segunda-feira, 25 de maio de 2020

Comentando O Libertador (Venezuela/Espanha/2013): Bolívar, o homem que sonhou em unir a América Espanhola


Graças a um post do Frock Flicks, o site especializado em figurino de filmes históricos, descobri o filme O Libertador (El Libertador), uma produção espanhola e venezuelana sobre a vida de Simón Bolívar (1783-1830).  Como vou começar a falar de Independência das América Espanhola com meus alunos e alunas, achei que valia a pena assistir.  No geral, gostei do filme, achei bem executado e com uma produção de qualidade.  Como conheço quase nada da vida de Bolívar, tive que ler algumas coisas para escrever a resenha e, bem, parece que o filme não perdeu de vista o que temos de informação sobre o protagonista.

O filme começa em 1828, quando Bolívar (Édgar Ramírez) escapa por pouco de uma tentativa de assassinato a mando de um adversário político, o general Francisco de Paula Santander (Orlando Valenzuela).  Na sua figa, ele conta com a ajuda de sua amante e companheira de causa, Manuela Sáenz (Juana Acosta).  A partir daí, temos um longo flashback mostrando Bolívar desde a infância e em vários momentos chave de sua vida até que retornamos ao acontecimento que deu início ao filme e o desfecho da vida do Libertador, um homem que sonhou com uma grande nação que unisse todas as colônias espanholas em um só estado, uma só América. 


Manuela Sáenz salva a vida de Bolívar logo no início do filme.
O Libertador começa com uma sequência de abertura que é bem eletrizante.  Isso já prende nossa atenção e desperta a curiosidade.  Afinal, a narrativa não linear não nos permite saber como chegamos naquela situação em que a vida do protagonista está por um fio.  Ao mesmo tempo, esta introdução situa aquilo que o filme quer apresentar como traço importante da personalidade de Bolívar, a capacidade de reconhecer suas fragilidades, recuar para voltar a lutar novamente. Este aspecto da personalidade de Bolívar foi usado várias vezes para desqualificá-lo, mas o fato é que Simón Bolívar tem a ser favor uma série de grandes feitos e, para executá-los, precisava permanecer vivo.  

Vejo nessa apresentação de Bolívar como um homem que reconhecia suas fragilidades uma tentativa, também, de romper com a ideia do herói invencível e perfeito.  A cena da tentativa de assassinato se mistura com um flashback do menino Bolívar tentando não chorar a morte da mãe e o tio dizendo que era correto expressar seus sentimentos.  Acredito que o filme tentou projetar no passado uma imagem de masculinidade positiva aos nossos olhos contemporâneos.  Um homem pode se mostrar vulnerável e isso não é um defeito.  


Nosso herói aparece descamisado, também. 
Um líder sem frescuras.
De qualquer forma, o Bolívar do filme é um líder militar corajoso, mas é, também, um homem compassivo com os mais fracos e mesmo com os inimigos, amoroso e capaz de reconhecer seus erros e defeitos.  E tudo dentro de um pacotinho interessante que é o ator Édgar Ramírez, que incorpora aquilo que eu chamo de beleza rústica.  Agora, pelos quadros dos livros de História, imaginava um Bolívar alto e magro, com um rosto aquilino, mas optaram por um ator com outro tipo físico, talvez, para também se ajustar à padrões de beleza de nossos dias.  Um amigo brincou dizendo que ele parece o Wolverine.  Bem, como o sujeito é fluente em cinco línguas, de repente, ele pode se candidatar.  

Depois desse incidente inicial, somos levados para a Espanha em 1800.  Bolívar, como a maioria dos jovens de seu grupo social, o dos criollos (*filhos de espanhóis nascidos na América*) ricos, deveria completar seus estudos na Europa.  O herói é mostrado na corte espanhola onde conhece o futuro rei Fernando VII (Andrés Gertrúdix), que é apresentado como um mal perdedor e uma figura um tanto patética.  


