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quarta-feira, 23 de julho de 2025

Os Irmãos Grimm Eram Sombrios por um Motivo: Adorei traduzir esse artigo

Quando me deparei com esse artigo da The New Yorker sobre os Irmãos Grimm, Jacob (1785-1863) e Wilhelm (1786-1859), imaginei que seria outra coisa, que falaria dos contos de fada e suas versões, mas não era nada disso, trata-se de um belíssimo texto sobre como os Grimm trouxeram suas experiências de vida para suas versões dos contos e a ligação deles com o processo de unificação da Alemanha, que eles não viram acontecer, morreram antes.  E o artigo foca no intenso amor que unia os irmãos, também.  Um texto tão bonito, tão bem escrito, mesmo que eu discorde aqui e ali como historiadora, e coloquei notas por isso, que eu não poderia parar de traduzir.  

É mais um texto de história, que chega a citar Perry Anderson, um gigante da historiografia britânica, que eu tinha que terminar e colocar aqui.  Não é bem a cara do Shoujo Café, mas é um texto de História e Literatura que merece ser lido e está aqui para isso. Para quem quiser ir ao original, eis o link.  Ele se chama "The Brothers Grimm Were Dark for a Reason".  Espero que vocês gostem, como eu gostei.  E, como sempre tento fazer, mantive a estrutura original do artigo.  O que coloquei a mais foram os links para o Amazon BR, estava para o norte-americano, e o link para o Instagram dos artistas da ilustração, que é a única do artigo.


Os Irmãos Grimm Eram Sombrios por um Motivo

Sua versão de "Cinderela" ou "Rapunzel" podia ser perturbadora. Mas transformar a Alemanha em uma nação unificada, acreditavam eles, significava desenterrar sua cultura autêntica.

Por Jennifer Wilson (4 de novembro de 2024)

A infância de Jacob e Wilhelm, da riqueza à miséria, teve seus aspectos de conto de fadas. Ilustração de Golden Cosmos

Era uma vez uma família chamada Grimm que levava uma vida que não era nada disso. [1] No arborizado estado alemão de Hessen, Philipp, um escrivão municipal, vivia com sua esposa, Dorothea, e seus filhos em uma pitoresca casa de campo. Seu exterior era de um convidativo vermelho-claro, e suas portas, de um tom bege, como se fossem feitas de pão de mel. A sala de estar era forrada com papéis de parede com imagens de caçadores, em cujos rostos os dois filhos mais velhos, Jacob e Wilhelm (nascidos em 1785 e 1786, respectivamente), desenhavam barbas descaradamente a lápis. Logo, Philipp foi promovido a magistrado de uma cidade próxima, e os Grimm se mudaram para uma casa senhorial com empregadas domésticas, uma cozinheira e um cocheiro. Todo Natal, a família decorava uma árvore com maçãs, como era o costume alemão. No verão, as crianças se aventuravam pelos bosques ao redor para coletar borboletas e flores, confiantes de que conseguiriam encontrar o caminho de volta para casa.

Então, um dia, uma nuvem escura surgiu, como se convocada por uma bruxa enciumada pelo idílio doméstico. Em 1796, Philipp, com apenas 44 anos, sucumbiu a uma pneumonia. Jacob mais tarde se lembrou de ter visto o corpo do pai sendo medido para um caixão. Dorothea e os filhos foram obrigados a sair. Sem a renda de Philipp, foram forçados por um tempo a se abrigar em um asilo ao lado — amaldiçoados com a vista de sua antiga casa e do pátio onde brincavam alegremente, até o que viria depois.

Jacob e Wilhelm, os Irmãos Grimm, vivenciaram o tipo de reviravolta brusca, característica do gênero que se tornou sinônimo de seu nome: o conto de fadas. Um príncipe transformado em sapo; uma filha amada reduzida a copeira. Enquanto a versão francesa de "Cinderela", de Charles Perrault, começa com Cinderela já em frangalhos, trabalhando arduamente para a madrasta, a versão dos Grimm, "Aschenputtel", começa com a mãe da heroína em seu leito de morte. Ann Schmiesing, autora de "Os Irmãos Grimm: Uma Biografia" (Yale), observa que a mudança transforma uma "história de 'da miséria à riqueza' em 'da riqueza à miséria' — uma trajetória, aliás, que se assemelha à experiência dos Grimm". A versão dos Grimm ataca o conto francês de outras maneiras. Quando o príncipe aparece com o sapatinho fatídico, as meias-irmãs de Aschenputtel cortam seus calcanhares para que seus pés se encaixem. Cada uma delas chega aos portões do castelo antes que o príncipe perceba sangue jorrando por toda parte.

O teor sombrio dos contos de fadas dos irmãos Grimm é quase uma piada neste ponto, e seu sobrenome, que significa "irado" em alemão, não ajudou. Mesmo em vida, os irmãos foram submetidos ao trocadilho obrigatório. Jacob, um filólogo talentoso, agradeceu a um amigo por resistir à vontade de fazer a piada óbvia depois que ele publicou seu livro "Gramática Alemã": "Eu aprecio muito que você não tenha repreendido minha Gramática como sendo de Grimm". Na verdade, há uma severidade quase cômica em seus contos, entre eles "Como Algumas Crianças Brincavam de Matar", [2] em que dois irmãos, tendo acabado de ver seu pai abater um porco, tentam o ato um com o outro. Em "Rosa Silvestre", a versão dos irmãos Grimm de "A Bela Adormecida", pretendentes que tentam alcançar a donzela adormecida ficam presos na cerca viva de espinhos que cerca seu castelo, morrendo "mortes miseráveis".

Essas histórias equivalem à realização de um desejo para aqueles que querem acreditar em estereótipos sobre a austeridade alemã, o que pode ser uma medida do sucesso dos Grimm. Seu objetivo ao coletar esse folclore — além dos contos de fadas, os Grimm publicaram lendas, canções e mitos — era criar uma identidade nacional coesa para os falantes de alemão. É por isso que os irmãos, especialmente Jacob, também escreveram livros sobre filologia alemã e deram início ao que se pretendia ser o dicionário mais abrangente da língua alemã, o Deutsches Wörterbuch. (Trabalhando arduamente até os últimos anos de vida, eles chegaram a frucht, fruta.)

Os Grimm eram germanistas antes mesmo de existir a Alemanha. Quando nasceram, a "Alemanha" continha o que o historiador Perry Anderson descreve como um "labirinto de principados anões", e eles morreram pouco antes da unificação do país, em 1871. Nesse meio tempo, os contornos de sua terra natal mudaram repetidamente, com a invasão napoleônica de Hessen, em 1806, o Congresso de Viena e as redivisões pós-napoleônicas da Europa e, eventualmente, a ascensão de Otto von Bismarck. Em meio a essa desordem geográfica, os Grimm acreditavam que a língua e as tradições culturais compartilhadas poderiam ser o fio condutor de um povo, o seu povo. Tudo o que era necessário era um sujeito, ou dois, que viesse junto com uma roca.

Embora a posteridade os tenha unido, Jacob e Wilhelm eram dois homens bastante díspares. Wilhelm era o bon vivant, enquanto Jacob era o introvertido. O mais velho era o estudioso mais talentoso. A pesquisa de Jacob sobre fonética estabeleceu o que ainda hoje é conhecido em linguística como a Lei de Grimm. (Ele havia notado padrões pelos quais consoantes de outras línguas indo-europeias se alteravam à medida que chegavam ao alemão.) Quando, com cinquenta e poucos anos, os irmãos aceitaram cargos na Universidade de Berlim, Jacob rejeitou quaisquer honrarias e posições ilustres que o afastassem de sua mesa. "Eu vestiria alegremente uma bata caseira do material mais grosseiro e não me esforçaria por nada além disso", brincou com um amigo. Enquanto isso, o diário de Wilhelm daquele período o mostra assistindo a uma produção de "Sonho de uma Noite de Verão", passeando pelos jardins botânicos e visitando o Gabinete de Arte, onde o chapéu de Napoleão estava em exposição. Um "dia raro sem nenhuma visita", observou ele em uma entrada.

