segunda-feira, 7 de março de 2011

Um outro Passeio na Charneca para “Jane Eyre”



Deu trabalho traduzir este texto do New York Times. Se eu não conehcesse o assunto e não tivesse asssitido boa parte dos filmes e séries, eu teria fracassado. Não concordo com muita coisa, mas comento depois. Agora, preciso resolver uns assuntos. Segue o artigo traduzido. Se puder, peça para a Paramount adiantar a estréia. É absurdo que estréie nos EUA em 11 de março e aqui só em 14 de outubro. Se a gente pedir, quem sabe eles adiantam?

Um outro Passeio na Charneca para “Jane Eyre”

De CHARLES McGRATH
Publicado em 4 de março de 2011


Cary Fukunaga, o diretor da nova versão para o cinema de “Jane Eyre”, que estréia na sexta, brincou recentemente que existe uma lei não escrita que exige que “Jane Eyre” seja refeito a cada cinco anos. Às vezes a sensação é essa. De todos os clássicos do século XIX, “Jane Eyre” de Charlote Brontë tem sido o mais filmado, superando mesmo o eterno “Orgulho & Preconceito”.

Até agora houve pelo menos 18 versões para o cinema, desde o primeiro filme mudo de 1910, e 9 “Janes” para a televisão – tantas que às vezes elas parecem citar umas às outras tanto quanto o livro original. Muitas, incluindo a atual, foram mesmo filmadas na mesma locação: Haddon Hall, uma antiga mansão amuralhada na Derbyshire varrida pelo vento que sempre é chamada para servir os cineastas britânicos sempre que eles precisam de um lugar que pareça velho e úmido. Assim, a audiência pode ser perdoada se na sua lembrança todas as “Jane Eyres” parecerem se misturar em um turbilhão contínuo, com Joan Fontaine, a Jane de 1943, de repente ganhando cor e se modificando em Susannah York, enquanto Rochester se torna, como uma personagem de um filme de terror, de Orson Welles em George C. Scott e, então, em Timothy Dalton.

Certos momentos acontecem de novo e de novo: o banco em Lowood, a escola miserável para órfãs; Rochester empinando seu cavalo e caindo; os gritos à noite, o quarto em chamas; Jane correndo pelo campo estéril; a voz que a chama através da charneca. E tudo sempre termina da mesma forma: ela casa com ele, claro, apesar dos Rochester dos filmes serem raramente a figura digna de piedade, a criatura machucada que ele é no livro, onde ele perdeu um olho e uma mão. Nunca houve um filme definitive sobre “Jane Eyre”, nunca houve um que realmente fosse digno de ser jogado fora. Mesmo um William Hurt embaraçosamente mal escalado como Rochester, muito mais próximo do levemente excêntrico do que o taciturno tipo byroniano, tem seus momentos no filme sentimental de Franco Zeffirelli, em 1996. Um par de filmes se prenderam um pouco na sensual ancestralidade Creole da primeira esposa de Rochester, Bertha Mason, e no tema da exploração colonial, mas, até agora, a versão verdadeiramente inovadora é o filme de John Duigan, de 1993, de "Wide Sargasso Sea", baseado no romance de Jean Rhys, e que conta a história do ponto de vista de Bertha, a louca trancada no sótão.

Então, por que outro “Jane Eyre”, quando há tantos perfeitamente aproveitáveis e já disponíveis em DVD ou para download? A mais resposta mais simples é que esses filmes são refeitos o tempo todo, e que os grandes romances do século XIX – Austen e as irmãs Brontë, especialmente – provaram ser um recurso inesgotável e quase infalível.

Douglas McGrath, que dirigiu versões de “Emma” de Jane Austen e “Nicholas Nickleby,” de Charles Dickens, escreveu recentemente em uma mensagem de e-mail: “O que torna um clássico um clássico e que sua história sempre tem relevância para qualquer geração que o leia. Se ele não tem, não poderia ser um clássico – e teria sido esquecido. E eu acho que o que lhes dá relevância é o dilema humano que ocupa o seu centro. Os detalhes do período – as belas (ou nem tanto) roupas, as casas grandes ou sujas, as carruagens e a luz de vela e os costumes há muito tempo esquecidos – são o glacê mas não são o bolo.” Falando de clássicos da literatura romântica, ele acrescente, “Parte do apelo esta no fato da linguagem ainda ter uma estrutura mais rica, e às vezes poética, que os filmes modernos tem muita dificuldade em rivalizar.” No caso de “Jane Eyre”, conforme Alison Owen, que foi a produtora e a força motriz por trás do novo filme, apontou recentemente, há uma simples e pragmática razão: Como drama de época, “Jane” é relativamente barato de se filmar.

“A ação se passa em uma casa no meio da charneca,” ela explica. “Jane Austen pode ser muito caro. Você precisa de cavalos, carruagens, vestidos de baile. Mas no geral “Jane Eyre” tem muito menos pessoas que a maioria dos filmes de época. Você não precisa de vários figurinos. E o cenário é de graça. Aponte a câmera para a charneca, e vai ficar parecendo um filme de David Lean. Mas uma razão mais profunda para querer fazer o filme, ela continua, era a simples afeição pelo livro, e quase todo mundo envolvido na produção, estrelada por Mia Wasikowska e Michael Fassbender, sentia da mesma forma. “Jane Eyre” foi lançado em 1847, um pouco mais de 30 anos depois de “Orgulho & Preconceito”, e ainda assim Fukunaga pontua, um mundo de diferenças separa os dois livros. “Jane Austen é como ‘Gossip Girl’, e Charlotte e Emily eram como gêmeas góticas,” ele diss. “É uma sensibilidade totalmente diferente. O mundo emocional de Charlotte é muito mais sombrio e perigoso”.

