sábado, 26 de janeiro de 2019

Comentando Torawareta Otome (Virgin Slave, Barbarian King): Mangá e Livro


Dia 18 fiz a resenha de um mangá Harlequin bem levinho e curto que eu tinha lido, também, que se passava na Inglaterra, no Período Regencial  (1811-1820).  Comentei que tinha lido outro da mesma autora, Louisie Allen, e da desenhista Karen Miyamoto.  Dessa vez, a desenhista é Takako Hashimoto.  Como pontuei na outra resenha, normalmente, compro livros das séries históricas e, quando mangá, que tenham boas desenhistas.  Se a artista  for muito boa, abro uma exceção para romances contemporâneos ou os de sheik (*que me dão certo nervoso*), caso, por exemplo, da Yoko Iwasaki.  Tenho um mangá de sheik dela para resenhar... (*Shame on me*)


Capa do volume #1.
OK, um dos motivos para comprar Torawareta Otome (とらわれた乙女), que saiu em 2016 no Japão, é que ele reúne tudo isso e de quebra se passa em um período histórico que não é muito explorado, aliás, é bem pouco retratado, o final do Império Romano do Ocidente.  Não fosse isso, talvez não comprasse o material, porque o título original em inglês,que é de 2007, é muito ridículo, Virgin Slave, Barbarian King.  Cafona ao extremo.  A versão mangá foi lançada em dois volumes, mas pode ser comprada em um volume só na sua versão em inglês.


Capa do volume #2.
Torawareta Otome tem um plot super comum nesses livros Harlequin.  A mocinha é sequestrada por um sujeito de um outro povo/cultura/família/clã, o inimigo, enfim. Depois do choque inicial,  a mocinha percebe que ele não é tão mal assim, na verdade, é um sujeito muito honrado e se apaixona por ele. O cara, obviamente, também passa amar a mocinha, admirar seu caráter.  Pode até tê-la sequestrado por já estar apaixonado, mesmo sem saber.  Cabe, claro, à autora fornecer os elementos adicionais que tornem a história clichê interessante para a leitora.  Louisie Allen faz isso muito bem e é curioso ver como a artista japonesa toma caminhos próprios na sua adaptação com resultados  bem interessantes.




A mocinha é ameaçada por homens de
seu próprio povo e salva pelo inimigo.
O livro começa em 410 d.C. com o saque de Roma pelos Visigodos, um dos povos bárbaros germânicos que penetrou no território romano, depois de servir por muito tempo ao Império como federados, isto é, povo que servia militarmente ao romanos em troca de compensações. Os visigodos, liderados por Alarico, foram traídos, e atacam Roma.  Isso tendo a irmã do imperador, Gala Placidia, uma das mulheres mais importantes do século V, como refém.  O que nem o livro, nem o mangá fala, é  que os visigodos estavam buscando vingança, pois os romanos massacraram mulheres e crianças indefesas de seu povo e outros povos germânicos.  É uma omissão considerável.



Wulfric é poderoso, ameaçador e fascinante.
O Imperador, Honório, não está na capital, fazia tempo que os governantes preferiam outras cidades mais limpas e seguras, como Ravena.  A capital de fato, ainda que não de direito, do Império do Ocidente.  Já escrevi aos montes e ainda não falei da história do livro/quadrinho, das personagens em si, porque uma das características de Virgin Slave, Barbarian King é compor um sólido pano de fundo com o uso de personagens históricas, além com uma preocupação com detalhes que, normalmente, não recebem tanta atenção das autoras.



Julia tenta escapar da escravidão e
Wulfric reafirma  que não irá libertá-la.
Enfim, a protagonista do livro é uma jovem chamada Julia Livia, filha de um senador, noiva de outro senador, membro de uma das famílias mais poderosas de Roma.  O tempo todo a autora repete que ela era patrícia, mas isso não era tão importante assim no século V, enfim... Durante o saque da cidade, sua mãe ordena que ela saia com uma jovem escrava para buscar joias que ficaram escondidas em casa (*ridícula essa situação, no mangá o pai fica furioso quando descobre o que a esposa obrigou a filha a fazer, mas vamos lá*).  As duas moças são abordadas por  mercadores em fuga.  Eles querem violentar Julia e acabam matando sua escrava.  A moça é resgatada por um visigodo de nome Wulfric e seu lobo de estimação.