E, no entanto, uma biografia conjunta é o único tipo que parece apropriado; separar postumamente um irmão do outro parece o mesmo que profanar um cadáver, pois Jacob e Wilhelm eram ardentemente inseparáveis. Quando, durante seus anos de graduação, Jacob trabalhou brevemente no exterior para um de seus professores, Wilhelm lhe escreveu: "Quando você foi embora, pensei que meu coração se partiria em dois. Eu não aguentava. Você certamente não sabe o quanto eu te amo." Jacob prometeu que isso nunca mais aconteceria e esboçou como esperava que a vida deles fosse depois que concluíssem os estudos: "Presumivelmente, finalmente viveremos bastante retraídos e isolados, pois não teremos muitos amigos, e eu não gosto de conhecidos. Desejaremos trabalhar um com o outro de forma bastante colaborativa e cortar todos os outros casos." Quando Wilhelm se casou, Jacob morou com seu irmão e sua nova cunhada. Um amigo certa vez se dirigiu aos irmãos em uma carta como "Meus queridos cabideiros duplos!"

O vínculo entre eles foi forjado por meio da história compartilhada de perdas e isolamento social. Após a morte de Philipp, Jacob e Wilhelm deixaram de desfrutar do status inerente ao fato de serem filhos de um magistrado. Matriculando-se na Universidade de Marburg, no final da adolescência, tiveram que pagar suas próprias despesas; as bolsas eram normalmente reservadas para os filhos de aristocratas e proprietários de terras. Jacob via sua situação em Marburg como semelhante às ofensas que o povo alemão — desprovido das vantagens políticas e econômicas inerentes à condição de membro de um Estado-nação — sofria no cenário europeu. Ele escreveu em sua autobiografia: "A escassez estimula a pessoa à diligência e ao trabalho, afasta-a de muitas distrações e infunde nela um nobre orgulho que a mantém consciente da auto-realização, em contraste com o que a classe social e a riqueza proporcionam... Grande parte do que os alemães conquistaram em geral deve ser atribuído ao fato de não serem um povo rico."

Enquanto estavam na universidade, os irmãos foram influenciados por Friedrich Carl von Savigny, um jovem professor de direito que defendia que as leis não deveriam ser impostas a um povo, mas sim derivadas dele. Um legislador, portanto, deve ser uma espécie de historiador, ou, melhor ainda, um filólogo, atento aos desejos de um povo expressos em sua linguagem e narrativa. Em um estudo sobre os Irmãos Grimm e o nacionalismo alemão, o estudioso Jakob Norberg argumenta que, se Platão prescreveu um "rei filósofo" para governar a cidade-estado, os Grimm imaginaram um "rei filólogo" para liderar o Estado-nação.

Foi também em Marburg, e através de Savigny, que os Grimm se encontraram com Achim von Arnim e Clemens Brentano, dois escritores bem-nascidos que haviam começado a reunir canções folclóricas alemãs, com o objetivo de capturar a Volksseele — a alma do povo — que antecedeu o Iluminismo europeu e o neoclassicismo francês. Arnim e Brentano foram membros fundadores do que ficou conhecido como Romantismo de Heidelberg. Se o Romantismo alemão inicial, que floresceu em Jena, na década de 1790, valorizava a "visão de mundo individual e subjetiva", escreve Schmiesing, "os românticos de Heidelberg celebravam a literatura popular e heroica porque viam nela a experiência coletiva de um povo".

A máxima de Savigny situava a vontade nacional nos corações, ou, mais precisamente, nas línguas, das pessoas comuns. Embora os Grimm tenham começado ajudando Arnim e Brentano, eles passaram a se considerar fluentes, tanto em virtude do empobrecimento de sua família quanto da tradição que cercava seu estado natal, Hessen. Eles reuniam muitos de seus contos de fadas lá, convencidos de que a relativa distância da região em relação às estradas comerciais preservava seu caráter autenticamente germânico.

Hessen também tinha um toque de mito. A terra havia sido colonizada em tempos antigos pelo povo Chatti, descrito pelo historiador romano Tácito como sendo mais forte do que outras tribos germânicas. Com grande parte de seu terreno acidentado dificultando a agricultura, os mercenários tornaram-se um produto de exportação primário. Vinte e cinco por cento das forças terrestres britânicas na Guerra da Independência dos Estados Unidos eram hessianas. (Dizia-se que o cavaleiro sem cabeça de Washington Irving era o fantasma de um soldado de Hesse.) O filósofo Johann Gottlieb Fichte, um dos pais do nacionalismo alemão, chegou a acusar os europeus de manterem deliberadamente as terras alemãs fragmentadas — para melhor mobilizar a bravura alemã para suas próprias conquistas. Foi nessa paisagem conflituosa que os irmãos Grimm se propuseram a costurar uma herança cultural que pudessem hastear como bandeira.

Um inimigo para a eternidade havia surgido. A conquista das terras germânicas por Napoleão foi um divisor de águas para o Romantismo alemão. "Logo tudo mudou, desde o início", lembrou Wilhelm, sobre as tropas francesas ocupando sua cidade natal, Kassel, em 1806. "Pessoas estrangeiras, costumes estrangeiros e, nas ruas e nas caminhadas, uma língua estrangeira falada em voz alta." Hessen foi incorporada ao Reino da Vestfália, liderado por Jérôme Bonaparte, o infeliz irmão de Napoleão, que mal aprendera mais do que três palavras em alemão: as que significam "amanhã", "novamente" e "alegre". (Isso lhe rendeu o apelido de Rei Alegre.) Dizia-se que Jérôme se banhava em vinho tinto, o que, escreve Schmiesing, "ressaltava sua condição de estrangeiro em uma região acostumada ao vinho branco".

Jacob serviu como bibliotecário pessoal de Jérôme, mas sua verdadeira vocação era como uma espécie de soldado de infantaria-folclorista em meio às Guerras Napoleônicas. Mais tarde, ele reuniu um grupo de folcloristas que juraram "honrar a pátria" por meio do "resgate de nossa literatura popular". Os contos que eles reuniram eram migalhas de pão que guiariam o povo alemão ao seu lar cultural.

O primeiro volume dos "Contos Infantis e Domésticos" dos Irmãos Grimm foi publicado em dezembro de 1812. Continha oitenta e seis contos, incluindo clássicos como "Rapunzel", "João e Maria", "Branca de Neve", "Rumpelstiltskin", "Rosa-de-Santa-Maria" e "Chapeuzinho Vermelho", além de extensas notas de rodapé. Os críticos não sabiam bem o que fazer com uma coletânea de "contos infantis" que vinha com adendos acadêmicos e animais lascivos. "Sra. Raposa", em que uma raposa com nove caudas, que se parecem com símbolos fálicos peludos, testa a fidelidade de sua esposa, não era o tipo de história de ninar que os pais tinham em mente. O mesmo se aplicava a "Rapunzel", em que a fada (não a bruxa) percebe que sua prisioneira de longas tranças tem recebido visitas do príncipe quando, um dia, Rapunzel pergunta: "Por que minhas roupas estão ficando tão apertadas?" Para os irmãos Grimm, o que importava era ser autêntico, não, apropriado, e os contos de fadas, em muitas tradições literárias, nem sempre eram destinados a crianças. Segundo a estudiosa Maria Tatar, esses contos eram contos populares compartilhados entre adultos depois do trabalho, enquanto as crianças dormiam. Ela cita uma versão francesa de "Chapeuzinho Vermelho", na qual o lobo mau tem intenções nada gastronômicas para a menina. Nessa versão, ela faz o que equivale a um striptease, tirando a roupa enquanto o lobo disfarçado observa da cama, dando um contexto mais fresco a "Que mãos grandes você tem!".[3]

E havia também a questão da linguagem dos irmãos Grimm — escassa, agitada, visceral, sem filtros. No prefácio, os irmãos se gabavam da fidelidade da coletânea às suas fontes: "Nenhuma circunstância foi poetizada, embelezada ou alterada". Bem, isso estava claro, reclamou o velho amigo dos irmãos Grimm, Clemens Brentano, que achou que eles foram longe demais. “Se você quiser exibir roupas infantis”, escreveu Brentano, “pode fazê-lo com fidelidade, sem trazer uma roupa com todos os botões arrancados, suja de terra e a camisa para fora da calça”. Mas os Grimm queriam preservar a cultura do povo comum, não fazer com que o povo parecesse culto.

A biografia dos irmãos Grimm escrita por Schmiesing é a primeira grande obra em língua inglesa em décadas. Pode ser rica em detalhes, mas quando li "Paths Through the Forest" (1971), de Murray B. Peppard, uma biografia mais acessível dos irmãos Grimm, senti falta dos emaranhados indisciplinados de burocratas prussianos e dos longos comentários sobre gramática alemã de Schmiesing. A biografia dela é um prato cheio de alemão. Também apresenta descobertas que complicam a imagem dos irmãos como puristas etnográficos.

