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terça-feira, 27 de outubro de 2026

RIP Tetsuya Chiba: Kodansha comunica o falecimento do criador de Ashita no Joe

Hoje, foi comunicado o falecimento do mangá-ka Tetsuya Chiba, co-criador de Ashita no Joe (あしたのジョー), um dos mangás mais importantes de todos os tempos.  Chiba fazia parte de uma geração que estava atenta à sociedade ao seu redor e tinha um compromisso em retratar as angústias, dificuldades e o esforço de superação dos japoneses do pós-guerra.  No final da década de 1960 e no início da década de 1970, o Japão vivenciou protestos estudantis massivos liderados pela Nova Esquerda e por facções estudantis comunistas. Os jovens marginalizados se identificavam fortemente com seu protagonista Joe Yabuki, rapaz pobre, nascido e crescido na favela, que lutava desesperadamente contra um sistema opressor.  Chiba criou um herói que foi abraçado tanto pelos estudantes universitários quanto pelos membros da classe operária.  Sim, essa identificação com personagens de mangá não foi inventada pela Geração Z, como se o mundo tivesse começado hoje. 

Entre suas muitas premiações, Tetsuya Chiba recebeu a Ordem da Cultura do Japão (Bunka Kunshou) em outubro de 2024. Ele foi o primeiro autor de mangás a ser condecorado com essa prestigiada honraria desde a sua criação em 1937.  E uma curiosidade: a obra de estreia de Chiba, Butoukai no Shouōjo (舞踏会の少女), de 1958, era um shoujo mangá. ☺️ Enfim, o artigo do Japan Times comunicando a morte de Tesuya Chiba está muito bom e eu decidi traduzi-lo e colocá-lo abaixo.   Ah, sim!  Ashita no Joe é publicado pela Newpop no Brasil.

O artista de mangá Tetsuya Chiba, criador de 'Ashita no Joe', morre aos 87 anos.

O artista de mangá Tetsuya Chiba, mais conhecido por sucessos como "Ashita no Joe" e condecorado com a Ordem da Cultura do Japão, faleceu aos 87 anos. | JIJI

Por Alyssa I. Smith, Redatora da Equipe

A editora Kodansha anunciou na terça-feira que o artista de mangá Tetsuya Chiba, mais conhecido por ser um dos criadores da popular série de boxe "Ashita no Joe", faleceu aos 87 anos na última quinta-feira em um hospital em Tóquio.

Com uma carreira que abrangeu sete décadas, Chiba foi uma figura fundamental na consolidação do mangá esportivo como um gênero importante. Em 2024, ele se tornou o primeiro artista de mangá a receber a Ordem da Cultura, uma das maiores honrarias culturais do país.

"Tetsuya Chiba criou inúmeras obras-primas ao longo de seus 70 anos de carreira, impulsionado por um forte amor e fé na arte do mangá”, diz o comunicado da Kodansha, que também destaca o Prêmio Chiba Tetsuya, criado há 46 anos para incentivar novos talentos. “Muitos aspirantes a mangakás deram seus primeiros passos rumo a carreiras profissionais com suas palavras em mente — e continuam atuantes na indústria até hoje. Suas imensas contribuições para o mundo do mangá são insubstituíveis.”

Nascido em Tóquio em 1939, Chiba passou a infância na Manchúria ocupada pelo Japão, atualmente no nordeste da China. Suas experiências durante a Segunda Guerra Mundial e a luta de sua família para sobreviver após o retorno ao Japão depois da rendição do país influenciaram grande parte de sua obra criativa.

Chiba estreou no mercado editorial de revistas em 1958 com “Butokai no Shojo”. Sua obra mais famosa, “Ashita no Joe” (conhecida como “Tomorrow's Joe” ou “Ashita no Joe: Fighting for Tomorrow” em inglês), começou a ser publicada na Weekly Shonen Magazine em 1968. A história acompanha Joe Yabuki, um órfão das favelas de Tóquio que começa como um azarão no mundo do boxe japonês e eventualmente se torna um lutador de renome mundial.

Uma representação impactante das ansiedades sociais e econômicas do Japão pós-guerra, a série tornou-se um fenômeno, vendendo mais de 20 milhões de exemplares. Quando o personagem rival de Joe, Toru Rikiishi, morreu na história, os fãs compareceram a um funeral real realizado em sua homenagem, demonstrando o impacto significativo da série.

Chiba também era conhecido por outras séries com temática esportiva, como “Notari Matsutaro”, que se passava no mundo do sumô, e “Ashita Tenki ni Naare”, sobre um jovem jogador de golfe. Em dezembro de 2015, Chiba começou a serializar “Hinemosu Notari Nikki”, um mangá baseado em suas experiências vivendo na Manchúria, seu retorno ao Japão e sua vida como artista. Em setembro deste ano, no entanto, a série foi suspensa devido a problemas de saúde.

Além da Ordem da Cultura, Chiba recebeu honrarias como a de Personalidade de Mérito Cultural em 2014 e a de membro da Academia de Artes do Japão em 2022. Ele também atuou como presidente da Associação de Cartunistas do Japão e lecionou na Universidade de Artes de Bunsei.

domingo, 2 de agosto de 2026

Crunchyroll disponibiliza YURI!!! on Ice no Youtube por tempo limitado para comemorar os dez anos da série

Para comemorar os 10 anos do anime YURI!!! on Ice (ユーリ!!! on ICE),  a série estará por tempo limitado disponível no Youtube por 30 dias (*o tempo já está correndo*), graças à gentileza do Crunchyroll.  Há várias opções de áudio e legendas, inclusive em português.  E é um arquivo só com TODOS os episódios compilados.  A JBOX.  