Ele parece um adolescente de 16 anos?
 Não parece, certo?
O rei não reaparece no filme, mas a ideia que se vende é que ele se tornou um monarca incapaz, ainda que os soldados espanhóis sejam apresentados como corajosos e muito competentes e, claro, em alguns momentos, como cruéis, especialmente, com a população camponesa. É interessante pontuar isso, porque os inimigos de Bolívar não são pintados como maus militares, o General Monteverde (Imanol Arias), adversário inicial de Bolívar, é apresentado como um militar capaz e honrado, ainda que orgulhoso e cheio de desprezo pelos colonos.   Vejam que é uma estratégia inteligente, porque se você valoriza o inimigo em uma história, você exalta ainda mais a vitória do seu herói.  Qual a graça de vencer adversários ridículos?

Voltando para a corte, lá Bolívar conhece sua futura esposa, Maria Teresa (María Valverde), que era dois anos mais velha que ele.  Foi por causa das roupas usadas pela atriz María Valverde no filme que as moças do Frock Flicks fizeram resenha do Libertador.  Para as cenas na corte espanhola foram alugadas as roupas usadas no filme Maria Antonieta (2006) e que estava defasadas quase trinta anos em termos de moda.  Agora, algo que percebi é que nessas cenas na Espanha tínhamos uma mistura, roupas de tinta anos antes com outras contemporâneas ao período que o filme retrata.  De qualquer forma, tudo estava muito bonito.


María Teresa, o amor da vida de Bolívar.
O amor entre Bolívar e Maria Teresa recebe muita atenção no filme e a imagem da amada vai acompanhar o herói por toda a película.  A moça vai com o marido para a América e é através dela que vem a primeira crítica à escravidão e à atitude do protagonista em relação à condição dos negros e negras.  Bolívar, que se via como um liberal, isto é, alguém que acreditava que existem direitos naturais (*vida, liberdade, propriedade*) e que todos (*nem que sejam os homens do sexo masculino*) devem ser iguais diante da lei, não se intromete quando vê uma escrava sendo duramente açoitada.

Bolívar é o "bom senhor" de escravos, ele está satisfeito consigo mesmo.  Além disso, ele trata a negra Hipólita (Zenaida Gamboa) como a única mãe que teve na vida, para ele, nesse momento, é o suficiente.  Ao ser cobrado pela esposa, Bolívar diz que a mulher não era sua para que ele interviesse e que ele trata bem seus escravos.  Para a esposa, não é suficiente, ele está sendo complacente com a barbárie.  Mais tarde, somos apresentados ao professor e maior influenciador de Bolívar no campo das ideias, o professor Simón Rodríguez (Francisco Denis).


O "bom senhor" de escravos.
Rodríguez é tão vanguarda revolucionária (*a esposa de Bolívar fica até chocada com ele*) que eu, que não conheço minúcias da vida de Bolívar, achei que ele era uma personagem inventada para o filme.   Adepto das ideias de Rousseau, ele era contra a existência de qualquer instituição que pudesse oprimir o povo, incluindo Igreja Católica e o Estado.  Além de ensinar assuntos acadêmicos para o menino Bolívar, ele o ensinou, também, a montar,  nadar, esgrimir e atirar.  Intelectual e guerreiro completo, revolucionário e procurado pela justiça, mas, ao que parece, o homem era assim mesmo.  

Com a cabeça colocada à prêmio pela Coroa espanhola, o professor foge para a Europa, mais especificamente, a França de Napoleão.  No filme, ele empurra Bolívar para a guerra de independência, espicaçando seus brios e sua consciência.  E ainda tem a audácia de dizer (*duas vezes*) que foi bom que Bolívar tenha perdido a esposa, porque, assim, ele poderia viver para a Revolução.  Neste caso, a ideia colocada na boca do professor aparece nos escritos de Bolívar.  


O professor revolucionário.
Segundo o próprio, ainda que ele não quisesse passar a vida acomodado como um senhor de terras, se Maria Teresa tivesse vivido, ele jamais se entregaria de corpo e alma à luta política.  Enfim, Rodríguez foi um dos professores mais manipuladores que eu já vi em qualquer obra de ficção.  Ombro a ombro com a Miss Brodie de A Primavera de uma Solteirona.  E essa influência do professor se estende até quando Bolívar já é presidente.  Deve ser um dos professores de maior influência na História da humanidade, afinal, Bolívar liderou o movimento de independência da América Espanhola.