É também um mundo com o qual os leitores modernos pode se identificar mais prontamente. A história da órfã que se torna governanta, se sustenta e encontra o amor verdadeiro em uma mansão assustadora, com aparência mal assombrada, enquanto derrama seu coração a cada página com uma prosa exuberante, romântica, quase hipnótica, “Jane Eyre” é, ao mesmo tempo, uma história de horror gótica e, possivelmente, o primeiro e mais satisfatório romance chick-lit. “Ele tem sido o meu livro favorito desde que eu tinha 11 anos mais ou menos, e eu sempre achei que o livro tinha sido mal servido pelos filmes”. Owen disso. “Uma das razões é que Jane freqüentemente foi representada por mulheres mais velhas, não uma garota. Mas o livro não foi escrito sob esse ponto de vista, e é por isso que ele é tão atraente para as meninas mais jovens. Faz uma grande diferença ter no papel alguém que ainda não é uma mulher. Mia tinha 19 anos quando fez o filme, que era exatamente a idade de Jane”.

Moira Buffini, que escreveu o roteiro, lembrou recentemente que quando ela ouviu que Owen ia refazer “Jane Eyre”, ela imediatamente disse para si mesma, “Oh, meu Deus.” Ela continuou: “Foi instintivo. Eu só podia perseguir esse trabalho”. E somente depois que ela conseguiu o trabalho, ela descobriu o que fazer sobre isso. “Eu comecei indo de A até Z, dramatizando cada cena importante,” ela disse. “Cada uma das 8, 9, 10 páginas de prosa densa, e tentando destilar tudo isso, eu persebi antes de chegar ao fim do primeiro rascunho que a coisa não ia funcionar.” Foi então que ela teve a idéia de contar a maioria da história em flashback, começando com estadia de um ano de Jane com o hipócrita missionário St. John Rivers e suas irmãs, um intervalo que acontece bem no final do livro e que a maioria dos filmes, comprime ou deixar de fora. “Esta é uma parte importante do livro,” ela explicou. “Jane passa todo um ano lá, agonizando de saudade, e é quando ela começa a ver qual é a alternativa a Rochester: um casamento sem amor ou ser solteirona. É uma espécie jornada espiritual, e isso diz muito sobre este mundo, onde pessoas com grandes almas tinham que lutar com vidas pequenas”.

Fukunaga, um americano de 33 anos, também desejou muito participar deste “Jane Eyre”, apesar de só ter feito um único filme antes, “Sin Nombre”, uma película filmada na Espanha e sobre a os pessoas da América Central tentando entrar ilegalmente nos Estados Unidos, e que ele pesquisou pessoalmente andando em trens com imigrantes ilegais. “Cinema é um jogo,” Owen disse sobre sobre o fato de tê-lo escolhido, acrescentando que ela havia sido parcialmente guiada por sua experiência como produtora da biopic "Elizabeth" com Cate Blanchett, que foi dirigido por Shekhar Kapur. “Foi um grande sucesso ter um diretor de uma cultura diferente,” ela disse. “Eu não queria seguir uma rota tradicional, porque algumas vezes eles se sentem intimidados pela história inglesa e em ser fiel às Brontë. É preciso agitar um pouco as coisas”.

Fukunaga cresceu assistindo a versão em preto e branco de Robert Stevenson de 1943 com sua mãe. Este filme (que teve o roteiro parcialmente escrito por Aldous Huxley) é o mais literário de todos os “Janes” – ele começa com páginas do próprio livro virando e a narração em off – e também o que se inclina mais fortemente na direção de Rochester, interpretado por um moreno Orson Welles resmungando e declamando ao estilo Marlon Brando e deixando Joan Fontaine, com pouco a fazer senão parecer tímida e infantil. Mas o que Fukunaga diz ter aprendido dessa versão é a importância de balancear todos os elementos da história.

“Você transforma o filme em um drama romântico de época tradicional?” ele disse. “Você o transforma em um filme de horro? Como encontrar um equilíbrio entre esses dois? Na literatura, por causa da escala, você pode mudar o tom e a atmosfera. Você pode quase até mudar de gênero. Mas um filme é um ato de equilíbrio. É por isso que eu reverencio a versão de Bob Stevenson.” Ele acrescentou. “Eu acho que será responsabilidade dos fãs, ávidos por julgas as adaptações, dizerem se eu fui bem sucedido”.

Todos os envolvidos na produção concordam que o desempenho de Wasikowka foi crucial. Também foi fortuita. "Eles sugeriram uma outra atriz", Buffini disse. "Eu não vou dizer quem, mas era alguém que eu senti que ia ser menos emocionante." Wasikowska, na época, tinha acabado de terminar as filmagens de "Alice no País das Maravilhas", de Tim Burton, e voltou para sua Austrália natal com uma lista de leitura de livros que ela esperava colocar em dia. "Jane Eyre" estava no topo, e depois de apenas cinco capítulos, ela chamou seu agente e perguntou se havia algum projeto em desenvolvimento. "O que eu amei sobre Jane é que ela tem esse sentido inato de amor próprio, e não há realmente nenhum lugar de onde ele pudesse ter vindo", disse ela. "Não é como se ela tivesse uma educação carinhosa. Tudo o que ela conseguiu, é porque ela fez isso sozinha. "

Owen disse: “A razão pela qual tanta gente ama “Jane Eyre” é que elas podem se identificar com ela. Ela não é bonita. Ela é pequena e simples, e ainda assim ela encontra a felicidade romântica. É um conto de fadas para a mulher insegura e sem confiança – a mulher comum”.

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