sexta-feira, 3 de abril de 2026

Ikoku Nikki acabou! 😭 Vamos fazer um balanço geral da série.

Finalmente terminei de assistir Ikoku Nikki (違国日記), uma série excepcional e muito exigente com sua audiência.  Não estou fazendo pouco caso de ninguém, mas a série baseada no mangá de Tomoko Yamashita é um material adulto de verdade, não no sentido vulgar do termo, que logo imagina situações sexuais ou palavrões ou violência.  Estou me referindo à capacidade de lidar com sentimentos complicados e com os diversos tipos de dramas que poderiam ser os seus, os meus, os dos seus amigos e amigas.  E não pense que o fato de ser adulto torne a série inacessível para adolescentes, porque uma das protagonistas é uma menina de 15 anos e seus dramas e os de suas amigas e colegas de escola também estão lá.  

Infelizmente, ficou claro no último episódio que uma continuação não estava nos planos da produção, que começou cinco anos atrás.  Como eu sei disso?  O salto no tempo, vermos Asa, a protagonista adolescente, e Emi, sua melhor amiga, adultas, dez anos depois dos acontecimentos do último episódio, é uma forma de marcar que era um adeus.  Sim, eu sei que a série é sucesso de crítica, ainda que não saiba se é de público, também, mas ela foi planejada para terminar com seus 13 episódios.  A maioria dos animes shoujo e josei não tem segunda temporada, imagino que quiseram marcar bem que ali seria o final da série, a despedida.  Triste, porque o mangá só tem míseros 11 volumes.  Duas temporadas, ou mesmo um filme animado, poderiam dar conta de fechar tudo.

Enfim, para quem não leu minhas resenhas anteriores (*1 - 2*), Ikoku Nikki é um anime adaptado do mangá de mesmo nome de  Tomoko Yamashita e conta a história de Makio e Asa.  Makio é uma novelista de 35 anos, que mora sozinha e é  um tanto antissocial.  Um dia, ela recebe a notícia de que sua irmã mais velha, com quem nunca se deu bem, morreu junto com o marido em um acidente de carro.  Uma filha de 15 anos, Asa, ficou para trás.  Nenhum parente quer  ficar com ela, está disposto a dar para a garota o suporte do qual ela precisa.  Makio, mesmo com todas as suas questões emocionais e de personalidade, decide assumir a sobrinha, mesmo avisando para a garota que odiava a mãe dela e que, talvez, nunca consiga amá-la.  Ao longo dos episódios, Asa aprende a lidar com a tia e com o seu luto, a pensar o seu lugar no mundo e o que deseja fazer de sua vida.  Já Makio acaba tendo que admitir que Asa tornou sua vida diferente para melhor, mesmo que ela mesma continue tendo muito apreço pelo seu espaço pessoal, pela sua privacidade, inclusive emocional.

Este post estava aberto fazia semanas, apaguei quase tudo que estava lá.  O objetivo era comentar os episódios três e quatro, agora, é o balanço geral da série.  Ainda não considero adequado o título em inglês, "Journal with Witch", porque Makio não é uma feiticeira/bruxa, seja no sentido de fazer mágica ou de ser má, ela é  uma adulta com problemas emocionais, talvez neurodivergente (*sem laudo, o que deve ser muito comum no Japão*) e que acolhe a sobrinha mais por questão de justiça do que de qualquer afeto.  Mas ela termina desenvolvendo fortes sentimentos por Asa e conseguindo dar para a menina um suporte que ela não esperava ser capaz de proporcionar.  Makio acaba se tornando mãe de Asa, mesmo brincando que sua relação com a menina é como a de alguém que trouxe um cachorro perdido para casa.

A gente pode ser mãe ou pai por vários caminhos.  Engravidar é somente um deles.  O processo de adoção é outro.  Mas há quem assuma a responsabilidade - afetiva, econômica, legal - por uma criança ou adolescente por motivos inesperados realmente.  Quantos órfãos foram criados pela pandemia?  Quantos tios, primos, mesmo irmãos ou irmãs mais velhos tiveram que assumir uma criança ou adolescente traumatizado por uma perda tão inesperada?  Tal e qual o acidente que levou os pais de Asa.  Por outro lado, a menina mesmo perdida, mesmo sofrendo, nunca desistiu da vida e Makio a ajudou nesse processo.