Se você frequenta o Shoujo Café sabe que a série dos patinadores é uma das minhas favoritas e que eu não perdoo o Estúdio MAPPA por não ter dado continuidade à série, que é uma produção original.  O vídeo está abaixo, mas ele só vai aparecer enquanto o anime estiver no ar.

sábado, 30 de maio de 2026

Studio Mappa quer lucrar nos dez anos de YURI!!! on Ice sem oferecer o que os fãs realmente desejam, um novo anime

YURI!!! on Ice (ユーリ!!! on ICE) estreou em outubro de 2016 e atraiu uma legião de fãs.  Dirigido e escrito por mulheres (Sayo Yamamoto e Mitsurou Kubo), ele apresentava de forma bem realista o dia a dia dos patinadores artísticos de elite nos oferecendo personagens ricas, multifacetadas e um romance que derreteu o coração de muita gente.  Até hoje, há quem se pergunte de aconteceu ou não um beijo no episódio #7.  Eu defendo que houve, e nos deram até um casamento simbólico entre os protagonistas Yuri Katsuki e Viktor Nikiforov.   YURI!!! on Ice só não é meu anime de esportes favorito, porque meu anime favorito de TODOS OS TEMPOS é a primeira temporada de Ace Wo Nerae! (エースをねらえ!).  Findo o seriado, o estúdio Mappa nos enrolou por anos com a  promessa de um filme animado focado em Viktor (*todo mundo queria uma segunda temporada...*) chamado Yuri!!! on ICE the Movie: Ice Adolescence com previsão de lançamento em 2019.  Teve até teaser, até que o projeto foi cancelado em 2024.

Com o décimo aniversário do anime, o estúdio Mappa liberou essa ilustração comemorativa e anunciou um BOX em Blu-ray da série.  E cito o Screen Rant: "O Box Set do 10º Aniversário, disponível para pré-venda e cadastro aqui, contará com a série de televisão completa, além de cenas extras e músicas relacionadas ao anime já lançadas anteriormente. A MAPPA ainda não divulgou a data de lançamento completa nem a lista completa de conteúdo, mas a arte comemorativa desenhada por Tadashi Hiramatsu será a ilustração oficial da capa da coleção."  E imagino que possa acontecer algum evento comemorativo, seja exposição ou ligado à  patinação com exibição especial da série ou de cenas selecionadas.  De qualquer forma, é só uma maneira do estúdio ganhar  dinheiro às custas dos fãs sem oferecer  nada realmente novo de YURI!!! on Ice.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

NHK exibe novo curta-metragem de anime paralímpico com personagens criados por autora de Kaichou wa Maid-sama

Segundo o ANN, a NHK anunciou o lançamento do mais recente episódio da série "Anime x Para: Quem é o Seu Herói?" ("Ani × Para: Anata no Hero wa Dare Desu ka") em 8 de janeiro, e o canal NHK E o exibiu na segunda-feira. O vigésimo episódio da série apresenta uma história sobre hóquei em trenó com personagens criados pela mangá-ka Hiro Fujiwara, de  Kaichou wa Maid-san (会長はメイド様!). O curta é estrelado por Nobuhiko Okamoto e Hiroki Yasumoto, com música tema de Tortoise Matsumoto.  As Olimpíadas de Inverno de 2026 serão na Itália, nas cidades de Milão e Cortina d'Ampezzo, de 6 a 22 de fevereiro.  O mais doido é que tem brasileiro com chance de medalha. 

Enfim, o projeto "Anime x Para: Quem é o Seu Herói?" teve início em 2017. A série animada visa aumentar o interesse pelo paradesporto antes dos Jogos Olímpicos de Verão e Inverno. Os curtas anteriores da série contaram com a colaboração de Captain Tsubasa (キャプテン翼) para futebol para cegos, Baby Steps (ベイビーステップ) para tênis em cadeira de rodas, o renomado artista de Ashita no Joe (あしたのジョー), Tetsuya Chiba, para rúgbi em cadeira de rodas, e Yowamushi Pedal (弱虫ペダル) para paraciclismo, entre outros. O curta de 2023 adaptou a série de novels Kimi to Kogu - Nagatoro Koukou Canoe-bu (君と漕ぐ - 長瀞高校カヌー部), da autora de Sound! Euphonium (響け! ユーフォニアム0, Ayano Takeda. Já em 2024, foi lançado um curta de anime sobre arco e flecha paralímpico baseado na série Ushio & Tora (うしおととら), de Kazuhiro Fujita, além de um curta de goalball baseado em Mairimashita! Iruma-kun (魔入りました! 入間くん), de Osamu Nishi.

quarta-feira, 14 de maio de 2025

“A Menina que Voa”: Teremos um filme sobre Daiane dos Santos com produção de Viola Davis

Teremos um filme live action contando a história de Daiane dos Santos e é mais do que merecido.  Daiane começou a praticar o esporte aos 11 anos, idade considerada tardia, quando seu potencial foi percebido por uma técnica da modalidade (Cleusa de Paula), enquanto brincava em um parquinho em Porto Alegre.  Em quatro ano, já era a melhor ginasta da América do Sul.  Em um esporte que, na época, ainda estava associado a meninas brancas, ela fez história.  Daiane foi a primeira ginasta brasileira, entre homens e mulheres, a conquistar uma medalha de ouro em uma edição do Campeonato Mundial, ela fez parte da primeira seleção brasileira completa a disputar uma edição olímpica, nos Jogos de Atenas, repetindo a presença nas edições seguintes, nas Olimpíadas de Pequim e Olimpíadas de Londres.  A ginasta possui ainda dois movimentos nomeados após ser a primeira ginasta no mundo a realizá-los: o duplo twist carpado, ou Dos Santos I, e a evolução deste primeiro: o duplo twist esticado, ou Dos Santos II.

Foi uma grata surpresa saber do filme, que se passará entre os anos 1990 e 2000, período que marcou a ascensão e o auge da carreira de Daiane, primeira campeã mundial da ginástica artística brasileira, título conquistado em Anaheim, em 2003, e a primeira ginasta negra do Brasil a conquistar uma medalha em um campeonato mundial.  Agora, as surpresas não pararam por aí, porque Viola Davis, a renomada atriz norte-americana, será uma das produtoras do projeto.  Fantástico, não?  Segundo informações do site Mundo Negro, a produção será uma parceria entre a Ashé Ventures, empresa de Davis e do produtor brasileiro Maurício Mota, e da Maria Farinha Filmes. O roteiro é assinado por Janaina Tokitaka (De Volta aos 15) e Flávia Vieira (Diálogos GNT – Isso É Coisa Preta), que trabalham no projeto desde o final de 2023.