A percepção popular de como os irmãos Grimm coletavam seus contos foi capturada em uma ilustração publicada em uma revista alemã da década de 1890: Jacob e Wilhelm são mostrados visitando uma humilde casa de campo, ouvindo uma camponesa mais velha. "Essa cena rústica não aconteceu de fato", escreve Schmiesing. As informantes dos irmãos Grimm tendiam a ser mulheres instruídas de famílias abastadas que recuperavam histórias de aldeões e empregados. A mulher na ilustração, Dorothea Viehmann, era de fato uma das informantes mais pobres dos irmãos Grimm, mas seus contos não eram tão "genuinamente hessianos" como os irmãos os descreveram. Ela era de origem huguenote por parte de pai, o que, especulam estudiosos, explica a influência francesa em algumas de suas histórias.

Schmiesing também revisita os estudos sobre a mudança de política editorial de Wilhelm. Possivelmente em resposta à desaprovação da crítica, ele atualizou a segunda versão de "Contos Infantis e Domésticos" para atender às normas de gênero do século XIX. Na primeira edição, a história de João e Maria começa com a mãe dizendo ao pai para abandonar os irmãos na floresta. Na segunda edição, a esposa do pai — a madrasta má arquetípica — faz o pedido, pois era impróprio sugerir que uma mãe biológica se livraria de seus filhos com tanta frieza. (O pai concordando com tudo — ótimo!)[4]

Embora seu legado possa ser o de "Mães Gansos Alemães", os irmãos consideravam seus volumes de contos de fadas como um projeto entre muitos, e dificilmente o mais importante. Em 1829, os Grimm, então na casa dos quarenta, aceitaram empregos como bibliotecários na Universidade de Göttingen, no reino de Hanover. Lá, Jacob publicou "Mitologia Alemã" (1835). Ele acreditava que, assim como etimologistas conseguiam identificar características de línguas antigas por meio de descendentes modernos, ele poderia aproximar a mitologia alemã antiga por meio do folclore. Ele vasculhou baladas, contos de fadas e lendas em busca de referências a heróis, mulheres sábias, anões, gigantes, fantasmas, curas, magia e muito mais.

Ao contrário de "Contos Infantis e Domésticos", "Mitologia Alemã" foi uma sensação nacional e nacionalista. O livro rejuvenesceu positivamente o compositor Richard Wagner. Em sua autobiografia, "Minha Vida", Wagner escreveu sobre seu encontro com a "Mitologia Germânica": "Diante dos meus olhos, um mundo de figuras logo se formou, que por sua vez se revelaram em formas tão inesperadamente esculturais e tão primordialmente reconhecíveis que, quando as vi claramente diante de mim e ouvi suas falas dentro de mim, finalmente não consegui compreender de onde vinham essa familiaridade quase tangível e a certeza de seu porte. Não posso descrever o efeito disso na disposição da minha alma como algo diferente de um renascimento completo." Com "Mitologia Germânica", Jacob esperava defender seus ancestrais — os povos germânicos que invadiram o Império Romano — contra alegações de barbárie. É uma defesa que, escreve Schmiesing, "era às vezes abertamente racializada". [5]  Embora Wilhelm elogiasse os contos de fadas de Serra Leoa, Jacob certa vez escreveu um artigo no qual chamou o fetichismo de "uma descida à monotonia e à grosseria, como aquela que governa o negro selvagem", e insistiu que era "essencialmente estranho a um povo como nossos ancestrais, que assim que aparece na história, age digna e livremente e fala uma língua finamente elaborada que está intimamente relacionada à dos povos mais nobres da antiguidade".

A vida profissional dos Grimm era tão instável quanto as fronteiras do Sacro Império Romano-Germânico. [6] Em 1837, um novo monarca dissolveu as assembleias legislativas de Hanôver e anulou sua constituição. Jacob e Wilhelm, juntando-se a cinco de seus colegas, assinaram uma declaração em protesto. Os dissidentes — que receberam a ordem de deixar Hanôver em três dias — ficaram conhecidos como os Sete de Göttingen, e seu ato de desafio foi posteriormente consagrado na história alemã como um momento marcante no caminho da nação para a democracia. Wilhelm chegou a revisar um conto de fadas com o episódio em mente. Em uma versão anterior de uma história intitulada "A Luz Azul", um homem deixa o exército por estar velho demais para lutar. Na nova versão, o protagonista é um soldado ferido que é dispensado por seu soberano com as palavras: "Você pode ir para casa agora. Não preciso mais de você e não receberá mais dinheiro de mim. Dou salários apenas àqueles que podem me servir".

O detalhe dos salários retidos revelava a dificuldade financeira em que Jacob e Wilhelm se encontravam. Em 1840, a viúva de Arnim implorou ao príncipe prussiano, Friedrich Wilhelm IV, que encontrasse emprego para dois de seus amigos, cujos nomes ela não revelou. Depois de pesquisar um pouco, o príncipe descobriu suas identidades e respondeu: "O fruto da minha pesquisa sombria foi — dois Grimms pesquisadores!" Alexander von Humboldt, o célebre geógrafo e naturalista, providenciou que os irmãos continuassem sua bolsa de estudos em Berlim com um salário combinado de três mil táleres, a ser dividido como quisessem, "já que vivem como marido e mulher".

Dois anos depois, Humboldt procurou Jacob com uma pergunta. A corte prussiana estava anunciando uma nova honraria para realizações nas artes e ciências. Jacob poderia aconselhar como uma palavra específica do estatuto deveria ser escrita? A palavra em questão: deutsch.

Assim como haviam trabalhado com informantes em seus contos de fadas, os Grimm solicitaram verbetes de dicionário de mais de oitenta colaboradores, incluindo professores, filólogos e pregadores. Os resultados podiam ser encantadores. O primeiro verbete era para a letra "A":

A, o mais nobre e primordial de todos os sons, ressoando com plenitude no peito e na garganta, o primeiro e mais fácil som que uma criança aprenderá a produzir, e que os alfabetos da maioria das línguas colocam, com razão, no início.

Os homens trabalhavam doze horas por dia para cumprir os prazos de publicação, mas conseguiam se divertir um pouco. No primeiro volume completo, publicado em 1854, os Grimm incluíram o apelido carinhoso de Wilhelm para sua esposa, bierlümmel (cafajeste da cerveja). Levaram dezesseis anos para terminar a primeira seção — que terminava com o verbete para biermolke (soro de leite da cerveja) —, mas as críticas surgiram quase imediatamente. Os católicos reclamaram da preponderância de exemplos de uso de palavras de Martinho Lutero e do tom de certas entradas. A de ablass (indulgência) dizia: "Principalmente a remissão eclesiástica de pecados por dinheiro... contra a qual a Reforma investiu vitoriosamente". Jacob acreditava que a capitalização de substantivos comuns era uma importação inorgânica e a eliminou, uma escolha que inspirou paródias na imprensa alemã.

Apesar das críticas, os irmãos Grimm seguiram em frente. Em suas mãos, o dicionário era uma forma de discurso político, o único que sempre funcionou para eles. Em 1848, em meio à onda de revoluções nacionalistas por toda a Europa, Jacob foi convidado a servir como representante na Assembleia Nacional de Frankfurt, um órgão convocado em um esforço para criar um Estado alemão unificado. Mas a reunião descambou para o facciosismo, à medida que interesses conflitantes de classe e geográficos revelaram que o país era muito mais dividido do que Jacob havia imaginado. Os irmãos se retiraram para o escritório para trabalhar no dicionário. Cada letra era um passo em direção ao objetivo — se não uma Alemanha unificada, pelo menos um povo alemão unificado, conectado por palavras e por disputas familiares sobre seu significado.

Em 16 de dezembro de 1859, Wilhelm morreu, aos setenta e três anos, após complicações de uma cirurgia na coluna. Jacob sentou-se ao lado de sua cama e contou cada um dos últimos suspiros de seu irmão. Quatro anos depois, Jacob o seguiu. Acometido por uma inflamação no fígado e, em seguida, por um derrame, ele ficou de cama, consciente, mas incapaz de falar. Pegou uma foto de Guilherme e a levou até o rosto, morrendo pouco tempo depois. Os dois estão enterrados em Berlim, como viveram, lado a lado.