Mas eu falei do título e não retomei... a tradução de Ikoku Nikki é algo como Diário de uma Terra Estrangeira.  Espero que quando o mangá aparecer por aqui, porque eu acho que virá, a opção seja nesse caminho.  Na imaginação de Asa, a casa da tia, as amigas que ela tem, a própria Makio representam essa terra estrangeira.  É tudo como um deserto, às vezes com alguma construção exótica, as personagens vestidas com roupas não-japonesas e falando uma língua incompreensível.   A menina precisa se acostumar com adultos que são muito diferentes da mãe, sempre correta, sempre fazendo tudo o que dela se esperava, inclusive aceitar que o pai de sua filha não desejava casar oficialmente com ela, e o pai que estava lá, mas parecia sempre um tanto ausente.  Aliás, fica meio que inferido que a relação entre as irmãs - Makio e Minori - era tensa porque uma sempre se dobrava ao que dela era esperado, enquanto a outra, nossa protagonista, mesmo sofrendo, mesmo um tanto perdida em seus sentimentos, queria construir seu próprio espaço nesse mundo.

E Makio é complicada.  Seu apartamento é caótico, sujo, desorganizado.  Ela está sempre focada em sua escrita e é uma novelista de sucesso.  Apesar de preferir o isolamento, ela tem amigas, como Nana Daigo; ela não se isola no seu mundo totalmente, mas ela tem uma necessidade de espaço que termina por causar alguns problemas na relação dela com Asa.  Agora, o pior é que ela não consegue se conectar totalmente com o sujeito que provavelmente é o homem de sua vida, Shingo Kasamichi.  Como os adultos de nossa história têm problemas, têm traumas, mas são adultos de verdade, eles tentam resolver seus problemas e dialogar.  Kasamichi é um dos meus favoritos e a conversa dele com o rapaz do Conselho Tutelar (*ou seu similar japonês*) sobre masculinidades e pressões que os homens sofrem para se enquadrar, inclusive objetificando as mulheres para serem aceitos pelos outros machos, foi um dos pontos altos do seriado.

Falando do moço do Conselho Tutelar, a série também se preocupa em explicar algumas questões legais japonesas.  Kasamichi trabalha em um banco, Makio recorre a ele para entender como lidar com a questão dos bens dos pais de Asa.  Já o moço do conselho tutelar, Kasunari Touno, é um novato, que deseja fazer o seu melhor trabalho e serve de conselheiro para Asa.  Ele tem que fazer visitas regulares e tenta compreender a dinâmica estabelecida entre tia e sobrinha.

E temos as adolescentes.  Emiri (*Emily?*) é a melhor amiga de Asa.  Sim, daquelas para a vida inteira.  Só que, ao entrarem no colegial, elas ficam em turmas diferentes, estabelecem novos laços de amizade e precisam se adaptar às mudanças.  Emi cresce dez centímetros, Asa continua baixinha. E a amiga começa a descobrir sua sexualidade e fica confusa.  Lamento que a série animada não deixe claro que Asa sabe da orientação sexual da amiga. Nós sabemos, há uma sequência que deixa isso bem evidente, mas Asa descobre no mangá em uma parte que não foi adaptada.  

A primeira pista clara, no entanto, é quando Makio, sempre perceptiva e sempre parecendo um tanto desinteressada da vida alheia, dá para Emi o DVD do filme Tomates Verdes Fritos (1991).  Quem conhece esse filme, uma das pérolas do cinema norte-americano dos anos 1990, entenderia de saída do que se tratava o drama da menina.  Mas há outras pistas, a recusa de Emmi de conversar sobre garotos com Asa, a irritação da menina quando lhe falam de casamento ou quando ela ouve duas colegas conversando que é inútil se esforçar tanto para ter uma carreira se elas vão casar e deixar tudo em segundo plano.  Enfim, o afastamento das duas meninas me lembrou um pouco minha relação com a minha primeira amiga.  

Houve um momento, quando ela já tinha entrado na adolescência e eu ainda não, porque ela era quase três anos mais velha.  Ela arrumou novas amigas, começou a namorar e nos afastamos.  Isso doeu muito mais em mim, acredito, porque eu tinha uma única amiga, mas terminamos por nos reconectar, redimensionamos a nossa amizade, a forma como nos relacionávamos e são mais de 50 anos de amizade, algo que valorizo muito.

