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sábado, 25 de julho de 2026

Entrevista traduzida com Tomato Soup e o diretor Abel Gongora sobre o anime Tenmaku no Jaadougal (Uma Bruxa na Mongólia)

Fiquei surpresa em descobrir que o diretor de Tenmaku no Jaadougal: Uma Bruxa na Mongóllia (天幕のジャードゥーガル) é espanhol.  E apareceu o link de uma conversa entre ele e a autora do mangá, Tomato Soup, sobre a animação.  Impossível não traduzir, o diretor cita inclusive a guerra que os Estados Unidos estão fazendo contra o Irã.  Já a questão da escravidão merecia mais reflexão; de qualquer forma, é um material interessante para discutir as diferenças entre mangá e anime.  Como sempre tento fazer, mantive a estrutura do original, mas, para quem quiser ler em japonês, é só visitar a página da revista Soufflé.  O mangá foi licenciado pela Panini e está em pré-venda.  Já o anime, pode ser assistido na Crunchyroll.

Entrevista especial com o mestre da Tomato Soup e o diretor Abel Gongora sobre o anime "Tenmaku no Jaadougal" | Souffle

Devido ao enorme sucesso do anime "Tenmaku no Jaadougal", trazemos uma entrevista especial com o diretor Abel Gongora! Eles discutiram com entusiasmo as diferenças de expressão entre anime e mangá!

Todos os sábados às 23h30

Exibido na rede nacional de 24 emissoras da TV Asahi no bloco "IMAnimation", BS Asahi e outros canais!

Perfil

・Abel Gongora

Nascido na Espanha. Depois de trabalhar como animador em estúdios na Irlanda e na França, juntou-se à Science SARU. Estreou na direção com o videoclipe de "Brand New Story", da banda EXILE, tema do filme "Ride Your Wave" (2019). Desde então, dirigiu "T0-B1" (2021) para Star Wars: Visions e a série da Netflix "Scott Pilgrim: Takes Off" (2023). Trabalhou na animação de abertura da primeira temporada de "Dandadan" (2024) e codirigiu a segunda temporada (2025) com Fuga Yamashiro. Também dirigirá "Tenmaku no Jardougal".

・Tomato Soup

Formado pela Universidade de Arte de Tama. Cria principalmente mangás com temática da história do mundo medieval ao início da era moderna. Sua obra de estreia, "Dampier's Delicious Adventure" (East Press, 6 volumes), ficou em 6º lugar na categoria masculina do "This Manga is Amazing! 2021 da Takarajimasha". Sua série atual, "Tenmaku no Jaadougal" (Akita Shoten, 5 volumes publicados), serializada em "Soufflé", ficou em 1º lugar na categoria feminina do "This Manga is Amazing! 2023 da Takarajimasha" e ganhou o "55º Prêmio da Associação de Cartunistas do Japão, Grande Prêmio da Divisão de Quadrinhos". Ele também está serializando "Kanshin Sumbato" (Shinshokan, 1 volume publicado) em "WINGS".

Uma cena que destaca a bela paisagem urbana persa enquanto aprofunda os sentimentos de Sitara.

Tomato Soup-sensei (doravante, T): Fiquei realmente surpresa com o quão incrivelmente... incrivelmente cativante este anime se tornou. A cena de abertura do primeiro episódio foi maravilhosa!

Abel Gongora, Diretor (doravante, A): É a cena em que Sitara está fugindo da cidade de Tus, certo? Acho que é uma cena que destaca a bela paisagem urbana persa daquela época enquanto aprofunda os sentimentos de Sitara. Sitara foi vendida e comprada como escrava naquela época, mas mesmo adulta, eu queria retratar claramente o motivo pelo qual ela ainda sente saudade daquela era.

T: Incluir isso como um elemento original no anime realmente me chamou a atenção desde o início; aumentou instantaneamente a sensação de imersão e me emocionou muito.

A: Depois de assumir este projeto, reaprendi a história persa e, quanto mais pesquisava, mais sentia seu grande encanto. Por isso cheguei à conclusão de que Tus, onde Sitara passou a infância, devia ser um lugar verdadeiramente fascinante. Seria uma pena simplesmente ignorá-lo, então tentei elaborar um pouco mais.

A paisagem urbana de Tus vista pelos olhos de Sitara

T: Mesmo na cena de Tokrultai, você complementou perfeitamente a representação da multidão que eu não consegui retratar completamente, e a atmosfera vibrante que não pude incluir devido às limitações de espaço... As pessoas que vivem lá foram retratadas de forma tão vívida.

A: Obrigado. Estou muito feliz.

T: Eu também estou muito feliz. Mas, no geral, foi uma adaptação fiel da obra original, e sou muito grata por você ter incorporado elementos que só a animação consegue fazer, e por ter trazido à tona o charme único da animação.

A: Embora não tenhamos feito grandes mudanças, ao adaptar um mangá para animação, a adição de cores e modificações no design inevitavelmente alteram sua aparência. Os movimentos dos personagens também provavelmente mudarão a sensação dos quadros em comparação com o original.

T: Eu realmente entendi o quão completamente diferentes são a produção de animação e a de mangá. Recebo muitas perguntas sobre produção de animação, mas há muitas coisas que eu não teria percebido sozinha. Por exemplo, mesmo ao desenhar um personagem, a animação envolve muitos membros da equipe, então, para manter a precisão, você precisa entendê-lo como um objeto tridimensional. No entanto, quando desenho sozinha, o mangá é apenas bidimensional, então eu poderia pensar: "Mesmo que a estrutura esteja um pouco fora, contanto que fique bonito como uma imagem, está tudo bem". Eu realmente percebi que esse tipo de pensamento não funciona na indústria da animação.

A: Anime e mangá são frequentemente considerados semelhantes, mas são completamente diferentes. Quando eu era criança, sonhava em ser um artista de mangá, mas era muito difícil, então desisti (risos).

O ger, como expresso no anime

Eu queria enfatizar um pouco mais o tema da "liberdade".

T: Fiquei surpresa ao ver quantas pessoas trabalham na produção de anime. Fiquei um pouco intimidada (risos) pelo fato do mangá que eu desenhava por diversão, que eu considerava meio hobby, poder ser transformado em uma obra tão completa por tantas pessoas. Seu trabalho principal como "diretor", Gongora, é supervisionar todos esses membros da equipe?

A: Exatamente. Pode ser difícil perceber de fora, mas em uma série de anime, há um diretor para cada episódio, e eles criam cada episódio refletindo sua própria individualidade e interpretação. Claro, queremos que eles sejam flexíveis, mas um certo grau de consistência e regras também é necessário. Então, Yamada (Naoko, a diretora-geral) e eu revisamos os storyboards de cada episódio e garantimos que estejam corretos. O diretor e a diretora-geral estão em melhor posição para entender a direção que queremos seguir e o estilo que queremos retratar, então garantimos que mantenhamos a consistência.