Em 1871, o Kaiser Guilherme ascendeu ao trono de uma Alemanha recém-unificada. Em Goslar, uma cidade ao norte das montanhas Harz, um palácio imperial foi reformado para incluir um afresco com a imagem da "Rosa-brava", simbolizando uma identidade alemã há muito adormecida e finalmente desperta. Era o final de conto de fadas com que os irmãos Grimm sonhavam e, como em muitas de suas histórias, não houve finais felizes.

As histórias dos irmãos Grimm, com sua promessa de incorporar um espírito autenticamente teutônico, foram tão procuradas durante os anos nazistas que as forças de ocupação aliadas as proibiram temporariamente após a guerra. Desde então, estudiosos enfatizaram que seu nacionalismo estava enraizado em uma herança cultural e linguística compartilhada, não em sangue e solo. Ainda assim, a tarefa de narrar as vidas de Jacob e Wilhelm permanece tão espinhosa quanto a cerca que prendia os pretendentes de Briar Rose. Como escreve Schmiesing, "implica navegar entre apresentar de forma muito ingênua ou muito crítica as construções da Alemanha do século XIX e a germanidade para a qual contribuíram".

Na verdade, essa ambivalência também existia para Jacob, que se preocupava com a possibilidade de a padronização do alemão nas escolas desvalorizar os dialetos e a própria fala popular que suas vidas haviam sido dedicadas a capturar. Os irmãos sabiam melhor do que ninguém que toda história de encantamento é também uma história de desencanto, e sua causa de vida não foi exceção. A nação provou ser o conto de fadas mais querido da humanidade, e o mais sombrio. ♦

[1] "Grimm" quer dizer raiva, ira, fúria em alemã, por isso, a piada.
[2] "Wie Kinder Schlachtens miteinander gespielt haben".  Qual o nome desse conto em português?  Eu não conheço.
[3] Como historiadora, eu discordo nesse ponto.  Na verdade, não havia essa fronteira clara do que era adulto e infantil.  São valores que começam a se estruturar na Inglaterra Vitoriana, não nessa proto-Alemanha.  Os contos de fada nascem violentos e cheios de mensagens que, no geral, hoje não seriam infantis, por isso, foram sendo depurados.  E recomendo o livro do historiador norte-americano Robert Darnton, O Grande Massacre dos Gatos, porque há um artigo excelente sobre o tema.  Em português só usado, em inglês formato Kindle está por um bom preço, mas você acha fácil o *.pdf, porque ainda deve ser meio que leitura obrigatória nas disciplinas de História Moderna.
[4] Viu que a questão é a mudança na mentalidade social no século XIX?  Existe um modelo de família nuclear, patriarcal, moralizada que precisa ser mostrada nos contos, nada dessa balela de coisa para adulto e coisa para criança.  A mãe é o anjo do lar, ela não pode mais ser retratada como alguém que mata filhos, ou cobiça a beleza da filha (*versão original de Branca de Neve*), para isso, existe a madrasta.  Aliás, a madrasta que, nos contos franceses antigos, poderia ser a sogra, porque a palavra era a mesma.  Sobre o tema, recomendo "Da Fera à Loira: dos Contos de Fada e seus Narradores", da Marina Warner.
[5] Gente, o século XIX é racista, a ciência do século XIX é indissociável dessas ideias que, a partir do fim da 2ª Guerra, passaram a ser contestadas.  Mas que ninguém se engane, esses discursos eugênicos, racistas, continuam conosco, vide os vídeos do casal do bebê alemão.  Está esgotado em português, mas tem em sebo, em inglês e, provavelmente, *.pdf por aí.
[6] O Sacro Império acabou em 1806.  Depois disso, nós temos o Império Austríaco (*depois, Austro-Húngaro*), a Prússia e um conglomerado de Estados Germânicos, que se formou da dissolução do Sacro Império por Napoleão.  Então, o uso de Sacro Império, sem explicar, está errado.

segunda-feira, 19 de maio de 2025

Entrevista traduzida com Rikachi, autora de Nina – The Starry Bride.

Uma moça que comenta nos meus vídeos sobre Hoshi Furu Oukoku no Nina (星降る王国のニナ) ou Nina The Starry Bride, que é o título internacional, volta meia fala de uma entrevista que ela leu com a Rikachi, a autora da série.  Tentei encontrar a entrevista, não achei, mas consegui achar um que ela deu para o site alemão Manga Passion.  Achei que valia a pena traduzir.  A entrevista é de maio do ano passado e, segundo o texto, foi feita para "Para coincidir com o lançamento do décimo primeiro volume da edição alemã de Nina – Die Sterne sind dein Schicksal (Nina – As estrelas são o seu destino) e a adaptação para anime que começará neste outono, pudemos conduzir uma entrevista com o mangaká Rikachi.".

Na Alemanha, o nome da série é Nina – Die Sterne sind dein Schicksal, em português seria algo como Nina – As estrelas são o seu destino.  Como a autora comenta alo sobre o título alemão, deixei o título na entrevista.  Na medida do possível, mantive a estrutura do original.  E,, claro, não sei alemão, usei o Google Translator e meu bom senso.  O link da entrevista é este aqui.


MP: Olá Rikachi-sensei e obrigado por reservar um tempo para nos dar essa entrevista.

Rikachi-sensei: Muito obrigada [pelo convite].

MP: Para começar, você poderia nos contar um pouco sobre seus primórdios? Como você começou a trabalhar como manga-ká?

Rikachi-sensei: Era algo como um reconhecimento, mas não sei bem como explicar. Eu simplesmente aceitei todos os empregos que me foram oferecidos e, antes que eu percebesse, eu era um manga-ká. Na verdade, eu queria escrever light novels.

MP: O que te inspirou a desenhar Nina – Die Sterne sind dein Schicksal? Como surgiu a história de Nina, Azure e Sett?

Rikachi-sensei: O editor-chefe da época me deu o tópico de “destino predeterminado”. Pensei que seria difícil escrever sobre “destino predeterminado” em um cenário moderno. Então decidi escrever uma história de fantasia... Também decidi que deveria ser uma história em que os personagens tivessem grande importância. Então eu tive a ideia de que os personagens nascem com um destino predeterminado, com um carma, por assim dizer, que eles carregam dentro de si desde o nascimento.

MP: Nina é uma protagonista muito forte que toma seu destino em suas próprias mãos e, portanto, frequentemente se encontra em perigo durante o curso da história. Como surgiu a personagem Nina e o que você acha que a torna especial?

Rikachi-sensei: Quando eu estava desenvolvendo o enredo do primeiro capítulo, pensei que ela seria uma protagonista sombria e com baixa autoestima. Mas quando a desenhei, ela estava tão feliz e forte. Então eu dei a ela alguns testes e ela se tornou uma personagem que os superou agitando os punhos. Acho que o que é especial sobre Nina é que ela é a heroína, mas ao mesmo tempo ela também é a heroína da história. Ela tem uma natureza heroica que não culpa os outros por suas decisões, mas olhando por outro lado, talvez seja porque sua autoestima seja um pouco baixa.

© Rikachi / Kodansha Ltd.

MP: Nina – Die Sterne sind dein Schicksal se passa em um mundo onde existem reinos como Fortuna ou Galgada. Como você criou o mundo e houve alguma inspiração específica para cenários (para certos lugares ou cenas)?

Rikachi-sensei: Recebi sugestões como “um pequeno país cercado por grandes países” ou “Mongólia”. Analisei essas ideias e as selecionei, por assim dizer. Como imaginei uma terra árida com clima frio para o reino de Galgada, ele foi criado a partir de uma mistura de vários países frios do mundo. No entanto, tento, na medida do possível, evitar usar apenas um país existente como modelo. Caso contrário, alguém poderia dizer: “Se este país é suposto ser o modelo, então este clima, estes edifícios e esta cultura são impossíveis!”

MP: As estrelas e a lua parecem ser elementos importantes no mangá, embora o Deus Estelar e a Sacerdotisa Estelar permaneçam um tanto misteriosos por muito tempo. Como surgiu esse elemento? Você se interessa por corpos celestes?

Rikachi-sensei: “Desejar algo de uma estrela” e “nascer sob tal estrela”. Como existem muitas expressões que associam significados positivos e negativos às estrelas, escolhi-as como um dos temas. A lua também me inspira através da ideia de que a Princesa Kaguya era uma pecadora*. Eu adoro corpos celestes. Mundos de fantasia acontecem em um planeta semelhante à Terra em algum lugar do universo.