Olha, espero realmente que esse projeto seja muito bem sucedido e que o filme abra um novo filão de produções sobre grandes atletas brasileiros.  Se a gente tem as cinebiografias, por qual motivo não podemos ter esse tipo de filme, também?  Começar por Daiane dos Santos, que abriu caminho para o sucesso do Brasil na ginástica artística e serviu de inspiração para tantas meninas é um detalhe que engrandece ainda mais o projeto.  Sabe que a notícia me despertou tantas lembranças que as lágrimas me vieram aos olhos.  Acompanhar a história de Daiane e como ela ajudou a mudar a ginástica artística brasileira é algo que me emociona muito.

domingo, 13 de abril de 2025

Hoje é Dia Internacional do Beijo! Atualização em relação à minha lista de 2020.

Eu tenho um post de 2020 listando cinco beijos ficcionais que são meus favoritos.  Enfim, vou colocar mais alguns que eu gosto bastante.  Alguns deles são recentes:

Primeiro beijo de Miyo e Kiyoka de Watashi no Shiawase na Kekkon (わたしの幸せな結婚).  No original, ele aconteceu no livro 3, logo depois de uma conversa entre Kiyoka e seu pai, na qual o patriarca abre os olhos do filho para o fato dele amar a noiva.  Ao ser beijada, um mero roçar de lábios, Miyo acredita que Kiyoka estava bêbado e nem se lembra como voltou para seu quarto, ela simplesmente acorda lá. No outro dia, Kiyoka a surpreende  sussurrando no seu ouvido que se lembrava.  Enfim, no anime foi diferente, mas foi uma sequência bonita, como quase tudo na série de TV é.  O primeiro beijo mais intenso entre os dois, não que a autora descreva de forma detalhada, e que, de repente, deve aparecer na continuação do anime, acontece depois do casamento dos dois, antes da noite de núpcias.

O primeiro beijo de Azure e Nina em Nina the Starry Bride (星降る王国のニナ/Hoshifuru Ookoku no Nina).  Azure beija Nina lá no final do volume #2 e foi muito emocionante.  Depois que ele confessa que ele não é o príncipe verdadeiro, mas um substituto, assim como Nina é a substituta da princesa Alisha, ele esquece o dever para com o reino de Fortuna e beija a moça.  Eles se beijaram outras vezes, mas a sequência toda é muito bem construída, dramática, enfim, carregada de sofrimento e amor.  Ainda que eu não acredite que os dois irão terminar juntos no mangá, o que não quer dizer, também, que ela vá ficar com Sett, acredito que nenhum beijo que possa ocorrer ainda na história irá superar esse.  Eu adoro o Azure, meu fraco por personagens trágicos e honrados, ainda que ele tenha mentido para a Nina e não foi pouco.

Emonnosuke e Tsunayoshi no volume #5 de Ōoku (大奥).   Depois de décadas de serviço, Emonnosuke finalmente se declara e confessa que tinha se esquivado de se deitar com a Shogun, porque não seria capaz de dividi-la com ninguém e, bem, ele teria de fazer isso.  A Shogun fica surpresa com a declaração e com o beijo apaixonado que se segue, mas retribui e eles têm sua primeira e última noite de amor, porque ele MORRE no outro dia.  E eu chorei horrores nesse volume e, mesmo que não tenha acontecido beijo, Tsunayoshi deseja morrer e Yoshiyasu, sua conselheira e amiga desde a infância, a mata, não sem antes declarar seu amor por ela, um sentimento que não era somente de amizade.  O volume #5 é um dos melhores de Ōoku.


Viktor e Yuri em  Yuri!!! on ICE (ユーリ!!!).  Adora essa série de 2016 e que nos deixou órfãos de uma continuação.  Lá no episódio 7 aconteceu um beijo, para mim, não há dúvida do que aconteceu nessa cena, quando Viktor corre e abraça Yuri depois de uma apresentação de patinação.  O anime é sobre isso, patinação e como Yuri supera suas limitações e traumas com o apoio de Viktor, um multicampeão aposentado e que se dispõe a ser seu treinador.  Recomendo, recomendo muito.

Com a morte de Richard Chamberlain, a gente acaba lembrando de Pássaros Feridos, então, fecho com o beijo na praia, quando Ralph, que já era bispo ou arcebispo na época, vai atrás de Meggie disposto a se entregar à paixão que sente por ela.  No livro, depois que a coisa escala para o sexo, ele pensa que finalmente entendeu o que é ser um homem, no sentido falho e mortal da coisa e ele era um mocinho virgem de quase cinquenta anos, pelos meus cálculos, a diferença de idade entre os dois era de 18 anos.  E ele só foi atrás da Meggie depois que Vittorio, seu superior hierárquico, que era interpretado espetacularmente pelo Christopher Plummer, o incentiva a enfrentar seus sentimentos.  Não tinha sido o primeiro beijo dos dois, houve outro, depois do incêndio de Drogheda, a fazenda que é um dos cenários principais da história, mas ele foge desesperado se sentindo um desgraçado pecador.  Pássaros Feridos é muito bom, mas é muito brega, também.  Recomendo muito, mas o livro é melhor, muito melhor.  

Bem, poderia pensar em outros beijos, claro, mas fico com esses por agora.  E vocês?  Qual beijo da ficção vocês consideram inesquecível?

domingo, 16 de março de 2025

Yuzuru Hanyu patina ao som da abertura do anime Medalist

Medalist (メダリスト) é um dos sucessos da temporada, um anime de patinação que eu deveria estar assistindo, mas ainda não parei para ver.  Enfim, o Comic Natalie trouxe um  post sobre uma ação de promoção da música de abertura da série, BOW AND ARROW, de Kenshi Yonezu. Yuzuru Hanyu é um dos maiores patinadores da história e o maior campeão da modalidade no Japão, além de ser lindinho.  o vídeo está abaixo.  Eu decidi subi-lo aqui, porque ele pode sumir do Youtube.



sábado, 24 de agosto de 2024

Kimini Todoke faz parceria com grife de produtos esportivos

O Comic Natalie noticiou que a autora de Kimi ni Todoke (君に届け), Shiina Karuho, fez parceria com uma marca de produtos esportivos norte-americana chamada Under Armour.   Ela desenhou quatro de suas personagens usando a linha de tênis UA HOVR Turbulence 2 RS.  Além disso, uma propaganda em formato mangá está sendo veiculada.  Os tênis estão à venda nas lojas físicas da rede ABC-MART e na internet.  

