilegais de crianças no Brasil, a escala foi menor, mas há pelo menos um livro sobre o tema, o nome é Cativeiro sem fim: as Histórias dos Bebês, Crianças e Adolescentes Sequestrados Pela Ditadura Militar no Brasil. Eu tenho e recomendo. A questão do sequestro de crianças durante a ditadura foi tratada na novela Amor & Revolução do SBT, aliás, procurando no Youtube, você encontra os relatos dos torturados e perseguidos que iam ao ar ao final dos capítulos até que pararam de ser exibidos. A novela, não recomendo, porque era bem precária.
Pessoal, hoje é dia 1 de janeiro de 2021. Entramos finalmente na segunda década do século XXI e o Shoujo Café completará 16 anos em março. Sim, muita gente não percebeu, mas as décadas e os séculos começam no ano 1. Ontem, não consegui postar nada e deve permanecer assim por alguns dias. Não consegui nem terminar Bridgerton e resenhar os três últimos capítulos. Estou de mudança e é para Brasília mesmo, mas foram quase vinte anos morando na mesma casa e muita coisa precisa ser arrumada. Quem tiver curiosidade em ver alguns dos mangás e livros que eu estou empacotando, é só visitar o meu Facebook. Eu tenho batido algumas fotos e repassado parte delas para o grupo do Shoujo Café no Facebook.
Enfim, o ano de 2020 não vai deixar saudades para a maioria de nós. Não vou também fingir que espero um 2021 maravilhoso. Teremos que conviver durante muitos tempo com a pandemia ainda e a vacina deve demorar a ser distribuída em nosso país. Infelizmente, é isso. Por outro lado, o ano que inicia parece ser muito promissor para os fãs de shoujo mangá, começando com a estreia de Sailor Moon nos cinemas japoneses. Dois filmes, um em janeiro, outro, em fevereiro. Ainda teremos Tokyo Babylon, Kageki Shoujo, final de Fruits Basket, Segunda temporada do anime da Katarina, mais um filme de Natsume Yuujinchou, há séries BL, também, e certamente esqueci mais coisas, porque foram vários anúncios mesmo. No campo dos live actions, meu destaque vai para o especial de Nigehaji este mês. E tenho esperanças, com o fim de Ōoku, mais doramas, ou filmes, usando arcos do mangá sejam anunciados.
Se pensarmos no ano passado, acredito que o grande destaque no shoujo mangá no Brasil foi Banana Fish. Demorou, mas saiu. E eu não me dignei ainda a terminar as resenhas da Rosa de Versalhes, mas elas virão. Houve o lançamento do canal Loading, que eu queria poder comentar, mas não consegui encontrar o canal na minha TV e não quero assistir no computador. Falta-me vontade e tempo, fora que, devo confessar, não tenho muita coisa para olhar no Loading, mas reconheço que é uma empreitada muito importante.
Assinei Globoplay e Disney plus, foi por isso que consegui assistir Soul rapidinho, protelei e não resenhei uma série de coisa, inclusive o excelente especial Falas Negras, mas dá tempo. Mesmo sem ter ido ao cinema, contei setenta e duas resenhas no blog este ano, mesmo deixando de fora vários filmes, livros e mangás que li. Farei os posts com as resenhas do ano passado como tem sido tradição todos os anos, claro. Se tivesse um desejo de Ano Novo, que Glass Mask termine finalmente, não é? Ah, sim! E que os bons ventos da Argentina soprem por aqui.
Foi um ano difícil, como professora, confesso que nunca trabalhei tanto e sob tanta tensão, porque sempre estive no presencial. Não sou grupo de risco, não pedi permissão para home office, porque interagir com meus colegas me fazia mais bem do que ficar trancada em casa, mas a volta das aulas com os alunos presencialmente foi motivo de grande apreensão. Fora a mudança, porque pediram nosso apartamento, já que a "pandemia já acabou". Sim, meu marido ouviu isso. Resultado? tive um pico de pressão sem precedentes em dezembro e termino o ano tomando Ansiolítico. Fora, claro, que levei um tombo faz quase três meses e lesionei o pulso direito. Posso ter que operar, mas com essa história de pandemia, que não acabou, e mudança, tudo se atrasou.
Retomando, este ano é do boi de metal no Horóscopo Chinês. Por isso, várias autoras de mangá estão postando ilustrações comemorativas no Twitter. Eu tenho duas listas, uma com artistas e outra com revistas. Se vocês quiserem seguir, terão acesso a essas ilustrações e capaz de revista e outras coisas mais. Há mais coisa interessante do que desinteressante.