*Nota do Editor: A história da Princesa Kaguya é um antigo conto de fadas em que a bela e pura princesa da lua, Kaguya, é criada por humanos quando bebê na Terra. No entanto, também há variações da história em que Kaguya foi banido para a Terra por causa de um crime.

MP: Entre os capítulos e nos posfácios, você gosta de descrever com humor como seus assistentes e editores são divididos em dois campos: Azure de um lado e Sett do outro. Qual é a sua opinião pessoal sobre os dois príncipes?

Rikachi-sensei: Na verdade, quando desenho, quero que as pessoas pertençam aos dois lados, não apenas a um. Acho que ambos têm seus méritos, então é natural e perfeitamente normal que você goste mais de um deles. Ao mesmo tempo, quero que todos gostem um pouquinho uns dos outros também. (risos) Porque nessa história os dois são personagens importantes, e não é como se apenas um deles pudesse salvar Nina. Mas, no final das contas, é claro, cabe aos leitores decidir de quem eles gostam! O colega mais velho que você admira e o colega com quem você às vezes discute – amor e afeição acabam se tornando um só sentimento.

© Rikachi / Kodansha Ltd.

MP: Na primeira página, Nina é levada como uma criminosa e pecadora, e é feita uma referência à sua “segunda” morte, o leitor parece ter um pequeno vislumbre do enredo posterior da história. Você já elaborou toda a história de Nina – Die Sterne sind dein Schicksal com antecedência e já decidiu o final? E será que descobriremos o verdadeiro nome de Azure?

Rikachi-sensei: A história de uma série mais longa é uma coleção de episódios. Mesmo que o enredo geral esteja definido, posso adicionar mais episódios que não estavam incluídos no plano original ou excluir episódios. (Eu queria colocar a cena de abertura no meio da história, caso ela se tornasse uma série mais longa.) Então, preparei um final, mas depende dos personagens da história se eles realmente terminam ali ou não. Assim como na vida de uma pessoa, pode ser que algo melhor apareça com o tempo e eu me desvie dos meus planos. O verdadeiro nome de Azure será revelado mais cedo ou mais tarde!

MP: Uma adaptação em anime de Nina – Die Sterne sind dein Schicksal foi anunciada recentemente. Parabéns, estamos realmente ansiosos pela transmissão. Há alguma cena que você esteja particularmente ansiosa para ver animada?

Rikachi-sensei: Muito obrigado. Na verdade, não há uma cena específica, estou ansioso por todas elas. O mangá é em preto e branco, sem vozes e sem movimento, então estou ainda mais animada para vê-lo com som, música, cor e animação. Um anime para o qual muitas pessoas contribuíram é um mundo com uma profundidade completamente diferente de um mangá.

MP: Como é um dia típico de trabalho para você? Existe algum ritual especial que você segue?

Rikachi-sensei: Nos últimos anos, tenho ido à Kodansha por três ou quatro dias e concluído o storyboard em cerca de uma semana. Quando começo a desenhar, desenho quase sem parar, das 9h30 até 1h30 da manhã, exceto por uma pausa para comer. Antes, levava apenas de cinco a sete dias, mas nos últimos anos esse tempo quase dobrou, para 10 a 14 dias.

MP: Rikachi-sensei, seu estilo de desenho é lindo e captura maravilhosamente o mundo imaginativo de Nina – Die Sterne sind dein Schicksal. Você pode nos contar como você aborda o desenho e o que você particularmente valoriza? Você tem modelos a seguir?

Rikachi-sensei: Na verdade, não gosto muito dos meus próprios desenhos. É por isso que quero me desenvolver constantemente. Em vez de seguir sempre o mesmo estilo, prefiro mudar e melhorar. Meus modelos nos últimos anos têm sido livros sobre anatomia artística. Acredito que o básico é importante.

MP: Por fim, você gostaria de dizer algumas palavras aos seus fãs de língua alemã?

Rikachi-sensei: Somente na edição alemã esta história tem um título que reflete o conteúdo da história, e eu gosto muito disso. Somente na edição alemã o título difere do original, e espero que os fãs alemães também gostem. A propósito, não consegui decidir um título para esta história. Hoshi Furu Oukoku no Nina* só foi confirmado pouco antes da decisão final – cerca de cinco minutos antes do prazo final! Essa foi uma decisão bem agitada.

Nota do Editor: O título original pode ser traduzido aproximadamente como “Nina do Reino das Estrelas Cadentes”.

©Rikachi | O autorretrato de Rikachi-sensei

MP: Obrigado pela entrevista, Rikachi-sensei.

sábado, 22 de fevereiro de 2025

Filme brasileiro ganha o Urso de Prata no Festival de Berlim

Hoje, o filme O Último Azul, dirigido por Gabriel Mascaro, levou o Urso de Prata no 75º Festival de Cinema de Berlim. O longa é uma coprodução entre Brasil, México, Chile e Holanda e tem no elenco Denise Weinberg, Rodrigo Santoro, Miriam Socarrás, Adanilo, Rosa Malagueta, Clarissa Pinheiro e Dimas Mendonça.  O prêmio concedido pelo grande júri é o segundo mais importante do festival, um dos mais importantes do cinema mundial.  

Em entrevista à GloboNews, Rodrigo Santoro disse que "O Brasil precisa ser descoberto pelo mundo. Nosso país é incrível, temos um potencial absurdo. Ser reconhecido com essa relevância, pelo cinema, tem a ver com o nosso amadurecimento como país".  Já a protagonista, Denise Weinberg, comentou que "Receber isso aqui é um resgate para nós, artistas brasileiros, da dignidade e da autoestima. A vida presta, como diz a Fernanda Torres (...) O cinema brasileiro está fazendo um movimento de ir para fora, com muita consciência do que está fazendo."  O Correio Braziliense publicou um vídeo de Santoro comentando a vitória, ele está abaixo:

A produção brasileira também ganhou o prêmio de melhor filme da competição concedido pelo júri ecumênico, além do prêmio dos leitores do jornal "Berliner Morgenpost".  Já o filme premiado com o Urso de Ouro foi o drama norueguês Dreams (Sex Love).  A lista completa dos vencedores pode ser lida aqui.  E, para quem quiser assistir os indicados brasileiros ao Oscar, uma maratona de filmes de Fernanda Torres e outra de Walter Salles, o Canal Brasil estará dando esse presente.  Como O Pagador de Promessas não foi listado pelo Canal Brasil, sugiro o excelente vídeo do Sociocrônica sobre o seu diretor, Anselmo Duarte.  Saiu hoje:

terça-feira, 16 de novembro de 2021

Comentando J'Accuse (França/Itália/2019): Revisitando uma das fraudes judiciais mais escandalosas da História e ainda muito atual

Finalmente terminei de assistir J'Accuse, o último filme de Polanski.  Normalmente evito o diretor por causa de coisas muito complicadas que ele fez, mas era o caso Dreyfus e  não consegui resistir.  Para quem não sabe do que estou falando, trata-se de um caso emblemático de antissemitismo e manipulação da Justiça, iniciado em 1894, no qual um oficial de artilharia judeu (Louis Garrel) de currículo e moral ilibadas é acusado de espionar seu país, a França, para os alemães.  Ele era o único judeu servindo no Alto Comando francês e com acesso à segredos militares muito restritos.  Dreyfus é condenado à prisão perpétua de forma rápida e sumária, degradado publicamente e enviado para a Ilha do Diabo.  Entretanto, Dreyfus não é o protagonista do filme, mas o Tenente-Coronel Picquard (Jean Dujardin), ex-professor de Dreyfus na Escola Superior de Guerra, conhecido por seu antissemitismo, mas que ao assumir o comando da seção de estatística (*nome fantasia da seção de contra-espionagem*) descobre a fraude e decide fazer Justiça, enfrentando o alto comando e se expondo, ele, também, a uma série de humilhações e perseguições. 

Depois de retaliações, períodos na prisão e muito mais, Picquard é expulso do Exército, apesar de uma ficha de serviço impecável de mais de 25 anos.  O caso Dreyfus só chegou a um final provisório em 1906, quando Dreyfus é julgado novamente, não é absolvido, mas tem sua pena reduzida e lhe é oferecido o perdão do Estado.  Picquard  quer que ele rejeite e que a luta pela absolvição completa persista até o fim, custe o que custar, mas Dreyfus não vê os filhos pequenos faz cinco anos, está doente e mentalmente abalado e termina aceitando.  A acomodação incluiu o retorno de ambos ao Exército com patentes superiores, mas, não, a admissão da fraude que envolveu todo o alto escalão do Exército francês, o que ainda demoraria CEM ANOS para ocorrer.  Isso não é spoiler, é História, então, não aceito reclamações.