T: Quando nos conhecemos, quais eram suas intenções como diretor de animação? Quais eram seus objetivos para "Tenmaku no Jaardougal"?

A: Eu queria enfatizar um pouco mais o tema da "liberdade". Na cena de abertura que mencionei antes, Sitara ri enquanto observa os pássaros voarem. Eu queria retratar ali o anseio por liberdade.

T: Retratar a condição de "escravo" é difícil. Esta obra poderia ser vista como uma apologia à escravidão. Por outro lado, sempre tento transmitir sutilmente que a escravidão ainda é um problema, e acho que esse conflito foi captado no sentido do anseio por liberdade.

A: Essa questão é muito complexa, e a mensagem da obra não é dizer que "escravidão = mal". É difícil comentar sem entender o contexto histórico, e de uma perspectiva moderna, é compreensível pensar que é algo ruim, mas o fato é que a sociedade da época era estruturada dessa forma. No anime, inicialmente retratamos a protagonista, uma escrava, ansiando por liberdade, e então, à medida que a situação se torna mais complexa, queremos mostrar como esses sentimentos também se tornam mais complexos.

T: A escravidão não pode ser simplesmente defendida, nem simplesmente condenada; é algo que vem com responsabilidade. Achei muito bonito que a representação inocente de Sitara sonhando com a liberdade como pássaros voando sirva como ponto de partida para ela aprender sobre essas coisas mais tarde.

T: Os pássaros voando sobre a cidade de Tus evocam emoções fortes.


Sitara ri enquanto observa os pássaros voarem livremente.

Ela tem um lado bondoso, ajudando as pessoas, mas ao mesmo tempo, é um pouco travessa.

T: Você encontrou algum personagem de que gostou?

A: Eu gosto do Shira. Um dos poucos habitantes de Samarcanda. Ele também é um pouco travesso. É bonito e tem um charme especial.

T: Obrigada. O Shira animado também é muito simpático e fofo!

A: Eu sempre quis visitar a Mongólia, então tive a sorte de poder ir para lá para fazer a pesquisa de locações (risos). Minha imagem da Pérsia mudou bastante. Quanto mais eu pesquisava sobre a arquitetura, a cultura e a história, mais impressionado eu ficava. Ao mesmo tempo, também me deparei com muitas obras-primas do cinema iraniano. Historicamente e na atualidade, acho que a Pérsia/Irã é um país complexo. É um momento muito difícil agora, e meu coração dói toda vez que vejo as notícias.

T: Eu ficaria feliz se este trabalho despertasse ao menos um pouco de interesse em países como o Irã e a Mongólia, que as pessoas tendem a considerar lugares distantes. Eu ficaria feliz se elas pudessem "descobrir" que existem pessoas vivendo lá, que são diferentes de nós e que são iguais a nós. Eu mesma fiz essa descoberta enquanto desenhava.

A: É verdade. Me sinto verdadeiramente honrado por ter participado deste trabalho. Muito obrigado.

Shira possui tanto bondade quanto astúcia.

Se você tiver interesse em conteúdo futuro, não deixe de seguir a conta oficial da Souffle no X!

sábado, 8 de fevereiro de 2025

Ainda Estou Aqui vence um dos prêmios Goya

Notícia para fechar o dia: hoje, foram entregues os Prêmios Goya e Ainda Estou Aqui venceu um dos prêmios Goya, o de Melhor Filme íbero-americano. Realizado pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas da Espanha, o Goya é a principal cerimônia de celebração do cinema espanhol e foi entregue na cidade  de Granada. A matéria do Correio Braziliense trouxe a notícia e listou todos os prêmios que o filme já ganhou até agora e é muita coisa.  Espero que ainda receba mais, fechando com chave de ouro no Oscar.  Vamos continuar torcendo.

quinta-feira, 18 de julho de 2024

Vamos falar de coisa muito séria: Canto racista da Seleção Argentina merece punição.

Este é um dos posts políticos que não faço faz tempo.  Se não quiser continuar, basta pular.  Há muitos outros posts no Shoujo Café que podem lhe interessar.  Sigamos!

A Copa América terminou no domingo, 14 de julho, data da Revolução Francesa.  A Argentina venceu a Colômbia.  Até ontem, sabia somente da confusão e do quebra-quebra que atrasou e muito a final.  Nada que quem acompanhe futebol não tenha visto acontecer em algum momento, mas nos Estados Unidos, nunca tinah rolado uma selvageria assim no futebol, eu imagino.  OK.

Ontem, porém, fiquei sabendo que o o subsecretário Julio Garro afirmou em entrevista que canto colocava país em 'situação ruim' e pediu que a seleção se retratasse.  O resultado foi a demissão de Garro com a seguinte mensagem partida do gabinete do presidente Javier Milei: "A Presidência informa que nenhum governo pode dizer o que comentar, o que pensar ou o que fazer à Seleção Argentina, Campeã Mundial e Bicampeã Americana, ou a qualquer outro cidadão. Por isso, Julio Garro deixa de ser Subsecretário de Esportes da Nação.".  Mas o que havia na música que foi puxada e divulgada pelo jogador Enzo Fernández, contratado pelo Chelsea na Inglaterra?

"Eles jogam pela França, mas são de Angola. Que bom que eles vão correr, se relacionam com transexuais. A mãe deles é nigeriana, o pai deles cambojano, mas no passaporte: francês"

Vocês conseguem entender o quanto esses versinhos são horrendos, repulsivos, absurdos?  Eu fiquei enojada mesmo, como é possível gravar isso e colocar com orgulho na internet? Racismo, aliás, é coisa antiga no futebol argentino, os brasileiros volta e meia são chamados de monos (*macacos*), mas deveria ter ficado no passado. Segundo o UOL, ela tinha sido cantada por torcedores argentinos na copa do Catar em 2022 (*citando Mbappé, inclusive*), a letra está até amenizada.   Mas qual o motivo disso tudo?  Não foi a Colômbia o adversário derrotado?  

Muito bem, para você que mora em outro planeta, assim, tipo meu marido que não liga para futebol e evita o noticiário político por motivos de saúde, a extrema-direita na França, cuja bandeira mais visível é o discurso racista contra imigrantes e seus filhos e filhas, sofreu um revés espetacular, porque tinha vencido o primeiro turno, nas eleições legislativas francesas.  Para a extrema-direita local, a seleção de futebol do país não representa a França adequadamente, porque é majoritariamente negra e formada por filhos de imigrantes.  Aliás, o líder maior da extrema-direita francesa, Jordan Bardella, também é, porque é de ascendência italiana e argelina, mas quem se importa, não é mesmo?  Ele tem a cor de pele adequada e a religião certa.