Termino com a mensagem que deixei no Instagram e no Facebook. Acredito que cabe aqui, também: "Feliz Ano Novo! Feliz nova década! Que tenhamos esperança no futuro e força para enfrentar 2021. Eu não vou me prolongar escrevendo coisas que não sinto, enfim, foi um ano difícil, mas acredito que só de estarmos vivos, bem, lendo essa mensagem que estou escrevendo, já fomos um pouco vitoriosos.
Houve quem perdeu parentes ou amigos para a COVID-19. Houve aqueles que se curaram e seguem firmes, mesmo que com sequelas. Houve aqueles que partiram simplesmente, como meu tio Jaime, que faria aniversário hoje. Há os que estão com seus entes queridos e amigos lutando pela vida nesse momento. há as amigas que passaram por tremendo estresse grávidas na pandemia, mas que pariram e chegam à 2021 bem e com suas crias nos braços. Cada um carregou seu próprio fardo em 2020 e chegou até aqui com histórias para contar.
Sei que tenho entre meus contatos e amigos quem esteja na linha de frente contra o vírus, médicos/as, enfermeiros/as e outros profissionais da saúde. Muita gratidão e força para todos vocês.
Que em 2022, sim, não me enganei, há muito o que vencer ainsa, possamos nos abraçar sem medo. Que as vídeo conferências e lives sejam uma escolha, não uma imposição. Que, nós, professores, possamos ver o sorriso dos nossos alunos e alunas ao vivo, sem telas, sem máscaras.
E que tenhamos juízo para promover as mudanças políticas que esse país precisa. Chega de trevas, chega de culto à morte, chega de violência, de falta de empatia e compaixão. Seja luz em 2021, faça diferença onde você estiver.
Sim, ia escrever pouquinho e fiz esse textão imenso e, provavelmente, piegas em muitas de suas partes."
Obrigada, muito obrigada por me acompanharem em 2021. Enquanto o Shoujo Café for relevante, ou eu considerar que ele é relevante, permanecerei com vocês. Peço desculpas se não consegui fazer tantos posts interessantes este ano, mas 2020 foi tétrico. O blog é feito por uma pessoa só, que é professora de História, mãe de uma menina de sete anos e, agora, com a morte do Marinetti, de quatro gatinhos, dona de casa, sindicalista etc. A gente nem sempre consegue dar conta de tudo.
Não tenho conseguido fazer muitos posts esses dias, inclusive sobre a terrível onda de feminicídios da semana natalina em nosso país, pois estou de mudança e minha mão direita ainda está lesionada (*posts longos, qualquer post, na verdade, deveriam ser evitados*), mas não poderia deixar de celebrar a vitória das mulheres argentinas, feministas, ou não, engajadas na ampliação dos seus direitos. Sim, direito. A Argentina se junta ao Uruguai na América do Sul, porque os uruguaios normalmente saem na frente em questão de direitos. Em toda a América Latina, temos ainda Cuba, Porto Rico e Guiana, fora algumas regiões do México, normalmente, esquecem dessa peculiaridade do país e o deixam de fora da lista.
Estava acompanhando muito de longe o desdobrar dos acontecimentos. Quando passou pela câmara dos deputados de lá, segurei a onda, porque, bem, da outra vez, a coisa caiu no Senado. Só que dessa vez, deu certo e não foi por votação apertada, não. Com 38 votos a favor, 29 contra e uma abstenção, o Senado argentino aprovou a interrupção voluntária da gravidez na Argentina. Pelo projeto apresentado pelo presidente argentino Alberto Fernández, o período máximo de gestação em que o aborto seria permitido é de 14 semanas.
Nas matérias que li, destacam-se a atuação de Nelly Minyersky, diretora de mestrado da Faculdade de Direito da Universidade de Buenos Aires. Com 91 anos, ela defende há pelo menos quinze anos a descriminalização e a legalização do aborto na Argentina e esteve presente a todas as sessões na câmara discutindo o projeto, mesmo sendo grupo de risco, afinal, estamos em uma pandemia. Citando a matéria da UOL: ""O aborto saiu do armário. Ele sempre existiu, mas o debate permitiu que esta realidade clandestina e que castiga as mulheres viesse à tona", disse a ativista em entrevista à BBC News Brasil. Ela espera que o projeto seja aprovado e que "influencie" toda a América Latina, onde muitas mulheres, afirmou, sofrem caladas e acabam "até algemadas"."