Enfim, como a série parece ter sido planejada somente para os treze episódios, afinal, animes shoujo e josei raramente recebem outras temporadas, a gente não vai saber muito da vida dos colegas de turma de Asa, mas alguns deles recebem algum destaque. Um dos meninos, acredito que Yoshimura, é  mostrado saindo do clube de baseball.  Mesmo sendo muito bom no esporte, ele não suporta a tal construção da masculinidade pela violência, usando o bullying e a humilhação como forma de estabelecer as hierarquias.  Mas ele não sai fugido, ele sai de cabeça erguida deixando muito claro o motivo de estar largando o clube.  Isso, no entanto, não o impede de sofrer e ele não parece nada bem ao observar Asa cantando no último episódio.

Mas quem recebeu atenção maior foi Chiyo Morimoto e seu drama pessoal, que não é somente dela, mas das mulheres japonesas e quem mais se preocupa com equidade de gênero, se estendeu pelos últimos quatro episódios da série, começando no 8 de Março, Dia Internacional das Mulheres.  Morimoto, com quem Asa sipatiza e está na sua turma, é uma aluna brilhante e deseja ser médica como seus pais.  Ela faz cursinho, assim como Emiri, e está focada em atingir seu objetivo.  Asa admira a menina, porque ela mesma ainda não conseguiu se decidir sobre suas escolhas de futuro.

O episódio do 8 de Março termina com a menina descobrindo um escândalo: faculdades japonesas passaram vários anos diminuindo as notas das candidatas mulheres  no vestibular para terem no máximo 30% dos calouros.  Não sei se a faculdade que aparece no anime existe, mas não foi somente uma, foram várias, uma delas, a Universidade Médica de Tokyo, emitiu nota na época dizendo que a ação era "um mal necessário".  Já a escola de medicina da Universidade de Juntendo afirmou que era justo exigir mais das candidatas mulheres, porque elas eram menos capazes que os homens. Eu comentei no blog uma pesquisa que dizia que parte das médicas japonesas compreendia a medida, afinal, elas casam, engravidam e se dedicam menos à profissão que seus colegas homens. O machismo é estrutural, ele precisa da adesão das mulheres para que os homens continuem com seus privilégios.  O mangá começou a ser publicado em 2017.  O escândalo explodiu em 2018.

Morimoto tem um colapso nervoso e desaparece da escola e do cursinho.  Os colegas se preocupam, afinal, ela pode perder o ano.  E um dos colegas de turma, Yuuto Tougou, toma coragem e pede o contato de Morimoto para uma das colegas mais próximas a ela.  Ele faz contato, parece gostar da menina, e ela volta.  Quando ela retorna às aulas, tive medo de que ela se matasse por conta de uma conversa dela com Asa, mas as coisas, pelo menos na série, parecem ter se ajustado.  Já Tougou mostra para Morimoto um abaixo-assinado para que as universidades sejam responsabilizadas e diz que o problema não era somente das mulheres, mas de todos na sociedade que se preocupam com aquilo que é justo.  O menino, que tem um rosto comum, bem monótono, até brilhou muito nas suas poucas cenas.

Até para que vocês tenham noção do que aconteceu nesse caso, em 2019, as mulheres superaram as notas dos homens nos vestibulares de medicina do país.  No caso da Faculdade de Medicina de Tokyo,  20.4% das candidatas mulheres foram aprovadas se comparado com 2,9% no ano anterior.  Foram SETE ANOS de superioridade masculina.  Imagine quantas jovens tiveram seus sonhos frustrados por essa política misógina?  Enquanto isso, rapazes menos preparados ou capazes ficaram com suas vagas.  A depressão de Morimoto é plenamente justificável.  Em 2022, algumas candidatas conseguiram ganhar processos na Justiça japonesa e o direito de indenização.

Eu só consegui concluir até o momento dois dos animes da temporada, o outro foi Hana-Kimi (花ざかりの君たちへ), que está com texto em andamento faz mais de uma semana e terá uma segunda temporada, no entanto, até onde observei, Ikoku Nikki foi o melhor programa da temporada.  Denso, exigente, mas ao mesmo tempo sensível, com personagens cativantes e humanas.  Nada do que foi colocado em tela parecia fantasioso e poderia ocorrer no mundo real.  Com algumas adaptações, Ikoku Nikki poderia se passar no Brasil, sem problema.  Estou com o filme live action no meu HD, ele é de 2024.  Espero conseguir assistir e resenhar para o blog e vou ler o mangá, porque quero saber o que será de  Makio, Asa, Kasamichi, Emiri, Morimoto etc. no material que não foi coberto.  Sentirei muita falta dessa série, fazia tempo que uma animação japonesa não exigia tanto de mim e me oferecia tanta compensação pela minha atenção.

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