Durante o segundo turno, vários jogadores da seleção francesa tiveram um papel importantíssimo na campanha contra a extrema-direita, em especial, Kylian Mbappé, estrela do time.  Ele fez campanha contra a extrema-direita, assim como nosso craque Raí, que mora na França e vai carregar a tocha olímpica.  Vou colocar o vídeo dele no final do post, porque raramente via alguém sintetizar tão bem os ideais da Revolução Francesa e do Iluminismo.  

Muito bem, Mbappé já foi apontado como tendo namorado uma mulher trans.  A França perdeu a final da Euro para a Espanha, cuja principal estrela é um adolescente filho de imigrantes, mas a extrema-direita mundial se sentiu representada, porque, sim, os neofascistas estão em um eixo internacional, na vitória espanhola.  Para quem não sabe, algo que incomoda muito os racistas é o fato de na França, nos Estados Unidos, no Brasil, também, enfim, funcionar o jus soli (lei do solo), quem nasce no país é seu cidadão por lei e direito.  Fora isso, países colonialistas, caso da França, estão ligados de alguma forma as suas ex-colônias, no caso da França, de forma muito efetiva até hoje.  A imigração tem a ver com esses laços e uma dívida histórica, por assim dizer. 

Acredito que o tal Enzo Fernández se sentiu estimulado a fazer a gracinha, afinal, ainda era a data da Queda da Bastilha, e o resto da seleção acompanhou e Messi, grande estrela do time, está em silêncio.  Foi horrendo.  O subsecretário se pronunciou e foi punido.  Por fim, a vice-presidenta, Victoria Villarruel, que é ligada à grupos que defendem a ditadura militar argentina, saiu defendendo a seleção de seu país, seu racismo e sua transfobia e cito o UOL, mas o artigo traz o post da autoridade: 

"Victoria Villarruel se manifestou no X (antigo Twitter), nesta quarta-feira (17). A vice-presidente afirmou que "nenhum país colonialista vai intimidar" a Argentina.  Ela também chamou os franceses de "hipócritas" e pediu que as pessoas "parem de fingir indignação".  Por fim, Victoria afirmou que "banca" Enzo Fernández, jogador que gravou o momento do cântico racista e transfóbico e agradeceu a Messi."

Enfim, a vice argentina instrumentalizou o imperialismo da forma mais livre possível para justificar o direito ao racismo.  O próprio presidente argentino postou em sua conta no Twitter que criticava a cobrança de "desculpas a alguns europeus colonizadores por uma música que também diz a verdade".  Absurdo, enfim.  O Chelsea, time de Fernández se pronunciou em nota oficial, após o pedido de desculpas do jogador:  

"O Chelsea Football Club acredita que todas os comportamentos discriminatórios são completamente inaceitáveis. Nós nos orgulhamos de ser um clube diverso e inclusivo, em que pessoas de todas as culturas, comunidades e identidades se sentem bem-vindas. Tomamos conhecimento e valorizamos o pedido público de desculpas do nosso jogador e usaremos essa oportunidade para educar. O clube instaurou um processo disciplinar interno.", comunicou a equipe inglesa.

Pode dar ruim para o engraçadinho, não é?  O salário de Enzo Fernández não é pago por Milei.  E como foi o pedido de desculpas de Fernández e cito da BBC:  

""Quero pedir desculpas sinceras por um vídeo postado no meu canal do Instagram durante as comemorações da seleção. A música inclui uma linguagem muito ofensiva e não há absolutamente nenhuma justificativa para essas palavras", disse o atleta"  "Oponho-me à discriminação em todas as suas formas e peço desculpas pela euforia das comemorações na Copa América. O vídeo, aquele momento e essas palavras não refletem as minhas crenças ou o meu caráter”, acrescentou."

Se arrepende NADA, só vai colocar a mão na consciência se pesar no bolso.  Mas bobo ele não é, porque, na Inglaterra, onde ele trabalha, a coisa não pegou nada bem.  Como teremos Olimpíadas na França, o técnico da seleção argentina veio à público tentar colocar panos quentes, mas piorou as coisas, eu diria:

"Se existe algo que nós argentinos não somos é racista, longe disso. Acho que tudo foi tirado de contexto", disse o ex-Barcelona, à agência AFP." " Eu conheço o Enzo, é um bom garoto e não tem nenhum tipo de problema com isso. O que acontece é que muitas vezes, dentro de uma comemoração, pegam uma parte de um vídeo e tiram de contexto – insistiu Mascherano."  "Muitas vezes é preciso entender a cultura de cada país e muitas vezes o que entendemos como uma brincadeira pode ser mal interpretado em outro lugar", disse o treinador."

Argentinos não são racistas, mas é preciso compreender a cultura do país.  Aham... Daí, vem e diz que a coisa foi tirada de contexto e isso quando o próprio autor da façanha, Enzo Fernández, já tinha se desculpado.  O fato é que a Federação Francesa de Futebol se pronunciou com dureza, não esperava menos, e pediu punição à FIFA, alguns jogadores também se posicionaram, e a FIFA abriu investigação.  E, claro, podemos ter violência nas Olimpíadas.

Depois desse posicionamento do governo argentino, do silêncio (*se alguém se posicionou, me passem o link, por favor!*) do Messi e outros membros da seleção, e a tentativa de naturalizar como "parte da cultura do pais" essa nojeira, a FIFA e o Comitê Olímpico fariam bem em punir a Argentina.  Multa e uma bela suspensão de eventos internacionais.  E espero que o tal Enzo Fernández passe um aperto na Inglaterra, que ande certinho daí para frente, ou volte para casa, onde, ao que parece, passou a ser admissível ser aberta e orgulhosamente racista e escroto por conta de um governo de extrema-direita.  E, como disse que faria, abaixo está o vídeo do Raí.  Isso, sim, faz a gente se orgulhar:

quarta-feira, 8 de maio de 2024

Mangá josei que se passa no Império Mongol do século XIII é anunciado na França e na Espanha

Depois de ser licenciado na França (*está previsto para setembro*), o mangá Tenmaku no Jaadugar (天幕のジャードゥーガル), de Tomato Soup, foi anunciado também na Espanha.  Você pode não se lembrar, mas a série, que tem um traço bem diferente do que se espera, ficou em primeiro lugar no guia Kono Manga ga Sugoi! de 2023 e em 11º lugar no deste ano.  A série está indicada para o 17º Mangá Taisho Award, que é o deste ano.  