A outra fala é da senadora Silvia Sapag, nascida em 1949: “Quando eu nasci, as mulheres não votavam, não herdavam, não podiam ir para a universidade. Não podíamos nos divorciar, não tínhamos aposentadoria como donas de casa. Quando nasci, as mulheres não eram ninguém. Sinto emoção pela luta de todas as mulheres que estão fora agora. Para todos elas, que seja lei". A fala da senadora é emocionada e carregada de uma ideia, que eu como historiadora considero falsa, vide o momento triste que vivemos, de evolução. Mas, sim, os avanços legais na Argentina em relação aos direitos das mulheres foram obtidos ao longo de anos de lutas de várias gerações de mulheres. Não caiu do céu. E se há mulheres na câmara e senado de lá votando contra o direito das outras mulheres, é porque as feministas lutaram para que elas pudessem votar e serem votadas, também.
Em outra entrevista, a senadora disse: "“Também é verdade que com o passar do tempo se fica mais consciente. Sou uma mulher adulta, sempre fui a favor do aborto, minha mãe me proibia de falar sobre aborto em público, não podia ser que a filha dela tivesse essas ideias malucas. Então, em 2018, quando todo o poder da Campanha foi, as mulheres na rua, na chuva, esperando durante a noite, pressionando o Senado, bom, minha neta estava lá, minha neta de treze anos, com quem converso muitas coisas,e ela me disse: "mas é óbvio vovó." E esse "óbvio" tira meu sono ", disse ela." Fico feliz pelas argentinas e que 2018, aquele ano horrível, não tenha se repetido.
A Argentina se junta as nações mais desenvolvidas do mundo em relação ao direito de aborto e seguindo o percurso correto, o Legislativo. Aqui, no Brasil, o pessoal tem tanto medo do da composição bizarra do nosso congresso, que se repete a cada nova legislatura, que tenta fazer gambiarras, apelando para o STF. Eu, Valéria, mulher feminista, defensora d descriminalização do aborto até a 12ª ou 14ª semana de gestação, gostaria que as coisas seguissem os trâmites corretos, sem atalhos, ou desvios. Infelizmente, o clima aqui não é dos melhores, não vamos nos enganar.
E, para quem não entendeu, o aborto descriminalizado e balizado temporalmente pela lei, não é porteira aberta, não, além disso, a lei não obriga ninguém a interromper a gravidez. É direito, não dever. E é questão de saúde pública, também. Fico feliz que as argentinas, na mesma semana, possam ver o início da vacinação contra a COVID-19 e o direito ao aborto. Enquanto isso, nós, no Brasil, aguardamos a escalada da tragédia. É isso.
"E isto?""Neste preciso momento, em algum lugar, Quino está nascendo de novo."
Desde o falecimento do criador de Mafalda, Quino, em 30 de setembro, eu vi várias homenagens tocantes de cartunistas de vários lugares do mundo, mas acho que uma das mais perfeitas foi esta. O autor é o cartunista argentino Daniel Paz. a página dele é esta aqui. Enfim, todo autor ou autora renasce cada vez em que ele, ou ela, é redescoberto em algum lugar no mundo. Você pode chegar ao livro, ou quadrinho, diretamente, ou através de um filme, animação, ou até, no caso das tirinhas como as de Mafalda, daquele livro de língua portuguesa, ou outra disciplina, que você usou na escola. E descobrir algo novo é sempre uma experiência maravilhosa. Bom dia para vocês!
Hoje, faleceu o quadrinista argentino Quino, cujo nome é Joaquín Salvador Lavado Tejón (1932-2020), mais conhecido como o pai da Mafalda, uma das crianças ficcionais mais queridas do mundo. Mafalda é tão ou mais famosa que Charlie Brown e sua turma, mas ela é latino americana, crítica do sistema e muito mais próxima de nós. Por exemplo, não haveria Armandinho de Alexandre Beck, se Mafalda não lhe indicasse o caminho. E Quino foi firme, parou de publicar Mafalda em 1973, nove anos depois de criá-la, porque acreditava que suas ideias tinham se esgotado e se recusava a aderir a uma produção industrial.