Visigodos assediam a "escrava" Julia, mas ela
é "mulher" de Wulfric e não deve ser tocada.
O guerreiro fica chocado com o fato de Julia mostrar-se insensível em relação à escrava morta, ela sequer sabe seu nome.  Já a moça lhe mostra gratidão, mas olha para o guerreiro como um inferior.  Ele decide levá-la como escrava e aplicar-lhe uma lição.  Ela tenta suborná-lo e até convencê-lo a levar pessoas que eram já escravas com ele, o que o deixa muito furioso.  Enfim, Lívia acaba tendo que seguir com os bárbaros e termina aprendendo que a convivência com eles não é tão ruim assim.  Fora  isso, um forte sentimento nasce entre os dois, ainda que ambos resistam.  Wulfric pode se tornar o próximo rei dos visigodos e precisa de uma esposa adequada, tudo o que Julia não é, ainda mais reduzida à condição de escrava.

Julia se espanta com a forma como Wulfric trata as
crianças e os que lhe são inferiores.
Virgin Slave, Barbarian King, tanto o livro, quanto o quadrinho, são bem legais de se ler, tanto que quis ler os dois.  A autora criou um elenco de personagens coadjuvantes que tem função na história, por assim dizer, e dão mais consistência à narrativa que não fica simplesmente centrada no amor de Wulfric e Julia. E é um livro grande, mas de 300 páginas que foi transformado em um mangá Harlequin de dois volumes, algo raro.


Una torce por Julia e a apoia e ensina tudo o que pode.
Julia é absolutamente incompetente nas prendas domésticas e resiste ao comando do seu senhor.  Acaba, no entanto, sendo acolhida por Una, uma parenta distante do guerreiro e membro do seu clã. A mocinha é tomada de simpatia por ela, já Una sabe exatamente o que está acontecendo entre Wulfric e Julia, mesmo que os dois não se deem conta ainda. Una se torna uma irmã mais velha de Julia, algo que ela nunca teve.  Já o irmão de Una, escudeiro de Wulfric, despreza a moça no início para, mais tarde, passar a vê-la como parte de sua família.  Uma coisa que Julia faz desde  o início é  aprender a língua dos visigodos.  Ela ouve com atenção e termina conseguindo entender cada vez mais.  Os visigodos conversam com Julia em latim e, sim, pela longa convivência, vários visigodos sabiam a língua dos romanos, mesmo que com limitações.


Julia fica chocada ao saber que a
princesa foi capturada pelos bárbaros.
Um recurso clichê utilizado na história é o de colocar a família de Julia como sendo fria e distante.  Assim, fica fácil para a jovem romana ver qualidades nos bárbaros, admirá-los na forma como se protegem e cuidam uns dos outros, inclusive dos escravos.   Curiosamente, no mangá, a autora dosa melhor as coisas.  O pai e a mãe de Julia não são tão ruins assim, até se preocupam com ela e  não somente com a honra da família.   Já no livro, tanto pai, quanto mãe, são desprezíveis. Assim, daquele tipo que compete entre os mais terríveis que eu já vi na ficção. O noivo de Julia, no original, praticamente não aparece, ele só é mencionado e comparado, sempre para seu demérito, com Wulfric, já no mangá, ele é mais desprezível que os pais da moça.


Julia se apaixona e começa a imaginar
e sonhar que está nos braços de Wulfric.
Diferente de uns dois livros Harlequin que li vários anos atrás, Wulfric é extremamente respeitoso com a mocinha, isto é, ele não é um estuprador, além de ser um bom cristão.  Há a relação de violência estabelecida desde o início, afinal, ela foi sequestrada e escravizada, mas ela poderia continuar eternamente virgem se quisesse.  Tal e qual em Entre Irmãs, o filme e o livro, com seus cangaceiros incapazes de atentar contra a virtude de uma donzela. Sim, isso é uma fantasia das mais alucinadas, tipo o inverso do estupro "consentido", mas parece que é recorrente tanto nos romances românticos populares, quanto em outras obras de ficção mais refinadas, por assim dizer.  O mocinho estuprador não é bem visto por algumas leitoras e isso é um alívio.

O pai, a mãe e o noivo de Julia.
Tanto no livro, quanto no mangá, há cenas de sonho, de desejo contido, até de embate (*a cena do banho de Wulfric*) entre os dois antes que eles consumem seu amor.  No livro, Julia provoca mais do que no mangá. No quadrinho, ela demora mais a se entregar.  Só que, curiosamente, há mais sexo no mangá, do que no livro.  Curiosamente, também, a cena de sexo mais quente do livro não está no mangá.  Os acontecimentos, aliás, divergem bastante em certos pontos.  Vamos a um exemplo.