O ponto de partida inicial da série é o seguinte: No século XIII, Fátima foi feita prisioneira no Império Mongol, o império mais poderoso do planeta,  e designada para servir no palácio imperial. Originária da Pérsia (atual Irã), ela conhece muito de medicina e ciência, a jovem só precisava de um lugar onde pudesse mostrar os seus talentos. Essa oportunidade vem quando a protagonista conhece Töregene, a sexta esposa do segundo imperador, Ögedei, que tem sentimentos confusos sobre o Império Mongol.  A série irá contar a história dessas duas mulheres, de sua amizade, enquanto navegam pelos meandros do Império Mongol.

O Império Mongol existiu entre os séculos XIII e XIV e foi o maior império de terras contíguas da história e o segundo maior império em área, perdendo apenas para o Império Britânico.  O Império Mongol surgiu da unificação de várias tribos nômades sob a liderança de Genghis Khan (c. 1162-1227), que se tornou seu único governante em 1206. Apesar de muito poderoso, o império foi presa das disputas entre os muitos filhos de Genghis Khan e da necessidade de se institucionalizar (*se tornar um estado de fato*), ou manter uma estrutura nômade.  Ögedei é um dos tais filhos de Genghis Khan e seu herdeiro inicial.

Na França, o mangá será lançado pela poderosa Glénat, já na Espanha, a série foi anunciada pela ECC Ediciones.  Na França, o título será Jaadugar, la légende de Fatima, na Espanha, Una bruja en el Imperio Mongol.  Este seria um mangá que, se fosse anunciado no Brasil.  Para quem quiser, tem scanlations.

sábado, 10 de dezembro de 2022

Editora espanhola é a primeira a anunciar o mangá Umi ga Hashiru End Roll no Ocidente

Quando comentei o anúncio pela Mythos do mangá A Feiticeira do Castelo (Azami no Shiro no Majo/アザミの城の魔女), escrevi que esta obra de John Tarachine (*é uma mulher, OK*)  poderia abrir caminho para a obra mais importante da autora, Umi ga Hashiru End Roll (海が走るエンドロール), sair por aqui.  Sim, estou sonhando alto, eu sei.  Pois bem, Umi ga Hashiru End Roll  não tinha sido licenciado no Ocidente ainda, mas, hoje, a série foi anunciada na Espanha pela Milky Way Ediciones.  Para quem não sabe do que se trata, a protagonista é uma senhora de 75 anos que, após ficar viúva, descobre seu amor pelo cinema, mas vejam, não somente por assistir filmes, ela quer ser cineasta e termina se tornando amiga de uma jovem estudante de cinema.  

É um mangá elogiadíssimo, premiado e tudo mais.  Os espanhóis está com sorte. Em situação normal, isto é, com um Real menos desvalorizado, eu compraria, com certeza. Se você quiser saber mais sobre os anúncios que rolaram no Manga Barcelona neste fim de semana, recomendo dois perfis, o Pro Shojo Spain e o Lacradores Desintoxicados, que estão fazendo a cobertura de tudo o que foi anunciado por lá. E, para quem desejar, A Feiticeira do Castelo já apareceu em pré-venda no Amazon.  E, abaixo, para quem não viu, ou quiser, está o Shoujocast comentando os novos licenciamentos de shoujo e josei no Brasil:

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021

Yasuko Aoike chega à Espanha por vias muito curiosas

Acompanhando o Twitter das amigas do Pro Shōjo Spain elas estavam comentando que uma editora do país, a Arechi, anunciou dos mangás da Nakayoshi dos anos 1970, Miriam Blue no Mizumi (ミリアム・ブルーの湖) e Lorian no Aoi Sora  (ロリアンの青い空), ambas com um único volume, lançadas em 1975, e com roteiro de Keiko Nagita, um dos muitos nomes de Kyoko Mizuki, a autora de CandyCandy (キャンディ♥キャンディ), a que processa a desenhista até hoje por causa dos lucros da série. 

Lorian no Aoi Sora é desenhada por Youko Shima e se trata de um mangá sobre uma pobre menina loura, obrigada a se mudar de Paria para o campo, cujo pai vai à falência e comete suicídio, deixando Claudine desamparada.  Já Miriam Blue no Mizumi, desenhado por Yasuko Aoike, conta a história de Miriam, dividida entre seu imprevisível namorado, Henri, e seu irmão adotivo,  Laurie.

A graça dessa situação toda é que ninguém esperava que Yasuko Aoike fosse publicada na Espanha em uma situação como essa, o que todo mundo espera sempre é que a autora seja introduzida com sua obra mais conhecida e amada Eroica yori Ai o Komete (エロイカより愛をこめて), que é de 1976.  Mesmo que eu não possa nem sonhar em comprar, espero que Eroica ou outros mangás assinados e desenhados por Aoike cheguem à Espanha na esteira desse lançamento.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2020

Espanhóis preparam um seriado sobre as Cruzadas e atriz protagonista de 69 anos reclama de escalarem alguém mais jovem para encarná-la quando tinha 25

 Descobri faz algumas semanas que ano que vem teremos uma série medieval espanhola chamada Glow and Darkness que supostamente contará a vida de Francisco de Assis. Veja o que está na Variety: "“Glow and Darkness” retrata a vida de São Francisco de Assis, enquanto se concentra em figuras históricas populares, como Ricardo Coração de Leão, Leonor de Aquitânia e Papa Urbano II."  Sim, esse é o resumo da maioria dos sites que falam da produção, mas quando a gente lê as matérias o que encontramos é informação sobre as atrizes de língua inglesa no elenco, as veteranas Joan Collins, Jane Seymour e Denise Richards.  Seymour será Leonor da Aquitânia, Joan Collins sua primeira sogra, Adelaide de Savoy, daí começam a falar de Ricardo Coração de Leão... O problema é que Francisco de Assis está no século XIII e essa galera toda é do século XI e XII.  

Aí, você vê o trailer e a minha conclusão é que eles vão fazer uma série sobre as Cruzadas, todas elas, imagino.  Francisco de Assis participou da quinta Cruzada,  Urbano II convocou a primeira Cruzada, ainda no século XI, Leonor da Aquitânia esteve na segunda, seu filho Ricardo, foi um dos líderes da terceira. A quarta Cruzada foi aquela vergonha épica para a Cristandade Ocidental e um desgosto que o papa Inocêncio III não merecia ter que engolir. Ou temos um sério problema de temporalidade, ou trata-se de uma série sobre as Cruzadas mesmo.  Ao todo, segundo uma matéria espanhola, serão 150 personagens históricas nessa série, mas a mesma matéria insiste que Glow and Glory é sobre Francisco de Assis.  Vai entender?  Se bem prestei atenção, Francisco nem dá as caras nesse trailer que liberaram. 

