sábado, 10 de junho de 2017

O curioso caso de uma mulher que, no século XIII, processou seu médico por estupro e venceu


Faz tempo que não falo de Idade Média.  Talvez, porque esteja me considerando uma medievalista precocemente aposentada, sei lá.  Só que tropecei em um artigo muito interessante que gostaria de recomendar para vocês e comentar algumas coisas.  O nome do artigo é “Mulheres têm sido drogadas e violentadas por homens há séculos.  Esta mulher medieval reagiu – e venceu.” (Women have been drugged and raped by men for centuries. This medieval woman fought back — and won.).  O texto, cujo objetivo é traçar um paralelo entre o caso de Bill Cosby acusado de 57 estupros, me interessou por outros motivos.   

O texto fala de um caso recém descoberto, foi noticiado em 2016, de uma mulher, Isabella Plomet, que na Inglaterra, em 1292, levou ao tribunal o médico local, Ralph de Worgan, que abusou de sua posição para drogá-la e estuprá-la.  Segundo o texto, que tomou por base um livro de História Social da Medicina publicado ano passado, o homem, além de médico, era dono de terras, já a mulher, parece ser de condição bem inferior, além de estar sozinha.  Não há menção a pai, irmão, marido, ou nenhum homem que pudesse ser por ela responsável.  O homem foi condenado a indenizar a vítima e, enquanto não fosse capaz de juntar os recursos necessários, ficaria preso.  Caso único?  Talvez, sim, talvez, não.  Quanta coisa ainda há por descobrir?  Quantas investigações estão por ser feitas?  


Como aprendi com minha orientadora de doutorado, Tânia Navarro-Swain, fazer a história do possível é estar aberta a ler as fontes sem pressupostos que nos toldem a análise.  Há casos em que a fonte diz uma coisa, e o analista, ancorado em teorias, (pre) conceitos, lê outra coisa, ou, por incapacidade, preguiça, inexperiência, ou mesmo má fé, prefere deixar de lado a nova (*ou nem tanto*) evidência*).  Agora, é fato que não se deve generalizar um caso para toda a Idade Média, ou toda a Europa da época.  Nada de usar frases como “as coisas eram assim”, isso não vale.

De qualquer forma, se é difícil, hoje, para uma mulher levar um caso desses adiante, tente imaginar o que seria em épocas passadas.  Agora, o que o texto argumenta e, por isso, estou comentando, é de como as pessoas generalizam a Idade Média (*já tinha feito um post sobre isso antes*) e a este longo período atribuem tudo o que há de negativo, ou de mais obtuso em termos de usos e costumes.  O artigo questiona, por exemplo, a idéia de que foram as feministas que inventaram a história de que não é sexo, mas estupro, quando uma mulher está bêbada, ou drogada, e, portanto, incapaz de dizer “não”.  


O artigo também joga por terra a falácia que é vendida por alguns filmes e seriados de sucesso, como Game of Thrones (*que, aliás, não se passa na Idade Média, mas em outro mundo medieval-like*), de que o período era marcado por uma violência irrestrita contra as mulheres e que isso era normal, aceitável.  Sabe quando certos meninos vêm com esse papo dando quase a entender que a Idade Média era um paraíso para os homens?  Ah, essas feministas é que querem tirar nossa diversão.  O texto cita frases e textos medievais ingleses que fazem referência clara a consciência de que uma mulher bêbada é incapaz de consentir: “Uma buceta bêbada não tem fechadura.” (“A drunken cunt has no door bar.”) e, direto de Chaucer, “Em uma mulher cheia de vinho não há resistência/E os devassos sabem disso por experiência.” (In wommen vinolent is no defence—/ This knowen lecchours by experience).

Nunca li um texto específico sobre estupro na Idade Média, independente de qual lugar, ou época, não era meu objeto de estudo.  Agora, nas minhas leituras, passei por referências à estupros, “sedução” (*não raro estupros, também*), e outros casos envolvendo, ou não consentimento, que resultaram em tragédia ou punição, que poderia ser casamento, separação, prisão, exílio, vida monástica, morte etc.  A meu ver, a coisa dependia muito mais de quem cometia a violência e quem sofria a violência.  Os penitenciais – textos eclesiásticos – que se tornam muito comuns e populares durante o período, são pródigos em diferenciar as penas a partir de quem as pratica, homem ou mulher, solteiro ou casado, jovem ou não tanto, clérigo ou laico, enfim.  E, claro, as coisas mudam e, em se tratando das mulheres, nem sempre para melhor.  Basta pegar o livro   História do Estupro: Violência Sexual nos Séculos XVI-XX, de Georges Vigarello, e ver que as leis francesas, provavelmente vindas do século XIX, teria que retomar o livro, consideravam que não era estupro se o agressor fosse um só.


Terminando e recapitulando, nem as feministas inventaram que é estupro quando uma mulher está intoxicada demais para consentir, nem a Idade Média era o paraíso dos estupradores, um vale tudo no qual as mulheres sempre levavam a pior.  E não importa o que seu seriado medievalístico, filme, ou livro de ficção da moda está lhe dizendo.  Melhor revisar seus conceitos.

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