terça-feira, 26 de maio de 2020

Como a Rainha Maria Antonieta ajudou a popularizar a vacinação contra a varíola


Estou ainda com um vídeo do Paulo Rezutti conversando com a jornalista Carla Vilhena aberto aqui (*recomendo, a conversa é boa*), mas, lá pelas tantas, eles falam de D. Maria I, chamada de "a louca", e estão desmontando essa imagem depreciativa construída sobre a monarca.  Sim, você pode ser republicado, como eu sou, sem ficar embarcando nesses discursos difamatórios e que trazem normalmente uma forte carga de misoginia.  E é bom ressaltar que o Paulo Rezutti não é misógino, machista, nem algo do gênero, parte da conversa gira em torno de como as mulheres são invisibilizadas nas narrativas históricas tradicionais.  Ele tem um livro sobre o tema, aliás.

Conversa vai, conversa vem, eles falam da vacina contra a varíola, na verdade, a inoculação.  D. Maria I se recusou a permitir que a corte fosse inoculada e perdeu o filho mais velho, seu herdeiro, para a doença.  Eles ressaltaram a religiosidade da monarca e lamentaram o que, aos nossos olhos, seria sintoma de ignorância.  Mas vamos lá, a coisa não era tão simples assim.

D. Maria I não era particularmente
atrasada por recusar a inoculação.
A vacina contra a varíola, foi inventada/descoberta por Edward Jenner já na última década do século XVIII, quando ele observou que as leiteiras tinham marcas nas mãos, porque contraíam a doença das vacas, mas elas não morriam, nem tinham os sintomas que a variedade humana produzia.  As leiteiras ficavam  imunes à doença que, em algumas epidemias, poderia matar mais de 40% dos infectados.  A partir daí, Jenner desenvolve a vacina, que se tornará popular no séxulo XIX, a primeira da história da humanidade, e que tem esse nominho por causa das vaquinhas.  E antes, como a coisa era feita?

Lady Mary Wortley Montagu, esposa do embaixador britânico no Império Otomano, voltou para seu país em 1718 com uma "novidade" (*que já era conhecida na África e em boa parte da Ásia fazia séculos*).  Ela viu no Oriente a prática de retirar o pus ou as casquinhas das feridas, de alguém com a doença, fazer um corte na pele de uma pessoa sã e colocar esses resíduos lá.  A pessoa saudável desenvolvia uma forma atenuada da doença, pouquíssimas feridas, já que a varíola, quando não matava, deixava a pessoa desfigurada, ou cega, e ficava imune. A inoculação, no início, estava somente disponível para os ricos.  Eles faziam as chamadas "festas da varíola", se isolavam em uma casa de campo de um deles e se faziam inocular em grupo.  Quem cuidava dessa gente?  Enfim, a prática demorou um pouquinho para se expandir para outros grupos sociais.

Lady Montagu vestida em roupas otomanas.
Na média, menos de 2 em cada dez inoculados morria.  Então, vamos lá inocular todo mundo, certo? Mas e se seu filho pudesse ser um desses dois?  Para se ter uma ideia, Benjamin Franklin, um dos pais fundadores dos Estados Unidos, era um grande advogado da inoculação, o processo, aliás, chegou rápido nas colônias inglesas do Norte.  Só que ele, como muitos país do século XVIII, não submeteu seu filho de 4 anos ao procedimento.  O menino morreu em 1736.  Esse evento gera forte discussão nos Estados Unidos ainda hoje.  Há os que apontam a hipocrisia de Franklin, outros que argumentam que ele não vacinou o menino, porque a criança tinha uma saúde frágil e ele imaginava que a inoculação poderia apressar a sua morte.  De qualquer forma, Benjamin Franklin falou sobre isso em suas memórias:
“Em 1736, perdi um dos meus filhos, um belo garoto de quatro anos, pela varíola contraída da forma usual. Por muito tempo me arrependi amargamente e ainda me arrependo de não tê-lo mandado inocular. Menciono isso em nome dos pais que omitem essa operação, supondo que eles nunca devem se perdoar se uma criança morrer por causa dela; meu exemplo mostrando que o arrependimento pode ser o mesmo de qualquer maneira e que, portanto, o mais seguro deve ser escolhido."
Benjamin Franklin lamentou por
toda a vida não ter inoculado o filho.
Este é o relato de um homem que compreendeu o erro, ou o excesso de zelo.  Estou falando de Franklin, porque se engana quem acredita que inocular alguém no século XVIII era uma escolha racional e aceita pela maioria.  Não era.  José II do Sacro Império Romano Germânico, Catarina II da Rússia, impuseram a inoculação em seus estados.  Eram monarcas absolutistas e ilustrados, usaram da sua força para isso.  O ministro Johann Friedrich Struensee mandou fazer o mesmo na Dinamarca, mas ele é contado entre os déspotas esclarecidos.  Agora, Maria Antonieta enfrentou uma séria resistência para que seus filhos fossem inoculados.  Acredito que a informação está na biografia da Antonia Fraser sobre a rainha, a que foi a base para o filme de 2006.