A ilustração e o filmete serão lançados não apenas nas lojas ABC-MART, mas também na Bessatsu Margaret (Shueisha) e no YouTube. Além disso, a partir de 22 de agosto, quem adquirir os tênis nas lojas ABC-MART receberá um caderno com uma ilustração inédita de Kimi ni Todoke na capa.  E, para quem não sabe, Kimi ni Todoke está em alta, porque a terceira temporada da série acabou de estrear na Netflix.

sexta-feira, 2 de agosto de 2024

As Olimpíadas em seu melhor e seu pior: como a irresponsabilidade e preconceito podem destruir carreiras e até colocar vidas em risco

Ontem, foi um dia muito bonito para o esporte brasileiro.  Começamos ainda de madrugada com a prata na marcha atlética  Caio Bonfim, Hugo Calderano avançando para a semifinal no ping-pong (*detesto chamar de tênis de mesa*) e mais uma medalha de prata na ginástica com a brilhante Rebeca  Andrade, que só foi superada pelo fenômeno Simone Biles, que está sendo louvada por ajudar a colocar em evidência a importância do apoio psicológico aos atletas e da importância da saúde mental.  Sim, é maravilhosa até por isso.

Pois é, mas a vitória do brasiliense Caio Bonfim, que descobri ontem que mora no mesmo bairro que eu (*me mudei na pandemia*), expôs a homofobia no esporte.  A marcha atlética, uma caminha acelerada com regras, faz com que o atleta ande rebolando.  “O cara que me perguntou se foi difícil essa prova e eu disse não. Difícil foi desde o dia que fui marchar na rua pela primeira vez e fui xingado. Eu falei: Eu estou pronto pai, quero ser marchador. Quando eu falei isso por meu pai foi o dia que decidi ser xingado sem problema”, disse o atleta para a Cazé TV.  Para o Jornal de Brasília, ele comentou "Caio Bonfim costumava ouvir xingamentos pelas ruas de Sobradinho: ‘Viado’. Seguia-se de nova agressão verbal: ‘Toma jeito de homem’. E mais outra: ‘Para de rebolar’.".  Bonfim, que não conta com patrocínio privado e depende dos incentivos públicos, foi treinado pelo pai e tem como exemplo a mãe, OITO VEZES campeã nacional da modalidade.  Meus olhos se enchem da lágrimas quando lembro do atleta correndo e gritando "Ganhamos a medalha, mãe!"  

A homofobia pode afastar um menino do esporte, seja a marcha atlética, a ginástica artística e outras modalidades tidas como não-viris ou "coisa de mulher".   Quando Diego Hypolito se assumiu, de passagem ouvi o comentário de uma mãe na academia, de que tinha medo que o pai quisesse tirar o filho da ginástica, porque o filho criança queria ser ginasta e tinha atleta como seu ídolo.  Até hoje, nado sincronizado e ginástica rítmica excluem os homens, nem sempre foi assim. Da mesma forma, as mulheres foram excluídas de vários esportes por muito tempo, em especial, as lutas e chegamos ao ponto mais horrendo do dia.

Eu estava assistindo à ginástica artística feminina e abri o Twitter.  "XX XY" nos trending topics.  Imaginei que alguma grande m**** estava mobilizando a rede e, sim, era isso.  A argelina Imane Khelif venceu a italiana Angela Carini.  A italiana se machucou, talvez tenha quebrado o nariz e desistiu com 46 segundos, um perfil bolsonarista conhecido por disseminar mentiras e virulência passou a ser utilizado pela imprensa série como fonte.  A decisão de Carini precisa ser respeitada, aliás, Antonia, jogadora da nossa seleção de futebol, se manteve em campo sentindo muitas dores, ninguém sabia, mas ela sofrera uma fratura e só saiu quando viu que era impossível continuar, a arbitragem estabeleceu mais de 15 minutos de tempo extra. O Brasil estava com dez jogadoras, sem ela ficaria com 9 contra a Espanha, atual campeã mundial. Honro tanto uma quanto outra.  São escolhas.

O que poderia passar batido, se tornou o assunto sórdido da semana.  Li inclusive a frase "Vejam como um homem acabou com o sonho olímpico de uma mulher".  Fui me informar e, claro, é como mergulhar no esgoto.  Imane Khelif  nasceu em uma família pobre.  Começou jogando futebol, mas, em seu país, o esporte não é bem visto para mulheres e ela era agredida pelos garotos do time.  Como tinha grande capacidade de se esquivar dos golpes, alguém lhe sugeriu o boxe.  Contra a vontade do pai, ela fez inúmeros esforços e se tornou boxeadora de ponta.  Ela terminou representando seu país, a Argélia, onde ser homossexual ou trans é crime.

Imane Khelif foi identificada como mulher desde o nascimento, logo, sua genitália era inegavelmente feminina, se não estiver errada, ela tem útero, também.  Foi criada como menina, logo, é uma mulher cis.  Mas em um exame genético exigido pelo mundial de boxe de 2023, descobriu-se que ela tem um cromossomo Y.  Ela foi impedida de competir.  O campeonato é organizado pela Associação Internacional de Boxe (IBA), que não segue as mesmas regras do Comitê Olímpico, o que quase resultou na exclusão do boxe das olimpíadas.  O IBA não participa da organização da competição.

Claro, você aprendeu na escola que ou se é XX ou se é XY, é a normalidade na nossa espécie.  Se estava em uma boa instituição de ensino básico, deve ter aprendido que existem pelo menos duas outras possibilidades Síndrome de Klinefelter (XXY) e Síndrome de Turner (X0) percebidas como anomalias cromossômicas.  No primeiro caso, a pessoa é identificada como homem, na segunda, como mulher.  Conheci um Turner que era identificado como homem, foi socializado como homem e se via como homem.  Isso, claro, dava um nó na cabeça de muita gente.  De qualquer forma, o fato é que o que aprendemos na escola é uma simplificação de questões mais complexas e vou citar um exemplo da minha área.

