terça-feira, 24 de dezembro de 2019

Comentando Dois Papas (Netflix/2019): Um Encontro fabuloso entre grandes atores



Assisti Dois Papas (The Two Popes) na estréia no cinema, mais de três semanas atrás.  Não sei por qual motivo retardei tanto a resenha, nesse tempo todo, ele já foi lançado na Netflix e indicado para quatro Globos de Ouro com uma grande omissão, o diretor, o brasileiro Fernando Meirelles.  Espero que o Oscar corrija isso.  Como o filme é muito bom e deve estar tendo audiência, ainda é possível assisti-lo no cinema em Brasília mesmo já estando na Netflix.

Dois Papas começa com o Conclave que elegeu Bento XVI (Anthony Hopkins), apresentando-o como um momento crucial para definir o destino da Igreja Católica, se a manutenção de uma política conservadora, ou uma reforma que a colocasse definitivamente em sintonia com o século XXI.  Depois desse começo e de uma sucessão de noticias aceleradas sobre os problemas do pontificado de Bento XVI, o filme avança para aquilo que é o centro da narrativa, a relação entre os dois papas, o atual, e aquele que se tornará o papa Francisco (Jonathan Pryce).


Os conclaves já foram mais divertidos.
O centro do filme são uma série de encontros fictícios entre duas personagens desenhadas como opostas.  Nessas reuniões semi-secretas ficam evidenciadas a forma como cada um dos dois compreende a sua fé e as questões relativas à doutrina da Igreja Católica.  Com a aproximação, dramas do passado vem à tona, velhas culpas, remorsos, assim como a esperança de que o futuro pode ser melhor.

Para quem não sabe, Conclave é a reunião dos cardeais para deliberarem quem será o novo papa.  A história desse tipo de reunião, de como passou a ser feita à portas fechadas, já é em si muito interessante.  Vemos no filme os eclesiásticos se trancando por dentro para deliberar, na sua origem, o primeiro conclave foi o inverso, não havia consenso político para eleger um papa, a coisa estava se retardando fazia tempo, e um príncipe, o futuro Filipe V, rei da França, montou uma armadilha e resolveu a questão trancando os cardeais, sem comida e água, até que se decidissem.  Foi rápido e escolhido foi um candidato que não parecesse perigoso para nenhuma facção e parecesse estar com o pé na cova.  Deu ruim, claro, e a igreja quase se esfacelou.


Ele queria o poder.
Só que, como pode ser facilmente atestado, a Igreja Católica é uma instituição muito bem sucedida, ela sabe se adaptar, ceder nos pontos que acredita ser válido e manter pé firme em outros temas. Isso, claro, não se dá em um estalar de dedos, tampouco sem resistências dentro e fora do clero. Dois Papas, aliás, fala disso.  A morte de João Paulo II, um papa muito longevo e conservador, que tomou para si a bandeira da derrubada do comunismo, mesmo fazendo vista grossa para uma série de abusos, abriu um terreno para disputas.

O primeiro conclave do filme, mostra a eleição de Ratzinger como Bento XVI, um cardeal conhecido como intelectual, conservador e que tinha sido o grande responsável por sufocar a Teologia da Libertação, uma das expressões mais importantes do pensamento teológico católico do século XX e surgida na América Latina. Na época da eleição, eu realmente acreditei que alguém tão poderoso como ele, afinal, era o chefe da Congregação para a Doutrina da Fé, vulgo Inquisição para quem não sabe, fosse querer ser papa.  Mas ele queria.  


Primeiro encontro.  Francisco teve que se
paramentar cardeal para ser recebido pelo papa.
O filme enfatiza a disputa política que teria contraposto um ambicioso Ratzinger e um esquivo Bergoglio pela primeira vez, pois o Cardeal Martini (Achille Brugnini), o favorito dos progressistas, termina vendo no argentino um candidato melhor e acaba transferindo-lhe os votos.   Um queria ser papa e manter a igreja nos trilhos do conservadorismo, o outro, queria pastorear os pobres, mas, não, promover a reforma que os progressistas desejavam.