Sei lá, olhando a roupa e maquiagem das atrizes que citei, imagino que o material será bem ruinzinho no quesito figurino e reconstituição de época.  E todas elas, apesar de muito bonitas, já tem uma idade respeitável para encarnar uma mocinha.  Curiosamente, olhando o trailer, os homens me pareceram muito mais convincentes em seus papéis e vestidos de forma mais adequada, também.  OK, mas como fiquei sabendo da série?  Só descobri Glow and Darkness por causa de uma matéria com a Jane Seymour RECLAMANDO que escalaram uma atriz mais jovem para fazer Leonor da Aquitânia aos 25 anos, porque ela, com 69, convenceria como alguém muito mais jovem. "É algo que eu realmente não entendo, porque, acredite ou não, e você pode ver no Instagram, eles nem mesmo precisam fazer as coisas no meu rosto. Funciona muito bem. Joan Collins tem 87 anos e ela deveria interpretar uma mulher que morre aos 40." Autoestima digna de homem-hetero-cis-branco e eu pensando que Vera Fischer em O Clone era o ápice da falta de noção nesse quesito.  Julguem pelas fotos do post.  Seymour e Collins estão na foto abaixo.

O fato é que Leonor da Aquitânia viveu uma longa vida, alcançou 80-82 anos, os medievais poderiam ser bem imprecisos no registro das datas de nascimento, e estreou na vida pública com 13-14 anos.  Acredito que para ser justa, uma representação de Leonor precisaria escalar pelo menos umas três atrizes, se a mostrassem criança, seriam quatro.  Enfim, parece que a produção atrasou um pouco por causa do Covid-19, mas que a série estreia mesmo em 2021.  O resumo do IMDB está mais decente e aponta para aquilo que eu comentei, é uma série sobre as Cruzadas, ainda que queiram dar destaque para Francisco de Assis, sabe-se lá por qual motivo.  Já tem de quatro temporadas.

segunda-feira, 25 de maio de 2020

Comentando O Libertador (Venezuela/Espanha/2013): Bolívar, o homem que sonhou em unir a América Espanhola


Graças a um post do Frock Flicks, o site especializado em figurino de filmes históricos, descobri o filme O Libertador (El Libertador), uma produção espanhola e venezuelana sobre a vida de Simón Bolívar (1783-1830).  Como vou começar a falar de Independência das América Espanhola com meus alunos e alunas, achei que valia a pena assistir.  No geral, gostei do filme, achei bem executado e com uma produção de qualidade.  Como conheço quase nada da vida de Bolívar, tive que ler algumas coisas para escrever a resenha e, bem, parece que o filme não perdeu de vista o que temos de informação sobre o protagonista.

O filme começa em 1828, quando Bolívar (Édgar Ramírez) escapa por pouco de uma tentativa de assassinato a mando de um adversário político, o general Francisco de Paula Santander (Orlando Valenzuela).  Na sua figa, ele conta com a ajuda de sua amante e companheira de causa, Manuela Sáenz (Juana Acosta).  A partir daí, temos um longo flashback mostrando Bolívar desde a infância e em vários momentos chave de sua vida até que retornamos ao acontecimento que deu início ao filme e o desfecho da vida do Libertador, um homem que sonhou com uma grande nação que unisse todas as colônias espanholas em um só estado, uma só América. 


Manuela Sáenz salva a vida de Bolívar logo no início do filme.
O Libertador começa com uma sequência de abertura que é bem eletrizante.  Isso já prende nossa atenção e desperta a curiosidade.  Afinal, a narrativa não linear não nos permite saber como chegamos naquela situação em que a vida do protagonista está por um fio.  Ao mesmo tempo, esta introdução situa aquilo que o filme quer apresentar como traço importante da personalidade de Bolívar, a capacidade de reconhecer suas fragilidades, recuar para voltar a lutar novamente. Este aspecto da personalidade de Bolívar foi usado várias vezes para desqualificá-lo, mas o fato é que Simón Bolívar tem a ser favor uma série de grandes feitos e, para executá-los, precisava permanecer vivo.  

Vejo nessa apresentação de Bolívar como um homem que reconhecia suas fragilidades uma tentativa, também, de romper com a ideia do herói invencível e perfeito.  A cena da tentativa de assassinato se mistura com um flashback do menino Bolívar tentando não chorar a morte da mãe e o tio dizendo que era correto expressar seus sentimentos.  Acredito que o filme tentou projetar no passado uma imagem de masculinidade positiva aos nossos olhos contemporâneos.  Um homem pode se mostrar vulnerável e isso não é um defeito.  


Nosso herói aparece descamisado, também. 
Um líder sem frescuras.
De qualquer forma, o Bolívar do filme é um líder militar corajoso, mas é, também, um homem compassivo com os mais fracos e mesmo com os inimigos, amoroso e capaz de reconhecer seus erros e defeitos.  E tudo dentro de um pacotinho interessante que é o ator Édgar Ramírez, que incorpora aquilo que eu chamo de beleza rústica.  Agora, pelos quadros dos livros de História, imaginava um Bolívar alto e magro, com um rosto aquilino, mas optaram por um ator com outro tipo físico, talvez, para também se ajustar à padrões de beleza de nossos dias.  Um amigo brincou dizendo que ele parece o Wolverine.  Bem, como o sujeito é fluente em cinco línguas, de repente, ele pode se candidatar.  

Depois desse incidente inicial, somos levados para a Espanha em 1800.  Bolívar, como a maioria dos jovens de seu grupo social, o dos criollos (*filhos de espanhóis nascidos na América*) ricos, deveria completar seus estudos na Europa.  O herói é mostrado na corte espanhola onde conhece o futuro rei Fernando VII (Andrés Gertrúdix), que é apresentado como um mal perdedor e uma figura um tanto patética.  


Ele parece um adolescente de 16 anos?
 Não parece, certo?
O rei não reaparece no filme, mas a ideia que se vende é que ele se tornou um monarca incapaz, ainda que os soldados espanhóis sejam apresentados como corajosos e muito competentes e, claro, em alguns momentos, como cruéis, especialmente, com a população camponesa. É interessante pontuar isso, porque os inimigos de Bolívar não são pintados como maus militares, o General Monteverde (Imanol Arias), adversário inicial de Bolívar, é apresentado como um militar capaz e honrado, ainda que orgulhoso e cheio de desprezo pelos colonos.   Vejam que é uma estratégia inteligente, porque se você valoriza o inimigo em uma história, você exalta ainda mais a vitória do seu herói.  Qual a graça de vencer adversários ridículos?