Bolívar fica viúvo com míseros 19 anos, depois de oito meses de casamento.  Maria Teresa contrai febre amarela e não resiste.  A perda da esposa faz com que Bolívar jure que nunca mais se casaria, voto que ele cumpriu.  No filme, a jovem diz estar grávida, mas esse detalhe parece inventado para o filme.  Acredita-se que Bolívar tivesse algum problema de fertilidade, porque ele teve muitas amantes, ainda que o filme só o mostre com três mulheres (*a esposa, uma prostituta parisiense e Manuela*), e nenhum filho lhe foi atribuído.  


E ele encontra em Manuela uma parceira revolucionária.
Falando em mulheres, o filme tem uma grande quantidade delas para um filme que passa boa parte do seu tempo no campo de batalha.  Agora, poucas tem nomes e a película não cumpre a Bechdel Rule.  Maria Teresa, Hipólita e Manuela têm destaque especial.  Maria Teresa é mostrada como o amor da juventude.  As cenas entre María Valverde e Édgar Ramírez são carregadas de ternura, romantismo e alguma sensualidade.  Não sei, por exemplo, dado o momento de extremo puritanismo e hipocrisia em que vivemos, se as poucas cenas de nudez e sexo do filme inviabilizariam a sua exibição para as minhas turmas de 2º Ano.

Voltando ao figurino de María Teresa, ele é muito bonito, salvo por um vestido que parece saído de um filme de fantasia.  Um deslize do filme foi colocarem a personagem montando a cavalo como um homem e com as pernas de fora, não ficou bom, não.  Além disso, pareceu descuido de Bolívar não perceber que a esposa estava passando mal, mas quem assistir ao filme tire suas conclusões.  Engraçado é que quando Bolívar volta a passar por sua hacienda, muitos anos depois, a cama em que a esposa morreu continua intacta, do mesmo jeito.  É uma das cenas absurdas do filme.


Vestidos do filme Maria Antonieta.
Falando de Manuela Sáenz, eu esperava mais cenas dela no filme.  Ela foi companheira de Bolívar e lutou pela independência sendo chamada de "libertadora do libertador" por ter salvo a vida do herói.  Segundo a Wikipedia, seu papel na luta de independência foi esquecida até o século XX, quando sua participação passou a ser valorizada e ela vista como um símbolo feminista.  

De qualquer forma, ela era uma mulher que afrontava convenções sociais.  Separada do marido, ela parecia não estar preocupada com o que poderiam pensar dela e nem Bolívar, ao que parece.   O figurino de Manuela tambem é bonito e o filme a coloca em algumas cenas usando roupas masculinas.  É Manuela que toma a iniciativa em relação ao romance com o protagonista.  Quando ela soube da morte de Bolívar, ela tenta o suicídio, mas isso não foi colocado na película.


Mulheres e crianças também estavam no exército de Bolívar.
Para além das personagens femininas com nome, o mais importante foi ver mulheres representadas no exército de Bolívar.  Não falo das esposas e mães de soldados, ou daquelas que estavam prestando algum serviço, mas de mulheres que pegavam em armas, que lutaram lado a lado com os homens.  O único filme no qual me lembro de ter visto a representação nessa escala foi em Netto perde sua Alma, filme brasileiro sobre a Guerra dos Farrapos.  

Todas essas mulheres retratadas eram negras, índias, ou mestiças.  falando nisso, um dos destaques do filme, aliás, é a diversidade.  Pode pegar qualquer foto de multidão na película que isso é evidente.  Agora, quando você olha a assembleia surgida depois da independência da Gran Colômbia (*formada por Colômbia, Panamá, Venezuela, Equador, Bolívia e outros pedacinhos*), o que temos são homens brancos, a elite colonial branca, ou que assim se vê, exclui negros, índios e mestiços pobres das decisões políticas.