Sou medievalista por formação.  Feudalismo, para alguns historiadores, é uma criação meramente instrumental, se existiu de verdade, com todos os detalhes que aprendemos no ensino básico, só na França e olhe lá!  Dito isso, havia várias formas de servidão.  Havia servos com grande autonomia, havia outros que eram praticamente escravizados.  Podemos falar de espectro da servidão?  Sim, seria um bom termo, mas no vestibular o que cai é um modelo simplificado, é isso que se ensina na escola.  

Ninguém sai do colégio especialista em nada, a gente sai minimamente  culto, capaz de navegar na sociedade e compreender razoavelmente o mundo ao nosso redor, especialistas são feitos nas universidades.  Ás vezes, é necessário ir muito além da graduação para alcançar o grau de especialização que muita gente acredita ter por ter lido alguma coisa nas redes sociais, ou assistido um vídeo no Tik Tok.  Fora, claro, que a ciência, seja ela qual for, não é estática e, também, não é neutra.  Voltemos ao caso de Imane Khelif.

A atleta não é um homem, tampouco é uma mulher trans.  Ela é uma mulher cis com um Distúrbios de Diferenciação Sexual (DDS).  Há mulheres XY, elas podem, ou não, ter níveis maiores de testosterona, mas o fato é que outras características sexuais masculinas não são tão pronunciadas.  Meu marido tem uma amiga de longos anos de internet, uma italiana, que se enquadra nos padrões ideais de feminilidade, ela tem aquilo que chamamos de passabilidade, mas, um dia, ela lhe explicou que, na adolescência, como ela não menstruava, os pais lhe explicaram que ela nascera sem útero.  Ela tem vagina, ela tem seios, mas ela é XY, ou algo perto disso.    

Esses casos caem naquilo que chamamos de intersexo, essas pessoas existem, elas estão no esporte, elas estão na sua escola, elas, às vezes, não sabem que se enquadram nessa categoria.  Imane Khelif, lá na sua vila do interior da Argélia, era uma menina, sempre foi uma menina, mais importante, ela não é uma pessoa trans.  O argumento de que ela é um homem e que nunca uma mulher poderia derrotá-la não se sustenta.  Ela já foi derrotada por nove mulheres, inclusive, na Olimpíada passada.  E não adianta desencavarem falas como a da mexicana Brianda Tamara Sandoval de que lutar com Khelif é pior do que lutar com homens, neste caso, sparrings, porque a boxeadora resistiu por três rounds inteiros antes de ser derrotada.  É como em um vídeo antigo do Põe na Roda, se uma mulher trans vence, ela roubou, afinal, elas são homens e as mulheres são umas coitadas, agora, se um homem trans vence, os homens cis deixaram.  Claro, Khelif não é trans, mas era o que estavam querendo fazer com que o grande público acreditasse.

Considero que isso está no espectro da normalidade, perder faz parte, encontrar um/a adversário/a duro está dentro das expectativas de qualquer esporte, usar de argumentos que podem sugerir alguma forma de preconceito é um ato de covardia.  Aliás, acho muito perigoso que os transfóbicos de todas as cores e tendências queiram reafirmar a cada momento essa inferioridade física absoluta das mulheres.  É como se qualquer homem pudesse derrotar qualquer mulher em qualquer coisa que exija força física, velocidade e agilidade.  Que os reacionários defendam isso, não me surpreende, a minha preocupação é com os ditos progressistas e alguns grupos feministas.

Muito bem, a italiana correu para explicar que não desistiu por estar boicotando  Imane Khelif, não foi protesto, ela estava realmente machucada, seu técnico inclusive pontuou que ela estava tomando antibióticos e com dor de dente.  A palavra da atleta, uma mulher, não vale, o que conta é a instrumentalização do caso contra mulheres que não se enquadrem em um determinado perfil de feminilidade. Angela Carini, mesmo sendo boxeadora, se enquadra naquilo que a maioria chamaria de mulher atraente, Khelif, não.  Assim como tantas outras atletas.  

Aliás, um dos passatempos favoritos de gente que odeia pessoas trans e qualquer mulher cis que não lhes apeteça é analisarem celebridades, acusando-as, porque é acusação, de serem mulheres trans.  Uma das grandes vítimas dessas mentiras é Michelle Obama, sim, a esposa do ex-presidente dos Estados Unidos, mãe de duas meninas.  Fotos e vídeos manipulados dela circulam aos montes, nos fóruns da extrema-direita e em seus canais do Youtube essa discussão ferve.  O fato é que, neste caso, se mistura racismo e machismo com transfobia.

A graça nessa discussão sobre Khelif, se é que existe alguma, foi ver um famoso deputado transfóbico escrevendo que não é por uma pessoa ter útero e vagina que ela é mulher.  Bom saber, não é mesmo?  Porque o argumento anatômico é um dos pilares da transfobia.  No meio dessa nojeira toda, que envolveu políticos de extrema-direita (*inclusive a premiêr italiana*), celebridades (JK Rowling), magnatas (Elon Musk) e gente comum, levantaram muito bem o caso de Michael Phelps.  O maior nadador de todos os tempos ganhou na loteria da genética, a maioria perde, vejam bem, e tinha um corpo perfeito para o esporte com adaptações que o distanciavam da média dos seres-humanos comuns, além de produzir 50% menos de ácido lático.  Ninguém nunca tentou excluí-lo do esporte, no caso dele, aliás, suas especificidades garantiram medalhas, sim, simplesmente, era sorte dele.  

Uma mulher cis, mesmo XX, que tenha níveis elevados de testosterona por motivos naturais (*mas anormais*) corre o risco de ser excluída do esporte, ou ter que se submeter a tratamentos que podem lhe fazer mal e acabar com sua carreira, caso da sul-africana Caster Semenya. A atleta declarou "(...) ter tomado a medicação por um período, mas parou, dizendo que isso "torturava" seu corpo. Ela contou ter ficado nauseada, deprimida e mentalmente exausta, além de ter dificuldades para dormir e experimentar ataques de pânico."  Há cientistas consideram que colocar todo o peso em um único fator, a testosterona, é algo equivocado, mas não há um consenso sobre o tema, de qualquer forma, uma discussão legítima, isto é, a questão das atletas intersexo ou com altos níveis do tal hormônio masculino, é instrumentalizada e tem causado muito sofrimento.  Trata-se de uma espécie de dopping reverso, por assim dizer.  