Voltando para a corte, lá Bolívar conhece sua futura esposa, Maria Teresa (María Valverde), que era dois anos mais velha que ele.  Foi por causa das roupas usadas pela atriz María Valverde no filme que as moças do Frock Flicks fizeram resenha do Libertador.  Para as cenas na corte espanhola foram alugadas as roupas usadas no filme Maria Antonieta (2006) e que estava defasadas quase trinta anos em termos de moda.  Agora, algo que percebi é que nessas cenas na Espanha tínhamos uma mistura, roupas de tinta anos antes com outras contemporâneas ao período que o filme retrata.  De qualquer forma, tudo estava muito bonito.


María Teresa, o amor da vida de Bolívar.
O amor entre Bolívar e Maria Teresa recebe muita atenção no filme e a imagem da amada vai acompanhar o herói por toda a película.  A moça vai com o marido para a América e é através dela que vem a primeira crítica à escravidão e à atitude do protagonista em relação à condição dos negros e negras.  Bolívar, que se via como um liberal, isto é, alguém que acreditava que existem direitos naturais (*vida, liberdade, propriedade*) e que todos (*nem que sejam os homens do sexo masculino*) devem ser iguais diante da lei, não se intromete quando vê uma escrava sendo duramente açoitada.

Bolívar é o "bom senhor" de escravos, ele está satisfeito consigo mesmo.  Além disso, ele trata a negra Hipólita (Zenaida Gamboa) como a única mãe que teve na vida, para ele, nesse momento, é o suficiente.  Ao ser cobrado pela esposa, Bolívar diz que a mulher não era sua para que ele interviesse e que ele trata bem seus escravos.  Para a esposa, não é suficiente, ele está sendo complacente com a barbárie.  Mais tarde, somos apresentados ao professor e maior influenciador de Bolívar no campo das ideias, o professor Simón Rodríguez (Francisco Denis).


O "bom senhor" de escravos.
Rodríguez é tão vanguarda revolucionária (*a esposa de Bolívar fica até chocada com ele*) que eu, que não conheço minúcias da vida de Bolívar, achei que ele era uma personagem inventada para o filme.   Adepto das ideias de Rousseau, ele era contra a existência de qualquer instituição que pudesse oprimir o povo, incluindo Igreja Católica e o Estado.  Além de ensinar assuntos acadêmicos para o menino Bolívar, ele o ensinou, também, a montar,  nadar, esgrimir e atirar.  Intelectual e guerreiro completo, revolucionário e procurado pela justiça, mas, ao que parece, o homem era assim mesmo.  

Com a cabeça colocada à prêmio pela Coroa espanhola, o professor foge para a Europa, mais especificamente, a França de Napoleão.  No filme, ele empurra Bolívar para a guerra de independência, espicaçando seus brios e sua consciência.  E ainda tem a audácia de dizer (*duas vezes*) que foi bom que Bolívar tenha perdido a esposa, porque, assim, ele poderia viver para a Revolução.  Neste caso, a ideia colocada na boca do professor aparece nos escritos de Bolívar.  


O professor revolucionário.
Segundo o próprio, ainda que ele não quisesse passar a vida acomodado como um senhor de terras, se Maria Teresa tivesse vivido, ele jamais se entregaria de corpo e alma à luta política.  Enfim, Rodríguez foi um dos professores mais manipuladores que eu já vi em qualquer obra de ficção.  Ombro a ombro com a Miss Brodie de A Primavera de uma Solteirona.  E essa influência do professor se estende até quando Bolívar já é presidente.  Deve ser um dos professores de maior influência na História da humanidade, afinal, Bolívar liderou o movimento de independência da América Espanhola.

Bolívar fica viúvo com míseros 19 anos, depois de oito meses de casamento.  Maria Teresa contrai febre amarela e não resiste.  A perda da esposa faz com que Bolívar jure que nunca mais se casaria, voto que ele cumpriu.  No filme, a jovem diz estar grávida, mas esse detalhe parece inventado para o filme.  Acredita-se que Bolívar tivesse algum problema de fertilidade, porque ele teve muitas amantes, ainda que o filme só o mostre com três mulheres (*a esposa, uma prostituta parisiense e Manuela*), e nenhum filho lhe foi atribuído.  


E ele encontra em Manuela uma parceira revolucionária.
Falando em mulheres, o filme tem uma grande quantidade delas para um filme que passa boa parte do seu tempo no campo de batalha.  Agora, poucas tem nomes e a película não cumpre a Bechdel Rule.  Maria Teresa, Hipólita e Manuela têm destaque especial.  Maria Teresa é mostrada como o amor da juventude.  As cenas entre María Valverde e Édgar Ramírez são carregadas de ternura, romantismo e alguma sensualidade.  Não sei, por exemplo, dado o momento de extremo puritanismo e hipocrisia em que vivemos, se as poucas cenas de nudez e sexo do filme inviabilizariam a sua exibição para as minhas turmas de 2º Ano.

Voltando ao figurino de María Teresa, ele é muito bonito, salvo por um vestido que parece saído de um filme de fantasia.  Um deslize do filme foi colocarem a personagem montando a cavalo como um homem e com as pernas de fora, não ficou bom, não.  Além disso, pareceu descuido de Bolívar não perceber que a esposa estava passando mal, mas quem assistir ao filme tire suas conclusões.  Engraçado é que quando Bolívar volta a passar por sua hacienda, muitos anos depois, a cama em que a esposa morreu continua intacta, do mesmo jeito.  É uma das cenas absurdas do filme, ou, talvez, e ideia fosse de realismo fantástico mesmo.


Vestidos do filme Maria Antonieta.
Falando de Manuela Sáenz, eu esperava mais cenas dela no filme.  Ela foi companheira de Bolívar e lutou pela independência sendo chamada de "libertadora do libertador" por ter salvo a vida do herói.  Segundo a Wikipedia, seu papel na luta de independência foi esquecida até o século XX, quando sua participação passou a ser valorizada e ela vista como um símbolo feminista.  

De qualquer forma, ela era uma mulher que afrontava convenções sociais.  Separada do marido, ela parecia não estar preocupada com o que poderiam pensar dela e nem Bolívar, ao que parece.   O figurino de Manuela também é bonito e o filme a coloca em algumas cenas usando roupas masculinas.  É Manuela que toma a iniciativa em relação ao romance com o protagonista.  Quando ela soube da morte de Bolívar, tentou o suicídio, mas isso não foi colocado na película.


Mulheres e crianças também estavam no exército de Bolívar.
Para além das personagens femininas com nome, o mais importante foi ver mulheres representadas no exército de Bolívar.  Não falo das esposas e mães de soldados, ou daquelas que estavam prestando algum serviço, mas de mulheres que pegavam em armas, que lutaram lado a lado com os homens.  O único filme no qual me lembro de ter visto a representação nessa escala foi em Netto perde sua Alma, filme brasileiro sobre a Guerra dos Farrapos.  