Em 1774, Maria Antonieta se tornou Rainha da França, porque seu marido sucedeu seu avô, Luís XV, morto pela varíola.  Mais de 50 pessoas morreram da doença em Versalhes.  Apesar da inoculação já ser popular na Inglaterra e em suas colônias, na França era prática vista como suspeita e era muito rara.  Segundo um artigo do The Atlantic, os iluministas, como Diderot, eram grandes defensores da prática, mas os médicos franceses culparam a inoculação pela epidemia de varíola que se abateu sobre Paris em 1762.  A difamação de inoculação funcionou.

Luís XV, morreu de varíola, seu avô (o Grande Delfin),
também, seu filho e nora pereceram da mesma doença.
Após a morte de Luís XV, Maria Anotieta insistiu com o marido para que ele fosse inoculado.  A jovem rainha tinha contraído varíola aos dois anos de idade e sobrevivido com poucas marcas, mas perdera vários parentes para a doença e tinha uma irmã que ficara tão marcada que não lhe arranjaram casamento por isso.  O rei, que perdera pai, mãe e avô para a doença, se inoculou.  Seus irmãos, os Condes de Provence e d'Artois fizeram o mesmo.  Quando seu filho mais velho, Louis Joseph, completou 4 anos, em 1785, ele foi inoculado.  Não sem críticas de elementos contra a inoculação, ou contra a Rainha.  Ela queria matar a descendência do rei.

Além disso, a jovem rainha ajudou a popularizar a vacinação com a moda do "pouf à l’inoculation", um penteado alto com uma fita que era vista como propaganda da prática e como testemunho de que aquela mulher tinha se inoculado, ou feito inocular suas crianças.  Enfim, voltando, quando D. Maria recusou a inoculação e o rapaz morreu em 1788.  Vejam que estávamos às vésperas da Revolução Francesa e, ainda assim, a inoculação ainda era vista com desconfiança por muita gente.


Para quem quiser ler um mangá que discute a questão da inoculação (*Pensaram que eu não iria falar de mangá? ☺️), o assunto é central nos volumes #9 e #10 de Ōoku (大奥), afinal, o Japão do mangá de Fumi Yoshinaga gira em torno de uma doença misteriosa chamada varíola vermelha que mata somente os homens.  Na série, eles conseguem desenvovler uma vacina, mas ela usa a varíola de ursos, não de vacas.  É bem interessante essa parte da história.  Apesar de Riyoko Ikeda ser bem detalhista, a questão da inoculação não aparece na Rosa de Versalhes (ベルサイユのばら).

Tendo escrito tudo isso, cuidado com as falsas simetrias em relação aos nossos dias.  Ao longo do século XIX criou-se um consenso científico sobre a eficácia das vacinas e a varíola, que ceifou tantas vidas, ou as marcou para sempre, foi erradicada graças a um esforço mundial.  Todas as nações estão livres da varíola desde 1980.  O mesmo tipo de esforço será necessário hoje em virtude do coronavírus.  Vacinar uma criança, ou a si mesmo, não é uma opção, é um dever, algo que faz parte do contrato social.  A proteção à vida é um bem máximo, ele se sobrepõe à liberdade individual em certos casos.  Não somos livres para colocar a vida de outros em risco, menos ainda os que estão sob nossa guarda.  Lembrem de Benjamin Franklin e da dor que ele carregou por toda a vida.

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