Desde o primeiro momento, o filme nos faz simpatizar com Francisco (*isso, claro, se você já não gostasse dele antes, como eu*).  Ele é pintado com todas as virtudes, a simpatia encarnada, atencioso e amoroso com os necessitados, de hábitos simples, amante do futebol e capaz de assoviar Dancing Queen do ABBA nos corredores e banheiros do Vaticano.  Mais tarde, o filme nos mostra o quanto Bergoglio precisou se deixar transformar (*pela vontade de Deus*) para se tornar essa pessoa legal.  Ele tem um passado e coisas feias nele.


Eles discordam em quase tudo, quase... 
Já Ratzinger é um inverso.  Ambicioso, amante dos luxos e dos simbolismos (*alguns abandonados há muito tempo*), e um intelectual com desprezo pelos inferiores.  Uma das cenas emblemáticas dessa primeira parte do filme é quando um cardeal nigeriano (Willie Jonah), pintado como um forte candidato a um futuro pontificado, fala em inglês com outro colega e Ratzinger, depois de sorrir e tentar conseguir simpatia e voto, fala entre dentes que era bom quando só se falava latim no Vaticano.  Sim, para Ratzinger uma igreja universal não poderia se curvar aos novos tempos.  Só que, como pontua outro cardeal para Bergoglio, as igrejas europeias são belíssimas e vazias.  Uma das coisas que o filme defende, e há evidências para isso, é que o futuro da Igreja Católica está fora da Europa.  Na América Latina e na África, em especial.

Eu definiria Ratzinger/Bento XVI como uma personagem "lawful evil" e segue uma definição adaptada do TV Tropes, trata-se de um personagem do mal que tenta impor ou defender um sistema legal sem levar em consideração os desejos de outras pessoas e/ou abraça integralmente um código específico. Esse tipo de personagem acredita na ordem, mas principalmente porque acreditam que é a melhor maneira de realizar seus desejos (*maus*). Eles obedecerão à letra da lei, mas não ao seu espírito, e geralmente são muito cuidadosos ao dar sua palavra.  Esse tipo de personagem pode acreditar, também, que é realmente uma pessoa boa e que ao impor a sua vontade estaria fazendo prevalecer o bem comum.  


Fiz um monte de bobagens, mas vou largar
tudo na tua mão  e só ficar observando o circo pegar fogo.
Depois da eleição de Bento XVI, temos toda uma sucessão de cenas mostrando a crise da Igreja Católica.  Uma situação já desenhada durante o pontificado de João Paulo II, mas agravada pela forma dura como Ratzinger geria certas questões como as acusações de pedofilia, a corrupção e imobilidade eclesiástica diante de demandas relativas aos costumes, como a comunhão para os divorciados.  E o filme nem fala da complacência com a ala ultra-direitista da Igreja que, se o papa deixar, voltaria a impôr o latim nas missas, só para começo de conversa.  Há um silêncio nesse ponto sobre algo que arranha a própria noção de hierarquia, afinal, Ratzinger acolheu quem pode dos que não aceitaram as decisões do Concílio Vaticano II (1962-65).

Personagens lawful evil são muito perigosas e muito inteligentes.  São capazes, também, de serem amigos fiéis.  Quando Bento XVI se aproxima de Francisco, isso fica muito evidente.  Temos um primeiro confronto, afinal, para Bento XVI, e isso está no trailer, Francisco o afronta com seu jeito de ser.  O apego à pobreza, a preocupação com os marginalizados, a disposição em dobrar as regras para conseguir chegar aos corações das pessoas.


Segredo é importante no Vaticano.
E eis que a grande sacada do filme é mostrar um Bento XVI anunciando para Francisco que iria renunciar, algo já visto, como o próprio Ratzinger aponta, mas não por livre vontade do pontífice, e ver o circo pegar fogo.  Sim, coloquei as coisas de forma vulgar, ma sé isso mesmo.  Ao se tornar papa emérito, Bento XVI poderia observar como seu sucessor iria lidar com os temas espinhosos que muitos o acusavam de não saber gerenciar.

Bergoglio não quer aceitar a tarefa, ele nunca desejou ser papa, aliás, queria se encaminhar (*segundo o filme*) para a aposentadoria.  Com o embate e, mais tarde, a amizade entre ele e Bento XVI, o que vai ficar exposto é o passado do atual papa e o filme não o poupa de críticas, ainda que tudo seja coroado com o perdão.  Ao ser eleito papa, Jorge Bergoglio não era uma unanimidade na Argentina, tinha inclusive sido acusado de colaborar com a sangrenta ditadura (1976-1983) do país.  Já outros defendiam que ele fez o possível para salvar pessoas, escondê-las, dar-lhes fuga.  Essa parte do filme é muito importante e marcada por flashbacks e passagens que eu não esperava ver neste filme, mas que o tornaram ainda mais especial e importante.