Outra coisa, antes de seguir, o "J'Accuse" , que dá nome ao filme, vem do manifesto escrito por Émile Zola (André Marcon) e publicado no jornal L'Aurore, de Georges Clemenceau (Gérard Chaillou), acusando o presidente, vários figurões do Exército, além de outros envolvidos na conspiração, de conspirarem contra um homem inocente.  Quem passa as informações para o jornal é Picquard, que de mãos e pés atados por ser oficial da ativa não pode se pronunciar publicamente sobre o caso, mas decide tentar fazer Justiça enquanto ainda está em liberdade.  A prisão viria logo.

Havia um espião, alguns dos envolvidos na fraude sabiam quem ele era, mas preferiram culpar Dreyfus e destruir sua vida, porque ele era judeu e, portanto, passível de cometer qualquer vilania.  Aliás, uma das cenas interessantes do filme é o diálogo entre o Coronel Jean Sandherr (Éric Ruf), chefe anterior da seção de estatística e responsável pelo Caso Dreyfus, e Picquard, quando este doente entrega para o protagonista uma lista com milhares de suspeitos de espionagem, gente que deveria se presa imediatamente em caso de guerra.  

O sujeito, que no filme está morrendo de sífilis, começa a falar em valores morais e salvar o país de ameaças, como os judeus.  Sífilis é uma doença que homens de bem pegavam normalmente por não levarem uma vida muito correta.  Enfim, J'Accuse tenta livrar a cara de Sandherr, meio que insinuando que ele foi conduzido ao erro pelo seu imediato, o Major Henry (Grégory Gadebois) e seu superior, o General Gonse (Hervé Pierre).  Eles sabiam que espião era Ferdinand Walsin Esterhazy (Laurent Natrella) e se aproveitaram da doença do Coronel, da sua mania de perseguição, dos delírios causados pela sífilis aliados ao seu antissemitismo, para atirá-lo contra Dreyfus.

Achei um tanto clichê (*mas vai que é verdade?*) a situação de Picquard chegando na seção de estatística e decidindo mexer em tudo por achar o ambiente desorganizado, sujo e incompatível com as rotinas militares.  O Major Henry, aliás, parecia uma versão meio sinistra do Sargento Garcia de Zorro, e tinha escrito na testa que era pouco confiável, fora que ele acreditava que iria assumir a seção.  As cenas poderiam se prestar, também, para reforçar a ideia é que por causa da doença, Sandher tivesse perdido o controle da seção de estatística.  Só que lembrei que todos os meus chefes no colégio militar que era artilheiros, como Picquard e Dreyfus, eram sujeitos meticuloso e super organizados.  Pensei, também, que Picquard  se comportou naquela sequência como a caricatura do virginiano obcecado por ordem.  E, bem, fui olhar e a personagem histórica era virginiana mesmo.  Coincidência.  😄

Enfim, J'Accuse é um bom filme e expõe as entranhas de um caso que mostra não somente o antissemitismo institucionalizado da França da virada do século XIX para o XX, mas, também, o corporativismo militar e a manipulação do patriotismo por parte dos generais para se salvaguardarem de qualquer punição. A Guerra Franco Prussiana (1870-71), um dos antecedentes da 1ª Guerra Mundial (1914-18), era recente e falar em Alemanha tinha efeito incendiário.  De qualquer forma, esse espírito de grupo não seria diferente se fosse a igreja católica, que é igualmente hierarquizada, ou a academia (universidade).  Aliás, chegou-se ao ponto em  que admitir um erro (*fraude, na verdade*) seria humilhante para toda a instituição.  Sendo assim, vários indivíduos mentiram e/ou foram coniventes.  Picquard, no entanto, a partir do momento em que seus olhos se abrem, se recusa a colocar os interesses do grupo, ou de sujeitos que o manipulam, acima da honra e da verdade.

O filme também ilustra bem como uma fraude pode ser mantida mediante o segredo e a conivência de uma série de pessoas desde que fosse conveniente para cada uma delas.  Mostra, também, como os elos fracos da corrente, caso do Major (*depois Coronel*) Henry, responsável por adulterar os documentos que levaram à condenação de Dreyfus, podem ser descartados.  E, sim, casos como o Dreyfus não são únicos, eles apontam somente para um tipo de arranjo que serve em primeiro lugar para confirmar as crenças.  O culpado tinha que ser o judeu, então, será o judeu.

Não consegui não lembrar tanto de filmes que gosto muito e que tem protagonistas parecidos, como O Homem que não vendeu a sua Alma e As Bruxas de Salém, filmes que mostram indivíduos que sacrificam sua vida para manterem limpas as suas consciências e seu nome, quanto os escândalos judiciais pelos quais nossa nação passou e ainda passa.  Lembrei do reitor da UFSC, Luiz Carlos Cancellier, que exposto publicamente como criminoso e acusado sem provas pela Lava à Jato, cometeu suicídio. No filme, é mostrada a tentativa de conduzir Dreyfus ao suicídio como forma de encerrar o caso. Penso também no ex-presidente Lula, e não estou discutindo se ele é inocente, ou culpado, falo de todas as irregularidades processuais cometidas, porque ele deveria ser o culpado, assim como seu partido.  Ou ainda, e recomendo o documentário, todos os mistérios que rondam o atentado contra o atual presidente no tempo em que era candidato.

O filme não tem como objetivo se ocupar de todo o caso, tampouco sinaliza em letreiramentos no final que Dreyfus só teve seu nome limpo totalmente 100 anos depois do caso.  J'Accuse acompanha a luta de Picquard, mostra seus aliados, como Émile Zola, o segundo julgamento de Dreyfus, mas não acompanha, por exemplo, a condenação do real espião, um oficial de artilharia que era filho e neto de generais. Enfim, o culpado não poderia ser ele mesmo, certo?

Concluindo, o Caso Dreyfus é horrível e este não foi o primeiro filme feito sobre ele.  Lembro que no Mestrado tive uma disciplina sobre historiografia no qual a professora parou para discutir a posição dos historiadores renomados da época sobre o caso.  Felizmente, pelo que me lembro, a maioria ficou do lado certo da história, mas o fato é que o caso mobilizou toda a França, intelectuais se dividiram, houve levantes antissemitas.  Aliás, a autora de Scarlet PimpernelBaronesa Emmuska Orczy, que é de 1905, faz uma crítica ao antissemitismo dos franceses em seu livro que, normalmente, fica fora das adaptações.  E basta pegar o que foi feito na 2ª Guerra, quando os alemães não tiveram que mover uma palha para capturar os judeus franceses, mais de 13 mil de uma vez só e colocá-los no velódromo de Paris, para ver que as coisas não melhoraram muito desde o Caso Dreyfus e mesmo hoje.  

Para quem quiser um filme sobre esse episódio, recomendo La Rafle, que é de 2010.  Só para marcar, desses 13 mil, pouco mais de 100 sobreviveram ao Holocausto.  A neta de Dreyfus foi mandada para um campo de extermínio, entregue aos nazistas pelo governo Vichy, a parte autônoma e nazista da França.  Já comentei aqui, inclusive na resenha de um filme israelense que assisti, Não Mexa com Ela, sobre a fluxo migratório de judeus franceses para Israel, porque são hostilizados tanto pela extrema direita católica, quanto pelos muçulmanos radicalizados.  Enfim, o Caso Dreyfus continua muito atual mais de cem anos depois.

Já caminhando para o final, Dujardin está muito bem como o protagonista que coloca sua honra e a da instituição que serve acima de qualquer coisa, mesmo os seus preconceitos.  Ele está bem charmoso também, assim como Louis Garrel que se entregou a mais uma metamorfose, como quando assumiu a pele de Robespierre em A Revolução em Paris.   Garrel constrói um Dreyfus como que saído das fotografias de época, orgulhoso e sofrido, que vai se degradando fisicamente até o desfecho do filme, mas não se dobra.  O resto do elenco também oferece boas interpretações.  Embora o filme siga uma narrativa linear, ele recorre vez por outra ao recurso do flashback, que acaba contribuindo para a construção da tomada de consciência de Picquard em relação ao seu antissemitismo e como desempenhou um papel vergonhoso em todo o caso.