Torkington, o banqueiro inglês, parece se materializar
na frente de Bolívar em alguns momentos chave do filme.
Enfim, morta a esposa, Bolívar vai para a Europa e passa um período meio vida loca bebendo, gastando dinheiro, se relacionando com prostitutas.  Ele está em sofrimento e é assim que ele tenta preencher o vazio.  Numa dessas visitas a um bordel de luxo, ele encontra com o banqueiro inglês Martin Torkington (Danny Huston), que fala com ele de uma tentativa de independência da Venezuela, terra natal de Bolívar, e que o general que a liderou, Francisco de Miranda (Manuel Porto), está exilado em Paris.  Bolívar pergunta para o banqueiro por qual motivo ele tem tanto interesse no assunto e ele diz "Não é todo dia que se está jogando com o futuro de todo um continente".

Torkington será figura presente ao longo do filme, apoiando e patrocinando Bolívar.  E fica parecendo que o protagonista foi ingênuo demais ao não perceber que o inglês iria cobrar por seu auxílio, que não seria barato, aliás, e que não devia confiar nele.  A partir do encontro com o General Miranda, Bolívar entra de cabeça na luta pela independência.  Miranda, que era o revolucionário pau para toda obra, afinal, tinha lutada na Revolução Americana e na Francesa, entre outras guerras menores, se desentende com Bolívar, quer fazer um acordo com os espanhóis.  Bolívar se insurge contra ele e esse embate o keva a sua primeira derrota e um dos atos mais controvertidos do Libertador.  Ele entrega Miranda aos espanhóis e é capturado, também.   


Bolívar estava sempre sempre no meio
da multidão e sem roupas pomposas,
mas ele é membro das elites da terra.
Depois dessa primeira tentativa frustrada, Bolívar tem todos os seus bens confiscados e é exilado no meio da floresta amazônica.  É nessa parte do filme, quando ele é obrigado a conviver com negros, índios e mestiços pobres em situação de pobreza e dificuldades, que ele passa por uma espécie de processo de "conversão", isto é, ele percebe o quanto o domínio espanhol é injusto e cruel e que os ideais iluministas são para aquelas pessoas, também.  Ele passa a liderá-las e promover ataques contra os espanhóis. Sua fama vai crescendo e líderes civis e militares rebelados contra a Espanha passam a apoiá-lo.

É nesse momento do filme que ele conhece Francisco de Paula Santander (Orlando Valenzuela), um coronel que o apoia com tropas a mando do vice-rei de Nova Granada.  Nada disso era oficial e Santander não tinha autorização para cruzar a fronteira com a Venezuela.  Tanto Bolívar, quanto Santander, são heróis da independência da América Espanhola.  Se Bolívar é O Libertador, Santander é o Legislador.  O filme não se aprofunda nisso, mas sinaliza as diferenças entre os dois quando um quer cumprir a lei e não cruzar o rio-fronteira.  


Santander, sempre arrumadinho,
 está preocupado com a lei,
Bolívar, com a revolução.
Mesmo na guerra a lei deveria ser cumprida, esta é a posição de Santander.  Já Bolívar diz que não é uma guerra, mas uma revolução, logo, as leis tradicionais não são válidas.  Os dois discursam, os soldados de Santander decidem seguir em massa Bolívar.  Mais tarde, Santander acusa Bolívar de ser um ditador, o que de fato ele se tornou.  Só que o filme é pró-Bolívar, então, Santander, que efetivamente mandou matar o Libertador, uma grande traição, é verdade, fica meio que como um vilão na história, alguém que se coloca contra as ideias de Panamericanismo.  

Ainda assim, Bolívar tem outro revés quando tenta tomar Caracas e precisa partir para o exílio na Jamaica. Ele passou pelo Haiti, também, mas o filme omite isso.  Curiosamente, há outro filme sobre Bolívar do mesmo ano, 2013, uma produção bem mais pobre, que foca somente nos anos de 1818 e 1819 e que mostra Bolívar no Haiti.   Só que O Libertador quer abarcar a vida inteira do homem.  Resultado?  Algumas partes são suprimidas.  


Bolívar foi um grande orador.
O filme não esclarece, também, o fato de que a ocupação napoleônica da Espanha (1808-1813) ajudou no processo de independência das colônias.  Se não havia rei na Espanha, ou melhor, se o irmão de Napoleão era o rei, as colônias não teriam como ser abastecidas com soldados e outras formas de apoio vindas da Europa.  De qualquer forma, com a derrota de Napoleão, em 1815, vem o Congresso de Viena e a Santa Aliança estimula a Espanha a tentar reconquistar a América.  É nesse momento que a luta se intensifica na América.