Todas essas mulheres retratadas eram negras, índias, ou mestiças.  falando nisso, um dos destaques do filme, aliás, é a diversidade.  Pode pegar qualquer foto de multidão na película que isso é evidente.  Agora, quando você olha a assembleia surgida depois da independência da Gran Colômbia (*formada por Colômbia, Panamá, Venezuela, Equador, Bolívia e outros pedacinhos*), o que temos são homens brancos, a elite colonial branca, ou que assim se vê, exclui negros, índios e mestiços pobres das decisões políticas.


Torkington, o banqueiro inglês, parece se materializar
na frente de Bolívar em alguns momentos chave do filme.
Enfim, morta a esposa, Bolívar vai para a Europa e passa um período meio vida loca bebendo, gastando dinheiro, se relacionando com prostitutas.  Ele está em sofrimento e é assim que ele tenta preencher o vazio.  Numa dessas visitas a um bordel de luxo, ele encontra com o banqueiro inglês Martin Torkington (Danny Huston), que fala com ele de uma tentativa de independência da Venezuela, terra natal de Bolívar, e que o general que a liderou, Francisco de Miranda (Manuel Porto), está exilado em Paris.  Bolívar pergunta para o banqueiro por qual motivo ele tem tanto interesse no assunto e ele diz "Não é todo dia que se está jogando com o futuro de todo um continente".

Torkington será figura presente ao longo do filme, apoiando e patrocinando Bolívar.  E fica parecendo que o protagonista foi ingênuo demais ao não perceber que o inglês iria cobrar por seu auxílio, que não seria barato, aliás, e que não devia confiar nele.  A partir do encontro com o General Miranda, Bolívar entra de cabeça na luta pela independência.  Miranda, que era o revolucionário pau para toda obra, afinal, tinha lutada na Revolução Americana e na Francesa, entre outras guerras menores, se desentende com Bolívar, quer fazer um acordo com os espanhóis.  Bolívar se insurge contra ele e esse embate o leva a sua primeira derrota e um dos atos mais controvertidos do Libertador.  Ele entrega Miranda aos espanhóis e é capturado, também.   


Bolívar estava sempre sempre no meio
da multidão e sem roupas pomposas,
mas ele é membro das elites da terra.
Depois dessa primeira tentativa frustrada, Bolívar tem todos os seus bens confiscados e é exilado no meio da floresta amazônica.  É nessa parte do filme, quando ele é obrigado a conviver com negros, índios e mestiços pobres em situação de privação e dificuldades, que ele passa por uma espécie de processo de "conversão", isto é, ele percebe o quanto o domínio espanhol é injusto e cruel e que os ideais iluministas são para aquelas pessoas, também.  Ele passa a liderá-las e promover ataques contra os espanhóis. Sua fama vai crescendo e líderes civis e militares rebelados contra a Espanha passam a apoiá-lo.

É nesse momento do filme que ele conhece Francisco de Paula Santander (Orlando Valenzuela), um coronel que o apoia com tropas a mando do vice-rei de Nova Granada.  Nada disso era oficial e Santander não tinha autorização para cruzar a fronteira com a Venezuela.  Tanto Bolívar, quanto Santander, são heróis da independência da América Espanhola.  Se Bolívar é O Libertador, Santander é o Legislador.  O filme não se aprofunda nisso, mas sinaliza as diferenças entre os dois quando um quer cumprir a lei e não cruzar o rio-fronteira.  


Santander, sempre arrumadinho,
 está preocupado com a lei,
Bolívar, com a revolução.
Mesmo na guerra a lei deveria ser cumprida, esta é a posição de Santander.  Já Bolívar diz que não é uma guerra, mas uma revolução, logo, as leis tradicionais não são válidas.  Os dois discursam, os soldados de Santander decidem seguir em massa Bolívar.  Mais tarde, Santander acusa Bolívar de ser um ditador, o que de fato ele se tornou.  Só que o filme é pró-Bolívar, então, Santander, que efetivamente mandou matar o Libertador, uma grande traição, é verdade, fica meio que como um vilão na história, alguém que se coloca contra as ideias de Pan-americanismo.  

Ainda assim, Bolívar tem outro revés quando tenta tomar Caracas e precisa partir para o exílio na Jamaica. Ele passou pelo Haiti, também, mas o filme omite isso.  Curiosamente, há outro filme sobre Bolívar do mesmo ano, 2013, uma produção bem mais pobre, que foca somente nos anos de 1818 e 1819 e que mostra Bolívar no Haiti.   Só que O Libertador quer abarcar a vida inteira do homem.  Resultado?  Algumas partes são suprimidas e ao retirar coisas, se está, sempre, fazendo uma escolha..  


Bolívar foi um grande orador.
O filme não esclarece, também, o fato de que a ocupação napoleônica da Espanha (1808-1813) ajudou no processo de independência das colônias.  Se não havia rei na Espanha, ou melhor, se o irmão de Napoleão era o rei, as colônias não teriam como ser abastecidas com soldados e outras formas de apoio vindas da Europa.  De qualquer forma, com a derrota de Napoleão, em 1815, vem o Congresso de Viena e a Santa Aliança estimulam a Espanha a tentar reconquistar a América.  É nesse momento que a luta se intensifica no Continente.

A partir daí, o filme acompanha, então, as dificuldades de Bolívar em conseguir aliados.  De novo, tem uma mãozinha de Torkington e de apoios como o de  Antonio José de Sucre (Erich Wildpret), Francisco de Paula Santander, Rafael Urdaneta (Alejandro Furth), Daniel Florence O'Leary (Iwan Rheon), James Rooke (Gary Lewis), além da Legião Britânica (*ou  Albion Legion*).  Esse grupo era formada principalmente por veteranos ingleses e irlandeses das guerras napoleônicas, além de alguns alemães, que se engajaram ao lado de Bolívar por apoiar suas ideias revolucionárias e, também, por interesses financeiros.  Eram mercenários idealistas, por assim dizer.  Rooke, O'Leary e outros também são considerados heróis da independência.


Sucre, O'Leary e Urdaneta.
Para capturar Bogotá, em 1819, Bolívar decide atravessar os Andes.  A tarefa, claro, é penosa, a travessia ocorrerá no inverno e muitos soldados morrem no caminho, mas Bolívar triunfa na Batalha de Boyacá, em 7 de agosto de 1819.  Foi uma das melhores passagens do filme.  Não sou especialista em batalhas, muito menos em armas e armamentos de qualquer época, mas foi a melhor batalha do filme e mostrou bem a pluralidade das forças de Bolívar: criollos e estrangeiros brancos, mestiços, negros, índios, no meio deles mulheres e até crianças.  A cena da ponte em especial foi bem impressionante.  Segundo Santander, quem controlasse a ponte, controlava Bogotá.  A partir daí, Bolívar consegue seu objetivo e temos a fundação da República da Colômbia, ou Gran Colombia (1821-1831).  