Como me proponho a observar a forma como as mulheres aparecem no filme, devo pontuar que J'Accuse não cumpre a Bechdel Rule, mas, enfim, é um filme sobre homens e em um ambiente masculino mesmo e isso precisa ser levado em consideração.  A única mulher de destaque no filme é Pauline Monnier (Emmanuelle Seigner), uma mulher casada com um homem importante e que, por ser amante de Picquard, também sofre as consequências da perseguição imposta pelo Exército.  Poderiam ter dado algum destaque para a esposa de Dreyfus, Lucie (Swan Starosta) é minha única crítica neste aspecto. Ela sempre lutou pela inocência do marido, não desistiu dele, o visitou na prisão diariamente antes dele ser mandado para a Ilha do Diabo, então, merecia ter uma, ou duas cenas para si.

Recomendo o filme, ele é denso, mas não é arrastado ou chato em nenhum momento.  Constrói bem tanto as personagens, quanto o contexto histórico explosivo da época com um antissemitismo crescente e um patriotismo manipulado pelos poderosos que não tinham pudor algum em associar Dreyfus e os que o defendiam a uma conspiração judaica internacional.  Mesmo sabendo o desfecho do caso e  tendo que parar várias vezes o filme, eu consegui me empolgar com a película.  É isso, para quem quiser procurar o filme pelo título em português, ele se chama O Oficial e o Espião.

terça-feira, 7 de setembro de 2021

Comentando Bagdá Vive em Mim (Suíça/Alemanha/Inglaterra/2019): Sobre as dificuldades de se livrar de um passado que nos atormenta

Ontem assisti Bagdá Vive em Mim (Baghdad in My Shadow), seria o tipo de filme que eu assistiria no Liberty Mall, o melhor cinema de Brasília, mas existe a pandemia e eu não estou completamente vacinada ainda.  Pois bem, fiquei sabendo do filme por uma resenha da Folha de São Paulo que comparava o filme do documentarista iraquiano Samir ao seriado Friends.  Eu fiquei encafifada com aquilo e fui assistir ao trailer.  E, bem, não tinha nada de Friends, a não ser o fato de termos um grupo de amigos e amigas em cena.  Sei que os trailers mentem, mas o que se anunciava era um filme denso e dramático, o primeiro do documentarista que assina simplesmente como Samir.  E é isso mesmo, trata-se de um filme complexo, conectado com as discussões contemporâneas e com uma protagonista dúbia e imperfeita.  Vamos para o resumo do filme.

"Abu Nawas" é um café moderno e ponto de encontro popular para artistas e exilados iraquianos de várias gerações em Londres.  O café fica perto da mesquita Salafista dirigida por um sheik radical (Farid Elouardi) que atrai homens jovens com um discurso contra a decadência da civilização ocidental e que alveja, em especial, os homossexuais e as mulheres que não se comportam segundo os (seus) padrões islâmicos. Quando Nasseer (Shervin Alenabi), um jovem religioso fanatizado e sobrinho do poeta Taufiq (Haytham Abdulrazaq), ataca os amigos de seu tio, ele põe em ação um curso de eventos que vai virar a vida de todos de cabeça para baixo.

Bagdá Vive em Mim fala de estranhamento e de integração, de apego (e invenção) das tradições e de integração à sociedade britânica do século XXI.  É um filme que apresenta conflitos diversos (políticos, religiosos, geracionais, de gênero etc.) de uma forma bem orgânica tendo como centro o café do comunista Zeki (Kae Bahar), um sujeito otimista e que casou-se na Inglaterra e tem um um filho adolescente, Aro (Taro Bahar), descobrindo a (homo) sexualidade.  Ele faz parte da geração de emigrados mais velhos, junto com Taufiq e Samira (Awatif Naeem) que saíram do Iraque fugindo do regime de Saddam Hussein (1979-2003).  

O filme começa com uma investigação de assassinato que trazem de volta lembranças dolorosas de Taufiq.  Todos os demais personagens giram em torno dele e do café, o ponto de encontro.  Ele me despertou simpatia e antipatia.  É uma personagem cheia de pontos sombrios e imperscrutáveis.  As subprotagonistas estão ligadas a ele de alguma forma.  Há seu sobrinho, o jovem Nasseer, que cresceu na Inglaterra, tinha sonhos e objetivos de um garoto comum do país, mas que sofreu um violento ataque de neonazistas e acabou sendo atraído para uma vertente radical do Islã Sunita, o Salafismo.  A família é xiita, como a maioria dos iraquianos.  Ele culpa o tio, que ficou no papel de seu pai, por tê-lo visitado somente duas vezes enquanto esteve no hospital.  Taufiq tenta corrigir as coisas, mas já é tarde demais.

A outra subprotagonista ligada a Taufiq é o jovem Muhannad (Waseem Abbas), outro refugiado, que tem dificuldades em assumir publicamente a sua homossexualidade.  Ele trabalha com computação e manutenção de sistemas e máquinas e frequenta o café.  Tem um namorado inglês, Sven (Maxim Mehmet), super paciente e que lhe repete que ele não está mais em Bagdá, que não precisa ter medo, mas ele não consegue se livrar das memórias do seu tempo no Iraque (*ainda que eu ache que ele não tem flashbacks, como outras personagens, mas pesadelos mesmo*) e teme o julgamento de seus compatriotas.  Eventualmente, ele consegue romper algumas cadeias, mas Taufiq lhe arranja um emprego perigoso e que o coloca na mira dos radicais, ao recomendar seus serviços ao sheik.  O rapaz vê o sheik distribuindo dinheiro aos rapazes para que depositem em contas para os radicais na Síria e  descobre que o moralista misógino e que odeia o ocidente tem vários gigas de pornografia no seu computador e que ele prefere mulheres louras, apesar de seu desprezo pelo Ocidente.

A terceira subprotagonista é Amal (Zahraa Ghandour), uma jovem arquiteta refugiada na Inglaterra.  No novo país, ela não pode exercer a sua profissão, Martin (Lachlan Nieboer).  Todos os dias, ela corre e passa na frente da construção de um prédio e lá ela conhece o gerente da construção, Taufiq a estimula a tentar, ele sabe bem o que é ser tão qualificado e ter que fazer um trabalho que exige pouca qualificação.  Amal trabalha no café.  Só que o mesmo Taufiq reage muito mal quando descobre que Amal está namorando um inglês.  Amal reage e o confronta "A liberdade é somente para os homens, então?".  Sim, na verdade, dentro dessas comunidades de imigrantes é muito comum que os homens se integrem, que gozem de tudo que uma sociedade ocidental oferece, mas que obstruam "suas" mulheres, em especial, quando se trata de se relacionarem com homens de fora do grupo. 

Mas Amal tem um segredo espinhoso e que atinge Taufiq de alguma forma e eu acredito que esse problema do passado é que atrasa um tanto o desenvolvimento do seu relacionamento com Martin.  Não é qualquer imperativo cultural-religioso que a impede de beijá-lo em público, como no caso de Muhannad e do namorado, ou de fazer amor com Martin.  Trata-se de um medo profundo e justificado.  Seu nome não é Amal, ela não é uma rara iraquiana cristã, ela está fugindo de um marido abusivo e perigoso, que ela escolheu contra a vontade de seus pais.  Esse homem acaba vindo atrás dela.  

Se nosso filme tem um vilão, seu nome é Ahmed Kamal (Ali Daeem), um ex-torturador e agente do governo de Saddam Husseim que conseguiu mudar sua identidade e se infiltrar no novo governo de seu país.  Ele chega à Inglaterra como adido cultural.  Ele é culto, charmoso e quer destruir a vida da ex-mulher.  Amal tem um dossiê contra ele e entrega o material para Taufiq, um homem que foi torturado pelo regime e sabe o quanto gente como Kamal é perigosa.  Aliás, o marido de Amar odeia comunistas e consegue manipular o sheik e Naseer terminando por levar adiante uma agenda de vingança contra a esposa e quem a está ajudando.

Temos, portanto, duas gerações de iraquianos, uma primeira que foi mobilizada por ideais políticos de mudança social, no caso, o marxismo, e outra que é guiada por uma agenda política que tem a ver com direitos individuais, a possibilidade de realizar-se plenamente como mulher, ou de exercitar livremente a sua sexualidade.  A primeira geração é muito culta, e deve se compreender disso que eram membros das elites do país e tiveram acesso à melhor educação mesclando ocidente e oriente, que o dinheiro poderia comprar.  Zeki e Samira ainda sonham em mudar o mundo, são fiéis aos seus valores comunistas, já Taufiq é cínico.  