A partir daí, o filme acompanha, então, as dificuldades de Bolívar em conseguir aliados.  De novo, tem uma mãozinha de Torkington e de apoios como o de  Antonio José de Sucre (Erich Wildpret), Francisco de Paula Santander, Rafael Urdaneta (Alejandro Furth), Daniel Florence O'Leary (Iwan Rheon), James Rooke (Gary Lewis), além da Legião Britânica (*ou  Albion Legion*).  Esse grupo era formada principalmente por veteranos ingleses e irlandeses das guerras napoleônicas, além de alguns alemães, que se engajaram ao lado de Bolívar por apoiar suas ideias revolucionárias e, também, por interesses financeiros.  Eram mercenários idealistas, por assim dizer.  Rooke, O'Leary e outros também são considerados heróis da independência.


Sucre, O'Leary e Urdaneta.
Para capturar Bogotá, em 1819, Bolívar decide atravessar os Andes.  A tarefa, claro, é penosa, a travessia ocorrerá no inverno e muitos soldados morrem no caminho, mas Bolívar triunfa na Batalha de Boyacá, em 7 de agosto de 1819.  Foi uma das melhores passagens do filme.  Não sou especialista em batalhas, muito menos em armas e armamentos de qualquer época, mas foi a melhor batalha do filme e mostrou bem a pluralidade das forças de Bolívar: criollos e estrangeiros brancos, mestiços, negros, índios, no meio deles mulheres e até crianças.  A cena da ponte em especial foi bem impressionante.  Segundo Santander, quem controlasse a ponte, controlava Bogotá.  A partir daí, Bolívar consegue seu objetivo e temos a fundação da República da Colombia, ou Gran Colombia (1821-1831).  

A partir daí, o filme dá um salto no tempo, de 1819 para 1828.  Agora, Bolívar é presidente, a união da república da Gran Colômbia está em risco.  Como o filme não tem nem duas nem duas horas completas, não temos um aprofundamento das discussões políticas, mas uma rápida deterioração da situação de Bolívar e da república, seu sonho indo por água abaixo.  Rodríguez volta para cobrar que ele lute.  Torkington vem exigir compensações por sua ajuda e a negativa conduz à tentativa de assassinato.  Voltamos a uma situação de guerra civil.


O inglês James Rooke, atrás de Bolívar,
morre na Batalha de Boyacá. 
A última cena do General Sucre, melhor amigo de Bolívar no filme, já prenuncia sua morte.  Sabemos que ele não iria chegar vivo ao seu destino.  E eu nem conhecia nada da vida dele, o filme fica meio óbvio nesse momento.  Bolívar parte para a guerra sem saber ainda de sua morte, mas, ao se despedir de Manuela, de novo temos certeza de que eles não se verão novamente.  Ela o avisa de que correm boatos de que ele tem tuberculose.  Ele está são, o objetivo do boato é justificar sua morte.  Bolívar sabe disso.

Enfim, já estiquei demais e contei o filme quase todo, mas não posos me omitir de comentar a questão da morte de Bolívar.  Oficialmente, ele morreu de tuberculose.  A sua morte ocorreu duas semanas depois do assassinato de Sucre e oficialmente a morte do amigo acelerou as coisas.  Ele foi acompanhado por dois médicos, um francês (Alejandro Próspero Révérend), que esteve com ele ao longo dos seus últimos dias, outro o Dr. M. Night, militar do USS Grampus.  Os relatórios dos dois apontam para tuberculose.  O problema é que havia boatos de assassinato que competiam com a História oficial, além de dúvidas sobre se a causa mortis tinha sido de fato tuberculose.  


Foto da cena da ponte na Batalha de Boyacá.
Em 2008, o presidente Hugo Chávez da Venezuela estabeleceu uma comissão científica e mandou exumar o corpo de Bolívar.  Isso não é incomum, os restos mortais de D. Pedro I, D. Leopoldina e D. Amélia passaram por algo semelhante, que descartou, por exemplo, que a primeira imperatriz do marido tivesse sofrido alguma fratura por ter sido agredida pelo marido.  Um boato persistente.  Enfim, a comissão estabelecida por Chávez confirmou que os restos mortais presentes no mausoléu de Bolívar não eram de um homem que tivesse morrido de tuberculose.   