Quino poderia ter sido somente o pai da Mafalda e já seria um titã, mas ele produziu muito mais material. Sempre com um olhar muito crítico sobre as mazelas do mundo, do sistema capitalista, a canalhice dos políticos latino americanos e a hipocrisia das classes abastadas. Um gênio. O mais bem sucedido quadrinista argentino de todos os tempos.
Segundo as notícias, ele teve um AVC. Estava com 88 anos. Sua vida foi muito frutífera e eu espero que ele tenha partido satisfeito com a vida que teve. Ele deixa Mafalda órfã, mas todos nós continuaremos a amá-la e ela nunca ficará sozinha.
Assisti Dois Papas (The Two Popes) na estréia no cinema, mais de três semanas atrás. Não sei por qual motivo retardei tanto a resenha, nesse tempo todo, ele já foi lançado na Netflix e indicado para quatro Globos de Ouro com uma grande omissão, o diretor, o brasileiro Fernando Meirelles. Espero que o Oscar corrija isso. Como o filme é muito bom e deve estar tendo audiência, ainda é possível assisti-lo no cinema em Brasília mesmo já estando na Netflix.
Dois Papas começa com o Conclave que elegeu Bento XVI (Anthony Hopkins), apresentando-o como um momento crucial para definir o destino da Igreja Católica, se a manutenção de uma política conservadora, ou uma reforma que a colocasse definitivamente em sintonia com o século XXI. Depois desse começo e de uma sucessão de noticias aceleradas sobre os problemas do pontificado de Bento XVI, o filme avança para aquilo que é o centro da narrativa, a relação entre os dois papas, o atual, e aquele que se tornará o papa Francisco (Jonathan Pryce).
Os conclaves já foram mais divertidos.
O centro do filme são uma série de encontros fictícios entre duas personagens desenhadas como opostas. Nessas reuniões semi-secretas ficam evidenciadas a forma como cada um dos dois compreende a sua fé e as questões relativas à doutrina da Igreja Católica. Com a aproximação, dramas do passado vem à tona, velhas culpas, remorsos, assim como a esperança de que o futuro pode ser melhor.
Para quem não sabe, Conclave é a reunião dos cardeais para deliberarem quem será o novo papa. A história desse tipo de reunião, de como passou a ser feita à portas fechadas, já é em si muito interessante. Vemos no filme os eclesiásticos se trancando por dentro para deliberar, na sua origem, o primeiro conclave foi o inverso, não havia consenso político para eleger um papa, a coisa estava se retardando fazia tempo, e um príncipe, o futuro Filipe V, rei da França, montou uma armadilha e resolveu a questão trancando os cardeais, sem comida e água, até que se decidissem. Foi rápido e escolhido foi um candidato que não parecesse perigoso para nenhuma facção e parecesse estar com o pé na cova. Deu ruim, claro, e a igreja quase se esfacelou.
Ele queria o poder.
Só que, como pode ser facilmente atestado, a Igreja Católica é uma instituição muito bem sucedida, ela sabe se adaptar, ceder nos pontos que acredita ser válido e manter pé firme em outros temas. Isso, claro, não se dá em um estalar de dedos, tampouco sem resistências dentro e fora do clero. Dois Papas, aliás, fala disso. A morte de João Paulo II, um papa muito longevo e conservador, que tomou para si a bandeira da derrubada do comunismo, mesmo fazendo vista grossa para uma série de abusos, abriu um terreno para disputas. O primeiro conclave do filme, mostra a eleição de Ratzinger como Bento XVI, um cardeal conhecido como intelectual, conservador e que tinha sido o grande responsável por sufocar a Teologia da Libertação, uma das expressões mais importantes do pensamento teológico católico do século XX e surgida na América Latina. Na época da eleição, eu realmente acreditei que alguém tão poderoso como ele, afinal, era o chefe da Congregação para a Doutrina da Fé, vulgo Inquisição para quem não sabe, fosse querer ser papa. Mas ele queria.
Primeiro encontro. Francisco teve que se paramentar cardeal para ser recebido pelo papa.