Sunilda é representada como a adversária
 típica dos shoujo/josei mangá.
Wulfric precisa de uma esposa adequada para lutar pelo trono quando o rei Alarico morrer.  A moça em questão se chama Sunilda e é filha de um outro chefe de clã.  No livro, ela é  introduzida mais tardiamente.  É orgulhosa e Una e Berig não gostam dela, porque a moça os vê como inferiores.  Só fala com eles, e sempre de cima, para não desagradar Wulfric.  Una prefere que Wulfric se entenda com Julia, joga lenha na fogueira, mas todos estão cientes que ele precisa casar corretamente, ou não terá chance na corrida de sucessão e  ele é um rei em potencial.  Aqui, cabe esclarecer que a maioria dos povos bárbaros germânicos não tinha sucessão de pai para filho como regra.  


Jullia apaga depois de costurar
Wulfric e ele se deita ao lado dela.
O rei era o melhor entre pares, daí, o sucessor poderia ser eleito.  Quando a regra era indicar um parente, poderia ser filho, mais de um, aliás, ou irmão. Essa coisa de filho de rei, rei é, demora a se estabelecer entre os povos germânicos.  Voltando para Sunilda, no mangá ela participa muito mais do que no livro.  Takako Hashimoto a transforma na típica rival dos shoujo mangá, ela provoca, ela cutuca, e ela está presente em sequências nas quais ela não está no livro, como quando Wulfric duela e fica ferido.  No livro, Julia é obrigada a costurá-lo, no mangá, Sunilda quer ser a enfermeira.  Sunilda também tem a possibilidade de se reabilitar, tal e qual uma Sae de Peach Girl, ou a Maho de Karekano.  Poderia fazer uma lista.


A autora trabalha bem com as cores. 
Essa é a página inicial do volume #2, quando
Wulfric e Julia fazem amor pela primeira vez. 
Uma divergência grande em uma sequência existente tanto no livro quanto no mangá, é a da luta entre Sunilda e a mocinha.  Julia não quer brigar, mas é provocada e acaba se engalfinhando com Sunilda.  No livro, forma-se uma roda e ninguém intervém, nem quando Sunilda puxa uma faca para a mocinha, logo no início da sequência e, não, no final, quando está perdendo a luta, como no mangá.  Só quando as duas "se entendem" à moda visigoda (*e nem tenho informação de que se isso é historicamente preciso*), é que os homens, Wulfric e o pai de "noiva" do mocinho, aparecem para levar as duas para as tendas cheios de orgulho.  No livro é a última cena de Sunilda.


Julia conta para Una que não é mais virgem
 e sonha com os bebês que não pode ter.
No mangá, Hashimoto, coloca os homens apartando a briga, como se fosse uma vergonha o que estava acontecendo.  Wulfric cuida das feridas de Julia tanto no livro, quanto no mangá, mas no quadrinho, eles terminam fazendo sexo, enquanto no original, ele somente serve de enfermeiro mesmo, afinal, tinham chegado a um acordo de que Julia, que nunca tinha dito que o amava, iria ajudá-lo a ser rei e, não, servir de obstáculo.




Veja como o livro é colocado dentro dos moldes narrativos dos mangás. 
Observem a forma como a rival é representada.
Falando nisso, antes mesmo dessa briga, quando os visigodos planejam partir para a África, Wulfric deseja deixar Julia para trás.  Ela fica muito mais furiosa no livro,  o mangá ostra pouco da sua raiva, assim como omite uma cena na igreja.  Falando em religião, o livro não se aprofunda na questão, tanto romanos, quanto visigodos eram cristãos, mas os bárbaros eram arianos, isto é,em linhas gerais não acreditavam que Jesus Cristo fosse tão Deus quanto o Pai.  



Os homens apartam a briga no mangá,
 o livro, eles deixam rolar
.
No mangá, o Takako Hashimoto meio que passa batida na questão religiosa, talvez por completa ignorância, da mesma forma que parece representar romanos do século V como romanos do século I, mas nesse aspecto, o livro não me parece tão melhor assim.  Enfim, Wulfric decide deixar Julia sob a guarda de um magistrado para que ela seja remetida de volta para casa.  Ele lhe dá uma compensação monetária pela sua virgindade perdida, além de uma de suas joias de grande valor.  Ela decide que vai fugir e se encontrar com os visigodos novamente, já que frustrados na sua partida para a África, eles se dirigirão para o norte, para a Gália (*atual França*) e passarão por Roma.