De qualquer forma, ser mulher é sempre um problema, aliás, ser atleta de ponta pode lhe render até acusação de abandono parental, vide o caso Flávia Maria de Lima, dos 800 m.  O ex usa suas viagens para as competições contra ela.  Já viu isso acontecer com algum homem?  Pois é... Agora, uma das reclamações de muitas feministas e outras mulheres do esporte desde o início dos jogos foi a presença do jogador de vôlei holandês  Van de Velde, condenado por estuprar uma menina de 12 anos na competição.  Ele a conheceu pela internet, sabia da sua idade e viajou para a Inglaterra para encontrá-la.  

O juiz britânico vaticinou que era o fim da carreira dele.  Enganou-se, a carreira dele floresce e houve até uma comentarista britânica que disse que ele não estupro uma criança, ele viveu um romance com ela.  Minha posição pessoal é a seguinte, se ele pagou sua divida com a Justiça (*ao ser transferido para a Holanda o crime foi recategorizado e a pena diminuída*), se ele nunca mais apresentou em sua vida nada que o desabonasse, vida e carreira que segue.  Agora, procurem nas fileiras reacionárias, falsamente chamadas de conservadoras, um "a" sobre isso.

Concluindo essa parte, porque ainda tenho dois pontos a comentar, Angela Carini se desculpou publicamente por não ter cumprimentado Khelif, "Não era algo que eu pretendia fazer. Quero me desculpar com ela e com todos os outros. Fiquei brava porque minhas Olimpíadas tinham virado fumaça - disse a italiana, acrescentando que, se encontrasse Khelif novamente, a "abraçaria".".  Não foi o/a único/a atleta que se comportou de maneira pouco esportiva ou infantil nessa Olimpíada.  Aliás, não me lembro de Olimpíada com tantos incidentes de descontrole emocional.  

Ainda assim, certamente, há quem esteja ruminando que a atleta está se comportando dessa forma para não ser linchada na internet.  Na verdade, quem sofreu linchamento foi Khelif, apontada como homem cis ou mulher trans sem ser.  Como foi muito bem destacado no vídeo do Meteoro sobre o assunto, a extrema-direita mundial e os tagarelas de internet não tem ideia do que é ser LGBT+ na Argélia e dos riscos que a atleta pode passar a sofrer em seu país, ou mesmo fora dele.  Aliás, nem Caio Bonfim, nem Imane Khelif, são ou se veem como membros da sigla LGBTQIAPN+, mas isso não os impede de sofrerem homofobia ou transfobia.  Para quem não sabe, pessoas hetero e/ou cis podem sofrer homotransfobia, desde que não tenham a aparência certa, não pratiquem o esporte certo, ou demonstrem alguma forma de afeto que ofenda os juízes da vida alheia.  Podem terminar mortos. E, para quem quiser saber um pouco mais dessa discussão sobre DDS, recomendo, também, um vídeo já antigo do canal Nunca Vi 1 Cientista.

E, hoje, a judoca brasileira Beatriz Souza, de 26 anos, em sua primeira Olimpíada, conquistou a medalha de ouro para o Brasil passando pela primeira do mundo, uma francesa que tinha o ginásio com ela, e a segunda do mundo.  Sim, saiu e foi o Judô que quase nunca sai de mãos vazias.  Mais lindo ainda, foi a terceira medalha de Sarah Menezes, que já foi medalhista de ouro na modalidade e, agora, é treinadora da seleção feminina de Judô. Larissa Pimenta já tinha conseguido o bronze. Sarah Menezes é a única brasileira a vencer como atleta e como treinadora.

Uma das coisas que eu gosto no Judô, que eu não pude praticar porque no único lugar onde havia aula na minha cidade não aceitavam meninas, é que ele é para todo mundo, corpos diversos sempre estiveram presentes na modalidade.  Beatriz, em suas falas, mostra que tem muita consciência desse fato.  Mulher negra, gorda, ela se coloca com orgulho e volta para casa, para sua família (marido, pai, que a colocou no esporte, mãe) com um ouro olímpico.  Fiquei muito feliz por ela.  Muito mesmo.  Minha menina faz Judô, ela não mostra amor pela modalidade, provavelmente, se nada mudar, ela deve abandonar as aulas em breve.  Ainda tenho alguma esperança, de repente, a minha emoção consegue tocá-la.

E, sim, ontem ainda tivemos o atirador turco, Yusuf Dikçc, que foi uma das coisas mais legais das Olimpíadas.  Com seu jeito despojado e cool, ele levou a medalha de prata para seu país e rendeu muitos memes divertidos.  Gente já está sonhando com um mangá, ou anime.  Como alguns tinham apostado, ele tinha uma carreira militar (*matador de aluguel, era a outra possibilidade*), mas ele parece ser um sujeito simpático (*além de charmoso*), porque gosta de gatinhos.

terça-feira, 30 de julho de 2024

Ginástica Feminina consegue medalha histórica e é preciso deixar esse momento registrado aqui!

Não assisti a final da ginástica artística por equipes.  Estava tão nervosa que acreditei que não iria suportar.  Olhei o Twitter e os trend topics falavam em injustiças da arbitragem.  Normal, normalíssimo, para que os brasileiros cheguem ao topo em determinados esportes em que a avaliação pode ser um tanto subjetiva (*ginástica artística e rítmica, nado sincronizado etc.*) é preciso trabalhar dobrado. O erro conta mais do que o cometido por atletas de países com tradição nesse tipo de esporte.

 Enfim, por essas e outras, eu não tive coragem de olhar até que veio a notícia da medalha.  Bronze que vale ouro, porque acompanho faz tempo as lutas da ginástica brasileira.   Acredito que foi em Seul (1988), eu era criança, e me lembro de uma reportagem com Luisa Parente, única representante do Brasil, caminhando com sua mochila rumo ao estádio.  Sozinha, parecia não ter nem técnico.  