O filme enfatiza a disputa política que teria contraposto um ambicioso Ratzinger e um esquivo Bergoglio pela primeira vez, pois o Cardeal Martini (Achille Brugnini), o favorito dos progressistas, termina vendo no argentino um candidato melhor e acaba transferindo-lhe os votos. Um queria ser papa e manter a igreja nos trilhos do conservadorismo, o outro, queria pastorear os pobres, mas, não, promover a reforma que os progressistas desejavam. Desde o primeiro momento, o filme nos faz simpatizar com Francisco (*isso, claro, se você já não gostasse dele antes, como eu*). Ele é pintado com todas as virtudes, a simpatia encarnada, atencioso e amoroso com os necessitados, de hábitos simples, amante do futebol e capaz de assoviar Dancing Queen do ABBA nos corredores e banheiros do Vaticano. Mais tarde, o filme nos mostra o quanto Bergoglio precisou se deixar transformar (*pela vontade de Deus*) para se tornar essa pessoa legal. Ele tem um passado e coisas feias nele.
Eles discordam em quase tudo, quase...
Já Ratzinger é um inverso. Ambicioso, amante dos luxos e dos simbolismos (*alguns abandonados há muito tempo*), e um intelectual com desprezo pelos inferiores. Uma das cenas emblemáticas dessa primeira parte do filme é quando um cardeal nigeriano (Willie Jonah), pintado como um forte candidato a um futuro pontificado, fala em inglês com outro colega e Ratzinger, depois de sorrir e tentar conseguir simpatia e voto, fala entre dentes que era bom quando só se falava latim no Vaticano. Sim, para Ratzinger uma igreja universal não poderia se curvar aos novos tempos. Só que, como pontua outro cardeal para Bergoglio, as igrejas europeias são belíssimas e vazias. Uma das coisas que o filme defende, e há evidências para isso, é que o futuro da Igreja Católica está fora da Europa. Na América Latina e na África, em especial. Eu definiria Ratzinger/Bento XVI como uma personagem "lawful evil" e segue uma definição adaptada do TV Tropes, trata-se de um personagem do mal que tenta impor ou defender um sistema legal sem levar em consideração os desejos de outras pessoas e/ou abraça integralmente um código específico. Esse tipo de personagem acredita na ordem, mas principalmente porque acreditam que é a melhor maneira de realizar seus desejos (*maus*). Eles obedecerão à letra da lei, mas não ao seu espírito, e geralmente são muito cuidadosos ao dar sua palavra. Esse tipo de personagem pode acreditar, também, que é realmente uma pessoa boa e que ao impor a sua vontade estaria fazendo prevalecer o bem comum.
Fiz um monte de bobagens, mas vou largar tudo na tua mão e só ficar observando o circo pegar fogo.
Depois da eleição de Bento XVI, temos toda uma sucessão de cenas mostrando a crise da Igreja Católica. Uma situação já desenhada durante o pontificado de João Paulo II, mas agravada pela forma dura como Ratzinger geria certas questões como as acusações de pedofilia, a corrupção e imobilidade eclesiástica diante de demandas relativas aos costumes, como a comunhão para os divorciados. E o filme nem fala da complacência com a ala ultra-direitista da Igreja que, se o papa deixar, voltaria a impôr o latim nas missas, só para começo de conversa. Há um silêncio nesse ponto sobre algo que arranha a própria noção de hierarquia, afinal, Ratzinger acolheu quem pode dos que não aceitaram as decisões do Concílio Vaticano II (1962-65). Personagens lawful evil são muito perigosas e muito inteligentes. São capazes, também, de serem amigos fiéis. Quando Bento XVI se aproxima de Francisco, isso fica muito evidente. Temos um primeiro confronto, afinal, para Bento XVI, e isso está no trailer, Francisco o afronta com seu jeito de ser. O apego à pobreza, a preocupação com os marginalizados, a disposição em dobrar as regras para conseguir chegar aos corações das pessoas.
Segredo é importante no Vaticano.
E eis que a grande sacada do filme é mostrar um Bento XVI anunciando para Francisco que iria renunciar, algo já visto, como o próprio Ratzinger aponta, mas não por livre vontade do pontífice, e ver o circo pegar fogo. Sim, coloquei as coisas de forma vulgar, ma sé isso mesmo. Ao se tornar papa emérito, Bento XVI poderia observar como seu sucessor iria lidar com os temas espinhosos que muitos o acusavam de não saber gerenciar. Bergoglio não quer aceitar a tarefa, ele nunca desejou ser papa, aliás, queria se encaminhar (*segundo o filme*) para a aposentadoria. Com o embate e, mais tarde, a amizade entre ele e Bento XVI, o que vai ficar exposto é o passado do atual papa e o filme não o poupa de críticas, ainda que tudo seja coroado com o perdão. Ao ser eleito papa, Jorge Bergoglio não era uma unanimidade na Argentina, tinha inclusive sido acusado de colaborar com a sangrenta ditadura (1976-1983) do país. Já outros defendiam que ele fez o possível para salvar pessoas, escondê-las, dar-lhes fuga. Essa parte do filme é muito importante e marcada por flashbacks e passagens que eu não esperava ver neste filme, mas que o tornaram ainda mais especial e importante.