É poeta, mas trabalha como guarda noturno em um museu.  Ele tem um passado turbulento, foi torturado e trocado no Curdistão por um espião do regime de Sadam.  E há uma dúvida, uma mancha em seu passado.  Teria ele denunciado o cunhado e a própria noiva em troca da sua liberdade?  Você terá que decidir, caso assista o filme.  E, claro, é exatamente utilizando essa dúvida que Kamal consegue afastar Naseer do tio.  Taufiq não se defende e perde pontos com o sobrinho ao confrontar o sheik e mostrar que ele entende muito mais de Corão do que o religioso que me lembra muito fisicamente com o padre Fábio de Mello quando mais jovem.  Uma cena que me pareceu exagerada, mas que foi um momento em que Muhannad finalmente perde a paciência com o homofóbico Naseer, é quando o jovem fala bem alto no café que o sheik tem pornografia em seu computador.  Bem, não tinha como não dar m****.

Naseer, que já estava indignado com a árvore de natal comunista no café, rompe com o tio, que será acusado de ter usado Muhannad para plantar o material pornográfico no computador do sheik.  Ele e Muhannad viram alvo da vingança dos salafistas.  Bom explicar, Naseer briga até com a mãe, uma devota xiita.  Para ele, os pôsteres com rostos de aiatolás e outras lideranças xiitas, as celebrações como o Ashura, e outras coisas que são caras aos seguidores dessa linha do islã são heresia e idolatria. Salafistas, wahabistas, Estado Islâmico, Talebã são todos sunitas e perseguem os xiitas.  A população xiita do Iraque foi perseguida na época de Saddam Hussein e, depois, pelo EI.  A mãe,  Maha (Meriam Abbas), evita confronto com o filho, mas pede, logo no inicio do filme, ajuda de Taufiq.  

Sim, eu sei, o texto está meio fora de ordem, mas voltemos aos velhos que são liberais, progressistas, mas, volta e meia, escorregam em suas velhas tradições e costumes, assim como em (pre)conceitos que não são compartilhados.  De Taufiq já falei, mas Zeki é uma personagem curiosa.  Ele confronta Maha sobre o seu hijad (*que é somente um véu muito leve e que deixa parte do cabelo à mostra*), dizendo que ela deveria retirá-lo.  Ela o confronta e fala "É engraçado como vocês homens sempre acreditam que tem o direito de dizer como as mulheres devem se vestir."  Daí, ela diz que acha a camiseta dele horrível, mas que é direito dele usá-la.  Zeki vivia usando camisetas com mensagens, nem sempre de muito bom gosto.

Não vi esta cena como apologia ao hijab, aliás, Maha é a única mulher muçulmana a usá-lo em todo o filme, mas um aviso de como os homens se sentem no direito para ditar o que as mulheres devem, ou não fazer, ou vestir.  As três mulheres do filme são bem assertivas sobre seus direitos e não dão espaço para que os homens, progressistas, ou reacionários, se imponham a elas. O filme cumpre com folca a Bechdel Rule e todas as suas personagens são feministas. Zeki e Taufiq gostam também de fazer piadinhas homofóbicas em relação à Muhannad, é o mesmo tipo de bobagem que eu ouvi de meu pai e meus tios desde a minha infância.  "Quem é a mulher do casal?"  Não se trata de invocar a ira divina, afinal, Taufiq e Zeki são comunistas, ou defender a violência física e o extermínio.  Mas é uma forma de discriminar, humilhar, estigmatizar os homossexuais.  "Quem é a mulher", significa que um homem está se rebaixando, ao fazer isso, ele rebaixa todos os homens e deve ser punido. 

Em uma dessas cenas, Samira chega e coloca a sexualidade de Zeki em questão: por qual motivo o café se chama Abu Nawas?  Nawas (c. 756 -c. 814) foi um dos maiores poetas em língua árabe, era um especialista no Corão e parte da sua obra é dedicada à poemas louvando o amor entre os homens e o corpo dos rapazes.  Fui pesquisar e as primeiras edições das obras de Nawas censuradas só apareceram no século XX, antes, elas circulavam livremente.  Outro detalhe da vida de Nawas é que ele era chegado em bebidas alcóolicas, algo vetado aos muçulmanos.  Taufiq se cala, Zeki fica sem graça, deixa de fazer piadinhas e se mostra muito compreensivo quando descobre que seu filho adolescente, Aro (Taro Bahar), está apaixonado por Muhannad.  Sven tinha percebido o interesse de Aro pelo namorado iraquiano e o rapaz termina fazendo um papelão em público.

Antes de terminar, temos uma crítica ao colonialismo na conversa entre Taufiq e sua amiga editora, Maud (Kerry Fox).  Ela admira seu trabalho, mas não consegue que seu chefe aceite publicar o livro de poemas do iraquiano.  Eles recitam juntos uma poesia de Shelley e Taufiq diz "Nós conhecemos todos os seus poemas, vocês não conhecem nenhum dos nossos."  Sim, é isso.  O imperialismo cultural impõe as produções europeias e norte-americanas a todos o mundo, mas não é uma via de mão dupla.  Pior é quando aceitamos que nossas produções são inferiores, menos refinadas, indignas.  Pense no que está acontecendo em nosso país hoje, na política cultural governamental e, bem, estamos exatamente nesse pé.  

Bagdá Vive em Mim é um filme sobre conflitos e as tentativas das pessoas de boa vontade de os resolverem.  Não é um filme que oferece respostas, que nos poupa das consequências de atos impensados, ele expõe as feridas, mas ele é otimista.  Os velhos continuam sonhando com um mundo mais justo, Taufiq tenta resolver os problemas que criou, Muhannad consegue assumir publicamente a sua homossexualidade (*inclusive a única cena de sexo evidente do filme é dele com Sven*), mas a felicidade não é o fim comum de todos os frequentadores do café Abu Nawas.  Quanto ao café, ele continua como ponto de encontro, como lugar de tolerância, de memórias compartilhadas daquela pequena comunidade de iraquianos.  É isso.  Recomendo muito.


sexta-feira, 2 de julho de 2021

Light Novel de Akatsuki no Yona ganha o ganha prêmio na Alemanha

Touko Fujitani, autora da light novel Akatsuki no Yona - Onaji Tsuki no Shita de (暁のヨナ 同じ月の下で) comentou no Twitter que o livro recebeu o 1º lugar entre as light novel no Prêmio Manga Passion, que premia o material lançado na Alemanha.  Ele tem seis categorias.  Todos os vencedores estão aqui.  O livro tem ilustrações da própria autora, Kusanagi Mizuho.  A autora está agradecendo o apoio dos fãs.  Akatsuki no Yona é um dos mangás shoujo mais pedidos pelos fãs brasileiros, como parece estar caminhando para o final, talvez termine sendo lançado no Brasil.

quarta-feira, 21 de abril de 2021

Netflix está produzindo uma série alemã sobre Sissi

Sissi, ou ainda Elisabeth in Bavaria (1837-1898), foi imperatriz da Áustria e tornou-se uma das figuras mais icônicas do século XIX, seja por sua história carregada de tons românticos e trágicos, seja por ter se tornado uma espécie de rainha da moda de sua época.  Talvez, a depender de sua idade, você tenha conhecido Sissi através de uma animação exibida nas manhãs da Rede Globo (*eu não tinha TV por assinatura na época*)e que muita gente achava que era um anime.  E já tive que repetir montes de vezes que não era, enfim.

A imperatriz foi encarnada no cinema e na TV várias vezes, Ava Gardner a encarnou em Mayerling (1968), sendo sua intérprete mais famosa  Romy Schneider, que atuou na série alemã de três filmes (1955, 1956 e 1957), além de ter voltado a encarná-la em 1972 no filme Ludwig, parente muito famoso da imperatriz, de Luchino Visconti, em 1972.  Eu resenhei uma série italiana-austríaca sobre Sissy de 2009, aqui no blog.

O que sabemos da série até agora?  A série terá seis e está sendo gravada nesse momento.  Devrim Lingnau e Philip Froissant serão os protagonistas, como Sissi e seu marido, o Kaizer Francisco José.  A roteirista e showrunner da série é Katharina Eyssen.  A direção será de Katrin Gebbe  e Florian Cossen.  Os produtores são Jochen Laube e Fabian Maubach da Sommerhaus Filmproduktion.  A primeira foto liberada não me empolgou muito.  Resta saber qual será o tom da história, se realista, ou romântico.