Sunilda, agora redimida, avisa que Julia foi levada.
Tanto no livro, quanto no mangá, Julia engana o magistrado e sua esposa.  Ela descobre que a escrava que lhe deram como criada é visigoda e decide levar a mocinha com ela.  Há certa divergência de detalhes, mas é basicamente a mesma coisa no original e no mangá.  Julia usa o dinheiro para comprar a moça e cavalos, já que Ingulde entende bem deles, ambas se vestem com roupas masculinas e fogem.  o que não está no mangá é a explicação de Julia para a esposa do magistrado a respeito de sua virgindade.  Ela mente dizendo que continua donzela, porque Wulfric tinha interesse por meninos, no caso, o escudeiro.
O noivo de Julia, no mangá, é um desgraçado. 
Ele faz as vezes da mãe dela no livro.
Enfim, outra personagem que aparece mais no mangá do que no livro é  a princesa Gala Placidia.  No mangá, ela chega a conversar com Julia e sugerir que ela deveria fugir, já que assim desejava.  No livro, Julia só vê a princesa, que termina se casando com o sucessor de Alarico, Ataulfo, à distância.  É esse casamento que frustra as possibilidades de Wulfric, ou outro, no caso Willa, personagem que foi cortada do mangá, de tentarem assumir o trono.  Apesar de Julia e Gala Placidia não interagirem, a protagonista é "resgatada" pelos romanos, que pensam se tratar da princesa.  No mangá, ela é levada do acampamento visigodo em um ataque, no, livro, ela é capturada no meio de uma batalha.
No livro, Julia não interage com
Gala Placidia, nem Wulfric, aliás.
O fato é que ela é entregue aos seus pais e tratada como prisioneira por eles.  No livro, ela não nega o envolvimento com um visigodo, apanha da mãe, é trancada em seus aposentos.  Raramente vi uma família tão horrorosa. Serem desagradáveis já bastava, mas a autora do original, Louisie Allen, pesa a mão.  Já no mangá, essa parte final acontece de forma mais rápida.  De qualquer forma, Wulfric vem resgatá-la e precisa parecer um romano, por conta disso, ele corta os seus cabelos, que ele via como sagrados, e sua barba.  Há várias cenas anteriores no livro e no mangá, na qual a importância dos cabelos para ele é ressaltada, Julia tem dificuldades para entender, mas acaba amando os cabelos dele.



O choque de Julia ao vê-lo com cabelos curtos.
Ponto importante, no mangá, ele nunca teve barba. Normalmente, as japonesas não gostam de barba,  Procure um mocinho de josei, ou shoujo, barbado, ele não existe, ou é uma exceção.  Engraçado é que, no mangá, o pai de Lívia tem barba.  E, bem, ele é um sujeito meio vilanesco.  Por isso mesmo, não há a cena de Lívia maravilhada em ver o rosto de Wulfric pela primeira vez que e bem legalzinha.  Também, não há a cena de sexo nesse reencontro no mangá, afinal, eles não estavam na abstinência que estavam no livro.



A autora do mangá faz questão de dar um final feliz
para cada uma das personagens secundárias.
Curiosamente, Takako Hashimoto faz questão de contar o final de todas as personagens.  No livro, isso não ocorre.  O mangá fala que Una, que estava grávida, teve uma filha enquanto Julia estava em Roma.  É contado do casamento de Gala Placidia e Ataulfo.  Sunilda recebe um final para ela, aliás, ela se  torna ex-vilã quando dáo alarme do sequestro de Julia.  Isso, aliás, também é coisa do mangá. No livro, Wulfric vê, mas não tem como fazer nada.  Já tinha visto mangás Harlequin mudarem algo do livro original, mas nunca nesse nível, ou com tanta preocupação nos detalhes.


Julia, agora, pode ter os filhos que tanto deseja.
Concluindo, o Wulfric do livro é bem semelhante ao do mangá.  Já a Julia do livro é mais forte e temperamental, também.  No mangá, ela tem uns rasgos de inteligência que não estão no livro original, Julia é sagaz e ponderada, mas nada espetacular, agora, no quadrinho ela é mais sensível, vulnerável que no livro.  Ela desmaia, coisa que não ocorre no livro.  Enfim, se querem um veredito, ambos os materiais são interessantes.  Clichê em certos aspectos, mas não ofendem a inteligência de ninguém.  São divertidos, românticos, tem personagens interessantes e um bom pano de fundo histórico, ainda que longe de ser perfeito.  E as cenas de sexo são boas, isso também conta bastante.

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