Muitas conversas e muitos passeios.
Francisco passou por dois, talvez três momentos de conversão. O primeiro, ao se tornar sacerdote, deixando para trás os seus planos mundanos. O segundo, quando, terminada a ditadura, é retirado de seu alto cargo de geral dos Jesuítas, e mandado para um exílio forçado entre os pobres de seu próprio país. Ali, ele abandona o seu orgulho e faz a opção pelos pobres, torna-se um jesuíta-franciscano, por assim dizer. E, a terceira, ao aceitar a responsabilidade de preparar a Igreja Católica para novos tempos e realidades como o primeiro papa latino americano. Mesmo nos momentos terríveis do filme, os flashbacks da ditadura argentina, quando Bergoglio é levado a perceber o quão impotente estava diante da violência dos militares, Dois Papas consegue passar simpatia e esperança. O filme fala de reconciliação com o passado. Fala de perdão. Fala de tentar compreender as diferenças e usá-las a favor da coletividade. Claro, é um filme apologético, tanto para com Francisco, quanto para com Bento XVI, mas é um excelente filme.
Juan Minujín tem muito tempo em tela.
Algo importante, apesar de ser um filme sobre os dois papas, ele é muito mais um filme sobre Francisco. Isso justifica a indicação de Jonathan Pryce para melhor ator e Anthony Hopkins para coadjuvante? Não. O motivo é que o ator argentino Juan Minujín interpreta o jovem Francisco em vários momentos do filme. Dito isso, Hopkins e Pryce devem ter mais ou menos o mesmo tempo de cena. Uma coisa interessante é que é um filme falado em várias línguas. Latim, claro, e temos as piadas de que somente 30% dos cardeais conseguiam ficar realmente com raiva de Ratzinger, porque os outros não sabem latim o suficiente. por exemplo, a cena da abdicação é uma delícia, aliás, o humor do filme é finíssimo. Fala-se francês, muito italiano e até português em dois momentos, se bem me lembro. Acredito que tenha sido nas aparições do Cardeal Cláudio Hummes (Luis Gnecco). Agora, Francisco dizendo dizendo que está cansado de falar inglês no Vaticano, bem, só porque o filme é para a Netflix, porque ele e Ratzinger não teriam motivo para conversar nessa língua.
Os verdadeiros.
Além disso, Dois Papas tem uma trilha sonora inspirada, além de uma bela fotografia e direção de arte. Tudo é construído para marcar os opostos. Os diálogos são inteligentes e os protagonistas encarnam as personagens a ponto da gente olhar e acreditar que são os próprios. Comparem com uma cena no final, com o verdadeiro Francisco perguntando para Bento XVI, já papa emérito, se ele está comendo direitinho. A gente quase se convence que toda a história do filme, até os dois assistindo a final da Copa do Brasil é real. Este é um filme no qual temos um conjunto harmonioso e cenas isoladas deliciosas. Terminando, não temos o cumprimento da Bechdel Rule. Temos algumas mulheres, mas pensem que o Vaticano é um lugar masculino por excelência, logo, a ausência é justificada. Dentre os papéis femininos, o destaque vai para a atriz María Ucedo, que interpreta Esther Ballestrino, amiga de Francisco, uma das fundadoras das Mães da Praça de Maio e vítima da ditadura argentina.
Assistindo Argentina e Alemanha, até a Dilma aparece entregando a taça.
É isso. Espero que Dois Papas receba muita sindicações ao Oscar. Ele entra na lista dos melhores filmes que assisti este ano. Agora, se ignorarem Meirelles, o diretor brasileiro, será uma grande injustiça e, bem, não sei se cabe dar o protagonismo para Jonathan Pryce, quando quase metade da atuação de Francisco foi feita por Juan Minujín. De resto, se você quiser um filme sobre a época em que os Conclaves eram muito mais interessantes (*suborno, ameaças de morte, tráfico de influências etc.*), recomendo O Conclave e os primeiros capítulos da primeira temporada de The Borgias.