Faz algum tempo que temos uma equipe de competentes ginastas.  Sim, EQUIPE.  Jovens que podem contar umas com as outras, que tem técnicos, algumas conhecidas do grande público, e inspirando novas gerações a ingressarem no esporte.  Não somente meninas brancas parecidas com as soviéticas, romenas e norte-americanas da minha infância e adolescência, mas garotas com todas as cores do Brasil, algumas delas vindas das periferias do país.

Fui buscar o que publiquei sobre a ginástica, aqui, no blog e achei vários posts.  Lá de 2008, um que falava da dissolução do centro de treinamento da seleção de Curitiba por pressão dos clubes, afinal, não houve medalhas em Pequim.   Outro, de 2009, falava de quando o Flamengo cortou verba da ginástica deixando Jade Barbosa e Diego Hypólito sem salário.  Em 2012, comentando a crueldade da torcida brasileira com os atletas que não conseguiram medalha em Atenas, dentre eles, Daiane dos Santos e Diego Hypólito.  Em 2016, fiz um post sobre a prata de Diego Hypólito e lembro de não ter tido coragem de assistir, estava nervosa, também.  E, em 2021, dois posts sobre Rebeca Andrade, afinal, ela ganhou prata e ouro.  Sim, eu acompanho a ginástica e comento por aqui.  Até deixei uns dois posts de fora do parágrafo, porque esses resumem bem a história da modalidade aqui.

Torcia pelas nossas atletas, que, como alguém pontuou, representavam três gerações Jade Barbosa era iniciante quando Daiane e Daniele Hypólito estavam no auge e é a ginasta mais velha das Olimpíadas; Rebeca Andrade, talvez a segunda melhor ginasta do mundo hoje (*Simone Biles não está em discussão*), Lorrane Oliveira e Flávia Saraiva estão no auge, enquanto Júlia Soares, que já tem um movimento da ginástica registrado com seu nome, está começando.  Fosse na época em que eu era jovem, aos 18 anos, a chamariam de velha.  Muito bom terem colocado limite na idade de participação e estendido a carreira das ginastas mulheres, que dependeu, também, de mudanças nas formas de preparação das atletas.  Algo importante, pelo menos no caso do Brasil, parece ter sido o suporte psicológico dado às atletas.  

O que definiu o bronze foi o salto de Rebeca.  Já havia gente que não acreditava na virada, mas ela veio.  E eu não chorei, mas fiquei com a voz embargada ao recontar para a minha filha o quanto foi difícil a caminhada até aqui.  Ela parece ter entendido, mas não sentido, ela não se liga muito em esportes, talvez, no futuro, ela consiga compreender a grandeza daquilo que essas meninas fizeram.  Que a Rebeca já tinha feito, que Daiane tinha desbravado e Daniele Hypólito tinha sofrido para alcançar, da coragem solitária de Luísa Parente e tantos outros e outras.  Venceram em um esporte subfinanciado, contra (pre)conceitos que foram derrubados.  

Hoje, a melhor ginasta do mundo é uma mulher negra.  Nossa equipe é majoritariamente negra.  Vocês, jovens, talvez não consigam imaginar o quanto isso é incrível.  Agora, basta que o governo deixe de investir nas bolsas de patrocínio, que poderiam ser maiores, mas para um atleta de ponta são boas, que os clubes deixem de se interessar e, rapidamente, podemos retroceder uma década.  Estou muito feliz por nossas atletas, orgulhosa delas, e ainda teremos mais, porque a disputa individual ainda está por vir.  Torçamos por Rebeca e por suas companheiras, porque será duríssima a final por aparelhos.

quinta-feira, 18 de julho de 2024

Vamos falar de coisa muito séria: Canto racista da Seleção Argentina merece punição.

Este é um dos posts políticos que não faço faz tempo.  Se não quiser continuar, basta pular.  Há muitos outros posts no Shoujo Café que podem lhe interessar.  Sigamos!

A Copa América terminou no domingo, 14 de julho, data da Revolução Francesa.  A Argentina venceu a Colômbia.  Até ontem, sabia somente da confusão e do quebra-quebra que atrasou e muito a final.  Nada que quem acompanhe futebol não tenha visto acontecer em algum momento, mas nos Estados Unidos, nunca tinah rolado uma selvageria assim no futebol, eu imagino.  OK.

Ontem, porém, fiquei sabendo que o o subsecretário Julio Garro afirmou em entrevista que canto colocava país em 'situação ruim' e pediu que a seleção se retratasse.  O resultado foi a demissão de Garro com a seguinte mensagem partida do gabinete do presidente Javier Milei: "A Presidência informa que nenhum governo pode dizer o que comentar, o que pensar ou o que fazer à Seleção Argentina, Campeã Mundial e Bicampeã Americana, ou a qualquer outro cidadão. Por isso, Julio Garro deixa de ser Subsecretário de Esportes da Nação.".  Mas o que havia na música que foi puxada e divulgada pelo jogador Enzo Fernández, contratado pelo Chelsea na Inglaterra?

"Eles jogam pela França, mas são de Angola. Que bom que eles vão correr, se relacionam com transexuais. A mãe deles é nigeriana, o pai deles cambojano, mas no passaporte: francês"

Vocês conseguem entender o quanto esses versinhos são horrendos, repulsivos, absurdos?  Eu fiquei enojada mesmo, como é possível gravar isso e colocar com orgulho na internet? Racismo, aliás, é coisa antiga no futebol argentino, os brasileiros volta e meia são chamados de monos (*macacos*), mas deveria ter ficado no passado. Segundo o UOL, ela tinha sido cantada por torcedores argentinos na copa do Catar em 2022 (*citando Mbappé, inclusive*), a letra está até amenizada.   Mas qual o motivo disso tudo?  Não foi a Colômbia o adversário derrotado?  

Muito bem, para você que mora em outro planeta, assim, tipo meu marido que não liga para futebol e evita o noticiário político por motivos de saúde, a extrema-direita na França, cuja bandeira mais visível é o discurso racista contra imigrantes e seus filhos e filhas, sofreu um revés espetacular, porque tinha vencido o primeiro turno, nas eleições legislativas francesas.  Para a extrema-direita local, a seleção de futebol do país não representa a França adequadamente, porque é majoritariamente negra e formada por filhos de imigrantes.  Aliás, o líder maior da extrema-direita francesa, Jordan Bardella, também é, porque é de ascendência italiana e argelina, mas quem se importa, não é mesmo?  Ele tem a cor de pele adequada e a religião certa.