Muitas conversas e muitos passeios.
Francisco passou por dois, talvez três momentos de conversão.  O primeiro, ao se tornar sacerdote, deixando para trás os seus planos mundanos.  O segundo, quando, terminada a ditadura, é retirado de seu alto cargo de geral dos Jesuítas, e mandado para um exílio forçado entre os pobres de seu próprio país.  Ali, ele abandona o seu orgulho e faz a opção pelos pobres, torna-se um jesuíta-franciscano, por assim dizer.  E, a terceira, ao aceitar a responsabilidade de preparar a Igreja Católica para novos tempos e realidades como o primeiro papa latino americano.

Mesmo nos momentos terríveis do filme, os flashbacks da ditadura argentina, quando Bergoglio é levado a perceber o quão impotente estava diante da violência dos militares, Dois Papas consegue passar simpatia e esperança.  O filme fala de reconciliação com o passado.  Fala de perdão.  Fala de tentar compreender as diferenças e usá-las a favor da coletividade.  Claro, é um filme apologético, tanto para com Francisco, quanto para com Bento XVI, mas é um excelente filme.


Juan Minujín tem muito tempo em tela.
Algo importante, apesar de ser um filme sobre os dois papas, ele é muito mais um filme sobre Francisco.  Isso justifica a indicação de Jonathan Pryce para melhor ator e Anthony Hopkins para coadjuvante?  Não.  O motivo é que o ator argentino Juan Minujín interpreta o jovem Francisco em vários momentos do filme.  Dito isso, Hopkins e Pryce devem ter mais ou menos o mesmo tempo de cena.

Uma coisa interessante é que é um filme falado em várias línguas.  Latim, claro, e temos as piadas de que somente 30% dos cardeais conseguiam ficar realmente com raiva de Ratzinger, porque os outros não sabem latim o suficiente.  por exemplo, a cena da abdicação é uma delícia, aliás, o humor do filme é finíssimo.  Fala-se francês, muito italiano e até português em dois momentos, se bem me lembro.  Acredito que tenha sido nas aparições do Cardeal Cláudio Hummes (Luis Gnecco).  Agora, Francisco dizendo dizendo que está cansado de falar inglês no Vaticano, bem, só porque o filme é para a Netflix, porque ele e Ratzinger não teriam motivo para conversar nessa língua.


Os verdadeiros.
Além disso, Dois Papas tem uma trilha sonora inspirada, além de uma bela fotografia e direção de arte.  Tudo é construído para marcar os opostos.  Os diálogos são inteligentes e os protagonistas encarnam as personagens a ponto da gente olhar e acreditar que são os próprios.  Comparem com uma cena no final, com o verdadeiro Francisco perguntando para Bento XVI, já papa emérito, se ele está comendo direitinho.  A gente quase se convence que toda a história do filme, até os dois assistindo a final da Copa do Brasil é real.  Este é um filme no qual temos um conjunto harmonioso e cenas isoladas deliciosas.  

 Terminando, não temos o cumprimento da Bechdel Rule.  Temos algumas mulheres, mas pensem que o Vaticano é um lugar masculino por excelência, logo, a ausência é justificada.  Dentre os papéis femininos, o destaque vai para a atriz María Ucedo, que interpreta Esther Ballestrino, amiga de Francisco, uma das fundadoras das Mães da Praça de Maio e vítima da ditadura argentina. 


Assistindo Argentina e Alemanha,
 até a Dilma aparece entregando a taça.
É isso.  Espero que Dois Papas receba muita sindicações ao Oscar.  Ele entra na lista dos melhores filmes que assisti este ano.  Agora, se ignorarem Meirelles, o diretor brasileiro, será uma grande injustiça e, bem, não sei se cabe dar o protagonismo para Jonathan Pryce, quando quase metade da atuação de Francisco foi feita por Juan Minujín.  De resto, se você quiser um filme sobre a época em que os Conclaves eram muito mais interessantes (*suborno, ameaças de morte, tráfico de influências etc.*), recomendo O Conclave e os primeiros capítulos da primeira temporada de The Borgias.


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