A partir daí, o filme dá um salto no tempo, de 1819 para 1828.  Agora, Bolívar é presidente, a união da república da Gran Colômbia está em risco.  Como o filme não tem nem duas nem duas horas completas, não temos um aprofundamento das discussões políticas, mas uma rápida deterioração da situação de Bolívar e da república, seu sonho indo por água abaixo.  Rodríguez volta para cobrar que ele lute.  Torkington vem exigir compensações por sua ajuda e a negativa conduz à tentativa de assassinato.  Voltamos a uma situação de guerra civil.


O inglês James Rooke, atrás de Bolívar,
morre na Batalha de Boyacá. 
A última cena do General Sucre, melhor amigo de Bolívar no filme, já prenuncia sua morte.  Sabemos que ele não iria chegar vivo ao seu destino.  E eu nem conhecia nada da vida dele, o filme fica meio óbvio nesse momento.  Bolívar parte para a guerra sem saber ainda de sua morte, mas, ao se despedir de Manuela, de novo temos certeza de que eles não se verão novamente.  Ela o avisa de que correm boatos de que ele tem tuberculose.  Ele está são, o objetivo do boato é justificar sua morte.  Bolívar sabe disso.

Enfim, já estiquei demais e contei o filme quase todo, mas não posos me omitir de comentar a questão da morte de Bolívar.  Oficialmente, ele morreu de tuberculose.  A sua morte ocorreu duas semanas depois do assassinato de Sucre e oficialmente a morte do amigo acelerou as coisas.  Ele foi acompanhado por dois médicos, um francês (Alejandro Próspero Révérend), que esteve com ele ao longo dos seus últimos dias, outro o Dr. M. Night, militar do USS Grampus.  Os relatórios dos dois apontam para tuberculose.  O problema é que havia boatos de assassinato que competiam com a História oficial, além de dúvidas sobre se a causa mortis tinha sido de fato tuberculose.  


Foto da cena da ponte na Batalha de Boyacá.
Em 2008, o presidente Hugo Chávez da Venezuela estabeleceu uma comissão científica e mandou exumar o corpo de Bolívar.  Isso não é incomum, os restos mortais de D. Pedro I, D. Leopoldina e D. Amélia passaram por algo semelhante, que descartou, por exemplo, que a primeira imperatriz tivesse sofrido alguma fratura por ter sido agredida pelo marido.  A história de que ela tinha sido espancada por D. Pedro pouco antes de sua doença e morte e sofrido fraturas é persistente.  Enfim, a comissão estabelecida por Chávez confirmou que os restos mortais presentes no mausoléu de Bolívar não eram de um homem que tivesse morrido de tuberculose.   

Isso quer dizer o quê?  Desde que Bolívar não morreu de tuberculose, passando por não é o corpo do Libertador, até um possível laudo falso.  Não achei nada sobre terem feito algum exame de DNA utilizando material colhido dos descendentes dos sobrinhos de Bolívar.  Sim, ele tinha irmãos e sobrinhos.  Não era incomum descobrir a tuberculose e morrer rápido, ou esconder os sintomas e tentar levar adiante a sua missão, caso que poderia ser o de Bolívar.  O filme acaba abraçando uma visão que é advogada pelo governo da Venezuela, mataram Bolívar.


Bolívar atravessou com um exército os Andes no inverno.
O filme comprar a ideia de que Bolívar foi assassinado, é uma opção que tenta colocar o Libertador como mártir, como vítima de traidores dos seus ideais.  Não vou descrever a cena, mas é morte de herói, afinal, essa é a tônica do filme.  E, ao morrer, o Bolívar do filme deixa tanto a semente da esperança no futuro, quanto o gosto amargo de ter o sonho de uma grande América unificada frustrado por gente sem visão (Santander, por exemplo) e estrangeiros inescrupulosos (Torkington), além de traidores, gente que troca sua fidelidade por dinheiro.

Voltando ao Bolívar histórico, ele participou de 472 batalhas, percorreu durante suas campanhas 123.000 quilômetros, 10 vezes mais que Aníbal, três vezes mais que Napoleão (*que invadiu a Rússia*) e duas vezes mais que Alexandre, o Grande.  E morreu relativamente jovem, com 47 anos.  Aliás, um dos problemas do filme, mas eu entendo o motivo, é que Édgar Ramírez não consegue parecer um adolescente.  O ator está muito bem como o Bolívar adulto, passa a ideia que querem dele (*virilidade, charme, força etc.*) mas quando o interpreta no início do filme, não parece convincente.

Um dos cartazes do filme.
Enfim, sabemos muito sobre os pensamentos de Bolívar, graças à desobediência de um dos seus ajudantes de campo, o General O'Leary, que não queimou os escritos e cartas  do Libertador conforme lhe fora pedido.  O'Leary organizou os papéis de Bolívar, recebeu material de outras pessoas, como Manuela Sáenz, sua companheira de longos anos, e ainda  escreveu as suas próprias memórias.  

Terminando, o filme é bom, a produção é cara.  Apesar da imagem pró-Bolívar, afinal, o filme é dele, não nos vendem um herói imaculado.  O problema é que todo mundo que aparece nesse filme é, a rigor, herói da independência da América Espanhola e suas imagens pode ser interpretada de diversas formas a depender de quem conta a história.  Assistindo ao filme, percebo, também, o quão distante o Brasil está dos seus irmãos latino americanos.  Falando como professora de história, eu posso listar vários personagens da História Antiga, Medieval (*claro*), de diversos países europeus dos Estados Unidos da América, mas sei muito pouco sobre as independências e da história dos nossos vizinhos.  

Em um curto período, houve várias produções
sobre Bolívar.  A última é da Netflix.
Eu mesma, sei o mínimo, na verdade. Fiz somente as disciplinas obrigatórias de América na faculdade e raramente tive que dar aula sobre América Espanhola que não fosse colonização e algum tópico do século XX (*Revolução Mexicana, Revolução Cubana, Peronismo etc.*).  Acredito que o Brasil seja pouco estudado por eles, também.  Estivemos quase sempre de costas para a América Espanhola, olhando para a Europa e para os Estados Unidos.  Agora, com a reforma do Ensino Médio, o espanhol está fora do currículo obrigatório.  É um brutal retrocesso.  Mas é isso.  Vejam O Libertador, o filme é bom como filme e ajuda a gente a refletir sobre algumas coisas, também.