Isso quer dizer o quê?  Desde que Bolívar não morreu de tuberculose, passando por não é o corpo do Libertador até um possível laudo falso.  Não achei nada sobre terem feito algum exame de DNA utilizando material colhido dos descendentes dos sobrinhos de Bolívar.  Sim, ele tinha irmãos e sobrinhos.  


Bolívar atravessou com um exército os Andes no inverno.
O fato é que o filme compra a ideia de que Bolívar foi assassinado.  Não vou descrever a cena, mas é morte de herói, afinal, essa é a tônica do filme.  E, ao morrer, o Bolívar do filme deixa tanto a semente da esperança no futuro, quanto o gosto amargo de ter o sonho de uma grande América unificada frustrado por gente sem visão (Santander, por exemplo) e estrangeiros inescrupulosos (Torkington), além de traidores, gente que troca sua fidelidade por dinheiro.

Voltando ao Bolívar histórico, ele participou de 472 batalhas, percorreu durante suas campanhas 123.000 quilômetros, 10 vezes mais que Aníbal, três vezes mais que Napoleão (*que invadiu a Rússia*) e duas vezes mais que Alexandre, o Grande.  E morreu relativamente jovem, com 47 anos.  Aliás, um dos problemas do filme, mas eu entendo o motivo, Édgar Ramírez não consegue parecer um adolescente.  O ator está muito bem como o Bolívar adulto, mas quando o interpreta no início do filme, não parece convincente.

Um dos cartazes do filme.
Enfim, sabemos muito sobre os pensamentos de Bolívar, graças à desobediência de um dos seus ajudantes de campo, o General O'Leary, que não queimou seus escritos e cartas  do Libertador conforme lhe fora pedido.  O'Leary organizou os papéis de Bolívar, recebeu material de outras pessoas, como Manuela Sáenz, sua companheira de longos anos, e ainda  escreveu as suas próprias memórias.  

Terminando, o filme é bom, a produção é cara.  Apesar da imagem pró-Bolívar, afinal, o filme é dele, não nos vendem um herói imaculado.  O problema é que todo mundo que aparece nesse filme é, a rigor, herói da independência da América Espanhola.  Assistindo ao filme, percebo, também, o quão distante o Brasil estamos dos seus irmãos latino americanos.  Falando como professora de história, eu posso listar vários personagens da História Antiga, Medieval (*claro*), de diversos países europeus dos Estados Unidos da América, mas sei muito pouco sobre as independências e da história dos nossos vizinhos.  

Em um curto período, houve várias produções
sobre Bolívar.  A última é da Netflix.
Eu mesma, sei o mínimo, na verdade. Fiz somente as disciplinas obrigatórias de América na faculdade e raramente tive que dar aula sobre América Espanhola que não fosse colonização e algum tópico do século XX (*Revolução Mexicana, Revolução Cubana, Peronismo etc.*).  Acredito que o Brasil seja pouco estudado por eles, também.  Estivemos quase sempre de costas para a América Espanhola, olhando para a Europa e para os Estados Unidos.  Agora, com a reforma do Ensino Médio, o espanhol está fora do currículo obrigatório.  É um brutal retrocesso.  Mas é isso.  Vejam O Libertador, o filme é bom como filme e ajuda a gente a refletir sobre algumas coisas, também.

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1 pessoas comentaram:

"O filme não esclarece, também, o fato de que a ocupação napoleônica da Espanha (1808–1813) ajudou no processo de independência das colônias. "

Verdade... há "males" que vem para o "bem"... o "inimigo do meu inimigo" é meu "amigo"....
O Paraguai se libertou antes da Grã-Colômbia.... em 1811... se aproveitando da debilidade espanhola..

Fato similar a esse... foi na 2ª guerra mundial... alguns dos países ocupados pela Alemanha...
eram potências coloniais (França, Bélgica e Holanda) ... a guerra debilitou essa potências e abriu caminho pra independência de parte das colônias....
Os indochineses e indonésios se aproveitaram disso e conseguiram a independência pelas armas...

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