Durante o segundo turno, vários jogadores da seleção francesa tiveram um papel importantíssimo na campanha contra a extrema-direita, em especial, Kylian Mbappé, estrela do time.  Ele fez campanha contra a extrema-direita, assim como nosso craque Raí, que mora na França e vai carregar a tocha olímpica.  Vou colocar o vídeo dele no final do post, porque raramente via alguém sintetizar tão bem os ideais da Revolução Francesa e do Iluminismo.  

Muito bem, Mbappé já foi apontado como tendo namorado uma mulher trans.  A França perdeu a final da Euro para a Espanha, cuja principal estrela é um adolescente filho de imigrantes, mas a extrema-direita mundial se sentiu representada, porque, sim, os neofascistas estão em um eixo internacional, na vitória espanhola.  Para quem não sabe, algo que incomoda muito os racistas é o fato de na França, nos Estados Unidos, no Brasil, também, enfim, funcionar o jus soli (lei do solo), quem nasce no país é seu cidadão por lei e direito.  Fora isso, países colonialistas, caso da França, estão ligados de alguma forma as suas ex-colônias, no caso da França, de forma muito efetiva até hoje.  A imigração tem a ver com esses laços e uma dívida histórica, por assim dizer. 

Acredito que o tal Enzo Fernández se sentiu estimulado a fazer a gracinha, afinal, ainda era a data da Queda da Bastilha, e o resto da seleção acompanhou e Messi, grande estrela do time, está em silêncio.  Foi horrendo.  O subsecretário se pronunciou e foi punido.  Por fim, a vice-presidenta, Victoria Villarruel, que é ligada à grupos que defendem a ditadura militar argentina, saiu defendendo a seleção de seu país, seu racismo e sua transfobia e cito o UOL, mas o artigo traz o post da autoridade: 

"Victoria Villarruel se manifestou no X (antigo Twitter), nesta quarta-feira (17). A vice-presidente afirmou que "nenhum país colonialista vai intimidar" a Argentina.  Ela também chamou os franceses de "hipócritas" e pediu que as pessoas "parem de fingir indignação".  Por fim, Victoria afirmou que "banca" Enzo Fernández, jogador que gravou o momento do cântico racista e transfóbico e agradeceu a Messi."

Enfim, a vice argentina instrumentalizou o imperialismo da forma mais livre possível para justificar o direito ao racismo.  O próprio presidente argentino postou em sua conta no Twitter que criticava a cobrança de "desculpas a alguns europeus colonizadores por uma música que também diz a verdade".  Absurdo, enfim.  O Chelsea, time de Fernández se pronunciou em nota oficial, após o pedido de desculpas do jogador:  

"O Chelsea Football Club acredita que todas os comportamentos discriminatórios são completamente inaceitáveis. Nós nos orgulhamos de ser um clube diverso e inclusivo, em que pessoas de todas as culturas, comunidades e identidades se sentem bem-vindas. Tomamos conhecimento e valorizamos o pedido público de desculpas do nosso jogador e usaremos essa oportunidade para educar. O clube instaurou um processo disciplinar interno.", comunicou a equipe inglesa.

Pode dar ruim para o engraçadinho, não é?  O salário de Enzo Fernández não é pago por Milei.  E como foi o pedido de desculpas de Fernández e cito da BBC:  

""Quero pedir desculpas sinceras por um vídeo postado no meu canal do Instagram durante as comemorações da seleção. A música inclui uma linguagem muito ofensiva e não há absolutamente nenhuma justificativa para essas palavras", disse o atleta"  "Oponho-me à discriminação em todas as suas formas e peço desculpas pela euforia das comemorações na Copa América. O vídeo, aquele momento e essas palavras não refletem as minhas crenças ou o meu caráter”, acrescentou."

Se arrepende NADA, só vai colocar a mão na consciência se pesar no bolso.  Mas bobo ele não é, porque, na Inglaterra, onde ele trabalha, a coisa não pegou nada bem.  Como teremos Olimpíadas na França, o técnico da seleção argentina veio à público tentar colocar panos quentes, mas piorou as coisas, eu diria:

"Se existe algo que nós argentinos não somos é racista, longe disso. Acho que tudo foi tirado de contexto", disse o ex-Barcelona, à agência AFP." " Eu conheço o Enzo, é um bom garoto e não tem nenhum tipo de problema com isso. O que acontece é que muitas vezes, dentro de uma comemoração, pegam uma parte de um vídeo e tiram de contexto – insistiu Mascherano."  "Muitas vezes é preciso entender a cultura de cada país e muitas vezes o que entendemos como uma brincadeira pode ser mal interpretado em outro lugar", disse o treinador."

Argentinos não são racistas, mas é preciso compreender a cultura do país.  Aham... Daí, vem e diz que a coisa foi tirada de contexto e isso quando o próprio autor da façanha, Enzo Fernández, já tinha se desculpado.  O fato é que a Federação Francesa de Futebol se pronunciou com dureza, não esperava menos, e pediu punição à FIFA, alguns jogadores também se posicionaram, e a FIFA abriu investigação.  E, claro, podemos ter violência nas Olimpíadas.

Depois desse posicionamento do governo argentino, do silêncio (*se alguém se posicionou, me passem o link, por favor!*) do Messi e outros membros da seleção, e a tentativa de naturalizar como "parte da cultura do pais" essa nojeira, a FIFA e o Comitê Olímpico fariam bem em punir a Argentina.  Multa e uma bela suspensão de eventos internacionais.  E espero que o tal Enzo Fernández passe um aperto na Inglaterra, que ande certinho daí para frente, ou volte para casa, onde, ao que parece, passou a ser admissível ser aberta e orgulhosamente racista e escroto por conta de um governo de extrema-direita.  E, como disse que faria, abaixo está o vídeo do Raí.  Isso, sim, faz a gente se orgulhar: